Artigo da CPB, publicado originalmente no Facebook.

Segundo dados do Banco Mundial, como mostra a imagem acima, em 2017, mesmo após uma grave crise econômica, o encolhido PIB brasileiro ainda representava cerca de 2,39% do PIB mundial, ficando à frente, no mesmo indicador, de outros países de grande extensão territorial como Canadá, Suécia, Rússia e Austrália. O que isso pode representar e o que podemos tirar dessas informações para estimular o debate público?
Em primeiro lugar, é importante destacar que o “Produto Interno Bruto” é um indicador que representa apenas a soma, em termos monetários, ou seja, em dinheiro, de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região ou país, não versando sobre qualidade de vida, renda média, custo médio de vida, taxas de analfabetismo, o retorno desse dinheiro para a sociedade e outros índices que estão diretamente relacionados ao Índice de Desenvolvimento Humano. Portanto, lutar apenas pelo crescimento do PIB, como se esse fosse um fim em si mesmo, está longe de ser uma luta pelo real desenvolvimento da sociedade brasileira.
Partindo exatamente desse ponto, podemos retirar nossa primeira indagação:
Se em termos absolutos nosso PIB é maior que o PIB canadense ou o PIB russo (o que para a maior parte dos brasileiros pode parecer contra-intuitivo à primeira vista) por que na realidade da vida cotidiana temos a sensação, e comprovação prática, de que a maioria do nosso povo vive pior que russos e canadenses?
É evidente que devemos considerar que as diferenças históricas, culturais, geográficas e políticas referentes ao contexto de cada um desses países impacta na forma como suas economias e sociedades se organizam. Entretanto, se torna difícil de negar que a resposta para essa questão, que há muito é debatida na literatura brasileira, também passa, por dois fatores importantíssimos:
1. PARA ONDE REALMENTE VAI BOA PARTE DESSE DINHEIRO?
Uma das características da “economia globalizada” e particularmente do modelo econômico brasileiro em voga desde a década de 90, é que este sustenta seu crescimento interno, inclusive em experiências ditas “neodesenvolvimentistas modernas”, em fluxos de investimento de capital internacional, os quais retornam em grande parte, pela política de isenções fiscais e outras mordomias dadas para o setor, para seu país de origem sem reverter real ganho para a sociedade brasileira.
Ao contrário do que nos é vendido como “científico” e “eficiente”, o investimento estrangeiro especulativo, nos moldes que estamos acostumados, age apenas exaurindo nossa força de trabalho, explorando nossa matéria-prima, e nos mantendo em posição estratégica de dependência, o que de uma perspectiva geopolítica, onde economia também é guerra, é algo tremendamente favorável a atual ordem mundial hegemônica e desfavorável ao nosso crescimento social, econômico e à nossa soberania nacional.
2. COMO DISTRIBUÍMOS A PARTE DESSE MONTANTE QUE EFETIVAMENTE FICA EM TERRITÓRIO NACIONAL?
A maior parte desse montante que efetivamente fica em território nacional está restrita a um pequeno grupo de pessoas. No Brasil, é sabido que o 1% mais rico da população detém 30% de toda a riqueza que é produzida no país.
Além de toda essa concentração de renda, de terra, de meios de produção em geral e meios de difusão ideológica como rádio e TV, e a consequente concentração de poder na mão de uma oligarquia apátrida, temos um sistema tributário que propositalmente onera os pobres e a classe média, sem taxar proporcionalmente os mais ricos, de forma a perpetuar essa condição de má distribuição de renda e poder. Pior que isso, os mais onerados pelo sistema tributário brasileiro recebem os piores serviços enquanto pagam mais impostos sobre rendimentos e outros embutidos em mercadorias de consumo diário.
UMA VEZ DESTRINCHADO ESSE PANORAMA…
Podemos inferir que medidas propostas por uma série de demagogos, como, por exemplo a privatização de nosso sistema público, visando atingir um nível de produtividade exorbitantemente “estúpido” e mero crescimento econômico “ilusório” que não será revertido em benefícios para a maior parte dos brasileiros, não servem ao nosso povo, pelo contrário, só servem para gerar mais lucros para o baronato, tanto para o capital internacional, quanto para nossa elite apátrida, que monopoliza uma série de serviços essenciais para a vida e dignidade de nosso povo.
Ao mesmo tempo, fica fácil de constatar que aqueles que fazem a opção geopolítica de submissão do desenvolvimento brasileiro ao patrocínio e dependência do capital internacional, fazem uma opção pela manutenção do status-quo da estrutura de Estado brasileiro neoliberal, não importando a forma ou a estética pela qual estes manifestam seus discursos demagógicos.
Portanto, nosso maior problema vem de como aliar esse crescimento econômico real, ou seja, não-dependente e visando autonomia para nosso povo, simultaneamente à distribuição de renda e consequente distribuição de poder, tudo isso dando base a uma melhora na prestação dos serviços públicos, gerando assim, um avanço das condições sociais.
