Autor: Cíntia Xavier D.
Dada a importância dos escritos do filósofo peruano e marxista, José Carlos Mariátegui, para a discussão dos conceitos de tradição nacional, revolução proletária e socialismo, a equipe d’A coisa pública brasileira publica uma análise concisa de três artigos do autor, publicados entre 1925 e 1927 na revista Mundial. São os títulos “NACIONALISMO E VANGUARDISMO NA IDEOLOGIA POLÍTICA” (1925), “HETERODOXIA DA TRADIÇÃO” (1927), e “A TRADIÇÃO NACIONAL” também publicado em 1927. Havíamos anteriormente publicado os dois últimos artigos, na íntegra, em junho desse ano.
A interconexão entre tradição, socialismo, e revolução representa uma força criativa e renovadora na história. Seu principal instrumento e agente histórico é a classe trabalhadora. Essa relação é, portanto, antagônica ao movimento reacionário que visa congelar a tradição, deturpando sua razão de ser e restringindo a história e a cultura “oficial” à narrativa e aos elementos da classe dominante.
Aqueles que se denominam socialistas, trabalhistas e comunistas brasileiros precisam estar vigilantes. A narrativa histórica das elites recrimina os elementos populares ao esquecimento ou à condenação. A narrativa histórica reacionária aprisiona os elementos da cultura e história brasileira, petrificando-os e fornecendo uma visão deturpada sobre nós.
Em “HETERODOXIA DA TRADIÇÃO” (1927), Mariátegui argumenta que a tradição não deve ser erroneamente associada aos tradicionalistas. Os tradicionalistas buscam uma tradição estática e inerte, enquanto a tradição, em sua essência, é dinâmica e em constante evolução.
A tradição, segundo o autor, é alimentada por aqueles que as renovam e a desafiam, para enriquecê-la, em vez de mantê-la imóvel. Os que desejam uma tradição estática frequentemente a distorcem com sua interpretação particular da história, enxergando-a como uma mera extensão do passado.
Mariátegui questiona se os revolucionários rejeitam completamente a tradição e afirma que os verdadeiros revolucionários não agem como se a história tivesse “começado com eles”. Reconhecem que representam forças históricas e usam a história existente como base para suas ações, assim como Marx usou o estudo da economia burguesa como fundamento para sua doutrina anticapitalista.
É crucial distinguir tradição e tradicionalismo. O tradicionalismo é uma atitude conservadora que vê a tradição como um conjunto de relíquias e símbolos inertes. A tradição, por outro lado, é diversificada e contraditória, resistindo a ser reduzida a um único conceito.
Para complementar, diferentes grupos sociais interpretam a tradição de maneira divergente devido a seus interesses políticos e econômicos. Como observado por Marx e Engels, as ideias dominantes em uma época são moldadas pela classe dominante que controla os meios de produção.
Walter Benjamin também contribui para essa discussão ao abordar a disputa narrativa pela história, na qual a história “oficial” é frequentemente definida pela classe dominante. Mariátegui argumenta que aqueles menos aptos para recriar a tradição, como os elementos reacionários da elite, frequentemente a invocam de maneira fictícia.
Portanto, a verdadeira luta não ocorre entre os revolucionários e a tradição, e sim entre os revolucionários e o tradicionalismo. Os revolucionários buscam impedir que a sociedade se torne estática, pois uma sociedade sem criatividade perde seu propósito e mostra sinais de envelhecimento e decadência.
No artigo “NACIONALISMO E VANGUARDISMO NA IDEOLOGIA POLÍTICA” (1925) Mariátegui aprofunda o debate entre o conservadorismo crioulo e a vanguarda indigenista na ideologia política peruana. O conservadorismo crioulo associa a nacionalidade peruana unicamente às influências espanholas e latinas, limitando a história do Peru há quatro séculos.
Durante o período colonial, a história peruana era frequentemente vinculada à chegada de Pizarro e à fundação de Lima, ignorando a rica herança indígena, como o Império Inca. A consciência nacional crioula estava fortemente ligada à herança espanhola, excluindo os elementos autóctones da história e da tradição peruana, como fora complementado dois anos depois, em “A TRADIÇÃO NACIONAL” (1927)
Em contraste, a vanguarda indigenista busca uma reconstrução peruana com base na herança indígena, rompendo com a visão limitada temporalmente do crioulo conservador e sua associação com a conquista e a colônia.
Os indigenistas revolucionários não veem o passado inca como um simples retorno ao passado, mas como uma base para a reconstrução peruana. Eles adotam uma concepção realista e moderna da história, considerando todos os eventos e elementos históricos que moldaram a realidade peruana ao longo de quatro séculos, sem excluir elementos autóctones, como frequentemente ocorre na visão colonialista da história
Mariátegui também destaca a relação entre nacionalismo e socialismo em países politica ou economicamente colonizados, como o Peru. Ele argumenta que o socialismo não é intrinsecamente antinacional, exceto nos impérios. Nas ex colônias, o socialismo assume uma postura nacionalista, em oposição ao imperialismo e ao capitalismo ocidentais.
Para o autor, a afirmação da nacionalidade peruana é de extrema importância, especialmente para aqueles historicamente oprimidos e despossuídos. A reconstrução peruana baseada na herança indígena é vista como uma maneira de restaurar a independência e a dignidade daqueles que foram conquistados e subjugados pelos espanhóis há quatro séculos.
Os escritos de José Carlos Mariátegui ecoam de maneira profunda na história e cultura brasileira, encontrando ressonância nas lutas da nossa classe trabalhadora. Suas reflexões sobre a tradição nacional, revolução e socialismo nos convidam a repensar a maneira como encaramos nossa própria história, eventos, movimentos e figuras de destaque, desafiando ambas as narrativas conservadoras e liberais que buscam restringir e distorcer a riqueza de nossa herança cultural.
Como Mariátegui ressalta, a tradição é dinâmica e resistente a ser reduzida a um único conceito. É necessário que aqueles que buscam a emancipação social, política e econômica reconheçam a importância de enriquecê-la, para que se mantenha sempre dinâmica e viva. Não podemos deixar que a história de luta da classe trabalhadora, bem como a sua rica cultura popular, seja vilificada ou condenada ao esquecimento. Somos, como sujeitos históricos, o fio da nossa história.

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