Prefácios retirados da 9ª Edição. Editora Vozes. Petrópolis, 1978.
PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO:
Iniciamos com este livro a publicação de uma série de estudos sobre o processo de formação dos povos americanos, sobre as causas do seu desenvolvimento desigual e sobre as perspectivas de autossuperação que se abrem aos mais atrasados.
O objetivo deste primeiro estudo é proceder a uma revisão crítica das teorias da evolução sócio-cultural e propor um novo esquema do desenvolvimento humano. Bem sabemos quanto é temerária uma tentativa de reformulação das teorias de alto alcance histórico como a que aqui apresentamos, que focaliza a evolução sócio-cultural nos últimos dez milênios.
No entanto, esta tarefa se impôs como requisito prévio indispensável àquele estudo da formação dos povos americanos. Na verdade, só poderíamos eludi-la se deixássemos inexplícito o esquema conceitual com que trabalhamos ou se apelássemos para esquemas evolutivos clássicos, visivelmente inadequados para explicar as situações com que nos deparamos.
Com efeito, queiramo-lo ou não, agimos todos com base numa teoria global explicativa do processo histórico, quando usamos conceitos referentes a fases evolutivas — tais como escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo — ou conceitos concernentes a processos universais de mudança sócio-cultural como revolução agrícola, revolução mercantil ou revolução industrial.
Isto é o que faz a maioria dos cientistas sociais de perfil acadêmico, mesmo em contextos em que negam a possibilidade de estabelecer sequências evolutivas. Os cientistas de orientação marxista, aceitando embora uma teoria geral do processo histórico, pouco têm contribuído para desenvolvê-la, em virtude da tendência a converter a maioria dos seus estudos em meras exemplificações, com novos materiais, das teses marxistas clássicas.
Acresce ainda que, nas últimas décadas, acumulou-se copioso material etnográfico, arqueológico e histórico descritivo das sociedades humanas de diversos tipos, bem como uma série de estudos especiais sobre os processos de mudança cultural e sobre certas vias multilineares de evolução sócio-cultural que tornaram viável, e inadiável, a formulação de uma teoria geral da evolução.
Por sua própria natureza, os nossos estudos sobre as causas da desigualdade de desenvolvimento dos povos americanos tanto exigiam a formulação de um esquema das etapas evolutivas quanto possibilitaram sua elaboração.
Exigiam-na porque tomavam imperativa a construção de uma tipologia para classificar diversos contingentes que se conjugaram para formar as sociedades nacionais americanas de hoje.
Como classificar, uns em relação aos outros, os povos indígenas que variavam desde altas civilizações até hordas pré-agrícolas e que reagiram à conquista segundo o grau de desenvolvimento que haviam alcançado?
Como situar, em relação àqueles povos e aos europeus, os africanos desgarrados de grupos em distintos graus de desenvolvimento para serem transladados à América como mão de-obra escrava?
Como classificar os europeus que regeram a conquista? Os ibéricos que chegaram primeiro e os nórdicos que vieram depois — sucedendo-os no domínio de extensas áreas — configuravam o mesmo tipo de formação sócio-cultural?
Finalmente, como classificar e relacionar as sociedades nacionais americanas por seu grau de incorporação aos modos de vida da civilização agrário-mercantil e, já agora, da civilização industrial?
Estas questões e muitas outras igualmente cruciais exigiam a elaboração de uma teoria geral do processo evolutivo que definisse de forma mais precisa os conceitos faseológicos (geralmente usados de maneira arbitrária) e que explicitasse mais acuradamente os modos pelos quais interagem as sociedades diversamente desenvolvidas.
Conforme assinalamos, aqueles estudos não só exigiram a elaboração desta teoria, mas também possibilitaram sua formulação. Isto porque nos deram uma perspectiva não cêntrica de análise das causas da desigualdade de desenvolvimento e também porque forneceram uma extraordinária base fatual.
Aquela perspectiva nos permitiu criticar o eurocentrismo das teorias correntes sobre a evolução cultural; esta base fatual — representada pela copiosa bibliografia americanista de fontes primárias e por nossa própria experiência no estudo antropológico de sociedades tribais e nacionais — proporcionando-nos um conhecimento acurado de sociedades que exemplificam quase todas as etapas da evolução e quase todas as situações de conjunção de povos, nos permitiu reexaminar a teoria evolucionista com maior amplitude de visão.
Desse modo é que, no esforço por estabelecer critérios de classificação dos povos americanos, tivemos de alargar nossa perspectiva de análise no tempo e no espaço, acabando por elaborar uma primeira esquematização dos passos da evolução tecnológica, social e ideológica das sociedades humanas, de cujo desdobramento posterior resultou este trabalho. Ela é aqui apresentada como formulação preliminar de um estudo que continuaremos desenvolvendo, mas cujo aprofundamento exige, nesta altura, o exame crítico de outros especialistas.
Cumpro o dever de registrar que· o presente estudo só pôde ser realizado graças ao amparo da Universidade da República Oriental do Uruguai, através de um contrato do autor como professor de tempo integral. E tenho a satisfação de assinalar que este trabalho, na forma em que se apresenta, muito deve à colaboração de minha colega Betty J. Meggers e, sobretudo, de minha mulher, Berta Ribeiro.
PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO VENEZUELANA:
Publiquei este livro com muito medo. Temia que a ousadia de enfrentar temas tão amplos e complexos me levasse a um desastre. Meu medo devia ter aumentado quando um conhecido intelectual marxista, ledor de importante editora, deu um parecer arrasador sobre O Processo Civilizatório.
Dizia ele que o autor, etnólogo de índios, brasileiro, que não era nem se quer marxista, pretendia nada menos que reescrever a teoria da história, o que equivalia, pensava ele, a inventar o moto continuo.
O diabo é que eu pretendia mesmo! Só não fiquei aplastado debaixo daquele parecer competentíssimo porque fui salvo por um ataque de raiva possessa contra todos os que pensam que intelectual do mundo subdesenvolvido tem de ser subdesenvolvido também. Mas logo surgiram vozes de alento para levantar meu ânimo.
Principalmente as de alguns amigos e colegas tomados de entusiasmo pelo livro. Entre eles, o mais competente arqueólogo que conheço: Betty Meggers. Além de me estimular, Betty se propôs ajudar na revisão dos dados sobre a evolução técnica e na fixação das cronologias. Depois, se dispôs a traduzir O Processo Civilizatório ao inglês, o que fez admiravelmente.
Afinal, conseguiu também que ele fosse editado pela Smithsonian Institution, que, sendo o mais vetusto dos órgãos de pesquisa antropológica deste mundo, lhe garantiria a melhor atenção profissional. A tudo isto a Smithsonian aliava a qualidade, ainda mais simpática para mim, de ter sido a editora de obras de Lewis W. Morgan, cujo texto fundamental — Ancient Society — eu retomava via F. Engels — em O Processo Civilizatório.
Agora, com dez anos, O Processo é um filho bem-sucedido: 15 edições e cerca de 160 mil exemplares vendidos fazem dele o meu principal livro. Só menos querido do que o meu filho caçula —, o romance MAÍRA — que, por outras razões, é meu xodó.
Grande e generosa foi, também, a fortuna crítica de O Processo, recebido com carinho em vários países. Foi, inclusive, objeto de um debate coletivo promovido por Current Anthropology, para os livros que seus editores consideram importantes. [1]
Este debate (CA treatment) consiste em remeter a obra selecionada para debate a uns vinte antropólogos para que a critiquem; em recolher, depois, e remeter ao autor os diversos comentários para que ele redija a réplica; e, por fim, na publicação conjunta de todo o material.
Os comentários assinalam tanto os aspectos com que os críticos concordam, como aqueles de que discordam. Entre os primeiros, recordo agora o gosto que me deu ler as apreciações frequentes, assinalando que O Processo Civilizatório proporcionava, pela primeira vez, um quadro conjunto dos últimos cinco séculos da história, que possibilitava tratar as sociedades avançadas e as atrasadas não como etapas sucessivas da evolução humana, mas como polos interativos de um mesmo sistema socioeconômico tendente a perpetuar suas posições relativas.
O hoje dos povos avançados não é, pois, o nosso amanhã: nós e eles encarnamos posições opostas, mas coetâneas. Esta integração teórica, que nos permitiu fundir, a partir de 1500, nosso esquema evolutivo com nossa reconstituição do processo histórico, tornou-se possível graças ao apelo aos conceitos complementares de aceleração evolutiva e de atualização histórica.
Nos últimos anos, tive a alegria de vê-los reproduzidos nestes termos e em variantes semânticas deles em diversos estudos. Com sua ajuda, muitos autores puderam superar tanto as visões unilineares que mediocrizam as teorias evolutivas como as proposições desenvolvimentistas das teorias da modernização, que fazem supor uma progressão espontânea do subdesenvolvimento ao desenvolvimento, através da industrialização substitutiva.
Foi também assinalado que esta concepção de duas linhas divergentes de trânsito de uma a outra etapa da evolução tinha tanto a virtude histórica de facilitar a compreensão das vicissitudes dos povos subdesenvolvidos no passado, como a qualidade preditiva de possibilitar a antevisão dos riscos que eles enfrentam, agora, de serem outra vez atualizados no curso do processo civilizatório posto em marcha pela Revolução Científica.
A primeira atualização que experimentamos ocorreu com os índios e os negros que, atingidos pela expansão européia, não evoluíram da tribalidade à civilização, mas foram tão somente arrastados à condição de força de trabalho das colônias escravistas mercantis que as nações ibéricas fundaram no Novo Mundo no curso da Revolução Mercantil.
A segunda ocorreu com o trânsito que sofremos da condição Colonial à Neocolonial, no corpo da Revolúção Industrial, e que nos confirmou na situação de povos de segunda classe, enquanto os EUA, por exemplo, se integravam autonomamente: por aceleração evolutiva, na nova civilização.
A terceira é a que nossas classes dominantes gerenciais, na qualidade de associados das corporações multinacionais, estão promovendo em nossos dias com a maior eficiência. A luz dos conceitos de Atualização versus Aceleração, fica evidenciado que seus esforços de modernização só visam nos atrelar à civilização pós-indutrial outra vez na condição de povos dependentes que continuarão contribuindo tanto para a prosperidade alheia, que nao poderão cuidar de sua própria prosperidade.
As principais reservas apresentadas contra as proposições do nosso esquema conceitual vêm de duas vertentes: as dos que o contestam por ser “marxista”, e as dos que, ao contrario, o desmascaram como infiel ao “verdadeiro marxismo”.
As primeiras, tolas demais para merecer atenção, caem ora em objeções irritadas contra a idéia de progresso, ora em advertências escandalizadas contra a admissão de que as revoluções sociais violentas possam ser socialmente positivas.
As últimas merecem maior atenção, embora sejam, às vezes, igualmente tolas. Este é o caso de todos os que, supondo que existem respostas finais de Marx para todas questões, consideram uma ousadia repensar os esquemas ditos marxistas, porque só admitem recitá-los.
Estes ruminantes de Marx deviam, no presente caso, concordar que, havendo dois esquemas legitimamente atribuíveis ao marxismo sobre a evolução sócio-cultural humana, caberia pelo menos o esforço de engendrar um terceiro que os conciliasse.
Efetivamente, isto é o que sucede, uma vez que o esquema de Engels em A Origem, etc. (1884) — que Marx conheceu e aprovou — é não só diferente, mas oposto ao esquema do próprio Marx nos Grundrisse (escritos em 1857/59, mas só editados em 1939 e difundidos depois de 1950) o qual, por sua vez, Engels conhecia muito bem.
A divulgação tardia do texto de Marx veio criar uma grande celeuma, porque ele se revelou muito superior ào de Engels ou, pelo menos, mais conciliável com os conhecimentos antropológicos acumulados no último século. Onde ficamos neste debate entre os dois ilustres defuntos, se não nos consentimos repensá-los?
Este tipo de contestação é especialmente irritante quando parte dos pretensos marxólogos que convertem o marxismo numa técnica erudita de exegese de textos. Eles querem que se leia as obras de Marx partindo da suposição de que nelas como na Bíblia, para Lutero — residisse toda a sabedoria.
Uma sabedoria, aliás, só recuperável se lidos e relidos com a devida atenção e com a indispensável obediência ao guia parisino que esteja em moda. Penso que a verdade, no que tenha de apreensível, não está em texto algum, mas na vida e na história. Penso que ela só pode ser lida através da observação direta ou da reconstituição histórica criteriosa de contextos sociais concretos e da comparação sistemática dos mesmos.
Os clássicos e, com eles, todos os que teorizaram fecundamente, com base em pesquisas científicas e históricas — nos provêm no máximo de orientações, diretrizes, a partir das quais temos é de abrir os olhos para olhar e ver e rever a experiência vivida dos povos, como a única fonte de saber referente à sua vida e ao seu destino.
Nosso papel é, pois, o de nos fazermos herdeiros do discurso da ciência, apenas para refazê-lo com base na exploração exaustiva do valor explicativo tanto dos contextos sociais concretos que observamos, como das circunstâncias de lugar e posição, desde as quais vemos a eles e aos seus contornos.
Para fazê-lo com a ousadia de Marx, porém, é indispensável observar, comparar e interpretar de olhos postos no trânsito entre o que foi e o que pode ser, e com a predisposição de conhecer para intervir e influir, no sentido de que venham a se concretizar na história, amanhã, as possibilidades mais generosas dela.
Com esta postura é que escrevemos O Processo Civilizatório. Ele é o melhor discurso que podíamos formular sobre o caráter necessário — e, portanto, compreensível — de nosso passado de nações que fracassaram na história. É também a mais clara advertência que podíamos escrever sobre as ameaças que pesam sobre nós, de recairmos na condição de povos explorados e subalternizados; ameaça tanto maior porque este é o projeto de nossas classes dominantes.
É, por fim, a expressão mais eloqüente que consigamos formular sobre as possibilidades reais que se abrem à nossa frente de ruptura revolucionária dos fatores causais do atraso autoperpetuante, para a realização das potencialidades dos nossos povos, dentro da civilização emergente.
Uma reserva surpreendente ao nosso esquema conceitual é a de quem o inquina de “evolucionista“. E daí, quê? Desejariam que fosse funcionalista? Mais do que surpreendente, porém, esta reserva passa a ser absurda quando parte de pretensos marxistas. Que são os esquemas de sucessão das formações econômico-sociais de Marx e Engels, senão teorias evolutivas?
Aqui se somam, provocando curto-circuitos, diversas confusões. Primeiro, a de jogar na mesma lata-de-lixo das doutrinas ultrapassadas, junto com o evolucionismo meio unilinear de Tylor ou do progressivismo de Spencer, nada menos do que a concepção vital para as ciências sociais de que o processo histórico, não sendo arbitrário nem errático, é, por isto mesmo, explicável e, em certa medida, até previsível.
Segundo, o de opor-se nominalmente ao academicismo sócio-antropológico norte-americano, apenas para beber suas piores águas de lavagem. Inclusive, o reacionarismo antievolucionista de quantos detestam e repelem qualquer idéia de evolução como uma predisposição perigosa à revolução.
Leslie White (1945), demonstrando como e por que razões políticas e não científicas se constituiu e difundiu esta estultice teórica, fez dela a vergonha das ciências sociais norte-americanas com que, hoje em dia, ninguém mais se identifica.
Só resta assinalar aqui que assim como as ciências da vida não podem passar sem um esquema da evolução biológica — o que não converte ninguém em darwinista — assim também as ciências da sociedade e da cultura não podem prescindir do único esquema teórico capaz de tornar a história inteligível — e este será inevitavelmente evolutivo, ainda que não necessariamente evolucionista, de estilo tylonista ou spenceriano.
Tudo isso significa que, quando não se conta com uma teoria explícita da evolução, se corre o grave risco de cair num evolucionismo irresponsável por si mesmo, porque inexplícito.
Quando se fala, por exemplo, de Revolução Industrial no plano tecnológico, ou de Revolução Socialista no político, se está usando categorias que só têm sentido dentro de uma concepção evolutiva da história. Isto é, aliás, o que se faz habitualmente sem maiores conseqüências. Fazê-lo, porém, pretendendo ser expressamente antievolucionista é pecado de indigência teórica.
Quero comentar ainda duas ordens de objeção nominalmente marxistas que se opõem às teses de O Processo Civilizatório.
A primeira diz respeito à noção de feudalismo, que conceituamos não como uma etapa da evolução sócio-cultural situada entre o Escravismo e o Capitalismo, mas como uma inteligência geral de regressão histórica. Assim concebida, seria um tipo geral de vicissitude em que até agora tendiam a cair e até a recair reiteradamente todas as altas civilizações.
Os europeus e os norte-americanos (como um transplante ultramarino de sociedades européias) têm dificuldades de assumir esta visão porque, identificando o feudalismo com a Idade Média que está no seu próprio passado, são levados a concebê-lo como uma ponte histórica entre o Escravismo greco-romano — seus supostos ancestrais, mais dignificatórios do que reais — e os alvores do Capitalismo Mercantil, no Renascimento.
A luz desta percepção eurocêntrica, o milênio de atraso medieval — em que desaparece toda a produção mercantil, em que a imensa estrutura do Império Romano se coalha em milhares de feudos — é alçada fantasiosamente da condição de seqüência histórica específica à de categoria teórica geral da evolução humana.
Tenta-se até fundamentar a tese, buscando no Feudalismo assim concebido signos do progresso que através dele se teriam dado no trânsito da Escravidão ao Trabalho Assalariado através da Servidão. A verdade é que não há tais avanços. O que se toma por sinal deles já são prenúncios das novas formações pós-feudais.
O grave, porém, desta concepção, é que dado o seu caráter genérico, ela conduz à tendência nefasta de catalogar como “feudalismo” tudo que não seja Escravismo puro nem Capitalismo pleno.
Nossa concepção de Feudalismo, ao contrário, além de proporcionar explicações satisfatórias para as regressões cíclicas que experimentaram as civilizações egípcia, mesopotâmica, indiana e chinesa, etc., permite superar a estreiteza da concepção anterior.
Esta, além de não explicar nada — nem mesmo a história medieval européia — impossibilita entender a natureza real das revoluções socialistas não obreiras nem pós-capitalistas que são, aliás, as únicas que se conhece.
Esta qualidade é que fazia aquela concepção tão cara a Stalin quanto sua obsessão pelo caráter democrático-burguês — porque pós-feudal — de toda revolução nas áreas neocoloniais. Dentro desta percepção, Fidel haveria feito a revolução por ignorância.
Outra reserva pseudomarxista ao esquema conceitual de o Processo Civilizatório vem da escolha do desenvolvimento da tecnologia como o critério básico de construção do nosso esquema de evolução sócio-cultural.
Alega-se, aqui, que esta postura importa em invalidar o critério marxista que faz das lutas-de-classe o motor da história e do desenvolvimento dos modos-de-produção o critério fundamental da evolução social.
Não há nesses argumentos senão palavreado vazio. Primeiro, porque não negamos a luta-de-classes, apenas assinalamos que apesar de serem tão importantes, elas não se prestam ao papel de categorias diagnósticas da evolução humana.
Tanto é assim, que muitas das suas formas básicas se reiteram em formações sociais inteiramente diferentes e com defasagem evidentes – como o Escravismo romano e o Escravismo brasileiro – o que, se ratifica por um lado sua relevância, comprova, por outro lado, sua desvalia como critério distintivo de etapas da evolução.
Em segundo lugar, porque os componentes estratégicos do modo-de-produção para o estudo da evolução social são precisamente os meios-de-produção, vale dizer, a tecnologia o não as relações-de-produção, que seriam os antagonismos de classe acima referidos.
Contestar em nome de Marx a utilização do critério tecnológico no estudo da evolução social humana é tanto mais absurdo porque é o próprio Marx quem reclama no primeiro tomo de O Capital (1961:303) a necessidade imperiosa de se escrever a história crítica da tecnologia. Isto porque, a seu juízo, ela seria, no plano social, o equivalente da obra de Darwin no plano da evolução das espécies.
Com efeito, depois de salientar a importância da história da tecnologia natural de Darwin, Marx pergunta: Será que a história da criação dos órgãos produtivos do homem social (quer dizer, dos meios-de-produção, isto é, das técnicas produtivas, esclareço eu) que são a base natural de toda organização específica da sociedade, não merece a mesma atenção?
Conforme se verifica, foi Marx quem me pediu que escrevesse O Processo Civilizatório. Obviamente, ele esperava uma obra mais lúcida e alentada do que minhas forças permitiam. Ainda assim, fico com o direito de crer que, apesar de tudo, o herdeiro de Marx sou eu.
[1] Este debate foi publicado no Vol. 114 de 1970 de Current Anthropology e republicado em livro sob o titulo de Configurações Histórico-Culturais dos Povos Americanos, no México (1972), em Montevidéu (1972), no Rio de Janeiro (1975) e em Buenos Aires (1976).
