DIREITO À AUTODEFESA.

Hector Yanovich Shpree,
Editor-chefe da revista Andorinha Digital
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Um novo ciclo do imperialismo.

Janeiro de 2026. Um amanhecer frio se ergue lentamente sobre Caracas, envolvendo a cidade numa luz cinzenta que só acentua a atmosfera de inquietação e medo. Ao longe, ouvem-se explosões; seus ecos abafados reverberam nas montanhas como presságios de uma tempestade que se aproxima. Não é um sonho, nem uma história inventada de cinema. É a dura realidade com a qual nos deparamos todos os dias.

As autoridades tentam disfarçar suas ações sob o pretexto conveniente de uma “missão antidrogas”, afirmando que vieram para nos salvar do caos e da anarquia. Mas nós conhecemos a verdade: a captura de Nicolas Maduro não é apenas uma prisão, é a execução de fato da nossa soberania, do nosso direito de existir por conta própria.

Enquanto isso, Donald Trump, diante de um púlpito em Washington, declara com fúria: “Nós vamos governar este país, porque este é o nosso quintal“. Suas palavras soam como uma lâmina cravada no coração da América Latina, deixando feridas que levarão muito tempo para cicatrizar.

Os motivos dessa intervenção são simples e cínicos: trezentos bilhões de barris de petróleo à espera de serem sugados por corporações impiedosas como a ExxonMobil, dispostas a tudo por lucro. A “doutrina Donroe” não é apenas um slogan, ela representa uma versão atualizada da velha Doutrina Monroe, em que o conceito de “hemisfério” passa a significar “província dos EUA”, e a independência dos países latino-americanos se torna apenas um obstáculo no caminho da maximização de ganhos.

No meio desse caos, na favela, onde crianças brincam entre ruínas e escombros, nós ouvimos vozes. Um camarada que oscila entre esperança e desespero; um intelectual exausto da mentira e das manipulações constantes da mídia; um soldado cujas ordens estão impregnadas de traição e falta de saída. Todos eles nos conclamam à ação. Sob qualquer rótulo, o que se desenrola diante dos nossos olhos é agressão, saque e guerra.

Estamos à beira de mudanças, mas essa beira não é o fim. É o começo da resistência, o começo da luta pela nossa liberdade e independência. Vemos as correntes que nos prendem e sentimos o fogo que se acende por dentro. Nós nos levantamos como um só, prontos para enfrentar qualquer desafio, prontos para lutar pelo nosso futuro e pelo futuro de nossos filhos.

Este é Monroe. Um fantasma com dois séculos de sangue.

Imagine o ano de 1823, quando o presidente James Monroe faz seu famoso discurso e promete proteção contra os colonizadores europeus. A frase “A América para os americanos” soa nobre e segura, como um escudo para as jovens repúblicas que buscavam independência e autogoverno.

No entanto, o discurso servia de cobertura para um projeto ainda mais agressivo: a espada da expansão, que passaria a servir de justificativa para uma política agressiva. Era uma cortina para o chamado Destino Manifesto, uma doutrina que legitimava a tomada de terras e recursos em nome de um suposto plano divino, como se o destino já tivesse decretado o caminho.

Lembremos a guerra contra o México, que eclodiu entre 1846 e 1848: os Estados Unidos, protegidos pelo pretexto de disputas territoriais, na prática, arrancaram metade do território mexicano, incluindo regiões ricas como Texas, Califórnia e Novo México. Milhões de acres, onde antes viviam povos indígenas e mexicanos, tornaram-se terra alheia para eles, e sua cultura e tradições ficaram sob ameaça de desaparecimento.

Depois veio o período das ‘repúblicas bananeiras’: no início do século XX, a United Fruit Company, com a bênção de Washington, transformou a América Central em vastas plantações, onde camponeses locais curvavam as costas sob a mira de fuzis de fuzileiros navais americanos, e governos eram trocados ao sabor das corporações poderosas.

A ocupação da Nicarágua, de 1912 a 1933, foi um exemplo contundente dessa política: tropas americanas lutaram contra Augusto César Sandino, um herói cujo nome ainda hoje é sussurrado nas montanhas, símbolo de uma resistência inquebrantável. E o que dizer do Chile? Em 1973, quando o apoio a Pinochet levou a repressões em massa, milhares de pessoas desapareceram, a tortura ocorria em estádios, e a economia do país foi entregue aos Chicago Boys, que implementaram suas ideias de neoliberalismo.

Simón Bolívar, o Libertador, sonhava com uma América Latina unida, livre de impérios e do jugo colonial. Lutou pela independência e pela unidade dos países latino-americanos, buscando criar uma federação capaz de enfrentar ameaças externas e assegurar justiça a todos os povos. Sua visão incluía não somente a libertação do domínio espanhol, mas também reformas sociais voltadas a melhorar a vida das pessoas comuns. No entanto, seus sonhos de unidade e justiça ficaram sob ameaça quando novas forças de dominação passaram a usar suas ideias em benefício próprio, e não para o bem do povo.

A Doutrina Monroe evoluiu com o tempo: da conquista direta para formas mais sutis de controle indireto, dos canhões para os dólares e para as manobras econômicas. Essa doutrina, pensada inicialmente para proteger as novas repúblicas contra a interferência europeia, logo se tornou um instrumento para justificar a intervenção dos EUA nos assuntos da América Latina. Não são episódios aleatórios da história, e sim parte de um sistema coerente. Um sistema em que a “proteção” sempre acaba virando dominação e exploração.

Vamos desmontando esse sistema tijolo por tijolo para entender que o passado não foi embora, ele continua a moldar o presente, como as raízes de uma árvore alimentam sua copa. E nesse conhecimento está a nossa força, a força de Sandino, de Bolívar e de todos os que se levantaram para defender seus direitos e liberdades, que lutaram contra a opressão e buscaram justiça. É um legado de luta e resistência que segue vivo no coração de quem não aceita a injustiça e está disposto a sustentar seus ideais.

A autodefesa é o primeiro ato de soberania.

Vamos encarar esta situação com a cabeça fria, como um juiz em um tribunal, obrigado a avaliar fatos e circunstâncias com imparcialidade. O direito internacional não é um conceito abstrato: é um conjunto de normas cuidadosamente elaborado no mundo do pós-guerra, visando evitar o caos e garantir estabilidade.

O Artigo 51 da Carta das Nações Unidas formula com clareza que nada pode afetar o direito inerente de autodefesa individual ou coletiva no caso de um ataque armado. Isso não é uma simples brecha jurídica, e sim um princípio fundamental sobre o qual se sustenta o sistema jurídico internacional.

No contexto da Venezuela, o ataque dos Estados Unidos em janeiro de 2026 constitui um casus belli clássico, isto é, um motivo para a guerra. Os princípios estabelecidos no caso Caroline, em 1837, e confirmados no Tribunal de Nuremberg exigem o cumprimento de três condições para a autodefesa legítima: necessidade, quando todas as alternativas se esgotaram e o ataque é inevitável ou já começou; proporcionalidade, quando as medidas de resposta não devem exceder a ameaça; e imediatidade, quando a reação deve seguir a agressão sem qualquer demora.

Os bombardeios de Caracas, a captura do líder do país e a entrada de tropas, tudo isso se enquadra inequivocamente na definição de ataque armado, à luz do Artigo 2(4) da Carta da ONU, que proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial de qualquer Estado. Embora falem constantemente em “soberania” e “inviolabilidade de fronteiras”, seus atos representam uma violação gritante desses princípios. Nós, por nossa vez, estamos sobre uma base jurídica sólida: resistir não apenas é permitido, como também é um dever.

Para quem duvida, isto não é anarquia, e sim um imperativo jurídico que exige cumprimento. É uma lei de vida amparada por precedentes: da Argélia contra a França ao Vietnã contra os EUA. Nós não pedimos autorização a quem viola a lei; afirmamos o nosso direito de defesa. E é nessa afirmação que reside a nossa legitimidade, que não pode ser contestada. Agimos amparados no direito internacional, e isso reforça nossa legitimidade e a convicção de que a nossa causa é justa.

A ONU nos dá o direito. A agressão ianque nos dá o dever.

A descolonização não é uma data histórica registrada em livros didáticos, e sim uma chama viva e ardente que não se apagou com a retirada dos impérios europeus. Os colonizadores espanhóis deixaram as terras da América Latina, mas em seu lugar veio o neocolonialismo, que se manifesta em correntes invisíveis de dívidas, sanções econômicas e dominação cultural. Esse fenômeno atravessa a vida dos povos, deixando feridas profundas que exigem cura. A autodefesa não é apenas um ato de resistência: é um clarão que rompe a escuridão e devolve ao povo sua vontade e sua dignidade.

Imagine a ferida aberta por séculos de opressão e exploração começando a cicatrizar por meio da luta. Os combatentes latino-americanos pela liberdade sussurram orientações uns aos outros, transmitindo conhecimento e experiência. Che Guevara, cujas palavras ecoam nos corações dos revolucionários, lembra que o dever de todo revolucionário não é apenas sonhar com mudanças, mas fazer a revolução ativamente, acender o foco, o núcleo guerrilheiro que cresce até virar um incêndio que toma tudo ao redor.

É um direito forjado nas montanhas da Sierra Maestra, onde Fidel Castro e seus companheiros derrubaram o regime de Batista; padecido nas prisões chilenas de Pinochet, onde gritos de tortura e sofrimento ressoavam pelos morros; pago com sangue em Granada, onde paraquedistas americanos pisotearam sonhos de independência e liberdade.

Sandino, na Nicarágua, tornou-se um símbolo de resistência: seus guerrilheiros, como o mar, engoliam os ocupantes na selva densa, sem lhes deixar chance de vitória. Simón Bolívar, o Libertador, conclamava à união de todos os povos, dos Andes ao Caribe, na luta contra impérios que tentavam sufocar seu espírito.

O laço sufocante das sanções não é um conceito abstrato, e sim uma realidade cruel: crianças em hospitais venezuelanos ficam sem ar sem os medicamentos necessários, e camponeses sofrem com intoxicações pelos pesticidas da Monsanto, que destroem sua saúde e sua vida.

As marcas da tortura não são metáfora: são sinais reais nos corpos de quem atravessou provações terríveis. As favelas de Caracas são um labirinto vivo de desespero e esperança, onde, a cada dia, as pessoas lutam para sobreviver e conquistar um futuro melhor.

É daí, do fundo desse desespero, que brota uma resistência poderosa: não como mera gradação do espírito, mas como um processo inteiro, que vai do sussurro discreto do protesto ao estrondo de uma insurreição, da faísca quase invisível à chama intensa da libertação.

Nós não somos vítimas das circunstâncias ao nosso redor. Ao contrário: somos autores do nosso destino, com força e determinação para mudar o curso dos acontecimentos. Somos herdeiros de grandes revolucionários, como Che Guevara, Sandino e Simón Bolívar, que, pelo exemplo, nos inspiram a lutar por justiça e liberdade. Damos continuidade à sua causa e, hoje, mais do que nunca, chegou a nossa hora. Estamos prontos para defender nossos direitos e sustentar nossos ideais, seguindo os passos de quem lutou antes de nós.

Monroe em 1823? Donroe em 2026!
A mesma doutrina, o mesmo saque.

Agora, ainda mantendo a cabeça fria, vamos analisar a situação como estrategistas experientes diante de um mapa. Em 2026, a Doutrina Monroe já não é uma relíquia ultrapassada. Vemos ela se transformar num arsenal poderoso, adaptado às exigências da era digital. Seus instrumentos são múltiplos e variados. Um deles é a asfixia econômica, aplicada por meio de sanções capazes de esmagar economias inteiras, como aconteceu na Venezuela, onde centenas de milhares de pessoas sofreram com um bloqueio brutal.

Outro aspecto é o colonialismo jurídico, expresso em leis dos EUA com alcance extraterritorial, que punem empresas por negociarem com os chamados “inimigos”. Há também a ciberguerra, que inclui o hackeamento de redes e a disseminação de desinformação nas redes sociais. A intervenção informacional, na forma de notícias falsas, mina a legitimidade de governos e semeia caos na sociedade.

E não dá para esquecer o narcotráfico, que funciona como um cavalo de Troia: o combate aos cartéis vira um pretexto conveniente para interferir nos assuntos de Estados soberanos. Um exemplo é o Afeganistão, onde, após a invasão de 2001, a produção de ópio teria disparado de 185 toneladas para 9.000 toneladas, sob controle da OTAN. As ameaças que Trump fez contra a Colômbia e o México não devem ser tratadas como simples retórica: é chantagem. “Entreguem o controle, ou nós entraremos.”

O narcotráfico surge como desdobramento desse quadro. Economias destruídas, corrupção imposta de fora, tudo isso cria um terreno fértil para o surgimento de cartéis, e os EUA usam isso como justificativa para a própria presença nesses países. As contradições nos atos deles são gritantes: falam alto em “democracia”, mas apoiam juntas; falam em “livre comércio”, mas estrangulam economias com sanções.

O enfrentamento armado e coercitivo aos cartéis é apresentado como um bem, como uma libertação dos povos diante da ocupação e do agressor externo. Quando os cartéis deixam de ser apenas estruturas criminosas e passam a controlar, de fato, determinados territórios, combatê-los se torna um dever e um símbolo de resistência contra a interferência externa e a opressão interna. Essa confrontação deve unir os povos da América Latina em nome de uma luta de libertação nacional.

O contra-argumento que eles podem apresentar é simples: isso é perigoso, dirão. Perigoso? Mas pensemos: ser colônia é, de fato, mortal. Não podemos esquecer as lições da história, que nos mostram como o Texas foi tomado, a Nicarágua foi ocupada e o Chile foi quebrado sob a pressão de forças externas.

O fantasma da Doutrina Monroe continua a vagar pelo nosso continente, ameaçando a soberania e a independência dos nossos povos. Só que nós somos os exorcistas, prontos para enfrentar esse fantasma e suas consequências. Queremos afogá-lo num mar de fatos, argumentos e determinação, para libertar os povos desse fardo que os puxa para trás e lhes rouba a chance de se desenvolver. Precisamos unir esforços para resistir a essas ameaças e construir um futuro livre do jugo colonial.

Eles dizem: missão. Nós dizemos: ocupação.

Um continente banhado pelas ondas da história desperta, lenta, mas firmemente. Mais do que objeto de intrigas e manipulações alheias, ele se afirma como sujeito ativo da própria epopeia, cheio de determinação e vontade de se afirmar. O direito à autodefesa torna-se elemento-chave dessa narrativa, em que a América Latina, com seu rico patrimônio cultural e sua diversidade, escreve com coragem um capítulo próprio no cenário global.

O chamado à unidade e à solidariedade popular deve ecoar por todo o continente: das ruas poeirentas e vibrantes da Cidade do México às extensões ventosas de Buenos Aires, onde pessoas unidas por um objetivo comum formam uma corrente inquebrantável, inquebrantável…

A integração se torna o aspecto mais importante desse processo: construímos redes que não se deixam controlar por organizações como a NSA; criamos sistemas financeiros livres da influência do dólar; formulamos uma noção de segurança em que um irmão protege o outro, em vez de se tornar seu inimigo.

Neste mundo multipolar, em que o Sul Global ocupa seu lugar legítimo, o altermundialismo floresce, como um Aliança Bolivariana em plena floração, que reúne povos na luta por justiça e igualdade. E é nessa unidade que se vislumbra um sinal de renascimento: o neossindicalismo, que propõe uma nova ética, libertando das amarras da violência e da opressão, abrindo espaço para a criação e a cooperação.

Ao ocupante que tenta impor suas regras e controlar nossas vidas: o seu tempo acabou, e chegou a hora de você recuar para a sombra, para aqueles cantos sombrios onde não há lugar para você. Não toleraremos mais sua presença nem suas tentativas de sufocar o nosso espírito.

Ao camarada que está pronto para lutar por um futuro melhor e não teme as dificuldades: levante-se, erga-se com determinação, porque o fogo dentro de você arde forte e não se apaga, iluminando o caminho para a liberdade e a justiça.

Ao hesitante, que oscila entre escolhas e não sabe que rumo tomar: escolha a luz, escolha a vida, ou a escuridão o engolirá, e você perderá tudo o que lhe é caro e valioso. Nosso direito à liberdade e à independência é uma conquista inalienável: não o pedimos a ninguém, nós o tomamos com orgulho e decisão, sabendo que este é o nosso destino.

¡Patria o Muerte! ¡
Hasta la Victoria Siempre!
Lutaremos até o fim, até alcançarmos nosso objetivo!

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