Cíntia Xavier,
Analista internacional em Moscou,
Trópicos de Moscou | A coisa pública brasileira.
Esse material foi apresentado no seminário Antropologia da Neoindustrialização, dia 05 de julho de 2026, em Moscou, organizado pela Andorinha Digital, Centro GAGARA de Formação Psicológica Anticrise e Assistência Psicológica e Organização Beneficente Medicina Beneficente.
A complexificação das relações entre Brasil e Rússia tem potencial para contribuir para a neoindustrialização de ambos os países. Mais do que ampliar o comércio bilateral, trata-se de pensar uma cooperação capaz de enfrentar desafios comuns: a atualização da matriz produtiva, a redução da dependência tecnológica, a diminuição da vulnerabilidade externa e a ampliação da capacidade nacional de produzir bens, serviços e tecnologias de maior valor agregado.
Brasil e Rússia enfrentam desafios semelhantes relacionados à soberania tecnológica, embora sejam desencadeados por processos distintos. A questão central para ambos pode ser formulada da seguinte maneira: como atualizar a matriz produtiva e, ao mesmo tempo, reduzir as dependências que travam o desenvolvimento econômico e limitam a soberania tecnológica?
Da exportação de commodities à cooperação tecnológica
O conceito de neoindustrialização é importante nessa discussão, pois implica mais do que a criação de novas fábricas. Ele está ligado a uma transformação da matriz produtiva associada a novos ganhos tecnológicos e produtivos capazes de alterar a posição de um país na divisão internacional do trabalho, por meio da produção de bens de maior valor agregado, do domínio tecnológico nacional e da redução da dependência econômica externa.
A necessidade de atualização da matriz produtiva brasileira e russa é o ponto de partida da nossa tese. A partir desse diagnóstico, o comércio bilateral permite observar o perfil ainda persistente de exportação de commodities nas duas economias, sujeito à volatilidade dos preços internacionais e, sobretudo no caso brasileiro, à baixa agregação de valor.
A complexificação das relações Brasil-Rússia, portanto, depende da atualização da matriz produtiva de ambos os países. Ao mesmo tempo, os elementos de cooperação de longo prazo já existentes, que demandam maior complexidade tecnológica, indicam um caminho possível para superar esse padrão. Eles têm o potencial de elevar a importância estratégica da relação bilateral e contribuir, junto aos esforços estatais de cada país, para a atualização da matriz produtiva de ambos.
As vantagens da complexificação da relação se adequam às necessidades específicas de ambos os países. Para o Brasil, os ganhos da cooperação estão na possibilidade de reduzir vulnerabilidades externas em setores estratégicos, fortalecer capacidades nacionais já existentes e transformar vantagens produtivas em maior densidade tecnológica.
Para a Rússia, os ganhos variam conforme o setor, mas passam pela diversificação produtiva, pela sofisticação de complexos industriais já existentes e pela adaptação de capacidades tecnológicas acumuladas a novas cadeias de valor, bem como pela reorientação de setores estratégicos para parceiros não ocidentais.
Isso é especialmente importante no atual período de reorganização da economia russa, marcado por sanções, restrições tecnológicas, necessidade de novos mercados e busca de maior soberania produtiva, em linha com a Concepção de Desenvolvimento Tecnológico da Rússia para o período até 2030.
Gatilhos distintos, desafios comuns
Brasil e Rússia, países situados em continentes distintos e com histórias singulares, podem parecer, à primeira vista, muito diferentes entre si. Como grandes economias, dotadas de capacidades industriais, científicas e militares relevantes, mas ainda marcadas por dependências externas em segmentos tecnológicos críticos e por uma inserção internacional fortemente apoiada na exportação de commodities, ambos enfrentam desafios similares, ainda que os gatilhos que os desencadeiam sejam distintos.
O Brasil carrega uma história recente de desindustrialização e privatização, que enfraqueceu seu impulso industrial e aprofundou um traço antigo de sua economia: a exportação de produtos primários, como soja, café, carne e petróleo bruto. O agronegócio, um dos principais pilares da economia brasileira, orienta-se majoritariamente para a exportação de commodities agrícolas que sustentam a economia de outros países.
O debate sobre neoindustrialização no Brasil surge justamente associado a essa discussão: como superar o traço agroexportador e atualizar a matriz produtiva na direção de bens de maior valor agregado e de desenvolvimento tecnológico e científico autônomo? Dessa necessidade nasceu o programa federal Nova Indústria Brasil (NIB), voltado à modernização do setor produtivo brasileiro até 2033.
A Rússia, por sua vez, é hoje uma potência energética, militar e científica, mas mantém uma inserção internacional ainda muito dependente da exportação de commodities, como petróleo, gás, minerais, fertilizantes, metais e grãos. As sanções ocidentais forçaram uma reorganização da economia russa em busca de alternativas: redirecionamento de mercados, maior aproximação com parceiros do Sul Global, criação de mecanismos alternativos de pagamento, substituição parcial de importações e fortalecimento da indústria militar.
Essa reorganização, contudo, ainda enfrenta dificuldades para corrigir problemas estruturais como a dependência tecnológica, a escassez de mão de obra qualificada e as dificuldades de financiamento do setor produtivo. A Rússia vive um período em que permanece em aberto sua capacidade de transformar resiliência econômica em novas capacidades produtivas e tecnológicas de alta complexidade, ao mesmo tempo que soluciona os problemas estruturais que ainda persistem.
Partindo de gatilhos diferentes, um enraizado em décadas de desindustrialização, outro imposto por sanções externas, Brasil e Rússia chegam a um mesmo ponto: a necessidade de reduzir a dependência da exportação de commodities, superar a dependência tecnológica e atualizar a matriz produtiva como condição para a soberania.
O limite estratégico do comércio baseado em commodities
O traço exportador de commodities de ambas as economias é visível na atual configuração do comércio bilateral. Dados recentes mostram que o comércio Brasil-Rússia é majoritariamente sustentado pela troca de combustíveis e fertilizantes por café e carne. Ou seja, na relação bilateral, vemos justamente a reprodução do padrão que ambos buscam superar em seus planejamentos para a atualização da matriz produtiva.
A atual configuração das relações Brasil-Rússia resolve problemas de curto prazo, como a dependência brasileira de combustíveis diante das limitações do seu setor de refino, tendo em vista a privatização de parte do setor, a falta de uma estratégia consistente de investimento em refino e a necessidade de adequação tecnológica das refinarias. Também responde à busca russa por novos compradores fora do eixo ocidental. No entanto, mostra-se insuficiente, no longo prazo, tanto para a complexificação das relações bilaterais quanto para a atualização da matriz tecnológica dos países.
A concentração do comércio em commodities foi pauta das duas últimas reuniões de alto nível de cooperação, em fevereiro, na VIII CAN, e em maio, na XIII CIC, nas quais ambos os lados se comprometeram a complexificar a relação bilateral em áreas de maior desenvolvimento tecnológico, como ciência, energia e medicina nuclear, setor espacial, inteligência artificial, sistemas de pagamento, entre outras áreas.
Essas áreas de desenvolvimento demandam maior capacidade industrial e tecnológica, intercâmbio de conhecimentos e um nível de cooperação que salta do mero comércio de commodities e se expande para a cooperação estratégica, com potencial de contribuir para os esforços de ambos os países na atualização de suas respectivas matrizes produtivas.
A seguir, estão listados três projetos em andamento que trazem consigo o potencial de complexificar as relações bilaterais e contribuir para os esforços estatais de atualização da matriz tecnológica.
Do comércio de fertilizantes à agenda tecnológica agroindustrial
A cooperação agroindustrial Brasil-Rússia é promissora. Ela já apresenta sinais de transformação do comércio de fertilizantes em uma agenda mais ampla, voltada à incorporação de pesquisa científica, à formação de especialistas e ao desenvolvimento de tecnologias, especialmente em sementes, genética, solos, bioinsumos e fertilizantes modernos.
Essa cooperação vem sendo discutida entre os Ministérios da Agricultura russo e brasileiro, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), centros de pesquisa russos, universidades agrícolas dos dois países, a Academia Russa de Ciências e empresas como a PhosAgro.
Para o Brasil, o maior potencial está em reduzir vulnerabilidades relacionadas aos fertilizantes importados, fortalecer capacidades nacionais em bioinsumos e fertilidade do solo, aprofundando pesquisas em sementes e adaptação climática e conectando essa agenda a políticas públicas internas, especialmente àquelas voltadas à agricultura familiar.
Quando a cooperação é estruturada de forma a envolver uma rede de empresas públicas, universidades, centros de pesquisa e pequenas cooperativas de agricultores, com impacto sobretudo na produção de alimentos para o mercado interno, não somente no desenvolvimento da agroindústria voltada à exportação, ela apresenta maior capacidade.
Para a Rússia, essa cooperação pode contribuir para a sofisticação da base tecnológica do complexo agroindustrial, reduzindo a dependência de tecnologias e meios de produção importados e formando quadros qualificados. A cooperação com o Brasil entra nesse ponto porque oferece à Rússia um campo de pesquisa que ela dificilmente acessa hoje no Ocidente: agricultura tropical e subtropical em larga escala, experiência da Embrapa em solos difíceis, bioinsumos e adaptação climática.
Esse tipo de cooperação tem potencial de contribuir para um salto qualitativo do complexo agroquímico russo, com fertilizantes mais sofisticados, serviços técnicos, dados de solo e integração com pesquisa agronômica. A PhosAgro, por exemplo, já implantou 60 laboratórios de solo no Brasil em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), para avaliar qualidade de fertilizantes e saúde do solo.
SAF e a transformação tecnológica da cooperação energética
A cooperação em Combustível Sustentável de Aviação (SAF) é um segundo exemplo relevante porque desloca a relação energética Brasil-Rússia do comércio tradicional de combustíveis para uma agenda de maior complexidade tecnológica. Em 2025, a assinatura de um memorando de cooperação e troca de conhecimento sobre SAF, voltado a estudos e análises sobre cadeia produtiva, distribuição e comercialização, abriu caminho para o desenvolvimento dessa área.
A importância dessa cooperação está no fato de que o SAF não é apenas um combustível alternativo, mas uma cadeia tecnológica que conecta biomassa, processamento industrial, certificação, logística e padrões internacionais de aviação. Por isso, a colaboração entre os países nessa área tem potencial para criar uma relação mais densa do que a simples exportação de petróleo ou derivados.
Para o Brasil, o ganho está em transformar vantagens já existentes em biomassa, produção agrícola, biocombustíveis e capacidades industriais acumuladas no setor energético em uma cadeia de maior valor agregado. A cooperação nessa área permite fortalecer pesquisa, processamento, certificação e produção nacional de combustíveis avançados, articulando agricultura, indústria química e aviação. Dessa forma, o Brasil não aparece apenas como fornecedor de matérias-primas renováveis, mas como produtor de conhecimento industrial e soluções energéticas vinculadas à transição para uma economia de baixo carbono.
Para a Rússia, esse exemplo toca diretamente a necessidade de diversificar e sofisticar sua base industrial, transformando competências consolidadas nos setores petroquímico e aeronáutico em capacidade de produção de combustíveis avançados de menor intensidade de carbono, em um contexto de transição energética internacional que já pressiona o setor aéreo em vários países.
A cooperação com o Brasil pode acelerar a construção dessa cadeia ao conectar petroquímica, aviação, matérias-primas biológicas, refino, certificação e padrões técnicos. O ganho para a atualização da matriz produtiva russa está em adaptar competências já existentes em energia, química e aviação a uma nova geração de combustíveis sustentáveis e de maior valor agregado.
Infraestrutura científica, clima e soberania de dados na Amazônia
A estação climática e carbônica Brasil-Rússia na Amazônia é um exemplo complementar, mas importante, porque mostra que a complexificação da cooperação bilateral também pode ocorrer pela criação de infraestrutura científica e pelo domínio sobre dados estratégicos. O projeto envolve a Universidade Federal do Norte do Tocantins e a Universidade Estatal de Tyumen, com apoio formalizado por memorando assinado em Moscou pelos ministros Valery Falkov, da Rússia, e Luciana Santos, do Brasil.
A estação será instalada no norte do Tocantins, na confluência dos rios Araguaia e Tocantins, em uma área de transição entre o Cerrado e a Amazônia. O projeto integra a rede russa Polígono do Carbono e prevê pesquisas comparativas com dados da Sibéria Ocidental, além de estudos sobre gases de efeito estufa, biodiversidade e bioeconomia. Também estão previstos intercâmbio de estudantes e pesquisadores, coorientação de teses, programas conjuntos e escolas de verão.
Para o Brasil, o benefício está em fortalecer infraestrutura científica própria na Amazônia Legal e produzir dados nacionais sobre carbono, biodiversidade, uso da terra e mudanças climáticas em uma região ainda pouco estudada. Isso reduz a dependência de dados e interpretações produzidos por centros estrangeiros ocidentais e amplia a soberania brasileira sobre o conhecimento científico da Amazônia.
A estação tem potencial de colocar o estado do Tocantins no centro das discussões globais sobre clima, gerar dados comparativos inéditos, fortalecer a pesquisa nacional e atrair parceiros estratégicos. Nesse caso, o Brasil cria infraestrutura científica em seu próprio território, amplia a soberania sobre dados ambientais da Amazônia e transforma biodiversidade, clima e conhecimento territorial em base para políticas públicas, inovação e desenvolvimento regional.
Para a Rússia, esse projeto contribui em uma dimensão estratégica: o desenvolvimento de tecnologias de medição climática, metodologias de carbono, modelagem ambiental e instrumentos de bioeconomia. A participação russa na estação amazônica permite comparar ecossistemas tropicais e siberianos, testar metodologias, formar pesquisadores e fortalecer competências em ciência climática fora dos circuitos ocidentais.
Conclusão:
Esses exemplos indicam que a cooperação Brasil-Rússia tem potencial de ser complexificada, trazendo proveitos de médio e longo prazo para ambos os países. Para além de vontade política, capacidade institucional e financiamento, é essencial a atualização da matriz produtiva brasileira e russa, sem a qual não é possível requalificar as relações bilaterais, nem tampouco alcançar soberania tecnológica.
Retomando a pergunta feita na introdução: como atualizar a matriz produtiva garantindo soberania tecnológica? Os exemplos analisados mostram que não existe atalho. A cooperação bilateral, por si só, não substitui a transformação da matriz produtiva interna de cada país, que depende dos esforços e planejamentos de cada Estado.
No entanto, os exemplos de cooperação no setor agroindustrial, em combustíveis sustentáveis de aviação e em pesquisa climática evidenciam que há grande potencial para deslocar o eixo do comércio bilateral para áreas de maior complexidade industrial, científica e tecnológica. É justamente esse deslocamento que pode contribuir para o desenvolvimento econômico e tecnológico de ambos os países em seus esforços de neoindustrialização.
