[ARTIGO] O CENTENÁRIO DE ROBERTO SILVEIRA, maior líder popular da história fluminense.

Escrito por Daniel Albuquerque Abramo e cedido exclusivamente para a equipe d’A coisa pública brasileira.


No renomado ensaio “Teses sobre o Conceito de História”, o filósofo alemão Walter Benjamin reflete sobre a noção de história, abordando o uso de fábulas e mitos.

Ele também discute a dialética entre lembrança e esquecimento, que influencia o imaginário coletivo sendo manipulada pelas classes dominantes para exercer seu poder sobre a classe trabalhadora.

Essa perspectiva é relevante para compreender o golpe de 1964 no contexto brasileiro, cujo objetivo era alinhar o país aos Estados Unidos e eliminar a influência da esquerda, não apenas diretamente, mas também no imaginário coletivo.

Da mesma forma, se faz importante destacar que em 11 de junho de 2023, comemorou-se o centenário de Roberto Silveira, líder popular de destaque ao lado da classe trabalhadora, como governador do Rio de Janeiro. Apesar de tal importância histórica como o maior líder popular da história fluminense, atualmente Silveira é alvo de um claro apagamento histórico.

A justificativa não poderia ser outra. Silveira foi um líder popular engajado nas lutas da esquerda fluminense — desde seu envolvimento no movimento estudantil durante a Segunda Guerra Mundial — e sua ascensão ao mais alto cargo do governo do Rio de Janeiro fortaleceu uma aliança de caráter ideológico nacional-popular, consolidando os princípios defendidos por essa aliança.

No entanto, devido à grandiosidade de seu exemplo para a classe trabalhadora, a historiografia dominante ocultou a importância de Silveira e retirou seu lugar do nosso conhecimento histórico.

A trajetória de Roberto Silveira até alcançar cargos de destaque no governo estadual e no PTB oferece importantes lições para os socialistas e trabalhistas contemporâneos. Foi um dos principais representantes do movimento nacionalista de esquerda de sua época e teve que enfrentar desafios complexos para acumular poder e fornecer apoio institucional a um movimento de massas radicalmente reformista.

É crucial entender como Silveira e o PTB fluminense conseguiram superar a poderosa oligarquia do estado do Rio de Janeiro, apesar das circunstâncias desfavoráveis.

Diante do panorama atual, é fundamental que os trabalhistas e socialistas se atentem a um dos maiores eventos da vida política fluminense no século XX, lamentavelmente apagado pela historiografia das classes dominantes: A grande marcha de Roberto Silveira contra Amaral Peixoto pelo interior do estado do Rio de Janeiro e a formação de um movimento de massas.

A grande marcha de Silveira pelo estado do Rio de Janeiro, iniciada em torno de 1947, teve como objetivo estabelecer diretórios municipais do PTB por todo o interior, prezando para que estes fossem verdadeiramente populares, contando com a participação dos excluídos do sistema de poder existente.

Importante destacar que, em muitos casos, o movimento de Silveira não auxiliou apenas o trabalhismo, mas todo o movimento socialista nas localidades onde eram fundadas as sedes do PTB. Essa marcha também teve um papel significativo ao posicionar Silveira e o PTB fluminense como líderes na crítica ao domínio do “amaralismo”, que prevaleceu no estado do Rio de Janeiro desde a intervenção de Amaral Peixoto durante o período do Estado Novo.

Embora tanto o “amaralismo” quanto o PSD, assim como o “robertismo” e o PTB, tenham surgido a partir da Revolução de 30, Silveira conseguiu expressar sua visão singular sobre o legado de esquerda da utopia revolucionária de 1930 e do varguismo, além de fortalecer as lutas e valores associados a esse processo histórico.

Tal movimento por parte de Silveira ganhou força e contou com a participação de trabalhadores, estudantes, militantes do movimento nacional-popular (como nacionalistas de esquerda e socialistas) e os excluídos do sistema de poder estabelecido, especialmente nas áreas rurais controladas por oligarquias.

A luta pela terra e pela reforma agrária, assim como a industrialização nas áreas urbanas, foram questões centrais para o movimento que acabou por ser liderado por Silveira.

Da mesma forma que o brizolismo, — um fenômeno político que desempenharia um papel central no futuro do Brasil — começava a se manifestar como a agenda mais radical do PTB, o robertismo também se desenvolvia de forma autônoma na mesma direção, tendo como pano de fundo o contexto político local do Rio de Janeiro.

Embora Silveira não fosse propriamente comunista ou marxista, ele seguia as diretrizes do trabalhismo com convicção e honestidade. Por isso, Silveira sempre tratou com justiça os comunistas e socialistas, reconhecendo a afinidade de suas lutas devido à interpretação coerente que ele fazia de seu nacionalismo.

Isso pode ser observado em seu engajamento na campanha pela entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, sua oposição à participação brasileira na Guerra da Coreia e sua defesa da causa “O petróleo é nosso”, sempre ao lado de socialistas, sindicalistas e comunistas.

Tal fato também é possível de ser observado na atuação de Silveira como governador durante o evento que ficou conhecido como “Revolta das Barcas”, impedindo que manifestantes fossem reprimidos de forma desproporcional e arbitrária e defendendo o interesse público e dos trabalhadores.

Podemos dizer que tanto o avanço da luta trabalhista ao nível nacional, quanto a luta local trabalhista, nacionalista e socialista no Rio de Janeiro levaram Roberto Silveira a desempenhar um papel histórico significativo para a sociedade fluminense e para a esquerda brasileira.

Exatamente por isso temos que refletir. O esquecimento de Silveira, um líder popular cuja eleição foi celebrada e cuja morte trágica comoveu a sociedade, não pode ser atribuído ao acaso, mas sim a uma política deliberada de apagamento dos heróis populares.

No centenário de Roberto Silveira, não apenas os trabalhistas do estado do Rio de Janeiro, mas socialistas de todo o Brasil deveriam refletir sobre a importância da grande marcha de Silveira pelo interior do estado, estabelecendo diretórios populares e fortalecendo o trabalhismo e o socialismo em sua totalidade. Roberto Silveira agiu com coragem e determinação, não esperou passivamente pelos acontecimentos.

É fundamental combater o esquecimento de nossos heróis e camaradas que sempre lutaram em defesa de nossa pátria e povo, especialmente neste ano em que celebramos o centenário de Roberto Silveira.

Essa luta pela memória nos permitirá avançar na construção e disseminação de um trabalhismo do século XXI, que seja o caminho brasileiro para o socialismo e para a libertação nacional. Devemos mostrar que a chama do processo de Revolução Brasileira, iniciada com o movimento de 1930, continua acesa e pronta para guiar-nos em direção a um futuro mais justo e um tempo bem melhor para se viver.

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