[ARTIGO] Cacique Juruna, Nova República e a luta histórica dos povos indígenas do Brasil.

“Eu me considero um porta-voz da nação,
Eu me considero um símbolo do Brasil.
Não sou como Delfim,
Que é o símbolo do FMI.
Delfim é o símbolo americano
O símbolo estrangeiro.”
*

O Deputado Mário Juruna foi o primeiro e até hoje o único indígena eleito ao cargo de Deputado Federal, pelo Rio de Janeiro.**

Cacique Mário Juruna, batizado Mario Dzuruna Butsé, nascido no ano de 1943 em território indígena xavante próximo a Barra dos Garças, no Mato Grosso. Aos 17 anos, tornou-se Cacique e aos 28 já estava andando o Brasil denunciando os assassinatos, emboscadas e invasões de território que sua aldeia vinha sofrendo a mando de grandes fazendeiros. Foi defensor severo da demarcação de terras indígenas, fazendo diversas críticas à ineficiência da FUNAI na promoção de políticas aos povos originários.

Em 1979, foi proibido pela ditadura de viajar para Rotterdam, na Holanda, para presidir o 4º Tribunal Bertrand Russell dos Direitos Humanos e mesmo assim viajou, regressando da Europa sob duras críticas da FUNAI, que encaminhou um documento à aldeia de Juruna, exigindo sua retirada.

No ano de 1982, eleito deputado federal pelo PDT, foi aliado de Brizola e amigo de Darcy Ribeiro. No período, a imprensa brasileira e grande parte dos parlamentares buscava de todo modo formar uma opinião pública negativa sobre o deputado, através de caricaturas estereotipadas de Juruna, difamando constantemente sua luta e a luta de todo os povos indígenas.

Em seu último ano de mandato, foi responsável pela criação da Comissão Permanente do Índio, uma das poucas comissões da Câmara Federal, o que significou, naquele período, a elevação da luta indígena ao reconhecimento formal, onde a intensa mobilização indígena pela aprovação da Emenda Popular da União das Nações Indígenas na Assembleia Nacional Constituinte foi fundamental para a inclusão dos artigos 231 e 232 na Constituição, no qual define que o Estado é responsável pela demarcação das terras indígenas.

Mesmo após todo escárnio e desprezo relegados à figura do Cacique Juruna por parte da grande imprensa, é impossível apagar sua trajetória de luta por uma sociedade brasileira que repare os danos da colonização às nações indígenas e que preze pelas justas reivindicações dos povos originários no presente. Aqueles que dele zombavam, sem ao menos dar-lhe o direito de ser ouvido, são os que mais deveriam ter aprendido com sua história.

*Citação retirada do discurso do Deputado Juruna na Câmara dos Deputados, em novembro de 1984.

Esse discurso histórico se encontra na íntegra no link.

**Joênia Wapichana, eleita deputada federal em 2018 pela Rede representando o Estado de Roraima, é a segunda pessoa indígena a alcançar o cargo de deputado federal, a primeira mulher indígena deputada federal e a primeira mulher indígena a exercer a função de advogada.

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