[ARTIGO] A negação do messias individual, da tola fé, e do medo para a afirmação de um novo caminho!

O fim da era Ciro Gomes no PDT e o nascimento do messias coletivo.

Por: Daniel Albuquerque Abramo.

1-Introdução: Breve explicação.

O objetivo da presente reflexão é  tentar elaborar a análise mais correta possível sobre o momento histórico do movimento trabalhista. Utilizando o método dialético para, a partir da negação do messianismo idealista individual representado por Ciro Gomes, propor um novo messianismo revolucionário latino americano coletivo que possa ser a verdadeira nova fase do trabalhismo brasileiro, digna de ser conhecida como “o trabalhismo brasileiro do século XXI”.

Exatamente por isso, o leitor não deve esperar um texto que olhe pela ótica de Ciro Gomes, do cirismo ou quejandos. Tal artigo se trata de um respiro de “razão de APR” e “razão de partido”, em um período em que raras são as pessoas que ainda compreendem a importância da construção de um partido que represente a classe, bem como o verdadeiro sentido do que significa “defender o fio da história”.

2- A NEGAÇÃO DO MESSIAS INDIVIDUAL E AFIRMAÇÃO DO MESSIAS COLETIVO – SOBRE O FIM DA ERA CIRO GOMES NO PDT:

A saída de Ciro Ferreira Gomes do PDT rumo a outro partido marca o fim de importante período histórico para o Trabalhismo. A brilhante historiadora Ângela de Castro Gomes diz que é no funeral de lideranças políticas que entendemos a dimensão de figuras políticas e podemos rearticular seu legado. Nesse sentido, não pretendo avaliar o legado de Ciro, pois este está vivo, ainda pode errar e acertar antes do fim. Ainda assim, se faz necessária uma reflexão sobre todo o processo.

Ciro ingressou no PDT em um momento em que boa parte da juventude e militância de esquerda brasileira percebia o renascimento do marxismo e do trabalhismo, como formas de lidar com a ingerência estrangeira ocorrida em território brasileiro na década de 2010, culminando no golpe parlamentar de 2016. Foi responsável por simbolizar, para muitos, entre 2016 e 2022 a possibilidade de uma “terceira alternativa”, entre o ultra-liberalismo conservador e o social-liberalismo petista. Tem, portanto, o mérito que extrapola sua própria figura real e suas atitudes concretas, repousando parte de seu mérito, no próprio signo que representava.

Contudo, demonstrou claramente seus limites. Sobretudo em termos táticos e estratégicos entre 2019 e 22 , saindo completamente de prumo após o resultado eleitoral de nossa última eleição presidencial. Claro, isso não se deu apenas por erros de Ciro e sua equipe, o PDT falhou. Fez o desafio pela hegemonia da esquerda, mas não tinha forças objetivas para tal. Terminou por sofrer o pior ataque político midiático de sua história (2019 -2023) e recuar. Frustrando os planos de militantes que, não sendo formados no trabalhismo, por erros do próprio partido, não compreendiam o que estava em jogo em um nível macro. Pensando estes apenas em Ciro, e representando o “Cirismo”.

Ainda assim, muitas pessoas entraram de coração aberto no PDT, e talvez, ironicamente, já que vai embora, esse tenha sido seu maior mérito. Aqueles que ingressaram no PDT “ciristas”, e hoje defendem o trabalhismo como caminho brasileiro para o socialismo, entenderam após os erros de Ciro de 19 até 22, que não precisam esperar messias, um salvador, de forma sebastianista. Essas pessoas aprenderam que aquilo que projetaram no símbolo de Ciro Gomes, de 2016 até 2018, nós mesmos devemos fazer e construir, pois o símbolo, é fraco e uma mera ideia, enquanto as massas tem a verdadeira força e são o agente histórico.

Vá em paz para fechar sua vida partidária de clã, Ciro Gomes, o que você tinha que fazer pelo trabalhismo já foi feito.


3- A NEGAÇÃO DA FÉ INGÊNUA PELO PLANEJAMENTO:

Em 2022 lançamos pelo Núcleo Caminho Brasileiro para o Socialismo (atual APR-RJ), o livro “Escritos sobre teoria política para o trabalhismo brasileiro do século XXI“. Em tal livro, com artigos produzidos de 2018 até 2022, deixamos claro: os trabalhistas deveriam se organizar para e por si mesmos, e em benefício de sua linha política, para além da figura de Ciro Gomes se necessário fosse. Em tal obra, artigos como “Caminhos de ação trabalhista“, e “Trabalhismo e revolução: O problema fundamental da memória para a tradição“, se mostram mais atuais do que nunca.

Passados alguns anos, em 2024, no VI Congresso Nacional do PDT, defendemos pela APR, com a tese trabalhismo e hegemonia, uma linha de reconstrução de forças centrada nas bases e naquilo que falhamos de 2016 até 2022 para que seja possível novo desafio pela hegemonia da esquerda até 2030.

Os últimos acontecimentos, e análises de figuras e intelectuais relevantes de diferentes campos da esquerda brasileira reforçam hoje tais entendimentos. Enquanto alguns são pegos de surpresa, parafraseando Mao e Geraldo Vandré, a APR entende que existe um grande caos abaixo do céu, mas que a situação é excelente para quem sabe a hora e não espera acontecer.

4- A NEGAÇÃO DA IMPORTAÇÃO EM DEFESA DO MÉTODO:

Sem método e formação o liberalismo de esquerda encontra solo fértil num falso sentimento de superioridade moral e intelectual compartilhado pela pequeno-burguesia e setores culturalmente ligados ao cosmopolitismo burguês em relação à massa da classe trabalhadora.

Isso ocorre mais ou menos na mesma medida em que era “chique” para as dondocas e mauricinhos do começo do século XX demonstrarem, de forma artificial e deslocada do meio, o quanto mais sabiam sobre as novas modas da Europa.

5- A NEGAÇÃO DO LIVRE ARBÍTRIO EM ABSTRATO E AFIRMAÇÃO DO LIVRE ARBÍTRIO REAL:

Existem pessoas de esquerda que acreditam em coisas como “livre arbítrio” em abstrato. Não devemos capitular para o conceito liberal de livre arbítrio que ignora coerção. Isso não é livre-arbítrio, é uma forma perversa e eufêmica de controle. É exatamente por isso que devemos considerar o sub-emprego neoliberal uma nova forma de escravidão atrelada a um contexto em que NÃO EXISTEM OUTRAS ESCOLHAS OBJETIVAS. E não uma forma de “livre escolha”. Se não existe outra opção, não é escolha.” Ou morre de fome ou se mata de trabalhar de uber” não é uma escolha. Isso é algo básico nas ciências políticas para entender a teoria do poder e está sendo cada dia mais relativizado.

Na teoria liberal do poder, não existe problema em obrigar uma pessoa a tomar uma decisão alterando o contexto em seu entorno e tornando essa a única opção possível. Pois são considerados apenas os atos e escolhas individuais, desprezando-se o contexto e sua imposição sobre as escolhas possíveis. Como no famigerado argumento liberal de Joel Pinheiro da Fonseca para tentar defender a venda de órgãos de cidadãos extremamente pobres como sendo uma “escolha”.

Todas as outras formas de entender a teoria do poder rejeitam essa visão e consideram isso coerção e uma forma de aplicação de autoridade. Escolher quais são as opções que as pessoas que acreditam em “livre arbítrio” vão poder optar. Isso sim é poder e autoridade. Quem não entende isso desde cedo, engole as escolhas que lhe são impostas…

6- A NEGAÇÃO DO APAGAMENTO HISTÓRICO E O VERDADEIRO MESSIANISMO:

Estudar sobre trabalhismo e Brizola, sendo marxista e tendo vivido experiências de militância nesse âmbito e caldo de cultura por muitos anos, é ter a certeza de que, parafraseando livremente Benjamin: Os fragmentos de um passado que deveria ser, mas não foi, que ainda residem no presente, se compreendidos pelo materialista histórico, podem se transformar em potencial messiânico de construir um futuro, à partir de ações no presente, que venha a redimir os mortos e vencidos do passado.

Ou seja, como diziam Brizola e Darcy de forma bem mais simples e ainda assim refinada: com o fio da história somos capazes de construir um “tempo bem melhor para se viver”.

7- A NEGAÇÃO DO MEDO E AFIRMAÇÃO DE LIDERANÇA:

Quando o momento histórico é difícil, grandes lideranças políticas não podem se dar ao luxo de sentir medo ou paralisia. Sua única opção é mostrar um caminho por onde ainda seja possível trilhar. Motivando seus comandados com a elaboração de uma utopia possível.

Enquanto alguns oferecem fatalismo, imobilismo, e covardia. Nós nos mantemos em nossa rota e oferecemos um novo caminho.

8- A NEGAÇÃO DO REVISIONISMO – E AFIRMAÇÃO DE NOSSO PAPEL:

O contexto de rápida transição tecnológica, atrelado a quarta revolução industrial, representa uma brusca mudança na intensidade dos fluxos de informação, impactando profundamente no setor midiático e de propaganda. Isso é visível sobretudo no terceiro mundo, por conta das assimetrias da globalização e da escalada de competição e da guerra de propaganda entre os países centrais do capitalismo e os BRICS. O avanço de tais formas de mídia, atrelados a mídia convencional, e da interação das pessoas com elas, bem como suas formas de utilização política pelas classes sociais, tem relação direta, por exemplo, com o fato da década passada, de 2010 até 2020, ser, em sua essência, uma década de mobilizações de massa no Brasil.

Podemos ponderar, por exemplo, quanto a natureza artificial de certos movimentos de massa que tem apoio tanto da classe dominante submissa local, quanto do imperialismo, mas não podemos negar a centralidade da luta de massas na luta pelo poder político no Brasil. A direita e a extrema-direita, a partir da legitimidade gerada por seus movimentos de massa artificiais e suas mídias, sacramentaram um golpe no Brasil em 2016. Além disso, é importante notar que a adesão de maior parte dos partidos de esquerda ao neoliberalismo progressista e ao cretinismo parlamentar amansou e destruiu a capacidade de mobilização de massas da esquerda.

O trabalhismo, verdadeiro socialismo brasileiro, não deveria ter vergonha de representar esse papel histórico de construir um movimento de massas socialista no Brasil do século XXI. O trabalhismo brasileiro é responsável, junto ao movimento comunista, por formar grande parte da identidade cultural nacional brasileira e também de nossa esquerda durante o século XX.

Isso, contudo, não virá espontaneamente através de nossa militância, nem a partir de um esforço individual. Pelo contrário, se a classe dominante e seus movimentos contra-revolucionários e golpistas tem apoio interno e externo, financeiro e de mídia, o movimento trabalhista, partindo sempre de um confronto assimétrico em posição de desvantagem, precisa mais do que nunca do apoio, organização, logística e decisão estratégica de nosso partido. Nenhuma universidade irá patrocinar uma retomada da visão de mundo trabalhista.

Não existe entidade estrangeira, oligarca, personalidade pública, rede de mídia, que possa ou tenha interesse em auxiliar na criação de movimento de massas trabalhista. A única organização partidária que se importa e é responsável por isso é o Partido Democrático Trabalhista, e é exatamente por isso que os trabalhistas têm que fortalecer seu partido, enquanto buscam melhorar seus equívocos e assimetrias internas, para dar fim às sequelas do fisiologismo e do cretinismo parlamentar.

9- A NEGAÇÃO DO FATALISMO IMOBILISTA: UM CHAMADO PARA QUE OS TRABALHISTAS SIGAM ESSE CAMINHO!

Vivemos um contexto marcado pela coexistência de importantes fatores em diferentes planos, tais quais, a formação gradual de uma nova ordem mundial, a crise do neoliberalismo ao nível nacional e internacional, e a existência de um período propício para disputa de movimentos de massas. Além disso, é verificável em vários casos que, tanto no continente americano quanto na Europa ocidental, a adesão de grande parte da esquerda ao neoliberalismo acabou por influenciar no crescimento da extrema-direita, em um contexto que a esquerda abdica de seu papel transformador para com a nação e a classe trabalhadora, e tenta humanizar o projeto político e econômico da direita.

O movimento trabalhista e seu partido, tem que entender tal contexto com uma dupla reflexão. Se por um lado os desafios são imensos e a responsabilidade histórica é tremenda, por outro lado, o movimento trabalhista detém a melhor posição a médio prazo, se souber batalhar na disputa corretamente. Isso se dá, pois, a visão de mundo trabalhista é naturalmente multipolar em relações internacionais, nacionalista popular e anti-imperialista, sua visão econômica é extremamente crítica ao neoliberalismo, inclusive nas esquerdas, e, enquanto representante do socialismo brasileiro, o trabalhismo esteve historicamente conectado com intensos momentos de mobilização e disputa de massas.

 Em outras palavras, de um ponto de vista geral, o trabalhismo brasileiro está bem posicionado teórica e ideologicamente para a nova ordem mundial que se desenha com a ascensão dos BRICS, tem um programa político e econômico minimamente compatível com o contexto de quarta revolução industrial e crise do neoliberalismo, e, como crítico desse modelo, se não capitular ao social-liberalismo, por seu tamanho e história, tem grandes chances na disputa pela hegemonia dentro da esquerda contra seus adversários, bem como na disputa pulsão por transformação social contra a extrema-direita.

O movimento trabalhista deve, portanto, negar as armadilhas e tentações da frustração pelo desafio vencido e as injustiças do processo, e deve corrigir certa postura reativa por parte de alguns companheiros e simpatizantes, que acabam inconscientemente nos jogando para uma posição de centro e centro-direita.

Precisamos estar atentos contra qualquer desvio de direita, ou desvio social liberal e manter nossa posição e trabalhar para construir um movimento de massas para termos força e condições de uma futura disputa pelo poder. O Trabalhismo Brasileiro em sua história, como mostra o exemplo de Roberto Silveira na interiorização e crescimento do antigo PTB, sempre cresceu e rendeu mais quando se colocou no papel de radical defensor de uma esquerda nacional-popular e do socialismo brasileiro.

10- A NEGAÇÃO DA CRENÇA NA FORTUNA – OS PONTOS FUNDAMENTAIS DA ARTE DA GUERRA QUE DEVERÃO GUIAR A APR EM SEU CONFLITO RUMO À HEGEMONIA:

Sobre estratégia e arte da guerra, a partir de Sun Tzu, Maquiavel e Musashi, resumiria nas seguintes sentenças:

1- Cometa o mínimo de erros possíveis, por ser no erro que podemos ser derrotados. Sendo impossível não cometer nenhum, ao menos evite equívocos irreversíveis.
2- Obtenha informações sobre si e também sobre seu inimigo, ao mesmo tempo que nega e manipula as informações que o inimigo recebe. O inimigo não deve ter sequer o direito de ter um juízo acurado sobre si próprio, sobre suas forças oponentes, e sobre a própria realidade.
3 –Trate os comandados com justiça, premiando com extravagância os exemplos de rara virtude, punindo com rigor os exemplos de rara vilania ou perversidade. Nunca se esquecer do conceito de Sun Tzu de auto sacrifício e severidade para com o julgamento consigo próprio em primeiro.
4 –A arte da guerra é, segundo o antigo general chinês, a arte da ilusão que leva a vitória. Isso opera no mesmo sentido que podemos entender a arte do futebol como a arte do drible levando ao gol. Combine seus movimentos, para não existir tempo hábil do adversário responder.
5 – Nunca dependa mais da força dos outros do que de suas forças próprias para executar coisas que sejam centrais. Mesmo em emergência, contar com forças maiores acabará te tornando espólio bônus do vencedor.
6 – Obtenção de informações, planejamento, organização e mobilização, conseguem superar as mais absurdas disparidades tecnológicas ou de aparato. Sempre que estiver em confronto assimétrico, na desvantagem, seu foco deverá ser em recursos humanos.
7-Evite batalhas desnecessárias, poupando energia, e, se possível, conquiste sem a necessidade de destruir por completo ou danificar demais aquilo que se tornará seu espólio. Passando do ponto, além da fadiga acumulada, ainda é provável vencer sem ganhar efetivamente nada.
8 – Seja prudente, em primeiro lugar vem a manutenção de uma posição segura em que é impossível ser derrotado. Ainda assim, convém lembrar que a covardia nunca venceu batalha alguma. Estar atento e ter o olhar adequado para perceber a oportunidade de “entrar”.
9 – Ataques em pontos fortes do oponente nunca geraram vitórias. Ataca-se sempre os pontos fracos, equívocos, contradições do oponente. O ideal, é uma onda coordenada de ações em sequência que obscureçam sua real natureza, para pegar o inimigo sem reação em seu ponto nevrálgico.
10 — Não coloque seu inimigo contra a parede a menos que tenha a intenção e condição real de dar fim às escaramuças. Um oponente por demais pressionado contra a parede nada pode fazer senão reagir, muitas vezes de forma impressionante e inesperada.
11 — Se a derrota for certa e insolúvel, assegure-se de ter forças apenas para definir sua própria derrota/morte e suas circunstâncias. É sempre melhor ser o mártir honrado de alguns portadores do fio da história que possibilite o futuro.
12 — O bom líder popular, a despeito de ser amado, respeitado ou odiado, tem que se tornar, acima de tudo, inevitável.

Publicado por D.A

Daniel Albuquerque Abramo. Jornalista, escritor e pensador socialista. Atual Secretário Geral-Nacional da Ação Popular Revolucionária, maior núcleo de base do Partido Democrático Trabalhista. Um dos fundadores da revista A Coisa Pública Brasileira, junto a Cíntia Xavier Dias, no ano de 2018. Escreve sobre filosofia política, arte da guerra, política nacional e geopolítica. Interessado na historia do desenvolvimento do trabalhismo brasileiro e do movimento socialista no Brasil. Trabalhou como Editor e organizador de Mídias Sociais no Jornal Toda Palavra, período em que ajudou a realizar o maior debate político eleitoral das eleições de 2020 na cidade de Niterói (2020-2021), e como Editor de Mídia e Propaganda também para o jornal Toda Palavra na maior cobertura brasileira simultânea para internet e televisão da cúpula dos países BRICS em Kazan, na Rússia no ano de 2024. É conselheiro de Relações Internacionais do Jornal Toda Palavra desde o ano de 2021. Trabalhou de 2021 até 2023 elaborando projetos de política pública voltadas para ciência, inovação, desenvolvimento econômico, meio ambiente e educação para a Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação e na Administração Regional da Região Oceânica, ambos órgãos públicos da cidade de Niterói.

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