[RESENHA] O marxismo nos trópicos: a construção da revolução teórica da Teoria Marxista da Dependência

Lucas Barros,
Secretário Nacional de Comunicação
,
Ação Popular Revolucionária – APR PDT.

O texto a seguir é uma resenha da obra “A Teoria da Dependência: do nacional-desenvolvimentismo ao neoliberalismo”, de Claudia Wasserman. A obra de Wasserman é única e inovadora. Para além de resgatar os fundamentos econômicos dessa corrente, ou seja, tratar do arcabouço teórico por trás da literatura dependentista, a autora vai tratar dos caminhos e descaminhos políticos e pessoais das principais cabeças da Teoria Marxista da Dependência – a corrente radical da Teoria da Dependência.

Ampliando o debate sobre a conjuntura intelectual das esquerdas brasileiras do séc. XX, o ambiente universitário do mesmo século – com foco especial para o papel da Universidade de Brasília –, a frutífera produção acadêmica no exílio pós-1964 e a tentativa violentamente fracassada de reinserção acadêmica e profissional no pós-redemocratização, Wasserman destrincha, à luz da história, a trajetória de uma das teorias que mais abalaram o pensamento social brasileiro, dessa vez, sob o ponto de vista dos próprios teóricos marxistas da dependência.

Fato é que os teóricos da corrente radical da teoria da dependência formaram o que de mais avançado poderia haver no pensamento social brasileiro e latino-americano. Mesmo que seus posicionamentos pudessem acarretar isolamento nos meios acadêmicos e fracassos políticos severos, jamais deixaram de lado suas corajosas posições. Jamais costearam o alambrado, como diria Leonel Brizola. Se opuseram as teses reformistas do PCB, rejeitaram a ideia de uma aliança com a burguesia nacional, tal como a ideia da existência de “restos feudais” na economia brasileira. Nadaram contra a corrente, contra a hegemonia, compraram enfrentamentos teóricos que ninguém mais compraria.

Em última instância, esse texto pretende contar a história de uma derrota. Uma derrota profundamente sofrida e dolorosa, que é sentida, até hoje, pelas centenas de milhares de brasileiros e latino-americanos que sofrem dos males do capitalismo dependente e do subdesenvolvimento. A derrota política e o apagamento intelectual – propositalmente impostos pelo pacto petucano neoliberal que pretende nos jogar de volta à República Velha – dos intelectuais da corrente radical da Teoria da Dependência foi o que de mais trágico poderia acontecer contra a nação brasileira.

Enfim, sem mais delongas e partindo para o texto, quero parabenizar o intelectual e escritor trabalhista Daniel Albuquerque, com quem eu tenho a felicidade de dividir as fileiras da Ação Popular Revolucionária (APR), pela construção de seu jornal, o A Coisa Pública Brasileira (ACPB), que tem sido um espaço verdadeiramente fecundo de debates críticos sobre a realidade latinoamericana e profundamente comprometido com a Revolução Brasileira.

Se o Peru de José Carlos Mariátegui teve Amauta, o Brasil de Daniel Albuquerque tem A Coisa Pública Brasileira.

Os primeiros passos da Teoria Marxista da Dependência: contexto intelectual e universitário

A Teoria Marxista da Dependência (TMD) nasce em um contexto de profunda ascensão intelectual dos chamados “intérpretes do Brasil”. O debate público, à época, era marcado por figuras-chave do pensamento social brasileiro como Darcy Ribeiro, Alberto Guerreiro Ramos, Nelson Werneck Sodré, Josué de Castro, Maria da Conceição Tavares, Celso Furtado, Caio Prado Jr e outros.

É o momento propício para o surgimento da Universidade de Brasília (UnB), fundada em 1962 por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, sendo essa uma universidade com um propósito inovador ao abrigar o que de melhor a intelectualidade brasileira tinha a apresentar e carregar em si uma concepção de contribuição com a libertação nacional, descrita na obra A Universidade Necessária, de Darcy Ribeiro.

De acordo com a autora:

Juridicamente concebida como uma fundação, a UnB ampliava a independência em relação ao Estado. Sua organização estava baseada em departamentos e institutos, ao invés da cátedra e da faculdade, próprias da universidade tradicional; o projeto pedagógico privilegiava otrabalho docente em equipe, a relação ensino-pesquisa e dava estímulo à realização de cursos livre, debates e seminários e à abertura de cursos de pós-graduação. Sua concepção da relação universidade-sociedade e, inclusive, de formação profissional e capacitação sindical, constituía outro diferencial da instituição, que abrigava intelectuais comprometidos em compreender e projetas as transformações que o país sofria naquela metade de século.” (p. 32) [grifo nosso]

Da mesma forma, aponta Theotonio dos Santos:

A UnB foi uma experiência extremamente rica no campo pedagógico, mas também pelo contato com o que havia de mais ousado na intelectualidade brasileira. Foi na UnB também que conheci André Gunder Frank e iniciamos sistematicamente uma colaboração de décadas com Ruy Mauro Marini que, junto com minha então esposa Vânia Bambirra, formamos um trio polemizado no mundo inteiro.” (p. 105)

Será em 1963, nos anais da Universidade de Brasília (UnB), que os quatro autores debatidos pela obra – os brasileiros Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro Marini e o alemão André Gunder Frank – se encontram pela primeira vez – não à toa, ficariam conhecidos como o “grupo de Brasília”.

Ali, iniciam uma trajetória que nunca foi finalizada, a constituição de uma tentativa de leitura do desenvolvimento capitalista por fora da centralidade do sistema. Ou seja, uma tentativa de compreender e explicar o subdesenvolvimento capitalista e a dependência.

Da mesma forma, Darcy Ribeiro, apesar de não ser um dos teóricos dependentistas, é essencial para a própria existência da corrente, visto que pessoalmente convidou Gunder Frank para assumir um cargo de professor de antropologia na UnB, após este ser convidado a se retirar da Escola de Chicago por opor-se as teses de Milton Friedman.

De acordo com Gunder Frank:

A metrópole, e, pelo menos toda a sua cúpula, nunca vai produzir ideologia, ciência social ou políticas de ajuda ao mundo subdesenvolvido para este se desenvolver. No futuro, assim como no passado, esses auxílios metropolitanos só puderam ajudar o mundo subdesenvolvido a se tornar ainda mais subdesenvolvido. Eu não posso, em sã consciência, associar-me a esse empreendimento no futuro, como fiz em algum momento no passado.” (p. 84)

Imersos em um ambiente hegemonicamente nacional-desenvolvimentista – tanto sob o ponto de vista do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) quanto sob o prisma dos Partidos Comunistas (PCs) –, o grupo de Brasília teria a tarefa de apresentar um contraponto a tais teses, que carregavam uma leitura equivocada da realidade nacional, como por exemplo a leitura sobre a existência de “resquícios feudais” na economia brasileira.

O debate público, à época extremamente acalorado entorno de temas como o horizonte socialista, a industrialização nacional, o subdesenvolvimento e a dependência, era apropriado para o surgimento da corrente teórica que ficaria conhecida como a Teoria Marxista da Dependência. A conjuntura, portanto, apresentava uma série de interpretações errôneas sobre a realidade brasileira que precisavam ser confrontadas.

Rompendo com a hegemonia: contra o nacionaldesenvolvimentismo

Os alvos da crítica desses intelectuais (da TMD) foram as teorias da
modernização de Rostow, o pensamento nacional-desenvolvimentista da Cepal e o nacionalismo do Iseb, o reformismo comunista do PCB e da sociologia da USP.
” (p. 64)

No interior do campo das esquerdas brasileiras, cumpre ressaltar, confrontavam-se algumas correntes econômicas de diferentes espectros políticos, entre elas, a teoria do subdesenvolvimento ligada à Cepal, a lógica de revolução democrático-burguesa ligada aos PCs e o chamado grupo de Brasília, ligado a TMD.

De maneira resumida, o desenvolvimentismo cepalino partia do diagnóstico de que era fundamental quebrar a tendência ao desenvolvimento desigual entre centro e periferia e, para tal, era necessário a liderança do Estado como o promotor do desenvolvimento por meio do incentivo à industrialização, a ampliação do mercado interno e a diversificação da produção nacional, de tal forma que o Brasil deixaria de ter uma economia predominantemente agroexportadora para ter uma economia industrial.

A crise do desenvolvimentismo – que abalou o prestígio das teorias do desenvolvimento – é resultado da inviabilidade de superar as barreiras da dependência e do subdesenvolvimento por vias capitalistas. A fórmula cepalina – a história demonstra – fracassou, e passou a ser profundamente questionada pelas autoridades políticas da esquerda brasileira.

De acordo com Claudia Wasserman:

O projeto de desenvolvimento autônomo, baseado na industrialização e que apostava nos estímulos advindos de um Estado organizado para defender as atividades produtivas nacionais, investir em setores estratégicos e minimizar o problema da deterioração dos termos de intercâmbio apresentava sinais de esgotamento e fracasso.” (p. 72)

Ao mesmo tempo que a própria realidade prática torna claro a inviabilidade de tal teoria, a revolução cubana causou um grande impacto popular e intelectual, enriquecendo o horizonte das esquerdas brasileira e latinoamericana. Expandiu, dessa forma, o panorama de alternativas viáveis para o Brasil, para além do mero nacional-desenvolvimentismo – comprovadamente insuficiente.

Da mesma forma, os PCs – a exemplo de um de seus maiores intelectuais, Nelson Werneck Sodré – partiam de um pressuposto equivocado de que a economia brasileira estaria submetida à “resquícios feudais”, ou seja, relações de produção pré-capitalistas.

Em decorrência de tal diagnóstico, cumpriria defender a aliança com setores da burguesia brasileira – a chamada “burguesia nacional” – para liderar uma revolução burguesa antifeudal e concluir o pleno desenvolvimento do capitalismo e das forças produtivas.

No que diz respeito as teses dos PCs e as da TMD, a autora deixa claro:

A novidade e a diferença entre as análises precedentes [dos PCs] e a interpretação dos intelectuais de Brasília é que as teses destes últimos procuravam inserir o Brasil no sistema capitalista mundial. Ao mesmo tempo, pretendiam superar os debates estratégicos e suplantar a tese da estagnação. Os autores do grupo de Brasília afirmavam que o desenvolvimento capitalista efetivamente ocorreria, mas sob a forma do subdesenvolvimento.” (p. 60)

Em oposição a Sodré, entretanto, Caio Prado Jr., ainda nos anos 60, ressalta a existência de uma “parte dependente e subordinada” do sistema capitalista internacional. Da mesma forma, tinha menos otimismo com o reformismo trabalhista e com o horizonte de uma revolução democráticoburguesa.

Segundo Wasserman:

Um dos méritos da análise caiopradiana foi rechaçar a ideia de uma burguesia nacional – motivo de sua disputa com as teses oficiais do PCB. Não concordava que existisse uma parcela da burguesia brasileira que pudesse defender o capitalismo autônomo, proclamado anteriormente pela Cepal.” (p. 78)

Nesse contexto, autores como o sociólogo uspiano Fernando Henrique Cardoso (FHC) e o chileno Enzo Faletto protagonizaram um contraponto, dentro da própria Teoria da Dependência, as teses da corrente radical da teoria da dependência. Inicialmente, negavam a superexploração do trabalho pensada por Ruy Mauro Marini, tal como acreditavam na possibilidade de haver pleno desenvolvimento capitalista em países de economia dependente e periférica.

No artigo “As desventuras da dialética da dependência”, de FHC e José Serra, os autores criticam o dilema apresentado por Theotonio dos Santos, “socialismo ou fascismo”. Além disso, Vânia Bambirra, na obra “O capitalismo dependente latino-americano” faz uma detalhada crítica a tipologia histórico-estrutural formulada por FHC e Faletto.

Da oposição às teses apresentadas, surge esta outra teoria que procurou desvendar as mazelas do mundo periférico como um todo e solucioná-las. Buscou ferramentas de interpretação da realidade periférica e a construção de um projeto alternativo para o subdesenvolvimento capitalista. A Teoria Marxista da Dependência. Entretanto, opostos aos principais partidos da esquerda – o PTB e o PCB – onde tais intelectuais poderiam militar?

A Polop: uma alternativa política ao velho PCB

A Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop) cumpriu um papel de alternativa partidária aos comunistas que partilhavam da crítica ao PCB que os autores da dependência haviam formulado. Tal organização abrigou Vânia Bambirra, Theotonio dos Santos, Ruy Mauro Marini – que, anteriormente, militaram juntos na Mocidade Trabalhista do PTB –, Moniz Bandeira – dissidente da Juventude Socialista do PSB –, entre outros.

Segundo a autora:

Nos três congressos da Polop, organizados entre 1961 e 1964, enfatizou-se a necessidade de radicalização das classes trabalhadoras brasileiras e proclamou-se como imperativa a superação das teses burguesas, do PTB, e reformistas, do PCB. Os encontros elaboraram o Programa socialista para o Brasil, em que se afirmava que o grau de evolução do capitalismo no país comportava e exigia transformações socialistas imediatas, sem qualquer etapa “nacional-democrática.” (p. 62)

A intelectualidade da Polop, em franca oposição ao pensamento nacional-desenvolvimentista hegemônico e ao reformismo comunista, estava na linha de pensamento que descartava a existência de “restos feudais” na economia brasileira e de uma burguesia industrial que toparia unir-se ao proletariado pelo desenvolvimento nacional.

A Polop teve pouco tempo de vida. Após o golpe de 1964, passa a articular a luta armada contra a ditadura militar, participando da organização da Guerrilha do Caparaó, liderada por militantes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de Leonel Brizola.

As marcas do exílio: o ciclo de ditaduras latino-americanas e as novas perspectivas intelectuais

O odioso e nojento ciclo de ditaduras latino-americanas, do qual o nosso Brasil também foi vítima após o Golpe de 1964, criou uma onda de exílios de intelectuais por toda a América Latina. A maior parte dos intelectuais brasileiros foram para as cidades de Santiago do Chile e para a Cidade do México, que viviam momentos de intensa euforia intelectual, sobretudo no campo das ciências sociais.

O Chile vivia a experiência do governo socialista de Salvador Allende, reivindicando a “via chilena ao socialismo”. Já o México era governado por Adolfo López, um governante de esquerda nacionalista que, ainda em 1964, deixaria o cargo para assumir o presidente da direita autoritária, Gustavo Díaz Ordaz Bolaños.

É a partir deste momento que o resto do globo começa a olhar com maior atenção a realidade latino-americana e o socialismo em tal região. Nos anos 60 e 70, a revolução cubana provocou uma ruptura teórica profunda no campo das ideias. De acordo com Vânia Bambirra, o movimento revolucionário cubano reacendia uma “tocha revolucionária” no continente.

Destaca Wasserman, que:

“Além do mais, foi uma época de ‘redescobrimento’ da América Latina nas universidades e centros de pesquisa do mundo inteiro. Estimulados por processos inusitados e originais, como a vitória da revolução cubana e seus desdobramentos, sobretudo relativos à latino-americanização da Guerra Fria, com a implantação de sucessivos regimes de segurança nacional nos países do Cone Sul, intelectuais do mundo inteiro se debruçaram sobre a história e as sociedades latino-americanas para compreender melhor esses processos.” (p. 90)

Esta onda de exílios, apesar de ter sido fruto de golpes abjetos, contribuiu com a constituição de novos paradigmas para pensar o socialismo na América Latina. O grupo de Brasília veio a verdadeiramente se afirmar enquanto intelectuais sérios e respeitados apenas no exílio.

De acordo com Bambirra:

“[No Chile] realmente me afirmei como intelectual, como professora, como pesquisadora e cientista social. Levantei voo. Adquiri autoconfiança, produto da segurança de que meu trabalho era sério e fundamentado. Comecei a realizar o sonho de entender o mundo para ajudar a transformá-lo. Apaixonei-me pela minha profissão.” (p. 93)

Inicialmente, André Gunder Frank partiu do Brasil para o Chile em 1964, sendo que em 1965 foi, a convite da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), lecionar no México, e em 1968 voltou para o Chile, onde permaneceu até o golpe de estado de setembro de 1973. Entre 1964 e 1973, encontrou Marini no México e Theotonio e Vânia do Chile.

Frank, após 1973, voltou para a Europa, em países como Alemanha, Inglaterra e Holanda, de onde nunca mais voltou. Theotonio e Vânia, por sua vez, como bom casal que eram, movimentavam-se juntos. Ficaram até 1966 clandestinamente no Brasil dirigindo a Polop, até que tiveram complicações com a ditadura e partiram para o Chile,
onde foram muito bem recebidos pelo Centro de Estudos Socio-Econômicos(Ceso), e permaneceram no país até o golpe de 1973, quando foram para o México.

Após o golpe chileno, Theotonio estava em uma lista das 10 pessoas mais procuradas pela junto de governo instalada em 11 de setembro. Ruy Mauro Marini, por outro lado, foi preso e torturado pela ditadura militar e teve de se exilar no México em 1965, onde permaneceu até 1971, quando foi convidado pelo Ceso para lecionar na universidade.

De acordo com Marini, o governo da Unidade Popular teria esvaziado a academia, levando os intelectuais para a administração pública. Com o golpe, Marini retorna ao México em 1974, para lecionar na Unam. Retornou definitivamente ao Brasil apenas em 1985.

Sobre o Ceso, Marini destaca:

“O Ceso foi, em seu momento, um dos principais centros intelectuais da América Latina. A maioria da intelectualidade latino-americana, europeia e norte-americana, principalmente de esquerda, passou por ali (…) O momento político que vivia o país, que tornara Santiago centro mundial de atenção e de romaria de intelectuais e políticos, fez o resto, além de incentivar o desenvolvimento de outros órgãos acadêmicos.” (p. 96)

De fato, o exílio estimulou a formação de redes de reconhecimento acadêmico em toda a América Latina. Da mesma forma, constituiu-se no exílio uma agenda nova, cheia de novidades, debatia-se o futuro do socialismo, a dependência, o subdesenvolvimento e os rumos do capitalismo periférico, além da experiência cubana. Ángel Rama, crítico literário uruguaio, aponta:

“Pienso que um libero imaginativo y talentoso como Las Américas y la
civilización de Darcy Ribeiro, hubiera sido imposible sin estos largos años de exilio que le permitieron recorrer y vivir por años em diversos países y zonas del continente.”
(p. 99)

Destaca-se, portanto, as marcas desse momento histórico impressas na produção intelectual e nos debates políticos e econômicos latino-americanos, no qual foram protagonistas os membros da Escola da Dependência. O exílio forçado, embora trágico, oferece aos teóricos da corrente radical da teoria da dependência uma plataforma para desenvolver uma nova agenda revolucionária.

Um ótimo resumo sobre o apontado foi o de Vânia Bambirra, “digo, como
acadêmica – e só nesse sentido -, bendito exílio
” (p. 101).

O DNA da Teoria da Dependência: a disputa pela paternidade

Cumpre observar a existência da chamada controvérsia da dependência – assim cunhada pelo economista Fernando Correa Prado –, ou seja, um campo de debates muito mais amplo do que simplesmente a Teoria Marxista da Dependência, que se utilizava do conceito da dependência como eixo central para explicar o desenvolvimento capitalista no Brasil e na América Latina.

A paternidade da chamada Teoria da Dependência foi, portanto, objeto de disputa pelas diversas correntes que debatiam o tema. Os autores da chamada Teoria Marxista da Dependência receberam diversas alcunhas, tal como “corrente radical da teoria da dependência”, “vertente de esquerda da teoria da dependência” e outros em tom mais pejorativo como “trotskistas” ou “neomarxistas”.

A denominação de “corrente radical da teoria da dependência” não apenas é, pessoalmente, a minha favorita e, portanto, a que eu costumo utilizar, como é também a que foi aceita e adotada pelo próprio grupo para referir-se a si mesmo.

O qualitativo “neomarxista” foi utilizado pelo economista Guido Mantega para referir-se aos teóricos da TMD. De forma rasa e não fundamentada, Mantega tenta desmoralizar tais teóricos e afastá-los da Teoria da Dependência. O interesse por trás era projetar FHC como o verdadeiro e legitimo representante da Teoria da Dependência, em contraponto aos chamados “neomarxistas”.

De acordo com Theotonio dos Santos:

Não quero entrar aqui no debate sobre quem iniciou a teoria da dependência. Fernando Henrique Cardoso e André Gunder Frank reivindicam muito sua autoria. Eu sou apontado por vários autores como seu fundador. Na verdade, como todo movimento de ideias, a teoria da dependência foi um produto coletivo, resultado da crise do modelo de substituição de exportações e do movimento populista na América Latina. No interior do movimento, formaram-se várias correntes e orientações diferenciadas que vão se separar com o correr do tempo.” (p. 116)

De fato, frente as outras correntes que enfrentavam esta disputa, a corrente radical da teoria da dependência carregava um diferencial único, a utilização e a adoção da metodologia e das categorias de análise marxistas.

Segundo tal corrente, a disputa em torno da paternidade da Teoria da Dependência está relacionada a um desvio da verdadeira origem da teoria, ou seja, a origem marxista. A Teoria da Dependência teria sido “impregnada” pelo pensamento desenvolvimentista.

Segundo Claudia Wasserman:

“Para Vânia, Ruy Mauro Marini, Theotônio e Gunder Frank, esse ‘desvio’ foi realizado pelos grupos funcionalistas e desenvolvimentistas. Por isso, a alcunha ‘marxista’ permitia que o ‘grupo de Brasília’ se diferenciasse das demais correntes presentes no início do percurso e responsáveis por esse ‘desvio’ indevido.” (p. 117)

A vitória da dependência: a tentativa de reinserção da intelectualidade crítica no limbo neoliberal

A promulgação da Lei da Anistia, em 1979, trouxe de volta a terras brasileiras os exilados políticos da esquerda brasileira. Apesar da ótima recepção das outras nações latino-americanas, os autores marxistas da dependência retornam ao Brasil, revelando o profundo compromisso com o próprio país.

Junto com a redemocratização brasileira, a insanidade neoliberal se aprofunda e definitivamente solidifica-se na economia brasileira. A década de 80 fica conhecida como a “década perdida”, tamanho o nível de estagnação econômica e de retração da atividade industrial.

De acordo com a autora:

“Nesse sentido, os intelectuais e políticos brasileiros deixaram um país onde, na década de 1950-1960, predominavam perspectivas otimistas sobre o desenvolvimento da economia e retornaram a um Brasil em forte crise de realização da atividade industrial, crise da dívida externa, índices altíssimos de inflação e grave desemprego.” (p. 148)

O retorno ao Brasil deixou uma coisa clara: a corrente radical da teoria da dependência decretava, ali, sua inquestionável derrota política e intelectual. A tentativa de reinserção no debate público foi humilhantemente fracassada. As polêmicas sobre o futuro do socialismo, a Revolução Brasileira e a América Latina já não mais eram o centro do debate público.

Wasserman pontua:

“As transformações do mundo socialista e o fracasso do comunismo determinaram, nos anos 1990, o abandono gradual da utopia socialista, cuja palavra quase desapareceu do vocabulário das esquerdas brasileiras.” (p. 152)

Ou seja, a sustentação da postura revolucionária e marxista no ambiente de redemocratização, para além da adesão ao brizolismo pedetista em um cenário de hegemonização da “nova esquerda” petista, levaram o grupo de Brasília a marginalização acadêmica e profissional.

Nesse sentido, destaca Theotonio dos Santos:

Em 1979, no México, havia organizado, na Divisão de Pós-Graduação de Economia da Unam, um debate sobre a volta da democracia no Brasil, em que trouxemos vários cientistas sociais brasileiros. Neste debate, comecei a sentir que a minha volta não seria tão bem recebida. Havia grandes divergências entre a minha visão do processo de democratização de nosso país e das implicações econômico-sociais e, sobretudo, de política econômica, em elação àquela que vinha presidindo grande parte dos pensadores sociais no Brasil”. (p. 159)

Já no campo das universidades, centros de pesquisa, jornais e revistas, os teóricos da dependência foram razoavelmente bem recebidos, apesar de ser mínima a inserção real no debate público. Marini assumiu a direção de um suplemento especial no Jornal do País e, com o jornalista e fundador do PDT Neiva Moreira, editou uma revista trimestral, chamada Terra Firme.

Também foi professor da Fundação Escola de Serviço Público do Rio de Janeiro (Fesp), onde tentou criar um curso de graduação em administração pública que foi inviabilizado, entre outras coisas, devido à derrota de Darcy Ribeiro nas eleições estaduais do Rio de Janeiro, quando foi demitido da Fesp. Mais tarde, foi reintegrado na UnB, em 1987, graças à intervenção do então reitor Cristóvão Buarque.

Theotonio dos Santos, por sua vez, participou de uma série de projetos acadêmicos ligados à Universidade das Nações Unidas (UNU). Sua esposa, Vânia Bambirra, foi convidada por Darcy Ribeiro, então vice-governador do Rio de Janeiro com Leonel Brizola, para trabalhar na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Também foi funcionária da Superintendência de Desenvolvimento Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.

Além do exposto, Vânia e Theotonio se ocuparam, majoritariamente, da docência universitária, tanto no departamento de economia da Universidade Católica de Belo Horizonte, quanto no Instituto Bennett de Ensino, no Rio de Janeiro, onde foram indicados por Moniz Bandeira para criar e implantar um curso de pós-graduação.

De acordo com Theotonio:

“A anistia política de 1979 trouxe-me de volta ao Brasil. Aqui não encontrei a mesma solidariedade que obtive junto aos povos irmãos do Chile e do México. A ditadura ainda dominava o ambiente acadêmico brasileiro e só pude obter posições instáveis como bolsista do CNPq ou em cargos acadêmicos temporários, como professor da PUC de Belo Horizonte e do Instituto Bennett.” (p. 167)

Theotonio dos Santos e André Gunder Frank, nessa época, sem superar ou deixar de lado os estudos sobre o sub-desenvolvimento latino-americano, a Revolução Brasileira e a Teoria da Dependência (muito pelo contrário), inseriram-se nos debates sobre as chamadas teorias do sistema-mundo, aproximando-se de tal enfoque em meio a um contexto de inevitabilidade da globalização e de neoliberalismo.

Segundo Theotonio:

“Dessa forma, descreveria meu percurso intelectual desde que cheguei ao México, no meu segundo exílio, em 1974, como parte do processo de elaboração de uma teoria do sistema mundial que vejo como uma fase superior à teoria da dependência.” (p. 186)

Fato é que outro fator importante a ser considerado na trajetória dos intelectuais do velho grupo de Brasília depois do retorno do exílio é que, em meio a decadência do ambiente acadêmico e universitário brasileiro e a dificuldade de reinserção no debate público, a atuação política surge como uma alternativa e, no caso de Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos, político-partidária.

Segundo a autora:

“O desprezo quase generalizado pela via insurrecional no novo contexto
cultural latino-americano e o retorno do pluripartidarismo no Brasil levaram Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro Marini de volta à militância político-partidária.”
(p. 173)

Theotonio e Vânia contribuíram, junto a Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Moniz Bandeira, Francisco Julião e diversas outras figuras-chave da intelectualidade brasileira, com a refundação do PTB, a partir da redemocratização denominado Partido Democrático Trabalhista (PDT).

De acordo com Theotonio:

“Comecei a trabalhar na rearticulação política do exílio brasileiro que levou, posteriormente, a minha definição no sentido de restabelecer o
trabalhismo no Brasil, o que me fez participar do congresso em Lisboa
que deu origem à reestruturação deste movimento trabalhista. Isso exigiu também de minha parte uma síntese entre minhas preocupações de ordem teórica sobre a questão do capitalismo contemporâneo, do imperialismo, da dependência, da transição ao socialismo e a pesquisa e análise da realidade brasileira.”
(p. 177)

Bambirra, da mesma forma, esteve intimamente conectada com o processo de fundação do PDT. Sobre Leonel Brizola, admite:

“Estou com você, porque sei que jamais serás um Allende, vale dizer, jamais entregará, por pressão militar, o poder outorgado pelo povo.” (p. 178)

Nesse contexto, Vânia contribui e muito com a definição programática do PDT, que além de trabalhista, se declarava socialista. De acordo com Vânia:

“Nosso Partido jamais tratou de erigir uma fórmula rígida ou um pretenso ‘modelo’ de socialismo. (…) Definir-nos como social-democratas? Não! Historicamente, em todas as oportunidades em que chegou ao governo, serviu de força estabilizadora do capitalismo.”

Theotonio se candidatou pelo PDT para o governo de Minas Gerais em 1982 e para deputado federal em 1986. Foi derrotado em ambas as eleições. Da mesma forma, Vânia foi candidata a deputada federal em 1982, sendo, também, derrotada.

Ruy Mauro Marini, por sua vez, não se filiou a nenhum partido político. Entretanto, esteve extremamente próximo ao PDT e, mais especificamente, de Darcy Ribeiro na campanha pelo governo do estado do Rio de Janeiro em 1982.

Segundo a autora:

Nossos personagens, sobretudo Theotônio e Vânia, que militaram explicitamente no PDT, mas também Ruy Mauro Marini, que, embora, não tivesse filiação partidária, contou com as únicas chances profissionais pós-anistia junto aos políticos do PDT no Rio de Janeiro, foram identificados com o radicalismo político de Brizola, Darcy Ribeiro e outros pedetistas mais radicais em uma época em que a maior parte da esquerda se posicionava a favor da conciliação.” (p. 180) [grifo nosso]

Em suma, houve, concreta e deliberadamente, uma exclusão dos autores radicais da teoria da dependência após a redemocratização. O isolamento dos autores tem motivações claras, como a adesão ao brizolismo em um ambiente de contínua hegemonização da “nova esquerda” petista, crítica ao populismo trabalhista e a insistência nas teses revolucionárias em um cenário de aprofundamento do anticomunismo e do neoliberalismo.

O reflexo disso é a maneira como o mercado editorial brasileiro, mesmo que progressista, trata a contribuição teórica da TMD. As obras de tais intelectuais foram publicadas no mundo inteiro, em línguas variadas, com edições sucessivas. Entretanto, no Brasil, até hoje, não temos edições de várias obras dos autores, não há espaço no mercado editorial brasileiro proporcional ao sucesso recebido por eles no
estrangeiro.

De acordo com Wasserman:

Suas ideias [dos teóricos marxistas da dependência] não envelheceram ou foram substituídas e recriadas; elas jamais foram sequer consideradas interpretações válidas para a realidade brasileira. Eles foram marginalizados pelo mainstream das ciências sociais. Lidos na África, Índia e toda a América Latina, Ruy Mauro Marini, Theotônio, Vânia e Gunder Frank tiveram muita influência no pensamento periférico, mas seus oponentes, sobretudo no Brasil, procuraram, de um lado, desqualificar suas interpretações e, de outro, apossar-se do conceito de dependência, deturpando o sentido dado por eles ao termo.” (p. 214)

Considerações finais: o sonho da Revolução Brasileira

“Se você não conhecia está temática [da dependência] tão bem ocultada pelos setores conservadores, não pense que vai encontrar aqui um repousante recanto para sua vida teórica. Aqui só há desafios teóricos e históricos gigantescos sobre os quais necessitamos trabalhar incansavelmente. Você está entrando em águas agitadas.” Theotonio dos Santos

A corrente radical da teoria da dependência não se constituiu simplesmente enquanto um grupo de intelectuais com pequenas contribuições ao debate público. Os autores dessa corrente revolucionaram o horizonte teórico das esquerdas latino-americanas.

Marginalizada nos ecossistemas acadêmico e político, a TMD deixa um legado que, cada vez mais, deve ser considerado uma referência crucial para entender as dinâmicas do capitalismo periférico. Em tempos de crescimento contínuo do neoliberalismo selvagem e da reafirmação imperialista, a luta pela emancipação do trabalho do jugo do capital deve estar orientada pelo profundo conhecimento da realidade particular da América Latina.

A trajetória histórica desses intelectuais é a trajetória de homens e mulheres que tiveram garra para desafiar paradigmas postos, que confrontaram o mainstream, que não se contentaram com as tentativas de explicar o subdesenvolvimento latino-americano apresentadas no séc. XX.

O estudo sobre a maneira pela qual o capitalismo latino-americano se insere no capitalismo internacional e as consequências de tal inserção inauguram as bases de uma teoria verdadeiramente comprometida com a Revolução Brasileira e com a
emancipação humana.

No início do texto, disse ser essa a história de uma derrota. A derrota dos que tiveram a coragem de estar do lado certo da história. De não se curvar a interesses meramente pessoais ou privados. O velho grupo de Brasília jamais deixou de lado seus posicionamentos, jamais deixou de debater criticamente a Revolução Brasileira e o horizonte socialista – mesmo quando o contexto acadêmico apontava para o sentido contrário.

Ao se isolarem das concepções dominantes do nacionaldesenvolvimentismo e do reformismo comunista, os intelectuais da TMD não estavam apenas apresentando um contraponto a teses econômicas e sociais divergentes, mas também propondo alternativas políticas radicalmente diferentes.

Enquanto isso, o nosso Brasil segue mergulhado no subdesenvolvimento e na dependência. Seguimos sem rumo, sem um projeto socialista de país, sem esperança no nosso futuro. Até o mero horizonte reformista – pela completa rendição da autodenominada esquerda brasileira – saiu da nossa perspectiva.

Os intelectuais marxistas da dependência não apenas desenvolveram um diagnóstico do desenvolvimento capitalista brasileiro, mas apontaram saídas para nossos mais graves problemas.

Inevitavelmente, precisamos, com a urgência de um país onde mais de um milhão e meio de crianças e adolescentes passam fome, construir a vindoura Revolução Brasileira. Revolução esta que será socialista, além de profundamente comprometida com a centralidade da questão nacional.

Revolução esta que irá superar o subdesenvolvimento nacional e a dependência. Significará, portanto, a segunda e verdadeira independência nacional.

Ao contrário do que as aparências estão a indicar, o socialismo, por ser não apenas um ideal, mas uma necessidade histórica, voltará a reverdecer, não tão pronto quanto desejamos, mas, em todo caso, muito antes do que os liberais esperam.” – Vânia Bambirra

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