[MIYAMOTO MUSASHI] Fichamento “Sobre a atitude do espírito e o olhar na arte militar.

A coisa pública brasileira inaugura uma série a parte de textos, discussões e reflexões sobre ciência militar. Selecionaremos para reprodução trechos e obras de autores clássicos, modernos e contemporâneos que abordam a área, bem como produção autorais brasileiras via colaboração cujo assuntos sejam considerados relevantes para os estudos e reflexão brasileira. Caso tenha interesse em colaborar com algum material autoral, entre em contato conosco através das nossas redes sociais. Abrimos essa série, portanto, com o fichamento e comentários de “Sobre a atitude espiritual na arte militar” e “Sobre o olhar na arte militar” de Miyamoto Musashi, por Nelson, disponível originalmente no Medium.


Os textos “Sobre a atitude espiritual na arte militar ” e “Sobre o olhar na arte militar”, ambos do notório samurai Miyamoto Musashi, fazem parte de seu livro, conhecido em português como o “Livro dos Cinco Anéis”. Este antigo tratado militar consiste em uma obra de enorme valor, dividida em cinco capítulos, considerado o registro mais acurado daquilo que era considerado por Musashi como seu mais valioso legado, seu meticuloso e racional modo de pensar a arte militar, e em particular, duelos individuais.

Tal doutrina, cabe destacar, arduamente constituída através de uma vida de treinamentos, combates de vida ou morte desde a juventude, e meditações filosóficas profundas sobre a realidade e suas possíveis aplicações na arte da guerra, não deve de forma alguma ser subestimada ou ignorada em nosso tempo presente. Esta importante obra, embora tenha um foco evidente no kenjutsu, ou seja, na esgrima japonesa, mais especificamente, do estilo Niten ichi-ryū, fundado pelo próprio Musashi, não deixa de apresentar reflexões relevantes sobre a arte da guerra de forma mais geral. Pelo contrário, como o autor deixa claro logo em seu primeiro capítulo, a exemplo do pensador chinês Sun Tzu, que todo soldado deve ter razão de general, e todo general deve ter razão de soldado.

Mesmo quando analisa e se esforça para refletir sobre duelos individuais, sua especialidade, na qual, por sinal, sagrou-se vitorioso por mais de sessenta vezes, além de terminar sua “carreira” invicto, Musashi também nos ensina conceitos aplicáveis para confrontos de proporções inimaginavelmente maiores entre exércitos e nações. Exatamente nesse sentido, os textos sobre os quais aqui nos debruçaremos, “Sobre a atitude espiritual na arte militar ” e “Sobre o olhar na arte militar”, tem um enorme valor, e seu conteúdo deve ser absorvido e assimilado de forma crítica.

Em resumo, neste presente texto, tentaremos desenvolver uma reflexão sobre a arte da guerra e sua estreita relação com o estado de espírito, portanto, o estado psicológico, de quem a pratica, bem como analisar a importância e os tipos de olhar utilizados para analisar aquilo que o lendário samurai chamava de “arte militar”.

“Arashi Rikan II as Miyamoto Musashi”, 1832. Gigadō Ashiyuki.

Sobre a atitude do espírito na arte militar:

Musashi alude ao fato de que, segundo os fundamentos da arte militar, o estado de espírito de um guerreiro ou general não deve ser diferente do de sua vida comum. O autor pondera que, tanto na arte militar quanto no dia a dia, o espírito não deve sair de balanço. Sobre isso, nos diz o intelectual:

Mantenha o espírito aberto, reto, sem tensão excessiva nem relaxamentoem perfeito equilíbrio. Aja com tranquilidade, tendo o cuidado de evitar a paralisação, mesmo por um instante. O espírito deve se manter dinâmico e livre.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Refletindo, podemos entender que Musashi, ao dizer que tanto na vida cotidiana quanto na prática de artes militares devemos manter o mesmo estado de espírito está afirmando que a atitude espiritual deve ser a mesma para tudo na vida. Ainda assim, como veremos abaixo, isso não implica, de forma alguma, em rigidez ou fixidez. Ao descrever tal estado, o lendário samurai, reforça que tanto o excesso de preocupação e tensão, ou seja rigidez excessiva, quanto a abundância de relaxamento e despreocupação devem ser evitados.

O samurai inicia uma reflexão que resvalará posteriormente, sobre a paralisia, uma constante em sua obra e em sua teoria dos duelos, como veremos em outros textos sobre este tema. Um espírito excessivamente rígido, se detém sobre problemas pequenos todo o tempo, e portanto, tem dificuldades em progredir e se adaptar em questões mais gerais. Já um espírito abundantemente despreocupado, tem dificuldades em ambos, mas sobretudo em resolver os pequenos problemas, pois não se detém sobre eles de forma alguma. 

Ambos tem propensão a paralisia, em diferentes sentidos e esferas, este, que é um estado fatal para qualquer combatente ou comandante. Não é, contudo, de uma mera questão de “caminho do meio”, como poderiam imaginar alguns incautos, a que se refere o autor. Prossegue, ao recomendar que se proceda com tranquilidade, fazendo uma alusão direta sobre evitar o estado de paralisia.

Sua frase subsequente, enquanto complemento, alerta para que o espírito se mantenha livre, mas mais fundamental que isso, que se mantenha dinâmico. Com isso, o autor nos demonstra que, acima de tudo, o estado de espírito ideal e correto, é aquele que transita, que é dinâmico, que se adapta as circunstâncias necessárias.

Nesse sentido, se faz urgente uma reflexão. Como já dizia o filósofo Karl Marx, complementado com algumas noções referentes ao filósofo Heráclito de Éfeso, se a matéria precede a consciência, o espírito, não se desprezando a importância deste último, e a realidade material em si, e a vida em sociedade, como se sabe, são constante movimento e transformação, todo o tempo, disso podemos entender que as afirmações de Musashi fazem todo sentido. 

O estado de espírito para sobreviver em um mundo natural e social cuja realidade material está sempre em transformação, repleta de contradições, em constante movimento, só poderia ser igualmente dinâmico e estar, na mesma medida, equilibrado sobre o caos aparente que esconde a perfeita ordem e harmonia que é esta mesma realidade. Musashi, adiante, reflete sobre como funciona o estado de espírito, e sua relação com a arte da guerra e com duelos individuais, no que basicamente recomenda uma “receita de bolo” em termos de atitude espiritual.

“Miyamoto Musashi Masana”, 1867. Tsukioka Yoshitoshi.

Prossegue, então, afirmando que em momentos em que o corpo se encontra em repouso, o espírito não deve de forma alguma estar completamente relaxado. Contudo, completa este raciocínio aludindo ao fato de que em situações em que o corpo se encontra agitado, o espírito e a consciência devem se manter alerta, atentos, não se deixando guiar ou proceder apenas pelo desejo, paixões ou pelas necessidades do corpo. O autor, abaixo, ao prosseguir com sua explicação, complementa este bloco de pensamentos com as seguintes reflexões e recomendações:

“1º. O corpo não segue o espírito, e o espírito não acompanha o corpo.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Apesar de parecer uma frase trivial, tal afirmação se trata do ponto de partida para uma reflexão sobre o ser. Musashi entra de cabeça na questão da existência imediata enquanto corpo, e da existência sensível e racional enquanto consciência, ambas formas de existir em multiplicidade no mesmo ser. Ainda assim, na contradição que é existir enquanto humano em nossa realidade, não raro é verificável que nem a existência imediata na realidade e no meio enquanto parte integrante e existente neste e restrito as limitações relativas a este, representado pelo corpo, segue necessariamente os desígnios do espírito, tampouco a consciência e o espírito necessariamente acompanham tal corpo em suas paixões e desejos. Embora seja importante ressalvar que ambos existam ao mesmo tempo, em uma unidade contraditória e caótica que é força motriz interna do próprio ato de existir, e não fracionados ou apartados como interpretaria boa parte do pensamento hegemônico ocidental.

2º. Preste atenção no espírito, mas não no corpo.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

A partir da primeira reflexão, Musashi deriva esta segunda, partindo da premissa da dificuldade de sequer tomar consciência da existência imediata na realidade e no meio enquanto parte integrante e existente neste e restrito as limitações relativas a este, representado pelo corpo, sobretudo dentro de um contexto de artes marciais, ou seja, militares, em que o indivíduo entra em um estágio de concentração extrema para cumprir objetivos e tarefas específicas e complexas e deve gerenciar e direcionar seu foco. Com isso, o autor aconselha que se mantenha o foco e a atenção no espírito, mas não no “corpo”. Este segundo, deve apenas “ser”, leve, relaxado e rápido.

3º. Não deixe nada fora do alcance do espírito, mas mantenha-o sereno, sem excesso de ânimo.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Musashi nos trás a noção de que nada deve estar de fora das possibilidades de contemplação do espírito e da consciência, mas não nos deixa de explicitar claramente a trava, de que nada de bom retira o espírito se nenhuma relação tem com a realidade as reflexões e sensações a partir deste. Portanto, mantenha-o sereno e sem excesso de ânimo, embora contemplativo e ciente de todas as possibilidades.

“4º. Mesmo que na aparência o espírito se apresente fraco, no fundo ele deve ser forte. Mantenha o seu espírito sempre inescrutável para os outros.”

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

“Hijikata Toshizô, vice comandate do Shinsen-gumi”, autor e data desconhecidos.

O autor alude para a necessidade de que pessoas de corpo “pequeno”, devam conhecer e aprender sobre tudo o que é grande no espírito e na consciência, e que pessoa de corpo “grande” devem se debruçar em conhecer as coisas pequenas e delicadas do espírito.

“Tanto aquele de corpo grande como o de corpo pequeno devem ter o espírito reto, mantê-lo imparcial em relação a si próprio.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Com tal recomendação, Musashi reforça para um ponto que é central e se estende por toda a sua obra: a questão da busca pela verdade, da autocritica, e da correção de equívocos do pensamento, do espírito, do corpo, e da execução da técnica. Para que isso seja possível, é fundamental seguir o conselho destacado sabiamente pelo autor, e manter seu espírito imparcial em relação a si próprio, bem como ser reto e coerente. Em seguida, complementa o samurai, arrematando a conclusão do raciocínio:

“É necessário conservar o espírito imaculado e aberto, e a sabedoria dentro de amplos horizontes. E é essencial polir tanto a sabedoria como o espírito. Aguçar a sabedoria. Conhecer a justiça e as injustiças do mundo. Penetrar em todos os campos das artes, percorrer seus caminhos. Evitar sempre ser enganado por outrem. Só então se atingirá a sapiência da arte militar. Na sabedoria da arte militar, aprende-se a discernir coisas distintas entre si.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Com tais palavras, o autor reforça a necessidade de se cultivar a sabedoria, ponto comum com a obra de Sun Tzu, de quem o samurai era leitor. Para além disso, o filósofo nos auxilia a compreender melhor sua definição para o conceito de “sabedoria”, ao definir características, atitudes e práticas que se relacionam com esta.

Musashi explicitamente recomenda que o general e o guerreiro conheçam a justiça, o mundo real e as suas injustiças, algo que é essencial para qualquer pensador prático que trabalha num campo tão influenciado pelas ciências humanas como é a arte da guerra. Conseguir compreender, manipular e utilizar todos estes princípios e variáveis em um curto espaço de tempo, com maestria, são necessários anos de treinamento do corpo e da mente. Ao encerrar suas reflexões sobre o espírito na arte militar, conclui o lendário samurai:

“Mesmo nos momentos tumultuados de um combate, é preciso buscar os preceitos da arte militar, mantendo o espírito inabalável.”

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”


Batalha naval e terrestre de Hakodate: República de Ezo vs Império Meiji. Xilogravura de Utagawa Yoshitora (assinado como Nagashima Mosai).

Sobre o olhar na arte militar:

Esta passagem é iniciada, como um raio que parte o tronco de uma enorme árvore anciã, com Musashi diferenciando o que considera os dois tipos de olhar: o de ver, como espectador, e o de perceber, como analista. Sobre ambas as formas do olhar, diferencia o autor:

O olhar da percepção é poderosoenquanto o de apenas ver é fraco. Ser capaz de enxergar como se estivesse perto o que está longe e como se estivesse longe o que está perto, eis o essencial na arte militar.”

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre o olhar na arte militar.”

Fortaleza Goryokaku, quartel general do exército rebelde pró fundação da República Samurai de Ezo. Observemos as fraquezas e virtudes de tal estrutura defensiva.

Com suas ponderações expostas, Musashi reforça o entendimento de que é necessário ter percepção das pequenas coisas, quando estamos a uma grande distância, visto que a visão é difícil em tais circunstâncias. E em sentido inverso, mas não menos importante, quando estamos de perto, e nossa percepção pode ser poluída por infinitas particularidades, devemos focar o olhar objetivo e direto, para não perder tempo, momentum e ritmo.

Sobre isso, nos reforça Musashi ao encerrar tal trecho de sua obra:

O olhar deve ser o mesmo tanto num combate individual como numa batalha de exércitos. Ver os dois lados, sem mexer o globo ocular, é fator de grande importância. Mas todo esse aprendizado demanda disciplina e paciência, não pode ser aprendido de repente, em momentos de urgência. Depois de ter compreendido tudo o que foi exposto aqui, é necessário refletir sobre a questão do olhar — que deve se manter o mesmo, tanto nas circunstâncias da vida cotidiana como em quaisquer outras.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre o olhar na arte militar.”

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