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[ARTIGO] Por que o Trabalhismo e a Quarta Teoria Política são incompatíveis e inimigos ideológicos? — Uma crítica trabalhista a “nova” “moda reacionária”.

Autor: Daniel Albuquerque,
Revisão: Cíntia. X. Dias.

Aqueles que apenas reagem em negação contra a pressão da cultura de massas são inequivocamente pautados por esta, e estão mais ligados ao sistema que dizem combater do que quem de fato propõe um caminho nacional autêntico e orgânico para superação dessas pautas.

Antes de serem solução para os problemas que vivemos, a existência destes é, na realidade, um sintoma causado por anos de dominação do neoliberalismo, seja com a roupagem que for, da sociedade do espetáculo e da crescente individualização e criação de uma sociedade narcísica.

Esse é só mais um dos exemplos da importância e centralidade da “questão nacional”, observada por um pensamento socialista, em nosso período histórico. Exatamente para ampliar o entendimento sobre o tema no campo da esquerda nacionalista, este presente artigo visa demonstrar a profunda crítica à Quarta Teoria Política do ponto de vista do Trabalhismo Brasileiro. 

O que é a Quarta Teoria Política do ponto de vista trabalhista?

“Se um cavalheiro brasileiro ou estrangeiro
Só vive falando em Olavo ou em Dugin,
Eu vou me desviando
Que esse cara está bancando
O quinta-coluna pra cima de mim.

Releitura de trecho da música “Sai quinta coluna”
Antônio Nássara, Eratóstenes Frazão, 1943.

A Quarta Teoria Política é uma visão de mundo reacionária que prega a criação de “uma nova ideologia política”, em um suposto sincretismo entre o que seu criador (o filósofo russo Alexander Dugin) elenca como as “três teorias políticas campeãs da modernidade“: o liberalismo, o socialismo e o fascismo. Essa “nova ideologia política“, segundo seu autor, mira “acabar com a modernidade“.

Contudo, tudo indica que não se trate de um impulso progressista de superação quanto ao que esta tem de pior, mas um esforço retrógrado para um período bem anterior ao Iluminismo, período pregresso a todas as conquistas da própria modernidade.

Essa “nova ideologia” mira um caminho para um passado em que a classe social dos pensadores do início do século XX, em que tal visão de mundo se baseia (aristocracia, senhores de terra e a classe média de certos países) vivia a mais profunda decadência moral e intelectual e sentiam haverem sido retiradas do jogo político pelo liberalismo e pelo socialismo, ambas ideologias fruto de partes do legado da modernidade.

Tal visão de mundo está intimamente relacionada com a forma pela qual o autor pensa as Relações Internacionais e, particularmente, em sua interpretação do conceito de multipolaridade na distribuição do poder político entre as nações.

Não abordaremos as piores citações diretas de autores de tais teorias, pois não consideramos que seja de bom-tom, visto que  a intenção desse presente artigo não é a de causar o choque ou o espanto e muito menos mero denuncismo.

Contudo, cabe destacar de forma clara que Alexander Dugin baseia boa parte de seu pensamento, além de misticismo e esoterismo, no estudo do fenômeno do surgimento do fascismo na Europa do século XX. Portanto, conhece profundamente autores que organizaram intelectualmente tal movimento e o pensamento de cada um destes.

Além disso, os autores que mais influenciam o pensamento de Dugin são o filósofo Martin Heidegger, o fascista espiritual Julius Evola e o esotérico René Guénon. Partes do pensamento de tais respectivos pensadores, articulados com o modelo e a prática política e de propaganda do nacional-bolchevismo e do strasserismo, formam o núcleo duro da atuação da Quarta Teoria Política.

Tal quimera bisonha – diferente de boa parte do movimento neo-nazista no globo que se fundamenta mais centrado no conceito dialético Heideggeriano de “dasein” – vence a barreira da particularidade metafísica e gera um princípio normativo universal que, supostamente, seria particular em cada local do globo, sem perder, contudo, uma ligação com a matriz originária de seu pensamento, tornando se com um movimento internacional de extrema-direita com uma agenda distinta em princípios.

Outrossim, por se basear no ideário de matriz filosófica irracionalista e no método de análise duvidoso de um decadente membro da aristocracia do sul da Itália (o fascista espiritual Julius Evola), tal movimento de extrema-direita tem um caráter culturalista, identitário, pois não se volta para pura violência ligada ao racismo biológico, mas sim para o critério da cultura, identidade e de ethos. Exatamente por isso a Quarta Teoria Política proposta por Dugin se enquadra enquanto uma das teorias da pós-modernidade:

“E é aqui que os novos prospectos se abrem para a Quarta Teoria Política. Aquele tipo de pós-modernidade que está atualmente sendo realizada na prática, a pós-modernidade pós-liberal, cancela a lógica estrita da própria modernidade – após o objetivo ter sido alcançado, os passos para alcançá-la perdem o sentido. A pressão da concha ideológica se torna menos rígida.

A ditadura das ideias é substituída pela ditadura das coisas, senhas de login e códigos de barras. Novos buracos estão aparecendo no tecido da realidade pós-moderna. Como a terceira e segunda teorias políticas, concebidas como uma versão escatológica do tradicionalismo, uma vez tentaram “colocar uma sela na modernidade” em sua luta com o liberalismo, a primeira teoria política, hoje há uma chance de conquistar algo análogo com a pós-modernidade, usando esses “novos buracos”, em particular. […]

A Quarta Teoria Política deve buscar sua “inspiração sombria” na pós-modernidade, na liquidação do programa do Iluminismo e na chegada da sociedade do  simulacro, interpretando isso como um incentivo para a batalha, ao invés de como um dado fatal.” Alexander Dugin, Quarta Teoria Política, p. 36.

Na época em que a forma de produção no sistema capitalista assume sua descentralização e modo de produzir personalizado, se fundamentando cada vez mais no consumo em cima de desejos e particularmente no desejo de “pertencer”, a Quarta Teoria Política prega uma visão de mundo que fomenta uma identidade que, ainda que se utilize do fator pertencimento de grupo, é oposta ao “espírito do tempo” de integração particularizada.

Tal identidade é de recusa e abandono a esse espírito, se auto-proclamando “dissidente” e apontando as contradições de outras identidades enquanto defendem, a depender de qual território estão, identidades previamente existentes na cultura em que se hospedam (culturas regionais, certos gêneros de música e até mesmo algumas culturas e tradições políticas).

Como um ser parasitário, se aproveita do sentimento positivo de uma determinada população por uma determinada identidade coletiva previamente existente e tenta, a partir do revisionismo, encampar uma luta cultural contra seus oponentes políticos utilizando essa roupagem cultural, não se restringindo a ser contra apenas aqueles que realmente se utilizam, da mesma forma que eles, da identidade enquanto locus e critério central para a análise e tomadas de decisão política.

Por ser precisamente uma identidade e uma teoria apenas em potência, não raro podemos ver uma ambiguidade típica do fascismo, onde boa parte de seus defensores não conhecem ou não sabem os pressupostos de tal teoria e não raro acreditam que estão em uma “missão heroica”.

O “macete” filosófico está no fato de que a Quarta Teoria Política não é ainda uma teoria, mas uma “potência de teoria”, baseada numa visão de mundo. Portanto, tal identidade parasitária de revolta e rejeição é uma identidade vazia, uma vacuidade, sem determinações, pronta para ser preenchida pelas características da identidade hospedeira:

Não obstante, o ponto de partida dessa ideologia é precisamente a rejeição da própria essência da pós-modernidade. Esse ponto de partida é possível – mais nem garantido, fatal ou pré-determinado – porque ele emerge do livre arbítrio do homem, de seu espírito, ao invés de um processo histórico impessoal.

Porém, essa essência (muito como a detecção da razão por trás da própria modernidade – imperceptível previamente – que realizou sua essência tão completamente que exauriu seus recursos internos e mudou para o modo de reciclagem irônica de suas fases anteriores) é algo completamente novo, previamente desconhecido e apenas deduzido intuitivamente e fragmentariamente durante as fases primitivas da história ideológica e do conflito ideológico.

A Quarta Teoria Política é uma “Cruzada” contra: Se a terceira teoria política criticou o capitalismo a partir da Direita e a segunda – a partir da Esquerda, então a nova fase não mais destaca essa topografia política: é impossível determinar onde a Direita e a Esquerda estão localizadas em relação ao pós-liberalismo.

Há apenas duas posições: conformidade (o centro) e dissenso (a periferia). Ambas as posições são globais. A Quarta Teoria Política é o amálgama de um projeto comum e um impulso comum em relação a tudo que foi descartado, derrubado e humilhado durante o curso da construção da “sociedade do espetáculo” (construindo a pós-modernidade).Alexander Dugin, Quarta Teoria Política, p. 28.

Exatamente por isso, o método de política empregado pelos membros da Quarta Teoria Política (influenciado por Julius Evola) visa a guerra cultural para, a partir dos preconceitos e fragilidades da cultura nacional, tentar fabricar o mesmo ambiente que propiciou o surgimento do fascismo no início do século XX.

Anti-materialistas ferrenhos que são, partem do plano das ideias, dos mitos e da guerra de propaganda, tentando trazer o mesmo espírito do surgimento do fascismo, para a criação de um fascismo do século XXI.

Inclusive, essa é uma das proposições do livro “Fascismo visto da Direita”, de Evola, onde este pinça o que acredita ser “aspectos positivos do fascismo” e tenta criar um conjunto de ideias do ideário fascista que sejam supostamente“toleráveis” nas sociedades que sucederam à Segunda Guerra Mundial, tanto em caráter internacional quanto nacional.

O que torna a defesa quanto ao fato de serem ou não fascistas, empregadas pelos seguidores do pensamento de Evola e Dugin, um tipo caricato de deboche. Um interlocutor mais sábio poderia afirmar: “Se de fato não são fascistas, podem ser até mesmo piores.”

Se utilizando da ignorância geral quanto a sua existência e da ignorância de seus próprios seguidores quanto ao conteúdo programático que defendem, os seguidores da Quarta Teoria Política se sentiram confortáveis para instituir como programa político “aquilo que fora banido pela modernidade”:

Enquanto esse curso dos eventos é, de algumas maneiras, ainda mais aterrorizante do que o materialismo e o ateísmo dogmático diretos e descomplicados, o enfraquecimento da perseguição da Fé pode ser aquela chance, se os representantes da Quarta Teoria Política agirem consistentemente e descompromissadamente na defesa dos ideais e valores da Tradição. Agora é seguro instituir como programa político aquilo que foi banido pela modernidade.

E isso não mais parece tão tolo e destinado à derrota quanto antes – pelo menos porque tudo na pós-modernidade parece tolo e destinado à derrota, inclusive seus aspectos mais “glamourosos”. Não é por acaso que os heróis da pós-modernidade são “aberrações” e “monstros”, “travestis” e “degenerados” – essa é a lei do estilo. Contra o pano de fundo dos palhaços do mundo nada e ninguém pode parecer “arcaico demais”, mesmo as pessoas da Tradição que ignoram os imperativos da vida moderna.

A validade dessa asserção não é provada apenas pelas conquistas significativas do fundamentalismo islâmico, mas também pelo ressurgimento da influência exercida pelas vastamente arcaicas seitas protestantes (dispensacionalistas, mórmons, etc.) na política externa americana. George W. Bush foi à guerra no Iraque porque, em suas próprias palavras, “Deus me disse para invadir o Iraque!”. Isso é bastante compatível com seus professores protestantes metodistas.” Alexander Dugin, Quarta Teoria Política, p. 36-37.

Por que o Trabalhismo e a Quarta Teoria Política são incompatíveis e inimigos ideológicos?

O Trabalhismo Brasileiro, advindo do positivismo jacobino praticado no sul do Brasil parte de uma matriz filosófica empirista, que, ao absorver antropofagicamente partes fundamentais da teoria socialista utópica e materialista, de tipo metafísico vulgar ou dialético, bem como concepções importantes do iluminismo, contempla idealismo e materialismo, desde que racionalmente e logicamente plausível, e cientificamente comprovável, pois tem no empirismo uma espécie de “cola” e trava conceitual, como critério para adesão.

Além disso, como resultado desse processo, o Trabalhismo Brasileiro é de forma evidente um instrumento da classe trabalhadora, cujos dilemas materiais e contradições apenas se tornaram mais evidentes no atual desenrolar do ciclo neoliberal em nosso país, realidade que este pretende vingar para construir um novo futuro nos paradigmas da modernidade, com democracia socialista, igualdade, liberdade e uma concepção classista e não identitária como nexo central de análise.

Ou seja, o Trabalhismo Brasileiro é um gigante representante da modernidade, particular do próprio espírito e história da classe trabalhadora brasileira, e se orgulha e se ufana muito disso, pois enquanto cultura política e fruto de uma tradição, também nunca perdeu sua ligação com o Mito (como pregam os apologistas do Apolíneo asséptico) desde que submetido a análise material do logos, sob um critério da luta de classes e do humanismo, como espécie de trava da potência destrutiva da palavra mítica.

Já a “Quarta Teoria Política”, que nem nasceu, mas já está morta, se afirma não apenas como combatedora da pós-modernidade, mas como um fruto indissociável desta. Se insere na esteira da conjunção do pensamento aristocrático do final do século XIX e começo do século XX, se vende enquanto idealismo radical, mas é sabidamente parte do irracionalismo filosófico, repaginado e distribuído em roupagem popular, colocando uma identidade vazia submetida a uma visão de mundo proveniente dos autores que a baseiam (muitas vezes implícita) como centro de sua prática e pensamento político.

Além disso, seu discurso e identidade se fundamenta na crítica ao  “mundo moderno”, ao Iluminismo, e boa parte do universalismo que também existia antes mesmo de tal período. O futuro ideal e idílico dos criadores da falsa necessidade de uma “Quarta Teoria Política” é um futuro particularizado, por muralhas acríticas de cultura, ethos e identidade, simbolizado no mundo das tradições como espelho, como uma forma de reação estúpida, romântica e pós-moderna aos fenômenos negativos da própria pós-modernidade e da nova formatação e organização do neoliberalismo e do sistema capitalista, marcada por uma globalização assimétrica que camufla fortes vínculos imperialistas.

Se baseando nesse sentimento de rejeição e em meias verdades sobre o mundo contemporâneo, vendem tal saída extrema, absurda e desnecessária de retorno, que também termina em particularização em ilhas, como uma verdadeira tentação de Mefistófeles. Existe uma importante e intransponível interdição entre tais visões de mundo. Embora ambas rejeitem a fábula conhecida como “Fim da História”, proposta por Francis Fukuyama, elas a rejeitam por motivos radicalmente diferentes:

A visão de mundo dos criadores da “Quarta Teoria Política” a “rejeita” aceitando seu conteúdo e aderindo a este, a saber, aos próprios princípios e forma de pensar política da pós-modernidade, como forma de se aproveitar da decadência do coração filosófico do ideário iluminista para trazer a tona “tudo aquilo que fora banido pela modernidade”. Por isso também envergonhado, em sua proposta de criação de uma Quarta Teoria Política, Dugin afirma fazendo coro discreto com Fukuyama uma suposta vitória do liberalismo como representante do espírito da modernidade.

Isso não se dá por acaso, é uma necessidade a ser afirmada por Dugin. Caso contrário seu argumento para converter socialistas e fascistas em defensores de sua “nova-teoria” não existiria, pois, se o liberalismo não venceu e não representa a “modernidade”, por que diabos alguém seria convertido a uma reação extremada que traia seus próprios princípios? O Trabalhismo Brasileiro desdenha da tese de “Fim da História” e rejeita com veemência qualquer adesão a essa estúpida premissa que consigo carrega um triplo cavalo de Troia:

1º. A adesão a unipolaridade dos Estados Unidos e aceitação acrítica do credo-neoliberal, em sua versão que prima pela comercialização de identidades e produtos relacionados a estas, (seja de esquerda ou de direita conservadora), que destrói o globo e as sociedades de forma assustadora e cada vez mais visível.

2º. A adesão à multipolaridade quando atrelada a um reacionarismo de identidade particularista, culturalista, esotérica e boçal.

3º. Adesão a uma síntese moderada entre os dois primeiros, ainda assim reconhecendo pressupostos fundantes da pós-modernidade e da tese de “fim da história”.

Não temos que escolher entre narcísicos (ou seja, irracionalistas afixados a própria consciência), dionisíacos (os que se guiam apenas na pulsão, paixão e emoção, para o bem ou para o mal), nem apolíneos (neoliberais e racionalistas assépticos que desconhecem a totalidade do que é ser humano), visto que nenhuma dessas alternativas serve ao projeto histórico da classe trabalhadora brasileira, que tem seu próprio tempo.

Por outro lado, o Trabalhismo Brasileiro entende sua responsabilidade histórica com nosso país e nosso povo por isso, age com paciência e escolhe Kairós, ou seja, o tempo correto para agir, o melhor instante possível, onde habita a possibilidade de se conseguir afastar o caos e até mesmo reverter processos em andamento, para trazer um tempo bem melhor para se viver. Se a era presente ruma para um caminho incorreto, temos fé inabalável de que existe possibilidade de reverter tal rumo e avançar a história de forma correta para o nosso povo. 


“Tese XVI: O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história.

O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.”  Walter Benjamin, Teses sobre a história. 


Por isso, o Trabalhismo Brasileiro se banha em sua própria memória e na história da América Latina e procura no ponto de vista da classe trabalhadora os fios de nossa própria história para, ciente da corrupção dos valores Iluministas do próprio liberalismo durante a pós-modernidade, se afirmar como radicalmente inclusivo, democrático, universalista, igualitarista, querendo construir através do passado pensado pelos nossos mortos (que a historiografia da classe dominante não conta) um futuro realmente redentor!


“Tese II: Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana”, diz Lotze, “está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro”. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído.

Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa.

Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.”  Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Além disso, se baseia na constatação de que em nosso continente o ideário socialista subsiste com mais força do que em qualquer outro lugar do mundo, como prova cabal de que o “fim da história” de Fukuyama sempre se tratou de uma bravata que não nos impediria de construir finalmente o programa radicalmente universalista da modernidade, de uma forma que o liberalismo nunca foi capaz! Avançando com a modernidade e seus valores para superá-la em suas deformações fulcrais, (o domínio econômico, político e social por parte do mercado, corporações e grandes potências) como demonstra a atual organização do sistema capitalista imperialista.


Particularmente em relação ao Brasil, estabelecer finalmente o início do fim da aliança espúria de nossa classe dominante submissa com a classe dominante relativa aos países centrais e emergentes em ascensão, que destrói nosso povo e nação na matéria e no espírito e retira dos trabalhadores qualquer poder político real, dando em troca um teatro de fantoches burlescos. Se essa era desmorona sobre si mesma e cai de podre, é porque já está morta e a verdadeira teoria política que reconstruirá a nova era, ao menos para o Brasil, já existe e seus pressupostos foram pensados pelos maiores gênios brasileiros do século XX. Não existe espaço para oportunistas (aqueles que não estão realmente conectados com tal espírito) pegarem carona na cauda deste cometa.

Reconhecer a necessidade de uma “Quarta Teoria Política” ou seus pressupostos sobre o “fim da história” e a pós-modernidade representa, instantaneamente, uma traição ao programa histórico do Trabalhismo Brasileiro pactuado com a classe trabalhadora e com os espíritos de nossos mortos, oprimidos e injustiçados do passado!

O Trabalhismo Brasileiro não responde a nenhuma dessas questões afirmando identidades vazias de revolta ou que são contra outras identidades, muito menos prega a criação de qualquer “nova teoria política”, pois já se considera a única teoria correta para o futuro brasileiro, que o conecta com nosso passado relacionado a outro futuro possível que nos foi negado. Ao contrário dos pensadores que baseiam e propagam a necessidade de uma suposta “Quarta Teoria Política”, somos radicais defensores da modernidade como ponto onde se tornou, por intermédio da tecnologia e da ciência, possível uma sociedade de abundância, realmente livre, justa, igualitária, radicalmente democrática e profundamente humanista.

Acreditamos e está no coração da ideologia trabalhista, que temos um povo criativo e valoroso. Já temos nossa terra prometida e só nos falta fazer, pela luta, cumprir a promessa de construir uma República, soberana, independente, e verdadeiramente democrática para nossa classe trabalhadora, feita por ela e para ela, para um futuro marcado por igualdade, justiça, democracia e respeito a todos e qualquer cidadão brasileiro, sem discriminações de qualquer tipo. O Trabalhismo Brasileiro é rebelde, esperançoso, tem orgulho de ser autônomo e tem as respostas para o dilema brasileiro em nosso presente momento histórico.

É verdade que o Trabalhismo Brasileiro, em sua visão de política externa independente construída desde o século XX, é latinista, terceiro-mundista, com aspectos pan-americanistas e está atrelado ao anti-colonialismo e ao anti-imperialismo na defesa da soberania nacional e autodeterminação dos povos. Portanto, francamente em oposição a um mundo unipolar, representado por uma adesão acrítica a globalização, a sociedade do espetáculo, ao aumento exponencial da centralidade (econômica, política e social) do setor financeiro, enquanto fruto de uma visão escatológica e determinista do fenômeno como sendo irreversível e inevitável. No entanto, este de forma alguma o faz pelos mesmos motivos dos que defendem uma reação a esse fenômeno, também identitária e tacanha baseada em escatologias religiosas de outro tipo, perversas no sentido de fragmentação com a realidade.

O Trabalhismo Brasileiro se baseia no melhor das ciências humanas produzidas em nosso país, discutindo de forma científica o fenômeno da globalização, suas assimetrias, desigualdades, tendências, a divisão internacional do trabalho, pois tem uma responsabilidade séria para com a nação e nosso povo, e não tem tempo a perder brincando com a “sociedade do espetáculo” na internet, como fazem os amantes de Narciso e Dionísio noite e dia. Existe uma intransponível diferença entre nós.

Nesse sentido, tais diferenças gritantes e não conciliáveis, não são apenas incompatíveis, mas aberrantemente incompatíveis. O Trabalhismo Brasileiro, se baseando na recusa a premissa de que identidade deva ser o nexo de práxis política, sobretudo na sociedade do espetáculo e dos espasmos midiáticos, prega o cidadão político como totalidade, sujeito complexo e humano, em constante relação com o meio e especialmente com a sociedade, portanto, em constante transformação de espírito e consciência.

Ao contrário do que fazem os ilusionistas da “Quarta Teoria Política”, identidade canibal de identidades, o Trabalhismo Brasileiro, enquanto negador da identidade no centro da política na sociedade do espetáculo, não nega, e nunca irá negar, identidades por si ou a necessidade histórica urgente de unir a luta de classes com o fim das opressões sofridas por todas as minorias. Esta é uma pauta histórica do PDT e do Trabalhismo Brasileiro a partir das lutas de minorias no Brasil ao longo da história. Diferente do que fazem os reacionários, o Trabalhismo Brasileiro não mobiliza preconceito de nossa população conservadora contra identidades relacionadas a defesa de minorias, pois entende que não nos interessa a divisão de nossa classe trabalhadora, nem a discriminação de irmãos e irmãs do povo.

Sobretudo de patrícios trabalhadores que expressem porventura as formas neoliberais e pró-mercado de “defesa” dos interesses das minorias, pois entendemos que o sistema capitalista, a partir de uma sólida infraestrutura burocrática e de um aparato superestrutural de difusão e reprodução, se apropria das lutas sociais para amenizar e modular como as pulsões sociais se dão e isto não é culpa de nossos irmãos e irmãs que sofrem e sempre sofreram. Sabemos que a causa última pelo que batalham não é apenas o correto, mas o justo.

Enquanto os farsantes misticistas oferecem ódio, segregação e manipulação de preconceito tolo, nós, os verdadeiros defensores do Trabalhismo Brasileiro e seu espírito, oferecemos amor e integração ativa para toda a classe trabalhadora, sem distinções. Somos todos irmãos, paz entre nós, guerra aos senhores!

O Trabalhismo Brasileiro nega as formas neoliberais de fazer política e democracia, justamente porque quer tirar nosso povo dos grilhões da democracia formal do dinheiro e da representatividade superficial apenas para os amigos do sistema e do mercado e trazer uma democracia radical e direta universalmente profunda, com gigantes reformas na distribuição do poder na sociedade.

No âmbito das minorias, dar poder político e econômico não apenas a alguns representantes atomizados, mas um extenso número de direitos sociais que concedam poder político e econômico para estes enquanto indivíduos que são parte de uma comunidade integrada a sociedade como um todo; enquanto membros da classe trabalhadora que comandará os destinos do país e parte de uma nação igualitária, justa, livre e próspera, na prática e não apenas na ideia formal; enquanto agentes criadores da própria identidade na cultura nacional e em relação a sua projeção internacional e por fim, como cidadãos completos, cidadãos políticos na totalidade e não como segmentos de uma identidade que é mercadoria.

Isso, como se pode verificar, não está em contradição alguma, nem tampouco colide frontalmente com os anseios de movimentos em defesa de diferentes minorias que temos no país. Pelo contrário, está adequado a uma agenda histórica relacionada a um vasto ciclo de lutas e que relaciona a luta de classes, pautas relativas a minorias e a luta anti-imperialista.

A recusa de se colocar a identidade no centro da luta política tem o intuito de auxiliar na mobilização popular contra as forças anti-populares, sem castrar a afirmação de diferenças, porém reduzindo a particularização da classe trabalhadora em nichos cada vez mais sectários e que não se comunicam, as “bolhas”, características da sociedade do espetáculo, onde um ser humano precisa expressar a complexidade do ser e sua relação com o meio e sociedade ao longo de sua vida, a saber, toda sua experiência em apenas alguns segundos, a partir de um catálogo de “identidades simbólicas, signos e palavras-chave”, muitas vezes originadas sob uma perspectiva até mesmo preconceituosa, vendidas e moduladas de cima para baixo, do centro para a periferia, pela própria lógica do sistema capitalista do século XXI. Em tal reino, impera a lógica de “reconhecimento” e “pertencimento”.

Exatamente por isso, defensores da necessidade de uma “Quarta Teoria Política”, que tentam sem sucesso revisar a história, visão de mundo e a teoria do Trabalhismo Brasileiro, se queixam do PDT por não abandonar, como nunca abandonará pois, é representante legítimo de uma tradição sinceramente humanista a justiça e a radicalidade universal de sua agenda democrática, política, social e economicamente integradora, com as minorias da classe trabalhadora.

Demonstram com esta postura, os pregadores da palavra vazia, justamente o caráter alienígena de sua presença na cultura política e tradição do Trabalhismo Brasileiro. Só quem não pertence e não carrega consigo o verdadeiro espírito do legado de Getúlio, Jango e Brizola e de toda cultura política no entorno destes poderia demonstrar desconhecimento, ou a ausência de uma prática inconsciente, relativa ao fato do humanismo enquanto ponto comum fundamental de todas as doutrinas que se acoplaram no que veio a ser o Trabalhismo Brasileiro. Cabe destacar que, se o Positivismo praticado no Rio Grande do Sul age como uma espécie de cola na teoria política trabalhista, isso ocorre por uma opção histórica distinta que este grupo tomou em relação a outros positivistas de nosso país.

O amor vem por princípio, a ordem por base

O progresso é que deve vir por fim

Desprezaste esta lei de Auguste Comte

E foste ser feliz longe de mim.”
         Positivismo – Orestes Barbosa / Noel Rosa

A música acima brinca de forma muito pedagógica com a ideologia positivista, elencando os princípios expressos em seu lema: Amor, Ordem e Progresso. O amor, nesse sentido talvez seja um dos pontos mais interessantes da crítica positivista ao liberalismo. Este não se trata do conceito de amor romântico como tratamos habitualmente, mas sim do amor irrestrito pela humanidade, em oposição ao princípio de fraternidade liberal, visto por Augusto Comte como fraternidade apenas entre os partícipes da classe dominante ou da oligarquia esclarecida de seu período histórico.


Por motivos diversos, após a Segunda Guerra Mundial, enquanto a vertente positivista ligada aos militares foi aderindo a uma concepção norte-americana, tendo na “ordem” como seu princípio guia, até se tornar liberal-positivista, o positivismo do Rio Grande do Sul, na figura de Getúlio Vargas e seu discípulo mais famoso, João Goulart, tendo no “amor” pela humanidade como seu princípio guia, se envolveu com os movimentos de trabalhadores até se tornar o Trabalhismo Brasileiro e aderir a uma posição socialista com orgulho.


É justamente esse amor irrestrito para com todos os nossos irmãos brasileiros e seres humanos que agiu como trava em nossos piores momento mais de uma vez, que nos fez ser muito melhores do que poderíamos ter sido, que nos fez, mesmo quando não estávamos totalmente corretos, rumar para o caminho correto e corrigir os nossos enganos lutando sempre por nosso povo no papel de vingador da classe.


Tal amor pela humanidade, universalizante, é central na ideologia trabalhista e é precisamente o ponto comum entre todos que já contribuíram de mente e corpo para o espírito dessa tradição se tornar o gigante que hoje é. Uma vez tendo a revelação, cientes desse fato, nenhum de nós irá abdicar disso nunca. Nesse sentido, pensemos num dos símbolos mais fundamentais de toda a mitologia trabalhista, parte presente também na própria história do Brasil e na identidade nacional, Getúlio Vargas.

“No caso da morte de figuras políticas, os funerais costumam se tornar um momento de consagração de suas vidas. Trata-se da ocasião em que, morto o corpo, a alma torna-se imortal, como imortais tornam-se alguns de seus “feitos”, selecionados e ressignificados pela memória, poderosa força que permite “que se saia da vida para entrar na história.” Ângela de Castro Gomes, Brizola e o Trabalhismo, p. 12-13.

Considerando os ensinamentos da gigantesca historiadora brasileira Ângela de Castro Gomes e conscientes que após seu supremo-sacrifício, a simbologia de Getúlio ,criada a partir de seus feitos e de sua relação com a classe trabalhadora, se sacramentou com a Carta Testamento e representam agora, partes que, em sua totalidade (descartados os  erros e as partes criticáveis por cada grupo ideológico a partir de seus princípios), formavam um legado para ser defendido e ressignificado. Nesse sentido, Vargas, enquanto marco central na história de nosso país, é o espelho de cada grupo que o reivindica:

Os defensores do Trabalhismo Brasileiro interpretam o símbolo de Vargas não apenas enquanto um signo de seu legado propriamente dito, mas sintetizado com a agenda da classe trabalhadora construída desde antes do século XX.  Pois, após o sumo-sacrifício de Getúlio em defesa de tal agenda acoplada a modernização do estado-nacional brasileiro, os trabalhadores passaram a ter força e fé na imagem do burguês mais esclarecido que já tivemos que, ao cometer suicídio traiu sua classe e entrou para a história de forma decisiva como herói dos trabalhadores brasileiros, representando para estes, um deles e, em simultâneo, eles próprios, e apenas por isso este se tornou eterno e sagrado a partir da redenção, pelo sacrifício em benefício dos vivos que sofrem e dos mortos que sofreram.  

Poderia ter feito um acordo, mas cometeu suicídio em nome dos pobres. Poderia ter se retirado em silêncio para São Borja, mas cometeu suicídio em nome dos humildes. Conseguiria ter escapado de seu destino, mas o seguiu em benefício dos espoliados, redimindo assim não apenas a si próprio, mas a história de nosso país e povo, que teve assim um pai fundador da nação e da própria nacionalidade, com sacramentada imagem heroica, generosa, altruísta. Não um tirano como seus inimigos tentavam representá-lo e forçá-lo a ser, mas um gigante em nossa memória, que nos inspira a fazer mais por nós e pela humanidade.


De contradições e eventos como este, inesperados à luz das teorias estrangeiras, é que floresce a delícia e a particularidade de ser brasileiro. Isso é algo que qualquer pessoa que defenda o espírito do Trabalhismo Brasileiro “de corpo e alma” sabe muito bem. Mesmo que não saibam expressar ou articular tais Logos, sua prática e sua interpretação evidente da identificação de Vargas com a esquerda reside especialmente neste fato.


Observemos o caso de Brizola, o homem que mais amou o Brasil e o povo brasileiro. O velho Leonel, que nesse ano muito especial completaria 100 anos, quando criança teve uma vida muito humilde e difícil. Por ser beneficiado com a Revolução de 30, conseguiu aprender a ler e a escrever, se tornou engenheiro, se envolveu com política de juventude e com o Trabalhismo Brasileiro, defendendo sempre os mais humildes e o interesse nacional.


Brizola foi profundamente influenciado não apenas pelas transformações materiais promovidas pela Revolução de 30, mas também por seu ideário e por sua mítica. Tendo a oportunidade de conviver de perto com Vargas, o velho Leonel sempre carregou o estandarte de Getúlio, para defender a agenda e as pautas da classe trabalhadora, necessárias ao desenvolvimento nacional perante o imperialismo e o subdesenvolvimento. Ninguém pode negar que Brizola tinha uma interpretação profundamente positiva de Getúlio Vargas e seu legado, nem negar que Brizola tenha conseguido a partir disto uma profunda conexão com a história de nosso povo e seja marcado como um dos maiores nomes da esquerda na história do Brasil, tendo sido, por exemplo, grande aliado de Luís Carlos Prestes no fim da vida deste.


Nesse sentido, é importante reforçar a noção que a historiadora Ângela de Castro Gomes traz em sua obra de nome “A invenção do Trabalhismo”, de que a classe trabalhadora não é estática ou estúpida, ela participou da criação do Trabalhismo Brasileiro, se beneficiou dele na medida de seus interesses, e “subverteu” a ideologia em seu benefício como instrumento de luta, cobrando o cumprimento do que lhes era prometido por tal doutrina e seus representantes, muitas vezes colocando estes últimos em posições mais radicais do que as que ostentavam pessoalmente. O mito sociológico da classe trabalhadora tola e espectadora, é, pois, um mito da classe dominante que cumpre um propósito específico.


Já os defensores da necessidade de uma “Quarta Teoria Política”, quando no teste do espelho de Getúlio, projetam seu próprio anticomunismo, reacionarismo e tendências autoritárias contra o que consideram diferente ou “degenerado”, características que são fruto não do legado de Getúlio, mas das mesmas pessoas que o traíram em 45 e o levaram ao suicídio em 54.


Se arvorando em mitos da historiografia da classe dominante, especificamente relacionada às forças anti-Vargas, representantes dessa visão de mundo da “Quarta Teoria Política” reforçam uma interpretação idealista da história, centrando imagens e pessoas ao invés de classes sociais, na relação entre infraestrutura e superestrutura ao longo de determinado tempo em um determinado espaço geográfico, como faz, em resumo, a interpretação materialista da história.


Daí que, numa traição a autonomia do próprio espírito do Trabalhismo Brasileiro ao longo de sua trajetória em conjunto das lutas de nossa classe trabalhadora, estes defendem a tese da existência de um “Vargas fascista”, fazendo peso, num verdadeiro espírito de porco indesculpável, contra todo o esforço movido pelos representantes históricos da tradição trabalhista, que evidentemente por motivos anteriormente explicitados buscam compreender a totalidade de seu desenvolvimento (o seu movimento teórico em direção ao socialismo), não apenas a interpretação de fragmentos cristalizados e descolados do seu contexto histórico, compreendendo-o, como ele próprio se entendeu, evidente em sua atuação política após 1945, nacionalista e socialista, um digno represensentante da esquerda de seu tempo.


Os defensores da “Quarta Teoria Política” não o fazem porque isso seja verdade, mas, porque lhes convém fazer crer na falácia. Utilizando a ideologia e historiografia da reação ao fenômeno nacional-popular do século XX quando lhes é útil, tentam sustentar a tese de que se todo o extenso legado Varguista e da Revolução de 30 é fruto de um “Vargas Fascista”, isso não seria nada demais,  seria algo até “positivo”. Surfando na pós-modernidade e na pós-verdade, tentam cumprir sua missão de fazer  “o que fora banido pela modernidade transitar livremente”, como pregou Dugin no livro que baseia a prática dos seguidores da proposição de uma “Quarta Teoria Política” por aqui.


Para tal, “pegam carona” no símbolo mais sagrado para a ideologia, cultura política e tradição do Trabalhismo Brasileiro e um dos mais importantes símbolos da história nacional, enquanto tentam sujá-lo na mesma lama a qual chafurdam. Tratando-se de prática política, é uma desonestidade com a autonomia do espírito da cultura política e tradição do Trabalhismo Brasileiro, cujo representante é o PDT, e mais do que isso, trata-se de uma tentativa, infrutífera diga-se, de corrupção de um símbolo central para a história brasileira.


A direção que o Trabalhismo tomou em sua história foi uma decisão coletiva de todos que compuseram o movimento e da própria classe trabalhadora em luta, não de revisionistas. Trair essas pessoas e seus ideais é a maior corrupção que pode existir. Além disso, ela demonstra perfeitamente as diferenças entre os Trabalhistas e aqueles que tentam revisar sua história, sua ideologia, e parte de seu legado, da mesma forma que o fazem em outros nichos da esquerda nacionalista e da direita.


Nesse sentido, a partir das teses de Walter Benjamin sobre a história, particularmente quanto a sua sexta tese, podemos tecer uma das comprovações de como a teoria em potência “Quarta Teoria Política” não apenas é incompatível, mas como também é arqui-inimiga do Trabalhismo Brasileiro no presente momento histórico:

Tese VI: Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem.

Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer“. Walter Benjamin, Teses sobre a história.

Considerando que o reconhecimento de Getúlio enquanto simbologia para ambos os grupos (trabalhistas e postulantes da necessidade de uma “Quarta Teoria Política”) representa perfeitamente bem a situação descrita acima. Pensemos que ambos os grupos escolhem Vargas e Brizola enquanto símbolos, mesmo que lhe imputem valores opostos, não porque compartilham de valores ou princípios, mas, porque exatamente na simbologia de Vargas reside a chave para a compreensão mitológica e simbólica da possibilidade de uma reforma radical ou processo revolucionário contra a atual ordem de coisas em nosso país, a partir da memória que é operada com diferentes focos, estes relativos às diferentes origens de classe e concepções ideológicas de quem as opera. 

Ocorre que, existem dentro desta mesma linha jogada divergentes futuros possíveis, respectivos a qual grupo conseguir tomar a hegemonia cultural, simbólica, referencial e, mais importante, hegemonia real sobre o espírito da velha esquerda brasileira do século XX e, principalmente, seu legado. Seja como verdade ou como farsa, como redenção ou tortura e corrupção da memória bela em algo vil, por que isso ocorre?

“Tese IV: Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário, e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo”. Hegel, 1807

A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais.
Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos.

Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas”  Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Nos anos 90, como já debatemos aqui anteriormente, o sistema internacional e o sistema capitalista passam por uma reforma, que marca seu movimento após o fim da Guerra Fria, para tomar de assalto todos os sistemas políticos do globo em duas frentes:

  • uma com retórica e estética conservadora e neo-liberal na economia.
  • outra com retórica e estética “progressista”, mas, também neo-liberal na economia.

Ambas as opções são lastimáveis no caso brasileiro. Com isso, o neoliberalismo foi se tornando o “normal” no período que contempla o fim da Guerra Fria até o presente momento, e todas as disputas se deram sob seu domínio, em seu território conceitual e econômico, existindo certa alternância apenas em termos estéticos e de discurso.

Tal período centrou o nexo das disputas políticas sobre critérios de aparência, identidade, pertencimento e retórica nas disputas e debates políticos formais ou parlamentares. Já que ambos os lados quase sempre defenderam variações do neoliberalismo econômico alterando-se apenas o enfoque, sobra para o embate político meras aparências do discurso, não propostas de reformas políticas, econômicas e reformas estruturais concretas para mudar nossa sorte em benefício da classe trabalhadora, das minorias e da nação, mas apenas algumas vitórias simbólicas, que devemos admitir a importância no caso particular do Brasil.


Contudo, em um contexto de pós-crise econômica mundial de 2008, isso gerou uma evidente frustração na classe trabalhadora contra a esquerda partidária que aderiu a tal pensamento e prática. Resumidamente, e com diferenças e particularidades locais, tal fenômeno vem ocorrendo em todo o ocidente geográfico sendo representado pelo descrédito histórico dos trabalhadores para com a esquerda partidária de seus respectivos países.


Após a Guerra Fria, a esquerda socialista organizada de tais países e, no caso do Brasil, o processo de ditadura-militar e redemocratização, não está em condições de conseguir canalizar as pulsões da classe trabalhadora e frações da pequeno-burguesia, que começaram a se avolumar cada vez mais de forma desorganizada e imatura enquanto movimento político, em contestação romântica contra a hegemonia e o “establishment”. Sem uma explicação, isto é, uma teoria própria, ou um projeto, mas uma verdadeira pulsão sem rumo por transformação social.


Na verdade, tanto a “velha esquerda” quanto a esquerda partidária atrelada ao neoliberalismo econômico erraram muito em suas análises e em sua prática. Precisamente tal processo foi uma necessidade para o renascimento da extrema-direita na Europa e nos EUA e acabou por ocorrer de forma similar no Brasil, com o fenômeno do Olavismo e do Bolsonarismo, tendo em conta que a “velha esquerda” se desorganizou neste período e a nova-direita se aproveitou da não existência de movimentos socialistas de grande porte organizados contestando a atual ordem social, para capitalizar o discurso anti-hegemônico e ascender ao governo com apoio das mesmas massas que iria prejudicar profundamente.

Nesse sentido, o Trabalhismo Brasileiro não estava morto, mas, tirando um cochilo, sem nunca parar de tecer suas análises e cálculos para disputar um projeto rebelde quando a janela de tempo das transformações fosse aberta. Acordou de 2016 em diante, se propõe a traçar soluções para todos os problemas da vida nacional e, de um ponto de vista estratégico de longo prazo, se encontra acumulando forças, formando ideologicamente militantes em massa, organizando suas bases, em uma ferrenha disputa ideológica não pela hegemonia eleitoral, mas por uma hegemonia intelectual (como visão de mundo ideológica e programática) contra a fração liberal da esquerda-brasileira, e despende parte importante de seus esforços nisso.  Os outros grupos políticos da esquerda partidária organizada estão com o mercado, com a classe dominante e com o sistema, em grande medida.


O Trabalhismo Brasileiro, com respeito a todos os movimentos, é o único movimento político com partido grande organizado e viés anti-sistema, base militante, proposta econômica radical e tem a obrigação de estrategicamente fechar alianças orgânicas com as forças de esquerda independentes que contestam o neoliberalismo. Este tem como trunfo, sua memória, tradição e história que se mescla com a própria história da classe trabalhadora brasileira e nossa identidade nacional, para participar como um dos atores principais em uma reforma profunda e radical contra o atual estado de coisas.


Por isso, alertamos que, para nós trabalhistas, o embate ideológico com aqueles que seguem a proposição de “Quarta Teoria Política” é de natureza muito mais profunda e inevitável. Considerando o que nos diz Walter Benjamin e deslocando seus conhecimentos para nosso contexto:

“Apêndice 1: O historicismo se contenta em estabelecer um nexo causal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem estar dele separados por milênios. O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração, em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada. Com isso, ele funda um conceito do presente como um “agora” no qual se infiltraram estilhaços do messiânico.

Apêndice 2: Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo passado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Se nenhum dos grupos organizados, potencialmente catalisadores de tal evento, inimigos ou potenciais aliados históricos, reivindicam o mesmo legado, isso não ocorre em relação a “Quarta Teoria Política”, que entendeu que a chave simbólica para imprimir uma mudança profunda contra o neoliberalismo no Brasil está atrelada especificamente ao mito de Getúlio Vargas e da própria Revolução Brasileira, e também compreendeu que quem conseguir executar a reforma infraestrutural correta na economia, pode imprimir os rumos ideológicos em costumes e valores.


Uma coisa há de se dizer, foram mais espertos do que boa parte de nossa esquerda atual que, embora tenha sincero ódio do neoliberalismo até certo ponto, também têm sincero desconhecimento quanto a história nacional, em particular, do ponto de vista da “velha esquerda” que formou nossos mitos e influenciou em boa parte na consciência de nosso povo.


Nesse sentido, por ambos os grupos pretenderem imprimir mudanças radicais na vida nacional baseando-se no mesmo mito (mas partindo de perspectivas distintas), podemos observar um fenômeno de espelhamento muito particular e raro, que relembra a imagem do deus romano Jano, com uma face voltada para o passado e a outra para o futuro, que representa a transformação. Tal imagem representa o olhar para um passado, tendo no foco que se olha seu maior segredo, refletindo de forma decisiva na construção do futuro. Ambos os grupos aqui descritos podem olhar o mesmo passado, encontrar coisas absolutamente distintas e, a partir disso, projetar um futuro mutuamente exclusivo a partir do mesmo símbolo ou mito fundante do ideário nacional.


Nesse caso em particular, poderíamos também observar que, enquanto uma das faces faz força para “avançar os anos”, mas retornar a um passado mitológico milenar, fazendo com isso apenas “peso na história”, a outra faz força para avançar de forma consequente e finalmente decretar o fim desta era morta, levando desta o que de melhor teve, seguindo de forma natural com o fluxo das eras, dando pouco trabalho para Chronos. Sobre isso, pensemos:

Tese XVII: O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista se distancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio.

Ao contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada.

Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.” Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Retornando ao argumento, os ideólogos realmente vinculados com o trabalhismo sabem que tem consigo um tesouro histórico e um momento histórico propício para a transformação social. Eles encontram e se apropriam de uma reminiscência tal como ela relampeja no momento de perigo, fixando uma imagem do passado como ela se apresenta no momento do perigo ao sujeito histórico, alertando a classe trabalhadora da existência de uma “imobilização messiânica” dos acontecimentos, que pode se desenrolar tanto na redenção, caso seja salva a tradição, seus mitos e seu espírito, quanto na corrupção e trevas, caso a tradição, nesse caso tanto a história do trabalhismo quanto a história do Brasil, seja tomada pela conformidade e pelo interesse espúrio da classe dominante e projetos nefastos de poder e retrocesso material e espiritual.


Nesse caso em especial, tendo a própria história (também estória, fábula, mitologia, simbologia e teologia) como locus de disputa, o trabalhismo busca construir a possibilidade de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido, a redenção enquanto revolução social profunda. Mas o messias não vem apenas como libertador e redentor, vem também como vencedor do anticristo, pois o perigo deste ameaça tanto a existência da tradição libertadora como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento.

Nesse caso a redenção não mais seria revolução, seria corrompida em contra-revolução, escravizando nosso povo e esquecendo a alma de nossos mortos. Essa é a real natureza da batalha ideológica entre o Trabalhismo Brasileiro, que busca a revolução redentora por intermédio de nosso espírito histórico coletivo e símbolos, e da “Quarta Teoria Política” que busca a contra-revolução aprisionante, por intermédio da corrupção de nossos maiores símbolos. É a natureza de uma verdadeira Guerra Sagrada pela memória e pela possibilidade de redenção e revolução, mas mais do que isso, para não ser corrompida nossa tradição e para não ser concebível aventar a possibilidade desta ser utilizada por pessoas que não as merecem articular, não por ignorância ou desconhecimento, e sim por má-fé.


Exatamente por isso, conclamamos a todos os Trabalhistas que leram este presente texto até aqui para lutar uma batalha ideológica necessária, pois é relativa ao destino de nossa tradição e até mesmo, da própria possibilidade de futuro para esta. Uma vez corrompida a tradição, usada de forma equivocada, manipulada por farsantes, esta passará de um símbolo sagrado, de um instrumento de libertação, para símbolo de ódio, de desprezo do povo, pois terá sido utilizado como um instrumento de tirania. Quando isso ocorre, na maior parte das vezes, não existe retorno. Sem a sua tradição, memória, história, legado, o Trabalhismo perde sua razão de ser, e até mesmo pode deixar de existir.

Perspectivas para o futuro: O movimento trabalhista brasileiro e a disputa pela memória no centenário da Revolução de 30.

“O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. ” Walter Benjamin, Teses sobre a história. 


O filósofo russo, muitas vezes considerado o fundador do marxismo na Rússia, Plekhanov, tem como um dos pontos mais importante em sua obra o debate que contrapõe dialética e a metafísica, analisando respectivamente a primeira como lógica da transição e a segunda como lógica do que é estático. Como se, de forma mais simplificada ainda, a dialética fosse um filme, e a metafísica uma foto.

Para além de que evidentemente existe uma simplificação “pedagógica” desses conceitos, visto que filosoficamente é aceitável ponderar que Plekhanov escolheu um prisma bastante específico para analisar tais métodos de estruturação lógica do pensamento, também existe uma finalidade política. Isso se mostrar especialmente relevante para a esquerda brasileira entender nesse momento.


Pensamentos que primam pela lógica do que é estático, ou seja, a lógica da continuidade, quando aplicados à política, sempre são benéficos à classe dominante, pois em seu falso racionalismo, escondem justamente a capacidade de ação dos trabalhadores enquanto classe de se organizarem e mudarem as coisas. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, não teríamos Petrobras, Eletrobras nem nenhum direito trabalhista no Brasil, pois todas essas “conquistas” foram fruto da atuação ativa da classe trabalhadora.  Vânia Bambirra, em sua análise do pensamento de Mao Zedong, resume perfeitamente tal raciocínio, e comentou sobre a lógica e visão de mundo metafísica:

“A concepção metafísica abrange um longo período histórico quer no ocidente como no oriente. É adotada e defendida de um modo geral pelas forças reacionárias que desejam se manter no mundo.”  Conceito marxista de mudança social em Mao Tsé-tung, escrito por Vania Bambirra.


O que nos responde a lógica da transformação, a dialética, quanto a isso? Nos responde que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Ou seja, a força popular e a transformação social devem ser construídas material e teoricamente, e isso só pode ser feito a partir de mobilização e organização da classe trabalhadora  e de uma crítica radical do que temos no presente momento, bem como finalmente uma teoria revolucionária para transitar de um presente inglório rumo a um futuro redentor. A lógica da transformação nos ensina que dos escombros do velho, nasce o novo, enquanto o velho ainda não morreu. 

Nesse sentido, tal debate sobre a lógica da transformação e a lógica do que é estático, dentre muitas questões, também abrange centralmente o próprio debate sobre filosofia da história. Especialmente na reflexão sobre uma filosofia da história para transformar a realidade social e a própria história. Um grande mestre da Filosofia, na Universidade Federal Fluminense, um dia, disse algo que nunca podemos nos esquecer:

“Ninguém lembra de uma revolução, se ela não encontra lastro na memória popular, se ninguém se lembra, então essa revolução morreu.”

Pensemos nisso, também, sob os ensinamentos da filosofia da história de Walter Benjamin e sua descrição de como opera a dialética da lembrança e do esquecimento operada pela classe dominante. Não devemos morrer de pavor ao pensar no que nosso povo fará em 2030.  Devemos trabalhar para contrapor a ideologia paulista, que aspira levar o Brasil de volta para a República Oligárquica, e sermos hegemônicos em interpretar a importância de 1930 em seu centenário. Isso não é trivial, e nem tampouco, deveria ser importante apenas para os Trabalhistas. Sobre isso, nos alertava Walter Benjamin:

“Tese XVI: O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas para no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única.”  Walter Benjamin, Teses sobre a história. 


Numa era em que Apolíneos, racionalistas que temem a paixão, em que Narcísicos, liberais de esquerda que só se apaixonam por sua própria imagem, e que Dionisíacos, que são a pura paixão reacionária e caótica do “ser” querendo organicidade, disputam a hegemonia do caos político no globo, demos escolher Kairós, o momento perfeito para se reverter um processo inglório e alcançar a eternidade construindo um novo futuro a partir de um passado que também é presente.

A análise de nossa situação nos leva direto ao problema. A questão de nosso tempo não é que nossa esquerda é “reformista”, mas sim que ela está aquém disso, e não tem capacidade de propor ou sequer vislumbrar um mundo novo, enquanto parece estar presa na fábula de “Fim da história de Fukuyama”. Embora existam críticas e propostas para tal no imaginário da esquerda, institucionalmente ela segue esse dogma a ferro e fogo. Mas e o modelo socialista para o Brasil do século XXI, e o socialismo com características brasileiras?

Como será possível chegar nisso, se a formulação institucional da esquerda brasileira quando chega ao poder na Nova República é obviamente neoliberal e implicitamente reconhece uma vitória do Ocidente e com isso um suposto direito dos países centrais em governar o globo? A esquerda brasileira precisa antes de tudo reencontrar sua essência em uma práxis que é ambígua entre reforma e revolução, a síntese de ambos. Encontramos na história política brasileira isso no brilhante exemplo de Leonel de Moura Brizola, Roberto Silveira, Darcy Ribeiro, Vânia Bambirra, Guerreiro Ramos e tantos outros da história de nossa cultura política.

Devemos assumir publicamente o compromisso de fortalecer e dar base teórica e prática para um movimento Socialista brasileiro que realmente compreenda a importância do centenário, que merece ser comemorado em 2030, com criticidade, e aprendendo também com os equívocos do processo que fundou o Brasil moderno e escancarou uma janela de oportunidade para a construção da Revolução Brasileira, processo este em disputa há mais de 90 anos contra a “contra-revolução preventiva”. 

O que nosso povo morreu, sangrou, para construir no século XX não pode ser esquecido. Como Darcy Ribeiro dizia, o Brasil tem um sentido, mas quando não conhecemos nossa história, não é possível compreender tal sentido. Manter o fio da história, é revelar o sentido implícito do Brasil e do povo brasileiro, seu lugar de ser no mundo e na história do desenvolvimento da civilização humana.

Em destaque

ESCRITOS SOBRE A TEORIA POLÍTICA PARA O TRABALHISMO BRASILEIRO DO SÉCULO XXI — Uma coletânea de artigos sobre o desenvolvimento do trabalhismo brasileiro e do movimento socialista no Brasil.


Publicamos, 17 de abril de 2022, um dia de Páscoa, nosso primeiro livro. Este que é fruto de um extenso trabalho coletivo que vem de longe. Desde 2017 nos esforçamos, seja através do trabalho do Núcleo de base Caminho Brasileiro para o Socialismo e da equipe da A coisa pública brasileira, junto de seus colaboradores e apreciadores, seja através da dura, mas necessária, bela e recompensadora tarefa de, ao mergulhar na história do Brasil, almejar compreender os elos que ligam os movimentos socialistas, comunistas e trabalhistas à sua história comum de construção do Brasil moderno e popular. Esperamos entregar um material à altura de nossos leitores e do momento vivido por nosso país.

Agradecemos, mais uma vez, aos camaradas que são a expressão do ressurgimento do trabalhismo como caminho brasileiro para o socialismo e que, espalhados pelos quatro cantos do país, são sentinelas sempre alertas, comprometidos com a libertação nacional e com a defesa do nosso povo.

DIREITO À AUTODEFESA.

Hector Yanovich Shpree,
Editor-chefe da revista Andorinha Digital
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Um novo ciclo do imperialismo.

Janeiro de 2026. Um amanhecer frio se ergue lentamente sobre Caracas, envolvendo a cidade numa luz cinzenta que só acentua a atmosfera de inquietação e medo. Ao longe, ouvem-se explosões; seus ecos abafados reverberam nas montanhas como presságios de uma tempestade que se aproxima. Não é um sonho, nem uma história inventada de cinema. É a dura realidade com a qual nos deparamos todos os dias.

As autoridades tentam disfarçar suas ações sob o pretexto conveniente de uma “missão antidrogas”, afirmando que vieram para nos salvar do caos e da anarquia. Mas nós conhecemos a verdade: a captura de Nicolas Maduro não é apenas uma prisão, é a execução de fato da nossa soberania, do nosso direito de existir por conta própria.

Enquanto isso, Donald Trump, diante de um púlpito em Washington, declara com fúria: “Nós vamos governar este país, porque este é o nosso quintal“. Suas palavras soam como uma lâmina cravada no coração da América Latina, deixando feridas que levarão muito tempo para cicatrizar.

Os motivos dessa intervenção são simples e cínicos: trezentos bilhões de barris de petróleo à espera de serem sugados por corporações impiedosas como a ExxonMobil, dispostas a tudo por lucro. A “doutrina Donroe” não é apenas um slogan, ela representa uma versão atualizada da velha Doutrina Monroe, em que o conceito de “hemisfério” passa a significar “província dos EUA”, e a independência dos países latino-americanos se torna apenas um obstáculo no caminho da maximização de ganhos.

No meio desse caos, na favela, onde crianças brincam entre ruínas e escombros, nós ouvimos vozes. Um camarada que oscila entre esperança e desespero; um intelectual exausto da mentira e das manipulações constantes da mídia; um soldado cujas ordens estão impregnadas de traição e falta de saída. Todos eles nos conclamam à ação. Sob qualquer rótulo, o que se desenrola diante dos nossos olhos é agressão, saque e guerra.

Estamos à beira de mudanças, mas essa beira não é o fim. É o começo da resistência, o começo da luta pela nossa liberdade e independência. Vemos as correntes que nos prendem e sentimos o fogo que se acende por dentro. Nós nos levantamos como um só, prontos para enfrentar qualquer desafio, prontos para lutar pelo nosso futuro e pelo futuro de nossos filhos.

Este é Monroe. Um fantasma com dois séculos de sangue.

Imagine o ano de 1823, quando o presidente James Monroe faz seu famoso discurso e promete proteção contra os colonizadores europeus. A frase “A América para os americanos” soa nobre e segura, como um escudo para as jovens repúblicas que buscavam independência e autogoverno.

No entanto, o discurso servia de cobertura para um projeto ainda mais agressivo: a espada da expansão, que passaria a servir de justificativa para uma política agressiva. Era uma cortina para o chamado Destino Manifesto, uma doutrina que legitimava a tomada de terras e recursos em nome de um suposto plano divino, como se o destino já tivesse decretado o caminho.

Lembremos a guerra contra o México, que eclodiu entre 1846 e 1848: os Estados Unidos, protegidos pelo pretexto de disputas territoriais, na prática, arrancaram metade do território mexicano, incluindo regiões ricas como Texas, Califórnia e Novo México. Milhões de acres, onde antes viviam povos indígenas e mexicanos, tornaram-se terra alheia para eles, e sua cultura e tradições ficaram sob ameaça de desaparecimento.

Depois veio o período das ‘repúblicas bananeiras’: no início do século XX, a United Fruit Company, com a bênção de Washington, transformou a América Central em vastas plantações, onde camponeses locais curvavam as costas sob a mira de fuzis de fuzileiros navais americanos, e governos eram trocados ao sabor das corporações poderosas.

A ocupação da Nicarágua, de 1912 a 1933, foi um exemplo contundente dessa política: tropas americanas lutaram contra Augusto César Sandino, um herói cujo nome ainda hoje é sussurrado nas montanhas, símbolo de uma resistência inquebrantável. E o que dizer do Chile? Em 1973, quando o apoio a Pinochet levou a repressões em massa, milhares de pessoas desapareceram, a tortura ocorria em estádios, e a economia do país foi entregue aos Chicago Boys, que implementaram suas ideias de neoliberalismo.

Simón Bolívar, o Libertador, sonhava com uma América Latina unida, livre de impérios e do jugo colonial. Lutou pela independência e pela unidade dos países latino-americanos, buscando criar uma federação capaz de enfrentar ameaças externas e assegurar justiça a todos os povos. Sua visão incluía não somente a libertação do domínio espanhol, mas também reformas sociais voltadas a melhorar a vida das pessoas comuns. No entanto, seus sonhos de unidade e justiça ficaram sob ameaça quando novas forças de dominação passaram a usar suas ideias em benefício próprio, e não para o bem do povo.

A Doutrina Monroe evoluiu com o tempo: da conquista direta para formas mais sutis de controle indireto, dos canhões para os dólares e para as manobras econômicas. Essa doutrina, pensada inicialmente para proteger as novas repúblicas contra a interferência europeia, logo se tornou um instrumento para justificar a intervenção dos EUA nos assuntos da América Latina. Não são episódios aleatórios da história, e sim parte de um sistema coerente. Um sistema em que a “proteção” sempre acaba virando dominação e exploração.

Vamos desmontando esse sistema tijolo por tijolo para entender que o passado não foi embora, ele continua a moldar o presente, como as raízes de uma árvore alimentam sua copa. E nesse conhecimento está a nossa força, a força de Sandino, de Bolívar e de todos os que se levantaram para defender seus direitos e liberdades, que lutaram contra a opressão e buscaram justiça. É um legado de luta e resistência que segue vivo no coração de quem não aceita a injustiça e está disposto a sustentar seus ideais.

A autodefesa é o primeiro ato de soberania.

Vamos encarar esta situação com a cabeça fria, como um juiz em um tribunal, obrigado a avaliar fatos e circunstâncias com imparcialidade. O direito internacional não é um conceito abstrato: é um conjunto de normas cuidadosamente elaborado no mundo do pós-guerra, visando evitar o caos e garantir estabilidade.

O Artigo 51 da Carta das Nações Unidas formula com clareza que nada pode afetar o direito inerente de autodefesa individual ou coletiva no caso de um ataque armado. Isso não é uma simples brecha jurídica, e sim um princípio fundamental sobre o qual se sustenta o sistema jurídico internacional.

No contexto da Venezuela, o ataque dos Estados Unidos em janeiro de 2026 constitui um casus belli clássico, isto é, um motivo para a guerra. Os princípios estabelecidos no caso Caroline, em 1837, e confirmados no Tribunal de Nuremberg exigem o cumprimento de três condições para a autodefesa legítima: necessidade, quando todas as alternativas se esgotaram e o ataque é inevitável ou já começou; proporcionalidade, quando as medidas de resposta não devem exceder a ameaça; e imediatidade, quando a reação deve seguir a agressão sem qualquer demora.

Os bombardeios de Caracas, a captura do líder do país e a entrada de tropas, tudo isso se enquadra inequivocamente na definição de ataque armado, à luz do Artigo 2(4) da Carta da ONU, que proíbe a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial de qualquer Estado. Embora falem constantemente em “soberania” e “inviolabilidade de fronteiras”, seus atos representam uma violação gritante desses princípios. Nós, por nossa vez, estamos sobre uma base jurídica sólida: resistir não apenas é permitido, como também é um dever.

Para quem duvida, isto não é anarquia, e sim um imperativo jurídico que exige cumprimento. É uma lei de vida amparada por precedentes: da Argélia contra a França ao Vietnã contra os EUA. Nós não pedimos autorização a quem viola a lei; afirmamos o nosso direito de defesa. E é nessa afirmação que reside a nossa legitimidade, que não pode ser contestada. Agimos amparados no direito internacional, e isso reforça nossa legitimidade e a convicção de que a nossa causa é justa.

A ONU nos dá o direito. A agressão ianque nos dá o dever.

A descolonização não é uma data histórica registrada em livros didáticos, e sim uma chama viva e ardente que não se apagou com a retirada dos impérios europeus. Os colonizadores espanhóis deixaram as terras da América Latina, mas em seu lugar veio o neocolonialismo, que se manifesta em correntes invisíveis de dívidas, sanções econômicas e dominação cultural. Esse fenômeno atravessa a vida dos povos, deixando feridas profundas que exigem cura. A autodefesa não é apenas um ato de resistência: é um clarão que rompe a escuridão e devolve ao povo sua vontade e sua dignidade.

Imagine a ferida aberta por séculos de opressão e exploração começando a cicatrizar por meio da luta. Os combatentes latino-americanos pela liberdade sussurram orientações uns aos outros, transmitindo conhecimento e experiência. Che Guevara, cujas palavras ecoam nos corações dos revolucionários, lembra que o dever de todo revolucionário não é apenas sonhar com mudanças, mas fazer a revolução ativamente, acender o foco, o núcleo guerrilheiro que cresce até virar um incêndio que toma tudo ao redor.

É um direito forjado nas montanhas da Sierra Maestra, onde Fidel Castro e seus companheiros derrubaram o regime de Batista; padecido nas prisões chilenas de Pinochet, onde gritos de tortura e sofrimento ressoavam pelos morros; pago com sangue em Granada, onde paraquedistas americanos pisotearam sonhos de independência e liberdade.

Sandino, na Nicarágua, tornou-se um símbolo de resistência: seus guerrilheiros, como o mar, engoliam os ocupantes na selva densa, sem lhes deixar chance de vitória. Simón Bolívar, o Libertador, conclamava à união de todos os povos, dos Andes ao Caribe, na luta contra impérios que tentavam sufocar seu espírito.

O laço sufocante das sanções não é um conceito abstrato, e sim uma realidade cruel: crianças em hospitais venezuelanos ficam sem ar sem os medicamentos necessários, e camponeses sofrem com intoxicações pelos pesticidas da Monsanto, que destroem sua saúde e sua vida.

As marcas da tortura não são metáfora: são sinais reais nos corpos de quem atravessou provações terríveis. As favelas de Caracas são um labirinto vivo de desespero e esperança, onde, a cada dia, as pessoas lutam para sobreviver e conquistar um futuro melhor.

É daí, do fundo desse desespero, que brota uma resistência poderosa: não como mera gradação do espírito, mas como um processo inteiro, que vai do sussurro discreto do protesto ao estrondo de uma insurreição, da faísca quase invisível à chama intensa da libertação.

Nós não somos vítimas das circunstâncias ao nosso redor. Ao contrário: somos autores do nosso destino, com força e determinação para mudar o curso dos acontecimentos. Somos herdeiros de grandes revolucionários, como Che Guevara, Sandino e Simón Bolívar, que, pelo exemplo, nos inspiram a lutar por justiça e liberdade. Damos continuidade à sua causa e, hoje, mais do que nunca, chegou a nossa hora. Estamos prontos para defender nossos direitos e sustentar nossos ideais, seguindo os passos de quem lutou antes de nós.

Monroe em 1823? Donroe em 2026!
A mesma doutrina, o mesmo saque.

Agora, ainda mantendo a cabeça fria, vamos analisar a situação como estrategistas experientes diante de um mapa. Em 2026, a Doutrina Monroe já não é uma relíquia ultrapassada. Vemos ela se transformar num arsenal poderoso, adaptado às exigências da era digital. Seus instrumentos são múltiplos e variados. Um deles é a asfixia econômica, aplicada por meio de sanções capazes de esmagar economias inteiras, como aconteceu na Venezuela, onde centenas de milhares de pessoas sofreram com um bloqueio brutal.

Outro aspecto é o colonialismo jurídico, expresso em leis dos EUA com alcance extraterritorial, que punem empresas por negociarem com os chamados “inimigos”. Há também a ciberguerra, que inclui o hackeamento de redes e a disseminação de desinformação nas redes sociais. A intervenção informacional, na forma de notícias falsas, mina a legitimidade de governos e semeia caos na sociedade.

E não dá para esquecer o narcotráfico, que funciona como um cavalo de Troia: o combate aos cartéis vira um pretexto conveniente para interferir nos assuntos de Estados soberanos. Um exemplo é o Afeganistão, onde, após a invasão de 2001, a produção de ópio teria disparado de 185 toneladas para 9.000 toneladas, sob controle da OTAN. As ameaças que Trump fez contra a Colômbia e o México não devem ser tratadas como simples retórica: é chantagem. “Entreguem o controle, ou nós entraremos.”

O narcotráfico surge como desdobramento desse quadro. Economias destruídas, corrupção imposta de fora, tudo isso cria um terreno fértil para o surgimento de cartéis, e os EUA usam isso como justificativa para a própria presença nesses países. As contradições nos atos deles são gritantes: falam alto em “democracia”, mas apoiam juntas; falam em “livre comércio”, mas estrangulam economias com sanções.

O enfrentamento armado e coercitivo aos cartéis é apresentado como um bem, como uma libertação dos povos diante da ocupação e do agressor externo. Quando os cartéis deixam de ser apenas estruturas criminosas e passam a controlar, de fato, determinados territórios, combatê-los se torna um dever e um símbolo de resistência contra a interferência externa e a opressão interna. Essa confrontação deve unir os povos da América Latina em nome de uma luta de libertação nacional.

O contra-argumento que eles podem apresentar é simples: isso é perigoso, dirão. Perigoso? Mas pensemos: ser colônia é, de fato, mortal. Não podemos esquecer as lições da história, que nos mostram como o Texas foi tomado, a Nicarágua foi ocupada e o Chile foi quebrado sob a pressão de forças externas.

O fantasma da Doutrina Monroe continua a vagar pelo nosso continente, ameaçando a soberania e a independência dos nossos povos. Só que nós somos os exorcistas, prontos para enfrentar esse fantasma e suas consequências. Queremos afogá-lo num mar de fatos, argumentos e determinação, para libertar os povos desse fardo que os puxa para trás e lhes rouba a chance de se desenvolver. Precisamos unir esforços para resistir a essas ameaças e construir um futuro livre do jugo colonial.

Eles dizem: missão. Nós dizemos: ocupação.

Um continente banhado pelas ondas da história desperta, lenta, mas firmemente. Mais do que objeto de intrigas e manipulações alheias, ele se afirma como sujeito ativo da própria epopeia, cheio de determinação e vontade de se afirmar. O direito à autodefesa torna-se elemento-chave dessa narrativa, em que a América Latina, com seu rico patrimônio cultural e sua diversidade, escreve com coragem um capítulo próprio no cenário global.

O chamado à unidade e à solidariedade popular deve ecoar por todo o continente: das ruas poeirentas e vibrantes da Cidade do México às extensões ventosas de Buenos Aires, onde pessoas unidas por um objetivo comum formam uma corrente inquebrantável, inquebrantável…

A integração se torna o aspecto mais importante desse processo: construímos redes que não se deixam controlar por organizações como a NSA; criamos sistemas financeiros livres da influência do dólar; formulamos uma noção de segurança em que um irmão protege o outro, em vez de se tornar seu inimigo.

Neste mundo multipolar, em que o Sul Global ocupa seu lugar legítimo, o altermundialismo floresce, como um Aliança Bolivariana em plena floração, que reúne povos na luta por justiça e igualdade. E é nessa unidade que se vislumbra um sinal de renascimento: o neossindicalismo, que propõe uma nova ética, libertando das amarras da violência e da opressão, abrindo espaço para a criação e a cooperação.

Ao ocupante que tenta impor suas regras e controlar nossas vidas: o seu tempo acabou, e chegou a hora de você recuar para a sombra, para aqueles cantos sombrios onde não há lugar para você. Não toleraremos mais sua presença nem suas tentativas de sufocar o nosso espírito.

Ao camarada que está pronto para lutar por um futuro melhor e não teme as dificuldades: levante-se, erga-se com determinação, porque o fogo dentro de você arde forte e não se apaga, iluminando o caminho para a liberdade e a justiça.

Ao hesitante, que oscila entre escolhas e não sabe que rumo tomar: escolha a luz, escolha a vida, ou a escuridão o engolirá, e você perderá tudo o que lhe é caro e valioso. Nosso direito à liberdade e à independência é uma conquista inalienável: não o pedimos a ninguém, nós o tomamos com orgulho e decisão, sabendo que este é o nosso destino.

¡Patria o Muerte! ¡
Hasta la Victoria Siempre!
Lutaremos até o fim, até alcançarmos nosso objetivo!

[CINTIA XAVIER] Venezuela: o que muda com a ameaça de bloqueio do espaço aéreo

No sábado, 29 de novembro, Donald Trump escreveu avisando “companhias aéreas, pilotos, traficantes de drogas e de pessoas” que, a partir de agora, devem considerar o espaço aéreo venezuelano e seus arredores totalmente fechados, em mais uma etapa de uma campanha militar que vinha esquentando o Caribe e o Pacífico.

Oito dias antes, em 21 de novembro, a agência de aviação dos EUA (FAA) já tinha classificado o espaço aéreo venezuelano como “situação potencialmente perigosa”, citando deterioração da segurança e aumento da atividade militar na região, e no dia seguinte, 22 de novembro, pelo menos seis companhias internacionais – Gol, Latam, Avianca, Iberia, TAP e Turkish – suspenderam voos de e para o país.

Mesmo sem poder jurídico para “fechar” o céu de outro Estado, o alerta da FAA funcionou como gatilho imediato, derrubando voos, redesenhando rotas e encarecendo operar nessa rota, enquanto o aviso político de Trump vem amarrando esse movimento a uma escalada que sai da costa e dos navios e passa a alcançar também o céu venezuelano e as engrenagens da aviação civil.

Por que os EUA não podem “fechar” o céu de outro país, mas conseguem exercer pressão

Pelo direito internacional, o espaço aéreo de um Estado faz parte da sua soberania. A Convenção de Chicago de 1944 é clara: os EUA não podem, com um post, transformar o céu venezuelano em área proibida. O que fazem é outra coisa: usar o peso que têm em regulação, seguros, finanças, sanções e presença militar para tornar essa rota mais cara, mais arriscada e mais politicamente sensível.

A FAA não proibiu formalmente os voos, mas recomendou “extrema cautela” e carimbou a rota venezuelana como risco relevante. Esse tipo de alerta não conversa somente com companhias americanas: ele influencia nos departamentos de segurança e seguradoras de companhias aéreas de vários países. Na prática, foi o documento da FAA – mais do que a própria frase de Trump – que apareceu nas justificativas das empresas para o cancelamento das rotas.

Caracas respondeu cassando as licenças das seis companhias, acusando-as de se alinharem a uma “campanha de terrorismo de Estado” dos EUA. Depois de rotular Maduro como chefe de organização criminosa, classificar cartéis venezuelanos como “narcoterrorismo”, abater barcos e deslocar meios militares para a região, Washington arrasta também a aviação civil, os seguros e o cálculo de risco corporativo para dentro do mesmo pacote de pressão.

Vantagem tática e risco para a aviação civil

Do ponto de vista militar, quanto menos tráfego civil de rotina, mais exposto fica qualquer voo fora do padrão. Um céu “esvaziado” em nome da segurança facilita identificar, rastrear e, se necessário, enquadrar aeronaves usadas pelo governo venezuelano para mover pessoal, carga sensível ou autoridades.

Trump já tinha avisado que, depois da campanha marítima contra as “narcolanchas”, poderia vir “muito em breve” uma fase terrestre na Venezuela, com operações contra alvos rotulados como “narcoterroristas”. Um espaço aéreo mais vigiado e com menos ruído de voos civis ajuda a abrir janelas para ações pontuais em solo e ataques de precisão, sem declaração formal de guerra.

Do lado civil, o quadro de “situação potencialmente perigosa” descrito pela FAA inclui risco em todas as fases do voo. Não é só o cenário extremo de um avião abatido. Em ambiente instável, um voo civil pode ser interceptado com mais agressividade, ter rota e altitude questionadas com maior frequência, enfrentar mais barreiras para desviar por mau tempo ou por problema técnico.

O fato de tantas companhias terem decidido contornar o espaço aéreo venezuelano mostra que esse risco é tratado como concreto – e a ironia é que boa parte desse perigo potencial vem justamente do ator que se apresenta como guardião da “segurança” na região.

Em comunicado, o governo venezuelano cita as normas da Organização de Aviação Civil Internacional e o Convênio de Chicago de 1944, classifica a fala de Trump como ameaça colonialista e enquadra o fechamento do espaço aéreo como parte de um instrumento contínuo de intimidação e pressão pela via militar, política e agora também pela aviação civil.

Defesa aérea em alerta e presença russa

Maduro afirma que a Venezuela dispõe de mais de 5 mil mísseis portáteis Igla-S, de fabricação russa, posicionados em pontos estratégicos. No exercício Caribe Soberano 200, o país mobilizou caças Sukhoi, mísseis antinavio e disparo de mísseis antiaéreos portáteis em um cenário apresentado abertamente como recado a Washington. Em novembro, fontes russas e venezuelanas confirmaram o envio de sistemas Pantsir-S1 e Buk-M2E em aviões de carga Il-76, reforçando a defesa antiaérea.

Moscou e Caracas tratam essas entregas como parte de uma cooperação estratégica em defesa, ligada diretamente ao aumento da presença militar dos EUA na região. À medida que Washington amplia operações navais, ataques a embarcações e agora pressiona também o espaço aéreo, a resposta venezuelana passa por reforçar suas defesas e aprofundar a cooperação com a Rússia, usada por Caracas como contrapeso à pressão norte-americana. 

Isso encarece qualquer aventura militar contra a Venezuela e espalha o efeito pela região: Colômbia, Brasil, Caribe e Guiana já convivem há anos com a disputa entre potências externas no próprio quintal, e esse episódio empurra essa disputa para um patamar mais tenso, deixando o quadro de segurança da América do Sul mais carregado e mais sensível. 

Rotas civis sob pressão, isolamento parcial

Com a retirada de várias grandes companhias e a suspensão de outras rotas, Caracas perdeu espaço como ponto de conexão, e passageiros passaram a ser empurrados para outros hubs da região. Ao mesmo tempo, a Venezuela não desapareceu do mapa aéreo: ainda há voos operados por empresas venezuelanas e por algumas companhias do Panamá, da Colômbia e da Bolívia.

Avior, Conviasa e outras companhias venezuelanas seguram uma parte importante da conectividade regional, mas em patamar mais baixo. As ligações internacionais ficaram mais enxutas e concentradas em poucos parceiros. O resultado é um isolamento parcial, com malha mais cara e mais dependente de quem topar operar num ambiente de tensão política e militar.

Apelo internacional e memória latino-americana

Nas notas oficiais, Caracas convoca a comunidade internacional, cita a ONU e a Convenção de Chicago e denuncia a “ameaça colonialista” de Trump. O governo acusa Washington de suspender voos de repatriação de venezuelanos e de tentar aplicar extraterritorialmente sua própria jurisdição sobre o espaço aéreo de outro país, violando a soberania da Venezuela, do Caribe e do norte da América do Sul. Maduro levou a denúncia também à OPEP, ligando a escalada militar à disputa em torno do petróleo venezuelano e reforçando a leitura de que o cerco não é apenas de segurança, mas energético.

Quando Caracas fala em ameaça colonialista, agressão ilegal e risco à paz continental, está mirando na memória latino-americana de intervenções externas e golpes apoiados de fora. O fechamento do céu venezuelano é um ataque à soberania e risco para cidadãos comuns, e os atuais eventos são mais um episódio da campanha americana de pressão política sobre um país produtor de petróleo.

Como a região está reagindo

A fala de Trump não ficou confinada a Washington e Caracas. Na Colômbia, Gustavo Petro chamou o “fechamento” de completamente ilegal, perguntou em público com que direito um chefe de Estado estrangeiro pretende mandar no espaço aéreo de outro país e, como presidente da CELAC, defendeu a soberania venezuelana. Cobrou posição da OACI e sugeriu que companhias aéreas rejeitem ordens consideradas ilegítimas, repetindo que o alvo real da pressão americana é o petróleo.

Cuba denunciou “interferência persistente” dos EUA no Caribe, especialmente sobre o espaço aéreo venezuelano, e chamou o movimento de Trump de “ataque ilegítimo”, parte de uma escalada de agressão e guerra psicológica contra um país irmão.

No Brasil, Lula disse estar muito preocupado com o aparato militar dos EUA no entorno e sinalizou que pretende conversar com Trump sobre a escalada. A posição brasileira é mais cautelosa, mas parte da mesma percepção: qualquer erro de cálculo nessa região respinga direto nas suas fronteiras.

Para uma parte importante do continente, portanto, não se trata só do embate entre Trump e Maduro nem apenas de quem manda no céu da Venezuela. O que está em jogo é até onde os EUA se autorizam a usar poder militar, financeiro e regulatório para disciplinar um país que não segue sua linha – e que mensagem isso manda para qualquer outro governo que resolva sair da órbita de Washington.

Cíntia Xavier,
Correspondente em Moscou,
Fundadora da Revista A Coisa Pública Brasileira.

[BRENO FROSSARD] Da Reforma à libertação: religião e luta de classes da Alemanha do século XVI ao Brasil

Breno Frossard,
Presidente de Honra,
Ação Popular Revolucionária.

INTRODUÇÃO CRÍTICA: O LÓCUS DA RELIGIÃO NA DIALÉTICA MATERIALISTA

A Reforma Protestante do século XVI, frequentemente estudada sob a ótica da teologia ou da historiografia tradicional, adquire uma dimensão radicalmente distinta quando analisada através da lente do materialismo histórico-dialético. Nesta perspectiva, a Reforma não é concebida primariamente como uma cisão espiritual, mas sim como a manifestação superestrutural inevitável de profundas transformações estruturais, marcando a desintegração do modo de produção feudal e o surgimento das relações capitalistas. A Igreja Católica Romana, detentora de vastas propriedades e principal pilar ideológico do feudalismo, tornou-se o alvo político e econômico da classe emergente, a burguesia.

Friedrich Engels estabelece o princípio metodológico fundamental de que, na Alemanha do século XVI, toda a luta contra o feudalismo precisava assumir um “disfarce religioso” (ENGELS, S.D.). As condições ideológicas da época ditavam que o confronto de classes — o choque entre a burguesia ascendente, a nobreza decadente e o campesinato oprimido — só poderia ser articulado através do vocabulário e da organização da fé (LÖWY, S.D.). A religião, embora reflexo das condições materiais, não se apresenta como um fenômeno passivo; ela se imerge na luta de classes, onde, conforme análise de Michael Löwy citada em pesquisa sobre Engels, “cada classe social tem sua interpretação da religião, em função de sua posição social” (LÖWY, S.D.).

O presente relatório visa traçar a progressão dialética da análise marxista da Reforma, partindo do classicismo descritivo de Friedrich Engels e Karl Kautsky, que mapearam a luta de classes aberta, avançando para a análise da superestrutura e da hegemonia por Antonio Gramsci, e culminando nas apropriações praxiais no contexto periférico brasileiro, representadas pelas políticas educacionais de Leonel Brizola e pela teologia de libertação de Walter Altmann.

I. VISÃO DE ENGELS: A REFORMA COMO MANIFESTAÇÃO PRIMORDIAL DA LUTA DE CLASSES

A Base Material da Dissensão Teológica

Friedrich Engels, em sua obra seminal A Guerra Camponesa Alemã, originalmente publicada na Neue Rheinische Zeitung-Revue, revista editada por Karl Marx (ENGELS, 1850), fornece o arcabouço para a compreensão da Reforma como uma revolução burguesa embrionária. O livro descreve a complexa estrutural social da Alemanha do século XVI, onde a pressão econômica e social das classes em ascensão e das classes subalternas encontrava resistência na Igreja, que funcionava como o centro ideológico do poder feudal (ENGELS, 1850).

Engels argumenta que o Protestantismo e o Capitalismo estão intrinsecamente associados, uma afirmação que estabelece uma correlação materialista paralela à tese sociológica desenvolvida posteriormente por Max Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo (ENGELS, 1850). A ciência e o comércio, essenciais para a classe média (burguesia) em ascensão, rebelaram-se contra as pretensões da Igreja Romana. A luta contra o feudalismo, portanto, tinha de ser dirigida contra a Igreja em primeira instância, tornando a Reforma o primeiro grande confronto decisivo da burguesia (ENGELS, S.D.).

A Dialética Lutero versus Müntzer

A grande virtude da análise de Engels reside na sua capacidade de desmembrar a Reforma em facções de classe, revelando que o grito de guerra levantado por Martinho Lutero (ENGELS, S.D.) não era monolítico, mas sim o catalisador de duas insurreições políticas subsequentes: a da baixa nobreza (sob Franz von Sickingen, 1523) e a grande Guerra dos Camponeses (1525) (ENGELS, S.D.).

Engels categoriza rigorosamente os líderes religiosos em função da sua posição de classe, estabelecendo uma contradição dialética fundamental: a de Lutero, o “reformador burguês,” em oposição a Thomas Müntzer, o “revolucionário plebeu” (LÖWY, S.D.).

Lutero e a Tese Burguesa Lutero, ao depender dos príncipes para se proteger da autoridade papal e imperial, serviu em última instância aos interesses da burguesia e do poder territorial (LÖWY, S.D.). A Reforma Luterana, segundo Engels, produziu um novo credo, uma religião adaptada à monarquia absolutista (ENGELS, S.D.). Essa forma de protestantismo garantia a ordem e a submissão à nova autoridade estatal em emergência, afastando a ameaça da revolução plebeia radical.

Müntzer e a Antítese Plebeia Em contraste, Thomas Müntzer e os anabatistas representavam a ala radical das classes subalternas, camponeses e plebeus. A simpatia política de Engels por Müntzer era aberta, decorrente do seu caráter revolucionário (LÖWY, S.D.). Müntzer exigia o “estabelecimento imediato do reino de Deus, da era milenar de felicidade”, um ideal que significava, em termos materiais, uma sociedade sem diferenças de classe, sem propriedade privada e sem poder estatal independente. Müntzer utilizou a linguagem religiosa e as escrituras para mobilizar o povo contra a opressão, desafiando aqueles que exploravam os pobres, pregando-lhes ‘não roubarás’ (JÚNIOR, S.D.).

O Fracasso da Revolução Plebeia

A Guerra dos Camponeses, embora um resultado direto da efervescência luterana, foi derrotada, principalmente devido à indecisão dos burgueses das cidades (ENGELS, S.D.). A análise materialista explica essa derrota: apesar dos conflitos serem permeados por uma linguagem religiosa, os fatores que os engendraram eram políticos e econômicos (LÖWY, S.D.). Engels demonstrou que as condições materiais existentes naquele momento histórico não ofereciam as possibilidades de realização das propostas radicais de Müntzer e dos anabatistas (LÖWY, S.D.).

A necessidade de a luta assumir um disfarce religioso no século XVI, conforme identificado por Engels (ENGELS, S.D.), implica que a superestrutura religiosa detinha um monopólio ideológico sobre a articulação do descontentamento social. A burguesia vitoriosa soube codificar suas necessidades econômicas (propriedade, trabalho disciplinado, Estado forte) em um novo credo funcional para o Estado emergente (monarquia absolutista), enquanto a utopia comunista plebeia de Müntzer era ideologicamente prematura para a época (ENGELS, S.D.). A Reforma Luterana, ao cimentar a aliança entre o poder emergente dos Príncipes e a ética proto-capitalista da Burguesia, garantiu que a nova religião se tornasse uma ferramenta de legitimação de classe.

II. VISÃO DE KAUTSKY: O IDEAL COMUNISTA DE THOMAS MÜNTZER

A Continuidade Histórica do Comunismo Plebeu

Karl Kautsky, reconhecido como o principal teórico do Marxismo Ortodoxo após a morte de Friedrich Engels (KAUTSKY, S.D.), dedicou uma atenção considerável à análise histórica da religião e sua relação com as classes subalternas (SANTOS, S.D.). Em sua obra As Origens do Cristianismo (KAUTSKY, 1908), Kautsky investiga a evolução da fé, notando similaridades notáveis entre o cristianismo primitivo, que era porta-voz dos desvalidos, e o movimento socialista moderno (SANTOS, S.D.).

Kautsky, assim como Engels, não ignorou a Reforma Protestante, pois ela era um ponto crucial na história do antagonismo entre o movimento socialista e a Igreja estabelecida (SANTOS, S.D.). Ele estendeu a análise da Guerra Camponesa ao investigar a manifestação de revoltas políticas e sociais enraizadas em necessidades materiais, não apenas espirituais, utilizando a religião como uma ferramenta para a mobilização social no conflito de classes (JÚNIOR, S.D.).

A Exaltação de Müntzer como Herói Revolucionário

A visão de Kautsky sobre Thomas Müntzer se alinha à de Engels, defendendo-o abertamente como um “herói comunista” (JÚNIOR, S.D.). A importância de Müntzer, segundo Kautsky, não reside apenas na sua teologia, mas na sua “energia revolucionária” e capacidade de politizar plebeus e camponeses contra a autoridade secular (JÚNIOR, S.D.).

Kautsky argumentava que Müntzer utilizava as escrituras e o Novo Testamento como instrumentos para a solidariedade revolucionária entre as classes exploradas, concordando com a visão de que o movimento anabatista e o projeto de Müntzer devem ser analisados em paralelo com a revolução comunista (JÚNIOR, S.D.). Embora o tempo histórico não estivesse maduro para o sucesso de Müntzer, essa análise exalta o valor de sua intervenção.

O legado de Kautsky reside em solidificar a visão de que a Reforma Protestante, como fenômeno histórico, abrigou uma contradição dialética interna. Enquanto a facção luterana vitoriosa conduziu à consolidação do capitalismo e do Estado absolutista (ENGELS, S.D.), a facção derrotada, representada por Müntzer, carregou a semente ideológica do comunismo.

Kautsky enfatizava que a luta de Müntzer pela “liberdade” era um impulso central, equiparável em importância à luta econômica (RODRIGUES, S.D.), ligando a utopia plebeia do século XVI à luta proletária do século XX. O trabalho de Kautsky reafirma que as classes subalternas, mesmo em condições materiais desfavoráveis, projetam o ideal de uma sociedade sem exploração através da ideologia disponível, neste caso, o cristianismo milenarista.

III. VISÃO DE GRAMSCI: REFORMA INTELECTUAL E MORAL NA CONSTRUÇÃO DA HEGEMONIA

A Reforma Protestante e a Unidade Ocidental

Antonio Gramsci, cujas reflexões estão registradas nos Quaderni del carcere (GRAMSCI, S.D.), abordou a Reforma Protestante buscando entender as causas do surgimento do Fascismo na Itália e as sucessivas derrotas do movimento operário europeu pós-Primeira Guerra Mundial (MEDEIROS, S.D.).

A análise de Gramsci insere a Reforma num processo de longa duração, mostrando que, após dois séculos de guerras religiosas, ocorreu no Ocidente uma “segunda unidade” (MEDEIROS, S.D.). Esta nova unidade, de natureza diferente da primeira unidade medieval, consolidou-se apesar das resistências, formando o novo bloco histórico europeu. Os Quaderni del carcere (GRAMSCI, S.D.) demonstram que o conceito gramsciano de hegemonia é a ferramenta teórica fundamental para analisar essas transformações, focando no papel das superestruturas.

Hegemonia e a Reforma Intelectual e Moral

Para Gramsci, a conquista do poder político pela classe subalterna exige a prévia construção de uma hegemonia, que é a direção moral e cultural da sociedade. Esta conquista é indissociável de uma “Reforma Intelectual e Moral” (GRAMSCI, S.D.).

A Reforma Protestante, nesse sentido, funcionou historicamente como o modelo bem-sucedido da Reforma Intelectual e Moral da burguesia. Ela forneceu à nova classe dominante o cimento ideológico, a nova ética e a cosmovisão necessárias para romper o bloco histórico feudal e estabelecer o capitalismo (GRAMSCI, S.D.).

O conceito de Reforma Intelectual e Moral de Gramsci é profundamente político, extrapolando o sentido pedagógico e se tornando uma ferramenta fundamental para a direção cultural da sociedade. Gramsci, inclusive, referenciou a tentativa de tradução e publicação do livro Reforma Intelectual e Moral da França, de 1871, indicando a importância que esse conceito detinha para a política cultural (GRAMSCI, S.D.).

A exigência de Gramsci para o movimento operário (condição sine qua non) é a articulação de novos intelectuais orgânicos que possam liderar uma reforma análoga (GRAMSCI, S.D.). O desafio não é apenas a revolução econômica, mas a capacidade de assimilação crítico-dialética da época (Zeitgeist) para fundar um novo senso comum e uma nova direção moral (GRAMSCI, S.D.).

A Dialética Invertida da Reforma

Se a Reforma Protestante luterana e calvinista foi o mecanismo histórico pelo qual a burguesia estabeleceu sua hegemonia, ligando a fé individual à responsabilidade social e à ética do trabalho, Gramsci argumenta que o proletariado precisa de seu próprio evento de massas—não religioso, mas filosófico-práxico—para realizar uma contra-hegemonia.

O paradigma histórico da transformação superestrutural bem-sucedida, conforme estabelecido pela Reforma Protestante no século XVI, deve ser emulado e invertido pela classe subalterna moderna. O conceito gramsciano de Revolução Passiva e Reforma Intelectual e Moral critica implicitamente o “economicismo,” a crença de que a mudança da base material (economia) garante automaticamente a mudança superestrutural. Pelo contrário, a conquista da direção moral e intelectual (hegemonia) é o campo de batalha essencial, tal como a teologia foi no século XVI (GRAMSCI, S.D.).

IV. BRIZOLA E O PROTESTANTISMO: ANÁLISE DA POLÍTICA EDUCACIONAL E OS IDEAIS DA REFORMA E JOHN WESLEY

A Matriz Ética e a Formação Metodista

A análise da política educacional desenvolvida sob a liderança de Leonel de Moura Brizola, especialmente o programa dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), exige uma compreensão de sua formação religiosa. Brizola, uma das principais figuras da política brasileira do século XX, destacou-se por suas ambiciosas políticas sociais e teve sua ética profundamente moldada pelo protestantismo, especificamente pela tradição Metodista (LOPES, S.D.).

O Metodismo, derivado do Anglicanismo e precursor por John Wesley, é notório por sua ênfase na disciplina, na organização e na educação (LOPES, S.D.). A ética reformada, historicamente associada ao desenvolvimento do capitalismo (como postulado por Max Weber – ENGELS, 1850), é vista aqui como um vetor superestrutural instrumentalizado para um projeto de desenvolvimento nacional-popular.

John Wesley, a Educação Integral e o Desenvolvimentismo

Os estudos que analisam a influência protestante na política educacional de Brizola (LOPES, S.D.) utilizam as referências de John Wesley, o religioso anglicano conhecido por seus métodos de ensino, como precursor direto do Metodismo (LOPES, S.D.). A pedagogia do Metodismo (disciplina, esforço contínuo e foco no desenvolvimento do capital humano) é contrastada com o quadro de exclusão social.

Darcy Ribeiro, aliado de Brizola e o formulador intelectual dos CIEPs, bem como o próprio John Wesley, são utilizados como referências cruciais para compreender a formulação dessa política (LOPES, S.D.). A ideia por trás dos CIEPs (e da educação integral) é a tentativa de redirecionar a ética protestante de trabalho e disciplina, que Engels e Weber ligaram à gênese do capitalismo (ENGELS, 1850), para a mobilização e elevação das classes subalternas urbanas e rurais no Brasil (LOPES, S.D.).

A Instrumentalização Tática da Superestrutura Burguesa

O projeto educacional de Brizola representa uma complexa apropriação dialética no contexto periférico. Se Gramsci clamava por uma nova Reforma Moral (GRAMSCI, S.D.) para a hegemonia proletária, Brizola (e Ribeiro) buscaram uma apropriação seletiva da moralidade reformada já existente, mas desvinculando-a da acumulação individual e vinculando-a à causa da elevação coletiva e da soberania nacional.

A política de Brizola, portanto, não reflete o marxismo clássico revolucionário (Müntzer), mas uma estratégia tática de utilizar um instrumento ideológico historicamente ligado à burguesia (a disciplina metodista, conforme os métodos de ensino de John Wesley) e redirecioná-lo para catalisar a mudança social entre as classes pobres. Essa ação estatal periférica usa a ética como ferramenta para desafiar a estrutura de exclusão social, demonstrando a adaptabilidade da luta ideológica.

V. WALTER ALTMANN: LUTERO E A LIBERTAÇÃO: UMA RELEITURA EM PERSPECTIVA LATINO-AMERICANA

A contribuição de Walter Altmann, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) e proeminente teólogo, representa um dos mais sofisticados desdobramentos da herança da Reforma na chave histórico-dialética no contexto periférico latino-americano. Em sua obra seminal, Lutero e Libertação: releitura de Lutero em perspectiva latino-americana (ALTMANN, 1994), Altmann realiza um movimento dialético que resgata o princípio teológico fundamental da Reforma Protestante, o Sola Fide, subvertendo-o para que atue como uma ferramenta de crítica materialista e mobilização social contra a opressão estrutural.

O Lócus da Teologia da Libertação Luterana

O ponto de partida de Altmann é a constatação do abismo entre as questões teológicas levantadas pela Reforma na Europa Central do século XVI (conflitos com a autoridade eclesiástica, doutrina da salvação individual) e a realidade histórica da América Latina, marcada pela dependência econômica, pobreza endêmica e opressão estrutural (ALTMANN, 1994).

A Teologia da Libertação (TL) emergiu, conscientemente, para confrontar esta realidade, enraizando a reflexão teológica na praxis de transformação social e na opção preferencial pelos pobres. A tese de Altmann insere o Luteranismo neste diálogo crítico, buscando demonstrar que a tradição luterana, muitas vezes percebida como eurocêntrica e focada na salvação individual, possui um potencial revolucionário inexplorado quando lida a partir das margens (ALTMANN, S.D.).

A Subversão do Sola Fide em Princípio de Crítica Estrutural

O cerne da releitura de Altmann é a radical ressignificação da Justificação pela Fé (Sola Fide) de Martinho Lutero. O princípio, que historicamente libertou os indivíduos da necessidade de justificação por meio de obras eclesiásticas, é elevado por Altmann a um patamar que transcende a salvação pessoal:

A Crítica à Justificação da Opressão: Se a fé em Cristo justifica o indivíduo perante Deus, Altmann argumenta que esse mesmo princípio é um imperativo radical para deslegitimar e desjustificar toda e qualquer estrutura de dominação e opressão social. Em outras palavras, a justificação do ser humano por graça divina implica a negação de qualquer “justificação” (legitimação) humana para a desigualdade, a exploração e a injustiça social (ALTMANN, 1994).

De Justificação Individual para Libertação Estrutural: A obra redentora de Cristo, vista como a vitória sobre todo o mal e as forças de opressão (na perspectiva cristológica da Cruz de Cristo), não pode ser confinada à esfera privada. Ela se traduz, no plano material, como um motor para a libertação. A fé, assim, impulsiona a luta ativa pela justiça social, onde o princípio se desdobra em Sola Iustitia (somente Justiça), um conceito que resgata a dimensão ativa e ética da fé luterana (ALTMANN, S.D.).

A Inversão Dialética: Teologia como Agente Praxial

A análise de Altmann atinge o ápice da dialética da superestrutura em relação à base material, conforme discutido por Engels e Kautsky. Enquanto o marxismo clássico tendia a ver a religião primariamente como um reflexo limitado e condicionado pelas relações econômicas (LÖWY, S.D.), Altmann demonstra como um conceito teológico (o Sola Fide), historicamente produto da revolução burguesa, é conscientemente reorientado para:
Atacar a Base Material: Em vez de apenas refletir a economia, a teologia de Altmann ataca ativamente a base material de opressão estrutural e pobreza na periferia.

Catalisar a Conscientização: A superestrutura teológica, ao resgatar Lutero com um novo significado, torna-se um poderoso agente praxial que conscientiza e mobiliza as classes subalternas.

Essa subversão da superestrutura confere à teologia luterana na América Latina uma energia revolucionária, conectando-a, implicitamente, ao radicalismo de Thomas Müntzer. Se Engels via em Müntzer o grito revolucionário sufocado do comunismo plebeu (ENGELS, S.D.), Altmann oferece uma via legítima e conscientemente engajada dentro da própria tradição reformada para que a fé se materialize em justiça social ativa, desafiando o determinismo econômico e a neutralidade política da religião (ALTMANN, S.D.).

A tese de Altmann não é apenas uma interpretação teológica, mas uma estratégia política e ideológica que instrumentaliza a herança da Reforma Protestante, transformando o ato individual de fé em um imperativo coletivo de transformação social no campo de batalha da luta de classes periférica. A reconfiguração da ética reformada na América Latina assume, portanto, duas vias distintas no Brasil: a política e a teológica.

CONCLUSÃO DIALÉTICA: A PERSISTÊNCIA DA LUTA E O LEGADO DA REFORMA NA TEORIA CRÍTICA

A Reforma Protestante, analisada sob a chave histórico-dialética, é revelada como um momento crucial na transição do feudalismo para o capitalismo, onde a ideologia religiosa serviu como campo de batalha para a luta de classes (ENGELS, S.D.). Friedrich Engels, em A Guerra Camponesa Alemã, estabeleceu a dissociação fundamental entre a ala burguesa (Lutero, que resultou no Estado Absolutista) e a ala plebeia (Müntzer, que buscou o comunismo primitivo) (LÖWY, S.D.). Karl Kautsky, em obras como As Origens do Cristianismo, solidificou o estatuto de Müntzer como herói comunista, preservando o ideal utópico revolucionário para a teoria proletária (JÚNIOR, S.D.).

Antonio Gramsci, nos Quaderni del carcere (GRAMSCI, S.D.), elevou a análise, não focando no conflito militar do século XVI, mas na sua função paradigmática: a Reforma Protestante serviu de modelo para a “Reforma Intelectual e Moral” burguesa, um processo fundamental para a construção da hegemonia capitalista. Esta compreensão força a classe subalterna moderna a reconhecer que a luta ideológica é uma condição sine qua non para a vitória política.

Finalmente, no contexto periférico brasileiro, a herança da Reforma é reconfigurada. As políticas educacionais de Leonel Brizola utilizaram a ética protestante (JOHN WESLEY – LOPES, S.D.) como ferramenta disciplinar para o desenvolvimento nacional, enquanto Walter Altmann, em Lutero e Libertação, subverteu a teologia luterana para atacar a opressão estrutural, transformando a justificação pela fé em um imperativo de libertação (ALTMANN, 1994).

O legado da Reforma, visto pelo prisma marxista, é a persistência da luta de classes, mesmo quando travestida de fé. Demonstra-se que, enquanto a religião pode ser um fator de legitimação da dominação (Absolutismo), ela também carrega o potencial (Müntzer, Altmann) de se tornar um poderoso vetor de mobilização e conscientização em favor das classes oprimidas. A análise marxista da Reforma permanece, assim, essencial para a compreensão das dinâmicas contemporâneas das superestruturas ideológicas.

  • Referências de Livros e Artigos Utilizados: Abaixo estão as referências de Livros e Artigos (ou obras seminais), citadas no corpo do texto.
  • ALTMANN, Walter. (1994) Lutero e Libertação: releitura de Lutero em perspectiva latino-americana.
  • ALTMANN, Walter. (S.D.) Teologia da Libertação.
  • ENGELS, Friedrich. (S.D.) A Guerra Camponesa Alemã.
  • ENGELS, Friedrich. (S.D.) História (o papel da Religião) na classe média Inglesa.
  • GRAMSCI, Antonio. (S.D.) Quaderni del carcere (Cadernos do Cárcere).
  • JÚNIOR, José da Silva. (S.D.) THOMAS MÜNTZER: A HISTORICAL CATALYST IN GERMAN PEASANTS WAR.
  • KAUTSKY, Karl. (1908) Foundations of Christianity (As Origens do Cristianismo).
  • KAUTSKY, Karl. (S.D.) Thomas More and his Utopia.
  • LÖWY, Michael. (S.D.) RELIGIÃO, POLÍTICA E LUTA DE CLASSES: AS REFLEXÕES DE FRIEDRICH ENGELS SOBRE O FENÔMENO RELIGIOSO.
  • LOPES, Guilherme Galvão. (S.D.) [Artigo] “Nenhuma criança sem escola”: a influência do protestantismo nas políticas educacionais de Leonel Brizola.
  • MEDEIROS, Patrícia M.C. de. (S.D.) CRISE ORGÃNICA, HEGEMONIA E REVOLUÇÃO PASSIVA GRAMSCIANA.
  • RODRIGUES, Luan dos Santos. (S.D.) Karl Kautsky e as origens do Cristianismo.
  • SANTOS, Agnaldo F. dos. (S.D.) Considerações sobre a análise marxista do cristianismo.

[ARTIGO] A negação do messias individual, da tola fé, e do medo para a afirmação de um novo caminho!

O fim da era Ciro Gomes no PDT e o nascimento do messias coletivo.

Por: Daniel Albuquerque Abramo.

1-Introdução: Breve explicação.

O objetivo da presente reflexão é  tentar elaborar a análise mais correta possível sobre o momento histórico do movimento trabalhista. Utilizando o método dialético para, a partir da negação do messianismo idealista individual representado por Ciro Gomes, propor um novo messianismo revolucionário latino americano coletivo que possa ser a verdadeira nova fase do trabalhismo brasileiro, digna de ser conhecida como “o trabalhismo brasileiro do século XXI”.

Exatamente por isso, o leitor não deve esperar um texto que olhe pela ótica de Ciro Gomes, do cirismo ou quejandos. Tal artigo se trata de um respiro de “razão de APR” e “razão de partido”, em um período em que raras são as pessoas que ainda compreendem a importância da construção de um partido que represente a classe, bem como o verdadeiro sentido do que significa “defender o fio da história”.

2- A NEGAÇÃO DO MESSIAS INDIVIDUAL E AFIRMAÇÃO DO MESSIAS COLETIVO – SOBRE O FIM DA ERA CIRO GOMES NO PDT:

A saída de Ciro Ferreira Gomes do PDT rumo a outro partido marca o fim de importante período histórico para o Trabalhismo. A brilhante historiadora Ângela de Castro Gomes diz que é no funeral de lideranças políticas que entendemos a dimensão de figuras políticas e podemos rearticular seu legado. Nesse sentido, não pretendo avaliar o legado de Ciro, pois este está vivo, ainda pode errar e acertar antes do fim. Ainda assim, se faz necessária uma reflexão sobre todo o processo.

Ciro ingressou no PDT em um momento em que boa parte da juventude e militância de esquerda brasileira percebia o renascimento do marxismo e do trabalhismo, como formas de lidar com a ingerência estrangeira ocorrida em território brasileiro na década de 2010, culminando no golpe parlamentar de 2016. Foi responsável por simbolizar, para muitos, entre 2016 e 2022 a possibilidade de uma “terceira alternativa”, entre o ultra-liberalismo conservador e o social-liberalismo petista. Tem, portanto, o mérito que extrapola sua própria figura real e suas atitudes concretas, repousando parte de seu mérito, no próprio signo que representava.

Contudo, demonstrou claramente seus limites. Sobretudo em termos táticos e estratégicos entre 2019 e 22 , saindo completamente de prumo após o resultado eleitoral de nossa última eleição presidencial. Claro, isso não se deu apenas por erros de Ciro e sua equipe, o PDT falhou. Fez o desafio pela hegemonia da esquerda, mas não tinha forças objetivas para tal. Terminou por sofrer o pior ataque político midiático de sua história (2019 -2023) e recuar. Frustrando os planos de militantes que, não sendo formados no trabalhismo, por erros do próprio partido, não compreendiam o que estava em jogo em um nível macro. Pensando estes apenas em Ciro, e representando o “Cirismo”.

Ainda assim, muitas pessoas entraram de coração aberto no PDT, e talvez, ironicamente, já que vai embora, esse tenha sido seu maior mérito. Aqueles que ingressaram no PDT “ciristas”, e hoje defendem o trabalhismo como caminho brasileiro para o socialismo, entenderam após os erros de Ciro de 19 até 22, que não precisam esperar messias, um salvador, de forma sebastianista. Essas pessoas aprenderam que aquilo que projetaram no símbolo de Ciro Gomes, de 2016 até 2018, nós mesmos devemos fazer e construir, pois o símbolo, é fraco e uma mera ideia, enquanto as massas tem a verdadeira força e são o agente histórico.

Vá em paz para fechar sua vida partidária de clã, Ciro Gomes, o que você tinha que fazer pelo trabalhismo já foi feito.


3- A NEGAÇÃO DA FÉ INGÊNUA PELO PLANEJAMENTO:

Em 2022 lançamos pelo Núcleo Caminho Brasileiro para o Socialismo (atual APR-RJ), o livro “Escritos sobre teoria política para o trabalhismo brasileiro do século XXI“. Em tal livro, com artigos produzidos de 2018 até 2022, deixamos claro: os trabalhistas deveriam se organizar para e por si mesmos, e em benefício de sua linha política, para além da figura de Ciro Gomes se necessário fosse. Em tal obra, artigos como “Caminhos de ação trabalhista“, e “Trabalhismo e revolução: O problema fundamental da memória para a tradição“, se mostram mais atuais do que nunca.

Passados alguns anos, em 2024, no VI Congresso Nacional do PDT, defendemos pela APR, com a tese trabalhismo e hegemonia, uma linha de reconstrução de forças centrada nas bases e naquilo que falhamos de 2016 até 2022 para que seja possível novo desafio pela hegemonia da esquerda até 2030.

Os últimos acontecimentos, e análises de figuras e intelectuais relevantes de diferentes campos da esquerda brasileira reforçam hoje tais entendimentos. Enquanto alguns são pegos de surpresa, parafraseando Mao e Geraldo Vandré, a APR entende que existe um grande caos abaixo do céu, mas que a situação é excelente para quem sabe a hora e não espera acontecer.

4- A NEGAÇÃO DA IMPORTAÇÃO EM DEFESA DO MÉTODO:

Sem método e formação o liberalismo de esquerda encontra solo fértil num falso sentimento de superioridade moral e intelectual compartilhado pela pequeno-burguesia e setores culturalmente ligados ao cosmopolitismo burguês em relação à massa da classe trabalhadora.

Isso ocorre mais ou menos na mesma medida em que era “chique” para as dondocas e mauricinhos do começo do século XX demonstrarem, de forma artificial e deslocada do meio, o quanto mais sabiam sobre as novas modas da Europa.

5- A NEGAÇÃO DO LIVRE ARBÍTRIO EM ABSTRATO E AFIRMAÇÃO DO LIVRE ARBÍTRIO REAL:

Existem pessoas de esquerda que acreditam em coisas como “livre arbítrio” em abstrato. Não devemos capitular para o conceito liberal de livre arbítrio que ignora coerção. Isso não é livre-arbítrio, é uma forma perversa e eufêmica de controle. É exatamente por isso que devemos considerar o sub-emprego neoliberal uma nova forma de escravidão atrelada a um contexto em que NÃO EXISTEM OUTRAS ESCOLHAS OBJETIVAS. E não uma forma de “livre escolha”. Se não existe outra opção, não é escolha.” Ou morre de fome ou se mata de trabalhar de uber” não é uma escolha. Isso é algo básico nas ciências políticas para entender a teoria do poder e está sendo cada dia mais relativizado.

Na teoria liberal do poder, não existe problema em obrigar uma pessoa a tomar uma decisão alterando o contexto em seu entorno e tornando essa a única opção possível. Pois são considerados apenas os atos e escolhas individuais, desprezando-se o contexto e sua imposição sobre as escolhas possíveis. Como no famigerado argumento liberal de Joel Pinheiro da Fonseca para tentar defender a venda de órgãos de cidadãos extremamente pobres como sendo uma “escolha”.

Todas as outras formas de entender a teoria do poder rejeitam essa visão e consideram isso coerção e uma forma de aplicação de autoridade. Escolher quais são as opções que as pessoas que acreditam em “livre arbítrio” vão poder optar. Isso sim é poder e autoridade. Quem não entende isso desde cedo, engole as escolhas que lhe são impostas…

6- A NEGAÇÃO DO APAGAMENTO HISTÓRICO E O VERDADEIRO MESSIANISMO:

Estudar sobre trabalhismo e Brizola, sendo marxista e tendo vivido experiências de militância nesse âmbito e caldo de cultura por muitos anos, é ter a certeza de que, parafraseando livremente Benjamin: Os fragmentos de um passado que deveria ser, mas não foi, que ainda residem no presente, se compreendidos pelo materialista histórico, podem se transformar em potencial messiânico de construir um futuro, à partir de ações no presente, que venha a redimir os mortos e vencidos do passado.

Ou seja, como diziam Brizola e Darcy de forma bem mais simples e ainda assim refinada: com o fio da história somos capazes de construir um “tempo bem melhor para se viver”.

7- A NEGAÇÃO DO MEDO E AFIRMAÇÃO DE LIDERANÇA:

Quando o momento histórico é difícil, grandes lideranças políticas não podem se dar ao luxo de sentir medo ou paralisia. Sua única opção é mostrar um caminho por onde ainda seja possível trilhar. Motivando seus comandados com a elaboração de uma utopia possível.

Enquanto alguns oferecem fatalismo, imobilismo, e covardia. Nós nos mantemos em nossa rota e oferecemos um novo caminho.

8- A NEGAÇÃO DO REVISIONISMO – E AFIRMAÇÃO DE NOSSO PAPEL:

O contexto de rápida transição tecnológica, atrelado a quarta revolução industrial, representa uma brusca mudança na intensidade dos fluxos de informação, impactando profundamente no setor midiático e de propaganda. Isso é visível sobretudo no terceiro mundo, por conta das assimetrias da globalização e da escalada de competição e da guerra de propaganda entre os países centrais do capitalismo e os BRICS. O avanço de tais formas de mídia, atrelados a mídia convencional, e da interação das pessoas com elas, bem como suas formas de utilização política pelas classes sociais, tem relação direta, por exemplo, com o fato da década passada, de 2010 até 2020, ser, em sua essência, uma década de mobilizações de massa no Brasil.

Podemos ponderar, por exemplo, quanto a natureza artificial de certos movimentos de massa que tem apoio tanto da classe dominante submissa local, quanto do imperialismo, mas não podemos negar a centralidade da luta de massas na luta pelo poder político no Brasil. A direita e a extrema-direita, a partir da legitimidade gerada por seus movimentos de massa artificiais e suas mídias, sacramentaram um golpe no Brasil em 2016. Além disso, é importante notar que a adesão de maior parte dos partidos de esquerda ao neoliberalismo progressista e ao cretinismo parlamentar amansou e destruiu a capacidade de mobilização de massas da esquerda.

O trabalhismo, verdadeiro socialismo brasileiro, não deveria ter vergonha de representar esse papel histórico de construir um movimento de massas socialista no Brasil do século XXI. O trabalhismo brasileiro é responsável, junto ao movimento comunista, por formar grande parte da identidade cultural nacional brasileira e também de nossa esquerda durante o século XX.

Isso, contudo, não virá espontaneamente através de nossa militância, nem a partir de um esforço individual. Pelo contrário, se a classe dominante e seus movimentos contra-revolucionários e golpistas tem apoio interno e externo, financeiro e de mídia, o movimento trabalhista, partindo sempre de um confronto assimétrico em posição de desvantagem, precisa mais do que nunca do apoio, organização, logística e decisão estratégica de nosso partido. Nenhuma universidade irá patrocinar uma retomada da visão de mundo trabalhista.

Não existe entidade estrangeira, oligarca, personalidade pública, rede de mídia, que possa ou tenha interesse em auxiliar na criação de movimento de massas trabalhista. A única organização partidária que se importa e é responsável por isso é o Partido Democrático Trabalhista, e é exatamente por isso que os trabalhistas têm que fortalecer seu partido, enquanto buscam melhorar seus equívocos e assimetrias internas, para dar fim às sequelas do fisiologismo e do cretinismo parlamentar.

9- A NEGAÇÃO DO FATALISMO IMOBILISTA: UM CHAMADO PARA QUE OS TRABALHISTAS SIGAM ESSE CAMINHO!

Vivemos um contexto marcado pela coexistência de importantes fatores em diferentes planos, tais quais, a formação gradual de uma nova ordem mundial, a crise do neoliberalismo ao nível nacional e internacional, e a existência de um período propício para disputa de movimentos de massas. Além disso, é verificável em vários casos que, tanto no continente americano quanto na Europa ocidental, a adesão de grande parte da esquerda ao neoliberalismo acabou por influenciar no crescimento da extrema-direita, em um contexto que a esquerda abdica de seu papel transformador para com a nação e a classe trabalhadora, e tenta humanizar o projeto político e econômico da direita.

O movimento trabalhista e seu partido, tem que entender tal contexto com uma dupla reflexão. Se por um lado os desafios são imensos e a responsabilidade histórica é tremenda, por outro lado, o movimento trabalhista detém a melhor posição a médio prazo, se souber batalhar na disputa corretamente. Isso se dá, pois, a visão de mundo trabalhista é naturalmente multipolar em relações internacionais, nacionalista popular e anti-imperialista, sua visão econômica é extremamente crítica ao neoliberalismo, inclusive nas esquerdas, e, enquanto representante do socialismo brasileiro, o trabalhismo esteve historicamente conectado com intensos momentos de mobilização e disputa de massas.

 Em outras palavras, de um ponto de vista geral, o trabalhismo brasileiro está bem posicionado teórica e ideologicamente para a nova ordem mundial que se desenha com a ascensão dos BRICS, tem um programa político e econômico minimamente compatível com o contexto de quarta revolução industrial e crise do neoliberalismo, e, como crítico desse modelo, se não capitular ao social-liberalismo, por seu tamanho e história, tem grandes chances na disputa pela hegemonia dentro da esquerda contra seus adversários, bem como na disputa pulsão por transformação social contra a extrema-direita.

O movimento trabalhista deve, portanto, negar as armadilhas e tentações da frustração pelo desafio vencido e as injustiças do processo, e deve corrigir certa postura reativa por parte de alguns companheiros e simpatizantes, que acabam inconscientemente nos jogando para uma posição de centro e centro-direita.

Precisamos estar atentos contra qualquer desvio de direita, ou desvio social liberal e manter nossa posição e trabalhar para construir um movimento de massas para termos força e condições de uma futura disputa pelo poder. O Trabalhismo Brasileiro em sua história, como mostra o exemplo de Roberto Silveira na interiorização e crescimento do antigo PTB, sempre cresceu e rendeu mais quando se colocou no papel de radical defensor de uma esquerda nacional-popular e do socialismo brasileiro.

10- A NEGAÇÃO DA CRENÇA NA FORTUNA – OS PONTOS FUNDAMENTAIS DA ARTE DA GUERRA QUE DEVERÃO GUIAR A APR EM SEU CONFLITO RUMO À HEGEMONIA:

Sobre estratégia e arte da guerra, a partir de Sun Tzu, Maquiavel e Musashi, resumiria nas seguintes sentenças:

1- Cometa o mínimo de erros possíveis, por ser no erro que podemos ser derrotados. Sendo impossível não cometer nenhum, ao menos evite equívocos irreversíveis.
2- Obtenha informações sobre si e também sobre seu inimigo, ao mesmo tempo que nega e manipula as informações que o inimigo recebe. O inimigo não deve ter sequer o direito de ter um juízo acurado sobre si próprio, sobre suas forças oponentes, e sobre a própria realidade.
3 –Trate os comandados com justiça, premiando com extravagância os exemplos de rara virtude, punindo com rigor os exemplos de rara vilania ou perversidade. Nunca se esquecer do conceito de Sun Tzu de auto sacrifício e severidade para com o julgamento consigo próprio em primeiro.
4 –A arte da guerra é, segundo o antigo general chinês, a arte da ilusão que leva a vitória. Isso opera no mesmo sentido que podemos entender a arte do futebol como a arte do drible levando ao gol. Combine seus movimentos, para não existir tempo hábil do adversário responder.
5 – Nunca dependa mais da força dos outros do que de suas forças próprias para executar coisas que sejam centrais. Mesmo em emergência, contar com forças maiores acabará te tornando espólio bônus do vencedor.
6 – Obtenção de informações, planejamento, organização e mobilização, conseguem superar as mais absurdas disparidades tecnológicas ou de aparato. Sempre que estiver em confronto assimétrico, na desvantagem, seu foco deverá ser em recursos humanos.
7-Evite batalhas desnecessárias, poupando energia, e, se possível, conquiste sem a necessidade de destruir por completo ou danificar demais aquilo que se tornará seu espólio. Passando do ponto, além da fadiga acumulada, ainda é provável vencer sem ganhar efetivamente nada.
8 – Seja prudente, em primeiro lugar vem a manutenção de uma posição segura em que é impossível ser derrotado. Ainda assim, convém lembrar que a covardia nunca venceu batalha alguma. Estar atento e ter o olhar adequado para perceber a oportunidade de “entrar”.
9 – Ataques em pontos fortes do oponente nunca geraram vitórias. Ataca-se sempre os pontos fracos, equívocos, contradições do oponente. O ideal, é uma onda coordenada de ações em sequência que obscureçam sua real natureza, para pegar o inimigo sem reação em seu ponto nevrálgico.
10 — Não coloque seu inimigo contra a parede a menos que tenha a intenção e condição real de dar fim às escaramuças. Um oponente por demais pressionado contra a parede nada pode fazer senão reagir, muitas vezes de forma impressionante e inesperada.
11 — Se a derrota for certa e insolúvel, assegure-se de ter forças apenas para definir sua própria derrota/morte e suas circunstâncias. É sempre melhor ser o mártir honrado de alguns portadores do fio da história que possibilite o futuro.
12 — O bom líder popular, a despeito de ser amado, respeitado ou odiado, tem que se tornar, acima de tudo, inevitável.

[BRENO FROSSARD] Norberto Schwantes: O pastor luterano trabalhista.

Breno Frossard,
Presidente de Honra,
Ação Popular Revolucionária.

O PDT é um partido com história. E toda história tem seus heróis. Boa parte dos nossos heróis nós sabemos de cor, mas o texto de hoje é sobre um herói pouco lembrado na nossa trajetória, o pastor Norberto Schwantes.

Todos os relatos dessa história são tirados do livro “Uma cruz em Terra-nova“, escrito por Norberto semanas antes de falecer, e de relatos de colegas de partido e de igreja. A trajetória de Schwantes se assemelha à história de Brizola.

Nasceu em Carazinho, a mesma cidade do grande líder trabalhista. Era o irmão mais velho de quatro irmãos e, graças à igreja, assim como Brizola, pôde iniciar seus estudos. Em 1956, Norberto ingressou no Instituto Pré-Teológico, em São Leopoldo, uma escola de ensino médio que preparava futuros estudantes de teologia para a Escola Superior de Teologia (EST) da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

Estudante dedicado, tímido e recluso, essas qualidades o ajudaram a convencer o então presidente da IECLB, pastor Dohms, a conceder a todos os seus irmãos uma bolsa de estudos. Entre eles, destaca-se Milton Schwantes, o mais novo, que se tornou teólogo biblista e grande expoente da Teologia da Libertação.

Em 1959, Norberto assumiu o pastorado na paróquia de Tenente Portela, no Rio Grande do Sul, onde, ao chegar, preocupou-se com as condições precárias da população. Com recursos da comunidade, construiu um internato, a primeira escola do município que permitia que povos indígenas estudassem. Pelo seu isolamento no campo, e pela costumeira desatenção à política, estava um tanto alheio ao que ocorria no regime militar no Brasil.

Entretanto, em 1968, o pastor foi para a Alemanha fazer três meses de intercâmbio pastoral. Por meio de conversas, começou a entender o que ocorria no Brasil. Com isso, comprometeu-se a usar sua igreja para ajudar revolucionários a cruzarem a fronteira com o Uruguai e a Argentina. Foi assim que Brizola conheceu Norberto: já no Uruguai, muitos jovens procuravam Brizola e falavam do pastor luterano que os ajudara a cruzar a fronteira.

Posteriormente, muitas famílias de Tenente Portela se mudaram para o Mato Grosso em busca de melhores oportunidades de desenvolvimento que Norberto havia começado a idealizar. A migração dessas famílias foi impulsionada pela busca de novas oportunidades e pela necessidade de escapar das dificuldades econômicas e sociais que enfrentavam no Rio Grande do Sul.

Já reconhecido por sua liderança e compromisso com a justiça social, o pastor Norberto tornou-se figura central nesse processo. Também acolheu demandas e lutou pela demarcação das terras dos povos indígenas na região. Foi nesse contexto que conheceu Mário Juruna, cacique do povo Xavante, que passou a defender os direitos indígenas.

Durante esse período de intensa atividade pastoral e social, já no final do regime militar, Norberto foi convidado por Brizola para um encontro no Rio de Janeiro. Lá, Brizola declarou que muito ouvira sobre ele no período de exílio e que teria ido até Tenente Portela perguntar sobre o pastor.

Disse que o teólogo deveria se juntar ao PDT, ao que ele retrucou: “Governador, eu não entendo nada de política.” Brizola pediu que Schwantes pensasse e desse um breve retorno. Ao voltar para o Mato Grosso, Norberto foi surpreendido por Frederico Campos, governador indicado pelo regime militar, batendo à porta de sua casa e dizendo que não gostara de saber que ele se encontrou com Brizola.

A atitude de Frederico Campos irritou Norberto e foi decisiva para que ele ligasse para Leonel: “Estou pronto para trabalhar, Brizola”, disse. Ao que Brizola respondeu: “O primeiro passo, pastor, é assinar a ficha, que eu faço questão de abonar.

Brizola aproximou Norberto do PDT de Cuiabá e o apresentou como liderança do interior do partido, o que gerou certo ciúme na direção estadual, sediada na capital. Norberto Schwantes não apenas se filiou ao PDT, como também se tornou um dos grandes defensores das bandeiras trabalhistas e da reforma agrária, alinhando-se completamente aos ideais de Brizola. Sua atuação política foi marcada pela mesma dedicação e integridade que demonstrou na vida pastoral.

Em uma de suas visitas a Juruna, Norberto encontrou o cacique cabisbaixo, de semblante fechado. “Eu seria candidato pelo MDB, mas os homens brancos só me enganam”, declarou Juruna, decepcionado após ser preterido pelo partido. Norberto refletiu e disse: “Juruna, eu conheço um cacique, mas é um cacique de gente branca. Ele vai te ajudar a concorrer. O nome dele é Brizola.

Juruna ficou entusiasmado, eles ligaram e conversaram. Norberto levou Juruna até o Rio e, por ter se tornado uma figura popular no estado, pois já aparecera nos jornais, ficou acertado que Juruna seria candidato pelo PDT do Rio de Janeiro, mas queria Norberto na Câmara com ele. Norberto aceitou, mas a direção do PDT estadual rejeitou por ciúme político. Então Norberto acertou com Brizola que concorreria pelo MDB, que já lhe oferecera espaço, e que futuramente se filiaria ao PDT após a Constituinte.

Norberto Schwantes foi eleito deputado federal constituinte em 1986. Chegou ao Congresso Nacional com a missão de defender os interesses dos pequenos agricultores, dos trabalhadores rurais e das comunidades indígenas, grupos que sempre estiveram no centro de sua atuação pastoral e política.

Já acometido por câncer, o grande teólogo trabalhista começou a escrever sua autobiografia, na qual disse que se recusava a morrer antes de aprovar a Constituinte. Revezando visitas ao hospital com o dr. Drauzio Varella e sessões parlamentares, Norberto aprovou a Constituinte em primeiro turno. No dia 17 de setembro de 1988, Norberto nos deixou, e no dia 22 seria aprovada em segundo turno e promulgada a Constituinte.

A Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”, reflete muitas das bandeiras defendidas por Norberto Schwantes. A garantia dos direitos indígenas, a previsão de uma reforma agrária justa e a valorização do cooperativismo estão entre os avanços que contaram com sua contribuição. Sua atuação na Constituinte foi um exemplo de como a política pode ser instrumento de transformação social, guiada por princípios éticos e por um profundo compromisso com os mais necessitados.

Norberto Schwantes não viveu para ver a promulgação da Constituição nem para retornar ao PDT, mas sua luta e seu legado continuam vivos na história do PDT e do Brasil. Sua vida é um testemunho de que a política e a religião, quando exercidas com integridade e amor ao próximo, podem ser um caminho para a construção de um país justo, solidário e socialista.

NORBERTO SCHWANTES, PRESENTE.

[MARCOS ANDRÉ] Guitarras de Aço, Punhos Operários: Black Sabbath e a Forja Proletária do Heavy Metal

Marcos André,
Presidente da Ação Popular Revolucionária,
Rio de Janeiro.

Nesta publicação especial, voltada a quem ergue a bandeira da soberania popular e da emancipação da classe trabalhadora, apresentamos a versão revisada da primeira parte da monografia do presidente da Ação Popular Revolucionária do Rio de Janeiro, Marcos André, dedicada à arte insurgente do black metal — subgênero do heavy metal, tantas vezes reduzido a “metal satânico” pela velha imprensa conservadora.

Após o adeus definitivo da histórica Black Sabbath em 5 de julho de 2025, tornou-se urgente resgatar a trajetória desse grupo de jovens operários de Birmingham, cuja música revelou os horrores da guerra, do desemprego e da alienação impostos pelo capitalismo inglês. Enquanto esta publicação estava sendo editada, chegou a notícia da partida de Ozzy Osbourne, vocalista da banda e talvez o membro mais afetado por esses fatores, o que dá tom simbólico aos assuntos que serão tratados.

Nas páginas que se seguem, Marcos André desvenda episódios que a mídia corporativa silencia: a origem proletária da banda, a solidariedade forjada nas fábricas e a forma como seus riffs pesados ecoam a luta de toda a classe trabalhadora — inclusive a nossa. Além disso, há uma reflexão sobre a condição dos artistas de hoje, enfrentando o cerco do mercado e defendendo a cultura como trincheira de resistência popular.


Para explicarmos a trajetória e a história de qualquer subgênero do heavy metal — seja o thrash metal, o death metal ou mesmo o precursor do metal extremo, o black metal — é necessário olhar para os anos que antecederam o surgimento desses estilos, atentando para o contexto histórico e para o meio artístico em que pretenderam difundir sua música: o público do recém-consolidado heavy metal e do rock’n’roll.

No que diz respeito a essa difusão, é importante ressaltar que, nos primórdios da chamada “música pesada” (heavy metal), ambos os estilos — rock’n’roll e heavy metal — coexistiram na indústria fonográfica, ora como concorrentes em gravadoras distintas, ora como subsidiários da mesma gravadora¹. Seus públicos frequentavam os mesmos ambientes, até porque a distinção entre os dois gêneros não era necessariamente conflituosa — diferentemente do que ocorreria, na década de 1980, nos Estados Unidos, com a rivalidade entre ouvintes de thrash metal e de glam metal (pejorativamente chamados de posers)² e, no Brasil, no mesmo período, entre punks, skinheads e headbangers³.

Em 1970, às vésperas da crise mundial do petróleo⁴, quatro jovens de Birmingham, tradicional cidade operária da Inglaterra⁵, deram o pontapé inicial de uma revolução cultural ao lançar o álbum homônimo Black Sabbath, considerado por muitos o primeiro disco de heavy metal da história. Embora existam divergências pontuais sobre essa afirmação, o pioneirismo do Black Sabbath pode ser comprovado por uma análise das características técnicas e artísticas presentes nesse trabalho e nos subsequentes da banda. Além disso, percebe-se a influência direta da realidade inglesa do pós-guerra imediato no desenvolvimento da música criada pelo grupo, refletida em sua arte — imagética, lírica e sonora.

Entre as características dos trabalhos que demonstram o pioneirismo do Black Sabbath no heavy metal — e que, já no início da década de 1970, se revelaram revolucionárias — destacam-se:

  1. A arte da capa do primeiro álbum, incomum para o gênero: poucas cores, ausência de flores — a fauna retratada parece até morta — e nenhuma fotografia da banda. Em comparação com as capas coloridas dos álbuns de rock’n’roll daquele período, percebe-se ainda mais o impacto imagético do Black Sabbath.
  2. A fuga de elementos excessivamente melódicos — marca registrada do rock’n’roll inglês dos anos 1960 e 1970, presente em bandas como Deep Purple e Led Zeppelin, e, fora da Europa, nos canadenses do Rush⁶;
  3. A afinação em tons mais baixos dos instrumentos de corda⁷ em várias faixas, sobretudo no álbum Master of Reality (1971), com músicas executadas um tom e meio abaixo;
  4. A temática lírica majoritariamente sombria e aterrorizante, contrastando com aquilo a que o público do rock, à época, estava habituado⁸;

A única figura representada na capa do álbum é a de uma mulher — hoje sabemos tratar-se da atriz Louise Livingstone —, vestida de preto diante de uma azenha inglesa, enquanto o nome da banda aparece no topo da arte.

Figura 1 – Capa do primeiro álbum homônimo do Black Sabbath. (9)

Compondo músicas que “botassem medo”, nas palavras de Ozzy Osbourne¹⁰ — vocalista do Black Sabbath nos oito primeiros álbuns de estúdio da banda e também no último, intitulado 13 —, a arte da capa, com essas características, parece complementar essa intenção para o ouvinte. Robert Trujillo — baixista do Metallica e ex-baixista da banda solo de Ozzy Osbourne e da Suicidal Tendencies — corroborou essa impressão em entrevista ao jornalista Jon Wiederhorn:

Quando era criança, eu e um amigo ouvíamos o vinil do irmão mais velho dele e colocávamos a música “Black Sabbath” pra tocar. Olhávamos para a capa e ficávamos completamente apavorados. Era como assistir um filme de terror. (11)

É o impacto assombroso que somente a arte do Sabbath, como um todo, provocava naquela época — segundo este e outros relatos — que nos leva a considerar que os elementos elencados constituem as bases daquilo que hoje se conhece como heavy metal. Podemos identificá-los — ou, pelo menos, muitos deles — na maior parte das composições do gênero que surgiram depois dos primeiros trabalhos do Black Sabbath.

Black Sabbath – Black Sabbath (1970)

O que é isso que está diante de mim?
Uma figura preta que aponta para mim
Vire-se rapidamente e comece a correr
Descubra que sou o escolhido
Oh, não!
Uma grande forma negra com olhos de fogo
Contando às pessoas o seu desejo
Satanás está sentado ali, sorrindo
Observa aquelas chamas ficarem cada vez mais altas
Oh, não, não, por favor, Deus, me ajude!
É o fim, meu amigo?
Satanás está vindo pela curva
Pessoas correndo porque estão com medo
É melhor as pessoas irem embora e tomarem cuidado!
Não, não, por favor, não! (12)

É muito comum a mídia burguesa tratar de forma superficial a relação entre as origens da banda e a construção de sua música inovadora. As razões para esse tratamento raso podem ser diversas. Entre as mais inocentes estão o fator tempo — ou espaço, no caso da mídia impressa e digital — necessário para produzir um material decente para publicação, ou a mera falta de familiaridade com o tema, que o jornalista deve “superar” (ironia alusiva à relação patrão-empregado) por imposição editorial.

As hipóteses menos inocentes exigem um olhar político de antecipação, tal como fizeram setores da esquerda brasileira — destaque para o árduo trabalho do professor Moniz Bandeira, que aliou antecipação política ao academicismo — após o golpe de 1964, quando, mesmo sem acesso à maior parte das fontes disponíveis hoje, já apontavam os Estados Unidos como artífices da trama que duraria vinte e um anos. Nessa linha, culpamos o interesse dos proprietários dos grandes meios de comunicação: eles não podem aprofundar o debate sobre as origens do Black Sabbath sem revelar que o caos social de Birmingham é parte do projeto de mundo que eles próprios patrocinam. Ainda assim, podemos — sem culpa — ressaltar a relevância do Black Sabbath, e do heavy metal, como manifestação cultural originária da classe trabalhadora, tanto quanto o samba, o rap e a capoeira.

Grande parte dessa identidade artística, que mais tarde serviria de base para todos os subgêneros do heavy metal, está ligada às condições sociais e históricas da cidade inglesa de Birmingham, às quais os quatro membros originais do Black Sabbath — Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward — estavam sujeitos enquanto se preparavam para lançar seu primeiro álbum. Por isso, é relevante destacar essas características e condições da cidade no pós‑Segunda Guerra Mundial e como elas influenciaram a criação das primeiras músicas de heavy metal da história.

Birmingham foi um dos últimos alvos dos bombardeios da Luftwaffe — força aérea da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial — na Operação Leão‑Marinho, plano de invasão do Reino Unido, em 1940¹³. Segundo Sharon Osbourne — empresária, esposa de Ozzy Osbourne e personalidade da TV —, ainda na infância de Ozzy, nos anos 1950, “metade da Inglaterra continuava bombardeada”¹⁴ ¹⁵, o que incluía a infraestrutura de Birmingham. A região de Aston, onde viveram os quatro integrantes do Black Sabbath¹⁶, em especial, não traz boas lembranças a Tony Iommi, autor dos riffs da banda, embora ele reconheça a importância dessas condições urbanas para o processo criativo do grupo:

Um buraco de merda, basicamente. Muito rude, muito… Não é um
bom lugar. Mas não pela gente de lá. Simplesmente se arruinou. E eu
odiava viver ali, odiava! No princípio, porque meus pais se mudaram
e eu estava com eles, e eu creio que isso influenciou nossa música; o
lugar de onde viemos… A região de onde viemos. Pode ter lhe dado
algum significado (17) (Tony Iommi)
.

O sentimento de desgosto e repulsa que Iommi nutria por Aston parece ter sido decisivo para a criação das primeiras linhas de heavy metal que ele próprio compôs, conforme o relato mencionado. A influência do meio em que viviam manifesta‑se de forma nítida no processo de criação artística. O historiador Eric Hobsbawm, em História Social do Jazz, ressalta justamente a importância desse tipo de influência em sua análise sobre o jazz — estilo fundamental para o desenvolvimento do rock’n’roll e, por consequência, do heavy metal —, reforçando nossa tese.

Como as vozes nas quais se baseiam os instrumentos e o que essas vozes tinham a dizer ou sentiam vinham de um determinado povo vivendo em determinadas condições, as cores do “jazz” tendem a pertencer a um espectro especial e reconhecível . Por exemplo, é muito provável que, se os instrumentos de metal e madeira tivessem sido utilizados de forma análoga por bengaleses ou chineses em vez de serem usados por negros do Sul dos Estados Unidos, seus sons, embora igualmente não-ortodoxos pelos padrões europeus convencionais, seriam muito diferentes. O tom e a inflexão, e o padrão de expressão geral, não são, obviamente, os mesmos em Darca ou Cantão e em Vicksburg (…) (18).

Com base nisso, podemos reforçar a importância de Aston — e, por extensão, de Birmingham — para o processo de criação do heavy metal à luz dos estudos de emotional geography apresentados por Andy Bennett¹⁹ e Ian Rogers²⁰ em Popular Music Scenes and Cultural Memory (2016).

A emotional geography procura explicar a relação entre as diversas emoções “intangíveis” de um indivíduo — ou, neste caso, de um coletivo — e sua conexão com “espaço” e “lugar”. Isso inclui considerar vínculos afetivos — ou nem tão afetivos assim, como se nota no depoimento de Tony  Iommi — que podem sustentar essa relação²¹. Podemos traçar um paralelo com o cenário brasileiro, no qual o subdesenvolvimento nacional influenciou a cena de metal extremo de Minas Gerais na década de 1980, segundo relatos de seus próprios expoentes²².

Embora existam pesquisas que atribuem papel fundamental à paisagem industrial de Birmingham no nascimento do heavy metal²³, é importante destacar que a influência do meio sobre esses artistas não se resume aos aspectos estéticos ressaltados por Tony  Iommi.

Há estudos que sugerem que, já na década de 1960, a cidade não correspondia mais fielmente ao cenário “poluído e cinzento” típico de um centro operário em plena atividade — apontado como fator psicogeográfico, ou de emotional geography, para a criação do som pesado —, embora possa ter persistido entre os moradores uma memória cultural coletiva desse ambiente²⁴ ²⁵.

Somam‑se a isso as condições sociais às quais os músicos estavam submetidos. Portanto, ainda que soe determinista, não é totalmente descabida a afirmação de Leigh Harrison de que “o heavy metal só poderia ter nascido nas zonas industriais de Birmingham”²⁶.

Ao analisarmos os relatos dos membros do Black Sabbath, notamos que muitas das experiências e adversidades que eles viveram foram mais ou menos influenciadas pelas condições socioeconômicas de suas vidas, fruto de um contexto histórico não apenas de Aston, em Birmingham, mas da própria Inglaterra; contexto esse que contribuiu decisivamente para as características que viriam a definir o heavy metal. Isso nos leva à conclusão de que “o Black Sabbath não foi produto de uma Birmingham distinta, mas da Grã‑Bretanha em um momento histórico distinto”²⁷.

Ao considerarmos o depoimento dos protagonistas dessa história, percebe-se que a trajetória do Black Sabbath não foi moldada por condições de vida propícias ao sucesso — seja em uma carreira musical, seja em qualquer outra profissão que pudesse se comparar à notoriedade alcançada pela banda. Começando por Ozzy Osbourne, que, ainda jovem, já era visto como delinquente e mantinha uma relação destrutiva com drogas lícitas e ilícitas, hábito que o acompanhou por grande parte da carreira e que, por diversos motivos narrados pelo próprio cantor, acabou levando à sua expulsão do Black Sabbath.

Eu era um moleque inquieto. Andava com a bunda de fora e odiava a
porra do mundo. Quando ouvi a letra idiota “If you go to San
Francisco, be sure to wear a flower in your hair”, eu quis estrangular
o imbecil do John Phillips [do The Mamas & The Papas]. Eu vivia
num bairro operário de Birmingham, na Inglaterra. Meu pai estava
morrendo por contaminação de amianto, por causa da poluição
industrial, e eu era um jovem (…) revoltado. (28) (Ozzy Osbourne);

(…) éramos uma turma selvagem. Ozzy já tinha passado seis semanas na prisão [por roubar uma loja de roupas e não ter dinheiro para a fiança] quando o conheci (…) Ele acabou se tornando um grande artista, mas isso levou muito tempo pra acontecer. No início, ele só ficava lá parado, petrificado (…). Ele era muito inseguro, até mais do que nós. Os pais dele pegavam no pé porque ele já tinha sido preso. Achavam que estava desperdiçando a própria vida. Então levou muito tempo pra ele ganhar confiança, porque com certeza isso era uma coisa que não ia conseguir em casa. (29) (Geezer Butler – baixista original do Black Sabbath);

(…) Ozzy tinha cinco irmãos. (…) veio de um lar abusivo, ele não tinha nada. Uma lata de sopa diluída em água rendia para seis crianças — isso era o jantar. Ele ia para a escola de pijama e galochas porque não tinha uniforme. E a escola o mandava de volta pra casa, alegando que ele não estava vestido de forma adequada e não tinha tomado banho, então ele ia se sentar em um local que havia sido alvo de bombardeio, pois, naquela época, metade da Inglaterra ainda estava bombardeada após a guerra. (…) Ozzy nunca aprendeu boas maneiras. Literalmente nunca aprendeu a dizer “obrigado”. Ele fazia coisas que chocariam qualquer um; ele não teve educação. Como ia ganhar a vida? Ele costumava matar animais em um matadouro. Ozzy é completamente disléxico. A escola foi muito terrível pra ele, porque naquela época as pessoas simplesmente achavam que você era burro. Ninguém sabia nada sobre distúrbios de aprendizagem. Ele teve uma criação difícil (…). (30) (Sharon Osbourne)

Enquanto Ozzy via sua trajetória marcada por dificuldades psicológicas, problemas familiares e pelas agruras de uma origem operária, Tony Iommi tampouco desfrutava de condições muito mais favoráveis. Embora relatos indiquem que a família de Iommi estivesse um pouco melhor situada financeiramente que a de Ozzy — sua mãe administrava uma loja em Aston, enquanto o pai trabalhava como carpinteiro³¹ —, a cultura operária continuou a moldá‑lo. Concluídos os estudos, ele atuou como encanador³² e, mais tarde, foi obrigado a trabalhar em uma fábrica de anéis³³, onde lidava com soldagem elétrica e a gás³⁴.

Ironicamente, o acidente de trabalho que poderia ter encerrado sua carreira musical acabou forçando‑o a reinventar sua maneira de tocar, contribuindo para uma das características mais marcantes do heavy metal: o timbre grave resultante da afinação mais baixa dos instrumentos de corda.

Ao atentarmos para o relato do próprio Tony sobre o acidente que lhe amputou as pontas dos dedos médio e anelar (detalhado mais adiante), é possível perceber:

  1. A precariedade da segurança do trabalho fabril daquela época;
  2. A persistência de um tratamento arbitrário nas relações patrão‑empregado;
  3. Um indicativo dos rumos do desenvolvimento industrial do século XX: a presença de um dos símbolos do modelo fordista — a esteira mecânica característica da linha de montagem — ainda vigente em plena era da “produção flexível”, como conceitua David Harvey³⁵.

No que diz respeito às condições de trabalho, nada parecia surpreender os militantes sindicais ingleses — país com um histórico de lutas trabalhistas organizadas desde, pelo menos, 1838, quando a Carta do Povo (Movimento Cartista), redigida por William Lovett, foi apresentada ao Parlamento na luta contra as injustiças da nova ordem industrial³⁶. Apesar das conquistas alcançadas durante os anos de políticas keynesianas e do Estado de bem‑estar social³⁷, episódios de descaso patronal persistiam. A seguir, reproduzimos o relato de Tony Iommi, guitarrista do Black Sabbath, cujo acidente ilustra a inconciliabilidade de classes no capitalismo.

Eu já tocava guitarra havia uns dois anos quando sofri o acidente. Trabalhava numa fábrica onde fazia soldadura elétrica e a gás. O metal chegava a esteira pra mim e eu soldava. Um dia, o cara que dobrava o metal para prepará-lo pra mim faltou. Então me colocaram pra trabalhar nessa máquina que eu não tinha ideia de como funcionava. Coloquei minha mão dentro dela quando fui empurrar o metal, e uma parte desceu e pegou a minha mão. Na hora, fiz um movimento pra trás, e isso acabou arrancando a ponta dos meus dedos. Aquele era pra ser meu último dia de trabalho (…). Fui trabalhar de manhã e aguentei a primeira metade do dia, até a hora do almoço. Falei pra minha mãe: “Não vou voltar pra lá agora à tarde”, e ela disse: “Volte, sim. Termine direito seu dia de trabalho”. Aí claro, acabei voltando. Se eu não tivesse voltado, isso não teria acontecido. O acidente me fez olhar para a guitarra de outra maneira, com certeza. Tive de inventar outro jeito de tocar, pois o modo convencional não daria mais. (38) (Tony Iommi)

A chapa que arrancou a ponta dos dedos de Iommi desceu como a própria realidade implacável que se abate sobre o trabalhador, urbano ou camponês, em qualquer época da história. De condição material frágil — fruto das espoliações impostas pela acumulação primitiva —, diante das exigências da vida, a menor distração torna o operário instantaneamente substituível.

Desce o aço rescisório que lhe amputa o sustento e o torna incapaz de prover a própria existência. Restam‑lhe então os sonhos que, segundo Pisarev, citado e endossado por Lênin em O que fazer? — Problemas candentes do nosso movimento, ainda podem dar ao “pobre coitado” um fôlego de luta: “O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o homem acredita seriamente em seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, tudo vai bem”³⁹. Guardados os devidos contextos e as finalidades originais da citação, a máxima de Pisarev serve aqui para iluminar o passo seguinte do jovem trabalhador acidentado.

Por ironia, os sonhos de Iommi permaneciam em contato constante com a vida que o jovem mutilado desejava ter como artesão da cultura sonora, mantendo acesa a chama que o levou a criar uma espécie de “dedal” para auxiliá‑lo na execução do instrumento. Essa adaptação, por sua vez, gerou uma nova exigência: baixar o tom das músicas tocadas ao vivo e, depois, nos álbuns de estúdio subsequentes do Black Sabbath. A afinação das cordas em tons mais baixos, além de facilitar a execução para uma mão parcialmente amputada, atendia a um propósito técnico ligado ao timbre que a banda pretendia alcançar, contribuindo para forjar o som característico do heavy metal⁴⁰.

Só fui começar a diminuir o tom ao vivo depois do primeiro disco.
Eu gostava, porque aquilo tornava o som mais obscuro. Costumava
testar para ver se conseguia obter um som mais potente e completo,
pois havia um guitarrista na banda. A maioria das bandas tinha um
segundo guitarrista ou um tecladista. A ideia era tentar produzir o
som mais potente possível. (41) (Tony Iommi)

A necessidade de chamar a atenção do público por meio da originalidade — e de se inserir num mercado em que nomes como Jimi Hendrix, Jethro Tull, Cream e Led Zeppelin já se haviam consolidado — não era tarefa fácil, sobretudo num contexto em que, como observa o historiador uruguaio Enrique  Serra  Padrós, o rock se tornou o fenômeno musical mais marcante dos “anos de ouro” do keynesianismo, pautando as mudanças sociais de seu tempo⁴⁴.

Provavelmente, esse “diferencial competitivo”⁴⁵ — a busca incessante por inovação que pudesse garantir algum retorno financeiro a quatro jovens de origem pobre ou de classe média baixa de Birmingham — foi decisivo para moldar aquela que talvez seja a última característica fundadora do heavy metal apresentada pelo Black Sabbath: uma temática lírica predominantemente sombria e aterrorizante.

O relato sobre a decisão da banda de adotar esse direcionamento lírico‑artístico — fato bem conhecido entre fãs e estudiosos do heavy metal — liga‑se diretamente ao cinema de terror, mais especificamente ao filme franco‑italiano I Tre volti della paura, de Mario Bava, distribuído pela Warner Bros e lançado no Brasil como As Três Máscaras do Terror e, em inglês, como Black Sabbath⁴⁶.

Segundo os integrantes originais⁴⁷: perto do local onde a Earth — primeiro nome do grupo formado por Ozzy, Tony, Bill e Geezer — ensaiava, havia um cinema que exibia sessões de terror. Após um ensaio, enquanto buscavam um novo nome (pois Earth já pertencia a outra banda), passaram diante desse cinema, que naquela noite projetava I Tre volti della paura e apresentava uma “enorme fila” de espectadores. O quarteto percebeu ali uma jogada de marketing para se diferenciar, raciocinando que “as pessoas pagavam para sentir medo”.

Na esteira desse insight, decidiram mudar o nome para Black Sabbath⁴⁸. Em 2010, Ozzy recordou: “Tony [Iommi] disse um dia — acho que foi o Tony — ‘Se essas pessoas pagam para assistir a filmes de terror, então vamos escrever música de terror’”⁴⁹. Geezer, principal letrista, reforçou a importância da originalidade: “Adorávamos bandas como Jethro Tull, Led Zeppelin, Cream e Hendrix, mas sabíamos que precisávamos fazer algo diferente para sermos notados”⁵⁰.

Além da influência do incentivo monetário sobre a decisão de transformar essa “música de terror” em realidade, percebe‑se que, quando não é apenas a veia artística que impulsiona a obscuridade e o terror, é todo aquele sentimento amargo — já mencionado — acerca da trajetória de suas vidas que passa a servir de combustível criativo. Nesse segundo caso, Ozzy parece ser o maior representante dessa amargura:

Com um nome como Black Sabbath, o que você esperava? E a capa do disco não era exatamente um buquê de flores. No começo, decidimos compor músicas que botassem medo porque não achávamos que a vida era um jardim de rosas. Então resolvemos fazer músicas de terror. Daí começamos a ler livros sobre ocultismo e nos demos conta de que aquilo não era apenas algo que aparecia em filmes. Era real (…) Não tínhamos noção de verdade com o que estávamos envolvidos até começarmos a fazer sucesso e esse monte de maluco começar a nos mandar cartas. Nunca tínhamos lidado com o oculto pra valer. Vários lunáticos nos convidaram pra tocar em missas de ocultismo e em cerimônias do tipo. Eu simplesmente não embarquei naquilo, por isso não tinha medo. Se você se deixar levar, você é um completo idiota (…) (51).

Como podemos perceber, desde o princípio — embora isso não fosse evidente para os veículos de mídia da época⁵² —, o Sabbath não buscava no ocultismo, no satanismo ou no terror nada além de referências que dessem consistência à sua “música de terror” e refletissem, de forma metafórica, o que a vida significava para aqueles quatro jovens ingleses. As bases do heavy metal ergueram-se sobre a vontade desse quarteto de viver da arte, mesmo quando o caminho traçado não parecia ser uma escolha, mas a aparente única saída para seguirem em frente.

Figura 4 – Os quatro jovens que cresceram na Birmingham “esburacada por Hitler”: Geezer Butler
(baixista), Tony Iommi (guitarrista), Bill Ward (baterista) e Ozzy Osbourne (vocalista). (53)

Dados esses fatos, podemos notar que o caminho da “música pesada” foi inicialmente pavimentado por reflexos sociais, psicológicos, psicogeográficos e até econômicos que marcaram a vida dos quatro músicos. Durante pelo menos uma década após o lançamento de Black Sabbath (1970), o heavy metal ganhou popularidade — inclusive fora do continente europeu — e passou a incorporar características além das aqui descritas. Fatores mercadológicos ajudam a explicar esse fenômeno: a indústria fonográfica passou a “vender” heavy metal graças ao êxito do Black Sabbath, embora tal sucesso não significasse a predominância do gênero no mainstream.

No último dia 5 de junho, o Black Sabbath encerrou suas atividades exatamente onde começara, em Aston/Birmingham, na Inglaterra — mais especificamente no Villa Park, casa do Aston  Villa Football Club —, revelando à contemporaneidade capitalista aquilo que o próprio sistema tentou sufocar, sobretudo nas figuras de Ozzy Osbourne e Tony Iommi, como vimos até aqui.

Mais de quinze bandas, consagradas e emergentes, tocaram no festival beneficente organizado por Sharon  Osbourne e Tom  Morello (conhecido por sua trajetória no Rage  Against  the Machine e por sua militância antirracista e anticolonial nos EUA), batizado de “Back to the Beginning.” O evento destinou a renda às instituições Acorns Children’s Hospice, Birmingham Children’s Hospital e Cure Parkinson’s.

Com cerca de US$ 190 000 000 arrecadados, o festival evocou o espírito do “Live Aid” de julho de 1985 — ocasião em que, embora separados, os membros originais do Black Sabbath se reuniram exclusivamente para subir a um dos palcos — tanto na organização quanto no caráter solidário. Ainda que em escala menor que o mítico festival do século passado, o princípio de solidariedade foi mantido: nenhum artista cobrou cachê para se apresentar.

No dia 5 de julho de 2025, o heavy metal consagrou a velha possibilidade de sonhar mesmo em tempos sombrios para os filhos da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que exibiu sua prole — embora nem todos esses descendentes sejam legítimos herdeiros da realidade operária, podendo alguns até ser considerados bastardos.

Uma esperança, cada vez mais frágil para quem sonha em tornar‑se “artesão do som”, ganhou fôlego naquele dia. Os anos de colonialismo, seguidos pelos de neoliberalismo, cobram seu preço: aumento da carga de trabalho e erosão de direitos — como a estabilidade empregatícia —, o que produz uma “faixa segura de desemprego” benéfica ao capital, enquanto o custo de vida dispara, esmagando em escala global qualquer perspectiva de sobrevivência que não envolva entregar nossos corpos a essa precarização. O reflexo disso na indústria musical é mais um fator que mina o sonho. Toda uma geração de artistas, dos mais variados segmentos, vê‑se obrigada a:

  1. aceitar contratos abusivos com gravadoras;
  2. receber cachês irrisórios para se apresentar;
  3. torcer para que sua música “estoure” nas plataformas de streaming e, depois de 10.000 “plays” mensais, faturar — com sorte — cerca de R$ 50,00.

Os primórdios do Sabbath dizem muito sobre o tipo de música que fizeram — ou puderam fazer — diante das adversidades encaradas na juventude: resquícios de uma guerra indesejada; acidentes de trabalho evitáveis, fruto de condições precárias; e uma economia frágil, incapaz de gerar empregos para uma geração que crescia em meio ao caos econômico inglês, entre outros fatores.

Todo esse cenário compôs o terreno por onde esses artistas precisaram caminhar para escrever sua história. Hoje, embora o caminho talvez seja ainda mais tortuoso, ele nos legou as ferramentas deixadas por quem já o percorreu. Cabe‑nos, portanto, utilizá‑las para corrigir rumos e reconstruir, a partir dos escombros, uma nova geração saudável, na qual o trabalho seja fruto de impulsos transformadores — sonhos —, e não mais da falta de escolha.

Notas:

  1. Pode‑se perceber isso a partir da análise de selos que promovem, ou lançam, álbuns de bandas de ambos os estilos na década de 1970, como a Warner Music, que distribuiu tanto álbuns do Rush e do Uriah Heep quanto do Black Sabbath e do AC/DC nos EUA. Artistas que, além da “essência rock’n’roll”, pouco têm a ver em seus estilos, uns com os outros.
  2. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015.
  3. “Ruido Das Minas (ORIGINAL HQ) Brazilian Heavy Metal 80′, OverDose, Sarcofago, Mutilator, Kamikaze…”. (Canal de Cláudio David, guitarrista da banda Overdose, um dos personagens da cena de metal de Belo Horizonte). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8EEGZUz2jI0. Acessado em 16/05/2019 às 03h59min.
  4. PADRÓS, Enrique Serra. “Capitalismo prosperidade e Estado de bem‑estar social”. In: FILHO, Daniel Arão Reis; FERREIRA, Jorge; ZENHA, Celeste (orgs.). O Século XX, vol. 2. 4ª ed. — Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
  5. HARRISON, Leigh Michael. Factory Music: How the Industrial Geography and Working‑Class Environment of Post‑War Birmingham Fostered the Birth of Heavy Metal. Journal of Social History, v. 44, p. 145‑158, 2010. DOI: 10.2307/40802112.
  6. Para fins de comparação, conferir: “Good Times Bad Times” – Led Zeppelin (disponível em https://www.youtube.com/watch?v=lsZG7n7ries, acessado em 16/03/2020 às 17h47min); “Child in Time” – Deep Purple (https://www.youtube.com/watch?v=UEjAaLu8Dhs, acessado em 16/03/2020 às 17h57min); “Fly by Night” – Rush (https://www.youtube.com/watch?v=nEVDZl5UvN4, acessado em 16/03/2020 às 18h00min); e “Black Sabbath” – Black Sabbath (https://www.youtube.com/watch?v=0lVdMbUx1_k, acessado em 16/03/2020 às 18h03min).
  7. A afinação padrão dos instrumentos de corda, como violão e guitarra, no Ocidente, é em E (mi).
  8. Embora o Black Sabbath tenha priorizado as temáticas de “terror” e “mistério” em suas composições, já existiam bandas que abordavam esses temas, mas não como característica central de sua arte.
  9. Black SabbathBlack Sabbath. Reino Unido: Vertigo (LP), 1970.
  10. WIEDERHORN, Jon. “Against All Ozz: Ozzy Osbourne Bites Back.” Penthouse, v. 30, n. 3, nov. 1998, p. 47.
  11. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015, p. 56.
  12. “Letra da música ‘Black Sabbath’ do Black Sabbath.” Disponível em: https://www.letras.mus.br/black-sabbath/4246/. Acesso em: 16/03/2020, 18h32min.
  13. CHURCHILL, Winston. Memórias da Segunda Guerra Mundial. 1ª ed. — Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017.
  14. WIEDERHORN, Jon. “Against All Ozz: Ozzy Osbourne Bites Back.” Penthouse, v. 30, n. 3, nov. 1998, p. 48.
  15. Informação sobre a infância de Ozzy Osbourne com base em sua data de nascimento (03 dez. 1948) constante nas redes sociais oficiais.
  16. “The Birmingham street where Black Sabbath’s sound began.” Disponível em: https://www.bbc.com/news/av/uk-england-birmingham-38840216/the-birmingham-street-where-black-sabbath-s-sound-began. Acesso em: 03/07/2019, 17h54min.
  17. Metal: A Headbanger’s Journey. EUA: Warner Home Video (DVD), 2005.
  18. HOBSBAWM, Eric. História Social do Jazz. Trad. Ângela Noronha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 44.
  19. BENNETT, Andy — Professor de Sociologia Cultural, Escola de Humanidades, Linguagens e Ciências Sociais, Griffith University (Austrália); pesquisador associado do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (Portugal).
  20. ROGERS, Ian — Doutor, Departamento de Comunicação e Mídia, RMIT University (Austrália).
  21. BENNETT, Andy; ROGERS, Ian. Popular Music Scenes and Cultural Memory. 1st ed. London: Palgrave Macmillan, 2016.
  22. “Ruído das Minas (ORIGINAL HQ) Brazilian Heavy Metal 80′, OverDose, Sarcófago, Mutilator, Kamikaze…”. Canal de Cláudio David. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8EEGZUz2jI0. Acesso em: 16/05/2019, 03h59min.
  23. HARRISON, Leigh Michael. “Factory Music: How the Industrial Geography and Working‑Class Environment of Post‑War Birmingham Fostered the Birth of Heavy Metal.” Journal of Social History, v. 44, 2010, p. 145‑158. DOI: 10.2307/40802112.
  24. BURKE, David. “The psychogeographical influence of Birmingham on Black Sabbath” (apresentação em conferência). Disponível em: https://www.academia.edu/35729243/The_psychogeographical_influence_of_Birmingham_on_Black_Sabbath. Acesso em: 21/08/2019, 22h15min.
  25. Segundo o trabalho citado, já na década de 1960 Birmingham começava a assemelhar‑se às demais cidades inglesas, devido à falta de investimentos industriais e governamentais no pós‑guerra. Isso teria reduzido seu aspecto operário “poluído e cinzento”, destacado por Leigh Harrison e Tony Iommi. O estudo também sublinha mudanças arquitetônicas: “O declínio da autonomia da cidade e uma dramática remodelação do centro fizeram com que, no final da década, o visual e a atmosfera de Birmingham fossem moldados pela arquitetura modernista europeia, criando uma ‘cidade transatlântica’ comparável a conurbações continentais ou americanas.” Enrique Serra Padrós, em O Século XX, menciona o conceito de “cinturões de ferrugem” (Hobsbawm) para descrever antigas áreas industriais europeias dos anos 1970 afetadas pela desindustrialização. Fatores como o custo social da mão de obra protegida pelo welfare state levaram fábricas a migrarem para periferias com salários mais baixos e legislação permissiva, reabrindo com maior automação e menos postos de trabalho. Seja qual for a causa predominante em Birmingham — especialmente em Aston nos anos 1960 —, ambas parecem ter criado o cenário propício ao surgimento do heavy metal, conforme a argumentação desta pesquisa.
  26. HARRISON, Leigh Michael. “Factory Music: How the Industrial Geography and Working‑Class Environment of Post‑War Birmingham Fostered the Birth of Heavy Metal.” Journal of Social History (Oxford: Oxford University Press), v. 44, n. 1, 2010, p. 153.
  27. BURKE, David. “The psychogeographical influence of Birmingham on Black Sabbath” (apresentação em conferência). Disponível em: https://www.academia.edu/35729243/The_psychogeographical_influence_of_Birmingham_on_Black_Sabbath. Acesso em: 21/08/2019, 22h13min.
  28. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015, p. 46.
  29. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015, pp. 46, 48.
  30. WIEDERHORN, Jon. “Against All Ozz: Ozzy Osbourne Bites Back.” Penthouse, v. 30, n. 3, nov. 1998, p. 48.
  31. IOMMI, Tony. Iron Man: My Journey Through Heaven and Hell with Black Sabbath. 1st paperback ed. — Boston, MA: Da Capo Press, 2012, p. 7.
  32. IOMMI, Tony. Iron Man: My Journey Through Heaven and Hell with Black Sabbath. 1st paperback ed. — Boston, MA: Da Capo Press, 2012, p. 11.
  33. IOMMI, Tony. Iron Man: My Journey Through Heaven and Hell with Black Sabbath. 1st paperback ed. — Boston, MA: Da Capo Press, 2012, p. 11.
  34. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015.
  35. HARVEY, David. Condição Pós‑Moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1994. Parte II, cap. 9.
  36. HOBSBAWM, Eric. A Era do Capital, 1848‑1875. 27ª ed. — Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017.
  37. PADRÓS, Enrique Serra. “Capitalismo, prosperidade e Estado de bem‑estar social.” In: FILHO, Daniel Aarão Reis; FERREIRA, Jorge; ZENHA, Celeste (orgs.). O Século XX, v. 2. 4ª ed. — Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
  38. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015, p. 49.
  39. LÊNIN, Vladimir Ilitch. O Que Fazer? — Problemas Candentes do Nosso Movimento. [Trad. da 5ª ed. russa em Obras Escolhidas de V. I. Lênin]. Lisboa: Editorial Avante, 1977.
  40. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015, p. 49.
  41. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015, p. 50.
  42. “Black Sabbath feat. Tony Iommi: The Finger Box.” Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5TyktFhsM38. Acesso em: 16/03/2020, 20h00min.
  43. Idem.
  44. PADRÓS, Enrique Serra. “Capitalismo, prosperidade e Estado de bem‑estar social.” In: FILHO, Daniel Arão Reis; FERREIRA, Jorge; ZENHA, Celeste (orgs.). O Século XX, vol. 2. 4ª ed. — Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, p. 247.
  45. BUSS, Carla de Oliveira. Marketing e design de produto: proposta de metodologia de suporte à diferenciação competitiva. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção) — Escola de Engenharia, UFRGS, 2008. A autora define “diferencial competitivo” como “selecionar o atributo e/ou característica do produto apresentado como benefício central ao cliente, representando a vantagem sobre produtos concorrentes”.
  46. As Três Máscaras do Terror (1963).” Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt0057603/. Acesso em: 21/08/2019, 23h00min.
  47. Relato encontrado em entrevistas dos membros originais do Black Sabbath concedidas a veículos especializados em rock e heavy metal (diversas fontes).
  48. FROESE, Brian. “Is It the End, My Friend? Black Sabbath’s Apocalypse of Horror.” In: IRWIN, William (org.). Black Sabbath and Philosophy: Mastering Reality. Hoboken: John Wiley & Sons, 2012, p. 20. ISBN 111849380X.
  49. “Ozzy sobre Sabbath: ‘nossa magia negra eram chocolates’.” Whiplash.net. Disponível em: https://whiplash.net/materias/entrevistas/110201-ozzyosbourne.html. Acesso em: 21/08/2019, 23h23min.
  50. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015, p. 51.
  51. WIEDERHORN, Jon. Barulho Infernal: a história definitiva do heavy metal. 1ª ed. — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2015, p. 54.
  52. Idem.
  53. “Black Sabbath — Warner Bros. Records” (anúncio em Billboard, 18 jul. 1970, p. 7). Domínio público. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=27010734. Acesso em: 16/03/2020, 20h10min.

Bibliografia:

BENNETT, Andy; ROGERS, Ian. Popular Music Scenes and Cultural Memory. 1. ed. London: Palgrave Macmillan, 2016.

BURKE, David. “The psychogeographical influence of Birmingham on Black Sabbath” (conference presentation). Disponível em: https://www.academia.edu/35729243/The_psychogeographical_influence_of_Birmingham_on_Black_Sabbath. Acesso em: 21 ago. 2019.

CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. 2. ed. Algés: DIFEL, 2002.

CHURCHILL, Winston. Memórias da Segunda Guerra Mundial. 1. ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017.

FROESE, Brian. “‘Is It the End, My Friend?’ Black Sabbath’s Apocalypse of Horror”. In: IRWIN, William (org.). Black Sabbath and Philosophy: Mastering Reality. Hoboken: John Wiley & Sons, 2012.

HARRISON, Leigh Michael. “Factory Music: How the Industrial Geography and Working‑Class Environment of Post‑War Birmingham Fostered the Birth of Heavy Metal”. Journal of Social History, v. 44, p. 145‑158, 2010. DOI: 10.2307/40802112.

HARVEY, David. Condição pós‑moderna. São Paulo: Edições Loyola, 1994. Parte II, cap. 9

HOBSBAWM, Eric. História Social do Jazz. Trad. Angela Noronha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

HOBSBAWM, Eric. A era do capital, 1848‑1875. 27. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017.

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LÉNINE, Vladimir Ilitch. O que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. Trad. da 5ª ed. russa. Lisboa: Editorial Avante, 1977.

Metal: A Headbanger’s Journey. [DVD]. EUA: Warner Home Video, 2005.

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THE BIRMINGHAM STREET where Black Sabbath’s sound began. BBC News. Disponível em: https://www.bbc.com/news/av/uk-england-birmingham-38840216/the-birmingham-street-where-black-sabbath-s-sound-began. Acesso em: 03 jul 2019.

WIEDERHORN, Jon. “Against All Ozz: Ozzy Osbourne Bites Back”. Penthouse, v. 30, n. 3, nov. 1998.

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“Ozzy sobre Sabbath: ‘nossa magia negra eram chocolates’”. Whiplash.net. Disponível em: https://whiplash.net/materias/entrevistas/110201-ozzyosbourne.html. Acesso em: 21 ago 2019.

[LEANDRO ANGELO] Militarização da Educação: O velho projeto de silenciar a escola

Leandro Angelo,
Ação Popular Revolucionária,
Minas Gerais.

O governo de Minas Gerais avança, mais uma vez, contra a educação pública, após dar continuidade ao processo de municipalização das escolas estaduais e iniciar o de privatização — sofrendo, contudo, derrotas em ambas as frentes. O governador Romeu Zema (NOVO), em seu desprezo pela educação e por seus trabalhadores, lança um novo ataque: por meio da Resolução Conjunta SEE/CBMMG nº 01, de 30 de janeiro de 2024, busca dar início a um projeto de militarização das escolas públicas mineiras.

Por meio dessa resolução, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) dá início à implementação de escolas cívico-militares, sob o pretexto de melhorar a segurança e a disciplina nas unidades contempladas, em parceria com o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG).

Dentre os diversos problemas que tal ação acarretará, destaca-se o ambiente repressivo e desconfortável que a presença de militares na rotina escolar tende a gerar — produzindo medo, não disciplina. Soma-se a isso a atribuição de funções pedagógicas a profissionais que não possuem a formação necessária para exercê-las. O projeto foi pouquíssimo divulgado pela SEE, cerceando, assim, o debate público e impedindo a mobilização prévia de docentes e da comunidade escolar. Tampouco houve divulgação para o restante da sociedade civil.

Essa movimentação do governo Zema soma-se a uma articulação que envolve outros governadores de extrema-direita, revelando um movimento nacional que visa à militarização da educação pública. Ao fazê-lo, eximem-se de suas responsabilidades e ainda contribuem para a normalização de uma disciplina militar na sociedade civil.

Os problemas do nosso sistema educacional não serão resolvidos com a militarização do ensino, mas sim com o enfrentamento de suas causas estruturais. Precisamos de investimentos reais, que combatam o sucateamento da educação e a precarização dos trabalhadores da área. É necessário, também, implementar políticas sociais que promovam dignidade ao nosso povo.

A indisciplina e o desrespeito por parte de crianças e adolescentes não decorrem de uma suposta maldade, mas da negligência a que estão submetidos. Com a degeneração social gestada pelo neoliberalismo, os pais trabalham cada vez mais — e em ocupações cada vez mais desgastantes —, não tendo tempo nem condições de oferecer uma educação familiar adequada. A desigualdade social, por sua vez, continua a empurrar os filhos das camadas mais pobres para a criminalidade e a marginalização.

A solução, portanto, não está na criação de um ambiente repressivo nem em gastos com militares despreparados para assumir funções educacionais. O caminho passa pela valorização dos profissionais da educação e pela construção de uma escola que, de fato, seja capaz de proporcionar uma vida melhor para nossas crianças e adolescentes. É necessário, ainda, substituir as políticas neoliberais por medidas que promovam a equidade social e rompam com o ciclo de desgaste e indignidade que nosso povo enfrenta há tanto tempo nas mãos da elite econômica e de seus lacaios políticos.

[BERNARDO BRANDÃO] Getúlio: A vida, a morte e o grito de um povo

Bernardo Brandão,
Secretário de Formação Política,
Ação Popular Revolucionária – RJ,
Movimento Comunitário Trabalhista – RJ Capital.

No dia 24 de agosto de 1954, sob intensa crise, Getúlio Vargas atirou contra o próprio coração. Oswaldo Aranha, aliado político de longa data, ofereceu uma carnificina em solidariedade. Resistiriam o presidente e algumas dezenas de corajosos. A sugestão sangrenta foi recusada por Getúlio. Afinal, já havia mandado Maciel Filho bater na máquina que, “se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, oferecia o mandatário da República “em holocausto” a própria vida.

João Goulart, ex-ministro do trabalho, carregou estas palavras em um envelope, sem que soubesse o conteúdo do documento entregue pelo velho. “Se viveste com dignidade, morreste com honra”, disse ao ler a carta diante do corpo já desfalecido.

Ao suceder das gerações de poderosos e despossuídos, se construiu, com a força de uma gente bestializada, a nação brasileira, assentada sobre aquela que Darcy Ribeiro chamaria de “mais bela e luminosa província da terra”. Em sua porção mais austral, esse povo tomou forma de uma gente pastoril que, para o já mencionado antropólogo mineiro, era caracterizada por uma simetria nas relações entre as distintas hierarquias sociais, impensável em outros rincões da pátria continental.

Foi nesse meio, e sob os bigodes de um abolicionista republicano, Manuel Vargas, que Getúlio deu os primeiros passos de sua vida. As histórias de guerra contadas pelo pai encantaram o garoto de estrutura frágil desde o nascimento, que tentou seguir carreira militar. A força do destino o faria trilhar uma vida civil, a partir de uma posição inegavelmente confortável garantida pela sua origem.

No bloco acadêmico castilhista, o jovem Getúlio discursou em homenagem ao Júlio de Castilhos, em decorrência da morte por um câncer que corroía a garganta do positivista – homem que serviria de inspiração para a legislação trabalhista da Era Vargas, tão falsamente e irresponsavelmente acusada de “inspiração fascista” pelos mais grotescos porta-vozes do polo reacionário da nossa elite de fulgor escravocrata.

Diria em seus diários, nos quais passou a metodicamente tomar notas em um rompante contemporâneo ao início da revolução por ele liderada: “(…) sentindo que tudo era inútil, decidi-me pela revolução, eu, o mais pacífico dos homens, decidido a morrer. E venci, vencemos todos, triunfou a Revolução!”.

O movimento de 1930 iniciou um período de prodigiosos quinze anos, durante os quais Vargas conduziu a nação brasileira na direção do desenvolvimento autônomo acompanhado de uma grande implementação de garantias social, com o surgimento de um enorme e até hoje atacado arcabouço de leis trabalhistas.

Um país que antes importava enxadas, estabeleceu suas indústrias de base. Derrubado em 1945, o projeto nacionalista de Getúlio Vargas voltaria com a graça do voto popular nas eleições de 1950. “A volta de Vargas ao poder assinala uma interrupção e um retrocesso no desenvolvimento da reação conservadora, onde se aliavam a tradição liberal de uma ala udenista e a tendência panamericanista, senão os interesses confessáveis e inconfessáveis das multinacionais” escreveu Hélio Silva, historiador insuspeito de apologista do velho gaúcho.

Se as dificuldades para derrubar Farquar e a Itabira Iron foram difíceis, se os obstáculos para a construção da grande Siderúrgica Nacional se impuseram enormes, se edificar uma legislação dignificadora das massas urbanas foi uma tarefa árdua frente aos interesses dos espoliadores do povo, o que mais se imporia a Getúlio no início da década de 1950?

O Brasil era outro, a começar pelo péssimo legado do antecessor de Vargas, Eurico Gaspar Dutra. A farra dos importados abriu as portas do Brasil para todo tipo de quinquilharia e a saída de divisas do nosso país foi afrouxada sem o menor cuidado. A inflação estourou sobre as costas do trabalhador.

Dutra buscava uma parceria com os Estados Unidos tal qual o Brasil estabeleceu em tempos de guerra, mas os norte-americanos não viam o nosso país com os mesmos olhos. Com Getúlio, as relações entre os dois países não eram um fim em si mesmo, mas o meio para o desenvolvimento nacional. Com a frustração em decorrência da missão Abby, o governo do pessedista optou pelo alinhamento humilhante, sem contrapartidas, dinâmica dissecada pelo historiador Gerson Moura na publicação “O alinhamento sem recompensa”.

Destarte, restou ao reacionário Dutra entregar o país. Instalou-se em nossa terra uma verdadeira sucursal da Escola das Américas. Varrido pela força do povo, esse péssimo presidente da nossa história deixou detritos no caminho do mandato democrático de Getúlio. O mais notável, a ESG, sediada em um edifício austero, aos pés do Pão de Açúcar. De lá sairia o brilhantismo antinacional de Golbery do Couto e Silva: coronel conspiracionista contra Vargas e general golpista contra João Goulart.

O manifesto golpista de coroneis, de fevereiro de 1954, assinado por Golbery, também apresenta a assinatura de Amaury Kruel, futuro general envolvido na articulação empresarial-militar imperialista para a derrubada do sucessor de Getúlio, João Belchior Marques Goulart.

Com certo remorso, o militar é citado por João Vicente, filho do ex-presidente golpeado, em seu livro de memórias sobre o pai: “Até o general Amaury Kruel, comandante do Segundo Exército, traiu governo e aderiu ao golpe, apesar de meu pai ser padrinho de um de seus filhos”.

No governo democrático, Vargas deu os primeiros passos para a criação da Eletrobrás, empresa que, como consta na Carta-Testamento, foi “obstaculada até o desespero”, tendo sido fundada apenas durante o mandato de Jango. As remessas de lucro para o exterior foram limitadas e o governo se recusou a enviar tropas para o combate ao lado dos imperialistas na península coreana, apesar da insistência de João Neves.

A partir de uma imensa mobilização popular encabeçada pelo slogan “O Petróleo é Nosso”, Vargas conseguiu criar a maior e mais bem sucedida empresa da história brasileira, a Petrobras. Na toada do desenvolvimento social, ao lado do então ministro João Goulart, dobrou o salário mínimo. Estava irritadíssimo o patronato brasileiro, mas não menos as classes dominantes internacionais. A Petrobras e a soberania do petróleo foram o pesadelo da Standard Oil.

Em “Imperialismo, estágio superior do capitalismo”, o revolucionário Vladimir Lênin expôs a indissociabilidade entre o imperialismo e o capitalismo. Em um mundo no qual não há realidade para além da exploração do trabalho alheio pela classe dominante, cabe aos grandes trustes, cartéis e monopólios, repartir o domínio sobre tudo que há.

São formados impérios que subjugam povos inteiros. Outra marxista, Vânia Bambirra, militante egressa das fileiras da mocidade trabalhista, percebeu o caráter de sócias-menores do imperialismo destinados às classes dominantes brasileiras. O Brasil, destarte, estava destinado ao dependentismo das nações cêntricas, cujo exercício de domínio impossibilita até mesmo o desenvolvimento de um capitalismo autônomo. Com isso, estão selados os destinos de Vargas e do povo brasileiro.

Após exaustiva campanha de desmoralização e incriminação promovidas pelo império em nossa terra, Vargas saiu da vida para entrar para a história, abrindo ferida que até hoje faz escorrer sangue em cada rua brasileira. “Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos”, deixou o presidente trabalhista no seu último escrito.

Foi esse gesto pessoal e político, o mais intenso da face trabalhista de Vargas, que mudou a história da nossa república. Vale ressaltar que populares tomaram as ruas e depredaram sucursais de jornais, sedes de partidos da oposição e até mesmo a embaixada dos Estados Unidos como resposta ao suicídio.

O tiro da Colt ainda ecoa em um país subjugado pelo capital imperialista, ainda que o seu significado seja cada vez mais esvaziado por uma historiografia que detesta o processo de libertação de um povo faminto.

[NOTÍCIAS] Resumo jornalístico dos dias 27 e 28/02/2025.

Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.

Breve nota da equipe da revista:

Excepcionalmente na noite de ontem, devido a um acidente sofrido por nosso editor de jornalismo, não foi possível publicar o boletim de notícias do dia 27 na data. Por isso, no dia de hoje, publicaremos um resumo de notícias do dia de ontem junto as notícias do dia 28 de fevereiro.

Breve nota do editor:

A nova ofensiva internacional dos EUA em defesa da extrema-direita tupiniquim, contra a soberania brasileira, comprova e fortalece a linha editorial da revista ACPB, e a linha política seguida pela APR – PDT e seus militantes.

Quando na época da questão da Venezuela, no ano passado, defendemos que apoiar as teses da direita venezuelana sobre autoritarismo no país seria um equívoco. Entre outros motivos, porque na visão eurocentrista promovida pelo imperialismo, para o senso médio dos países centrais do capitalismo, a luta contra a extrema-direita promovida no Brasil, também é “autoritária” e, para eles, não existe diferença entre nós e nossos irmãos venezuelanos.

Estranho porém, que seja Alexandre de Moraes, um juiz de centro-direita, e não nenhuma representação da esquerda brasileira, a lembrar que o Brasil deixou de ser colônia no século 19.

Giro diário de notícias da política brasileira:

Moraes rebate críticas dos EUA: ‘Deixamos de ser colônia em 1822’.

(Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)

O ministro Alexandre de Moraes (foto), do Supremo Tribunal Federal (STF), fez, nesta quinta-feira (27), em Brasília, um discurso em defesa da independência e da soberania do Brasil – e do cumprimento das decisões da Justiça brasileira – e afirmou que o país deixou de ser colônia em 1822. .

“Deixamos de ser colônia em 7 de setembro de 1822 e, com coragem estamos construindo uma República independente e democrática cada vez melhor”, declarou o ministro durante a sessão do STF, um dia após o governo do presidente Estados Unidos, Donald Trump, criticar decisões de Moraes envolvendo empresas norte-americanas que operam redes sociais.

Moraes faz uma alusão à criação da Organização das Nações Unidas (ONU) há 73 anos, com sede permanente nos Estados Unidos, para defender a autodeterminação dos povos e o respeito à independência das nações.

“A luta contra o fascismo, contra o nazismo, contra o imperialismo, em todas suas formas, seja presencial, seja virtual, e também a defesa da democracia e a consagração dos direitos humanos”, ressaltou o ministro, que é relator do chamado Inquérito das Fake News e também do inquérito da tentativa de golpe em 2022 para manter Jair Bolsonaro (PL) no poder.

Nesta quarta-feira (26), o governo brasileiro divulgou nota em que critica o posicionamento dos Estados Unidos contra decisões do Supremo.

A nota foi divulgada após o Departamento de Estado norte-americano emitir mensagem alertando que “bloquear acesso à informação” ou impor multas a empresas dos EUA é “incompatível com liberdade de expressão”.

Na semana passada, Alexandre de Moraes determinou a suspensão da rede social Rumble.

A decisão foi tomada após o ministro constatar que a empresa está sem representante no país. Conforme documentos que constam nos autos, os advogados da empresa renunciaram ao mandato e novos representantes não foram indicados.



Dilma recebe alta em Xangai e retoma presidência do banco do BRICS.

(Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

A ex-presidenta Dilma Rousseff recebeu alta hospitalar nesta quinta-feira (27) após ser internada devido a uma inflamação no nervo do labirinto, patologia chamada neurite vestibular. Segundo a assessoria de imprensa de Dilma, ela já retomou o trabalho normalmente na sede do banco do BRICS, em Xangai, na China.

A ex-presidenta do Brasil foi internada no dia 21 de fevereiro, no Shanghai East International Medical Center, tendo reagido bem ao tratamento. A condição que acometeu Dilma não oferece risco à vida, apesar de causar extremo desconforto, segundo especialistas consultados pela Agência Brasil.

“Hoje a gente fala que o labirinto é um sexto sentido, porque ele é um sensor de movimento, ele percebe a aceleração da cabeça. Associado à visão e ao tato, ele faz parte de um sistema maior, que é o equilíbrio”, informou a otoneurologista do Instituto Paranaense de Otorrinolaringologia, Lisandra Arima.

Dilma Rousseff preside o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco do BRICS, desde abril de 2023, onde atua com projetos de financiamento para países membros do bloco. Atualmente, o banco tem cerca de 100 projetos que somam aproximadamente US$ 33 bilhões.

Em outubro de 2024, o presidente russo, Vladmir Putin, ofereceu à Dilma mais um mandato de cinco anos à frente da instituição financeira. Isso porque era a vez da Rússia de indicar o próximo chefe do banco. O novo mandato só começa em julho de 2025.

Trump e Zelensky em clima de bate-boca: ‘Faz acordo ou estamos fora’.

© AP Photo / Ben Curtis

O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou nesta sexta-feira (28) a Vladimir Zelensky, em uma visita tensa na Casa Branca, que se não houver acordo de paz, vai “lavar as mãos” e a Ucrânia sairá perdendo.

“O problema é que te dei poder para ser um cara durão, [mas] não acho que seria um cara durão sem os Estados Unidos. E seu povo é muito corajoso, mas ou você faz um acordo ou estamos fora, e, se estivermos fora, você vai lutar. Não acho que vai ser bonito, mas você vai lutar, mas não tem as cartas. Se assinarmos esse acordo, você estará em uma posição muito melhor, mas você não está agindo de forma agradecida. Isso não é uma coisa legal”, disse Trump. “Diga algumas palavras de gratidão aos Estados Unidos da América e ao presidente que está tentando salvar seu país”, provocou, dirigindo-se a Zelensky, na reunião transmitida pela Casa Branca.

Em uma conversa tensa, Trump comentou que a Ucrânia está enfrentando escassez de tropas e está “em grandes apuros”, acusando Zelensky de estar “apostando em uma Terceira Guerra Mundial”.

“Vocês estão ficando sem tropas e ainda assim estão nos dizendo que não querem um cessar-fogo”, disse Trump a Zelensky em uma reunião na Casa Branca. “Ou você faz um acordo ou lavamos as mãos. […] Sei que você não está ganhando. Estamos tentando resolver um problema. Não nos diga o que vamos sentir, porque você não está em posição de ditar isso”, prosseguiu Trump.

Zelensky deixou a Casa Branca antes do previsto após a acalorada conversa com Trump, e uma coletiva de imprensa conjunta não ocorrerá mais. A assinatura de um acordo entre os EUA e a Ucrânia sobre minerais críticos foi cancelada, segundo a Casa Branca.

Lula nomeia Gleisi Hoffmann para comandar articulação política do governo.

(Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu a deputada federal e presidenta do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann, para assumir a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, pasta responsável pela articulação política do governo. A posse da nova ministra está marcada para o dia 10 de março.

Lula e Gleisi estiveram reunidos na manhã desta sexta-feira (28) e a indicação foi confirmada pelo Palácio do Planalto, em nota. Ela vai substituir o atual ministro Alexandre Padilha, recém indicado para comandar o Ministério da Saúde no lugar de Nísia Trindade.


Fontes consultadas:

1-https://www.todapalavra.info/single-post/moraes-rebate-cr%C3%ADticas-dos-eua-deixamos-de-ser-col%C3%B4nia-em-1822

2-https://www.todapalavra.info/single-post/dilma-recebe-alta-em-xangai-e-retoma-presid%C3%AAncia-do-banco-do-brics

3-https://noticiabrasil.net.br/20250228/trump-exige-que-zelensky-concorde-com-cessar-fogo–ou-faz-um-acordo-ou-estamos-fora-38700687.html

4-https://www.todapalavra.info/single-post/lula-nomeia-gleisi-hoffmann-para-comandar-articula%C3%A7%C3%A3o-pol%C3%ADtica-do-governo

[MATHEUS SOUZA] A escravidão no Brasil nunca acabou: O lucro da exploração humana.

Matheus Souza
Secretário de Relações Institucionais
Ação Popular Revolucionária – RJ

Sempre nos é ensinado desde os tempos de escola que a escravidão acabou no mundo. No Brasil, foi criado um imaginário popular onde a benevolência da princesa Isabel libertou os negros da escravidão.

Vale ser ressaltado que a escravidão, em termos legislativos e jurídicos, foi abolida não por justiça social com os negros que eram propriedade de seus senhores, mas sim como consequência do advento da era do capital, onde a compra da força de trabalho e outras mecânicas de opressão mais brandas foram implementadas.

No Brasil de hoje ainda se escraviza, e essa atividade é extremamente lucrativa para quem a pratica, pois as “punições” para tal atividade são muito brandas. Ninguém vai preso por isso; apenas é cobrada uma multa dos escravizadores, e os casos são abafados pela mídia hegemônica, que, por sua vez, é dominada pelo empresariado hostil do nosso país.

Outro grande equívoco do imaginário popular é que esses casos são predominantemente do setor agrário, ou seja, que só existe trabalho escravo nos campos ou fazendas. Acredita-se que, nas cidades, as pessoas estão mais seguras em relação à empregabilidade, talvez porque as cidades são superpopuladas ou pela arrogância do povo urbano, que se acha mais erudito que o povo do interior.

A realidade, no entanto, é muito diferente. A escravidão ocorre sob nossos olhos, mas ninguém vê.

Uma pergunta frequente que nos fazemos ao nos depararmos com essa realidade é: como as pessoas se sujeitam a isso? Bom, a resposta não é tão simples. Os contratantes (se é que podemos chamá-los assim) ofertam as vagas como se fossem empregos normais. Por exemplo, nas cidades, prometem (principalmente a quem vem do interior em busca de oportunidades nos centros urbanos) salários pertinentes, moradia, alimentação, entre outras mentiras

Porém, ao ingressarem no emprego, os trabalhadores são literalmente presos no local de trabalho e submetidos a torturas, privação do sono e a uma condição clássica: a de devedor do seu senhor. Isso ocorre porque lhes é cobrada a moradia e a alimentação, tudo de forma superfaturada, sendo descontado de seu “salário” mensalmente.

Outra pergunta: por que não fogem dessa condição? Ora, muitos tentam, mas, fora da prisão laboral em que se encontram, há uma grande rede de cúmplices (sempre há!). Ou seja, mesmo se conseguirem fugir, haverá alguém que os levará de volta ao cárcere

Analisemos alguns casos agora. Para começar, há um caso bastante famoso: o das vinícolas Salton.

Em fevereiro de 2023, as vinícolas Salton, Garibaldi e Aurora foram indiciadas por trabalho análogo à escravidão, depois que 200 vítimas foram resgatadas em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. As três empresas foram condenadas em conjunto, pois eram as contratantes de uma empresa terceirizada chamada Fênix Serviços Administrativos e Apoio à Gestão de Saúde LTDA, do empresário Pedro Augusto De Oliveira Santana.

Essa empresa atraía trabalhadores da Bahia e de outros estados para trabalhar como terceirizados no Rio Grande do Sul. As empresas foram “condenadas” a pagar uma multa de 7 milhões de reais para as vítimas e para organizações reparadoras de danos relacionados ao crime cometido.

É evidente que, para essas empresas, 7 milhões não são um valor significativo que afete suas finanças. Ou seja, se a punição é apenas uma multa e de um valor baixo, a atividade se torna muito lucrativa. Os escravizados trabalharam apenas o suficiente para gerar 7 milhões de reais em riquezas? Não! Seus esforços geraram muito mais aos cofres das empresas. Isso significa que contratar trabalhadores de forma legal sai muito mais caro do que escravizar.

Observemos agora mais um caso: o caso Leonardo.

Na segunda-feira, dia 7 de outubro de 2024, parte da sociedade civil se viu espantada. O cantor Ermival Eterno Da Costa, mais conhecido como Leonardo, foi incluído na “lista suja” do trabalho escravo pelo Ministério Público por escravizar 6 pessoas em uma de suas fazendas localizada no município de Jussara, em Goiás.

As vítimas foram encontradas pela fiscalização em dormitórios abandonados, sem banheiros, camas e até mesmo água potável. Um detalhe importante é que era um irmão de Leonardo quem cuidava da fazenda. O cantor negou envolvimento após as notícias sobre o caso, fazendo um vídeo se inocentando das acusações — vídeo esse que foi “santificado” por alguns artistas, que prestaram condolências ao cantor como se ele fosse a vítima do caso.

Uma pergunta deve ser feita: e os trabalhadores resgatados? Esses, na realidade, não foram mencionados pela classe artística em seu envio de suporte moral ao cantor. Outro detalhe importante é que Leonardo não se pronunciou sobre o caso até que ele veio a público, dizendo-se surpreso com o ocorrido. Seu objetivo era manter o silêncio sobre seus crimes e os de seu irmão.

O trabalho análogo à escravidão está presente em muitos setores de produção de nossa sociedade e também no trabalho doméstico.

Na Bahia, nos últimos 4 anos, o trabalho escravo doméstico cresceu consideravelmente, como aponta o Ministério Público do Trabalho na Bahia (MPT-BA). De acordo com a procuradora do estado Manuella Gedeon, os casos aumentaram porque as denúncias também aumentaram.

Neste ano, na cidade de Porto Seguro, um casal foi condenado a pagar 500 mil reais para uma empregada doméstica que eles escravizaram por incríveis 44 anos. Punição essa, mais uma vez, muito branda.

Denúncias ocorrem aos montes, fiscalização ocorre aos montes (apesar da possibilidade de corrupção dos fiscalizadores). Então, o que ainda permite que esses casos continuem acontecendo? Ou, como lidar com o aumento recorde de casos nos últimos anos?

A resposta, dessa vez, é simples! Basta o poder público (principalmente o Legislativo) punir de formas mais eficazes os criminosos desses casos, garantindo penas de prisão ou impossibilitando o pagamento de fianças em uma possível prisão preventiva. Pois não adianta julgar e não realmente punir.

No site do Governo Federal, é possível conferir a chamada “lista suja” do trabalho escravo.