Artigo de Daniel Albuquerque Abramo, publicado originalmente no Medium, e cedido para a redação d’A Coisa Pública Brasileira.
A descentralização da produção, o desenvolvimento de novas tecnologias e a intensificação do processo de substituição da mão de obra humana:
Desde o processo gradual de implementação do credo neoliberal no velho continente, ocorreram transformações relativas a a esta passagem do modelo socialdemocrata, ainda que corrompido, para o neoliberalismo. Uma delas é a crescente descentralização da produção. Tal fato, não vem a ocorrer por acaso, e se dá por pelo menos cinco motivos:
1º. Em um contexto de guerra fria as classes dominantes de países centrais do capitalismo não se sentiam mais seguras para abrigar grandes parques industriais, por que isto implicava na existência de maior organização entre os trabalhadores, e, portanto, geram risco às classes dominantes de tais países.
2º. Se mantivessem a maior parte do trabalho industrial e outras formas de trabalho que propiciam a organização de trabalhadores em países de terceiro mundo, poderiam inchar internamente seu setor de serviços, bem como de empregos terceirizados, que propiciam menor organização de trabalhadores. Com isso, poderiam focar todo o investimento de ponta em um pequeno e controlável setor industrial que produz peças de alta-tecnologia com enorme valor científico agregado, que “vendem” para a enorme miríade de filiais terceiro-mundistas de seu esquema multinacional, onde tais peças são montadas no produto final.
3º. Como os países centrais do capitalismo são mais fortes geopoliticamente que os países de terceiro mundo, suas burguesias poderiam impor as políticas predatórias de suas multinacionais sobre países mais frágeis, destruindo lhes o Estado-Nacional, ora fazendo acordos espúrios com ínfimas elites que representam populações inteiras, ora impondo-lhes ideologias de abertura total ao capital estrangeiro, estado-mínimo, com inchaço das forças de segurança pública, para a repressão da população local e “cobrança de maiores taxas de produtividade¹”.
Não foi raro o exemplo mais extremo, de abertura de novos mercados para o imperialismo, na base da força. Isso se dá, por que em tal forma de organização do sistema capitalista, muito globalizado, não são apenas os exércitos nacionais, as milícias formais das burguesias nacionais, mas sim blocos militares supranacionais, extremamente complexos. Estes, inicialmente mobilizados para guerra fria, após seu fim, atuam apenas como milícia formal de um conjunto de burguesias associadas, de países centrais do capitalismo, disciplinando e impondo ordem sob países de terceiro mundo que se rebelam, ou perseguindo novos mercados e rapinando sob nossos cadáveres.
Cientes de que toda a exploração, somada a inserção dos parques industriais, provavelmente gerará greves, organização e mobilização dos trabalhadores, destroem todo o Estado-Nacional e lhe torna voltado apenas a repressão da mão de obra, visto que uma vez predada, tal nação e seu povo, são vistos como mero objeto de produção da coalização da classe dominante dos países centrais.
Reparem a semelhança do que está descrito acima, com as célebres greves do ABC paulista, na década de 80, que foram duramente reprimidas pela Ditadura Empresarial-Militar brasileira. Isso não se dá por acaso, visto que o Brasil recebeu grande parte da transfusão de montadoras automobilísticas, marcadamente da FIAT, frutos dessa “nova forma” do modo de produção capitalista global.
4º. “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.” — Karl Marx
A passagem, ainda que gradual, para uma nova organização do modo de produção e suas consequências, implicam em novas formas de “ser²”, novas e pioradas relações de trabalho, novas e pioradas relações com o Estado-Nacional.
A pequena consciência coletiva, já avariada, mas ainda reforçada pelas relações sociais e relações de trabalho relacionados a organização anterior do modo de produção, começava a dar lugar a novas formas de consciência cada vez mais atomizadas e individualistas, como contraparte ideológica, ou seja, superestrutural, da nova forma de organizar o modo de produção, a infraestrutura.
5º. Desnecessário seria dizer que não podemos nunca nos esquecer que, sob a ditadura da classe dominante, todo avanço científico-tecnológico, sobretudo os que mais impactam no avanço das forças produtivas, e, portanto, na organização do modo de produção, não demonstram carácter emancipatório de rompimento com o modo de produção capitalista, mas sim de aumento da exploração. Tais países, por terem alto nível de avanço das forças produtivas, poderiam gradualmente automatizar ainda mais suas produções, “reduzindo custos” e diminuindo a organização da classe trabalhadora, de forma a não precisar mais de trabalho humano de baixa-qualificação em uma série de áreas de sua economia, fazendo com que muitas pessoas perdessem seus empregos e virassem trabalhadores do setor de serviços, trabalhadores terceirizados, ou trabalhadores autônomos. O problema, claro, não está no avanço técnico-científico, nem de tecnologias, mas da questão chave:
“Qual a classe detém o controle sobre os meios de produção?”
- O predomínio do teatro democrático, do consenso neoliberal, sobre o ocidente:
Uma vez explicitado tal movimento de mudança na organização do modo de produção, suas motivações e seu contexto, podemos analisar como isso impactou já no final dos anos 90 e começo do século XXI. Conforme mencionado anteriormente, tal processo não se deu da noite para o dia, mas ocorreu de forma mais ou menos gradual, desde meados dos anos 60, e começou a se intensificar de forma muito aguda nos anos 80.
No fim dos anos 90, tal modelo econômico passa por uma reforma, que marca seu movimento pós dissolução da URSS para se assenhorar de todos os sistemas políticos do globo em duas frentes, se mesclando em duas faces ideológicas, uma com características e retórica “progressistas difusas”, mas economicamente neoliberal, e outra com característica e retórica conservadora, mas economicamente neoliberal.
Tal teatro, verdadeiro simulacro de disputa política, um grande “telecatch³” onde o neoliberalismo econômico sempre vence, prevaleceu desde o início do século XXI na maior parte do mundo ocidental.
Como exemplos podemos ver os casos dos governos George W. Bush, e Barack Obama, o primeiro como sendo a faceta politicamente conservadora do neoliberalismo econômico, enquanto Obama, representaria a faceta politicamente progressista do neoliberalismo econômico. Ambos igualmente ruins, tanto a nível interno, em seu país, quanto a nível externo, mas um sendo a verdade nua crua e amarga de digerir, e o outro, sendo uma espécie de mesmo remédio, só que bem mais doce e fácil de idealizar enquanto bombardeia nações terceiro-mundistas a esmo.
Com isso, a ortodoxia neoliberal foi se tornando o “padrão absoluto” no período que contempla o fim da URSS e o início do século XXI, auge do sonho dourado de “Fukuyama”, de domínio absoluto do neoliberalismo e do capital sobre o globo.
Tal processo, marca o total império da aparência e retórica nas disputas e debates políticos formais ou parlamentares, visto que, na ausência de possibilidades de real disputa em termos de modelo econômico, já que ambos os lados quase sempre defenderão variações da ortodoxia econômica, o que sobra para o embate político são meras aparências e questões sem substância.
- O caso brasileiro em particular:
“ Pode-se ter um termo de comparação na esfera da técnica industrial: a industrialização de um país se mede pela sua capacidade de construir máquinas que construam máquinas e na fabricação de instrumentos cada vez mais precisos para construir máquinas e instrumentos que construam máquinas, etc. O país que possuir a melhor capacitação para construir instrumentos para os laboratórios dos cientistas e para construir instrumentos que fabriquem estes instrumentos, este pais pode ser considerado o mais complexo no campo técnico-industrial.”
— Os Intelectuais e a organização da cultura — Gramsci.
O Brasil é um caso a parte, mesmo sem ter concluído sua revolução industrial de forma satisfatória, isso é, conseguindo competir na vanguarda do desenvolvimento tecnológico e científico, passou por um processo em que ao mesmo tempo que era destino dos parques industriais de montadoras e de multinacionais, por ser um país em desenvolvimento, passou a sabotar seu próprio crescimento industrial autônomo, algo que era sua meta já havia muito tempo, e a aplicar a “ideologia e política econômica da moda”, na versão progressista, como se fosse um país central.
Na realidade, pretendiam com isso, reeditar em nova espécie o já velho “desenvolvimento associado”, ou seja, dependência, dessa vez em novos termos. Para isso, pensavam que bastava seguir todas as diretrizes dos organismos internacionais, comprometidos até o pescoço, com o neoliberalismo, fazendo o papel que Nildo Ouriques gosta de chamar de “bom mocismo internacional”.
Desnecessário dizer que, não é assim que as coisas funcionam, e se o modelo que foi criado desde o primeiro mandato de FHC, e depois reeditado com nova roupagem pelo Partido dos Trabalhadores, conseguiu se manter se baseando em alto consumo interno e exportação massiva de commodities, trocando na prática toneladas massivas de produtos primários com baixo valor tecnológico agregado, por produtos complexos, dos mais variados tipos, apenas se manteve até a primeira crise econômica do capitalismo global que enfrentou.
A crise de 2008 deixou bem claro que a classe-dominante ligada ao imperialismo pode escolher qual vertente e qual perfil de gerencia sobre nossos países eles preferem. Após a crise de 2008 o neoliberalismo progressista deixou de ser opção para as classes dominantes, tanto as locais associadas menores, quanto as internacionais ligadas ao imperialismo, isso pode ser evidenciado pelo golpe branco e troca do Partido dos Trabalhadores, trocando este por um gerente representante da outra faceta do neoliberalismo, Michel Temer.
Posteriormente, Bolsonaro, um militarista ultra repressor, veio, não por acaso, a assumir o governo, com a economia sendo regida por um ultraliberal. Ou seja, é a face mais agressiva do mesmo sistema. Isso não se dá por acaso, mas sim pois a classe dominante ligada ao imperialismo quer aumentar a produtividade, apertar o passo da contrarrevolução, e assegurar que as perdas da crise de 2008, e agora mais ainda com a crise acentuada pela pandemia, sejam pagas com o sangue e o suor de nações e populações submetidas.
- Uma oportunidade histórica, até aqui, não aproveitada pela esquerda-radical:
Tais processos geraram um quadro bastante singular, mas que em si não apresenta nada de tão inovador. Como é de conhecimento notório, são as contradições dos próprios sistemas que os derrubam.
Com a tomada do neoliberalismo por quase todo o globo, e tendo a versão progressista chegado ao poder em muitos países no começo do século XXI, em um período que coincidia com o período de maior globalização e descentralização da produção, parte dos efeitos negativos para a classe trabalhadora, começou a estourar nas mãos dos gestores da faceta “progressista” do neoliberalismo.
Um exemplo flagrante era, o fato de que o desemprego estrutural e o nível de trabalhadores informais tende a crescer com esse tipo de organização adotada no sistema neoliberal. Muitas pessoas se ressentiram de perder a estabilidade que tinham em seus antigos empregos. Tudo isso, passou a ser colocado na conta daqueles que levavam as reformas neoliberais adiante.
Muitas vezes esses eram governos com retórica, estética, e roupagem, de esquerda, mas apenas como simulacro. Visto que aplicavam políticas econômicas neoliberais que traiam completamente a classe, até mesmo em perspectivas reformistas mais pueris. Isso gerou, devido a essa contradição, uma evidente frustração em setores da classe trabalhadora contra a esquerda partidária que assumiu os dogmas neoliberais.
Por outro lado, após toda a repressão sofrida pelos Partidos Comunistas de cada país, ao longo de toda a guerra fria, e com sua perda de poder, com a dissolução da URSS, estes não estavam em condições de conseguir captar ou canalizar as frustrações da classe trabalhadora e frações da pequeno-burguesia, que se avolumavam cada vez mais, muitas vezes de forma desorganizada e imatura enquanto movimento político, em contestação contra a hegemonia e o “establishment”.
Tal processo, como veremos mais adiante, será um aspecto fundamental no renascimento da extrema-direita, que sobretudo na Europa e nos EUA, se aproveita da não existência de movimentos socialistas organizados para capitalizar todo o discurso anti-hegemônico e ascender ao poder com apoio das massas.
- Sobre a ideologia nessa organização em particular do modo de produção capitalista:
Como explicitado acima, a mudança na organização do modo de produção e da organização da sociedade em relação a este, gerou novas formas de “ser” e claro, novas formas e arranjos sociais. Tudo isso, claro, relacionado a essa nova forma de produzir e suas relações de trabalho. Isso, como foi exposto brevemente acima, propiciou o surgimento de ideologias, de matriz idealista e irracionalista, e consciências cada vez mais atomizadas, egóicas e individualizadas.
Não por acaso, o século XXI se notabilizou pelo avanço da forma “identitária⁴” de se fazer política, ou seja, posições políticas baseadas nos interesses e nas perspectivas de grupos sociais, com os quais cidadãos se identificam, com tendência a serem cada vez mais fracionados, visto que emana da infraestrutura, pela forma de organização do modo de produção, um reforço e estímulo a produção de novas identidades que operem atreladas a nichos e mercados cada vez mais específicos e “personalizados⁵”.
Ainda que isso seja mais visível em grupos que orbitam o neoliberalismo progressista, seria ingênuo e míope pensar que não existe identitarismo de direita.
A ideologia do neoliberalismo, se adéqua a própria fluidez da organização descentralizada do modo de produção capitalista contemporâneo. As consciências são mercadorias e identidades disponíveis, e, ao mesmo tempo, em outra dimensão, contraparte superestrutural para a criação de novos mercados, para escoamento de mercadorias, essas sim materiais, que se relacionem a tal identidade vendida como um produto.
Tomemos como exemplo, a identidade de direita do tipo “homem de bem”, é uma mercadoria razoavelmente comum no mercado de “identidades”, vendida em toda a sorte de produtos cinematográficos, literários, e na mídia em geral. Essa identidade trás em si, a simbologia, a retórica e a mentalidade do “guerreiro” e do “militar”, mas o faz como engodo, para associar tal impulso a um desejo e fetiche armamentista. Isso é evidentemente muito interessante para o enorme lobby e mercado armamentista e seus associados como clubes de tiro e outros estabelecimentos que arrancam dinheiro daqueles que tem o fetiche pelo militarismo, que aumentam bastante os seus lucros, todas as vezes que esta “identidade” está em alta no mercado.
O mesmo ocorre do outro lado da moeda, com as consciências e identidades respectivas ao neoliberalismo progressista, e aos mercados e produtos relacionados a estas, como por exemplo os produtos “amigáveis com o meio ambiente”, ou todo um mercado de produtos veganos, produzidos e cultivados em larga escala, isso para não falar no cultivo da cannabis, que poderiam deixar extensas plantações de soja e seus latifundiários enrubescidos diante de sua pequenez perante este jovem mercado, que certamente, tem uma identidade para si, disponível no grande mercado de identidades da ideologia neoliberal.
Nem mesmo o glorioso marxismo está imune deste fenômeno, visto que já existe, inclusive operando em nosso país, uma pretensa identidade marxista, que mais do que apego ao método de análise e história da tradição filosófica e prática do marxismo, é pautada em um jogo de aparências, signos e símbolos, ou seja, não passa de um fetiche. Tal identidade, nada mais é do que uma das muitas identidades anti-hegemônicas disponíveis no conjunto das identidades possíveis em tal sistema superestrutural, uma de suas versões de esquerda. Desnecessário dizer que aí operam vários mercados de produtos e mercadorias como camisetas, bottons, jogos, música, e todo o tipo de conteúdo pago, ou que reverta valores para grupos econômicos ou empresas.
A superestrutura, ou seja, contraparte política, ideológica, cultural e jurídica da infraestrutura material nessa nova forma de organização do modo de produção capitalista, aliás, como sempre, não poderia trabalhar em um sentido que não fosse o da ilusão quanto as debilidades de tais formas de produzir e as relações laborais inerentes a elas. Ilusão, nada mais é, que jogar luz sobre algo, particular e desfocado, enquanto se oculta uma verdade central.
Não por acaso em uma era em que “identidades” são mercadorias fluídas e flexíveis, existindo em abundância com o avanço das redes-sociais e formas de “ser” interagir e produzir com estas, marcadamente notadas por um enorme grau de exposição, sejam enormes as hordas de verdadeiros invisíveis, terceirizados, trabalhadores de aplicativos, prestadores de serviços autônomos, vítimas diretas da mudança da organização do modo de produção.
Um exemplo disso, se deu no Brasil, ainda durante a pandemia se tornou claro que o combalido Estado-Nacional brasileiro, sob domínio do neoliberalismo e sua batalha teatral entre vertentes de diferentes roupagens, sequer conseguia encontrar tais trabalhadores em seus cadastros, para todos os fins, eles não existiam.
