Artigo de Nelson, publicado originalmente no Medium, e cedido para a redação da Coisa Pública Brasileira. Esta versão sofreu atualizações e distingue-se da original, postada no dia 30 de março de 2020.
Introdução:
É preciso ter em mente que para organizar movimentos de massa, apesar de resguardadas as particularidades relativas ao contexto geográfico e histórico de cada lugar, certas características gerais se repetem:
1º: Pautas
Primeiro, é fundamental que tratemos de boas pautas. Isso pode parecer uma obviedade, é verdade. Mas afinal, o que seria uma boa pauta? Pautas não são boas ou ruins apenas por serem moralmente corretas ou não, mas sim por seu potencial de universalização dentro de determinada classe social.
Ou seja, por terem poder, ou não, de impactar positivamente na vida do maior número possível de pessoas. Por exemplo, se almejamos formar um movimento de massa dentro de um município, por óbvio que uma boa pauta é aquela capaz de impactar positivamente na vida da maior parte dos moradores que fazem parte da classe trabalhadora de tal cidade.
Tomemos como exemplo as grandes revoluções dos últimos séculos, a Francesa, a Russa, a Cubana, e a Chinesa. Mais do que dar fim a monarquias, batalhar contra o imperialismo e colonialismo, o que mobilizou respectivos povos, inicialmente, foram as boas pautas.
Exemplo:
Pão, terra, melhores condições de vida, direitos, e sobretudo a noção de fazer parte da construção de um futuro que valia a pena ser vivido.
Conclusão:
Cabe lembrar que, uma vez atraídos pelas boas pautas, o povo, começa a fazer parte e construir ativamente o projeto político gerado pela unidade de tais pautas. De forma que, mesmo que inicialmente sejam as boas pautas que atraem o povo ao movimento, no fim das contas, é a verdade do projeto que as faz permanecer.

2º: Projeto
Já sabemos que boas pautas são necessárias. Isso é bom. Mas não é tudo. Para além de boas pautas é importante que se tenha um esquema geral, que agregue tais pautas em um plano. Ou seja, um projeto. Isso não significa dizer que tal projeto deva estar pronto antes de tal movimento.
Na realidade isso quase nunca ocorre desta forma na prática. Para ser bem sincero, quando analisamos todos os movimentos de massa bem sucedidos dos últimos séculos, a maior verdade é que embora houvesse um plano e um esquema, tal projeto sempre acabou por evoluir e ficar mais elaborado, pronto, ao longo do processo.
Isso não significa dizer, que não devamos ter um projeto em mente quando pensamos em organizar um movimento. Mas sem mais delongas, o que seria tal “projeto”? Creio que um projeto, seja, na verdade, a unidade de todas as pautas, direcionadas a finalidades últimas que mirem em metas concretas.
Exemplo:
A Revolução Cubana tinha por finalidade derrubar o Tirano Fulgêncio Batista do poder, e para além disso, instituir um Estado-Nacional Cubano, que fosse capaz de prover boa qualidade de vida para tal povo, ao mesmo tempo em que superasse os efeitos do subdesenvolvimento da ilha caribenha.
Conclusão:
Portanto, o projeto esquemático inicial, básico, de tal movimento era a união de todas as boas pautas que remavam nesse sentido. Como falado acima, se torna evidente quando analisado o processo histórico cubano, que tal projeto evoluiu e se transformou ao longo do processo. Devemos, então, encarar o projeto como o esquema geral, o “universal” e cada pauta individual como parte, o “particular” deste. Ambos se relacionam, de forma a melhor se ajustarem ao longo de um processo revolucionário e de um movimento de massa.

3º: Propaganda
Ter boas pautas e um projeto, é bom e recomendável. Mas ambos não valem de nada se ninguém sequer toma consciência de que estes existem. A difusão destes, portanto, é a coluna central de qualquer movimento de massa, nesse sentido é importante dominar todas as formas possíveis da propaganda:
Jornais:
Jornais são, por excelência, meios de se transmitir informações. Para além da ingenuidade que prega a neutralidade, todo jornal segue uma linha editorial ideológica bem definida, relativa a, dentre outras coisas, interesses de classe.
Quando falamos em propaganda, é importante que tal movimento disponha não de um, mas de uma miríade de jornais, de forma a passar informações, sob determinado ponto de vista ao passo em que propagam a ideologia e visão de mundo do movimento, sobre determinados acontecimentos ou ocorridos.
É importante frisar, rádios voltaram a ser mais importantes do que nunca. Entre rádio e internet, como Facebook, Twitter e outras mídias, a opção por uma cadeia de rádios comunitárias é mais interessante. Tenhamos em mente que Facebook, Twitter e outras plataformas são geridas por interesses de classe, pois estes são, no fundo, empresas, e efetivamente agem, para interditar debates que atrapalhem suas finalidades.
Exemplo:
Os movimentos comunistas, em todas as épocas, sabem muito bem disso. Em todas as revoluções proletárias pelo mundo e períodos históricos, a prevalência de jornais anti-hegemônicos, bem como sua eficácia como método de propaganda foi devidamente comprovada com o “Pravda”, o “Granma” e outras mídias.

Livros:
Não menos importantes que os jornais, a literatura pode se mostrar um excelente veículo de propaganda. Seja na forma de livros teóricos, para expor sobre a ideologia, estratégia, metas e métodos de tal movimento, sejam os livros ficcionais que exprimem certa visão de mundo e nos levam a benditas reflexões, sejam os livros de poemas que nos fazem pensar e grudam em nossa memória, e até mesmo livros históricos e biográficos que demonstram certa personalidade heroica e determinados períodos históricos para causarem reflexões e comparações.
Não podemos desprezar a literatura como vetor de propaganda, isso pode se mostrar um erro atroz. É importante que um movimento de massa tenha entre seus intelectuais orgânicos, não um, mas uma penca de autores de livros dispostos a produzir conteúdo que entretenham, ensinem, e passem a visão de mundo de tal movimento.
Exemplo:
É importante recordar que, no advento da Revolução Francesa, a primeira revolução Burguesa da Europa, a prensa moderna havia acabado de ser inventada, de forma que os revolucionários da época difundiam seu pensamento não apenas em uma miríade de jornais, mas sobretudo livros.
Isso se torna notável quando observamos tanto o número de teóricos daquele período consagrados até hoje, bem como o número de obras ficcionais e de poesias que até os nossos dias são consideradas obras primas, e continuam a exprimir as mesmas reflexões e os mesmos pontos de vista, hoje, deslocados de seu contexto inicial.
O mesmo pode se dizer de todas as revoluções proletárias ocorridas no globo em séculos passados, a infinidade de livros teóricos, ficcionais e de poesia que exprimiam a visão marxista de mundo e da resolução de certos problemas de determinadas eras é incontável, bem como os gênios que os escreveram. Basta recordar, Lênin, Mao Zedong, o próprio Marx e outros autores, são lidos em todo o mundo, e com justiça, muito apreciados até os dias de hoje.

Artes:
Quem pensa que quadros, pinturas, arquitetura, música, teatro, cinema, e outras formas de arte não expressam determinada visão de mundo, classe, ou ideologia, certamente ainda engatinha em sua compreensão sobre o que é arte.
Um gênio alemão uma vez disse que a arte é materialização do espírito humano. Errado ele não estava. Se Hegel nos disse mais ou menos isso, é correto pensar que a arte é a materialização do espírito, ou seja consciência, de uma classe e de suas experiências e contradições materiais concretas durante a experiência do “ser” imerso na realidade.
Se como nos disse, mais ou menos, outro gênio alemão, Karl Marx, a ideia e o espírito são uma das mais nobres e elevadas formas da matéria, que dizer da arte? Esta cumpre todo o ciclo, experiência material concreta do “ser”, espírito, e novamente matéria? Uma síntese de toda a experiência do real vivida sob o ponto de vista de determinada classe.
Por óbvio que um movimento de massa deve contar com toda expressão artística que conseguir. Sobretudo em um país como o Brasil, em que ao longo de sua história a maior parte da população não esteve em escolas ou teve a oportunidade de cursar o ciclo de ensino formal, tendo as artes do povo e a cultura popular como fonte majoritária de ensino.
O Samba, a MPB, o Carnaval, o Teatro e o cinema, e as reflexões que estes trazem, devem importar muito àqueles que pretendem organizar um movimento de massa. Quem os negligenciar, fracassará.
Exemplo:
Um grande exemplo é o Samba de 2019, apresentado no carnaval carioca, da Mangueira, “História de ninar de gente grande”, feito sob uma perspectiva claramente Benjaminiana, tal hino preza por demonstrar a historiografia sob um ponto de vista da classe trabalhadora brasileira, e com isso, trazer reflexões sobre o momento histórico que vivemos.

Estética:
Não entraremos aqui numa discussão profunda sobre o sexo dos anjos, isto é, sobre o que é a concepção filosófica da Estética. Ao invés disso, assumiremos que estética, no sentido deste “pequeno-guia”, se trata de uma espécie de assinatura visual, auditiva e de linguagem, referentes a materialidade e características centrais de tais movimentos, que facilmente remeta os receptores de tais mensagens ao movimento que as emite. Nesse sentido, a estética é uma parte importante da construção de um movimento de massa, dentro da área da propaganda.
Exemplo:
A foice e o martelo, eternizados pelo movimento comunista internacional desde a Revolução Bolchevique de 1917, ocorrida na Rússia, representa a aliança operário-camponesa, partes centrais de tal movimento de massa. Tal símbolo estético, de fácil compreensão, até os dias de hoje, é capas de agregar e mobilizar seus defensores, bem como amedrontar todos os seus detratores pelo globo.

Conclusão:
A propaganda, em todas as suas facetas, é de extrema importância para a construção de qualquer movimento de massa ou movimento revolucionário. O segredo para o sucesso é que os intelectuais orgânicos da classe trabalhadora estejam presentes e dominem todos os ramos acima descritos. Não adianta ter Jornais e não dominar a Literatura, não adianta dominar Literatura, e negligenciar outras áreas da arte, não adianta dominar Jornais, dispondo de um bom número de Jornais anti-hegemônicos, fomentando o debate público, e não ter uma forte assinatura estética. Quanto maior for o número de bons Jornais, Livros, produção artística e inovações estéticas que captem os anseios da classe trabalhadora do nosso tempo, mais efetiva será a propaganda de tal movimento.
4º. Tática e Estratégia
Não é a intenção deste pequeno-guia elipsar a natureza real de movimentos políticos de massa. Estes se tratam em todas as sua facetas de Guerra Popular. Isso precisa ser bem compreendido. E nesse sentido, como em toda a guerra, tática e estratégia se tornam fundamentais quando estamos organizando um movimento de massa.
A relação entre tática e estratégia é algo muito debatido em manuais militares, desde o teórico chinês Sun Tzu, até o germânico Clausewitz, bem como em livros de xadrez e outros jogos milenares que simulam a arte da guerra.
Tal relação se dá no sentido de que a “tática” representa o “particular” imediato, enquanto a “estratégia” representa o “universal” de longo prazo. Ambos estão em uma relação que sempre se ajusta, e antes de ser algo fixo e imóvel, está em constante mudança, mesmo que a finalidade da linha geral a ser seguida permaneça a mesma.
Uma infinidade de táticas relativas as condições materiais e históricas respondem a um direcionamento final, a unidade de tais táticas, para se chegar a uma situação que leve ao objetivo final. Esta é a estratégia.
Enfim, a vitória, da mesma forma que tal direcionamento final, a “linha estratégica”, só se torna completa quando repleta de táticas particulares que permitam que tal linha estratégica, o universal, seja executada corretamente.
Exemplo:
Os movimentos de trabalhadores, em geral, utilizam a linha estratégica de implodir a produção interna de seu Estado-Nacional, de forma a mostrar quem tem o poder efetivo de fazer a máquina produtiva funcionar, para tal diversas táticas podem ser utilizadas, a depender de várias circunstâncias.
Em um país agrário, ocupam-se terras improdutivas, e expropriam-se latifúndios, bem como impedem vias de circulação interna e externa de mercadorias. Já em países industrias, operários param a produção das mercadorias mais importantes para o sustento de tal Estado-Nacional, bem como também impedem a circulação interna e externa de mercadorias.
Isso evidentemente não se dá por acaso, existe uma linha estratégica central operando, e ela obviamente se relaciona as táticas que serão utilizadas para que esta possa efetivamente ser posta em prática.
Passemos então a observar movimentos históricos de guerrilha popular. A linha estratégica, em geral, versa sobre a derrubada do Governo pela força das armas. Para tal, guerrilheiros engajam em táticas como tomar regiões de tal Estado-Nacional, cuja as forças de repressão do Estado sejam mais débeis, bem como áreas pauperizadas onde tal guerrilha conseguirá encontrar um bom contingente de adeptos, bem como espalhar sua palavra e fazer valer sua teoria e propaganda. Além disso, ações como roubo de armas de quartéis pouco protegidos, bem como expropriação de bancos, veículos terrestres, aéreos e marítimos, e outros bens de valor para tal empreitada, são utilizados como tática, para a efetivação da estratégia.

Conclusão:
Quem entra numa guerra, como é a luta de classes, sem uma estratégia bem definida, mesmo que, é verdade, esta varie, se torne mais rica e progrida conforme mudam as circunstâncias, já inicia fadado ao fracasso. É importante ponderar qual é a melhor “linha estratégica” a ser seguida, bem como quais táticas melhor se relacionam com esta, a fim de obter a vitória e a redenção para a classe trabalhadora.
O que torna uma boa “linha estratégica”, bem como quais serão as táticas imediatas mais úteis, pode variar a depender das influências teóricas do grupo que as planeja. O general chinês Sun Tzu por exemplo, recomendava que o menor esforço possível seja dispendido. Já outros teóricos como o germânico Clausewitz e o italiano Maquiavel defendem outras linhas de pensamento.
Isso não significa que necessariamente apenas um ou outro esteja correto. Na realidade, os mesmos fins podem ser obtidos de diversas formas, a realidade é um enorme jogo de potências, possibilidades, a serem relacionadas e encaixadas.
Para uma Guerra Popular, por óbvio, o que importa é que tal “ linha estratégica” e as “táticas” relacionadas a esta funcionem e que a classe trabalhadora tome o poder político, o Estado e o poder econômico. No mínimo que faça valer suas demandas ao demonstrar força e poder de organização.
