[MONIZ BANDEIRA] Nazi-fascismo: O fenômeno da “mutazione dello stato”, 2016.

Trecho retirado do livro “A desordem mundial”, publicado em 2016, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais, e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira:


CAPÍTULO 1

  • NAZIFASCISMO • O FENÔMENO DA MUTAZIONE DELLO STATO • WALL STREET PLOT CONTRA O GOVERNO DE FRANKLIN D. ROOSEVELT EM 1933 • OS BIG BUSINESSMEN AMERICANOS, A FAMÍLIA DE PRESCOTT BUSH E A REMESSA DE RECURSOS PARA HITLER • A DENÚNCIA DO GENERAL SMEDLEY D. BUTLER • O COMPLÔ FASCISTA ABORTADO • OS DOCUMENTOS DO McCORMACK-DICKSTEIN COMMITTEE:

O nazifascismo não constituiu um fenômeno particular da Itália e da Alemanha, quando ameaçou e se estendeu, sob diferentes modalidades, a outros países da Europa, como Portugal e Espanha, entre os anos 1920 e a deflagração da Segunda Guerra Mundial (1939–1945).1 O que ocorreu nesses países foi uma espécie do que Niccolò Machiavelli (1469–1527) referiu como mutazione dello stato (mutatio rerum, commutatio rei publicae), quando a res publica, um Estado, sob o nome da liberdade, transmuda-se em Estado tirânico, com violência ou não.2 O fenômeno político denominado nazifascismo no século XX podia e pode ocorrer, nos Estados modernos, onde e quando a oligarquia e o capital financeiro não mais conseguem manter o equilíbrio da sociedade pelos meios normais de repressão, revestidos das formas clássicas da legalidade democrática, e assumir características e cores diferentes, conforme as condições específicas de tempo e de lugar. Porém sua essência permanece como um tipo peculiar de regime, que se ergue por cima da sociedade, alicerçado em sistema de atos de força, com a atrofia das liberdades civis e a institucionalização da contrarrevolução, tanto no plano doméstico quanto no plano internacional, mediante perpétua guerra, visando a implantar e/ou a manter uma ordem mundial subordinada aos seus princípios e interesses nacionais e favorável à sua segurança assim como à prosperidade nacional.

Durante a Grande Depressão, que se seguiu ao colapso da bolsa de Wall Street, em outubro de 1929, a Black Friday, alguns grupos financeiros e industriais — cerca de 24 das mais ricas e poderosas famílias dos Estados Unidos, entre as quais Morgan, Robert Sterling Clark, DuPont, Rockefeller, Mellon, J. Howard Pew e Joseph Newton Pew, da companhia Sun Oil, Remington, Anaconda, Bethlehem, Goodyear, Bird’s Eye, Maxwell House, Heinz Schol e Prescott Bush — conspiraram. Planejaram financiar e armar veteranos do Exército, sob o manto da American Legion, com a missão de marcharem sobre a Casa Branca, prender o presidente Franklin D. Roosevelt (1933–1945) e acabar com as políticas do New Deal.3 O objetivo consistia na implantação de uma ditadura fascista, inspirada no modelo da Itália e no que Hitler começava a construir na Alemanha.4

O Wall Street Plot, porém, abortou. O major-general (r) Smedley Darlington Butler (1881–1940), que os big businessmen tentaram cooptar, denunciou a conspiração, ao repórter Paul French, do Philadelphia Record e do New York Evening Post. E, em 20 de março de 1934, a House of Representatives adotou a Resolution 198, 73d Cong., proposta pelos deputados do Partido Democrata, John W. McCormack (Massachusetts) e Samuel Dickstein (Nova York), criando o Special Committee on Un-American Activities, Investigation of Nazi Propaganda Activities and Investigation of Certain Other Propaganda Activities United States Congress (HUAC).

Ao testemunhar perante o McCormack-Dickstein Committee, o major-general Smedley D. Butler, duas vezes condecorado com Medals of Honor por distintos atos de excepcional heroísmo, contou que o golpe fascista teria o suporte de um exército privado de 500 mil ex-soldados e outras pessoas, e fora delineado pelos empresários Gerard C. MacGuire (1897–1935), advogado da companhia de corretagem Grayson M-P. Murphy & Co., e William Doyle, antigo comandante da American Legion, uma das mais poderosas organizações fascistas dos Estados Unidos.5 Ofereceram-lhe, de início, US$ 100.000 para comandar o levante contra o presidente Roosevelt.6 Ele recusou. O tenente-coronel James E. Van Zandt, comandante da organização assistencial Veteran of Foreign Wars (VFW), confirmou que se recusou a participar do complô, assim como o capitão Samuel Glazier, do CCC Camp em Elkridge, Maryland. Este último contou ao McCormack-Dickstein Committee, sob juramento, que Jackson Martindell, conselheiro financeiro de Wall Street e ligado aos bancos de investimentos, convidou-o para treinar 500.000 soldados civis.7

Os documentos do inquérito realizado pelo McCormack-Dickstein Committee foram desclassificados,8 mas com vários trechos extensivamente apagados e o testemunho do general (r) Smedley D. Butler, em virtude de implicar no complô vários diretores de corporações financeiras e executivos de importantes grupos industriais, tais como, inter alia, Guaranty Trust, Grayson Murphy, JPMorgan, Irénée du Pont, da DuPont Company, e Lammot du Pont, proprietário da Remington Arms Co., fabricante de armamentos, que estava a investir pesadamente na Itália fascista e havia criado a Black Legion, espécie de Klux Klux Klan, e a American Liberty League, organizada em 1934, em oposição ao governo do presidente Franklin D. Roosevelt (1933–1945) e à política do New Deal.9

Houve um cover up a fim de resguardar a imagem dos Estados Unidos como democracia, o mito da “excepcionalidade”, o país onde nunca houve golpe de Estado.10 Ninguém foi processado. O McCormack-Dickstein Committee excluiu do relatório muitos dos nomes mais embaraçosos, apontados por Gerald MacGuire e confirmados pelo general Smedley D. Butler, entre os quais, posteriormente revelados, Alfred E. Smith (1873–1944), candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos em 1928; o general Hugh S. Johnson (1882–1942), chefe do National Recovery Administration; e o general Douglas MacArthur (1880–1964), chefe do Estado-Maior do Exército e provável comandante do assalto à Casa Branca,11 bem como vários outros militares, que estavam inteirados do complô.12 O presidente Roosevelt também não ordenou a prisão de nenhum businessman, como os citados Irénée du Pont, Lammot du Pont II, ou William Knudsen, presidente da General Motors, com receio de provocar novo crash em Wall Street e o engravecimento da depressão em que os Estados Unidos se atascavam desde 1929.13

A imprensa corporativa dos Estados Unidos igualmente não deu maior importância ao episódio. O jornalista George Seldes assinalou que, “of all the hypocrisies of American journalism the greatest is the claim of a free press”.14 Era um sistema de faturar lucros, que atacava os trabalhadores em nome da Free Enterprise. O historiador americano Henry B. Adams já havia observado, em meio à depressão causada pelo crash financeiro de 1893, nos Estados Unidos, que

The press is the hired agent of a monied system, and set up for no other purpose than to tell lies where its interests are involved. One can trust nobody and nothing. As far as my observation goes, society is today more rotten than at any time within my personal knowledge. The whole thing is one vast structure of debt and fraud.15

Os documentos do McCormack-Dickstein Committee, depositados no National Archive dos Estados Unidos, permaneceram secretos e somente foram totalmente desclassificados em 2001, quando dois velhos judeus-alemães, Kurt Julius Goldstein (1914–2007), então com 87 anos, e Peter Gingold (1916–2006), sobreviventes do Holocausto, iniciaram, nos Estados Unidos, um processo contra a família Bush, demandando US$ 40 bilhões pelo trabalho escravo que tiveram de realizar para as empresas do grupo Thyssen no campo de concentração de Auschwitz.16 A juíza Rosemary Mayers Collyer rejeitou o processo, com a especiosa alegação de que não podia dar-lhe continuidade, sob o princípio da “state sovereignty”, i.e., porque George W. Bush, neto de Prescott Bush, o sócio de Fritz Thyssen, era presidente dos Estados Unidos e, como tal, tinha imunidade. Depois, ela ganhou seu prêmio. O presidente George W. Bush nomeou-a juíza da Corte do Distrito de Columbia e da United States Foreign Intelligence Surveillance Court.

Não constituía novidade que a família Bush estivera envolvida com a lavagem e a remessa de dinheiro para os nazistas na Alemanha. Em 31 de julho de 1941, o New York Herald-Tribune17 havia noticiado que a Union Banking Corporation (UBC), da qual Prescott Bush era diretor, nos Estados Unidos, enviara, em 1933, US$ 3 milhões para o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP), chefiado por Adolf Hitler.18 Sidney Warburg, em Hitler’s Secret Backers, e Antony C. Sutton, em Wall Street and the Rise of Hitler, calcularam que a UBC, até 1933, remeteu para “nazi bigwigs”, na Alemanha, o total de US$ 32.000.000.19 E o diário britânico The Guardian, com a desclassificação dos documentos pelo National Archive, confirmou o envolvimento financeiro de Prescott Bush com os arquitetos do nazismo, na condição de diretor e acionista da UBC, que vinha a ser representante dos interesses de Fritz Thyssen em Nova York.20

De fato, Prescott Bush (1895–1972), pai do presidente Herbert Walker Bush (1989–1993) e avô do presidente George W. Bush, fora diretor da Union Banking Corp. (UBC), filial do Bank voor Handel en Scheepvaardt N.V., vinculada ao conglomerado United Steel Works (Vereinigte Stahlwerke [United Steel Works Corporation ou German Steel Trust]), e tanto o banco quanto a indústria de aço integravam o conglomerado de Fritz Thyssen (1873–1951) e de seu irmão, Heinrich Thyssen-Bornemisza (1875–1947), de acordo com o informe do Office of Alien Property Custodian, datado de 5 de outubro de 1942.21 Ademais, Prescott Bush participava da Consolidated Silesian Steel Company (CSSC), que explorava as reservas minerais da Silésia, na fronteira da Alemanha com a Polônia, e se valeu do trabalho escravo, em campos de concentração, inclusive Auschwitz. Entretanto, os documentos abertos ao público não deixam claro se Prescott Bush e a UBC ainda estavam ligados à CSSC em 1942, quando os acervos de Thyssen, nos Estados Unidos, foram capturados, após a declaração de guerra entre os dois países, em 11 de dezembro de 1941.22

Segundo Webster Griffin Tarpley e Anton Chaitkin, autores da biografia do ex-presidente George H. W. Bush, seu pai, Prescott Bush, como diretor das empresas da família, desempenhou papel central no financiamento e armamento de Hitler.23 Ele recebeu US$ 1,5 milhão por sua participação na UBC.24 Esse capital permitiu que seu filho, George H. W. Bush, montasse as firmas Bush-Overbey Oil Development Co. e a Zapata Petroleum, depois denominada Harbinger Group Inc., congregando várias companhias para exploração de petróleo no Golfo do México e offshore na ilha de Cuba. De acordo com um memorandum interno da CIA, datado de 29 de novembro de 1975, George H. W. Bush fundou a Zapata Petroleum com a colaboração de Thomas J. Devine, que abandonou seu cargo na alta direção da CIA para dedicar-se aos negócios privados, pois como oil wild-catting possuía vasto conhecimento da localização das grandes reservas de petróleo, em várias regiões.25

A simpatia pelo nazifascismo não esmoreceu, após o fracasso do complô contra a administração do presidente Franklin D. Roosevelt. Em Wall Street, sobretudo desde o início da década de 1930, o comunismo era temido, mas o fascismo, admirado como avant-garde.26 Por longo tempo, diversos banqueiros, tanto católicos como evangélicos, e até mesmo judeus, negociaram com o regime nazista e lhe concederam financiamento de cerca de US$ 7 bilhões, naquela década.27 Os banqueiros judeus justificaram, dizendo que o antissemitismo lhes parecia certo, sob o regime nazista, porque era contra os pobres, refugiados e trabalhadores.28 E, em 1936, dos 919 membros da diretoria do Stock Exchange 148 eram judeus (de acordo com o inventário de 1936 publicado pela revista Fortune).29 Com razão, o professor Gaetano Salvermini (1873–1957), da Universidade de Harvard, declarou ao repórter Joseph Philip crer que “quase 100% do American Big Business” simpatizavam com a filosofia por trás do totalitarismo de Hitler e Mussolini por seus métodos de coerção do trabalho.30

Os banqueiros Winthrop Aldrich, presidente do Chase National Bank, Nova York, e Henry Mann, do National City Bank, estiveram na Alemanha, onde se entrevistaram com Hitler, em agosto e setembro de 1933, e manifestaram ao embaixador dos Estados Unidos em Berlim (1933–1938), William E. Dodd (1869–1940), disposição de “work with him”,31 a despeito de suas ideias e seu antissemitismo. Segundo o historiador Arthur M. Schlesinger Jr., ex-assessor do presidente John F. Kennedy (1961–1963), o fascismo nos Estados Unidos não foi meramente uma enfermidade da classe média baixa.32 Ainda permaneceu enevoado e confuso, o sonho acalentado pelos big businessmen de Wall Street.33 Em 1934, William Randolph Hearst (1863–1951),34 um tycon da mídia, proprietário do San Francisco Examiner, The New York Journal e muitos outros diários (cerca de 28), revistas e cadeia de rádios, visitou Berlim, entrevistou-se com Hitler e, ao voltar aos Estados Unidos, escreveu que ele, o Führer, era “certainly an extraordinary man” e empenhou-se em fazer propaganda do regime nazista, como “great policy, the great achievement”, por haver salvado a Alemanha do comunismo.35

O embaixador dos Estados Unidos em Berlim, William E. Dodd, escreveu em seu diário, com data de 28 de novembro de 1935, que o empresário Thomas J. Watson (1874–1956), presidente e CEO da International Business Machines (IBM), cujo salário era de US$ 1.000 por dia, visitou-o e disse-lhe que “if the big business insists on defeating the democracy in the United States there will be a revolution which may lose business men all they have”.36 Entretanto, também a IBM, conhecida na Alemanha como Deutsche Hollerith Maschinen Gesellschaft, ou Dehomag, cooperava com o regime de Hitler. Ademais de outros equipamentos, forneceu-lhe, através de suas subsidiárias, máquinas que possibilitaram a matança de milhões de judeus, em Treblinka e em vários outros campos de concentração.37 Thomas J. Watson, o empresário que visitara o embaixador William E. Dodd, recebeu a Großkreuz des Deutschen Adlerordens [Grande Cruz da Ordem da Águia Alemã], porém a devolveu em 1940.38

Em 30 de dezembro de 1935, o major Truman Smith (1913–2007), attaché militar dos Estados Unidos em Berlim (1935–1939), informou ao embaixador William E. Dodd que a Alemanha era “one military camp”.39 Em fins de 1937, a Luftwaffe, a força aérea, possuía de 175 a 225 esquadrões de aparelhos de guerra, e Hitler, além de manter simultaneamente imenso exército, construía enorme frota de submarinos, prosseguia com o programa de desenvolvimento de foguetes e instalava numerosas indústrias têxteis e de gasolina sintética, de modo a lançar toda a sorte de projéteis.40 Em 1935, Douglas Miller, attaché commercial em exercício, previra também que “in two years Germany will be manufacturing oil and gas enough out of soft coal for a long war, the Standard Oil Company of New York furnishing millions of dollars to help”.41 Com efeito, desde 1933, a Standard Oil, da família Rockefeller, em colaboração com a I. G. Farben, esteve a gerar petróleo e produzir gasolina e borracha sintética para a Alemanha nazista, a partir de carvão betuminoso, hulha, mediante o processo de hidrogenação, o que possibilitou a Adolf Hitler deflagrar a Segunda Guerra Mundial, com a invasão da Polônia, em 1939.42 O quartel-geral da Standard Oil, na Suíça, funcionava independentemente por se tratar de um país neutro, e em 1942 a empresa pediu autorização para continuar a vender petróleo à Alemanha, desta vez, aquele que produzia nos campos que explorava na Romênia.43 E, no mesmo ano, sua subsidiária, a West India Oil Company, formada para refinar petróleo em Cuba e no Caribe, embarcou óleo para a Alemanha através da Cia. Argentina Comercial de Pesquería, de Buenos Aires.

Em 29 de agosto de 1936, o embaixador William E. Dodd, ao comentar que Hitler era “absolute master” de 60 milhões de pessoas na Alemanha e Benito Mussolini, “master” de 42 milhões na Itália, a levarem outros países no caminho da ditadura, anotou que nos Estados Unidos os “capitalists are pressing in the same Fascist direction, supported by capitalists in England”.44

Em carta ao presidente Roosevelt, o embaixador Dodd relatou:

At the present moment more than a hundred American corporations have subsidiaries here or cooperative understandings. The DuPonts have three allies in Germany that are aiding in the armament business. Their chief ally is the I. G. Farben Company, a part of the Government which gives 200,000 marks a year to one propaganda organization operating on American opinion. Standard Oil Company (New Jersey sub-company) sent US$ 2,000,000 here in December 1933 and has made US$ 500,000 a year helping Germans make Ersatz gas for war purposes; but Standard Oil cannot take any of its earnings out of the country except in goods. They do little of this, report their earnings at home, but do not explain the facts. The International Harvester Company president told me their business here, in Germany, rose 33% a year (arms manufacture, I believe), but they could take nothing out. Even our airplanes people have secret arrangement with Krupps. General Motor Company and Ford do enormous businesses [sic] here through their subsidiaries and take no profits out. I mention these facts because they complicate things and add to war dangers.45

Posteriormente, declarou à imprensa:

A clique of U.S. industrialists is hell-bent to bring a fascist state to supplant our democratic government and is working closely with the fascist regime in Germany and Italy. I have had plenty of opportunity in my post in Berlin to witness how close some of our American ruling families are to the Nazi regime. Certain American industrialists had a great deal to do with bringing fascist regimes into being in both Germany and Italy. They extended aid to help Fascism occupy the seat of power, and they are helping to keep it there.46

Grandes corporações dos Estados Unidos não somente se opuseram ao governo do presidente Roosevelt como ainda colaboraram, decisivamente, para a ascensão e consolidação da tirania de Adolf Hitler, da mesma forma que para o advento da tirania de Benito Mussolini. Diversas casas bancárias de Wall Street, entre as quais o Bank of America (Forbes), Dillon, Read & Co. Harris Bank, Morgan Bank, Guaranty Trust, e Chase Manhattan Bank, investiram na Alemanha e lucraram com o regime nazista, assim como as corporações Standard Oil (New Jersey), Du Pont, Dow Chemical, General Motors (GM), General Electric (A.E.G.), Vacuum Oil Company e Ford Motors Company. Henry Ford (1863–1947), autor do livro The International Jew: The World’s Problem (1920), começara, desde os anos 1920, a financiar o partido nazista, o NSDAP (National-Sozialist Deutschland Arbeit Partei), bem como enviar dinheiro pessoal — cerca de 10.000 ou 20.000 marcos (Reichmarks) — para Adolf Hitler, e o fez como presente de aniversário, todos os anos, no dia 20 de abril, até 1944, através de bancos da Suíça ou da Suécia.47 Os dois identificavam-se no ódio aos judeus. E, ao completar 75 anos, em 30 de julho de 1938, Henry Ford foi condecorado, em Cleveland, com a Großkreuz des Deutschen Adlerordens pelo embaixador da Alemanha nos Estados Unidos, Karl Kapp, assim como o haviam sido Benito Mussolini e Francisco Franco, ditador da Espanha.

Os investimentos das corporações dos Estados Unidos na Alemanha, durante o regime nazista, avultavam cerca de US$ 475 milhões, por ocasião do bombardeio de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941.48 O presidente Roosevelt, seis dias depois, reativou o Trading With the Enemies Act (TWEA), de 6 de outubro de 1917, e Washington, em 1942, determinou o fechamento e a captura dos acervos do Union Banking Corp., filial do Bank voor Handel en Scheepvaardt N.V., vinculada ao conglomerado United Steel Works (Vereinigte Stahlwerke [United Steel Works Corporation]). Porém, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), muitas corporações dos Estados Unidos, entre as quais a Mack Truck, Phillips Petroleum, Standard Oil of California e Firestone Tires, prosseguiram clandestinamente os negócios com o regime nazista, através de subsidiárias na Suíça e na Suécia. Outras, ainda, tais como a Ford, com 52% das ações da Ford-Werke, em Colônia, e a General Motors, proprietária da Adam Opel A.G, fabricante de caminhões, minas terrestres, detonadores de torpedos e foguetes balísticos, mantiveram suas filiais com instalações em Rüsselsheim (Hesse) e Brandenburg.49 Em 1944, a General Motors, na Suécia, ainda importava produtos da Alemanha.50 Hitler não havia confiscado nenhuma das subsidiárias das corporações americanas — Ford e GM — porém colocou, sistematicamente, todas sob a jurisdição do Reich, custodiadas como propriedades do inimigo.

Entrementes, o National City Bank e o Chase National Bank continuaram a manter conexões com o Bank für Internationalen Zahlungsausgleich (BIZ) ou Banco de Pagamentos Internacionais, que prosseguiu com suas operações em Basel, sob a lei de neutralidade, da Suíça, e intermediou negócios com os países do Eixo. Esse banco, presidido, entre 1940 e 1946, por Thomas H. McKittrick (1889–1970), cidadão americano, era, porém, controlado por próceres do regime nazista, entre os quais Walter Funk, ministro da Economia (1938–1945) e Emil Johann Rudolf Puhl, diretor e vice-presidente do Reichsbank da Alemanha. O BIZ aceitou, em 1944, a transferência do ouro que os nazistas saquearam dos judeus, de diversos países, exterminados nas câmaras de gás de Auschwitz, Majdanek, Treblinka, Belzec, Chelmno e Sobibor, por meio do tóxico Zyklon B, composto de ácido cianídrico, cloro e nitrogênio, fornecido pelo poderoso conglomerado da indústria química I. G. Farben.51 O ouro era fundido e marcado com data anterior à Segunda Guerra Mundial, a fim de disfarçar sua origem e ser usado pelos chefes nazistas, ante a perspectiva de derrota na guerra.

NOTAS

1.Luiz Alberto Moniz Bandeira, 1969, p. 7.

2.“[…] Mutazione che si fanno dalla vita libera a lla tirannica, e per contrario, alguna se ne faccia com sangue, alguna sanza […].” Niccoló Machiavelli, 2013, pp. 491–492; Hannah Arendt, 1965, pp. 35–36.

3.O New Deal, que o presidente Roosevelt promoveu a fim de recuperar os Estados Unidos da Grande Depressão, causada pelo crash de 1929, foi consubstanciado por uma política de reformas econômicas e sociais, com o fito de diminuir o desemprego e a pobreza e acabar com eles. Algumas de suas principais medidas foram o Social Security Act, o U.S. Housing Authority, o Farm Security Administration e o Fair Labor Standards Act, que fixou o máximo de horas de trabalho e o salário mínimo para a maior parte das categorias dos trabalhadores.

4.“McCormack-Dickstein Committee”. U.S. House of Representatives, Special Committee on Un-American Activities, Investigation of Nazi Propaganda Activities and Investigation of Certain Other Propaganda Activities United States Congress. Disponível em: <http://www.archives.gov/legislative/guide/house/chapter-22-select-propaganda.html>; Barbara Lamonica, “The Attempted Coup against FDR”. PROBE, março/abril de 1999 issue (vol. 6, n° 3). Disponível em: <http://www.ctka.net/pr399-fdr.html>; Arthur M. Schlesinger Jr., 2003, pp. 83–86.

5.George Seldes, Facts and Fascism. Nova York: In Fact Inc., 5th Edition, 1943, pp. 105–114; Denton, Sally. The Plots against the President — FDR, a Nation in Crisis, and the Rise of the American Right. Nova York: Bloomsbury Press, 2012, pp. 192–197.

6.Barbara Lamonica, “The Attempted Coup against FDR”. Probe, março-abril de 1999 issue (vol. 6, no. 3). Disponível em: <http://www.ctka.net/pr399-fdr.html>; Sally Denton, 2012, p. 54.

7.Katie L. Delacenserie, & (professor) James W. Oberly, & Eau Claire Wisconsin, “Wall Street’s Search for a Man on a White Horse: The Plot to Overthrow Franklin Delano Roosevelt”. For Presentation to History 489. University of Wisconsin-Eau Claire. Spring 2008, p. 29; “The Business Plot (Takeover of the White House) 1933”. 10 de janeiro de 2009. Disponível em: <http://www.abovetopsecret.com/forum/thread426623/pg1>.

8.“Investigation of un-American propaganda activities in the United States. Hearings before a Special Committee on Un-American Activities, House of Representatives, Seventy-fifth Congress, third session-Seventy-eighth Congress, second session, on H. Res. 282, to investigate (l) the extent, character, and objects of un-American propaganda activities in the United States; (2) the diffusion within the United States of subversive and un-American propaganda that is instigated from foreign countries or of a domestic origin and attacks the principle of the form of government as guaranteed by our Constitution; and (3) all other questions in relation thereto that would aid Congress in any necessary remedial legislation”. United States Congress House. Special Committee on Un-American Activities (1938–1944). Volume: Appendix pt.7. Washington, U.S. Govt. Printing Office. National Archive. Disponível em: <https://archive.org/stream/investigationofu07unit/investigationofu07unit_djvu.txt>.

9.Jules Archer, 2007, pp. 20–34.

10.Se nos Estados Unidos não ocorreram propriamente golpes militares, em virtude de suas tradições culturais e políticas, bem como do alto desenvolvimento do capitalismo, quatro presidentes foram assassinados, em consequência de conspirações para mudança de governo: Abraham Lincoln (1865), James Garfield (1881), William McKinley (1901) e John F. Kennedy (1963). Outros cinco sofreram atentados, mas escaparam com vida. Andrew Jackson (1835), Franklin D. Roosevelt, como presidente eleito (1933), Harry S. Truman (1950), Gerald Ford (1975) e Ronald Reagan (1981).

11.Sally Denton, 2012, pp. 1, 31–32, 191.

12.Clayton Cramer, “An American Coup d’État?” History Today, vol. 45, issue: 11, 1995. Disponível em: <http://www.historytoday.com/clayton-cramer/american-coup-detat>; “An attempted American coup d’État: 1934”. What Really Happened — The History the Government hopes you don’t learn. Disponível em: <http://whatreallyhappened.com/WRHARTICLES/coup.htmlDouglasa>.

13.Charles Higham, 1983, pp. 162–165.

14.George Seldes, 1943, pp. 244–245.

15. Letters of Henry Adams (1892–1918) — Edited by Worthington Chauncey Ford — Boston/Nova York: Houghton Mifflin Company, 1938, vol. II, p. 99. Disponível em: <http://archive.org/stream/lettersofhenryad008807mbp/lettersofhenryad008807mbp_djvu.txt>.

16.Ben Aris (Berli) & Duncan Campbell, (Washington), “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”. The Guardian, Saturday, 25 de setembro de 2004.

17.Fac-símile disponível em: <http://www.fleshingoutskullandbones.com/P.Bush-Union_Banking/NYTH.html#>.

18.Michael Kranish, “Prescott Bush & Nazis”, Boston Globe, 4 de julho de 2001. The Mail Archive, Disponível em: <https://www.mail-archive.com/ctrl%40listserv.aol.com/msg71122.htm>; Idem. “Powerful alliance aids ‘Bushes’ rise”. (Part One), Boston Globe, 22 de abril de 2001; Idem. “Triumph, troubles shape generations”. (Part Two), Boston Globe, 23 de abril de 2001; Bushology Interactive: 2000–2004 — The Bush dynasty. Disponível em: <http://www.moldea.com/bushology3.html>.

19.Sidney Warburg, 1995, pp. 14–16 e 44–47; Antony C. Sutton, 2011, pp. 25–30, 132.

20.Ben Aris, (Berlim) & Duncan Campbell (Washington), “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”. The Guardian, 25 de setembro de 2004; “Documents: Bush’s Grandfather Directed Bank Tied to Man Who Funded Hitler”, 17 de outubro de 2003. Associated Press. Disponível em: <http://www.foxnews.com/story/2003/10/17/documents-bush-grandfather-directed-bank-tied-to-man-who-funded-hitler/>.

21.“Documents: Bush’s Grandfather Directed Bank Tied to Man Who Funded Hitler”. 17 de outubro de 2003. Citado.

22.Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2004/sep/25/usa.secondworldwar/print>.

23.Webster Griffin Tarpley & Anton Chaitkin, 1982, pp. 28–34; Ben Aris, (Berlim) & Duncan Campbell (Washington), “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”. The Guardian, 25 de setembro de 2004.

24.“Looking behind the Bushes — Great moments in a great American family”. The Progressive Review. An Online Journal of Alternative News & Information. Disponível em: <http://prorev.com/bush2.htm>.

25.Russ Baker & Jonathan Z. Larsen, “CIA Helped Bush Senior in Oil Venture”. Real News Project, 8 de janeiro de 2007. Disponível em: <http://www.ctka.net/zapata.html>.

26.Sally Denton, 2012, p. 54.

27.George Seldes, 1943, pp. 154–155.

28. Ibidem, p. 154.

29. Ibidem, p. 155.

30. Ibidem, p. 46.

31. William E Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, pp. 35 e 45.

32. Arthur M. Schlesinger Jr., 1960, p. 82.

33. Antony C. Sutton, 2002, pp. 167–172.

34. William Randolph Hearst foi interpretado por Orson Welles no filme Citizen Kane, produzido em 1941. Essa película, dirigida pelo próprio Welles, é considerada uma das obras-primas do cinema.

35. Ibidem, pp. 84–86.

36. William E. Dodd, Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, p. 288.

37. Edwin Black, “How IBM Helped Automate the Nazi Death Machine in Poland” Week of March 27-April 2, 2002 [Postado em 26 de março de 2002]. Disponível em: <http://emperors-clothes.com/analysis/ibm.htm>; Edwin Black é autor do livro IBM and the Holocaust: The Strategic Alliance between Nazi Germany and America’s Most Powerful Corporation.

38. Gesche Sager, “Henry Ford und die Nazis — Der Diktator von Detroit”. Spiegel Online, 29 de julho de 2008. Disponível em: <http://www.spiegel.de/einestages/henry-ford-und-die-nazis-a-947358.html>.

39. William E. Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, pp. 299–300.

40. Truman Smith, 1984, pp. 117, 143.

41. William E. Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), pp. 299–300.

42. Antony C. Sutton, 2002, pp. 67–76; Joseph Borkin, 1978, pp.76–94.

43. Charles Higham, 1983, pp. 54–55; George Seldes, 1943, pp. 252–253.

44. William E. Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, pp. 352–353.

45. “William E. Dodd to Franklin D. Roosevelt”. Franklin D. Roosevelt Presidential Library and Museum — Great Britain/German Diplomatic Files — Box 32 — Folder Titles List Dodd–>FDR 10/19/36. Germany: William E. Dodd: 1936–38 (i300) Index. Disponível em: <http://docs.fdrlibrary.marist.edu/psf/box32/a300l02.html>.

46. Dodd interview: Federated Press, January 7, 1938. Apud George Seldes, 1943, pp. 122–123; Sheldon Drobny, “Bob Novak Thinks Prescott Bush Was A Liberal”. Huffington Post, 27 de julho de 2007. Disponível em: <http://www.huffingtonpost.com/sheldon-drobny/bob-novak-thinks-prescott_b_58119.html>.

47. George Seldes, 1943, pp. 135–138; Gesche Sager, “Henry Ford und die Nazis — Der Diktator von Detroit”. Spiegel Online, 29 de julho de 2008. Disponível em: <http://www.spiegel.de/einestages/henry-ford-und-die-nazis-a-947358.html>.

48. Jacques R. Pauwels, “Profits über Alles! American Corporations and Hitler”. Global Research, 15 de maio de 2014 — Global Research, 8 de junho de 2004. Centre for Research on Globalization. Disponível em: <http://www.globalresearch.ca/profits-ber-alles-american-corporations-and-hitler/4607>.

49. Edwin Black, “The Nazi Party: General Motors & the Third Reich”. Jewish Virtual Library. American-Israeli Cooperative Enterprise. Disponível em: <http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/Holocaust/gm.html>; Jacques R. Pauwels, “Profits über Alles! American Corporations and Hitler”. Global Research, 15 de maio de 2014; Global Research, 8 de junho de 2004. Centre for Research on Globalization. Disponível em: <http://www.globalresearch.ca/profits-ber-alles-american-corporations-and-hitler/4607>.

50. Charles Higham, 1983, p. 176.

51. Joseph Borkin, 1978, pp. 121–123 e 205; Paul Joseph Watson, “Former Nazi Bank to Rule the Global Economy”. Prison Planet.com, 30 de abril de 2010/In Featured Stories, Old Infowars Posts Style. Disponível em: <http://www.infowars.com/former-nazi-bank-to-rule-the-global-economy/>.




Publicado por D.A

Daniel Albuquerque Abramo. Jornalista, escritor e pensador socialista. Atual Secretário Geral-Nacional da Ação Popular Revolucionária, maior núcleo de base do Partido Democrático Trabalhista. Um dos fundadores da revista A Coisa Pública Brasileira, junto a Cíntia Xavier Dias, no ano de 2018. Escreve sobre filosofia política, arte da guerra, política nacional e geopolítica. Interessado na historia do desenvolvimento do trabalhismo brasileiro e do movimento socialista no Brasil. Trabalhou como Editor e organizador de Mídias Sociais no Jornal Toda Palavra, período em que ajudou a realizar o maior debate político eleitoral das eleições de 2020 na cidade de Niterói (2020-2021), e como Editor de Mídia e Propaganda também para o jornal Toda Palavra na maior cobertura brasileira simultânea para internet e televisão da cúpula dos países BRICS em Kazan, na Rússia no ano de 2024. É conselheiro de Relações Internacionais do Jornal Toda Palavra desde o ano de 2021. Trabalhou de 2021 até 2023 elaborando projetos de política pública voltadas para ciência, inovação, desenvolvimento econômico, meio ambiente e educação para a Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação e na Administração Regional da Região Oceânica, ambos órgãos públicos da cidade de Niterói.

Deixe um comentário