[EDITORIAL] Sobre a baixa popularidade do governo e a política econômica.

Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.

Diante do atual debate que ocorre na esquerda brasileira, em um contexto de forte queda de popularidade do governo, a revista A Coisa Pública Brasileira, que se orgulha por ter ajudado a formar e a moldar a visão de mundo de uma geração de trabalhistas e socialistas, não poderia fugir da responsabilidade de lançar o presente editorial. Com este texto, almejamos auxiliar a reflexão dos camaradas da Ação Popular Revolucionária e demais trabalhistas e socialistas nesse debate sobre economia política.


Introdução:

Lula tem a pior popularidade em um governo em toda sua história política. Avisos não faltaram, de que o resultado dessa política econômica neoliberal e o austericídio levados a frente por Haddad e quejandos seria exatamente esse. Agora a matilha de analistas chapa-branca e demais bajuladores ficam tontos e aparvalhados. Alguns, pulando do navio, já até mesmo lançam cartas públicas contra o governo.

O motivo de tal queda de popularidade é muito simples, e, para além disso, um tanto quanto óbvio. Alertamos, junto a nosso campo político, desde as eleições de 2022, que se o novo governo adotasse uma abordagem social-liberal em matéria de política econômica, aderindo a fantasia fiscalista e a amplas concessões à classe dominante, não punisse os militares de maneira rápida e efetiva, e não cumprisse as promessas de campanha, derreteria sua popularidade e ficaria sujeito até mesmo a algo pior, como um golpe.

A política econômica do governo, contudo, não mobiliza nem agracia a maior parte dos trabalhadores com melhorias substanciais, embora existam melhorias em pequenos setores focalizados, no geral, seguiu-se a lógica do Plano Ponte para o Futuro, de Michel Temer.

AFINAL, A ECONOMIA BRASILEIRA VAI BEM?

Quando confrontados com a baixa na popularidade de Lula e seu governo, muitos influenciadores e formadores de opinião caem numa armadilha conceitual, ou iludem propositalmente sobre a realidade. Seja proposital ou não, a maioria tem seguido um discurso que diz algo como:

“Se a economia não está ruim, e o governo está realizando projetos, só pode ser um problema de comunicação!”

Que não se trata de um problema de comunicação, mas um problema de orientação e foco das medidas tomadas pelo governo até aqui, já comentamos nas ultimas publicações. O fato das maiores realizações do governo serem de natureza pró-mercado e anti-povo, como o Novo Arcabouço Fiscal, com certeza é um problema muito maior do que a comunicação morna e muitas vezes fora de tom.

Gostaria de falar hoje, contudo, sobre o primeiro pressuposto utilizado na argumentação pró-governo acima destacada, a falsa crença de que “a economia vai bem.” Para refletir sobre isso, deveríamos pensar em algumas perguntas:

1-Quais os critérios para saber se a economia está realmente boa?

2-Se está tão boa, porque os efeitos disso não são notados?

3-Se está boa, isso é em relação a quais países?

4-Se está boa, está boa para quem?

Não almejamos aqui neste editorial responder nenhuma dessas perguntas de forma específica, pois gastaríamos muitas linhas com cada uma delas. Mas, é possível responder de forma bem geral, que economia não é uma ciência exata que estuda fenômenos da natureza, mas uma ciência social que pode utilizar matemática entre suas ferramentas. Você não pode dizer que a economia de um país é boa ou ruim por si só, você tem que comparar alguns indicadores e dados com os de outros países e com mais dados do próprio país ao longo da série histórica.

O Brasil obteve uma melhora em seu indicador PIB quanto comparamos com o período Bolsonaro. Além de observar a questão dos critérios para elaboração de alguns indicadores, deveríamos comparar e almejar ser levemente melhores do que o pior período de nossa história? É necessário que sejamos sinceros, uma taxa de crescimento menor que 5% ao ano, com alguns períodos de crescimento realmente muito abaixo desse padrão de outros países emergentes, não é nada de impressionante do ponto de vista do crescimento econômico.

O Brasil, desde a década de 90, quando comparado a outros membros dos BRICS e outros países emergentes, tem um déficit de crescimento, que se acumulou e se tornou pior na década de 2010. Ainda hoje, as taxas de crescimento do Brasil são baixas para um país emergente, e mais baixas ainda, quando comparado com o potencial que o Brasil tem e pro que se imagina ou se espera do país.

Para além disso devemos entender que mesmo o PIB demonstrando leve e desanimado crescimento, pela organização econômica do país, isso não significa que o Brasil tenha realmente enriquecido. O PIB é, superficialmente, a soma do valor das riquezas produzidas e serviços operados em determinado país.

Em uma economia organizada como a nossa, primarizada entre o agro e a exploração extrativista de recursos naturais e rentismo, setores onde o lucro é privatizado e em um país com grande concentração de riqueza que não taxa ou tributa tais atividades econômicas, o aumento do PIB não representa em absolutamente nenhum ganho relevante para a coletividade brasileira, já que a maior parte desses recursos fica com o 1% dos brasileiros mais ricos (latifundiários e rentistas) e com “acionistas estrangeiros” naquilo que Leonel Brizola chamava de perdas internacionais. Quase nada disso retorna para a coletividade brasileira na forma de infraestrutura, direitos, serviços públicos etc etc.

Outro exemplo que merece ser destacado, é o índice de desemprego. Segundo o governo, o Brasil vivencia o menor nível de desemprego da série histórica. Contudo, os critério para medição e aferição do desemprego mudaram drasticamente desde o golpe de 2016, e os subsequentes governos de Michel Temer e Bolsonaro. A mais brutal informalidade, e as novas formas distópica de semi-escravidão pós moderna a partir de aplicativos, são consideradas positivamente no cálculo de tais indicadores. Até mesmo a luta contra a escala 6×1, a pauta trabalhista mais importante de nossos tempos, que numa visão oportunista pragmática clássica poderia conferir alguma popularidade ao governo, é ignorada e negligenciada.

Nesse sentido, por mais que tenha melhorado alguns de seus indicadores, as maiores realizações do governo em termos de foco, foram pró mercado. A manutenção das reformas ultraliberais de Temer, sem tentativa de luta política, legitimando diretamente o projeto Ponte Para o Futuro do Golpe de 2016, como com a criação do Novo Arcabouço Fiscal ou da precificação dos combustíveis que impacta no custo dos alimentos mantendo parte substancial do antigo PPI.

As propostas de campanha não foram cumpridas, as privatizações e a reforma trabalhista e da previdência ultra liberais foram mantidas e no lugar, um projeto liberal com obsessão na questão fiscal foi implementado. Um projeto Liberal que foi mais competente que Temer e Bolsonaro, é verdade, mas para beneficiar e excluir as mesmas pessoas. Que tipo de pessoa acredita que, por exemplo, a cruzada anti-povo contra os “fraudadores do BPC” e a limitação de crescimento anual do salário mínimo não iriam ter um impacto negativo na avaliação de Lula e do governo?

E no final de tudo, ao invés de assumir uma postura crítica, muitos procuram bicho papão e teorias da conspiração, onde não existe espaço para tal, outros alegam ser um problema de comunicação, como forma polida de dizer que faltou mentir melhor.

SOBRE O PROBLEMA DO AUMENTO DE PREÇOS:

O problema do aumentos dos preços dos alimentos não é um problema de origem unicamente monetária, muito menos um problema de origem fiscal. Se trata, na verdade, também de um problema produtivo e do foco exportador de nossa produção agropecuária de tendências monocultoras.

Sim, é verdade, que em tese, é possível resolver, de forma indireta, parte da questão do ponto de vista da moeda, se esforçando muito para fortalecer o real perante a alta do dólar, já que muitos desses produtos são importados e não são produzidos por aqui. Mas isso é extremamente inviável e também não depende de mero aumento da taxa de juros.

Essa meia verdade, porém, guarda em si a solução real para o problema.

Explicamos:

A forma mais simples de resolver esse problema não é indiretamente a partir do ponto de vista da moeda, mas diretamente a partir do ponto de vista da produção. A melhor resposta para o problema do aumento de preços, além de manter uma política de estoques forte e bem organizada, é passar a produzir as coisas, sobretudo os alimentos, em território nacional, escapando da dependência por importações. Isso se mostra vital, sobretudo naquilo que é essencial.

Hoje boa parte do que consumimos e também do que comemos é, em algum grau de sua cadeia produtiva, importado. Aliado ao foco monocultor do setor agro, que não produz em grande variedade e também tem o foco exportador, que visa o lucro a partir da venda para o estrangeiro. Para além disso, a própria precificação do combustível que é utilizado para translado de mercadorias, é feita de forma artificial e propositalmente dolarizado. Estes são os reais motivos do aumento de preços e é aqui, na raiz do problema, que se poderia combater tal questão.

As falsas crenças de que é o agro que abastece e alimenta a mesa dos brasileiros, junto ao mito de que o problema do aumento dos preços nos super mercados e etc deva, em nosso contexto, ser resolvido com aumento de juros, são, como se verifica, centrais para iludir quanto a real natureza do problema econômico brasileiro.

SOBRE A AÇÃO E A POLÍTICA:

Quem se coloca como “eterno escravo das condições” e não constrói contexto, é obrigado a aceitar as condições e o contexto que os outros produzem…

Na política isso consiste num erro mortal.

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