[MARIÁTEGUI] HETERODOXIA DA TRADIÇÃO E TRADIÇÃO NACIONAL


Transcrição de artigos publicados na revista peruana Mundial, em 25 de novembro de 1927 e 2 de dezembro de 1927 por José Carlos Mariátegui. Extraído de “Mariátegui — Textos Escolhidos: Marxismo, política e questão indígena”. Tradução de Mariana Pahim. Cio da Terra Edições. Junho de 2021. Esse trabalho possui grande valor dada a exposição que o autor peruano faz da relação entre tradição e cultura nacional a partir da luta de classes. O conjunto de ideias, símbolos e signos que perfaz a identidade nacional pode, portanto, ser instrumentalizado pela classe dominante ou possuir um caráter orgânico e verdadeiro quando utilizado pela classe trabalhadora. Excluindo as diferenças na formação nacional peruana e brasileira, é possível traçar paralelos com a realidade brasileira, por meio desse texto. Da mesma forma, Nelson Werneck Sodré em sua obra “Síntese de História da Cultura Brasileira” tratará da formação de uma “cultura popular” e uma “cultura das elites” que irá opor ambas as visões de mundo e definirá, por princípio, o que é povo e o que é nacional. Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil” também falará sobre como a multiplicidade de culturas e o contexto histórico colonial português moldou a cultura do povo que aqui foi criado. E por esses motivos, A coisa pública brasileira recomenda uma leitura atenciosa aos artigos abaixo.

25 de novembro de 1927.

Escrevi ao final do meu último artigo, “A reivindicação de Jorge Manrique”: com sua poesia tem a ver a tradição, mas não os tradicionalistas. Porque a tradição é contra o que desejam os tradicionalistas: viva e em movimento.

Criam-na os que a negam para renová-la e enriquecê-la. Matam-na os que a querem morta e imóvel, como extensão de um passado presente sem forças, para incorporar nela seu espírito e seu sangue.

Tais palavras merecem ser explicadas com atenção. Desde que as escrevi me sinto convidado a estrear uma tese revolucionária sobre a tradição. Fique claro que falo da tradição como patrimônio e continuidade histórica.

É verdade que os revolucionários a renegam e a repudiam? Isto é o que diz quem se contenta com a fórmula pronta: revolucionários iconoclastas. Mas não são mais que iconoclastas os revolucionários?

Quando Marinetti fazia um chamado à Itália para vender seus museus e monumentos, queria apenas afirmar a potência criadora de sua pátria demasiado oprimida pelo peso de um passado admiravelmente glorioso.

Seria absurdo tomar [literalmente] sua veemente extravagância. Toda doutrina revolucionária atua sobre a realidade de negações intransigentes que não são possíveis compreender sem interpretá-las inseridas em seu papel dialético.

Os verdadeiros revolucionários não agem nunca como se a história tivesse iniciado a partir deles. Sabem que representam forças históricas, cuja realidade não os permite se satisfazer com a exagerada ilusão verbal de inaugurar todas as coisas.

Marx extraiu do estudo completo da economia burguesa seus princípios de política socialista. Toda a experiência industrial e financeira do capitalismo está em sua doutrina anticapitalista.

Proudhon, a quem todos conhecem por uma frase iconoclasta e não por sua obra completa, baseou seus ideais em uma árdua análise das instituições e costumes sociais, examinando desde suas raízes até o solo e ar de que se nutriram.

Sorel, onde Marx e Proudhon se reconciliam, se mostrou profundamente preocupado, não só com a formação da consciência jurídica do proletariado, mas também com a influência da organização familiar e seus estímulos morais, tanto no mecanismo do modo de produção como na totalidade do equilíbrio social.

Não se deve associar a tradição aos tradicionalistas. O tradicionalismo — não me refiro à doutrina filosófica, senão a uma atitude política ou sentimental que se resolve invariavelmente em âmbito conservador — é, na verdade, o maior inimigo da tradição.

Porque se obstina a definir a tradição como um conjunto de relíquias inertes e símbolos extintos. E em resumi-la a uma receita estrita e única. A tradição, no entanto, se caracteriza precisamente na resistência a se deixar apreender [mediante] uma forma hermética.

Como resultado de uma série de experiências, isto é, de sucessivas transformações da realidade sob a ação de um ideal que a supera consultando-a, e a modela obedecendo-a.

A tradição é heterogênea e contraditória em sua composição. Para reduzi-la a um conceito único é preciso se contentar com sua essência, renunciando a todas suas cristalizações.

Os monarquistas franceses constroem toda sua doutrina sobre a crença de que a tradição da França é fundamentalmente aristocrática e monárquica, ideia concebível unicamente por pessoas inteiramente hipnotizadas pela imagem da França de Carlo Magno.

René Johannet, também reacionário, porém de outro tipo, sustenta que a tradição francesa é absolutamente burguesa e que a nobreza, em quem Maurras e seus amigos depositam sua esperança com afinco, está descartada como classe dirigente desde que, para subsistir, teve que se “aburguesar“.

Mas o cimento social da França são suas famílias camponesas, seu custoso trabalho artesanal.

Está provado o papel dos mais pobres no periodo culminante da Revolução Burguesa, de forma que, se a práxis do socialismo francês vier a reivindicar o nacionalismo, o proletariado da França viria a descobrir em seu país, sem grande esforço, uma substancial tradição operária.

O que isto nos revela é que a tradição aparece particularmente invocada, e ainda ficticiamente absorvida pelos menos aptos para recriá-la — coisa que não se deve admirar. Os passadistas têm sempre o paradoxo de entender o passado de forma muito inferior aos futuristas.

A capacidade de pensar a história e a capacidade de fazê-la ou criá-la se identificam: o revolucionário tem uma imagem um pouco subjetiva do passado, porém uma imagem vívida e animada, enquanto passadista é incapaz de representa-lo em sua fluidez e inquietude.

Quem não consegue imaginar o futuro, tampouco pode, no geral, imaginar o passado. Portanto não existe um conflito real entre o revolucionário e a tradição, o conflito está entre os que concebem a tradição como um museu ou uma múmia.

O conflito do revolucionário está relacionado efetivamente com o tradicionalismo. Os revolucionários incorporam o propósito de que a sociedade não se petrifique em um estado, não se imobilize em uma atitude. As vezes a sociedade perde esse propósito criador, paralisada por uma sensação de fim ou de desencanto.

É aí que se percebe, inexoravelmente, seu envelhecimento e decadência. A tradição desta época está fazendo os que parecem negar toda tradição, iconoclastas. Ao menos é deles que vêm a ação.

Sem eles, a sociedade demonstra o abandono ou abdicação do propósito de viver renovando-se e superando-se incessantemente. Maurice Barrès deixou para seus discípulos uma definição um tanto fúnebre de pátria: “a pátria é a terra e seus mortos“. Barrès mesmo era um homem de ar fúnebre e mórbido, que segundo Valle-Inclán, assemelhava-se fisicamente a um corvo molhado.

Mas as gerações pós-guerra estão de frente ao dilema de enterrar junto aos restos de Barrès seu pensamento de camponês solitário dominado pelo culto excessivo da terra e seus defuntos ou resignar-se a serem enterradas, mesmo depois de ter sobrevivido sem um pensamento próprio nutrido de seu sangue e esperança.

A situação destas gerações frente ao tradicionalismo é idêntica a esta.


2 de dezembro de 1927.

Para nossos tradicionalistas, a tradição no Peru é, fundamentalmente, colonial e limenha. O seu conservadorismo tenta impor-nos, assim, uma tradição mais espanhola do que nacional.

Já indiquei em meu artigo anterior que o tradicionalista sempre mutila e fraciona a tradição do Peru e o interesse elitista e político de nossa casta feudal. Enquanto a mentalidade colonialista dominou o país, [somos] um povo [reconhecido] no surgimento da Conquista.

A consciência crioula nacional obedeceu indolentemente ao preconceito da filiação espanhola. A história do Peru começou com a companhia de Pizarro, fundador de Lima. O Império Inca só era tido como pré-história. O autóctone estava fora de nossa história e, portanto, fora da nossa tradição.

Este tradicionalismo apequenou a nação, reduzindo-a à população crioula ou mestiça. Mas, impotente para remediar sua desvantagem numérica, ele não poderia durar muito.

Pode-se dizer do Peru o que Waldo Frank diz sobre a América do Norte: ainda é um conceito a ser criado. Mas sabemos definitivamente que para o Peru esse conceito não será criado sem o indígena.

O passado inca entrou em nossa história, reivindicado não pelos tradicionalistas, mas pelos revolucionários. Nisso consiste a derrota do colonialismo, ainda sobrevivendo, em parte, como Estado social — feudalidade, gamonalismo — mas derrotado para sempre como espírito.

A revolução reivindicou a nossa mais antiga tradição. E isso não tem nada de insólito, nem sequer nacional, não como um ideal utópico de restauração romântica, mas como uma reintegração espiritual da história e da pátria peruana. Reintegração profundamente revolucionária em sua intenção e em seu significado.

Para uma crítica familiarizada com as reconciliações da revolução e da tradição, o indigenismo da vanguarda peruana não parece arbitrário. Ao comentar o primeiro número da revista Amauta, “La Fiera Letteraria” congratulou-se por seu vanguardismo estar em sintonia com a mais antiga tradição nacional.

Esse critério, por outro lado, não aparece só agora na crítica. A filosofia da história pós-hegeliana tende — espontânea e naturalmente — à mesma conciliação. Há alguns anos, Mauro Missiroli formulava em termos absolutos:

A revolução já está contida na tradição. Fora da tradição, só há utopia. Eis porque Marx, enxertando sua teoria no grande tronco do pensamento moderno, conceberá o proletariado saindo do colo da burguesia e, ao liquidar toda a democracia anterior, ele afirmará que a luta de classes em vez de assassinar a burguesia capitalista acelera o seu desenvolvimento; e Jorge Sorel, aperfeiçoando a doutrina do filósofo de Trier, irá defender a mesma solução catastrófica.

A tradição nacional se ampliou com a reincorporação do incaísmo, mas esta reincorporação não anula, por sua vez, outros fatores ou valores que definitivamente entraram também em nossa existência e em nossa personalidade como nação.

Com a Conquista, a Espanha, seu idioma e sua religião entraram definitivamente na história peruana, comunicando-se e articulando-se com a civilização Ocidental.

O Evangelho, como uma verdade ou concepção religiosa, certamente valia mais que a mitologia indígena. E mais tarde, com a Revolução da Independência, a República entrou em nossa tradição para sempre.

O tradicionalismo e o colonialismo nunca perdoaram a República por sua origem e alcance revolucionários. Hoje esse já é um assunto totalmente superado. As responsabilidades da República não são do regime republicano, mas sim do regime colonial, cuja prática — e não a sua doutrina — deixou de subsistir.

A República, ao contrário do que seus críticos retrógrados afirmam artificialmente e de forma reacionária, não foi um ato romântico.

Justificam-na não só por cem anos de experiência nacional, mas, sobretudo, pela uniformidade com que o movimento de solidariedade pela independência impôs a toda a América aquela forma política, [os quais] são um absurdo processar separadamente do vasto e complexo movimento liberal e capitalista do qual recebeu direção e impulso.

A monarquia constitucional representou na Europa uma fórmula de compromisso e equilíbrio entre a tradição aristocrática e a revolução burguesa. Mas na Europa e na América, a tradição aristocrática que baniu os autóctones desde a conquista não era indígena, mas estrangeira.

Nada é estéril à história: tanto quando o processo é inspirado num racionalismo intransigente, como quando se apoia em um tradicionalismo estático. “Indietro non si torna”. [“Não há como voltar atrás”]

Quando falamos de tradição nacional, precisamos estabelecer previamente de que tradição se trata, porque temos uma tradição tripla. E por que a tradição tem sempre um aspecto ideal — [o qual] é o fermento fértil ou o impulso de progresso, ou superação — e um aspecto empírico, que o reflete sem essencialmente contê-lo.

E por que a tradição está sempre crescendo sob os nossos olhos, que tão frequentemente se empenham em querê-la imóvel e acabada.

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