[BERNARDO BRANDÃO] Getúlio: A vida, a morte e o grito de um povo

Bernardo Brandão,
Secretário de Formação Política,
Ação Popular Revolucionária – RJ,
Movimento Comunitário Trabalhista – RJ Capital.

No dia 24 de agosto de 1954, sob intensa crise, Getúlio Vargas atirou contra o próprio coração. Oswaldo Aranha, aliado político de longa data, ofereceu uma carnificina em solidariedade. Resistiriam o presidente e algumas dezenas de corajosos. A sugestão sangrenta foi recusada por Getúlio. Afinal, já havia mandado Maciel Filho bater na máquina que, “se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, oferecia o mandatário da República “em holocausto” a própria vida.

João Goulart, ex-ministro do trabalho, carregou estas palavras em um envelope, sem que soubesse o conteúdo do documento entregue pelo velho. “Se viveste com dignidade, morreste com honra”, disse ao ler a carta diante do corpo já desfalecido.

Ao suceder das gerações de poderosos e despossuídos, se construiu, com a força de uma gente bestializada, a nação brasileira, assentada sobre aquela que Darcy Ribeiro chamaria de “mais bela e luminosa província da terra”. Em sua porção mais austral, esse povo tomou forma de uma gente pastoril que, para o já mencionado antropólogo mineiro, era caracterizada por uma simetria nas relações entre as distintas hierarquias sociais, impensável em outros rincões da pátria continental.

Foi nesse meio, e sob os bigodes de um abolicionista republicano, Manuel Vargas, que Getúlio deu os primeiros passos de sua vida. As histórias de guerra contadas pelo pai encantaram o garoto de estrutura frágil desde o nascimento, que tentou seguir carreira militar. A força do destino o faria trilhar uma vida civil, a partir de uma posição inegavelmente confortável garantida pela sua origem.

No bloco acadêmico castilhista, o jovem Getúlio discursou em homenagem ao Júlio de Castilhos, em decorrência da morte por um câncer que corroía a garganta do positivista – homem que serviria de inspiração para a legislação trabalhista da Era Vargas, tão falsamente e irresponsavelmente acusada de “inspiração fascista” pelos mais grotescos porta-vozes do polo reacionário da nossa elite de fulgor escravocrata.

Diria em seus diários, nos quais passou a metodicamente tomar notas em um rompante contemporâneo ao início da revolução por ele liderada: “(…) sentindo que tudo era inútil, decidi-me pela revolução, eu, o mais pacífico dos homens, decidido a morrer. E venci, vencemos todos, triunfou a Revolução!”.

O movimento de 1930 iniciou um período de prodigiosos quinze anos, durante os quais Vargas conduziu a nação brasileira na direção do desenvolvimento autônomo acompanhado de uma grande implementação de garantias social, com o surgimento de um enorme e até hoje atacado arcabouço de leis trabalhistas.

Um país que antes importava enxadas, estabeleceu suas indústrias de base. Derrubado em 1945, o projeto nacionalista de Getúlio Vargas voltaria com a graça do voto popular nas eleições de 1950. “A volta de Vargas ao poder assinala uma interrupção e um retrocesso no desenvolvimento da reação conservadora, onde se aliavam a tradição liberal de uma ala udenista e a tendência panamericanista, senão os interesses confessáveis e inconfessáveis das multinacionais” escreveu Hélio Silva, historiador insuspeito de apologista do velho gaúcho.

Se as dificuldades para derrubar Farquar e a Itabira Iron foram difíceis, se os obstáculos para a construção da grande Siderúrgica Nacional se impuseram enormes, se edificar uma legislação dignificadora das massas urbanas foi uma tarefa árdua frente aos interesses dos espoliadores do povo, o que mais se imporia a Getúlio no início da década de 1950?

O Brasil era outro, a começar pelo péssimo legado do antecessor de Vargas, Eurico Gaspar Dutra. A farra dos importados abriu as portas do Brasil para todo tipo de quinquilharia e a saída de divisas do nosso país foi afrouxada sem o menor cuidado. A inflação estourou sobre as costas do trabalhador.

Dutra buscava uma parceria com os Estados Unidos tal qual o Brasil estabeleceu em tempos de guerra, mas os norte-americanos não viam o nosso país com os mesmos olhos. Com Getúlio, as relações entre os dois países não eram um fim em si mesmo, mas o meio para o desenvolvimento nacional. Com a frustração em decorrência da missão Abby, o governo do pessedista optou pelo alinhamento humilhante, sem contrapartidas, dinâmica dissecada pelo historiador Gerson Moura na publicação “O alinhamento sem recompensa”.

Destarte, restou ao reacionário Dutra entregar o país. Instalou-se em nossa terra uma verdadeira sucursal da Escola das Américas. Varrido pela força do povo, esse péssimo presidente da nossa história deixou detritos no caminho do mandato democrático de Getúlio. O mais notável, a ESG, sediada em um edifício austero, aos pés do Pão de Açúcar. De lá sairia o brilhantismo antinacional de Golbery do Couto e Silva: coronel conspiracionista contra Vargas e general golpista contra João Goulart.

O manifesto golpista de coroneis, de fevereiro de 1954, assinado por Golbery, também apresenta a assinatura de Amaury Kruel, futuro general envolvido na articulação empresarial-militar imperialista para a derrubada do sucessor de Getúlio, João Belchior Marques Goulart.

Com certo remorso, o militar é citado por João Vicente, filho do ex-presidente golpeado, em seu livro de memórias sobre o pai: “Até o general Amaury Kruel, comandante do Segundo Exército, traiu governo e aderiu ao golpe, apesar de meu pai ser padrinho de um de seus filhos”.

No governo democrático, Vargas deu os primeiros passos para a criação da Eletrobrás, empresa que, como consta na Carta-Testamento, foi “obstaculada até o desespero”, tendo sido fundada apenas durante o mandato de Jango. As remessas de lucro para o exterior foram limitadas e o governo se recusou a enviar tropas para o combate ao lado dos imperialistas na península coreana, apesar da insistência de João Neves.

A partir de uma imensa mobilização popular encabeçada pelo slogan “O Petróleo é Nosso”, Vargas conseguiu criar a maior e mais bem sucedida empresa da história brasileira, a Petrobras. Na toada do desenvolvimento social, ao lado do então ministro João Goulart, dobrou o salário mínimo. Estava irritadíssimo o patronato brasileiro, mas não menos as classes dominantes internacionais. A Petrobras e a soberania do petróleo foram o pesadelo da Standard Oil.

Em “Imperialismo, estágio superior do capitalismo”, o revolucionário Vladimir Lênin expôs a indissociabilidade entre o imperialismo e o capitalismo. Em um mundo no qual não há realidade para além da exploração do trabalho alheio pela classe dominante, cabe aos grandes trustes, cartéis e monopólios, repartir o domínio sobre tudo que há.

São formados impérios que subjugam povos inteiros. Outra marxista, Vânia Bambirra, militante egressa das fileiras da mocidade trabalhista, percebeu o caráter de sócias-menores do imperialismo destinados às classes dominantes brasileiras. O Brasil, destarte, estava destinado ao dependentismo das nações cêntricas, cujo exercício de domínio impossibilita até mesmo o desenvolvimento de um capitalismo autônomo. Com isso, estão selados os destinos de Vargas e do povo brasileiro.

Após exaustiva campanha de desmoralização e incriminação promovidas pelo império em nossa terra, Vargas saiu da vida para entrar para a história, abrindo ferida que até hoje faz escorrer sangue em cada rua brasileira. “Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos”, deixou o presidente trabalhista no seu último escrito.

Foi esse gesto pessoal e político, o mais intenso da face trabalhista de Vargas, que mudou a história da nossa república. Vale ressaltar que populares tomaram as ruas e depredaram sucursais de jornais, sedes de partidos da oposição e até mesmo a embaixada dos Estados Unidos como resposta ao suicídio.

O tiro da Colt ainda ecoa em um país subjugado pelo capital imperialista, ainda que o seu significado seja cada vez mais esvaziado por uma historiografia que detesta o processo de libertação de um povo faminto.

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