[ENTREVISTA EXCLUSIVA] AXEL GRAEL: MEIO AMBIENTE, TRABALHISMO E BRASIL SOBERANO.

Editorial: A revista ACPB orgulhosamente inicia mais uma rodada de entrevistas com os maiores nomes do trabalhismo e do movimento socialista brasileiro em geral. Para começar esse novo ciclo, apresentamos aos nossos leitores uma qualificada entrevista com o militante ambientalista histórico, trabalhista e ex-prefeito de Niterói, Axel Grael!

Mantendo o padrão de qualidade jornalístico e a complexidade e profundidade de análise que nos tornaram uma referêrencia na formação de diferentes gerações de militantes nestes oito anos de atividade, ambicionamos reunir entrevistas com todos aqueles que movem o debate público no campo nacionalista de esquerda.

Exatamente por isso, reiteramos que as opiniões dos entrevistados, embora sejam provenientes do mesmo campo político, nem sempre refletem inteiramente a opinião de nosso corpo editorial.

Desejamos a todas e todos uma boa leitura!

1- ACPB: Geralmente iniciamos nossas entrevistas perguntando algo sobre a iniciação política de nossos entrevistados.

Sabemos que sua formação se deu na passagem de uma Niterói que era capital do Estado, e tinha como centro político os ex-governadores trabalhistas Roberto e Badger da Silveira, para os primeiros anos de ditadura militar, que impactaram profundamente na cidade de Niterói.

Nesse sentido, como foram seus primeiros contatos com a política e com a causa ambiental?

Axel Grael: Iniciei minha trajetória ambientalista e, de certa forma, política também, no final da década de 1970, em Niterói. Eu acompanhava de perto a degradação da Baía de Guanabara e da Enseada de Jurujuba, que passaram a sofrer fortemente com a poluição industrial, especialmente das fábricas de sardinha. Aquilo me mobilizou não apenas como morador, mas como alguém interessado em compreender tecnicamente as causas e as soluções para o problema. 

Em 1979, organizei manifestações que culminaram em uma regata de protesto com cerca de 100 barcos, chamando a atenção para o impacto ambiental das indústrias. No ano seguinte, fundei o Movimento de Resistência Ecológica (MORE) e, mais tarde, o Movimento Cidadania Ecológica (MCE). Atuávamos com base em dados técnicos e denunciávamos, por exemplo, que pouco mais de uma dezena de fábricas lançava na Baía uma carga orgânica superior à de todo o esgoto produzido pela cidade na época.

Essa atuação me levou também ao serviço público. Minha primeira experiência governamental foi justamente no governo Leonel Brizola, quando ele me convidou para a presidência do Instituto Estadual de Florestas (IEF). Na época, trabalhei também com Darcy Ribeiro na execução do Projeto Floresta da Pedra Branca e presidi a FEEMA. Ali aprendi que é possível transformar mobilização em política pública concreta. Desde então, minha trajetória tem sido essa: unir consciência ambiental, capacidade técnica e compromisso com um projeto de desenvolvimento sustentável, que proteja a natureza sem abrir mão da justiça social.


2-ACPB: Muitas pessoas conhecem seu legado como ambientalista, mas pela distância histórica, os mais jovens talvez não tenham dimensão da importância de algumas conquistas e de seu papel como militante.

O Parque Estadual da Serra da Tiririca (PESET), por exemplo, é motivo de muito orgulho para Niterói e referência em preservação ambiental em diversas esferas, recebe muitas pessoas anualmente e faz parte da vida local culturalmente.

Poderia contar com detalhes para nossos leitores de todo Brasil como foi o movimento social de base que culminou na criação do parque?

Axel Grael: A criação do Parque Estadual da Serra da Tiririca foi resultado de uma mobilização consistente da sociedade civil ao longo da década de 1980, reunindo ambientalistas, moradores e profissionais da área técnica de Niterói e Maricá. Um marco importante desse processo foi a atuação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, por meio do Dr. João Batista Petersen, que propôs a primeira Ação Civil Pública ambiental do Brasil para impedir o desmatamento no Córrego do Colibri. À época, a Curadoria de Meio Ambiente ainda não dispunha de equipe técnica própria, então fiz esse trabalho ao lado de vários jovens colegas da mobilização, colaborando voluntariamente com os estudos e fundamentações.


O MORE redigiu o documento técnico que embasou a proposta e elaborou o Projeto de Lei encaminhado à Assembleia Legislativa, que aprovou a criação do parque em 1991. No mesmo ano, assumi a presidência do Instituto Estadual de Florestas (IEF-RJ), responsável pela gestão das unidades de conservação. Tive, assim, a oportunidade muito interessante de contribuir tanto na formulação quanto na implementação do parque, que foi oficialmente criado em 1992. 


3- ACPB: Após esse período, você teve sua primeira passagem na coisa pública, como presidente do Instituto Estadual de Florestas, durante o segundo governo Brizola no RJ, e presidiu também a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente em duas oportunidades antes de ingressar com mais intensidade na vida partidária.

Como foi a passagem de militante para operador de um setor importante da coisa pública? E, claro, não poderíamos deixar de perguntar, como foi sua relação com Brizola, e qual era o pensamento do homem que mais amou o Brasil quanto ao meio-ambiente?

Axel Grael: Essa transição da militância para a gestão pública foi muito interessante, porque Brizola me deu a oportunidade de estruturar avanços reais na proteção ambiental, consolidar unidades de conservação e fortalecer uma agenda que, até então, ainda era vista como periférica. Lembro que Brizola aceitou de pronto que criássemos o Projeto Floresta da Pedra Branca, e pouco tempo depois recebi um telefonema da Darcy Ribeiro, muito interessado em contribuir com a iniciativa.

Conviver com Brizola foi uma experiência singular. Ele tinha uma visão muito clara de soberania e de compromisso com o povo brasileiro. Participei das reuniões que decidiram a implantação dos CIEPs e pude ver de perto que era um conceito pedagógico e civilizatório. O pensamento dele sobre meio ambiente estava inserido nessa visão maior de país: proteger os recursos naturais, era proteger o patrimônio do povo e garantir futuro. 


4-ACPB: Você então ingressou na vida partidária, e teve um significativo papel já na década de 2010 na política de Niterói, mesmo no Partido Verde, auxiliando na manutenção do projeto trabalhista que é hegemônico e vigora na cidade desde a redemocratização.

No período entre 2010 até 2020  tivemos: as jornadas de junho de 2013, ascensão da extrema-direita, e até mesmo prisão ilegal de líderes políticos, culminando na eleição de um extremista de direita para a presidência da república em 18.  Como você observa esse período ? Em relação a isso, como foi a passagem na vice-prefeitura em 2012?

Axel Grael: Meu período na Prefeitura de Niterói coincide com um momento muito turbulento da história recente do nosso País. Vivemos uma crise econômica profunda, instabilidade institucional, radicalização do debate público e a ascensão de uma extrema-direita que passou a questionar consensos democráticos básicos. Houve, inclusive, episódios graves de tensionamento das instituições e do devido processo legal. Foi um momento em que a política brasileira perdeu capacidade de diálogo e planejamento de longo prazo.

Em Niterói, assumimos a prefeitura em 2013, Rodrigo Neves como prefeito e eu como vice-prefeito, em um cenário extremamente adverso. A cidade tinha cerca de R$ 300 milhões em dívidas, obras estruturantes paralisadas, como o mergulhão da Avenida Marquês do Paraná, o Hospital Getulinho fechado e um ambiente geral de desalento após a tragédia do Morro do Bumba. Havia salários atrasados, fornecedores sem receber e baixa capacidade de investimento.

Nossa prioridade foi reorganizar as finanças, recuperar a credibilidade institucional e retomar o planejamento estratégico. Em poucos anos, Niterói saiu de uma situação de colapso para um ciclo consistente de transformação urbana e social, mesmo em meio à crise do Estado do Rio e à instabilidade nacional. Minha passagem pela vice-prefeitura foi marcada por essa tarefa de reconstrução institucional. Trabalhamos para preservar um projeto político comprometido com desenvolvimento sustentável, inclusão social e responsabilidade fiscal. Em um ambiente nacional de radicalização, Niterói optou por estabilidade, planejamento e resultados concretos, e isso fez toda a diferença.

5-ACPB: Já na presente década, você assumiu o comando da prefeitura de Niterói após uma vitória histórica nas eleições de 2020 pelo PDT, contra a extrema-direita.

Durante seu governo, em um contexto extremamente complexo de pandemia, negacionismo e governo Bolsonaro, Niterói foi uma das únicas cidades do estado do RJ à resistir ativamente contra a onda fascista. Pudemos ver a estatização de hospitais privados, luta politicamente em favor da vacinação, criação de auxílios emergenciais municipais e políticas de crédito para pequenos empreendedores, permitindo manutenção de negócios, empregos e sobrevivência da população.

Qual foi a importância do planejamento público e da postura ativa do município para lidar não apenas com os aspectos sanitários e de saúde, mas com os aspectos políticos, econômicos e sociais durante esse momento de crise? Teria sido possível evitar as mais de 700 mil mortes em todo o país se tivéssemos planejamento estatal e uma postura ativa do Governo Federal durante a Pandemia?

Axel Grael: Em 2020, nosso País caiu em uma armadilha, em uma discussão retórica e puramente politiqueira, como se a gente tivesse que escolher entre salvar vidas e salvar a economia. Em Niterói, essa dicotomia não existiu. Em 2013, ao lado do prefeito Rodrigo Neves, assumimos uma cidade em grave crise fiscal e fizemos um profundo ajuste das contas públicas. Organizamos a gestão, estruturamos planejamento estratégico de longo prazo e fortalecemos a capacidade de investimento, inclusive com captação em bancos multilaterais. Isso nos permitiu chegar à pandemia com solidez financeira e capacidade de ação, algo decisivo num momento de emergência.

Desde janeiro de 2020, antes mesmo da chegada do vírus ao Brasil, criamos um grupo de resposta rápida. Quando os primeiros casos surgiram, já tínhamos protocolos, treinamento e articulação com a Universidade Federal Fluminense e com especialistas da área de saúde. Não aceitamos a falsa dicotomia entre salvar vidas e salvar a economia. Implementamos isolamento precoce, testagem em larga escala, sanitização de comunidades, monitoramento do vírus no esgoto em parceria com a Fiocruz e ampliamos a proteção social com a Renda Básica Temporária e programas de crédito e manutenção de empregos. 

É evidente que, se o país tivesse tido coordenação nacional, liderança comprometida com a ciência e políticas integradas de proteção social e sanitária, muitas das mais de 700 mil mortes poderiam ter sido evitadas. A pandemia mostrou que planejamento estatal, investimento público e responsabilidade política salvam vidas. O custo da omissão, como vimos, é sempre muito maior.

6- ACPB: Seu governo foi marcado por uma série de intervenções urbanas:

A expansão de obras de contenção de encostas para evitar fatalidades, prosseguimento na urbanização de parte significativa do município, e uma série de projetos relativos ao meio ambiente, dos quais, o principal se tratou do Parque Orla da Lagoa de Piratininga Alfredo Sirkis (POP) e seu conceito inovador de biotecnologia. Também foi marcado pela expansão de políticas públicas de distribuição de renda, como a moeda social Araribóia. Um exemplo em políticas do gênero.


Apesar de todo esse êxito institucional e sucesso em um contexto amargo para esquerda nacionalmente, parte da oposição municipal de esquerda liberal, marcadamente o PSOL, lhe fez aguerrida e injustificada oposição. Notadamente, tentando construir na opinião pública uma oposição entre o “Axel prefeito e o Axel militante” especialmente no que diz respeito a pauta ambiental e a lei urbanística aprovada em seu governo.

Considerando todo esse contexto, e que você reagiu a isso de maneira democrática, republicana e nunca se exaltou ao responder agressões e calúnias:

Gostaríamos de saber a sincera opinião do militante trabalhista, Axel Grael, sobre os avanços ambientais em Niterói em relação ao resto do país neste último ciclo. E, claro,  qual resposta você daria hoje para tais críticos? 

Axel Grael: A pauta ambiental é um fio condutor da minha atuação como gestor público. Ao olhar para o que realizamos em Niterói nos últimos anos, tenho convicção de que a cidade avançou de forma consistente e estruturada, especialmente em um período em que o Brasil, infelizmente, viveu retrocessos ambientais em nível federal.

Desde 2013, transformamos a sustentabilidade em eixo central de governo. Hoje, 57% do território de Niterói está protegido por unidades de conservação, algo raro em uma cidade totalmente inserida em contexto metropolitano. E não nos limitamos a criar áreas no papel, mas também implantamos e estruturamos esses espaços. O Parque Orla de Piratininga Alfredo Sirkis é um exemplo emblemático, com soluções baseadas na natureza e uso de biotecnologia para recuperação do sistema lagunar, combinando preservação, lazer e inovação ambiental.

Também investimos fortemente em resiliência climática, com cerca de R$ 1 bilhão aplicados em drenagem e contenção de encostas, prevenindo tragédias e salvando vidas. Criamos a primeira Secretaria Municipal do Clima do Brasil, fortalecemos o saneamento rumo à universalização e recentemente chegamos a 100 km de malha cicloviária, implantada pelo programa Niterói de Bicicleta, que idealizei.

É muito gratificante poder transformar décadas de ativismo ambiental em políticas públicas executadas, com orçamento, metas e entregas. A melhor resposta aos críticos está na cidade que entregamos: mais verde, mais resiliente e mais preparada para os desafios climáticos do século XXI.

7 -ACPB: Agora, finalmente, vamos passar para o presente. No dia 7 de fevereiro, ocorreu o lançamento de sua pré-candidatura a deputado federal pelo PDT.  Poucas pessoas se dão conta, mas na realidade, você foi um dos primeiros “blogueiros” de Niterói e um dos pioneiros no país. Quando tudo nas redes ainda era novo, e de certa forma, menos cooptado pelo dinheiro.

Nesse sentido, como você enxerga a questão da Soberania Nacional e das Big Techs? O que o Brasil deveria fazer em relação a isso?

Axel Grael: De fato, quando comecei a utilizar a internet como ferramenta de mobilização ambiental e diálogo com a sociedade, as redes ainda eram um espaço mais orgânico, de troca direta de ideias. Sempre digo que a tecnologia precisa estar a serviço da melhoria da qualidade de vida das pessoas e da ampliação do acesso à informação qualificada.

O debate sobre soberania nacional e Big Techs é um dos grandes temas do nosso tempo. Hoje, poucas empresas concentram enorme poder econômico, controle de dados e influência sobre o fluxo de informação no mundo. Isso impacta economias, processos eleitorais, formação de opinião e até políticas públicas. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que ela precisa operar dentro de marcos regulatórios claros e compatíveis com os interesses nacionais.

A Lei Geral de Proteção de Dados foi um passo importante, mas precisamos avançar na transparência algorítmica, no combate à desinformação e na tributação justa dessas plataformas. Ao mesmo tempo, é fundamental fortalecer universidades, centros de pesquisa e empresas nacionais de inovação, para que não sejamos apenas consumidores de tecnologia, mas também produtores.

Entendo que o equilíbrio está em combinar inovação, liberdade de expressão e responsabilidade regulatória, sempre com foco no interesse público e na democracia.

8- ACPB: O Brasil, desde 2016, passou por um grave processo de desmantelamento de sindicatos, precarização das relações de trabalho e aumento da informalidade. Ainda que dados oficiais atestem um baixo nível de desemprego e certos setores celebrem, pudemos ver o surgimento de movimentos sociais que batalham por melhorias nas relações trabalhistas, como o movimento em defesa dos entregadores de aplicativos e a luta contra a escala 6×1.

Considerando tal contexto, gostaríamos de saber como você enxerga as questões relativas ao mundo do trabalho. É possível pensar em um outro modelo econômico que alinhe desenvolvimento, aumento da renda, e melhorias nas relações de trabalho? Qual sua opinião quanto ao fim da escala 6×1?

Axel Grael: O mundo do trabalho está passando por uma transformação profunda, impulsionada pela tecnologia, pela reorganização das cadeias produtivas e por mudanças nas formas de contratação. Modernização não pode ser sinônimo de precarização. Como pedetista, entendo que desenvolvimento econômico só faz sentido se estiver associado à valorização de quem produz a riqueza do país. 

Em relação à escala 6×1, o debate é legítimo e precisa ser feito com responsabilidade. É possível pensar em um modelo que alinhe crescimento, renda e melhores relações de trabalho. Países que combinaram produtividade com proteção social conseguiram crescer com mais equilíbrio e menos desigualdade.


9-ACPB: A questão ambiental é um dos temas centrais do debate global no século XXI. Ainda assim, em nível geral, pouco foi feito para preparar o Brasil para os efeitos das mudanças climáticas, como por exemplo, as ondas de calor extremo que já são uma realidade e devem se intensificar.

A maior parte dos debates quanto ao tema geralmente enfocam uma suposta contradição entre meio-ambiente e desenvolvimento, contrapondo uma visão romântica e idealista da natureza a outra visão exploratória acumuladora e insensível quanto ao meio ambiente.


Qual a sua visão sobre o debate? É possível aliar desenvolvimento e proteção do meio ambiente? Qual o papel da participação popular e do planejamento estatal em tal processo? 

Axel Grael: Durante muito tempo, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, nós, que defendíamos a pauta ambiental, éramos vistos como deslocados da realidade econômica. Na própria Conferência de Estocolmo, em 1972, meio ambiente e desenvolvimento apareciam como temas separados. Foi apenas a partir da Eco-92, no Rio, que o conceito de sustentabilidade passou a consolidar a ideia de que essas dimensões são indissociáveis. A dualidade entre proteger a natureza e desenvolver o país é um equívoco histórico.

Hoje, a questão climática deixou de ser um debate abstrato: ela se manifesta em ondas de calor extremo, enchentes, deslizamentos, insegurança hídrica e aumento no preço dos alimentos. Isso impacta diretamente a vida das pessoas, sobretudo as mais vulneráveis. Por isso, desenvolvimento sustentável é estratégia econômica e social de longo prazo.

O Brasil tem papel central nesse debate global. Somos uma potência ambiental, com capacidade de reflorestamento em larga escala, matriz energética relativamente limpa e enorme biodiversidade. Compromissos como o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa podem gerar milhões de empregos e dinamizar economias locais. Sustentabilidade também significa inovação, como vemos na expansão da energia solar e na formação de mão de obra qualificada para essa nova economia.

Para que isso aconteça, é indispensável planejamento estatal, marcos regulatórios consistentes e investimento público. Mas também é fundamental a participação popular, controle social e representação política comprometida com a agenda climática. O Congresso precisa estar alinhado com essa responsabilidade estratégica. Não se trata de escolher entre crescer ou preservar, trata-se de compreender que, no século XXI, só há desenvolvimento possível se ele for ambientalmente responsável e socialmente justo.


10 -ACPB: Após a década de 90, com a implementação do neoliberalismo no Brasil, o Estado vem tendo seu papel reduzido em várias áreas. Desde o dia 23 de janeiro, indígenas e demais militantes sociais vêm protestando contra a entrada do Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND). Pudemos ver, também, muita mobilização social contra mineradoras, a própria Vale do Rio Doce, fruto da privatização, foi responsável pelo desastre de Brumadinho.

Ao mesmo tempo, em um contexto de mudanças no clima e necessidade de mudanças profundas na matriz energética, a Eletrobrás foi privatizada durante o governo Bolsonaro, e o serviço de distribuição de energia é feito via concessões em boa parte do país.

Qual sua opinião sobre privatizações e concessões? Como elas impactam no meio ambiente e nas medidas de contenção às mudanças climáticas?

Axel Grael: Privatizações e concessões precisam ser avaliadas caso a caso, considerando o interesse público, a qualidade do serviço prestado e os impactos sociais e ambientais envolvidos. Não existe solução única para todas as áreas. Em Niterói, por exemplo, temos um caso bem-sucedido na concessão do saneamento, que permitiu avançar na universalização da coleta e tratamento de esgoto e melhorar indicadores ambientais de forma consistente. Com regulação forte, metas claras e fiscalização eficiente, é possível estruturar parcerias que tragam resultados positivos para a população e para o meio ambiente.

Mas também enfrentamos problemas sérios na concessão da distribuição de energia elétrica, um contrato estabelecido no âmbito federal, com pouca participação dos municípios. Inclusive, liderei um movimento defendendo que as cidades tenham voz na escolha e na avaliação dessas concessões, porque é a população local que sofre diretamente quando o serviço não funciona bem. Setores como energia, recursos hídricos e mineração exigem planejamento de longo prazo, compromisso ambiental rigoroso e alinhamento com metas de transição energética. 

Independentemente do modelo, precisa haver governança pública forte, transparência e compromisso com o desenvolvimento sustentável. O que não pode acontecer é o Estado abrir mão da sua capacidade de regular, fiscalizar e planejar o futuro do país. 


11 -ACPB:  Durante os governos de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, muito por obra de Darcy Ribeiro, tivemos um novo paradigma educacional, centrado nos CIEPs, e também um novo paradigma de segurança pública que respeitava os direitos dos mais pobres e despossuídos. Ambos eram inovadores na medida em que interagiam entre si. Mais recentemente, a cidade de Niterói também tem demonstrado alternativas com o “Pacto Niterói contra a violência”, que opera nos dois setores: educação e segurança.

Contudo, essa visão holística que pensa os dois problemas de forma conjunta tem dado lugar na opinião pública a um pensamento típico da extrema-direita, que versa sobre repressão. Isso se demonstra com o avanço de propostas como escolas “cívico militares” no lugar dos CIEPs, e da oficialização de chacinas como política de estado.

Qual sua opinião sobre ambos os temas? O que pensa sobre a questão da educação? E quanto a questão da segurança pública? E quais soluções poderíamos aplicar para resolver tal situação?

Axel Grael: Em Niterói, nós partimos do princípio de que segurança pública não pode ser tratada apenas como ação policial, mas como política estruturada, integrada e baseada em evidências. Foi com essa visão que criamos o Pacto Niterói Contra a Violência, um dos programas municipais mais robustos do país nessa área. Mesmo sendo uma atribuição constitucional prioritariamente estadual, o município decidiu assumir protagonismo, investir recursos próprios e coordenar uma estratégia abrangente.

O Pacto combina tecnologia, prevenção e inclusão social. Implantamos o Centro Integrado de Segurança Pública, com centenas de câmeras, cercamento eletrônico e monitoramento em tempo real, apoiando o trabalho das forças estaduais e federais. Isso trouxe inteligência e capacidade de resposta mais rápida, com redução consistente de indicadores de criminalidade.

Mas, na minha avaliação, o diferencial do Pacto está na prevenção. Foi seguindo essa linha que pude tirar do papel um programa que era um sonho antigo: o Programa Niterói Jovem EcoSocial. A iniciativa beneficia jovens de comunidades vulneráveis e oferece bolsa para atuação em projetos de reflorestamento e recuperação ambiental, vinculada à formação profissional pelo Senai. É uma política que une meio ambiente, qualificação e geração de renda, atacando a raiz da vulnerabilidade social.

Na educação, revitalizamos antigos CIEPs e implantamos os Espaços Nova Geração, com trilhas pedagógicas voltadas para esporte, cultura e empregabilidade. Os CIEPs de Brizola e Darcy representavam um conceito avançado de escola integral, voltada não apenas ao ensino formal, mas à formação cidadã e à proteção social das crianças e adolescentes.

Tive a oportunidade de acompanhar de perto a construção de várias dessas unidades, quando atuava no governo do estado, e pude testemunhar o potencial transformador daquele modelo. Infelizmente, ao longo do tempo, esse projeto foi sendo descontinuado e perdeu sua concepção original. Se tivéssemos mantido os CIEPs funcionando como foram pensados, provavelmente teríamos evitado que muitos jovens fossem empurrados para a criminalidade. Em Niterói, ao criar os Espaços Nova Geração, buscamos justamente resgatar essa vocação: transformar a escola em um território de cidadania, oportunidade e futuro.


12 -ACPB: Axel, a equipe da Revista A Coisa Pública Brasileira, em nome de toda militância trabalhista no Brasil agradece muito por sua participação. Foi uma enorme honra e orgulho para nós abrir  esse espaço de entrevistas logo com um convidado tão importante.

Por último, mas não menos importante, pensamos que o Trabalhismo e o PDT vivem um momento muito importante em 2026. Para além da questão eleitoral, vivemos um momento limite em questões geopolíticas e para o futuro de nosso país. Considerando esse contexto:

Qual recado final você gostaria de deixar para nossos leitores?

Axel Grael: Quero começar agradecendo à Revista A Coisa Pública Brasileira pelo espaço e pela qualidade dessa conversa. É muito importante abrir canais de diálogo qualificado com a militância trabalhista e com todos aqueles que acreditam em um Brasil mais justo, democrático e soberano.

Minha pré-candidatura nasce de um processo de diálogo e pactuação com lideranças do partido e é consequência natural da minha trajetória pública. Quero levar para Brasília a luta que sempre me guiou: a defesa da justiça social, do meio ambiente e dos valores do trabalhismo. O Congresso Nacional precisa reagir a tantos retrocessos. Eu me sinto preparado para esse desafio, com a experiência administrativa e a serenidade política que o momento exige.

O PDT tem uma história que honra o Brasil e é fundamental para organizar um projeto nacional de desenvolvimento com soberania e inclusão. Os próximos meses serão de construção ainda mais intensa dessa candidatura, com diálogo, escuta e mobilização. Vamos em frente, com lealdade ao nosso campo político, coragem para enfrentar os desafios e respeito a todas e todos. O Brasil precisa de equilíbrio, compromisso social e visão de futuro.

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