Trechos retirados do livro “Lenin: Vida e obra.”, publicado em 1978, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira:
Os amigos do povo:
A história da socialdemocracia russa, até a morte de Lenin, compreende quatro fases:
– A primeira, pode-se dizer, foi de 1883, data da fundação do Grupo da Emancipação do Trabalho, até 1894, quando Vladimir Ilytch Ulianov apareceu pela primeira vez no cenário político, atacando os narodniki, principalmente K. Mikhailovsky (1842-1904) e Nikolay F. Danielson; com o folheto “Quem são os amigos do povo e como lutam contra os socialdemocratas? ”.
Plekhanov participara, em 1889, do congresso de fundação da Internacional Socialista (a II Internacional), realizado em Paris. Ali, no ano de 1889, proclamou: “A Revolução Russa não pode vencer senão como revolução proletária. Não há nem pode haver outra saída. ” Mas, até os primeiros anos da década de 1890, a socialdemocracia não hostilizava, abertamente, o movimento narodniki, com o qual chegou, inclusive, a tentar uma unificação, no estrangeiro. Não havia, ao fim da década de 1880, uma definição muito clara entre as duas tendências, apesar do folheto de Plekhanov, intitulado Nossas Diferenças. O fio de demarcação passava apenas pela controvérsia sobre os métodos de luta. Os populistas defendiam a ação direta, “la propagande par le fait”, isto é, o terror, enquanto os marxistas insistiam na necessidade de difundir as ideias da revolução e organizar as massas.
– A segunda fase, que se iniciou em 1894, correspondeu ao processo de diferenciação definitiva e de consolidação da socialdemocracia, como tendência e como partido, dentro do movimento revolucionário russo. A partir daí Lenin representou um papel cada vez mais decisivo na sua evolução: de 1903 a 1914, na luta contra os mencheviques, e de 1914 a 1923 (quando adoeceu), afirmando a sua fração como partido independente, promovendo a insurreição de outubro, constituindo a III Internacional ou Internacional Comunista e consolidando o Estado soviético.
“Quem são os amigos do povo e como lutam contra os socialdemocratas? ”, esse documento, escrito por um homem de 24 anos, constituía uma reafirmação dos princípios fundamentais do socialismo científico, da sociologia e da economia política de Marx, contra os subjetivistas, os chamados amigos do povo, os narodniki. “O materialismo” – dizia Lenin – “proporcionou um critério, completamente objetivo, ao destacar as relações de produção, como o arcabouço da sociedade, e ao permitir que se aplique a estas relações o critério científico geral da repetição, cuja aplicação à sociologia negavam os subjetivistas. ”
Eles, embora reconhecendo que determinadas leis regem os fenômenos históricos, não puderam ver a evolução das formas sociais como um processo histórico natural, acentuava Lenin, precisamente porque não passavam além das ideias e fins sociais do homem, sem saber reduzir essas ideias e esses fins às relações sociais materiais.
A obra divide-se em duas partes:
– Na primeira, Lenin reafirmou os princípios do socialismo de Marx e Engels.
-Na segunda, defendeu as posições dos marxistas russos, que começaram pela crítica dos métodos subjetivos dos socialistas anteriores, não apenas constatando e condenando a exploração, mas procurando explicá-la. A história da Rússia, depois da reforma (com que Aleksandr II aboliu o direito de servidão, em 1861), consistia, segundo Lenin, na ruína das massas e no enriquecimento de uma minoria, ocorrendo a expropriação dos pequenos produtores paralelamente ao avanço do progresso técnico. E, à medida que se afirmava a economia mercantil, os marxistas não poderiam deixar de reconhecer que se tratava de “uma organização burguesa (capitalista) da economia social, organização que necessariamente engendra a expropriação e a opressão das massas”.
Em “Quem são os amigos do povo e como lutam contra os socialdemocratas? ”, o jovem Vladimir Ilytch Ulianov apresentava-se de corpo inteiro, com a sua estatura de pensador marxista plenamente amadurecido. Não importa que nome viesse depois a adotar: V. Ilin, V. Frei, K. Tulin, N. Lenin. Ele sempre continuaria dentro daquelas linhas, que traçou com a mão firme, na sua coerência de revolucionário. Não poderia haver outra saída – escreveu – senão “a luta das classes espoliadas contra as classes possuidoras, luta que constitui o conteúdo principal da realidade econômica da Rússia, começando pela aldeia mais longínqua e terminando com a fábrica moderna mais aperfeiçoada”.
O capitalismo, segundo observou, convertera os principais ramos industriais em grandes indústrias mecanizadas e, ao socializar, desse modo, a produção, criou as condições materiais do novo regime e, simultaneamente, uma nova força social: o proletário urbano.
Embora a socialdemocracia simpatizasse com a industrialização, porque ela criava as condições para o socialismo e a classe que o realizaria, o proletariado, “nenhum marxista” – salientava Lenin – “utilizou, em qualquer lugar, o argumento de que na Rússia deve haver capitalismo, porque há no Ocidente, […] Nenhum marxista viu jamais na teoria de Marx uma espécie de esquema filosófico-histórico obrigatório para todos, algo mais que a explicação de uma determinada formação econômico-social”.
A realidade, para Lenin, era “a organização burguesa da sociedade russa, organização que divide a massa do povo em proletariado e burguesia, […] o caráter de classe do Estado russo, que não é mais que o órgão de dominação desta burguesia”, só restando, portanto, como “única solução […] a luta de classe do proletariado contra a burguesia”.
Aquele rapaz, que chegara a St. Petersburg, então capital do Império Russo, em 31 de agosto de 1893, e ingressara no círculo de Georgi Plekhanov, não mais descansaria. Teria de combater em várias frentes. Se, de um lado, precisava firmar a doutrina de Marx e Engels contra os narodniki, não transigiria, por outro, com os inimigos internos, aqueles que, de dentro da socialdemocracia, procuravam desvirilizá-la, transformando-a num produto de consumo aceitável pelas classes dominantes da Rússia. Eram os que apontavam como partidários do marxismo legal, liderados por Peter Struve.
Lenin, a esse tempo, conheceu Nadezhda (Nadya) Konstantinova Krupskaya, que trabalhava como secretária na administração da ferrovia, e ligou-se aos irmãos Krassim (Leônidas e Hermann), fundando a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária. Nadezhda transformou-se em sua companheira de todos os dias, em sua auxiliar, ajudando-o, a cada passo e a cada minuto, na obra que iniciava a empreender.
Ela pertencia a uma família nobre, mas arruinada. Era filha de Konstantin Krupski, funcionário do Império, que, pelo seu espírito liberal (defendeu a Polônia contra a política de russificação), teve uma vida bastante atribulada, depois de demitido, processado e, diversas vezes, levado às barras do tribunal. Nadezhda viveu praticamente na pobreza ao lado de sua mãe, quando Konstantin Krupski faleceu.
As perseguições, que o pai sofreu, e as dificuldades da sua infância marcaram a personalidade de Nadezhda Krupskaya. Aos 14 anos, começou a lecionar para aumentar a receita de casa e, por meio das aulas que ministrava, aproximou-se dos operários, identificou-se com seus problemas e sentiu a necessidade de participar também da luta. Principiou a sua militância revolucionária, em 1891, aderindo a um círculo de estudos marxistas.
A abnegação e o espírito de renúncia, que lhe ditavam a sua índole e a sua consciência, valeram-lhe grande confiança e prestígio junto àquela gente humilde trabalhadora. Graças, assim, aos contatos que mantinha com os operários, como professora, e à sua atuação num comitê contra o analfabetismo, pôde auxiliar o futuro Lenin a formar diversos grupos socialdemocratas, em Petersburg, a partir de 1894.
Ambos se casaram em julho de 1898. Estavam condenados à pena do desterro e juntaram-se na Sibéria.
As tarefas da socialdemocracia:
A luta contra os narodniki esteve, durante algum tempo, no centro de suas preocupações. Consolidou os princípios do marxismo em “Quem são os amigos do povo? ”, e apresentou a sua fundamentação econômica, dentro de uma realidade concreta, cheia de dados e de estatísticas, em O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Se, do ponto de vista teórico, as diferenças estavam suficientemente esclarecidas, do ponto de vista prático ainda reinava a confusão. Qual o seu programa político? Quais os seus métodos e a sua tática?
Lenin, em 1898, lançou um folheto (editado em Genebra) procurando definir, pela primeira vez, as tarefas dos socialdemocratas russos:
O trabalho socialista dos socialdemocratas russos consiste em fazer propaganda das doutrinas do socialismo científico, em difundir, entre os operários, um conceito justo sobre o atual regime econômico-social, sobre seus fundamentos e seus desenvolvimentos, sobre suas relações recíprocas, sobre a luta destas classes entre si, sobre o papel da classe operária nesta luta, sua atitude diante das que estão em evolução, sua atitude diante do passado e do futuro do capitalismo, sobre a tarefa histórica da socialdemocracia internacional e da classe operária russa.
Lenin pregava a agitação entre os trabalhadores, a participação em todas as suas manifestações espontâneas, em todos os conflitos com os capitalistas, provocados pela jornada de trabalho, pelo salário, pelas condições de trabalho:
A tarefa dos socialistas é fundir toda a sua atividade com os problemas práticos, cotidianos, da vida operária, ajudar os trabalhadores a orientar-se nesses problemas, dirigir a atenção do proletariado para os abusos mais importantes de que são objeto, auxiliá-lo a formular mais exata e praticamente suas reivindicações aos patrões, desenvolver nos operários a consciência de sua solidariedade, a consciência da comunidade de interesses e da comunidade de causa de todos os operários russos como classe operária única, que integra o Exército mundial do proletariado.
Considerou como atividade socialista a organização de círculos entre os operários, o estabelecimento de relações regulares e conspirativas entre eles e o grupo central dos socialdemocratas, a edição e difusão de literatura operária, a organização do envio de correspondência de todos os centros operários, a edição de volantes e panfletos de agitação e sua difusão e preparação de um contingente de agitadores experimentados.
Em As tarefas da socialdemocracia russa, Lenin esboçou aquelas ideias que poucos anos depois desenvolveria em “Que fazer? ”, e seriam o ponto de partida para a cisão da socialdemocracia russa em mencheviques e bolcheviques. A socialdemocracia não deveria “desperdiçar suas forças”. Deveria “concentrar-se na atividade entre o proletariado industrial, que é mais susceptível de assimilar as ideias socialistas, o mais desenvolvido intelectual e politicamente, o mais importante pelo número e pela concentração nos grandes centros políticos do país”.
Isto não significava que a socialdemocracia russa esquecesse as demais camadas do proletariado e da classe operária russa. Mas não era prático enviar agitadores aos operários a domicílio e aos trabalhadores rurais. A agitação entre as camadas mais avançadas do proletário “é o caminho mais seguro, o único caminho para conseguir também o despertar (na medida que se vá estendendo o movimento) de todo o proletariado russo”.
A socialdemocracia estava disposta a apoiar os revolucionários russos que chegassem a organizar, com base na luta de classes, um empreendimento socialista, sem ocultar, porém, que “nenhuma aliança prática com outras frações […] não pode nem deve conduzi-la a compromissos ou concessões, no que toca à teoria, ao programa, à bandeira”. Qualquer tentativa de atar o movimento operário russo a doutrinas menos definidas encontrar-se-ia sob o fogo de sua crítica. Esse sentido de clareza constituiria, por muito tempo, a quintessência da educação leninista do militante.
“Os socialdemocratas” – esclareceu Lenin – “apoiam as classes sociais progressistas contra as reacionárias, a burguesia contra os representantes da casta privilegiada dos grandes latifundiários e contra a burocracia, a grande burguesia contra os apetites reacionários da pequena burguesia. ” Mas – isto sempre deixou bem claro – “este apoio não pressupõe nem exige compromisso algum com programas e princípios não socialdemocratas: é o apoio a um aliado contra um inimigo determinado”.
Os socialdemocratas “prestam esse apoio para acelerar a queda do inimigo comum, mas não esperam nada para si dos aliados transitórios nem lhes fazem nenhuma classe de concessões”. Lenin sempre insistia na completa independência do proletariado, mesmo diante dos seus aliados:
Só o proletariado pode ser – e pela sua posição de classe não pode deixar de sê-lo – democrata consequente até o fim, decidido inimigo do absolutismo, incapaz de fazer concessão alguma ou de contrair qualquer compromisso. Só o proletariado pode ser lutador de vanguarda pela liberdade política e pelas instituições democráticas.
Completava-se a crítica ao populismo, crítica esta que Georgi Plekhanov (1856-1918) iniciará na década de 1880, através de várias publicações. O avanço do movimento operário, paralelamente à decomposição do campesinato e à ruína do Mir, contribuiu decisivamente para minar a base social do seu predomínio político. Uma onda de greves sacudiu Petersburg em 1895, no mesmo ano em que Vladimir Ulianov, V. Chelgunov, I. V. Babuchkin, Grigoriy Zinoviev e os irmãos Krassim fundavam a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, passo definitivo para a unificação dos grupos marxistas e a constituição do Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR) que, curiosamente, nasceu quando a maioria dos seus inspiradores estava ou no exílio ou na prisão.
O primeiro congresso realizou-se em 30 de março de 1898, após sucessivos adiamentos em consequência das batidas policiais. Só restavam, em Petersburg, quatro membros, dos quais três eram mulheres (uma delas Nadezhda Krupskaya), para eleger um delegado. Os representantes de Moscou, St. Petersburg, Kiev, do jornal Operário do Sul e do Bund Judaico reuniram-se em Minsk, durante três dias. Ao final, apenas se publicou um manifesto. E, poucos dias depois, a polícia prendeu oito dos nove delegados e dois dos três membros do Comitê eleito no congresso.
A pena de exílio, que Lenin cumpria na Sibéria, terminou em fevereiro de 1900. A de Krupskaya, porém, não acabara. Ele viajou para o exterior e ela, um ano depois, iria ao seu encontro. Ambos encontrar-se-iam novamente em Münich para começar nova jornada.
Materialismo e empiriocriticismo:
Lenin continuou na clandestinidade, a dirigir o trabalho da facção bolchevique. Em abril de 1907, participou do V Congresso do POSDR, que se reuniu em Londres, e, em agosto, viajou para Stuttgart (Alemanha), a fim de comparecer ao congresso da II Internacional. Regressou em seguida, mas a situação na Rússia tornava-se cada vez mais difícil e seu refúgio de Kuokalla (fronteira da Finlândia) não mais oferecia condições de segurança.
O primeiro-ministro Pyotr Arkadyevich Stolypin (1862-1911), em junho de 1907, intimou a segunda Dunna (instalada desde fevereiro) para que expulsasse, imediatamente, 55 deputados social-democratas e permitisse a prisão de 16. Não esperou a decisão. A Okrana realizou centenas de batidas, enchendo seus cárceres de militantes, operários e intelectuais. Tratava-se de um golpe da autocracia, que, com a dissolução da segunda Duma, promulgaria nova lei eleitoral ainda mais autoritária.
Lenin não teve alternativa senão sair da Finlândia, o que fez em dezembro de 1907. Quase morreu quando tentava atravessar a fronteira e o gelo partiu-se sob os seus pés. Salvou-se e, a 25 de dezembro, chegou a Genebra.
A segunda emigração, que duraria nove anos, ocorria em circunstâncias mais graves. O partido estava profundamente avariado, seus militantes perseguidos, suas organizações esmagadas pela polícia. Muitos, principalmente entre os intelectuais, capitulavam, renegavam. Havia traições. As massas manifestavam cansaço. Os que deixaram, por um momento, de conquistar o céu, na terra, agora procuravam a terra no céu. A revolução na fé substituía a fé na revolução. Uma onda de religiosidade e misticismo espraiou-se pela Rússia. A taxa de suicídios aumentou e grande parte da juventude redescobriu o sexo, o erotismo. A depressão atingia um dos seus pontos mais baixos em 1908.
Lenin tratou de organizar, no estrangeiro, a publicação de Proletarii, a fim de rearticular a facção bolchevique. Mas, simultaneamente, teve que enfrentar os reflexos do descenso revolucionário dentro de sua própria fortaleza. Do grupo mais radical, que advogava o boicote da Duma e chegou a acusá-lo de menchevismo por defender a participação na campanha eleitoral, surgiu uma tendência para ressuscitar o idealismo contra a dialética de Marx e Engels. Essa tendência, na verdade, vinha de algum tempo, mas somente em 1908 recrudesceu a sua ofensiva ideológica, com o aparecimento de diversas obras sobre a questão. Uma coletânea de artigos de Vladimir Basarov (1874-1939), Aleksandr A. Bogdanov (1873-1928), Anatoly Lunatcharski (1875-1933) e outros, intitulada Apontamentos sobre a Filosofia do Marxismo, era a mais importante de todas. Seus autores, liderados por Aleksandr A. Bogdanov, um dos dirigentes bolcheviques, inspiravam-se na doutrina do físico e filósofo austríaco Ernst Mach (1838-1916).
Os adeptos de Ernst Mach procuravam eliminar o dualismo entre a ideia e a matéria. A consciência – expunham – é que imprime as qualidades à matéria – tamanho, forma, cor etc. Uma e outra se integram e se transformam num único elemento. Era a negação do materialismo dialético, mais uma tentativa para rever a doutrina de Marx e Engels, a partir da teoria do conhecimento. Essa filosofia se chamava empiriocriticismo ou empireomonismo.
Lenin então se lançou ao estudo de Mach, Richard Avenarius (1843-1896), David Hume (1711-1776), George Berkeley (1685-1753) e outros filósofos e, como nem todo o material pôde encontrar em Genebra, viajou para Londres, onde, durante algum tempo, se plantou no salão de leitura do Museu Britânico. E escreveu o Materialismo e Empiriocriticismo, obra que, iniciada em fevereiro de 1908, ele concluiria em outubro, com a pretensão de lançá-la o quanto antes, quando se realizaria uma conferência ampliada da redação de Proletarii. Assim poderia, nessa ocasião, liquidar definitivamente a corrente de Bogdanov.
O Materialismo e Empiriocriticismo mostram a estrutura de Lenin como pensador, capaz de enriquecer e ampliar o legado de Marx e Engels, não só como político, mas, também, como filósofo. Ali ele restaura e consolida a gnosiologia do materialismo dialético. As coisas existem fora e independentemente do homem, produto da matéria altamente organizada. Não existe nem pode existir diferença alguma de princípio entre o fenômeno e a coisa em si. A diferença consiste entre o que se conhece e o que não se conhece. Não se deve, portanto, considerar o conhecimento do homem como algo acabado e imutável, mas analisar de como do desconhecimento surge o conhecimento, de como o conhecimento incompleto, impreciso, se torna mais completo e mais preciso.
Lenin partiu, seguindo o método materialista, dos objetos para a sensação e para o pensamento:
O materialismo, de pleno acordo com as ciências naturais, considera a matéria como o elemento primário e a consciência, o pensamento, a sensação, como o elemento secundário, porque a sensibilidade não se relaciona, em sua forma mais acabada, senão com as formas superiores da matéria (com a matéria orgânica), e não se pode admitir, “nos alicerces do próprio edifício da matéria”, a existência de uma propriedade análoga à sensibilidade.
A matéria – expunha – “suscita a sensação, atuando sobre os nossos órgãos dos sentidos”, isto é, “a sensação depende do cérebro, dos nervos, da retina […], da matéria organizada de maneira determinada. A matéria é o primordial. A sensibilidade, o pensamento, a consciência são os produtos mais elevados da matéria organizada de um modo determinado”, depois de alto grau de evolução. Assim a tentativa para eliminar o dualismo do espírito e do corpo, de acordo com a concepção monista, visava restabelecer a primazia da ideia sobre a matéria.
Da análise das sensações, Lenin avançou para a teoria do conhecimento. O materialista admite a verdade objetiva, independentemente do homem, que a conhece através dos órgãos dos sentidos. Essa verdade objetiva, absoluta, não é senão uma soma de verdades relativas. “Cada etapa do desenvolvimento das ciências acrescenta novas parcelas a essa soma de verdade absoluta, mas os limites da verdade de toda tese científica são relativos, ora amplos, ora restritos, na proporção do progresso das ciências. ” Mas, qual o critério dessa verdade? “A concepção prática, da vida, deve ser a concepção fundamental da teoria do conhecimento” – reafirmou Lenin. A prática proporciona um critério objetivo da verdade. Dessa forma, o problema de saber até que ponto os conhecimentos do homem refletem a realidade só se resolve com a experiência.
O Materialismo e Empiriocriticismo ainda focalizou a revolução por que passaram as ciências naturais, principalmente a física, com a descoberta, nos fins do século XIX, da radioatividade, no elétron, e da variabilidade de sua massa. “A essência da crise da física contemporânea” – indicou Lenin – “consiste na subversão das velhas leis e dos princípios fundamentais e na rejeição da verdade objetiva existente fora da consciência, isto é, pelo idealismo e pelo agnosticismo. ” Aquelas descobertas não refutavam, antes confirmavam a validade do método dialético, cuja utilização abriria a saída para a crise. “O elétron é tão inesgotável quanto o átomo, a natureza é infinita e existe infinitamente. E somente esse reconhecimento absoluto, categórico, da sua existência fora da consciência e das sensações humanas é que distingue o materialismo dialético do agnosticismo e do idealismo relativistas. ”
A preocupação de Lenin, no campo da filosofia, não se limitaria apenas ao estudo que fez para o Materialismo e empiriocriticismo, mas, a muitos outros, cujos projetos só apareceriam depois de sua morte (1929-1933), em Léninski Sbórnik. Esses projetos, editados separadamente, tomaram o título de Cadernos filosóficos. Suas notas e comentários, sobre os mais diversos aspectos da filosofia e as suas várias correntes, revelam a sua intenção de escrever uma obra mais ampla, que não chegou a dar forma. Lenin dedicava particular atenção ao processo do conhecimento dialético, pela via da preparação sensível, que se transforma em pensamento abstrato e, em seguida, se confronta com a prática. Voltou-se para a obra de Hegel, sobretudo para a lógica e a teoria do conhecimento.
A maioria dos apontamentos data de 1914-1915.
A questão nacional:
No período que se seguiu ao golpe de Stolypin (junho de 1907), até às vésperas da Primeira Guerra Mundial, uma série de dissensões e lutas internas marcou a história da social-democracia russa, dividiu e subdividiu as frações que a integravam, mencheviques, bolcheviques e diversos outros grupos. Entre os bolcheviques havia a corrente dos boicotadores, os otsovistas (do russo otsovat, retirar), que exigiam o abandono da Duma pelos deputados social-democratas e a renúncia a toda atuação legal. No outro extremo, entre os mencheviques, os liquidadores voltavam as costas à luta ilegal e à organização clandestina. Os conciliadores, entre os quais se incluíam Trotsky, Solomon A. Lozovsky (1878-1952), Alexey I. Rikov (1881-1938), Grigoriy Y. Sokolnikov (1888-1939) e Lew Kamenev, representavam ainda uma terceira tendência, que buscava preservar a unidade do POSDR.
Em janeiro de 1910, os conciliadores conseguiram convocar um pleno do Comitê Central, a fim de promover a unidade, cujo preço bolcheviques e mencheviques teriam que pagar com a expulsão de suas fileiras de todos os extremistas – boicotadores e liquidadores. Isto não constituía nenhum problema para Lenin, que, desde a conferência da redação de Proletarii, em junho de 1909, expulsara seus principais cabeças, os empiriocriticistas, como Bogdanov e Lunatcharski. Os mencheviques, porém, não puderam cumprir sua parte no acordo, porquanto o liquidacionismo influenciava a maioria. Houve novo rompimento.
As lutas prosseguiram. Lenin convocou, em janeiro de 1912, uma conferência de ativistas, que se realizou em Praga e proclamou a sua fração como o verdadeiro partido, expulsando os mencheviques. A conferência ainda adotou outras resoluções: decidiu que o partido entraria na campanha eleitoral para a quarta Duma; elegeu um Comitê Central, sob a direção de Lenin, que também passaria a representá-lo junto ao Bureau Socialista Internacional (II Internacional).
Trotsky, que, em Viena, dirigia um jornal com o título de Pravda, tomou a dianteira da luta contra Lenin e, ao reunir bolcheviques boicotadores e ultraesquerdistas, mencheviques, o bund judaico e outros, formou o chamado Bloco de Agosto. Todos consideravam a conferência de Praga como um golpe de Estado e não se dispunham a reconhecê-la. Mas, a essa altura, Lenin tinha o controle da organização clandestina do partido, os bolcheviques dominavam os organismos regionais, enquanto os mencheviques estavam dispersos e, sem uma diretriz que os unisse, só podiam oferecer uma pálida resistência, um protesto sem eco, embora contassem com as simpatias dos dirigentes da II Internacional.
Não só as lutas de fração, entretanto, estraçalhavam a social-democracia russa. A Okhrana conseguira infiltrar, no aparelho do partido, vários agentes, como David Zhitomirsky e Roman Malinovsky, este último, muito próximo de Lenin, chefiou o grupo bolchevique (seis deputados) eleito para a Duma, em 1912, e integrou o Comitê Central. Lenin, apesar de advertido diversas vezes, recusou-se a aceitar as suspeitas que se espalhavam no partido. Malinovsky, quando eclodiu a guerra, abandonou sua cadeira de deputado e viajou para a Alemanha. Só depois de vitoriosa a revolução, puderam comprovar que ele efetivamente trabalhara para a polícia. Fuzilaram-no quando regressou à Rússia.
As infiltrações provocaram no aparelho do partido muitas baixas e, juntamente com as questões de ordem ideológica, acirravam os ânimos, para aumentar a divisão – o que também interessava à Okhrana –, fomentando o clima de intrigas e desentendimentos. Lenin, a fim de escapar, por um lado, às contendas que agitavam os emigrados e, por outro, controlar mais de perto o trabalho clandestino do partido, transferiu-se, em 19 de junho de 1912, para Cracóvia (Áustria-Hungria). Estaria mais próximo da Rússia, onde começara a circular, desde 5 de maio, o órgão legal dos bolcheviques, com o título de Pravda (verdade), o mesmo do periódico editado por Trotsky em Viena.
Desde 1908, Lenin e Nadezhda estavam a morar em Paris e lá ele conheceu, em 1910, Inessa Armand, née Elisabeth-Inès Stéphane d’Herbenville (1874-1920), militante do POSDR, mulher muito bonita e culta, feminista, tocava, ao piano, Beethoven, que Lenin adorava, e irradiava sexualidade. Os dois apaixonaram-se e iniciaram fervoroso affaire d’amour. Lenin não escondeu o caso de Nadezhda Krupskaya, sua esposa, que se ofereceu para deixá-lo, se ele quisesse, para estar livre com seu novo amor. Lenin disse que não, que ela ficasse, e Nadezhda não apenas compreendeu e aceitou a situação como estreitou a amizade com Inessa, que se tornou maîtresse e braço direito de Lenin. Passaram a viver em ménage à trois. Inessa ainda era casada com o industrial russo Aleksandr Armand, nunca se divorciara, e fora amante do cunhado, Vladimir, que morreu em 1910, ano em que ela conheceu Lenin.
A partir de 1910, no entanto, os ventos mudavam na Rússia. O movimento de massas estava a recuperar, gradativamente, sua força. As greves, em 1912, já envolviam 725.000, e esta cifra aumentaria de ano a ano, até o início da guerra: 1. 272.000 (861.000, segundos os dados oficiais), em 1913, e 1.500.000, na primeira metade de 1914.
Lenin, em 1912, trasladou-se para a Cracóvia, com Nadezhda Krupskaya e Inessa Armand, e voltou suas atenções para o problema das nacionalidades, pouco antes de eclodir a guerra, a fim de responder às críticas de Rosa Luxemburg ao artigo 9 do programa do POSDR, que consagrava o direito das nações a autodeterminação. Rosa Luxemburg, líder da ala esquerda da social-democracia alemã, considerava aquela reivindicação como tipicamente pequeno-burguesa e este ponto de vista defenderia até mesmo depois de vitoriosa a insurreição de Outubro, quando os bolcheviques concederam aos povos, que integravam o Império da Rússia, o direito à autodeterminação. O desenvolvimento das grandes potências capitalistas e o imperialismo tornaram ilusório aquele direito, argumentava Rosa Luxemburg. E, sob o socialismo, que representa uma ordem econômica internacional, ele perderia ainda mais a sua razão de ser. De sorte que aquela reivindicação, no programa do POSDR, reforçaria, no seu entender, tão somente o nacionalismo burguês.
Embora as críticas de Rosa Luxemburg viessem desde 1908, apenas em 1914, seis anos depois, Lenin sentiu a necessidade de refutá-las, no ensaio Sobre o direito das nações à autodeterminação, escrito em fevereiro-maio daquele ano. As raízes da divergência residiam no fato de que Rosa Luxemburg não percebia a importância da autodeterminação das nacionalidades, que a Rússia subjugava, como fator altamente explosivo, naquele processo de revolução democrático-burguesa. “Na Europa Ocidental, continental, a época das revoluções democrático-burguesas abarca um intervalo de tempo bastante determinado, aproximadamente de 1789 a 1871” – explicava Lenin. “Na Europa oriental e na Ásia, a época das revoluções democrático-burguesas apenas começou em 1905.” O marxismo exige que se enquadre, dentro de um marco histórico determinado, a análise de qualquer problema social e, por conseguinte, é preciso focalizar o direito à autodeterminação, estabelecendo-se em “que época histórica atravessa a Rússia, quais são as particularidades concretas da questão nacional e dos movimentos nacionais do país determinado e na época determinada”.
As condições particulares da Rússia, segundo Lenin indicava, exprimiam-se na seguinte situação:
A Rússia é um Estado com um centro nacional único, grão-russo. Os grão-russos ocupam um gigantesco território compacto, ascendendo seu número a aproximadamente 70 milhões de homens. A peculiaridade deste Estado nacional reside, em primeiro lugar, em que os alógenos (que em conjunto constituem a maioria da população, com 57%) povoam precisamente a periferia; em segundo lugar, no fato de que a opressão destes alógenos é muito mais forte que nos países vizinhos (inclusive não apenas nos europeus); em terceiro lugar, em que há toda uma série de casos em que as nacionalidades oprimidas, que vivem na periferia, têm compatriotas do outro lado da fronteira e estes últimos gozam de maior independência nacional (basta recordar, ainda que só seja nas fronteiras ocidental e meridional do Estado, os finlandeses, suecos, polacos, ucranianos e romenos); em quarto lugar, em que o desenvolvimento do capitalismo e o nível geral de cultura são com frequência mais altos na periferia alógenas que no centro do Estado.
E mais: “precisamente nos Estados asiáticos vizinhos presenciamos o começo de um período de revoluções burguesas e de movimentos nacionais, que compreendem em parte as nacionalidades afins dentro das fronteiras da Rússia”.
Lenin entendia a autodeterminação das nações como “sua separação estatal das coletividades nacionais estranhas […], a formação de um Estado nacional independente”. Mas, “a burguesia, que naturalmente atua no princípio de todo movimento nacional como força hegemônica (dirigente) ” coloca sempre em primeiro plano as suas reivindicações, enquanto o proletariado “subordina-as aos interesses da luta de classes”. Para Lenin, “em todo nacionalismo burguês de uma nação oprimida há um conteúdo geral democrático contra a opressão e a este conteúdo emprestamos um apoio incondicional, separando rigorosamente a tendência para o exclusivismo nacional, lutando contra a tendência do burguês polaco para oprimir o judeu etc. etc.”.
Assim, da mesma forma que defendia o direito à autodeterminação, Lenin rechaçava a chamada autonomia nacional-cultural, como um disfarce do nacionalismo burguês. “Os socialistas lutam contra todas e cada uma das manifestações, abertas ou sutis, do nacionalismo burguês”, assinalava no projeto de plataforma para o IV congresso da social-democracia da Letônia.
Os social-democratas sempre defenderam e defendem o ponto de vista do internacionalismo. Ao proteger a igualdade de direito de todas as nacionalidades diante dos feudais e do Estado policial, propugnamos não pela cultura nacional, senão pela cultura internacional, que inclui só uma parte de cada cultura nacional, a saber: o conteúdo consequentemente democrático e socialista de toda a cultura nacional.
O reconhecimento do direito à autodeterminação, ou seja, do direito à separação e à independência, como o Estado, das diversas nações, não poderia, por conseguinte, levar ao “nacionalismo militante da burguesia, que embrutece, engana e divide os operários para conduzi-los a reboque dos burgueses”. Este nacionalismo militante constitui “o fato fundamental de nossa época” e contra ele “quem quiser servir ao proletariado deverá unir os operários de todas as nações” – acentuou em Notas críticas sobre a questão nacional, escrito que data de dezembro de 1913.
Alguns meses depois, a questão do nacionalismo e do internacionalismo passaria pela grande prova de fogo, dividindo, irremediavelmente, a social-democracia: a guerra mundial, deflagrada em agosto de 1914, arrastou a maioria dos seus líderes e militantes para a voragem do chauvinismo. A Lenin, contrário à guerra, caberia sustentar o internacionalismo socialista e defender o derrotismo revolucionário.
O imperialismo:
A livre concorrência, no mercado, sempre configurou uma guerra, conduzida por meio da redução dos preços, o que dependia da produtividade do trabalho, e este da escala da produção, e daí que vencia a empresa com mais capital e mais recursos tecnológicos e/ou outras vantagens. Ganha a empresa que possui o maior capital, a que pode explorar maior número de operários. Ela absorve ou esmaga suas rivais. A mais forte torna-se mais forte. É a lei da selva, aplicada à economia: a lei do mais forte. Assim, sobre o campo de batalha – onde perecem dezenas de capitalistas – erguem-se os trustes e cartéis, o monopólio parasita e reacionário. “Die größeren Kapitale schlagen daher die kleineren” (os grandes capitais derrotam os pequenos) – disse Marx. E a livre concorrência engendra a sua mortal negação.
Um mês após a eclosão da guerra, Karl Kautsky, discípulo direto de Karl Marx e Engels e o mais importante teórico da II Internacional, escreveu em Die Neue Zeit, de 11 de setembro de 1914, um artigo intitulado “Der Imperialismus”, no qual defendeu a teoria de que, conforme a lei do desenvolvimento capitalista, demonstrada por Marx, a guerra mundial poderia compelir as potências imperialistas a formar uma espécie de cartel, da mesma forma que a rude e brutal competição das firmas gigantes, dos bancos gigantes e multimilionários, que absorviam os menores, levaram os grupos financeiros a conceber a ideia de um cartel, um acordo explícito ou implícito a fim de evitar os conflitos entre elas e a devastação recíproca, deixando que as guerras, para o consumo de armamentos, produzidos pela indústria pesada, ocorressem na periferia do sistema capitalista. Não era impossível, do ponto de vista puramente econômico, que o capitalismo entrasse em nova fase, com a transferência dos métodos dos cartéis para a política internacional, conforme Kautsky anteviu, e constituíssem o ultraimperialismo, que também devia ser, implacavelmente, combatido.
Com efeito, a internacionalização da vida econômica, com a criação do mercado mundial e a divisão internacional do trabalho, promovida pelo capitalismo mercantil, entre os séculos XV e XVIII, e acentuada a partir dos fins do século XIX, a concorrência recrudesceu e o antagonismo entre empresas transformou-se no antagonismo entre Estados nacionais e entre blocos de Estados. Formavam-se impérios do capital financeiro.
A guerra de 1914 constituiu uma trágica manifestação desta concorrência: a concorrência pelas armas. Lenin denunciou, diversas vezes, seu caráter imperialista. Era preciso, porém, esclarecê-lo, explicá-lo. “É evidente que não poderemos emitir um julgamento histórico concreto sobre a guerra atual, se não nos basearmos numa completa elucidação da natureza do imperialismo, tanto do ponto de vista econômico, como do ponto de vista político”, observou no prefácio ao livro de Nikolay Bukharin O Imperialismo e a economia mundial, escrito em 1915.
O capitalismo atravessava uma nova etapa, que Marx e Engels apenas previram. John A. Hobson (1858-1940), economista inglês, publicou, em 1902, uma obra sobre O imperialismo, em que fazia, segundo expressão de Lenin, “excelente e detalhada descrição das particularidades econômicas e políticas” dessa etapa. Mais tarde, em 1910, Rudolf Hilferding (1877-1941), marxista austríaco, escreveu um livro sobre O capital financeiro, que Lenin também considerava, apesar de algumas restrições, “uma análise teórica extremamente valiosa”. E Rosa Luxemburg, em 1913, lançou A acumulação do capital, onde estudou as leis de evolução do capitalismo e demonstrou que o imperialismo era “a expressão do processão de acumulação do capital, em sua luta para conquistar as regiões não capitalistas que não se encontrem ainda dominadas”.
Mas o assunto não se esgota, nem mesmo com o ensaio de Bukharin, na verdade um dos mais preciosos (e atuais) estudos sobre a questão, também abordando com muita clareza a formação dos monopólios de Estado e do complexo industrial-militar. Lenin, ele próprio, passou a pesquisar dados e estatísticas sobre a economia mundial e suas notas compõem um volume, publicado depois de sua morte, com o título Cadernos sobre o Imperialismo.
Essas notas serviram de base para elaboração do seu famoso livro – O Imperialismo – etapa superior do capitalismo. Lenin terminou de escrevê-lo em junho de 1916. Pretendia publicá-lo, legalmente, na Rússia e por isto usou uma linguagem velada, com poucas observações políticas, para furar a censura. Só veio a público, porém, depois da queda do czar, em 1917.
“O imperialismo, o domínio do capital financeiro, é”, definia Lenin, “o capitalismo no seu mais alto grau”, em que “os grupos de monopolistas […] – cartéis, sindicatos, trustes – repartem entre si, em primeiro lugar, o mercado interno, apoderando-se, de modo mais ou menos completo, da produção do país”, e, depois, “partilham o mundo, não como consequência de sua perversidade, senão porque o grau de concentração a que chegaram lhes obriga a seguir esse caminho para obter lucro”, e o fazem, “segundo o capital, segundo a força” (econômica ou militar) de que dispõem.
O capitalismo contemporâneo, cujo alto grau de concentração e centralização transformou a concorrência em monopólio, apresenta outra particularidade extremamente importante, “a chamada combinação, ou seja, a reunião, numa só empresa de distintos ramos da produção, que representam […] fases sucessivas da elaboração de uma matéria-prima […] ou desempenham, uns em relação aos outros, papel auxiliar”.
A fase da livre concorrência atingiu seu ponto culminante entre 1860 e 1880. Após a crise de 1873, os cartéis começaram a surgir, mas de modo esporádico, e só se “converteram em base de toda a vida econômica”, a partir do fim do século XIX e princípios do século XX, estabelecendo entre si acordos sobre preços, condições de venda, prazos de pagamentos, áreas do mercado etc. Apoderam-se das fontes de matéria-prima, monopolizam a mão de obra especializada, controlam os meios de transporte e de comunicação (estradas de ferro, de navegação, telégrafos etc.).
Os monopólios a essa altura não utilizam apenas as condições técnicas para vencer a competição. Recorrem a todos os processos – dumping (vendas abaixo do custo), privação de crédito, boicote etc. – para forçar a rendição ou o colapso dos concorrentes. Estrangulam todos os capitalistas que não se submetem a seu jugo. As especulações florescem. “O monopólio abre caminho em todas as partes, valendo-se de todos os meios, a começar pelo pagamento de modesta indenização e terminando pelo procedimento americano do emprego da dinamite contra o competidor.”
Lenin mostrou que “a supressão das crises pelos cartéis é uma fábula dos economistas burgueses”. “As crises de todo tipo, sobretudo as crises econômicas, mas não somente estas, aumentam por sua vez com a tendência para a concentração e o monopólio.” “O monopólio é a última palavra da fase mais recente do desenvolvimento do capitalismo”, a antessala da revolução social.
O papel que os bancos desempenharam, nesse processo de concentração, adquire, pouco a pouco, decisiva e fundamental importância. Simples intermediários para as operações de pagamento, “convertem o capital monetário inativo em ativo, isto é, que rende juros”, e passam a reunir enorme soma de dinheiro, que põem à disposição dos industriais. Trava-se a competição, e os diversos bancos, que antes existiam, cedem lugar a reduzido número de estabelecimentos, “monopolistas onipotentes, que dispõem de quase todo o capital monetário de todos os capitalistas e pequenos patrões, assim como da maior parte dos meios de produção e das fontes de matérias-primas de um ou de vários países”.
A concentração e o aumento do giro do capital modificam, substancialmente, a importância dos bancos “e os capitalistas dispersos vêm a formar um capitalista coletivo”. “Ao levar uma conta-corrente para vários capitalistas” – Lenin assinalou – “o banco aparentemente realiza uma operação puramente técnica, auxiliar”, mas, na verdade:
ela cresce em proporções gigantescas, resulta que um punhado de monopolistas subordina as operações comerciais e industriais de toda a sociedade capitalista, obtendo a possibilidade – por meio de suas relações bancárias, das contas-correntes e outras operações financeiras – primeiro, de inteirar-se com exatidão do estado de negócios de cada capitalista e, depois de controlá-los, de exercer influência sobre eles mediante a ampliação ou a restrição do crédito, facilitando-o ou dificultando-o e, finalmente, de determinar completamente seu destino, de determinar sua rentabilidade, de privá-los de capital ou de permitir-lhes acrescentá-lo rapidamente e em proporções imensas etc.
A Bolsa, que no capitalismo de livre concorrência funcionava como regulador da economia, perde a sua importância, cedendo aos bancos o controle sobre a circulação de valores. E, enquanto as indústrias precisam recorrer cada vez mais aos bancos, para conseguir capital, os bancos têm necessidade de investir nas indústrias a grande soma de dinheiro de que dispõem. Associam-se os interesses. Banqueiros compram ações das indústrias e entram na sua direção. O capital bancário funde-se ao capital industrial e gera o capital financeiro. A aliança econômica produz a união pessoal e surge a oligarquia. “O monopólio, uma vez constituído e começando a manejar milhares de milhões, penetra, inevitavelmente, em todos os aspectos da vida social, independentemente do regime político e de outras particularidades.” E, observava Lenin, “o imperialismo, o predomínio do capital financeiro, […] o capitalismo em seu mais alto grau, […] implica a situação dominante do rentista e da oligarquia financeira, a situação destacada de alguns Estados, dotados de potência financeira, entre todos os demais”.
A exportação de mercadorias caracterizava o velho capitalismo, onde predominava a livre concorrência. Mas a acumulação do capital, com a maior capacidade de exploração da mais-valia pelos monopólios, atinge tais proporções que a exportação do seu excesso se converte na característica principal da nova etapa. “A possibilidade de exportação do capital está determinada pelo fato de que uma série de países atrasados já se acha incorporada à circulação do capitalismo mundial”, com a criação dos meios de transporte e das bases do desenvolvimento da indústria, enquanto que alguns outros, avançados, amadurecem excessivamente e não possuem mais terreno para investimentos lucrativos.
“A exportação de capital influi sobre o desenvolvimento do capitalismo nos países onde o investem”, – esclareceu Lenin, invocando um relatório do cônsul austro-húngaro em São Paulo (Brasil), que afirmava:
A construção das ferrovias brasileiras realiza-se, em sua maior parte, com capitais franceses, belgas, britânicos e alemães: ditos países, ao efetuar as operações financeiras relacionadas com a construção das vias férreas, asseguram os pedidos de construção ferroviária. Assim, a exportação de capitais abria caminho para a exportação de mercadoria e a oligarquia estendia a sua rede, no sentido textual da palavra, a todos os países do mundo.
Lenin, seguindo estas premissas, demonstrou a forma com que os monopólios procedem à partilha do mundo e a oligarquia financeira subordina “inclusive os Estados que gozam de uma independência política completa”. Os grupos travam feroz luta para arrebatar ao adversário toda a possibilidade de concorrência, arrancar-lhe, por exemplo, “as terras que contêm minério de ferro, jazidas de petróleo etc.”. “A posse das colônias é a única que garante de maneira completa o êxito do monopólio contra todas as contingências da luta com o adversário, sem excluir a possibilidade de que ele deseje defender-se por meio de uma lei sobre o monopólio de Estado.” Isto é, muitas vezes um truste, querendo impedir que uma fonte de matéria-prima, uma jazida de minério ou de petróleo, caia nas mãos do concorrente, leva o governo do país a nacionalizá-la, a estabelecer o monopólio do Estado e não realizar a exploração. Lenin citou como exemplo a luta que o Banco Alemão e a Shell (holandesa-britânica) travaram contra o grupo petrolífero de John D. Rockefeller (1839-1937), organizando a campanha em favor do monopólio estatal, quando viram que iam perder a licitação.
O imperialismo criou “uma série de formas de transição de dependência nacional”. O domínio não se limita às colônias, mas aos Estados “politicamente independentes, do ponto de vista formal, mas, na realidade, envoltos pela rede de dependência diplomática e financeira”. O capital financeiro, segundo Lenin definiu com base no conceito de Hilferding,
é o capital bancário de alguns grandes bancos e monopolistas fundido com o capital dos grupos monopolistas industriais e, por outro, a partilha do mundo é o trânsito da política colonial, que se expandia sem obstáculos nas regiões ainda não apropriadas por nenhuma potência capitalista, à política colonial de denominação monopolista dos territórios do globo, inteiramente repartidos.
O imperialismo apresentava, pois, as seguintes características: 1) concentração da produção e do capital que, elevada a tal ponto, cria o monopólio e este passa a desempenhar um papel decisivo na vida econômica; 2) fusão do capital bancário com o capital industrial, formando o capital financeiro, em torno do qual surge a oligarquia; 3) exportação de capital, através de investimentos, créditos etc.; 4) surgimento de trustes, sindicatos, cartéis, que repartem o mundo entre si; 5) o término da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes.
A oligarquia financeira corrompe uma camada da classe operária, aburguesando-a e criando uma aristocracia operária, a base social do oportunismo, do reformismo, do social-chauvinismo, que contaminaram a II Internacional. “O imperialismo, […] que implica lucros monopolistas elevados para um punhado de países riquíssimos, cria a possibilidade econômica de corrupção das camadas superiores do proletariado e com isto nutre, dá forma e reforça o oportunismo.”
O monopólio, porém, exacerbou extremamente as contradições do capitalismo, com “a reação em toda a linha e a intensificação do jogo nacional como consequência do jogo da oligarquia financeira e a supressão da livre concorrência” agravou e aumentou a desigualdade do seu desenvolvimento, nas diversas partes do mundo. O imperialismo é, pois, o “capitalismo parasitário ou em estado de decomposição”, embora esta tendência para a decomposição não descarte a sua possibilidade de crescimento, a sua fase superior, a sua última etapa, “o prelúdio da revolução social do proletariado”.
Lenin errou na sua avaliação, dado que se empenhava, sobretudo, em fazer a revolução na Rússia, como força propulsora da revolução mundial. E não ocorreu. Kautsky é que estava certo, ao aventar, como legatário de Marx, a possibilidade de que as grandes potências também estendessem e aprofundassem sua cooperação, formassem um cartel, em parte como resposta à ameaça da revolução ou dos movimentos de libertação nacional, nos países coloniais, a periferia do sistema, onde as guerras ocorreriam para o consumo de armamentos. E em artigo publicado em Neue Zeit, em 30 abril de 1915, sob o título “Zwei Schriften zum Umlernen”, explicou:
o crescente entrelaçamento entre as várias cliques do capital financeiro levam-me a considerar se não é possível que a atual política imperialista seja superada por uma nova política ultraimperialista, que estabeleça a exploração conjunta do mundo pelo capital financeiro internacional, no lugar da luta entre os capitais financeiros nacionais. Essa nova fase do capital financeiro é, em todo caso, concebível.
O imperialismo – etapa superior do capitalismo, de Lenin, é um livro de combate. Constitui, fundamentalmente, um desdobramento das obras de Hilferding Hobson, e, cientificamente, não apresenta muita originalidade. Lenin apenas previu a “transformação do capitalismo monopolista em capitalismo monopolista de Estado”, transformação esta que “a guerra imperialista acelerou e aguçou extraordinariamente”, como disse em O Estado e a revolução, e imaginou que a revolução socialista, ao atingir os países avançados, como a Alemanha, França e Inglaterra, cortaria essa tendência.
Tática e estratégia:
O esquerdismo – Doença infantil do comunismo encerra uma lição de tática e de estratégia revolucionária. Lenin mostrou que:
A arte do político (e a compreensão acertada de seus deveres no comunista) consiste, precisamente, em saber apreciar com exatidão as condições e o momento em que a vanguarda do proletariado poderá tomar vitoriosamente o poder, em que poderá, durante a conquista do poder e depois dela, obter um apoio suficiente dos mais vastos setores da classe operária e das massas trabalhadoras não proletárias, em que saberá, depois de conservar o poder, afiançar, ampliar seu domínio, educando, instruindo, atraindo uma quantidade cada vez maior das massas trabalhadoras.
A conquista do poder político exigia que a luta alcançasse certo grau e este grau “não é idêntico em todos os países e em condições diferentes”. Antes “é impossível […] e nem sequer deve tentar-se”. A revolução na Rússia comprovara, praticamente, essa verdade. Antes do 7 de novembro era cedo demais. Lenin orientou os bolcheviques a conterem as massas para impedir que as manifestações de julho, prematuramente, se transformassem em uma insurreição. Mas, depois do 7 de novembro, seria tarde demais.
Até que atingisse aquele grau a luta requeria “toda classe de sacrifícios, vencer os maiores obstáculos para entregar-se a uma propaganda e uma agitação sistemática, perseverante, paciente, nas instituições, sociedades, sindicatos, por mais reacionários que sejam, onde se encontre a massa proletária e semiproletária”. O partido deveria estar sempre atento para todas as situações e não hesitar em criticar seu próprio comportamento e corrigir seus erros. Esta é “uma das provas mais importantes e mais fiéis da seriedade desse partido e do cumprimento efetivo de seus deveres para com a sua classe e para com as massas trabalhadoras”. Nada esconder:
Reconhecer abertamente os erros, pôr a descoberto suas causas, analisar a situação que os engendrou e examinar atentamente os meios de corrigi-los: Isto é o que caracteriza um partido sério, é nisto que consiste o cumprimento de seus deveres, isto é educar e instruir a classe primeiro e depois, as massas.
Os revolucionários deveriam avaliar bem as situações para não tomar os seus desejos pela realidade. “Este é o mais perigoso dos erros para os revolucionários.” Os comunistas de esquerda proclamavam o parlamentarismo como politicamente caduco. Poderia ser verdade para eles, mas não para a classe, para a massa. Os revolucionários, naturalmente, não devem “descer até ao nível das massas, até ao nível dos setores mais atrasados da classe”. Não há dúvidas, “é indiscutível”. Os comunistas devem estar à frente, como vanguarda, procurando elevar o nível das massas. Devem dizer-lhes “a amarga verdade, dizer-lhes que seus preconceitos democrático-burgueses e parlamentares são preconceitos”.
Nem todas as camadas da classe e das massas chegam ao mesmo tempo à mesma compreensão. Os comunistas, por isto, não devem confundir o que eles pensam com o que todo o proletariado e as demais camadas trabalhadoras imaginam. Devem “observar, serenamente, o estado real de consciência e de preparação da classe inteira (e não só de sua vanguarda comunista), da massa trabalhadora inteira (e não só dos seus indivíduos avançados)”.
Naturalmente, “em um estado de espírito revolucionário das massas, sem condições favoráveis para o desenvolvimento de tal estado de espírito, a tática revolucionária não se transformará em ação”. Mas apenas com o sentimento revolucionário “é impossível criar uma tática revolucionária”. Ela deve tomar em conta, “serenamente, e de modo estritamente objetivo todas as forças de classe do Estado de que se trata (dos Estados que o rodeiam e de todos os Estados em escala mundial), e assim como a experiência dos movimentos revolucionários”. A Rússia, devido às peculiaridades de 1917, “foi fácil começar a revolução socialista”, mas, “em compensação, será […] muito mais difícil continuá-la e levá-la a cabo […] do que nos países avançados”.
“Os comunistas para enfrentar os Aliados, numa guerra cem vezes mais difícil, prolongada e complexa que a mais encarniçada guerra entre Estados”, não poderiam renunciar às manobras, à utilização dos antagonismos entre os inimigos, aproveitando as oportunidades para atacar e efetuando acordos com os possíveis aliados, ainda que sejam provisórios, inconsistentes, vacilantes e condicionais – Lenin explicou e aduziu: os comunistas têm que aproveitar, igualmente, “as menores possibilidades de obter um aliado de massas, ainda que temporário, vacilante, instável, pouco seguro, condicional”. O problema “é saber aplicar essa tática para elevar e não para rebaixar o nível geral de consciência, de espírito revolucionário, de capacidade de luta e de vitória do proletariado”.
Eis, em súmula, o que Lenin ponderou. E mais escreveu:
Obter a vitória sobre um adversário mais poderoso só é possível pondo em tensão todas as forças e utilizando obrigatoriamente, com solicitude, minúcia, prudência e habilidade, a menor brecha entre os inimigos, toda contradição de interesses entre a burguesia dos distintos países, entre os diferentes grupos ou diferentes categorias burguesas no interior de cada país.
As massas abandonaram Kerensky porque passaram pelo seu governo. Aprenderam pela sua própria experiência. Os comunistas ingleses, onde também se manifestava a enfermidade do esquerdismo, deveriam participar do parlamento, deveriam do interior do parlamento “ajudar a massa, proletária a ver na prática os resultados do governo dos Henderson e dos Snowden”, líderes do trabalhismo, ajudando-os “a vencer contra a coalizão de Lloyd George e Winston Churchill”. O Partido Trabalhista, no poder, desgastar-se-ia e os comunistas emergiriam como a força capaz de capitalizar o descontentamento, desde que, favorecendo-lhes a vitória, conservassem a “liberdade mais completa de agitação, de propaganda, de ação política”. Não amarrar as mãos. Golpear juntos e marchar separados. Sem isto qualquer bloco implica uma traição. Os comunistas, em nenhum momento, devem perder a oportunidade para desmascarar os Henderson e os Snowden, mostrar as limitações do trabalhismo, antes, durante e depois das eleições.
[…] Para a revolução não basta que as massas exploradas e oprimidas tenham consciência da impossibilidade de viver como antes e reclamem mudanças; para a revolução é necessário que os exploradores não possam viver nem governar como antes.
Esta, a lei fundamental da revolução que a história, principalmente no século XX, confirmou. “Só quando as camadas altas não podem sustentá-lo ao modo antigo, só então pode triunfar a revolução.” Em outros termos, “a revolução é impossível sem uma crise nacional geral (que afete explorados e exploradores)”, indicou Lenin, a interpretar os ensinamentos de Marx.
A revolução, para vencer, deve conseguir que os operários, pelo menos a maioria daqueles conscientes e politicamente ativos, compreendam a sua necessidade, estejam dispostos a sacrificar a vida. Mas isto só não basta. Também “é preciso que as classes dominantes atravessem uma crise governamental que arraste para a política até as massas mais atrasadas”, que “reduza o governo à impotência” e possibilite sua derrubada. “O sintoma de toda revolução verdadeira é a decuplicação ou centuplicação dos números de homens aptos para a luta política no seio da massa trabalhadora.”
Os revolucionários deviam saber “aplicar os princípios gerais do comunismo à particularidade das relações entre as classes e os partidos, à particularidade no desenvolvimento objetivo para o comunismo, próprio de cada país e que se precisa saber estudar, descobrir e adivinhar”. “Ainda que a escola preparatória que conduz o movimento operário à vitória sobre a burguesia seja em todas as partes idêntica no fundo, seu desenvolvimento se realiza em cada país de modo original.” A unidade de tática internacional do movimento comunista não exige a supressão da variedade que há entre os diversos países, a supressão das particularidades nacionais, “mas a aplicação dos princípios fundamentais” do socialismo científico, tais como a ditadura do proletariado, adaptando-os, acertadamente, às peculiaridades e às condições específicas de cada Estado.
Lenin dizia que “só com a vanguarda é impossível triunfar” e lançá-la à batalha decisiva, quando as massas ainda não adotaram a seu respeito uma posição de apoio direto nem “ao menos de uma neutralidade benévola […] não seria apenas uma estupidez, mas, também um crime”. A batalha decisiva requer as seguintes condições: 1) que todas as forças da classe inimiga estejam mergulhadas na confusão, suficientemente chocadas entre si, suficientemente debilitadas por uma luta superior à sua capacidade de resistência; 2) que todos os elementos vacilantes, versáteis, inconsistentes, intermediários – isto é, a pequena burguesia, a democracia pequeno-burguesa – estejam despidos diante do povo e cobertos de ignomínia pela sua bancarrota prática; 3) que no proletariado comece a formar-se e a estender-se um estado de espírito de massas favorável e apoiar as ações revolucionárias mais resolutas, mais valentes e abnegadas contra a burguesia. “Eis aqui o momento em que a revolução amadurece, […] que a nossa vitória está segura, se calculamos bem todas as condições e escolhemos acertadamente a hora.”
Os revolucionários que não sabem combinar os métodos legais e ilegais de luta “são maus revolucionários”. Não é difícil ser revolucionário quando a revolução estala. É infinitamente mais difícil – “e muitíssimo mais meritório – saber ser revolucionário quando a situação não permite ainda a luta direta, franca, a verdadeira luta de massa”, saber ser revolucionário “numa situação não revolucionária, entre massas incapazes de compreender de modo imediato a necessidade de um método revolucionário de ação”.
