[BRENO FROSSARD] Norberto Schwantes: O pastor luterano trabalhista.

Breno Frossard,
Presidente de Honra,
Ação Popular Revolucionária.

O PDT é um partido com história. E toda história tem seus heróis. Boa parte dos nossos heróis nós sabemos de cor, mas o texto de hoje é sobre um herói pouco lembrado na nossa trajetória, o pastor Norberto Schwantes.

Todos os relatos dessa história são tirados do livro “Uma cruz em Terra-nova“, escrito por Norberto semanas antes de falecer, e de relatos de colegas de partido e de igreja. A trajetória de Schwantes se assemelha à história de Brizola.

Nasceu em Carazinho, a mesma cidade do grande líder trabalhista. Era o irmão mais velho de quatro irmãos e, graças à igreja, assim como Brizola, pôde iniciar seus estudos. Em 1956, Norberto ingressou no Instituto Pré-Teológico, em São Leopoldo, uma escola de ensino médio que preparava futuros estudantes de teologia para a Escola Superior de Teologia (EST) da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

Estudante dedicado, tímido e recluso, essas qualidades o ajudaram a convencer o então presidente da IECLB, pastor Dohms, a conceder a todos os seus irmãos uma bolsa de estudos. Entre eles, destaca-se Milton Schwantes, o mais novo, que se tornou teólogo biblista e grande expoente da Teologia da Libertação.

Em 1959, Norberto assumiu o pastorado na paróquia de Tenente Portela, no Rio Grande do Sul, onde, ao chegar, preocupou-se com as condições precárias da população. Com recursos da comunidade, construiu um internato, a primeira escola do município que permitia que povos indígenas estudassem. Pelo seu isolamento no campo, e pela costumeira desatenção à política, estava um tanto alheio ao que ocorria no regime militar no Brasil.

Entretanto, em 1968, o pastor foi para a Alemanha fazer três meses de intercâmbio pastoral. Por meio de conversas, começou a entender o que ocorria no Brasil. Com isso, comprometeu-se a usar sua igreja para ajudar revolucionários a cruzarem a fronteira com o Uruguai e a Argentina. Foi assim que Brizola conheceu Norberto: já no Uruguai, muitos jovens procuravam Brizola e falavam do pastor luterano que os ajudara a cruzar a fronteira.

Posteriormente, muitas famílias de Tenente Portela se mudaram para o Mato Grosso em busca de melhores oportunidades de desenvolvimento que Norberto havia começado a idealizar. A migração dessas famílias foi impulsionada pela busca de novas oportunidades e pela necessidade de escapar das dificuldades econômicas e sociais que enfrentavam no Rio Grande do Sul.

Já reconhecido por sua liderança e compromisso com a justiça social, o pastor Norberto tornou-se figura central nesse processo. Também acolheu demandas e lutou pela demarcação das terras dos povos indígenas na região. Foi nesse contexto que conheceu Mário Juruna, cacique do povo Xavante, que passou a defender os direitos indígenas.

Durante esse período de intensa atividade pastoral e social, já no final do regime militar, Norberto foi convidado por Brizola para um encontro no Rio de Janeiro. Lá, Brizola declarou que muito ouvira sobre ele no período de exílio e que teria ido até Tenente Portela perguntar sobre o pastor.

Disse que o teólogo deveria se juntar ao PDT, ao que ele retrucou: “Governador, eu não entendo nada de política.” Brizola pediu que Schwantes pensasse e desse um breve retorno. Ao voltar para o Mato Grosso, Norberto foi surpreendido por Frederico Campos, governador indicado pelo regime militar, batendo à porta de sua casa e dizendo que não gostara de saber que ele se encontrou com Brizola.

A atitude de Frederico Campos irritou Norberto e foi decisiva para que ele ligasse para Leonel: “Estou pronto para trabalhar, Brizola”, disse. Ao que Brizola respondeu: “O primeiro passo, pastor, é assinar a ficha, que eu faço questão de abonar.

Brizola aproximou Norberto do PDT de Cuiabá e o apresentou como liderança do interior do partido, o que gerou certo ciúme na direção estadual, sediada na capital. Norberto Schwantes não apenas se filiou ao PDT, como também se tornou um dos grandes defensores das bandeiras trabalhistas e da reforma agrária, alinhando-se completamente aos ideais de Brizola. Sua atuação política foi marcada pela mesma dedicação e integridade que demonstrou na vida pastoral.

Em uma de suas visitas a Juruna, Norberto encontrou o cacique cabisbaixo, de semblante fechado. “Eu seria candidato pelo MDB, mas os homens brancos só me enganam”, declarou Juruna, decepcionado após ser preterido pelo partido. Norberto refletiu e disse: “Juruna, eu conheço um cacique, mas é um cacique de gente branca. Ele vai te ajudar a concorrer. O nome dele é Brizola.

Juruna ficou entusiasmado, eles ligaram e conversaram. Norberto levou Juruna até o Rio e, por ter se tornado uma figura popular no estado, pois já aparecera nos jornais, ficou acertado que Juruna seria candidato pelo PDT do Rio de Janeiro, mas queria Norberto na Câmara com ele. Norberto aceitou, mas a direção do PDT estadual rejeitou por ciúme político. Então Norberto acertou com Brizola que concorreria pelo MDB, que já lhe oferecera espaço, e que futuramente se filiaria ao PDT após a Constituinte.

Norberto Schwantes foi eleito deputado federal constituinte em 1986. Chegou ao Congresso Nacional com a missão de defender os interesses dos pequenos agricultores, dos trabalhadores rurais e das comunidades indígenas, grupos que sempre estiveram no centro de sua atuação pastoral e política.

Já acometido por câncer, o grande teólogo trabalhista começou a escrever sua autobiografia, na qual disse que se recusava a morrer antes de aprovar a Constituinte. Revezando visitas ao hospital com o dr. Drauzio Varella e sessões parlamentares, Norberto aprovou a Constituinte em primeiro turno. No dia 17 de setembro de 1988, Norberto nos deixou, e no dia 22 seria aprovada em segundo turno e promulgada a Constituinte.

A Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, reflete muitas das bandeiras defendidas por Norberto Schwantes. A garantia dos direitos indígenas, a previsão de uma reforma agrária justa e a valorização do cooperativismo estão entre os avanços que contaram com sua contribuição. Sua atuação na Constituinte foi um exemplo de como a política pode ser instrumento de transformação social, guiada por princípios éticos e por um profundo compromisso com os mais necessitados.

Norberto Schwantes não viveu para ver a promulgação da Constituição nem para retornar ao PDT, mas sua luta e seu legado continuam vivos na história do PDT e do Brasil. Sua vida é um testemunho de que a política e a religião, quando exercidas com integridade e amor ao próximo, podem ser um caminho para a construção de um país justo, solidário e socialista.

NORBERTO SCHWANTES, PRESENTE.

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