Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.
A equipe da revista A Coisa Pública Brasileira traz para seu público o texto de título “Socialismo e Fascismo”, escrito por António Gramsci, célebre intelectual italiano, árduo defensor do socialismo científico, no ano de 1921.
Optamos por colocar esse texto em nosso site, pois retrata e relata um contexto muito similar ao que vivemos no Brasil nos tempos atuais. Onde uma extrema-direita militarista avança em sua concepção de contrarrevolução preventiva e a esquerda social-liberal, hegemônica enquanto representante da esquerda institucional, aceita vacilante sua derrota provando que é possível vencer a eleição e perder o poder e prestígio ao mesmo tempo.
Socialistas e Fascistas:
A posição política do fascismo é determinada pelas seguintes circunstâncias básicas.
1-Os fascistas, nos seis meses de sua atividade militante, se sobrecarregaram com uma bagagem extremamente pesada de atos criminosos que permanecerão impunes apenas enquanto a organização fascista for forte e temida.
2-Os fascistas puderam realizar suas atividades apenas porque dezenas de milhares de funcionários do Estado, especialmente nas forças de segurança pública (polícia, guardas reais, carabineiros) e na magistratura, se tornaram seus cúmplices morais e materiais.
Esses funcionários sabem que sua impunidade e suas carreiras estão intimamente ligadas às fortunas da organização fascista e, portanto, têm todo o interesse em apoiar o fascismo em qualquer tentativa que possa fazer para consolidar sua posição política.
3-Os fascistas possuem, espalhados por todo o território nacional, estoques de armas e munições em quantidades que são suficientes para criar pelo menos um exército de meio milhão de homens.
4-Os fascistas organizaram um estilo militar de sistema hierárquico que encontra seu ápice natural e orgânico no Estado-Maior.
É lógico que os fascistas não querem ir para a prisão e que, ao invés disso, querem usar sua força — toda a força que têm à disposição — para permanecerem impunes e alcançarem o objetivo final de todo movimento: manter o poder político.
O que os socialistas e os líderes da Confederação pretendem fazer para impedir que o povo italiano seja submetido à tirania do Estado-Maior, dos grandes proprietários de terras e dos banqueiros? Eles estabeleceram um plano? Eles têm um programa? Parece que não.
Poderiam os socialistas e os líderes da Confederação estabelecer um plano clandestino? Isso seria ineficaz, porque apenas uma insurreição das grandes massas pode esmagar um golpe reacionário; e insurreições das grandes massas, apesar de precisarem de preparação clandestina, também precisam da legalidade, de propaganda aberta para orientar o espírito das massas e preparar sua consciência.
Os socialistas nunca encararam seriamente a possibilidade de um golpe de estado, nem se perguntaram que provisão deveriam fazer para se defender e passar à ofensiva. Os socialistas, acostumados como são a mastigar estupidamente algumas pequenas fórmulas pseudomarxistas, rejeitam a ideia de revoluções “voluntaristas”, “esperando milagres” etc, etc.
Mas se a insurreição do proletariado fosse imposta pela vontade dos reacionários, que não podem ter escrúpulos “marxistas”, como o Partido Socialista deveria se comportar? Deixaria, sem resistência, a vitória para a reação? E se a resistência fosse vitoriosa, se o proletariado se levantasse e derrotasse a reação, que slogan o Partido Socialista daria: entregar as armas ou levar a luta até o fim?
Acreditamos que essas questões, neste momento, estão longe de serem acadêmicas ou abstratas. Pode ser, é verdade, que os fascistas, que são italianos, e que têm toda a indecisão e fraqueza de caráter da pequena burguesia italiana, imitarão a tática seguida pelos socialistas na ocupação das fábricas: irão recuar e abandonar à justiça punitiva de um governo dedicado à restauração da legalidade daqueles que cometeram crimes e seus cúmplices.
Pode ser esse o caso. No entanto, é uma tática ruim colocar a confiança nos erros de seus inimigos e imaginar que os inimigos são incapazes e inaptos. Quem tem força, usa. Quem sente que corre o risco de ir para a prisão, fará o impossível para manter sua liberdade. Um golpe de Estado dos fascistas, isto é, do Estado-Maior, dos proprietários de terras e dos banqueiros, é o espectro ameaçador que paira sobre essa legislatura desde o início.
O Partido Comunista tem sua linha: lançar o slogan da insurreição e levar o povo em armas à sua liberdade, garantida pelo Estado operário. Qual é o slogan do Partido Socialista? Como as massas ainda podem confiar neste partido, que limita sua atividade política a gemer, e propõe apenas garantir que seus deputados façam discursos “magníficos” no Parlamento?
Fontes consultadas:
https://www.marxists.org/portugues/gramsci/1921/06/11.htm
