A coisa pública brasileira dá sequência em sua série especial de textos, discussões e reflexões sobre ciência militar. Neste segmento, selecionaremos para reprodução trechos e obras de autores clássicos, modernos e contemporâneos que abordam a área, bem como produção autorais brasileiras via colaboração cujos assuntos sejam considerados relevantes para os estudos e reflexão brasileira. Caso tenha interesse em colaborar com algum material autoral, entre em contato conosco através das nossas redes sociais. Prosseguimos com nosso estudo, portanto, com o fichamento e comentários acerca do primeiro capítulo de “A arte da guerra” de Sun Tzu, por Daniel Albuquerque (Nelson), disponível originalmente no Medium.
Capítulo 2: Administrando a guerra — Análise:
O general e teórico Sun Tzu, inicia o segundo capítulo de sua “Magnum opus”, conhecida em português como “A arte da guerra”, aludindo aos enormes custos da manutenção de uma guerra. O autor literalmente cita, conforme a realidade de sua época, o custo diário necessário para manter um contingente comumente utilizado em seu tempo para a maioria dos conflitos militares. Com isso, Sun Tzu começa a trabalhar uma noção que parece ser central ao capítulo e obra:
Em termos gerais, ou seja, não necessariamente monetários, quanto custa a guerra, sobretudo as mais longas?
Mais precisamente, podemos ver nesse capítulo, uma reflexão acerca da administração deste mesmo custo. Isso com certeza nos abre espaço para, em futuros capítulos dessa discussão, traçar toda uma frutífera análise da “Arte da Guerra” em seu fronte mais crítico, a produção. Neste momento, porém, nos deteremos sob os ensinamentos de Sun Tzu acerca da administração da guerra, em geral, o que também inclui questões muito particulares como o “estado de espírito” das tropas sob determinadas circunstâncias.
O teórico segue em sua análise nos dizendo que, por mais mobilizados e dispostos para a batalha que estejam os soldados, se a vitória tarda, suas armas se tornarão “pesadas”, e seu “ânimo”, abatido. O teórico termina o segundo aforisma do segundo capítulo, após reflexão, afirmando que, ao sitiar uma cidade, o comandante irá, com o passar do tempo, exaurir todas as suas forças.
Sun Tzu, ao seguir com seu pensamento, nos adverte:
“ Além disso, se a campanha for prolongada, os recursos do Estado não serão equivalentes ao esforço despendido.”
E arremata o raciocínio ao concluir:
“Ora, quando suas armas estão embotadas, seu ardor entorpecido, sua força exaurida e seus recursos escassos, outros soberanos poderão se insurgir para tirar vantagem de suas debilidades. Então, nenhum homem, por mais sábio que seja, poderá evitar as consequências que certamente advirão”
Em seu raciocínio, portanto, o autor nos remete a pensar acerca de custos de diferentes naturezas, em uma determinada quantidade de tempo gasto ao se travar uma guerra prolongada.
O teórico os relaciona, no plano material, na oposição entre “Custo para empreender a guerra”, considerando a tendência crescente de uma guerra prolongada e “Capacidade de produção e arrecadação daquele Estado”. Quando o primeiro em muito supera o segundo, de acordo com Sun Tzu, as coisas não vão nada bem, e o Estado que arca com os custos dessa guerra pode sofrer, e provavelmente sofrerá, sérias consequências.
Além disso, o autor, nos traz uma segunda oposição que em nada deve a sua antecessora. Ao relacionar o impacto da quantidade do esforço despendido pelas tropas, em determinadas situações, e em determinada quantidade de tempo, com o “estado de espírito” das mesmas. Nos trazendo então nossa segunda oposição, entre “Vigor físico e moral psicológica das tropas” e a “A dificuldade imposta pelas condições materiais em um certo intervalo de tempo”. Em uma guerra prolongada, a tendência do segundo termo desta oposição, é, em geral, crescente. Quanto mais tempo afastados de “casa” em uma guerra, na maioria dos casos, menor é o ímpeto das tropas e maiores são os desafios e custos inerentes a guerra. Quando o segundo termo desta oposição, em muito supera o primeiro, o arqueiro preciso não mais acertará suas flechas no peito do cavaleiro, o atirador de fuzil de precisão irá se embaralhar nas batidas de seu coração e não acertará seu alvo. Em situações como essa, não rara é a ocorrência de motins.
Essas duas oposições, inerentes a própria lógica e práticas da guerra e da realidade material, existem ao mesmo tempo, de forma não hierárquica, e podem nos auxiliar quando pensamos sobre os custos da guerra. Não podemos, porém, nos esquecer nunca, que essa ferramenta de análise deve ser utilizada de forma simultânea a uma extensa análise nas condições específicas do caso em questão. É especialmente importante tomar nota dos detalhes relativos a cada situação específica quando tratamos da arte da guerra. Condições muito particulares podem representar tanto uma possibilidade de derrota inesperada, quanto de uma vitória surpreendente para nosso adversário.
Sun Tzu prossegue, fazendo humor, ao criticar o prolongamento desnecessário de conflitos militares:
“Do mesmo modo, apesar de termos ouvido falar de precipitações estúpidas em batalhas, a inteligência nunca foi vista associada a procrastinações.”
O autor prossegue e afirma que nunca houve nenhum exemplo, até sua época, de guerra prolongada que trouxe ganhos para quem a travou, sobretudo de forma ofensiva.
Essa afirmação, a primeira vista, pode parecer generalista e bastante radical, mas tendo em mente que existe a possibilidade de, ganhar uma guerra e mesmo assim sair bastante enfraquecido, podemos inferir que Sun Tzu pensa de forma bastante similar a esse postulado em sua afirmação, fazendo uma alusão implícita a possibilidade de uma chamada “Vitória de Pirro”, isto é, uma vitória obtida a custo de um preço irreparável, que se observada sob uma perspectiva mais geral, de vitória não tem nada.
Seguindo com seu pensamento sobre o tema proposto, Sun Tzu, afirma que só aquele familiarizado com a natureza e o volume dos custos da guerra, onde o ser humano é matéria-prima, pode compreender a conveniência de leva-la adiante com rapidez. O autor reforça essa noção ao afirmar que o comandante habilidoso não recruta uma segunda milícia ou comando, e nem utiliza mais que dois carregamentos com suprimentos.
O mitológico General, tratando sobre esse tema, recomenda que, se possível, o comandante traga o próprio material bélico, e saqueie os suprimentos dos inimigos. Quando nos deparamos com os custos logísticos de abastecer tropas a longa distância, essa recomendação se mostra sábia. Sun Tzu chega a comentar que cada suprimento saqueado vale duas vezes mais que os nossos próprios, isso se dá por que na maior parte dos casos, menos energia e esforço é despendido ao saquear do que na produção e transporte de tais suprimentos.
O autor, ao seguir com o capítulo, inicia uma interessante digressão econômica sobre os custos para se manter tropas. Sun Tzu afirma que enormes são os gastos impostos ao povo enquanto este contribui em uma guerra distante, paradoxalmente, a presença das tropas em determinadas regiões de proximidade, em geral, aumenta a média dos preços das coisas, e preços elevados, igualmente esgotam os recursos do povo.
Quando as verbas públicas se esgotam e o povo está extenuado de colaborar, a próxima coleta de impostos provavelmente irá triturar o seu próprio povo e levá-lo a fome, a morte, e a tragédia.
Exatamente por isso, Sun Tzu, enfatiza sua opção pelo saque frequente e sistemático de todas as provisões inimigas possíveis, como forma de impedir esse efeito negativo dos gastos da guerra.
Terminada sua digressão econômica, Sun Tzu, começa uma reflexão sobre a necessidade de manter a moral das tropas elevadas. Para tal, devemos recompensá-las, nos diz o autor. Objetos saqueados e recolhidos como espólio, devem ser entregues como recompensa. Além disso, Sun Tzu, enfatiza a necessidade de tratar bem inimigos rendidos e prisioneiros, com a finalidade de assimilá-los e utilizá-los para aumentar nosso contingente.
Sun Tzu, termina seu segundo capítulo, aconselhando-nos a lembrarmos de que o objetivo deve ser a vitória, e não longas campanhas épicas, pois, como atesta o teórico, existe uma enorme dose de responsabilidade para aquele que gerencia a arte da guerra, segundo ele, este é o árbitro do destino do povo e da segurança da nação.
