Por: Equipe da A Coisa Pública
A revista ACPB, diante de mais uma onda de ataques de alguns setores reacionários que tentam se esconder por detrás do trabalhismo, traz para seu público um artigo escrito em 2020, por Daniel Albuquerque, em debate público no portal Disparada defendendo a fundação da APR.
Naquela época, tal como hoje, alguns tentavam utilizar o pensamento de Alberto Pasqualini fora de seu contexto para aplicar um verdadeiro revisionismo histórico, excluindo do trabalhismo todos os marxistas que participaram dessa história e ajudaram muito a fundar o PDT, como Vânia Bambirra, Theotônio dos Santos, Moniz Bandeira e muitos outros.
Outra estratégia da reação também foi iludir com a negação do fato que o PDT é um partido que nasceu assumidamente socialista. Felizmente, porém, por ação da APR e de nossos aliados, o socialismo retornou para o artigo primeiro do estatuto no VI Congresso Nacional do PDT. Sem mais delongas, desejamos que todos façam uma boa leitura!
Trabalhismo e revolução: O problema fundamental da memória para a tradição.
Em seu célebre texto chamado “Teses sobre o conceito da história”, publicado em 1940, o renomado filósofo marxista Walter Benjamin, lança as bases para uma das mais belas elaborações teóricas do ramo da filosofia da história.
Nesta obra, Benjamin, alude para o fato da duplicidade da construção histórica, que é, também, estória. Construída por nossos atos no presente, mas enquanto organismo vivo, dependente da transmissão da memória, e sobretudo, de qual classe tem o monopólio de escrever a história. O autor propõe, então, o que pode ser entendido como a existência de uma dialética da lembrança e do esquecimento, operada pela classe que detém tal monopólio.
Para além disso, Benjamin, de sua forma característica, em sua sexta tese sobre a história, também observa como o mesmo processo, por vezes, ocorre dentro de tradições e ideologias:
“Tese 6: Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso.
O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo.
O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.”
Walter Benjamin, “Teses sobre o conceito da história, 1940” — Tese número 6.
Sobre tal reflexão, é importante destacar que, o movimento trabalhista, e sua formulação teórica, não surgem, como os apologistas de visões idealistas da história poderiam afirmar, de personalidades ou pessoas, mas de demandas e agendas sociais bem delimitadas e reconhecidas, como bem afirma o historiador marxista Moniz Bandeira, fiel escudeiro de Brizola, em seu livro “Trabalhismo e Socialismo no Brasil”, no capítulo relativo a criação do antigo PTB.
Muitas correntes participaram da fundação do antigo PTB e na criação do que é a cultura política do trabalhismo no presente. Sindicalistas influenciados pelo marxismo e pelo anarquismo, socialistas utópicos, socialistas cristãos, nacionalistas, positivistas, e até mesmo alguns partidos regionais trabalhistas, todos participaram da fundação do antigo PTB como demonstra o historiador Wendel Pinheiro em seu livro de título “Um tempo bem melhor para se viver”. Pensar diferente disso, seria simplificar as coisas.
Nesse sentido, os critérios e marcos temporais utilizados por nossos detratores, por demais metafísicos, ignoram uma multiplicidade de fatores e causas, terminando por anular o nexo histórico, e delimitando o debate na figura de um teórico em especial e em um determinado período histórico.
Se estivéssemos tecendo este debate em 1945, provavelmente não haveria nada a declarar. Mas será mesmo que, em 2020, já não tenha ocorrido um aprofundamento deste debate? A tradição intelectual do Trabalhismo Brasileiro se encerra, então, em Pasqualini, e vivemos em um hiato de 75 anos, onde não existiram, por exemplo, Darcy Ribeiro, Alberto Guerreiro Ramos, ou Theotônio dos Santos?
Espanta que o retorno a um Pasqualini idealizado e imaginario, pareça se dar, exatamente para ignorar o que veio após este, em um outro contexto, onde as contradições em nossa sociedade afloravam. Porque o foco em Pasqualini, mas escolher não citar, por exemplo, o Brizola do pré-64?
Se apoderar da própria história, é ato de rebeldia, que não deveria ser deixado de lado sobretudo por nós, trabalhistas, os mais atingidos pela dialética da lembrança e do esquecimento operada pela classe dominante brasileira, visto que, em parte, a funesta ditadura militar, cumpriu papel lógico de frear o avanço do antigo PTB, mas sobretudo, atingir e macular sua história, lhe negar memórias, perseguindo seus principais militantes e teóricos, sobretudo, evidentemente, os mais radicais e afinados com a perspectiva da construção do socialismo no Brasil, bem como pensadores práticos da questão revolucionária. Ironicamente, estes são os mesmos apagados e desbotados nas memórias daqueles que este texto pretende responder.
Exatamente nesse sentido, e novamente respondendo sobre trabalhismo e revolução, trago para os leitores deste debate, o trecho abaixo, que figura a página 33, do livro “Trabalhismo e Socialismo no Brasil” de Moniz Bandeira, que explica sobre a posição de Brizola, no já referido período, após extensa reflexão sobre o caso cubano, e é aparentemente esquecido por aqueles que fazem força para não conceber a possibilidade de existência de um trabalhismo revolucionário:
“A execução das reformas, reclamadas pelo desenvolvimento do Brasil, só seria possível com o estancamento do processo espoliativo, à base de profunda revisão nos termos de intercâmbio com os Estados Unidos. E isso acarretaria a sua reação. Brizola não se iludia. Estava já consciente de que a estrutura interna da sociedade brasileira e o processo espoliativo, dirigido pelos Estados Unidos, eram “partes inseparáveis do mesmo sistema“.
E dizia:
“Reconheço e proclamo que nos encontramos numa ordem capitalista, recolhendo migalhas. Mas situo-me entre aqueles que desejam abominar corajosamente, decididamente, os males do capitalismo. E, ainda mais, situo-me entre os que julgam que, para enfrentarmos os problemas que nos afligem que infelicitam nossas grandes massas populacionais, não poderemos fugir a muitas soluções de cunho nitidamente socialista.”[146] Brizola advertia que ou as reformas se realizavam democraticamente, ou o povo brasileiro irromperia pelo caminho da insurreição, o que ele considerava um direito[147], não somente contra a tirania, mas também para libertar-se da fome, da miséria e do atraso.” Moniz Bandeira, Trabalhismo e Socialismo no Brasil, Página 33.
Cabe dizer, não existe nenhum problema em defender os pontos de vista de Pasqualini, pelo contrário, mas, como apontado anteriormente em meu outro texto, “Caminho de ação Trabalhista”, é mais que importante a compreensão de que não podemos nos esquecer nunca que a tradição é algo vivo, e que tem uma história e um movimento de construção, por parte daqueles que erguem seu estandarte ao longo das eras, enquanto se relacionam com as demandas materiais da classe trabalhadora em cada período histórico.
Como sabemos, o Trabalhismo Brasileiro enquanto ideologia percorre todo um movimento histórico, refletindo, fazendo autocríticas, e constantemente se superando em termos de concepções, de forma que, o trabalhismo pensado por Pasqualini, foi extensamente submetido a críticas internas, e superado ideologicamente por seus sucessores intelectuais dentro do partido, que, em suas próprias concepções, como ocorre em toda escola de pensamento, ainda aludem aos pontos positivos do primeiro, sem o temor de criticar o que consideravam erros e equívocos, para com isso, avançar com a teoria.
O PDT é um partido que, a partir da carta de Lisboa e da Carta de Mendes, já nasceu socialista. Diferentemente do antigo PTB, em sua fundação, muitos foram os marxistas que participaram e auxiliaram ativamente em seu fortalecimento. Tivemos Luís Carlos Prestes como Presidente de Honra, sendo com isso legado ao PDT não apenas as memórias do antigo PTB, mas a maior parte das memórias da velha esquerda brasileira do século XX, que construiu o Brasil que amamos em oposição ao Brasil da elite e da classe dominante.
Apontar para momentos longínquos da história da tradição do trabalhismo brasileiro descontextualizando seu nexo histórico, a utilizando, porém, apenas como um compilado de argumentos prontos para posicionamentos, que no atual contexto, são, no mínimo dúbios e vacilantes, para além de um equívoco, é, também, uma espécie de revisionismo. Que, como todo revisionismo, mina a capacidade crítica de compreensão do real, e enfraquece as bases teóricas do movimento trabalhista.
Rio de Janeiro, Niterói, 24 de Dezembro de 2020.
Fonte consultada:
https://disparada.com.br/trabalhismo-e-revolucao-memoria/

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