A coisa pública brasileira dá sequência em sua série especial de textos, discussões e reflexões sobre ciência militar. Neste segmento, selecionaremos para reprodução trechos e obras de autores clássicos, modernos e contemporâneos que abordam a área, bem como produção autorais brasileiras via colaboração cujos assuntos sejam considerados relevantes para os estudos e reflexão brasileira. Caso tenha interesse em colaborar com algum material autoral, entre em contato conosco através das nossas redes sociais. Prosseguimos com nosso estudo, portanto, com o fichamento e comentários acerca do primeiro capítulo de “A arte da guerra” de Sun Tzu, por Daniel Albuquerque (Nelson), disponível originalmente no Medium.
Capítulo 1: Planejamento Inicial — Análise:
O general Sun Tzu começa o primeiro capítulo de sua obra definindo a arte de gerir a guerra como sendo algo de fundamental importância para o Estado, e argumenta que essa é uma questão de vida ou morte, e que pode resultar em vitória ou derrota, e que portanto esta questão nunca poderia ser tratada com negligência ou de forma pouco clara. Algo que denota que Sun Tzu estava ciente da necessidade da criação de uma sólida teoria militar, pautada na realidade, com a intenção de maximizar as vitórias, e sobretudo eliminar as derrotas.
Após essa breve exposição, o autor argumenta que a arte da guerra é sempre regida por cinco fatores:
1: Leis morais;
2:Espaço;
3:Tempo e Clima¹;
4:Método;
5:Comandante;
Sobre esses cinco fatores que regem a arte da guerra, Sun Tzu nos dá as seguintes informações:
Leis morais: Sobre esse tópico, o autor nos diz que as Leis morais fazem com que os “subordinados” executem as ordens do comandante, sem recear nenhum perigo. Como antes exposto na análise da primeira sentença do capítulo, os conceitos de “Justiça ( Yì/義)”, “Benevolência(Rèn/仁)” e “Integridade moral (Xìn/ 信)”, desempenham um papel importante para o entendimento do que o autor caracteriza como “Leis morais”. Essa categoria, “Leis morais”, dentro do sistema de Sun Tzu, diz respeito a adequação do comandante e dos comandados, a leis formais, mas sobretudo as informais, e sociais. Essa é uma categoria relacionada a unidade do grupo, em um pacto social em que seguem regras comuns. Um grupo o qual o líder estipula, preferencialmente de acordo com as necessidades de cada qual, preceitos e normas, e os segue de forma exemplar, contagiando e impactando em seus comandados, é organicamente mais unido e coeso, e pode superar adversidades. Notadamente, essa é uma categoria que versa sobre o espírito, a unidade e a moral do grupo.
Espaço: Sobre esse tópico, o autor nos diz que, o espaço inclui tanto dimensões, como distante e próximo, características do relevo, como vastidões, campos, e passagens estreitas, quanto risco e segurança, e a possibilidade de morte ou vida. Essa categoria diz respeito ao terreno, mas não necessariamente em um sentido restrito, mas em um sentido mais geral, se refere a uma série de conhecimentos geográficos. Veremos, mais adiante, Sun Tzu falar sobre espiões e inteligência militar, ainda assim, é importante destacar que, muitas vezes na história, para obter dados referentes a geografia, ao terreno, a cultura local e outras informações pertencentes ao que se refere o espírito da categoria “Espaço”, impérios cooptaram cidadãos inimigos.
Tempo e Clima: Sobre esse tópico, o autor nos diz que, essa categoria significa ao mesmo tempo, noite e dia, calor e frio, e as estações do ano. Se conhecer a geografia aparente e o relevo é bom, conhecer os climas em cada tempo, em determinado espaço geográfico é o necessário para poder utilizar com completude, o terreno como arma e armadilha
Método: Sobre esse tópico, o autor nos diz que, por método se entende a divisão do exército em subdivisões apropriadas, a organização e preservação das estradas e da logística de transporte de suprimento até onde o exército está posicionado, assim como o controle e a gestão dos gastos militares. Essa categoria, em sua lógica interna, diz respeito a forma como obteremos nossos objetivos e pontos estratégicos, bem como as ferramentas e o tipo de organização necessários para tal. O método está intimamente ligado a tecnologia.
Comandante: Sobre esse tópico, o autor nos diz uma importante frase escolhida para análise no final deste capítulo:
“O comandante apoia sua autoridade nestas virtudes: sabedoria, justiça, coragem, rigor e humanidade.”
Sobre esses cinco fatores, o autor nos diz que esses devem ser familiares a todos os comandantes e soldados, e pondera que se estes os conhecem, serão vitoriosos, senão, serão derrotados e fracassarão.
Após isso, o general, afirma que diante da dúvida de avaliação sobre quem tem mais chances de vencer e quem tem mais chances de perder em um conflito político-militar, é possível prever as tendências a partir de sete questionamentos:
1:“Qual dos dois comandantes está imbuído na moralidade?”. Em outras palavras, qual dos comandantes domina a balança moral?
2:“Qual dos dois comandantes é mais talentoso?”. Em outras palavras, qual dos comandantes é tecnicamente superior em estratégia e teoria militar?
3:“Quem é o detentor das vantagens que derivam do tempo/clima e do espaço/terreno?”.
4: “ Em que lado a estratégia é mais rigorosamente elaborada?”. Existe uma diferença grande entre ser o comandante mais talentoso, algo individual, e ter uma estratégia mais rigorosamente elaborada, algo em boa parte coletivo.
5: “ Qual é o exército mais forte?”. Em outras palavras, qual dos dois lados tem mais tropas, melhores armamentos, ferramentas e logística.
6: “Em que lado os oficiais e soldados são mais disciplinados e bem treinados?”. Tendo essa pergunta como critério, Sun Tzu demonstra objetivamente que não basta apenas ser detentor do exército mais forte para obter vitórias.
7: “Em qual dos exércitos há maior justiça, tanto na recompensa quanto na punição?”. Essa pergunta, como critério, versa sobre a unidade e o espírito do grupo, e é relacionada aos conceitos de “Justiça ( Yì/義)”, “Benevolência(Rèn/仁)” e “Integridade moral (Xìn/ 信)”.
Após expor os cinco fatores que, segundo o autor, regem a arte guerra, e expor sete perguntas que atuam como critério objetivo para a previsão de tendências de vitória ou derrota, este alude para o fato de que uma vez que nos encontremos em posições favoráveis, para nos utilizarmos destas e nos adaptarmos ao meio.
Segundo o autor, a arte da guerra é também a arte da dissimulação. Portanto, expõe o general, quando estamos capacitados para o ataque, devemos denotar incapacidade, quando estamos perto, é interessante que nosso adversário pense que estamos longe. Sun Tzu recomenda a utilização de iscas para atrair os inimigos, bem como o ato de simular desordem interna, para esconder uma intransponível organização coletiva.
O autor segue com seus conselhos e recomenda que, se o seu oponente tem temperamento colérico, irrite-o, para derrubá-lo mentalmente e atrapalhar sua tomada de decisão. Uma estratégia observada no futebol, sobretudo, sul-americano, conhecida como “catimba”, que visa a provocação. Sun Tzu recomenda o ato de dissimular sua real força, de forma a tornar seu oponente arrogante e vence-lo de surpresa, algo certamente proibido em mesas de sinuca, onde alguns golpistas se utilizam desse estratagema para fazer certo dinheiro.
Tais recomendações parecem estar muito relacionadas ao conceito Sabedoria ( Zhì/ 智) ), previamente analisado, sobretudo quanto ao caráter ligado a astúcia e à esperteza. Para um brasileiro, se torna difícil não relacionar esses conselhos do autor aos conceitos de drible e finta, muito presentes tanto no futebol brasileiro quanto na capoeira.
Ao finalizar seu primeiro capítulo, o autor nos diz que, o comandante que vence muitas batalhas, também é alguém que planejou e pensou muito e afirma que, planejar bastante, leva à vitória, planejar pouco leva à derrota, e que não planejar nada, leva ao desaparecimento e ao esquecimento histórico. Com isso, Sun Tzu novamente nos passa a noção de que a arte da guerra é coisa muito séria para ficar entregue aos deuses ou ao acaso, e deve ser estudada e conhecida pela humanidade, para entender seus mecanismos e evitar batalhas desnecessárias.
Nesse capítulo, o teórico Sun Tzu, lança as bases fundamentais para o início do estudo sobre teoria político-militar, leitura indispensável para quem quer entender a atual movimentação na geopolítica mundial e local.
Explicação sobre conceitos importantes:
“O comandante apoia sua autoridade nestas virtudes: sabedoria, justiça, coragem, rigor e humanidade.” Sun Tzu.
Introdução:
Já nessa pequena sentença contida no primeiro capítulo da obra que é considerada, com justiça, a bíblia dos tratados militares, o general e teórico chinês Sun Tzu nos demonstra aspectos fundamentais sobre a política e a guerra, em suas diferentes facetas.
Porém, antes de tudo, para compreender tal sentença, aparentemente das mais simples, é necessário levar em consideração alguns pontos fundamentais. Todas essas cinco qualidades sob as quais o comandante supostamente apoia sua autoridade, “sabedoria”, “justiça”, “coragem”, “rigor” e “humanidade”, tratam-se de traduções que podem se mostrar imprecisas, e por demais pautadas por uma interpretação subjetiva, a partir da perspectiva e linguagem dos tradutores e difusores da obra de Sun Tzu no ocidente.
Todas essas “qualidades” são, na verdade, conceitos provenientes da própria filosofia e cultura chinesas, em grande parte tributários da filosofia de Confúcio, o que pode prejudicar em muito a interpretação da sentença, se não buscarmos entender o que originalmente quis dizer Sun Tzu, com cada um desses conceitos. A barreira da língua, sobretudo para nós brasileiros não versados em mandarim, deve ser superada por uma busca, mesmo que breve, sobre a história e os significados destes conceitos, em seu país de origem.
SABEDORIA (ZHÌ/智):

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Sabedoria” é formado pela junção de outros três ideogramas. Shi( 矢), que simboliza a “flecha” ou o “Juramento”, Kou(口), que simboliza “boca” e “fala”, e Rì(日), que simboliza o “dia” e a “luz”.
Juntos esses caracteres(智/ Zhì) simbolizam a “Sabedoria”, mas não qualquer tipo de sabedoria, especificamente uma sabedoria ligada a capacidade de verbalizar pensamentos e explicar a realidade. Um tipo de sabedoria referente ao bom juízo e ao bom julgamento, e que também pode ser, por vezes, utilizada como sinônimo de astúcia.
JUSTIÇA(Yì/義):

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Justiça” é formado pela junção de dois outros ideogramas. Yáng (羊), que simboliza “ovelha” e “carneiro”, e Wo( 我), que simboliza tanto a noção de “ Eu”, quanto a de “ em si mesmo”. Cabe ressaltar que ovelhas e carneiros são vistos com bons olhos pela cultura chinesa, e por muitas vezes podem ser vistos como um símbolo da disciplina, da lealdade e do trabalho duro. Não por acaso, a junção desses ideogramas, em uma tradução literal, significaria algo como “ Tornar a si próprio uma ovelha” ou “ Eu sou um carneiro”.
Juntos esses caracteres (義/ Yì) simbolizam a “Justiça”, mas não todo e qualquer tipo de justiça, especificamente uma justiça pautada pelo auto-sacrifício e pela lealdade, em nome do correto.
CORAGEM(Yong/勇):

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Coragem” ou “Bravura” é formado pela junção de outros dois ideogramas. Yòng( 用), que simboliza uma ação ou algo sendo posto em prática, como “utilizar” ou “operar” e nos trás certa noção de utilidade e bom uso de algo, e Lì(力), que simboliza “força”, “poder”, “ energia” e “habilidade”.
Juntos esses caracteres (勇/ Yong) simbolizam a “Coragem”, mas não todo e qualquer tipo de coragem, especificamente uma coragem ou bravura marcada pelo bom uso, ou seja, em nome de algo nobre, em geral do bem comum, da força, poder, e outras habilidades e qualidades em geral.
RIGOR(Xin/信):

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Rigor” é formado pela junção de outros dois ideogramas. Rén(人), que significa “ Pessoa” ou “ Humano” ou “ Benevolência”,e Yán (言), que representa “opinião”,“palavra”, “promessa” e “explicação”. A junção desses ideogramas significam literalmente “Verdadeiro”, “Confiável” e de “Palavra”.
Juntos esses caracteres (信/Xìn) simbolizam o“Rigor”, mas não todo e qualquer tipo de rigor, especificamente um tipo de rigor associado ao conceito de integridade moral e daquele que é rigoroso com a própria palavra.
HUMANIDADE(仁/ Rèn):

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Humanidade” é formado pela junção de outros dois ideogramas. Rén(人), que significa “ Pessoa”,“ Humano” ou “ Benevolência”,e Èr (二), que representa “Segundo”, “Diferente” e pode ser usado para diferenciar palavras similares.
Juntos esses caracteres (仁/Rèn) simbolizam a “Benevolência”, mas não todo e qualquer tipo de benevolência, especificamente um tipo de benevolência associada ao conceito de “Humanidade”e ”Bondade”. Este conceito é um dos pontos centrais do humanismo de Confúcio.
Analisando a sentença:
Após uma breve pesquisa sobre a origem e o significado desses conceitos, podemos finalmente analisar a sentença de Sun Tzu de forma justa, minimizando projeções provenientes de nosso tempo, língua e cultura, e tentando entender o que realmente tentou nos dizer o teórico chinês.
Ao nos dizer que o comandante apoia sua autoridade em cinco virtudes, o autor chinês já nos diz algo muito relevante antes mesmo de elencar tais virtudes. Precisamente ao nos dizer que a autoridade do comandante se apoia em algo, este nos passa a noção de que “autoridade” é condicionada a algo, as cinco virtudes nesse caso, e que por isso, esta não poderia nunca ser irrestrita,irrevogável, ou um direito natural de indivíduo ou de grupos. Pelo contrário, esta, por ser condicionada a algo, tem natureza transitória, deveria ser conquistada, e mantida através de práticas específicas.
Para além de uma nomeação burocrática para um cargo de poder, a verdadeira autoridade ante um batalhão é, antes de mais nada, uma questão política e de exemplo. Não existe soldado algum no mundo disposto a colocar sua própria vida em risco, ao seguir as recomendações e planos daqueles que ele não admira e sobretudo não respeita. Para conquistar a verdadeira “autoridade” sob suas tropas, o comandante deve, segundo Sun Tzu, executar na prática, essas cinco virtudes. Não por acaso, as práticas relacionadas aos conceitos “Justiça ( Yì/義)”, “Benevolência(Rèn/仁)” e “Integridade moral (Xìn/ 信)”, formam o núcleo duro da manutenção da “autoridade moral” e tem a ver sobretudo com respeito, enquanto as práticas relacionadas aos conceitos de “Sabedoria ( Zhì/ 智)”, e “bravura ( Yong/勇)” são, em geral, as ideais para a conquista inicial da “autoridade” em boa parte dos casos, e tem a ver sobretudo com admiração.
Essa simples sentença de pouco mais de uma linha, quando analisada, se mostra muito mais complexa, reveladora e carregada de sentido do que nos poderia parecer à primeira vista. Isso reforça o entendimento de que nada na obra de Sun Tzu pode ser considerado como trivial, e de que o debate acerca de sua obra textual “ A arte da guerra”, deve continuar também no século XXI.
