[BERNARDO BRANDÃO] Getúlio: A vida, a morte e o grito de um povo

Bernardo Brandão,
Secretário de Formação Política,
Ação Popular Revolucionária – RJ,
Movimento Comunitário Trabalhista – RJ Capital.

No dia 24 de agosto de 1954, sob intensa crise, Getúlio Vargas atirou contra o próprio coração. Oswaldo Aranha, aliado político de longa data, ofereceu uma carnificina em solidariedade. Resistiriam o presidente e algumas dezenas de corajosos. A sugestão sangrenta foi recusada por Getúlio. Afinal, já havia mandado Maciel Filho bater na máquina que, “se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, oferecia o mandatário da República “em holocausto” a própria vida.

João Goulart, ex-ministro do trabalho, carregou estas palavras em um envelope, sem que soubesse o conteúdo do documento entregue pelo velho. “Se viveste com dignidade, morreste com honra”, disse ao ler a carta diante do corpo já desfalecido.

Ao suceder das gerações de poderosos e despossuídos, se construiu, com a força de uma gente bestializada, a nação brasileira, assentada sobre aquela que Darcy Ribeiro chamaria de “mais bela e luminosa província da terra”. Em sua porção mais austral, esse povo tomou forma de uma gente pastoril que, para o já mencionado antropólogo mineiro, era caracterizada por uma simetria nas relações entre as distintas hierarquias sociais, impensável em outros rincões da pátria continental.

Foi nesse meio, e sob os bigodes de um abolicionista republicano, Manuel Vargas, que Getúlio deu os primeiros passos de sua vida. As histórias de guerra contadas pelo pai encantaram o garoto de estrutura frágil desde o nascimento, que tentou seguir carreira militar. A força do destino o faria trilhar uma vida civil, a partir de uma posição inegavelmente confortável garantida pela sua origem.

No bloco acadêmico castilhista, o jovem Getúlio discursou em homenagem ao Júlio de Castilhos, em decorrência da morte por um câncer que corroía a garganta do positivista – homem que serviria de inspiração para a legislação trabalhista da Era Vargas, tão falsamente e irresponsavelmente acusada de “inspiração fascista” pelos mais grotescos porta-vozes do polo reacionário da nossa elite de fulgor escravocrata.

Diria em seus diários, nos quais passou a metodicamente tomar notas em um rompante contemporâneo ao início da revolução por ele liderada: “(…) sentindo que tudo era inútil, decidi-me pela revolução, eu, o mais pacífico dos homens, decidido a morrer. E venci, vencemos todos, triunfou a Revolução!”.

O movimento de 1930 iniciou um período de prodigiosos quinze anos, durante os quais Vargas conduziu a nação brasileira na direção do desenvolvimento autônomo acompanhado de uma grande implementação de garantias social, com o surgimento de um enorme e até hoje atacado arcabouço de leis trabalhistas.

Um país que antes importava enxadas, estabeleceu suas indústrias de base. Derrubado em 1945, o projeto nacionalista de Getúlio Vargas voltaria com a graça do voto popular nas eleições de 1950. “A volta de Vargas ao poder assinala uma interrupção e um retrocesso no desenvolvimento da reação conservadora, onde se aliavam a tradição liberal de uma ala udenista e a tendência panamericanista, senão os interesses confessáveis e inconfessáveis das multinacionais” escreveu Hélio Silva, historiador insuspeito de apologista do velho gaúcho.

Se as dificuldades para derrubar Farquar e a Itabira Iron foram difíceis, se os obstáculos para a construção da grande Siderúrgica Nacional se impuseram enormes, se edificar uma legislação dignificadora das massas urbanas foi uma tarefa árdua frente aos interesses dos espoliadores do povo, o que mais se imporia a Getúlio no início da década de 1950?

O Brasil era outro, a começar pelo péssimo legado do antecessor de Vargas, Eurico Gaspar Dutra. A farra dos importados abriu as portas do Brasil para todo tipo de quinquilharia e a saída de divisas do nosso país foi afrouxada sem o menor cuidado. A inflação estourou sobre as costas do trabalhador.

Dutra buscava uma parceria com os Estados Unidos tal qual o Brasil estabeleceu em tempos de guerra, mas os norte-americanos não viam o nosso país com os mesmos olhos. Com Getúlio, as relações entre os dois países não eram um fim em si mesmo, mas o meio para o desenvolvimento nacional. Com a frustração em decorrência da missão Abby, o governo do pessedista optou pelo alinhamento humilhante, sem contrapartidas, dinâmica dissecada pelo historiador Gerson Moura na publicação “O alinhamento sem recompensa”.

Destarte, restou ao reacionário Dutra entregar o país. Instalou-se em nossa terra uma verdadeira sucursal da Escola das Américas. Varrido pela força do povo, esse péssimo presidente da nossa história deixou detritos no caminho do mandato democrático de Getúlio. O mais notável, a ESG, sediada em um edifício austero, aos pés do Pão de Açúcar. De lá sairia o brilhantismo antinacional de Golbery do Couto e Silva: coronel conspiracionista contra Vargas e general golpista contra João Goulart.

O manifesto golpista de coroneis, de fevereiro de 1954, assinado por Golbery, também apresenta a assinatura de Amaury Kruel, futuro general envolvido na articulação empresarial-militar imperialista para a derrubada do sucessor de Getúlio, João Belchior Marques Goulart.

Com certo remorso, o militar é citado por João Vicente, filho do ex-presidente golpeado, em seu livro de memórias sobre o pai: “Até o general Amaury Kruel, comandante do Segundo Exército, traiu governo e aderiu ao golpe, apesar de meu pai ser padrinho de um de seus filhos”.

No governo democrático, Vargas deu os primeiros passos para a criação da Eletrobrás, empresa que, como consta na Carta-Testamento, foi “obstaculada até o desespero”, tendo sido fundada apenas durante o mandato de Jango. As remessas de lucro para o exterior foram limitadas e o governo se recusou a enviar tropas para o combate ao lado dos imperialistas na península coreana, apesar da insistência de João Neves.

A partir de uma imensa mobilização popular encabeçada pelo slogan “O Petróleo é Nosso”, Vargas conseguiu criar a maior e mais bem sucedida empresa da história brasileira, a Petrobras. Na toada do desenvolvimento social, ao lado do então ministro João Goulart, dobrou o salário mínimo. Estava irritadíssimo o patronato brasileiro, mas não menos as classes dominantes internacionais. A Petrobras e a soberania do petróleo foram o pesadelo da Standard Oil.

Em “Imperialismo, estágio superior do capitalismo”, o revolucionário Vladimir Lênin expôs a indissociabilidade entre o imperialismo e o capitalismo. Em um mundo no qual não há realidade para além da exploração do trabalho alheio pela classe dominante, cabe aos grandes trustes, cartéis e monopólios, repartir o domínio sobre tudo que há.

São formados impérios que subjugam povos inteiros. Outra marxista, Vânia Bambirra, militante egressa das fileiras da mocidade trabalhista, percebeu o caráter de sócias-menores do imperialismo destinados às classes dominantes brasileiras. O Brasil, destarte, estava destinado ao dependentismo das nações cêntricas, cujo exercício de domínio impossibilita até mesmo o desenvolvimento de um capitalismo autônomo. Com isso, estão selados os destinos de Vargas e do povo brasileiro.

Após exaustiva campanha de desmoralização e incriminação promovidas pelo império em nossa terra, Vargas saiu da vida para entrar para a história, abrindo ferida que até hoje faz escorrer sangue em cada rua brasileira. “Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos”, deixou o presidente trabalhista no seu último escrito.

Foi esse gesto pessoal e político, o mais intenso da face trabalhista de Vargas, que mudou a história da nossa república. Vale ressaltar que populares tomaram as ruas e depredaram sucursais de jornais, sedes de partidos da oposição e até mesmo a embaixada dos Estados Unidos como resposta ao suicídio.

O tiro da Colt ainda ecoa em um país subjugado pelo capital imperialista, ainda que o seu significado seja cada vez mais esvaziado por uma historiografia que detesta o processo de libertação de um povo faminto.

[MATHEUS SOUZA] A escravidão no Brasil nunca acabou: O lucro da exploração humana.

Matheus Souza
Secretário de Relações Institucionais
Ação Popular Revolucionária – RJ

Sempre nos é ensinado desde os tempos de escola que a escravidão acabou no mundo. No Brasil, foi criado um imaginário popular onde a benevolência da princesa Isabel libertou os negros da escravidão.

Vale ser ressaltado que a escravidão, em termos legislativos e jurídicos, foi abolida não por justiça social com os negros que eram propriedade de seus senhores, mas sim como consequência do advento da era do capital, onde a compra da força de trabalho e outras mecânicas de opressão mais brandas foram implementadas.

No Brasil de hoje ainda se escraviza, e essa atividade é extremamente lucrativa para quem a pratica, pois as “punições” para tal atividade são muito brandas. Ninguém vai preso por isso; apenas é cobrada uma multa dos escravizadores, e os casos são abafados pela mídia hegemônica, que, por sua vez, é dominada pelo empresariado hostil do nosso país.

Outro grande equívoco do imaginário popular é que esses casos são predominantemente do setor agrário, ou seja, que só existe trabalho escravo nos campos ou fazendas. Acredita-se que, nas cidades, as pessoas estão mais seguras em relação à empregabilidade, talvez porque as cidades são superpopuladas ou pela arrogância do povo urbano, que se acha mais erudito que o povo do interior.

A realidade, no entanto, é muito diferente. A escravidão ocorre sob nossos olhos, mas ninguém vê.

Uma pergunta frequente que nos fazemos ao nos depararmos com essa realidade é: como as pessoas se sujeitam a isso? Bom, a resposta não é tão simples. Os contratantes (se é que podemos chamá-los assim) ofertam as vagas como se fossem empregos normais. Por exemplo, nas cidades, prometem (principalmente a quem vem do interior em busca de oportunidades nos centros urbanos) salários pertinentes, moradia, alimentação, entre outras mentiras

Porém, ao ingressarem no emprego, os trabalhadores são literalmente presos no local de trabalho e submetidos a torturas, privação do sono e a uma condição clássica: a de devedor do seu senhor. Isso ocorre porque lhes é cobrada a moradia e a alimentação, tudo de forma superfaturada, sendo descontado de seu “salário” mensalmente.

Outra pergunta: por que não fogem dessa condição? Ora, muitos tentam, mas, fora da prisão laboral em que se encontram, há uma grande rede de cúmplices (sempre há!). Ou seja, mesmo se conseguirem fugir, haverá alguém que os levará de volta ao cárcere

Analisemos alguns casos agora. Para começar, há um caso bastante famoso: o das vinícolas Salton.

Em fevereiro de 2023, as vinícolas Salton, Garibaldi e Aurora foram indiciadas por trabalho análogo à escravidão, depois que 200 vítimas foram resgatadas em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. As três empresas foram condenadas em conjunto, pois eram as contratantes de uma empresa terceirizada chamada Fênix Serviços Administrativos e Apoio à Gestão de Saúde LTDA, do empresário Pedro Augusto De Oliveira Santana.

Essa empresa atraía trabalhadores da Bahia e de outros estados para trabalhar como terceirizados no Rio Grande do Sul. As empresas foram “condenadas” a pagar uma multa de 7 milhões de reais para as vítimas e para organizações reparadoras de danos relacionados ao crime cometido.

É evidente que, para essas empresas, 7 milhões não são um valor significativo que afete suas finanças. Ou seja, se a punição é apenas uma multa e de um valor baixo, a atividade se torna muito lucrativa. Os escravizados trabalharam apenas o suficiente para gerar 7 milhões de reais em riquezas? Não! Seus esforços geraram muito mais aos cofres das empresas. Isso significa que contratar trabalhadores de forma legal sai muito mais caro do que escravizar.

Observemos agora mais um caso: o caso Leonardo.

Na segunda-feira, dia 7 de outubro de 2024, parte da sociedade civil se viu espantada. O cantor Ermival Eterno Da Costa, mais conhecido como Leonardo, foi incluído na “lista suja” do trabalho escravo pelo Ministério Público por escravizar 6 pessoas em uma de suas fazendas localizada no município de Jussara, em Goiás.

As vítimas foram encontradas pela fiscalização em dormitórios abandonados, sem banheiros, camas e até mesmo água potável. Um detalhe importante é que era um irmão de Leonardo quem cuidava da fazenda. O cantor negou envolvimento após as notícias sobre o caso, fazendo um vídeo se inocentando das acusações — vídeo esse que foi “santificado” por alguns artistas, que prestaram condolências ao cantor como se ele fosse a vítima do caso.

Uma pergunta deve ser feita: e os trabalhadores resgatados? Esses, na realidade, não foram mencionados pela classe artística em seu envio de suporte moral ao cantor. Outro detalhe importante é que Leonardo não se pronunciou sobre o caso até que ele veio a público, dizendo-se surpreso com o ocorrido. Seu objetivo era manter o silêncio sobre seus crimes e os de seu irmão.

O trabalho análogo à escravidão está presente em muitos setores de produção de nossa sociedade e também no trabalho doméstico.

Na Bahia, nos últimos 4 anos, o trabalho escravo doméstico cresceu consideravelmente, como aponta o Ministério Público do Trabalho na Bahia (MPT-BA). De acordo com a procuradora do estado Manuella Gedeon, os casos aumentaram porque as denúncias também aumentaram.

Neste ano, na cidade de Porto Seguro, um casal foi condenado a pagar 500 mil reais para uma empregada doméstica que eles escravizaram por incríveis 44 anos. Punição essa, mais uma vez, muito branda.

Denúncias ocorrem aos montes, fiscalização ocorre aos montes (apesar da possibilidade de corrupção dos fiscalizadores). Então, o que ainda permite que esses casos continuem acontecendo? Ou, como lidar com o aumento recorde de casos nos últimos anos?

A resposta, dessa vez, é simples! Basta o poder público (principalmente o Legislativo) punir de formas mais eficazes os criminosos desses casos, garantindo penas de prisão ou impossibilitando o pagamento de fianças em uma possível prisão preventiva. Pois não adianta julgar e não realmente punir.

No site do Governo Federal, é possível conferir a chamada “lista suja” do trabalho escravo.

[GRAMSCI] Socialistas e Fascistas.

Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.

A equipe da revista A Coisa Pública Brasileira traz para seu público o texto de título “Socialismo e Fascismo”, escrito por António Gramsci, célebre intelectual italiano, árduo defensor do socialismo científico, no ano de 1921.

Optamos por colocar esse texto em nosso site, pois retrata e relata um contexto muito similar ao que vivemos no Brasil nos tempos atuais. Onde uma extrema-direita militarista avança em sua concepção de contrarrevolução preventiva e a esquerda social-liberal, hegemônica enquanto representante da esquerda institucional, aceita vacilante sua derrota provando que é possível vencer a eleição e perder o poder e prestígio ao mesmo tempo.

Socialistas e Fascistas:

A posição política do fascismo é determinada pelas seguintes circunstâncias básicas.

1-Os fascistas, nos seis meses de sua atividade militante, se sobrecarregaram com uma bagagem extremamente pesada de atos criminosos que permanecerão impunes apenas enquanto a organização fascista for forte e temida.

2-Os fascistas puderam realizar suas atividades apenas porque dezenas de milhares de funcionários do Estado, especialmente nas forças de segurança pública (polícia, guardas reais, carabineiros) e na magistratura, se tornaram seus cúmplices morais e materiais.

Esses funcionários sabem que sua impunidade e suas carreiras estão intimamente ligadas às fortunas da organização fascista e, portanto, têm todo o interesse em apoiar o fascismo em qualquer tentativa que possa fazer para consolidar sua posição política.

3-Os fascistas possuem, espalhados por todo o território nacional, estoques de armas e munições em quantidades que são suficientes para criar pelo menos um exército de meio milhão de homens.

4-Os fascistas organizaram um estilo militar de sistema hierárquico que encontra seu ápice natural e orgânico no Estado-Maior.

É lógico que os fascistas não querem ir para a prisão e que, ao invés disso, querem usar sua força — toda a força que têm à disposição — para permanecerem impunes e alcançarem o objetivo final de todo movimento: manter o poder político.

O que os socialistas e os líderes da Confederação pretendem fazer para impedir que o povo italiano seja submetido à tirania do Estado-Maior, dos grandes proprietários de terras e dos banqueiros? Eles estabeleceram um plano? Eles têm um programa? Parece que não.

Poderiam os socialistas e os líderes da Confederação estabelecer um plano clandestino? Isso seria ineficaz, porque apenas uma insurreição das grandes massas pode esmagar um golpe reacionário; e insurreições das grandes massas, apesar de precisarem de preparação clandestina, também precisam da legalidade, de propaganda aberta para orientar o espírito das massas e preparar sua consciência.

Os socialistas nunca encararam seriamente a possibilidade de um golpe de estado, nem se perguntaram que provisão deveriam fazer para se defender e passar à ofensiva. Os socialistas, acostumados como são a mastigar estupidamente algumas pequenas fórmulas pseudomarxistas, rejeitam a ideia de revoluções “voluntaristas”, “esperando milagres” etc, etc.

Mas se a insurreição do proletariado fosse imposta pela vontade dos reacionários, que não podem ter escrúpulos “marxistas”, como o Partido Socialista deveria se comportar? Deixaria, sem resistência, a vitória para a reação? E se a resistência fosse vitoriosa, se o proletariado se levantasse e derrotasse a reação, que slogan o Partido Socialista daria: entregar as armas ou levar a luta até o fim?

Acreditamos que essas questões, neste momento, estão longe de serem acadêmicas ou abstratas. Pode ser, é verdade, que os fascistas, que são italianos, e que têm toda a indecisão e fraqueza de caráter da pequena burguesia italiana, imitarão a tática seguida pelos socialistas na ocupação das fábricas: irão recuar e abandonar à justiça punitiva de um governo dedicado à restauração da legalidade daqueles que cometeram crimes e seus cúmplices.

Pode ser esse o caso. No entanto, é uma tática ruim colocar a confiança nos erros de seus inimigos e imaginar que os inimigos são incapazes e inaptos. Quem tem força, usa. Quem sente que corre o risco de ir para a prisão, fará o impossível para manter sua liberdade. Um golpe de Estado dos fascistas, isto é, do Estado-Maior, dos proprietários de terras e dos banqueiros, é o espectro ameaçador que paira sobre essa legislatura desde o início.

O Partido Comunista tem sua linha: lançar o slogan da insurreição e levar o povo em armas à sua liberdade, garantida pelo Estado operário. Qual é o slogan do Partido Socialista? Como as massas ainda podem confiar neste partido, que limita sua atividade política a gemer, e propõe apenas garantir que seus deputados façam discursos “magníficos” no Parlamento?

Fontes consultadas:

https://www.marxists.org/portugues/gramsci/1921/06/11.htm

[ARTIGO] Trabalhismo e revolução: O problema fundamental da memória para a tradição.

Por: Equipe da A Coisa Pública

A revista ACPB, diante de mais uma onda de ataques de alguns setores reacionários que tentam se esconder por detrás do trabalhismo, traz para seu público um artigo escrito em 2020, por Daniel Albuquerque, em debate público no portal Disparada defendendo a fundação da APR.

Naquela época, tal como hoje, alguns tentavam utilizar o pensamento de Alberto Pasqualini fora de seu contexto para aplicar um verdadeiro revisionismo histórico, excluindo do trabalhismo todos os marxistas que participaram dessa história e ajudaram muito a fundar o PDT, como Vânia Bambirra, Theotônio dos Santos, Moniz Bandeira e muitos outros.

Outra estratégia da reação também foi iludir com a negação do fato que o PDT é um partido que nasceu assumidamente socialista. Felizmente, porém, por ação da APR e de nossos aliados, o socialismo retornou para o artigo primeiro do estatuto no VI Congresso Nacional do PDT. Sem mais delongas, desejamos que todos façam uma boa leitura!

Trabalhismo e revolução: O problema fundamental da memória para a tradição.

Em seu célebre texto chamado “Teses sobre o conceito da história”, publicado em 1940, o renomado filósofo marxista Walter Benjamin, lança as bases para uma das mais belas elaborações teóricas do ramo da filosofia da história.

Nesta obra, Benjamin, alude para o fato da duplicidade da construção histórica, que é, também, estória. Construída por nossos atos no presente, mas enquanto organismo vivo, dependente da transmissão da memória, e sobretudo, de qual classe tem o monopólio de escrever a história. O autor propõe, então, o que pode ser entendido como a existência de uma dialética da lembrança e do esquecimento, operada pela classe que detém tal monopólio.

Para além disso, Benjamin, de sua forma característica, em sua sexta tese sobre a história, também observa como o mesmo processo, por vezes, ocorre dentro de tradições e ideologias:

“Tese 6: Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. 

O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo.

O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.”

Walter Benjamin, “Teses sobre o conceito da história, 1940” — Tese número 6.

Sobre tal reflexão, é importante destacar que, o movimento trabalhista, e sua formulação teórica, não surgem, como os apologistas de visões idealistas da história poderiam afirmar, de personalidades ou pessoas, mas de demandas e agendas sociais bem delimitadas e reconhecidas, como bem afirma o historiador marxista Moniz Bandeira, fiel escudeiro de Brizola, em seu livro “Trabalhismo e Socialismo no Brasil”, no capítulo relativo a criação do antigo PTB.

Muitas correntes participaram da fundação do antigo PTB e na criação do que é a cultura política do trabalhismo no presente. Sindicalistas influenciados pelo marxismo e pelo anarquismo, socialistas utópicos, socialistas cristãos, nacionalistas, positivistas, e até mesmo alguns partidos regionais trabalhistas, todos participaram da fundação do antigo PTB como demonstra o historiador Wendel Pinheiro em seu livro de título “Um tempo bem melhor para se viver”. Pensar diferente disso, seria simplificar as coisas.

Nesse sentido, os critérios e marcos temporais utilizados por nossos detratores, por demais metafísicos, ignoram uma multiplicidade de fatores e causas, terminando por anular o nexo histórico, e delimitando o debate na figura de um teórico em especial e em um determinado período histórico.

Se estivéssemos tecendo este debate em 1945, provavelmente não haveria nada a declarar. Mas será mesmo que, em 2020, já não tenha ocorrido um aprofundamento deste debate? A tradição intelectual do Trabalhismo Brasileiro se encerra, então, em Pasqualini, e vivemos em um hiato de 75 anos, onde não existiram, por exemplo, Darcy Ribeiro, Alberto Guerreiro Ramos, ou Theotônio dos Santos?

Espanta que o retorno a um Pasqualini idealizado e imaginario, pareça se dar, exatamente para ignorar o que veio após este, em um outro contexto, onde as contradições em nossa sociedade afloravam. Porque o foco em Pasqualini, mas escolher não citar, por exemplo, o Brizola do pré-64?

Se apoderar da própria história, é ato de rebeldia, que não deveria ser deixado de lado sobretudo por nós, trabalhistas, os mais atingidos pela dialética da lembrança e do esquecimento operada pela classe dominante brasileira, visto que, em parte, a funesta ditadura militar, cumpriu papel lógico de frear o avanço do antigo PTB, mas sobretudo, atingir e macular sua história, lhe negar memórias, perseguindo seus principais militantes e teóricos, sobretudo, evidentemente, os mais radicais e afinados com a perspectiva da construção do socialismo no Brasil, bem como pensadores práticos da questão revolucionária. Ironicamente, estes são os mesmos apagados e desbotados nas memórias daqueles que este texto pretende responder.

Exatamente nesse sentido, e novamente respondendo sobre trabalhismo e revolução, trago para os leitores deste debate, o trecho abaixo, que figura a página 33, do livro “Trabalhismo e Socialismo no Brasil” de Moniz Bandeira, que explica sobre a posição de Brizola, no já referido período, após extensa reflexão sobre o caso cubano, e é aparentemente esquecido por aqueles que fazem força para não conceber a possibilidade de existência de um trabalhismo revolucionário:

“A execução das reformas, reclamadas pelo desenvolvimento do Brasil, só seria possível com o estancamento do processo espoliativo, à base de profunda revisão nos termos de intercâmbio com os Estados Unidos. E isso acarretaria a sua reação. Brizola não se iludia. Estava já consciente de que a estrutura interna da sociedade brasileira e o processo espoliativo, dirigido pelos Estados Unidos, eram “partes inseparáveis do mesmo sistema“.

E dizia:

“Reconheço e proclamo que nos encontramos numa ordem capitalista, recolhendo migalhas. Mas situo-me entre aqueles que desejam abominar corajosamente, decididamente, os males do capitalismo. E, ainda mais, situo-me entre os que julgam que, para enfrentarmos os problemas que nos afligem que infelicitam nossas grandes massas populacionais, não poderemos fugir a muitas soluções de cunho nitidamente socialista.”[146] Brizola advertia que ou as reformas se realizavam democraticamente, ou o povo brasileiro irromperia pelo caminho da insurreição, o que ele considerava um direito[147], não somente contra a tirania, mas também para libertar-se da fome, da miséria e do atraso.” Moniz Bandeira, Trabalhismo e Socialismo no Brasil, Página 33.

Cabe dizer, não existe nenhum problema em defender os pontos de vista de Pasqualini, pelo contrário, mas, como apontado anteriormente em meu outro texto, “Caminho de ação Trabalhista”, é mais que importante a compreensão de que não podemos nos esquecer nunca que a tradição é algo vivo, e que tem uma história e um movimento de construção, por parte daqueles que erguem seu estandarte ao longo das eras, enquanto se relacionam com as demandas materiais da classe trabalhadora em cada período histórico.

Como sabemos, o Trabalhismo Brasileiro enquanto ideologia percorre todo um movimento histórico, refletindo, fazendo autocríticas, e constantemente se superando em termos de concepções, de forma que, o trabalhismo pensado por Pasqualini, foi extensamente submetido a críticas internas, e superado ideologicamente por seus sucessores intelectuais dentro do partido, que, em suas próprias concepções, como ocorre em toda escola de pensamento, ainda aludem aos pontos positivos do primeiro, sem o temor de criticar o que consideravam erros e equívocos, para com isso, avançar com a teoria.

O PDT é um partido que, a partir da carta de Lisboa e da Carta de Mendes, já nasceu socialista. Diferentemente do antigo PTB, em sua fundação, muitos foram os marxistas que participaram e auxiliaram ativamente em seu fortalecimento. Tivemos Luís Carlos Prestes como Presidente de Honra, sendo com isso legado ao PDT não apenas as memórias do antigo PTB, mas a maior parte das memórias da velha esquerda brasileira do século XX, que construiu o Brasil que amamos em oposição ao Brasil da elite e da classe dominante.

Apontar para momentos longínquos da história da tradição do trabalhismo brasileiro descontextualizando seu nexo histórico, a utilizando, porém, apenas como um compilado de argumentos prontos para posicionamentos, que no atual contexto, são, no mínimo dúbios e vacilantes, para além de um equívoco, é, também, uma espécie de revisionismo. Que, como todo revisionismo, mina a capacidade crítica de compreensão do real, e enfraquece as bases teóricas do movimento trabalhista.

Rio de Janeiro, Niterói, 24 de Dezembro de 2020.

Fonte consultada:

https://disparada.com.br/trabalhismo-e-revolucao-memoria/

[VÂNIA BAMBIRRA] Conceito marxista de mudança social em Mao Zedong.

Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.

A revista ACPB, na intenção de auxiliar na formação política de militantes e simpatizantes da Ação Popular Revolucionária, traz para seu público um importante estudo sobre o pensamento de Mao Zedong escrito em 1962 pela gigantesca intelectual marxista brasileira, Vânia Bambirra.

Conceito marxista de mudança social em Mao Zedong:

“A dialética, em geral, é o ‘puro movimento do pensamento nos conceitos’ em particular, é o estudo da oposição do em si, da essência, do substrato, da substância com o fenômeno, ‘o-ser-por-um-outro’. No sentido próprio, a dialética é o estudo da contradição na essência mesma das coisas…”.

Não é contudo nosso objetivo neste trabalho fazer uma análise da dialética idealista hegeliana, mas sim uma exposição do pensamento de Mao Zedong em si tratando dos problemas das contradições como impulsoras da evolução e portanto do desenvolvimento, tendo como lei, a lei fundamental da dialética materialista devida a Marx e Engels. “… Quando nós estudamos essa lei, não podemos deixar de abordar numerosas questões filosóficas”. O objetivo desse estudo filosófico em Mao Zedong é superar todas as concepções dogmáticas que ainda vêm impregnando o pensamento atual. E o consegue de uma maneira definitiva, como veremos. Em seu término, chegamos à conclusão que a mudança social na teoria marxista se processa através do movimento provocado pelos agentes contrários em cada processo.

O autor de “A propos de la contradiction” divide em seis partes seu estudo, visando cada um deles abranger determinado aspecto do mesmo problema. Assim temos: 1°) as duas concepções de mundo; 2°) a universalidade da contradição; 3°) seu caráter específico; 4°) a contradição principal e o aspecto principal da contradição; 5°) a identidade e a luta dos contrários; 6°) o lugar do antagonismo na série das contradições.

Tentaremos agora, fazer a exposição de cada uma dessas partes.

1°) As duas concepções de mundo

Tentando explicar as leis do desenvolvimento dos fenômenos, surgem duas concepções do mundo, sendo uma a denominada metafísica e a outra dialética.

Desde a antiguidade já existia em China e Europa a concepção dialética do universo. O aspecto bastante primitivo dessa dialética antiga, sem a devida amplitude, explica-se por fatores históricos e sociais. Assim, não conseguia ela abranger o mundo em sua totalidade; é quando surge a concepção metafísica que a substitui.

Vejamos então como se fundamenta esse pensar metafísico, idealista:

O desenvolvimento se explicar por fatores externos a toda coisa e fenômeno, os quais provocam um movimento mecânico no interior dos mesmos, que vem alterar não apenas o volume e a quantidade. A mudança é reconhecida sob a forma de aumento e diminuição quantitativa ou ainda como um deslocar mecânico. Assim, nada altera o caráter específico das coisas e fenômenos pois ele é fixo. Nos séculos XVI a XVIII e em certas tendências posteriores, todo desenvolvimento social é explicado por fatores exteriores à própria sociedade, sejam eles o clima, o meio natural, etc.

A concepção metafísica abrange um longo período histórico quer no ocidente como no oriente. É adotada e defendida de um modo geral pelas forças reacionárias que se desejam manter no mundo.

A dialética materialista surge na Europa quando seus Estados começam a entrar na fase do capitalismo super-desenvolvido em que o desenvolvimento ilimitado, a luta de classes, a ascensão sempre crescentes das ciências, e diversos outros fatores, requerem essa concepção que se destina a superar a existente.

A dialética materialista parte do fato de que o desenvolvimento das coisas e fenômenos é devido às contradições existentes neles mesmos e desta maneira, o seu estudo tem de se proceder a partir dos seus fatores internos, do seu movimento autônomo, em inter-relação ou ligação com os outros fenômenos e coisas que lhe são próximos. São pois as contradições que impulsionam o movimento e o desenvolvimento de todas as coisas e as qualidades delas não são sempre as mesmas.

Quanto ao movimento mecânico provocado por agentes externos, só atua quando há o intermediário das contradições internas. Pode-se dar aqui, com Mao Zedong, o exemplo do crescimento vegetal e animal. Então, a partir de todos esses pressupostos fundamentados, para se analisar o processo de desenvolvimento das sociedades tem-se de proceder a partir de seus fatores internos, pois são eles que o condicionam.

É porque estuda com justeza cada processo de desenvolvimento com as peculiaridades que lhe são próprias, que se destina a analisar cada situação social concreta e específica, é que o materialismo dialético consegue determinar os métodos adequados à resolução dos problemas suscitados pelas contradições.

2°) A universalidade da contradição

Todo processo de desenvolvimento se caracteriza pelos contrários que opondo-se no interior dele criam seu dinamismo. Se em determinado momento as forças opostas deixassem de atuar sem que outras as substituíssem, o processo pereceria, pois “desde que a contradição cessa a vida cessa também”.

As contradições são um dado de toda coisa, de todo fenômeno. Desta forma, se consideramo-las como existentes do começo ao fim em cada processo. Não se pode conceber nenhuma existência sem esse aspecto fundamental: a contradito inerente. A universalidade da contradição é um fato tal como a própria vida. E isso nos leva a considerar com Lenin que “o geral não existe senão no particular, através do particular. Toda coisa particular é geral. Toda coisa geral é (uma parcela, um aspecto, uma essência) do particular”.

A universalidade dos contrários se realiza pois através de cada coisa e fenômeno específicos. Quanto à especificidade trataremos na parte precedente.

Se considerarmos o pensamento humano em toda sua amplitude, verificamos que a diversificação dos conceitos não é mais do que reflexos subjetivos de contradições objetivas, e são elas que estimulam a evolução da mente humana possibilitando soluções para diversos problemas do pensamento. Vemos então que as contradições fazem parte também do mundo da consciência. Observa Mao Zedong que se não houvesse as lutas de opinião no Partido Comunista ele não subsistiria. Com isso acentua o aspecto mumificante que adquire todo e qualquer dogmatismo.

Tem-se ainda de ater aqui, as diferenças de caráter entre os contrários. Se tomamos, por exemplo, a contradição entre o proletariado e a burguesia e a contradição entre os trabalhadores urbanos e os camponeses, verificaremos que há uma diferença marcante em cada tipo, e se tentássemos estabelecê-la em termos de graus, tomaríamos a primeira como de primeiro grau e a segunda como uma oposição secundária.

Finalizando essa parte, ressaltamos mais uma vez o aspecto absolutizante das contradições. Quando um processo antigo ameaça ruir é porque um novo composto de nova unidade de contrários já o está a superar.

A análise marxista do movimento das contradições baseia-se sobre o método de exposição dos fenômenos a partir dos mais simples, procedendo gradualmente até aos mais complexos. Diz-nos Mao Zedong que só através desse método que os comunistas chineses puderam analisar a situação revolucionária em que se achavam e definir as perspectivas.

3°) O caráter específico da contradição

As coisas se distinguem umas das outras pelos seus caracteres específicos que constituem o que se chama essência. Assim, cada processo possui suas peculiares formas de movimento, suas próprias contradições. Essa situação existe quer nos fenômenos da natureza como nos sociais e ideológicos e é por meio dela que se pode delimitar os diversos campos científicos e respectivamente seus objetos de estudo. Como se sabe, existem duas etapas do processo de conhecimento sendo que uma vai do específico ao geral e outra do geral ao específico.

Assim, para se ater à universalidade tem-se de preceder pela especificidade da coisa. Então, quando já se apreendeu a essência comum das coisas prossegue-se o estudo da coisa concreta. Percebemos aqui a dialeticidade abrangente do conhecimento. O universal está no particular mas não lhe retira a nuance própria. São dois caracteres que compõem a totalidade das coisas e fenômenos os quais não podemos inteiramente desligar um do outro, mas que são distintos. Nisso se funda essencialmente a teoria marxista do conhecimento.

As formas de movimento de cada processo são qualitativamente diferentes e por isso não se pode pretender resolver contradições qualitativamente diferentes por métodos que não sejam também qualitativamente diferentes. Dessa forma, se tomarmos como exemplo a contradição existente entre o proletariado e a burguesia, constataremos que ela só se poderá resolver através do método da revolução socialista e não pelo método da revolução democrata.

A essência de um fenômeno em processo desenvolvimentista só se atinge através da observância de seus traços específicos que permitem então apreender todo o conjunto. O exame unilateral e superficial não conduz a nenhuma compreensão do verdadeiro.

Em qualquer processo de desenvolvimento a contradição fundamental que condiciona a essência do processo não desaparece com a mudança do mesmo, mas a proporção que ele vai passando por diferentes etapas ela vai se revestindo gradualmente de formas sempre mais agudas.

O que chamamos de etapas do processo dá-se pelo fato de que em um processo existem várias contradições: as menores são sempre condicionadas pelas maiores ou estão sempre sob sua influência, umas se resolvem ou se atenuam provisoriamente, outras vão se tornando mais agudas enquanto mais outras estão sempre surgindo e assim por diante vão determinando as sucessivas alterações.

Quando se quer conhecer as particularidades de uma dada contradição não se pode limitar a apreciações empregnadas de subjetivismo, mas tem-se de proceder por meio de uma análise concreta da realidade objetiva. E assim sendo, encontra-se a universalidade dentro do particular, do condicionado, do temporário e relativo.

Essa é a tese sobre o absoluto e o relativo. Esse é o grande legado de compreensão do mundo que nos oferece a dialética.

4°) A contradição principal e o aspecto principal da contradição

Trataremos agora de uma parte de nosso estudo que julgamos de grande importância quando tentamos por meio dela compreender a situação atual da realidade brasileira e determinar suas tendências.

Já vimos que nos processos de desenvolvimento principalmente nos mais complexos existem uma série de contradições entre as quais se destaca uma e não mais, que é a principal. Em torno dela giram as outras das quais ela determina a evolução influindo sobre elas.

Na sociedade capitalista a contradição principal tende sempre a ser a existente entre o proletariado e a burguesia. Mas, quando se dá o caso de uma agressão externa as forças opostas internas podem se unir e a contradição principal passa temporariamente a existir entre o país agressor e o considerado. A “agressão” de um país sobre outro pode se exercer em termos pacíficos, quando se trata principalmente de uma agressão econômica feita pelo estrangeiro através de algumas forças nacionais que a ele se alia.

Nesse caso, a solução é a tomada do poder pelas massas populares o que se consegue através de uma revolução interna. Quando isso se dá o imperialismo começa a sentir a ameaça sobre suas bases, então, aliado a reação interna procura manter sua dominação recorrendo a meios como o de introduzir a divisão no setor revolucionário, ou intervir abertamente com forças armadas. É precisamente aí que se acentua fortemente a contradição principal – exploradores e explorados – que toma a direção do processo.

Marx, no estudo da sociedade capitalista diz que quando se estuda um processo tem-se de determinar a contradição principal para se resolver todos os seus problemas. Uma vez determinada a contradição principal tem-se de distinguir nela seus dois aspectos sendo que um ocupa maior relevo. Desenvolvem-se desigualmente. O equilíbrio entre ambos, quando o há, é temporário e relativo pois fundamentalmente são desiguais.

O aspecto principal da contradição ocupa a posição dominante e por isso o caráter dos fenômenos é determinado por ele. Mas nunca essa posição dominante é fixa, ao contrário ela está sempre em mudança e devido a isso os dois aspectos se alteram e se modifica, por conseguinte, o caráter dos fenômenos. É o novo que inexoravelmente ultrapassa o antigo.

Assim, na antiga sociedade feudal o capitalismo surgiu com uma posição secundária até que a ordem social fosse invertida e ultrapassada passando o capitalismo à posição dominante. Desta forma, também já iniciou a proceder em nosso século o proletariado. Na medida que vai crescendo a sua autoconsciência ele vai ascendendo como uma força incontrolável a superar o arcaico sistema capitalista e dá-se a modificação sensível do caráter da comunidade.

Em uma luta revolucionária, em que as dificuldades predominam sobre as condições favoráveis, as primeiras constituem o aspecto principal da contradição. A medida em que a revolução vai se cobrindo de êxito as situações favoráveis – do ponto de vista revolucionário – tendem a prevalecer.

Alguns afirmam que nas sociedades existem certos tipos de contradições às quais essa tese não se estende, sendo elas: nas contradições entre as forças produtivas e as relações de produção, o aspecto principal é sempre constituído pelas forças produtivas; na contradição entre a teoria e a prática é sempre a constituída pela prática; e enfim, entre a base econômica e a superestrutura, é inevitavelmente a base econômica. Mao Zedong identifica esta concepção a materialista mecanicista: “… em geral sim, o são, têm o papel principal”. E nos mostra em quais situações esses aspectos se alteram. Temos então de reconhecer com ele que, de acordo com determinadas condições, as relações de produção, a teoria e a superestrutura vêm a ter o papel decisivo:

– quando a sociedade atinge um ponto no qual, sem modificação das relações de produção, as forças produtivas se estacionam, a modificação das relações de produção adquire o papel principal e decisivo.

– quando, de acordo com Lenin, “sem teoria revolucionária não existe movimento revolucionário.

Nunca será demais insistir nessa ideia, numa época em que a propaganda em moda do oportunismo anda de par com a paixão pelas formas mais estreitas da atividade prática”. Lenin o diz visando esclarecer o sentido dessa frase de Marx “cada passo de movimento efetivo é mais importante que uma dúzia de programas”, que foi interpretada por Rabótcheie Diele em caráter inexato. E acrescenta Lenin o seguinte, ainda de Marx, contida na mesma carta: …”não barganhais com os princípios, não façais concessões teóricas”. A finalidade dessas citações é mostrar a importância da teoria em Marx e Lenin e o papel fundamentador que ela adquire em todo movimento revolucionário.

– e, quando superestrutura, respectivamente cultural, política, etc., freia o pleno desenvolvimento da base econômica, as transformações superestruturais fazem-se necessárias e decisivas.

Essas teses não podem contradizer o materialismo dialético, porque embora nele se reconheça que o material determina sempre o espiritual e o existir social à consciência, reconhece-se ao mesmo tempo que a consciência pode agir sobre o existir social e o espiritual sobre o material.

O método adequado de resolução das contradições há de ser o que explica as diferenças de seus desenvolvimentos pelas diferenças de suas qualidades. É na diversidade que se localiza a força do povo. Qualquer teoria do equilíbrio é pois falsa.

5°) A identidade e a luta dos contrários

Toda contradição nos processos de desenvolvimento compõe-se de dois aspectos e cada um desses aspectos pressupõe a existência do outro, porque ambos formam uma unidade. Em condições específicas um se transforma no outro ocupando-lhe o lugar (este seria o conceito marxista de mudança estrutural). Donde, em todo o processo os opostos se excluem, sua luta é contínua, quer se trate de desenvolvimento de fenômenos materiais, como os do pensamento.

Quando a luta se dá entre apenas um par de contrários temos o que se chama processo simples.

Agora pergunta-se: porque se fala então de unidade e identidade de contrários?

Justamente porque um não pode existir sem o outro. A antítese do ser é o não-ser. Tudo que é alguma coisa deixa de ser outras coisas. Se houvesse o ser sem o não-ser nada seria pois nada se caracterizaria. Assim, de acordo com determinadas circunstâncias, os contrário, por um lado, opõem-se, e por outro, estão ligados em interpenetração e um depende do outro.

Entretanto, a existência da identidade implicará em uma unidade? A unidade está em que, em circunstâncias especiais, um contrário, como já dissemos acima, toma o lugar do outro, transforma-se em seu oposto sem perder contudo, sua especificidade. A burguesia não poderia existir sem o proletariado e é o proletariado que a fará desaparecer. Por sua vez, quando a classe proletária assume o poder está preparando sua própria extinção como classe, extinção esta que se concretizará na sociedade comunista.

A unidade e a identidade dos contrários existe de uma forma relativa, condicionada e temporária. A luta é sempre um dado irremovível, contínuo, que os acompanha do nascimento à extinção. Por isso, a mudança social seria, para o marxismo, uma constante necessária a toda realidade social, a mudança é o próprio ser social.

Todo fenômeno em movimento possui dois aspectos que se alternam de acordo com as leis de antagonismo calmo ou violente entre os contrários:

– um, de repouso relativo no qual suas mudanças são meramente quantitativas. Neste, verifica-se uma união, uma atração, uma continuidade, uma estabilidade, uma harmonia, um equilíbrio relativo entre os dois aspectos opostos.

– outro, de intenso movimento devido [a]o qual há um desmembramento da unidade provocando uma mudança qualitativa e modificações sensíveis. Os dois aspectos se polarizam radicalmente.

6°) O lugar do antagonismo em uma série de contradições

Essa última parte visa colocar o problema do antagonismo (o que podemos tomar como luta aberta ou revolução) como uma das maneiras de se resolver uma série de contradições (como já foi mostrado, na sociedade o encadeamento e a correlação entre os contrários é tão grande que a resolução de todos eles só será possível pela resolução do aspecto principal).

“Essa tese é importante porque ela nos faz compreender que na sociedade de classes, as revoluções e as guerras revolucionárias são inevitáveis e sem elas não se pode ter de um salto o desenvolvimento da sociedade, nem a superação da classe reacionária dominante a fim de que o povo possa tomar o poder”. Tem-se contudo de considerar aqui que o antagonismo é apenas uma forma que pode ser ocasionada pela luta dos contrários e não uma etapa universal.

Ele pode ser aberto ou não dependendo das circunstâncias e conveniências. Na sociedade capitalista o antagonismo entre o rural e o urbano é aberto; na socialista trata-se apenas de uma contradição não antagônica e na comunista desaparecerá. Não haverá contradições de espécie alguma na sociedade comunista? É bem provável que sim, mas lugar para o antagonismo não, não haverá.

A conclusão que chegamos ao finalizar essa exposição é que, para termos uma visão correta da sociedade temos de proceder pelo estudo dialético das suas contradições. Dispomos assim de um conceito de mudança social que elimina a oposição entre estática e dinâmica e nos lança na sociedade em ato. Única forma de compreender de maneira correta o fenômeno social.

[Che Guevara] Ser um jovem comunista.

Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.

A equipe da revista ACPB traz para nosso público uma transcrição e tradução de um discurso do célebre líder revolucionário e militante modelo da causa socialista e comunista, Che Guevara. Tal fala foi proferida em 1962, em Cuba, para a União de Jovens Comunistas em 20 de outubro daquele ano. Boa leitura!



Ser um jovem comunista.

Queridos companheiros:

Uma das tarefas mais gratificantes de um revolucionário é a de ir observando, no transcurso dos anos da Revolução, como se vão formando, decantando e fortalecendo as instituições que nasceram no início da Revolução; como se convertem em verdadeiras instituições com força, vigor e autoridade entre as massas, aquelas organizações que começaram em pequena escala com muitas dificuldades, com muitas indecisões e foram se transformando, mediante o trabalho diário e o contato com as massas, em pujantes representações do movimento revolucionário de hoje.

A União de Jovens Comunistas tem quase os mesmos anos da nossa Revolução, através dos distintos nomes que já teve, através das distintas formas de organização. No princípio foi uma emanação do Exército Rebelde. Daí, talvez, tenha surgido também seu nome. Era uma organização ligada ao exército para iniciar a juventude cubana nas tarefas de massas da defesa nacional, que era o problema mais urgente e o que precisava de uma solução mais rápida.

No antigo Departamento de Instrução do Exército Rebelde nasceram a Associação de Jovens Rebeldes (AJR) e as Milícias Nacionais Revolucionárias (MNR). Depois adquiriram vida própria: esta última, a de uma pujante formação do povo armado, representante do povo armado e com categoria própria, fundida com nosso exército nas tarefas de defesa. A outra, como uma organização destinada à superação política da juventude cubana.

Depois, quando a Revolução foi se consolidando e pudemos nos colocar as tarefas novas que se veem no horizonte, o companheiro Fidel sugeriu a mudança do nome desta organização. Uma mudança de nome que é toda uma expressão de princípios. A União de Jovens Comunistas está diretamente orientada para o futuro. Está vertebrada com vistas ao futuro luminoso da sociedade socialista, depois de atravessar o difícil caminho em que estamos agora da construção de uma nova sociedade, no caminho da consolidação total da ditadura de classe, expressa através da sociedade socialista, para chegar finalmente à sociedade sem classes, à sociedade perfeita, à sociedade que vocês serão encarregados de construir, de orientar e de dirigir no futuro.

Para isso, a União de Jovens Comunistas levanta seus símbolos, que são os símbolos de todo o povo de Cuba: o estudo, o trabalho e o fuzil.

E suas medalhas mostram dois dos mais altos expoentes da juventude cubana, ambos mortos tragicamente, sem poderem chegar a ver o resultado final desta luta em que todos estamos empenhados: Julio Antonio Mella e Camilo Cienfuegos.

Neste segundo aniversário, nesta hora de construção febril, de preparativos constantes para a defesa do país, de preparação técnica e tecnológica acelerada ao máximo, deve-se colocar sempre, e antes de tudo, o problema do que é e do que deve ser a União de Jovens Comunistas.

A União de Jovens Comunistas tem que se definir com uma só palavra: vanguarda. Vocês, companheiros, devem ser a vanguarda de todos os movimentos. Os primeiros a estarem dispostos para os sacrifícios que a Revolução demande, qualquer que seja a natureza desses sacrifícios. Os primeiros no trabalho. Os primeiros no estudo. Os primeiros na defesa do país.

E colocar-se esta tarefa não apenas como a expressão total da juventude de Cuba, não apenas como uma tarefa de grandes massas vertebradas em uma instituição, mas como as tarefas diárias de cada um dos integrantes da União de Jovens Comunistas. Para isso, é necessário colocar-se tarefas reais e concretas, tarefas de trabalho cotidiano que não podem admitir o menor desânimo.

A tarefa da organização deve estar constantemente unida a todo o trabalho que se desenvolva na União de Jovens Comunistas. A organização é a chave que permite fortalecer as iniciativas que surgem dos líderes da Revolução, as iniciativas colocadas em reiteradas oportunidades por nosso Primeiro-Ministro [Fidel Castro], e as iniciativas que surgem no seio da classe operária, que também devem se transformar em diretrizes precisas, em ideias precisas para ação subsequente.

Se não existe a organização, as ideias, depois do primeiro momento de impulso, vão perdendo eficácia, vão caindo na rotina, vão caindo no conformismo e acabam por ser simplesmente uma lembrança.

Faço esta advertência porque muitas vezes neste curto e, não obstante, tão rico período de nossa Revolução, muitas grandes iniciativas fracassaram, caíram no esquecimento pela falta do aparato organizativo necessário para poder sustentá-las e levá-las a bom termo.

Ao mesmo tempo, todos e cada um de vocês devem ter presente que ser jovem comunista, pertencer à União de Jovens Comunistas, não é uma graça que alguém lhes concede, nem é uma graça que vocês concedem ao Estado ou à Revolução. Pertencer à União de Jovens Comunistas deve ser a mais alta honra de um jovem da sociedade nova. Deve ser uma honra pela qual lutem a cada momento de sua existência. E, além disso, a honra de manter-se e manter no alto o nome individual dentro do grande nome da União de Jovens Comunistas. Deve ser um empenho constante também.

Desta forma avançaremos ainda mais rapidamente. Acostumando-nos a pensar como massa, a atuar com as iniciativas que nos oferece a grande iniciativa da massa operária e as iniciativas dos nossos dirigentes máximos; e, ao mesmo tempo, atuar sempre como indivíduos, permanentemente preocupados com nossos próprios atos, permanentemente preocupados que nossos atos não manchem nosso nome nem o nome da associação a que pertencemos.

Depois de dois anos podemos recapitular e observar quais foram os resultados desta tarefa. E há enormes conquistas na vida da União de Jovens Comunistas. Uma das mais importantes, das mais espetaculares, foi a da defesa.

Os jovens que primeiro – alguns deles – subiram os cinco picos do Turquino [montanha mais alta de Cuba, localizada na Sierra Maestra], os que se alistaram em uma série de organizações militares, todos os que empunharam o fuzil nos momentos de perigo estiveram prontos a defender a Revolução em cada um dos lugares onde se esperava a invasão ou a ação inimiga.

Aos jovens da Praia Girón lhes coube a altíssima honra de ali poder defender nossa Revolução, ali defender as instituições que criamos com sacrifício, as conquistas que todo o povo conseguiu em anos de luta; toda nossa Revolução foi defendida ali em 72 horas de luta.

A intenção do inimigo era criar uma cabeça de praia suficientemente forte, com um aeroporto dentro, que permitisse hostilizar todo nosso território, bombardeá-lo sem misericórdia, converter nossas fábricas em cinzas, reduzir a pó nossos meios de comunicação, arruinar nossa agricultura. Em uma palavra: semear o caos em nosso país. A ação decidida de nosso povo liquidou a intentona imperialista em apenas 72 horas.

Jovens que ainda eram crianças se cobriram de glória. Alguns estão aqui hoje como expoentes dessa juventude heroica, e de outros nos resta pelo menos seus nomes como recordação, como incentivo para novas batalhas, que terão que ser travadas, para novas atitudes heroicas frente ao ataque imperialista.

No momento em que a defesa do país era a tarefa mais importante, a juventude esteve presente. Hoje a defesa do país segue ocupando o primeiro lugar em nossos deveres. Mas não devemos esquecer que a palavra de ordem que guia os jovens comunistas está intimamente ligada entre si: não pode haver defesa do país somente no exercício das armas, prontas para a defesa, mas, além disso, devemos defender o país construindo-o com o nosso trabalho e preparando os novos quadros técnicos para acelerar seu desenvolvimento nos anos vindouros. Agora esta tarefa adquire uma enorme importância e está na mesma altura que a do exercício direto das armas.

Quando se colocaram problemas como estes a juventude disse presente mais uma vez. Os jovens brigadistas responderam ao chamado da Revolução, invadiram todos os cantos do país. E assim, em poucos meses e em uma batalha muito dura – na qual houve inclusive mártires da Revolução, mártires da educação – pudemos anunciar uma situação nova na América Latina: a de que Cuba era um território livre do analfabetismo na América.

O estudo, em todos os níveis, é também hoje uma tarefa da juventude. O estudo misturado com trabalho, como no caso dos jovens estudantes que estão colhendo café no [na província] Oriente, que utilizam suas férias para colher um grão tão importante em nosso país, para nosso comércio exterior, para nós, que consumimos uma grande quantidade de café todos os dias. Esta tarefa é similar à da alfabetização. É uma tarefa de sacrifício que se faz alegremente, reunindo-se os companheiros estudantes – mais uma vez – nas montanhas de nosso país para levar ali sua mensagem revolucionária.

São muito importantes essas tarefas porque nelas a União de Jovens Comunistas, os jovens comunistas não apenas dão. Recebem, e em alguns casos mais do que dão: adquirem experiências novas, uma nova experiência do contato humano, novas experiências de como vivem nossos camponeses, de como é o trabalho e a vida nos lugares mais distantes, de tudo o que é preciso fazer para elevar aquelas regiões ao mesmo nível dos lugares mais habitáveis do campo e das cidades. Adquirem experiência e maturidade revolucionárias.

Os companheiros que passam por aquelas tarefas de alfabetizar ou colher café, em contato direto com nosso povo, ajudando-o longe de seus lares, recebem – posso afirmá-lo – mais ainda do que dão, e o que dão é muito!

Esta é a forma de educação que melhor se ajusta a uma juventude que se prepara para o comunismo: a forma de educação na qual o trabalho perde a categoria de obsessão que tem no mundo capitalista e passa a ser um gratificante dever social, que se realiza com alegria, que se realiza ao som de cantos revolucionários, em meio à camaradagem mais fraternal, em meio a contatos humanos que dão vigor a uns e outros, e a todos elevam.

Além disso, a União de Jovens Comunistas avançou muito em sua organização. Daquele débil embrião que se formou como apêndice do Exército Rebelde, até esta organização de hoje, há uma grande diferença. Por todas as partes, em todos os centros de trabalho, em todos os organismos administrativos, em todos os lugares onde possam exercer sua ação, ali há jovens comunistas e ali estão trabalhando para a Revolução.

O avanço organizativo deve também ser considerado também como uma conquista importante da União de Jovens Comunistas.

Contudo, companheiros, neste difícil caminho houve muitos problemas, têm havido grandes dificuldades, têm havido erros grosseiros, e nem sempre temos podido superá-los. É evidente que a União de Jovens Comunistas, como organismo inferior, como irmão menor das Organizações Revolucionárias Integradas, tem que beber aí das experiências dos companheiros que mais têm trabalhado em todas as tarefas revolucionárias, e deve escutar sempre – com respeito – a voz dessa experiência.

Mas a juventude tem que criar. Uma juventude que não cria é uma anomalia, realmente. E à União de Jovens Comunistas tem faltado um pouco de espírito criador. Tem sido, através de sua direção, demasiado dócil, demasiado respeitosa e pouco decidida a colocar-se problemas próprios.

Hoje está se rompendo com isso. O companheiro Joel [Iglesias] nos falava das iniciativas dos trabalhos nas fazendas. São exemplos de como se começa a romper a dependência total – que se torna absurda – de um organismo superior, como se começa a pensar com a própria cabeça.

Mas é que nós, e nossa juventude como todos nós, estamos convalescentes de uma doença que, felizmente, não foi muito longa, mas que influiu muito no atraso do desenvolvimento do aprofundamento ideológico de nossa Revolução. Estamos todos convalescentes deste mal, chamado sectarismo.

A que conduziu o sectarismo? Conduziu à cópia mecânica, às análises formais, à separação entre a direção e as massas. Inclusive na nossa Direção Nacional, e o reflexo direto se produziu aqui, na União de Jovens Comunistas.

Se nós – também desorientados pelo fenômeno do sectarismo – não conseguíamos ouvir a voz do povo, que é voz mais sábia e mais orientadora, se não conseguíamos perceber as aspirações do povo para poder transformá-las em ideias concretas, em diretrizes precisas, mal poderíamos dar essas diretrizes à União de Jovens Comunistas. E como a dependência era absoluta, como a docilidade era muito grande, a União de Jovens Comunista navegava como pequeno barco sem rumo, dependendo do grande barco: nossas Organizações Revolucionárias, que estas também, navegavam sem rumo.

Aqui se realizavam pequenas iniciativas, que era a única coisa que a União de Jovens Comunistas era capaz de produzir, as quais, às vezes, se transformavam em slogans grosseiros, em evidentes manifestações sem profundidade ideológica.

O companheiro Fidel fez sérias críticas de extremismos e de expressões, algumas tão conhecidas por todos vocês, como: “a ORI é a luz…”, “somos socialistas, em frente, em frente…”. Todas aquelas coisas que Fidel criticava, e que vocês conhecem bem, eram o reflexo do mal que atacava nossa Revolução.

Nós saímos dessa época. Nós liquidamos totalmente essa época. Contudo, sempre os organismos vão um pouco mais atrasados. É como um mal que houvesse deixado uma pessoa inconsciente. Quando o mal cede, o cérebro se recupera, recupera a clareza mental, mas, no entanto, os membros não coordenam bem seus movimentos, os primeiros dias depois de levantar-se do leito o andar é inseguro e pouco a pouco vai-se adquirindo a nova segurança. Nós estamos nesse caminho.

Assim devemos definir e analisar objetivamente todos nossos organismos para continuarmos melhorando. Saber, para não cairmos, para não tropeçarmos e ir ao chão; conhecer nossas debilidades para aprender a resolvê-las, conhecer nossas fraquezas para liquidá-las e adquirir mais força.

Essa falta de iniciativa própria se deve ao desconhecimento, durante um bom tempo, da dialética que move os organismos de massa e ao esquecimento de que os organismos como a União de Jovens Comunistas não podem ser simplesmente de direção, não podem ser algo que constantemente mande diretrizes às bases e que não receba nada delas.

Pensava-se que a União de Jovens Comunistas e todas as organizações de Cuba eram organizações de uma só linha. Uma só linha que ia desde a cabeça até as bases, mas que não tinha um cabo de retorno que trouxesse a comunicação das bases. Um duplo e constante intercâmbio de experiências, de ideias, de diretrizes, que vêm a ser as mais importantes, as que fizeram centrar o trabalho de nossa juventude.

Ao mesmo tempo, podiam ser observados os pontos onde o trabalho esteve mais frouxo, os pontos em que fraquejara mais.

Nós vemos como os jovens, quase heróis de novela, que podem entregar sua vida cem vezes pela Revolução, se os chamamos para qualquer tarefa concreta e esporádica marcham em massa até elas. Porém às vezes faltam ao seu trabalho porque tinham uma reunião da União de Jovens Comunistas, ou porque se deitaram tarde na noite anterior, discutindo alguma iniciativa dos Jovens Comunistas, ou simplesmente não vão ao trabalho porque não, sem causa justificada.

Quando se observa uma brigada de trabalho voluntário, onde se supõe que estejam os jovens comunistas, em muitos casos eles não estão. Não há nenhum. O dirigente tinha que ir a uma reunião, o outro estava doente, um terceiro não havia sido bem informado. E o resultado é que a atitude fundamental, a atitude de vanguarda do povo, a atitude de exemplo vivo que comove e empurra todo mundo para frente – como fizeram os jovens da Praia de Girón –, essa atitude não se repete no trabalho. A seriedade que deve ter a juventude de hoje para enfrentar os grandes compromissos – e o compromisso maior é a construção da sociedade socialista – não se reflete no trabalho concreto.

Há grandes debilidades e é preciso trabalhar nelas. Trabalhar organizando, trabalhar marcando o lugar onde dói, o lugar onde há debilidades a corrigir, e trabalhar sobre cada um de vocês para deixar bem claro em suas consciências que não pode ser bom comunista aquele que somente pensa na Revolução quando chega o momento do sacrifício, do combate, da aventura heroica, do que sai do vulgar e do cotidiano e, no entanto, no trabalho é medíocre ou menos que medíocre.

Como pode ser isso, se vocês já recebem o nome de jovens comunistas, o nome que nós, como organização dirigente, partido dirigente, ainda não temos? Vocês que têm que construir um futuro no qual o trabalho será a dignidade máxima do homem, o trabalho será um dever social, um prazer que o homem se dá, onde o trabalho será criativo ao máximo e todo o mundo deverá estar interessado no seu trabalho e no dos demais, no avanço da sociedade, dia a dia.

Como pode ser que vocês que hoje já têm esse nome, desdenham do trabalho? Aí há uma falha. Uma falha de organização, de esclarecimento, de trabalho. Uma falha, além disso, humana. A todos nós – a todos, acredito – nos agrada muito mais aquilo que quebra a monotonia da vida, aquilo que de imediato, de vez em quando, faz alguém pensar no seu próprio valor, no valor que tem dentro da sociedade.

E imagino o orgulho daqueles companheiros que estavam em uma das “quatro bocas”, por exemplo, defendendo sua pátria dos aviões ianques, e de repente alguém tinha a sorte de ver que suas balas alcançavam um avião inimigo. Evidentemente é o momento mais feliz na vida de um homem. Isso nunca se esquece. Nunca o esquecerão os companheiros que viveram esta experiência.

Mas nós temos que defender nossa Revolução, a que estamos fazendo todos os dias. E para poder defendê-la, é necessário ir construindo-a, fortalecendo-a com esse trabalho que hoje não agrada à juventude, ou que, ao menos, considera como o último de seus deveres, porque ainda conserva a mentalidade antiga, a mentalidade proveniente do mundo capitalista, ou seja, que o trabalho é, sim, um dever, é uma necessidade, mas um dever e uma necessidade tristes.

Por que isso ocorre? Porque ainda não temos dado ao trabalho seu verdadeiro sentido. Não temos sido capazes de unir o trabalhador com o objeto de seu trabalho. E, ao mesmo tempo, de transmitir ao trabalhador a consciência da importância que tem o ato criador que realiza dia a dia.

O trabalhador e a máquina, o trabalhador e o objeto sobre o qual se exerce o trabalho são duas coisas diferentes e antagônicas. E aí é necessário trabalhar, para ir formando novas gerações que tenham o máximo interesse em trabalhar e saibam encontrar no trabalho uma fonte permanente e em constante mudança de novas emoções. Fazer do trabalho algo criador, alvo novo.

Este é talvez o ponto mais fraco da nossa União de Jovens Comunistas. Por isso hoje enfatizo este ponto, e em meio à alegria de festejar esta data de aniversário, volto a pôr a pequena gota de amargura para tocar o ponto sensível, para chamar a juventude a reagir.

Hoje estivemos em uma assembleia em que se discutia algo no Ministério. Muitos de vocês provavelmente já tenham discutido a emulação nos seus centros de trabalho e tenham lido um tremendo papel que está circulando. Mas qual é o problema da emulação, companheiros? O problema é que a emulação não pode ser regida por papéis que a regulamentem, a ordenem e lhe deem um molde. O regulamento e o molde são necessários para poder comparar, depois, o trabalho da gente entusiasmada que está emulando.

Quando dois companheiros começam a emular, cada um em uma máquina para construir mais, depois de um tempo começam a sentir a necessidade de algum regulamento para determinar qual dos dois produz mais em sua máquina: a qualidade do produto, a quantidade, as horas de trabalho, a forma em que fica a máquina depois, como a atenderam… Muitas coisas. Mas se em vez de se tratar de dois companheiros que efetivamente emulam e aos quais nós vamos dar um regulamento, aparece um regulamento para outros dois que estão pensando em que chegue a hora de ir para casa, para que serve o regulamento, que função cumpre?

Em muitas coisas estamos trabalhando com regulamento e fazendo o molde para algo que não existe. O molde tem que ter um conteúdo, o regulamento tem que ser, nestes casos, o que defina e limite uma situação já criada. O regulamento deveria ser o resultado da emulação levada a cabo anarquicamente, se quiserem, sim, mas entusiasmada, transbordante para todos os centros de trabalho de Cuba. Automaticamente surgiria a necessidade de regulamentar, de fazer uma emulação com regulamentos.

Assim temos tratado muitos problemas, assim temos sido formais no tratamento de muitas coisas. E quando nesta assembleia perguntei por que não havia estado, ou quantas vezes havia estado o secretário dos Jovens Comunistas, soube que havia estado algumas vezes, poucas, e que os Jovens Comunistas não haviam estado.

Mas no curso da assembleia, discutindo estes problemas e outros, os Jovens Comunistas, o núcleo, a Federação de Mulheres e os Comitês de Defesa e o Sindicato, naturalmente, se encheram de entusiasmo. Pelo menos se encheram de um remorso interno, de amargura, de um desejo de melhorar, um desejo de demonstrar que eram capazes de fazer aquilo que não se havia feito: movimentar as pessoas. Então, imediatamente, todos se comprometeram a fazer com que o Ministério completo emulasse em todos os níveis, a discutir o regulamento, depois de estabelecer as emulações, e voltar dentro de quinze dias para apresentar já todo um fato concreto, com todo o Ministério emulando entre si.

Ali já há mobilização. As pessoas já compreenderam e sentiram intimamente – porque cada companheiro desses é um grande companheiro – que havia algo frouxo em seu trabalho. Se encheram de dignidade ferida e foram resolver. Isso é o tem que ser feito. Perdoem-me se insisto mais uma vez, mas é que sem trabalho não há nada. Toda a riqueza do mundo, todos os valores que tem a humanidade, não são nada mais que trabalho acumulado. Sem isso não pode existir nada. Sem o trabalho extra que se dá para criar mais excedentes para novas fábricas, para novas instalações sociais o país não avança. E por mais fortes que sejam nossos exércitos estaremos sempre com um ritmo lento de conhecimento, e é preciso romper com isso, romper com todos os velhos erros, manifestá-los publicamente, analisá-los em cada lugar e, então, corrigi-los.

Quero colocar agora, companheiros, qual é a minha opinião, a visão de um dirigente nacional das ORI, sobre o que deve ser um jovem comunista, para ver se estamos todos de acordo.

Eu creio que a primeira coisa que deve caracterizar um jovem comunista é a honra que sente por ser jovem comunista. Esta honra que o leva a mostrar para todo o mundo sua condição de jovem comunista, que não o vira na clandestinidade, que não o reduz a fórmulas, mas que o expressa em cada momento, que lhe sai do espírito, que tem interesse em demonstrá-lo porque é seu símbolo de orgulho.

Junto com isso, um grande sentido de dever para com a sociedade que estamos construindo, com nossos semelhantes como seres humanos e com todos os homens do mundo.

Isso é algo que deve caracterizar o jovem comunista. Ao lado disso, uma grande sensibilidade frente a todos os problemas, grande sensibilidade frente à injustiça; espírito inconformado cada vez que surja algo que está mal, tenha sido dito por quem quer que seja. Questionar tudo o que não se entenda; discutir e pedir esclarecimentos do que não estiver claro; declarar guerra ao formalismo, a todos os tipos de formalismo. Estar sempre aberto para receber as novas experiências, para conformar a grande experiência da humanidade, que já leva muitos anos avançando pelo caminho do socialismo, nas condições concretas de nosso país, nas realidades que existem em Cuba: e pensar – todos e cada um – como ir mudando a realidade, como ir melhorando-a.

O jovem comunista deve propor-se a ser sempre o primeiro em tudo, lutar para ser o primeiro, e sentir-se incomodado quando em alguma coisa ocupa outro lugar. Lutar para melhorar, para ser o primeiro. Claro que nem todos podem ser o primeiro, mas sim estar entre os primeiros, no grupo de vanguarda. Ser um exemplo vivo, ser o espelho onde olhem os companheiros que não pertençam às juventudes comunistas, ser o exemplo onde possam se olhar os homens e as mulheres de idade mais avançada que tenham perdido certo entusiasmo juvenil, que tenham perdido a fé na vida e que diante do estímulo do exemplo sempre reagem bem. Essa é outra tarefa dos jovens comunistas.

Junto com isso, um grande espírito de sacrifício, um espírito de sacrifício não somente para as jornadas heroicas, mas para todo momento. Sacrificar-se para ajudar o companheiro nas pequenas tarefas, para que possa assim cumprir seu trabalho, para que possa cumprir com seu dever no colégio, no estudo, para que possa melhorar de qualquer forma. Estar sempre atento a toda a massa humana que o rodeia.

Quer dizer: se propõe a todo jovem comunista ser essencialmente humano, ser tão humano que se aproxime do melhor do humano, purificar o melhor do homem por meio do trabalho, do estudo, do exercício da solidariedade continuada com o povo e com todos os povos do mundo, desenvolver ao máximo a sensibilidade até se sentir angustiado quando se assassina um homem em qualquer canto do mundo e para sentir-se entusiasmado quando em algum canto do mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade.

O jovem comunista não pode estar limitado pelas fronteiras de um território: o jovem comunista deve praticar o internacionalismo proletário e senti-lo como coisa própria. Lembrar-se, como devemos nos lembrar, aspirantes a comunistas aqui em Cuba, que somos um exemplo real e palpável para toda a nossa América Latina, e mais ainda que para nossa América, para outros países do mundo que lutam também em outros continentes por sua liberdade, contra o colonialismo, contra o neocolonialismo, contra o imperialismo, contra todas as formas de opressão dos sistemas injustos; lembrar-se sempre que somos uma tocha acesa, de que nós todos somos o mesmo espelho que cada um de nós é individualmente para o povo de Cuba, e somos esse espelho para que se olhem nele os povos da América Latina, os povos do mundo oprimido que lutam por sua liberdade. E devemos ser dignos desse exemplo. A todo momento e a toda hora devemos ser dignos desse exemplo.

Isso é o que nós pensamos que deve ser um jovem comunista. E se nos disserem que somos quase uns românticos, que somos uns idealistas inveterados, que estamos pensando em coisas impossíveis, e que não se pode conseguir que a massa de um povo seja quase um arquétipo humano, nós temos que responder, mil vezes que sim, que sim se pode, que estamos no certo, que todo o povo pode ir avançando, ir liquidando a mesquinhez humana, como fomos liquidando em Cuba nestes quatro anos de Revolução; ir se aperfeiçoando como nos aperfeiçoamos todos dia a dia, liquidando intransigentemente todos aqueles que ficaram para trás, que não são capazes de marchar no ritmo que marcha a Revolução cubana. Tem de ser assim, deve ser assim, e assim será, companheiros. Será assim porque vocês que são jovens comunistas, criadores da sociedade perfeita, seres humanos destinados a viver em um mundo novo do qual haverá desaparecido definitivamente tudo o que é caduco, todo o velho, tudo o que represente a sociedade cujas bases acabam de ser destruídas.

Para alcançar isso é necessário trabalhar todos os dias. Trabalhar no sentido interno de aperfeiçoamento, de aumento dos conhecimentos, de aumento da compreensão do mundo que nos rodeia. Inquirir e averiguar e conhecer bem o porquê das coisas e colocar-se sempre os grandes problemas da humanidade como problemas próprios.

Assim, em um dado momento, em um dia qualquer dos próximos anos – depois de passar muitos sacrifícios, sim, depois de havermos visto, talvez muitas vezes, à beira da destruição –, depois de havermos visto talvez como nossas fábricas são destruídas e de tê-las reconstruído novamente, depois de assistir ao assassinato, à matança de muitos dos nossos e de reconstruir o que tiver sido destruído, ao fim de tudo isso, num dia qualquer, quase sem nos darmos conta, teremos criado, junto como os outros povos do mundo, a sociedade comunista, nosso ideal.

Companheiros, falar para a juventude é uma enorme tarefa. A gente se sente nesse momento capaz de transmitir algumas coisas e sente a compreensão da juventude. Há muita coisa que queria dizer sobre todos os nossos esforços, nossos anseios; de como, porém, muitos deles se rompem diante da realidade diária e como é necessário voltar ao início. Dos momentos de fraqueza e de como o contato com o povo – com os ideais e a pureza do povo – nos infunde novo fervor revolucionário.

Haveria muitas coisas das quais falar. Mas também temos que cumprir com nossos devedores. E aproveito para explicar-lhes porque me despeço de vocês, com toda má intenção se vocês quiserem. Me despeço de vocês porque vou cumprir com meu dever de trabalhador voluntário numa fábrica têxtil; lá estamos trabalhando já há algum tempo. Estamos emulando com a Empresa Consolidada de Fios e Tecidos Planos, que trabalha em outra fábrica têxtil e estamos emulando com a Junta Central de Planificação, que trabalha em outra fábrica têxtil.

Quero dizer-lhes, honestamente, que o Ministério da Indústria está em último na emulação, que temos que fazer um grande esforço, maior, repetir constantemente, para avançar, para poder cumprir aquilo que nós mesmos dissemos de ser os melhores, de aspirar a ser os melhores, porque nos dói ser os últimos na emulação socialista.

Acontece, simplesmente, que aqui ocorreu o mesmo que ocorreu a muitos de vocês: a emulação é fria, um pouco inventada, e não temos sabido entrar em contato direto com a massa de trabalhadores da indústria. Amanhã teremos uma assembleia para discutir esses problemas e para tratar de resolvê-los todos, buscar os pontos de união, de estabelecer uma linguagem comum de uma identidade absoluta entre os trabalhadores dessa indústria e nós trabalhadores do Ministério. E depois de conseguir isso, estou seguro de que aumentaremos muito os rendimentos ali e que poderemos, pelo menos, lutar honradamente pelos primeiros lugares.

Em todo caso, na próxima assembleia, no ano que vem, lhes contaremos e resultado. Até lá.

[Salvador Allende] Últimas Palavras à Nação.

Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.

Nossa equipe traz para o público a tradução da transcrição do ultimo discurso do líder socialista chileno e mártir da libertação dos povos da América Latina, Salvador Allende. Allende foi eleito pelo povo chileno como seu presidente da República e pela traição de forças militares e da classe dominante chilena, golpistas e antinacionais, tombou há mais de 40 anos defendendo o “socialismo democrático” e as convicções dos trabalhadores através dos muros do Palácio de La Moneda. Allende deixou, em seus erros e acertos, muitas lições para todo o povo latino-americano.

Segue tradução feita pela EBC de seu último discurso:


“Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineiros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores:

Não vou renunciar!

Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças.

Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista.

Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino.

Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se.

Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile!

Viva o povo!

Viva os trabalhadores!

Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.”

[Carlos Nelson Coutinho] Democracia e anti-imperialismo são bases do autêntico nacionalismo.

Por: Carlos Nelson Coutinho.

A revista A Coisa Pública Brasileira, orgulhosamente disponibiliza para nosso público o presente texto do célebre, filósofo, intelectual marxista e cientista político, Carlos Nelson Coutinho. Tal texto, para efeitos de contextualização, foi escrito e publicado no ano de 1977, durante a ditadura militar.

O “nacionalismo” da ditadura não é apenas cobertura para uma política entreguista: é a afirmação de um chauvinismo de tipo fascista que defende a militarização e o expansionismo. A oposição democrática não pode falar de acordo diante deste falso nacionalismo. Mas não pode subestimar a questão nacional – corretamente entendida – como um momento decisivo na luta pela democracia.

A campanha do novo presidente norte-americano “em defesa dos direitos humanos”, cujos aspectos profundamente obscuros não cabe analisar aqui, teve uma imediata repercussão na vida política brasileira. Serviu de pretexto para mais uma manobra da ditadura em sua luta pela obtenção daquele mínimo de consenso indispensável para superar a crise em que está envolvida, sobretudo num momento em que se vem reduzindo a base social de apoio do regime.

Mas não seria justo dizer que o tipo de demagogia “patrioteira” e pseudonacionalista, insistentemente alardeada nas últimas semanas, seja uma novidade no arsenal da manipulação ideológica do regime. Com efeito, sobretudo a partir do AI-5, a ditadura militar-fascista tem apoiado boa parte de sua propaganda ideológica – plenamente identificada, nisso, com os vários fascismos de ontem e de hoje – na afirmação de que é uma legítima defensora dos interesses nacionais, de que sua ação visa a promover a “grandeza da Pátria”, transformando o Brasil numa “grande potência”. Atritos relativamente insignificantes com o governo norte-americano (a questão das duzentas milhas, a recente ameaça velada de diminuição da ajuda militar, etc.) são agigantados, mistificados, de modo a justificar a pretensão dos governos ditatoriais de cumprirem uma política “autônoma” e nacionalista.

Bastaria uma sumária análise da atitude da ditadura diante do capital estrangeiro, ao longo destes treze anos, para desmistificar completamente essa pretensão. E a suposta “autonomia” da política externa brasileira, se recordarmos atos que vão desde a intervenção em São Domingos até a aberta participação nos golpes que derrubaram os governos progressistas do Chile, da Bolívia, etc., ruiria como um castelo de cartas e revelaria sua verdadeira face: a de contribuir para a consolidação do domínio imperialista na América Latina. O caráter “entreguista” e pró-imperialista do regime implantado no País após o golpe de 1964 é uma verdade já suficientemente conhecida pelo povo brasileiro.

Mas, como toda verdade, também essa precisa ser concretizada caso pretenda explicar aquilo que Lenin chamou de “astúcia” da realidade. Por trás da demagogia nacionalista do fascismo brasileiro, ocultam-se alguns problemas reais, que nós comunistas não devemos subestimar. Em primeiro lugar, o tipo de desenvolvimento dependente não elimina a possibilidade de que o conjunto do capital monopolista instalado em nosso país (nacional, estatal, mas também multinacional) possa eventualmente, em certas circunstâncias, entrar em atrito com determinadas medidas adotadas pelos governos dos países imperialistas aos quais estamos objetivamente subordinados; uma expressão real dessa possibilidade foi a atitude assumida pelo governo brasileiro diante das restrições que prejudicavam não apenas o capital nacional, mas até mesmo, em alguns casos, empresas multinacionais instaladas no País.

Em segundo lugar, o debilitamento da hegemonia norte-americana sobre o bloco das nações ditas “ocidentais”, abrindo espaço para um aguçamento das contradições inter-imperialistas (com o fortalecimento sobretudo da Alemanha Federal e do Japão), possibilita às classes dominantes das nações dependentes uma relativa margem de manobra, a qual nem sempre é usada no sentido de beneficiar os interesses populares, mas frequentemente no de reforçar a reprodução do capital monopolista (privado e estatal) do país dependente. Os governos ditatoriais brasileiros não tem deixado de utilizar essa possibilidade, ainda que numa proporção menor que alguns governos liberais de outros países dependentes, como os da Venezuela e do México. O acordo atômico com a Alemanha Federal inclui-se numa problemática desse tipo; se é verdade que sua assinatura evidenciou um contraste com certos interesses do imperialismo norte-americano, não é menos verdade que expressou objetivamente uma confluência entre os interesses do imperialismo alemão-ocidental e aqueles do complexo militar-industrial brasileiro em fase de expansão e consolidamento.

O importante, portanto, é ressaltar que essas medidas de “autonomia” em face do governo norte-americano não põem em discussão a subordinação da economia brasileira ao sistema mundial do imperialismo. Elas não alteram a essência das relações de dependência, mas contribuem mesmo para diversificá-las e, nesse sentido, para aprofundá-las. Porém, ainda mais importante é notar que as medidas de “autonomia” – por exemplo, tanto a recusa do controle internacional sobre a questão dos direitos humanos quanto a assinatura do acordo atômico – são tomadas precisamente com o objetivo de consolidar o tipo de dominação fascista assumida pelo CME no Brasil de hoje, reforçando a militarização da vida nacional.

Em tais condições, seria imperdoável que segmentos da frente democrática de oposição – em nome de um “acordo nacional” colocado objetivamente em termos de capitulação – confundissem esse esse “nacionalismo” reacionário da ditadura com o autêntico nacionalismo antiimperialista e democrático, pelo qual vem se batendo há tanto tempo as forças mais consequentes do povo brasileiro, em particular os comunistas. As medidas nacionalistas são por nós concebidas como elemento indispensável da transformação democrática do nosso País; por isso, além de implicarem evidentemente em um combate decidido contra todas as formas de dependência, exigem a permanente presença das massas populares organizadas nas grandes decisões políticas nacionais. Por outro lado, enquanto se propõem lutar pela defesa da nação contra a espoliação imperialista, não possui nenhuma conotação xenófoba ou expansionista; requer, ao contrário, a concreta colaboração com todas as nações empenhadas num combate similar contra o imperialismo e em favor da distensão mundial. Trata-se, portanto, de um nacionalismo aberto à mais ampla solidariedade internacionalista.

De natureza inteiramente oposta é o “nacionalismo” pregado pela ditadura. Antes de mais nada, ele deixa na sombra – ou mistifica conscientemente – a questão crucial do antiimperialismo. Mas, além disso, não dissimula o seu caráter expansionista, concretizado na ideia fascista da formação de uma “potência brasileira”. Com todas as consequências militaristas que isso comporta (criação de um complexo industrial-militar em detrimento da melhoria da qualidade da vida do nosso povo, afirmação de um papel hegemônico do Brasil na América Latina, etc.). E tal “nacionalismo” não esconde ainda a sua natureza claramente elitista, antidemocrática; o conceito de “segurança nacional”, apresentado como condição para a transformação do País numa “grande potência”, desemboca na concepção de que a política – o debate democrático – divide a nação, gerando conflitos que a “enfraquecem”. Como os fascismos de Hitler ou de Mussolini, também o brasileiro utiliza a ideia de Nação enquanto meio para negar a luta de classes na teoria para justificar a repressão da classe operária na prática.

Os democratas brasileiros não podem vacilar diante da denúncia desse tipo de nacionalismo, que serve objetivamente a interesses antinacionais e antidemocráticos. Mas tampouco podem, em sua justa reação ao chauvinismo fascista, cair no extremo oposto, ou seja, numa subestimação niilista da importância da questão nacional nas lutas democráticas de hoje. Não podemos aceitar a falsa antinomia – colocada e utilizada pela própria ditadura – entre nacionalismo e democracia. Não se trata de contrapor medidas liberalizantes, a um suposto nacional-estatismo de fundo autoritário, mas sim de opor um autêntico nacionalismo democrático e popular às manobras demagógicas e “patrioteiras” de um fascismo objetivamente entreguista.

[ARTIGO] TRABALHISMO E HEGEMONIA: A NOSSA ESTRATÉGIA PARA A VITÓRIA!


Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira


A equipe da revista A Coisa Pública Brasileira traz para o público a reprodução da tese originalmente publicada na Tribuna Trabalhista da Fundação Leonel Brizola/Alberto Pasqualini, escrita pelo camarada Daniel Albuquerque Abramo e defendida pela APR como tese no grupo de trabalho de organização e comunicação partidária na ocasião do VI congresso nacional do PDT que ocorreu durante o ano de 2024.

Naquela oportunidade, a APR foi de suma importância na luta para que o termo socialismo, que havia sido retirado arbitrariamente do estatuto do partido no ano de 2022, retornasse ao estatuto do PDT, fazendo-justiça para com a história de nossa cultura política. Exatamente por isso, é importante entender esse que é um dos textos que orientam o pensamento, o planejamento, e a prática da Ação Popular Revolucionária enquanto organização política da classe trabalhadora para os próximos anos. Desejamos uma boa leitura e reflexão.

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TRABALHISMO E HEGEMONIA: A NOSSA ESTRATÉGIA PARA A VITÓRIA!

Por: Daniel Albuquerque Abramo.

“Se esse rumo assim foi feito, sem aprumo e sem destino,
Saio fora desse leito, desafio e desafino,
Mudo a sorte do meu canto, mudo o Norte dessa estrada.”
A estrada e o violeiro, Sidney Miller e Nara Leão.

Introdução:

Passam as eras, alternam-se superficialmente os inimigos, mas, pela força evocada em sua memória, um espectro continua a rondar o Brasil. O Trabalhismo, legítimo representante do socialismo brasileiro, se mostra sempre disposto a entrar na batalha pelo destino de nossa nação e povo. Todo trabalhista consegue perceber esse chamado da história. Estaremos à altura de nossa missão?

Os rumos de nosso país, em estado tão decrépito, aviltado e saqueado pelos interesses de uma classe dominante mesquinha e vendilhona e pela cobiça internacional, nos demonstram diariamente que está para cair de podre todo o consenso econômico neoliberal, sustentáculo intelectual da classe dominante utilizado para legitimar o alto nível de exploração de nosso povo. O desfinanciamento da educação pública superior, a inabilidade em lidar com os extremos climáticos, são apenas alguns dos sintomas evidentes da crise do neoliberalismo. Um dado inescapável.

Toda a ordem política e econômica está por um fio, e a nação clama, ainda que sem consciência, por profundas reformas que coloquem o Brasil de volta no grande jogo internacional com soberania e autonomia, e garantam bem-estar e melhores condições para nosso povo. Contudo, se desde 2016, sentindo o chamado do próprio espírito do tempo, o trabalhismo brasileiro, cultura política que, a partir de experiências concretas na história brasileira, melhor representa as soluções e respostas para tais dilemas, apresentou algum crescimento, desde 2022 o movimento trabalhista se encontra com um grave problema.

O trabalhismo brasileiro tem as respostas para o Brasil, mas para poder aplicar suas soluções, precisa chegar ao poder. Se os trabalhistas entenderam corretamente que a Nova República, em sua essência, representa uma marcha cada vez mais acelerada rumo à República Oligárquica, não fomos capazes de elaborar uma sólida estratégia capaz de nos colocar no caminho da vitória.

Pior que isso, após o “desafio” feito pela hegemonia da esquerda a partir de 2016, e com a grave derrota eleitoral em 2022, o movimento trabalhista encontrou momentos de perigosa paralisia, falta de unidade, e falta de rumo teórico e prático. Nesse sentido, o presente ensaio visa oferecer algumas soluções para o VI Congresso Nacional do PDT, e uma estratégia para o trabalhismo brasileiro recuperar seu lugar de direito, a partir da crítica aos nossos maiores equívocos e fragilidades, e encaminhamentos para resolução de tais problemas.

Não devemos ter medo de polêmicas decorrentes de tal debate, nem de contradições. A realidade se demonstra por demais contraditória, e a perfeição não existe no real, se trata apenas de uma ideia, não é nada mais que um conceito. Exatamente por isso, começaremos uma detalhada análise, feita de forma crítica, às claras, sem sofismas, sobre o momento vivido pelo movimento trabalhista, e em especial, pelo representante legítimo desta tradição, o Partido Democrático Trabalhista.

2: Sobre a crítica e a rejeição a uma visão idealista da história:


Para aprofundarmos nossas críticas, se faz necessário que façamos uma ponderação inicial. É importante elucidar sobre o equívoco de se ter um visão da história voltada para grandes personagens, enquanto se ignora as estruturas sociais, classes sociais e forças que disputam o poder político em determinada sociedade em determinada era ou em determinado contexto.

Ou seja, é importante salientar que para fins de análise crítica, rejeitamos um entendimento idealista sobre a história e sobre a filosofia da história. Além disso, antes de uma detalhada análise crítica, é importante reiterarmos nosso compromisso com o movimento trabalhista. A crítica, quando feita de forma universalista e em abstrato e de má-fé, se transforma em um mero mecanismo do divisionismo, porém quando bem direcionada, é a chave para solução de problemas e equívocos e pode ser uma das ferramentas que irá nos levar à redenção.

3: Por que nosso último desafio pelo poder fracassou?


Em toda essa trajetória citada anteriormente, de 2016 até 2022, contudo, já estavam presentes grandes problemas que posteriormente se mostraram cruciais para a derrocada trabalhista no primeiro turno da última eleição presidencial. Problemas estes que foram ficando bem perceptíveis no espaço de tempo compreende os anos de 2018 e 2022.

A não existência de um ecossistema de mídias trabalhistas forte o suficiente para sustentar nossa visão de mundo e opiniões nos tornava alvos fáceis para toda a sorte de distorções, polêmicas inúteis e factoides, sem termos como nos expressar ou reagir da maneira apropriada. Além disso, impossibilitou uma disputa real pela hegemonia de visão de mundo da sociedade. Com isso, foi impossível expressar o ponto de vista trabalhista da história e cativar a classe trabalhadora.

A falta de formação política, de alguns quadros partidários que desonram nossa tradição e história em votações absurdas, bem como de “simpatizantes” não-filiados, que humilham nosso legado a bel-prazer na sociedade do espetáculo, e escarram na história de quem construiu o partido, minava nossa imagem perante a opinião pública. Se faz mister pontuar também que, a falta de formação política, de certa forma, também foi um fator que atrapalhou a unidade interna do movimento trabalhista.

Para além dos problemas anteriormente citados, outras questões, como, por exemplo, a falta de organicidade e organização, sequelas do fisiologismo, impediram que, em uma disputa extremamente assimétrica pelo poder, pudéssemos ter mínimas chances de êxito.

4: Considerações aprofundadas sobre tais problemas:


A questão da mídia e o movimento trabalhista:


O Partido Democrático Trabalhista é, considerando história e estrutura, o segundo maior partido da esquerda brasileira no pós-democratização. Tanto em sua base quanto em sua direção existe um número infindável de jornalistas, marqueteiros, propagandistas, agitadores, intelectuais orgânicos, artistas, dentre outras profissões e ofícios que de alguma forma envolvam o setor da mídia. Além disso, o trabalhismo brasileiro, por ser uma cultura-política e por ter participado na criação de nossa identidade nacional, tem uma rica história quando a questão é comunicação entre o partido e nossas lideranças políticas e as massas.

Exatamente por isso, é incompreensível que as mídias relacionadas ao PDT e ao trabalhismo tenham atuado tão aquém do que mereciam e poderiam ser de 2016 até os dias atuais. É, também, lastimável e impossível de não ser mencionado o fato de que isso se deu não por falta de material humano, visto que desde 2016 foram fundados, de forma independente, inúmeros grupos de mídia trabalhista, revistas, e projetos do gênero.

Em suma, falhamos em nos atentar e fortalecer de forma séria e planejada todos os mecanismos indispensáveis para o fortalecimento e manutenção de nossa cultura política, que visam disputar a opinião pública e a hegemonia do pensamento da sociedade brasileira, em geral, e não apenas como finalidade de marketing político eleitoral.

É mais uma das sequelas do eleitoralismo e de uma prática fisiológica, ao qual o Partido Democrático Trabalhista recorreu, para se manter vivo em determinado período de necessidade. Mais uma das correntes que o partido tem que romper se quiser disputar realmente o poder com seriedade a médio e longo prazo. Por mais que o partido e a fundação Leonel Brizola/Alberto Pasqualini tenham tomado algumas medidas louváveis, a execução estadual e municipal por norma se demonstrou insuficiente em muitas localidades e em muitas ocasiões.

A questão da mídia se mostrou central tanto em 2018 quanto em 2022. Foi exatamente por esse fato que, por mais que o movimento trabalhista quisesse dar explicações importantes e sérias sobre o processo eleitoral de 2018, a tese de que “Ciro foi para Paris e ajudou Bolsonaro”, por exemplo, se tornou senso comum, sem que conseguíssemos reparar ou corrigir uma série de tristes injustiças que foram cometidas conosco e nossa imagem no processo.

A falta de formação política, organicidade e organização:
A falta de formação política foi um dos maiores e mais graves equívocos demonstrados em tal período. Isso acabou refletindo tanto nas atitudes de alguns quadros partidários envolvidos em votações absurdas, bem como pela prática e argumentações bizarras de “simpatizantes” não-filiados que exibiam posturas abertamente contra os princípios de nossa cultura política.

Por mais que o Partido Democrático Trabalhista, a Fundação Leonel Brizola, e a Juventude Socialista tenham tentado estabelecer projetos distintos de formação política, e que estes tenham obtido relativo grau de sucesso, pela não existência de um forte aparato reprodutor para impulsionar a cultura política trabalhista, tais iniciativas ficaram restritas a um grupo de pessoas, sobretudo jovens da Juventude Socialista e alguns outros movimentos partidários e núcleos de base.

Exatamente por isso, tais iniciativas não foram fortes o suficiente para promover a assimilação dos “ciristas” nem tampouco os cativar para descobrir, na totalidade, o ponto de vista trabalhista da história, ficando estes, quando muito, restritos a uma visão meramente “nacional desenvolvimentista” em termos econômicos.

Vânia Bambirra em seu texto de título “Formação política”, demonstra que a questão nunca foi, e isso continua válido até os dias atuais, apenas ter um número maior de militantes, em termos de quantidade, mas sim de ter, também, muita qualidade na formação de nossos quadros. Isso é um fator central para fazermos nossas reflexões, pois, de um ponto de vista estratégico, embora o PDT seja um partido de tamanho razoável em termos práticos, sempre estivemos em uma situação de “luta política assimétrica”, ou “luta política do pequeno contra o grande”, seja na luta contra a esquerda liberal pela hegemonia da esquerda, seja no cenário nacional da briga pelo poder político. Sobre isso, Vania, nos explicou em 2005, algo que já deveríamos ter aprendido:

“Ora, um partido não se afirma apenas porque tenha um grande líder, mas pela solidez de sua proposta, sua coerência e pela sua organização. Quem organiza são os quadros; se não estão preparados, sua “organização” é inepta ou personalista-oportunista. Em sua época, Lenin dizia preferir dez militantes inteligentes do que cem bobos (a citação é do livro Que fazer?). As condições de luta eram adversas na Rússia Czarista e o partido era clandestino. Porém, além de uma proposta imediata para organização partidária eficaz, o que ele queria dizer era que dez homens bem preparados mobilizam milhares enquanto cem despreparados não mobilizam nada.” Formação Política, escrito por Vânia Bambirra no ano de 2005.


A crença por algumas lideranças de que a única forma de atuação partidária deva se dar nas vias estritamente parlamentares e o ponto de vista que enxerga a política eleitoral como um fim em si causaram impactos negativos na práxis do movimento trabalhista. As sequelas do fisiologismo, bem como interesses regionais também impediram a sistematização de uma linha ideológica partidária coesa no sentido nacional, algo que era um problema já no período de 2018 até 2022, e continua sendo um problema custoso para o Partido Democrático Trabalhista no presente momento, minando nossa organicidade e organização.

A recorrente prática de filiação de caciques locais e seus quadros e apoiadores, suprimindo lideranças orgânicas ainda em construção, visando um atalho na estratégia eleitoral local, não raro mina a coerência e alinhamento ideológico da militância em nome de um pragmatismo que afirma garantir nossa sobrevivência no presente, mas que pouco a pouco, pode matar nossa chance resistir como fio da história no futuro, deixando com isso, órfãos os nossos mortos do passado, cuja memória com tanto afinco defendemos.

Por isso, é impossível abordar o tópico formação política e não salientar que, muitas vezes, o mau exemplo de quadros e lideranças, tanto em votações, declarações ou atitudes, não se deu por falta de oportunidade de entrar em contato com a história de nossa cultura-política e práxis, mas por absoluta e deliberada recusa por parte destas pessoas que usam o PDT enquanto desprezam o trabalhismo.

Infelizmente, nosso aparato de propaganda e de formação política, quase não entraram em contato com a base não filiada que orbitou nosso partido entre 2016 e 2022. Isso é um grande erro, pois o movimento trabalhista, infelizmente, está longe de ter a maior militância do país ou de nosso campo. Exatamente por isso, pelo caráter assimétrico da luta política que trava, tem que ser sagaz nas alianças que faz, e precisa ter um grau elevado de organização, qualificação e mobilização em sua militância. Talvez essa seja uma de nossas maiores derrotas coletivas enquanto movimento. Poderíamos ter capitalizado melhor, em termos de cativar e formar novos militantes, o período de crescimento ocorrido de 2016 até 2022.

Sobre o desafio derrotado e a frustração:


Evidentemente, se faz necessário pontuar que não é prudente fazer um desafio pela hegemonia da esquerda nacional sem ter uma máquina de mídia e propaganda, alto nível de organização e formação dos quadros, e sem um movimento de massas que consiga sustentar tal empreitada, e esperar resultados diferentes do que uma derrota. Exatamente por isso, devemos pensar nesse ponto em autocrítica, fugindo do escapismo reacionário e imobilista de culpar os outros por nossos equívocos e nossas fraquezas.

Não é produtivo para o trabalhismo brasileiro, após fazer um desafio pela hegemonia da esquerda nacional, que culpemos nossos adversários e rivais por nossas próprias fraquezas e fragilidades. Não podemos, enquanto movimento, estar aquém de nossa missão histórica. Devemos trabalhar com seriedade, para construir as bases materiais e culturais de um Brasil trabalhista.

Os arautos do absurdo e intelectuais orgânicos da burrice que insistem em estimular esse sentimento justo, porém mal direcionado, de revolta ante a injustiça sofrida no processo eleitoral, além de muitas vezes praticarem revisionismo com nossa história, nos impedem de avançar e fortalecer nossa posição enquanto partido e enquanto movimento na disputa contra a esquerda liberal pela hegemonia da esquerda, em geral, na luta pelo poder.

5: Encaminhamento para corrigir tais equívocos no VI Congresso Nacional


A questão da disputa pela hegemonia e visão de mundo e da formação política:


1 – Elaborar uma estratégia partidária, de médio e longo prazo, séria e meticulosa de propaganda e cultura que envolva a criação de uma editora, jornais, revistas, tanto físicos quanto digitais o lançamento de livros relativos a nossa teoria política, que promova e garanta a logística para palestras e formações políticas sistemáticas e em massa, que promova e facilite a atuação de quadros políticos como “influenciadores no debate público”, que promova e facilite a atuação de quadros políticos que atuem no setor cultural ou artístico.
Em suma, todos os mecanismos indispensáveis para o fortalecimento e manutenção de nossa cultura política, que visam disputar a opinião pública e a hegemonia do pensamento da sociedade brasileira, em geral, e não apenas como finalidade de marketing político eleitoral.

2- Fortalecer os cursos que já existem na Universidade aberta Leonel Brizola, com apoio da Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, instituindo mais mecanismos de fomento para pesquisa e produção de novos conteúdos teóricos acerca do passado e do futuro de nossa cultura política de forma a começar a competir no ramo da produção do conhecimento, com uma estratégia de médio e longo prazo para que este polo de conhecimento represente com excelência o pensamento social brasileiro no debate público e acadêmico.

A questão da organização e organicidade:


1- Elaborar junto a todos os movimentos partidários uma estratégia partidária com projetos concretos para multiplicar e expandir os níveis de trabalho de base como ocupações, pré-vestibulares sociais, projetos sociais esportivos e de laser, e todas as atividades e trabalhos sociais para além do cretinismo parlamentar, que ajudam a disputar o coração e a visão de mundo da população local construindo organicidade para criar condições de hegemonia, bem como estabelecer uma estratégia partidária de apoio logístico e de estrutura aos Núcleos de Base.

2 – Expandir os níveis de democracia interna em alguns espaços de nosso partido onde ela ainda funciona de forma precária, pois isso afeta diretamente o grau de organização e mobilização de nossa militância, especialmente em função do interesse local de certas lideranças, em detrimento do interesse partidário, de nossos valores, princípios, visão de mundo e de qualquer razão de partido.

3 – Estabelecer uma criteriosa estratégia de formação, qualificação e promoção dos quadros, desde a Juventude Socialista e o movimento estudantil, de forma que, no futuro próximo, nenhum parlamentar, candidato ou dirigente local de nosso partido seja um estranho sem nenhuma ligação com a cultura política do trabalhismo brasileiro e nossa visão de mundo, princípios e valores.

6: Sobre os movimentos de massa, a disputa pelo poder, e o trabalhismo:


O contexto de rápida transição tecnológica, atrelado a quarta revolução industrial, representa uma brusca mudança na intensidade dos fluxos de informação, impactando profundamente no setor midiático e de propaganda. Isso é visível sobretudo no terceiro mundo, por conta das assimetrias da globalização e da escalada de competição e da guerra de propaganda entre os países centrais do capitalismo e os BRICS. O avanço de tais formas de mídia, atrelados a mídia convencional, e da interação das pessoas com elas, bem como suas formas de utilização política pelas classes sociais, tem relação direta, por exemplo, com o fato da década passada, de 2010 até 2020, ser, em sua essência, uma década de mobilizações de massa no Brasil.

Podemos ponderar, por exemplo, quanto a natureza artificial de certos movimentos de massa que tem apoio tanto da classe dominante submissa local, quanto do imperialismo, mas não podemos negar a centralidade da luta de massas na luta pelo poder político no Brasil. A direita e a extrema-direita, a partir da legitimidade gerada por seus movimentos de massa artificiais e suas mídias, sacramentaram um golpe no Brasil em 2016. Além disso, é importante notar que a adesão de maior parte dos partidos de esquerda ao neoliberalismo progressista e ao cretinismo parlamentar amansou e destruiu a capacidade de mobilização de massas da esquerda.

O trabalhismo, verdadeiro socialismo brasileiro, não deveria ter vergonha de representar esse papel histórico de construir um movimento de massas socialista no Brasil do século XXI. O trabalhismo brasileiro é responsável, junto ao movimento comunista, por formar grande parte da identidade cultural nacional brasileira e também de nossa esquerda durante o século XX.

Isso, contudo, não virá espontaneamente através de nossa militância, nem a partir de um esforço individual. Pelo contrário, se a classe dominante e seus movimentos contra-revolucionários e golpistas tem apoio interno e externo, financeiro e de mídia, o movimento trabalhista, partindo sempre de um confronto assimétrico em posição de desvantagem, precisa mais do que nunca do apoio, organização, logística e decisão estratégica de nosso partido. Se precisamos disputar a história e a historiografia, por exemplo, não existe desculpa para nível baixo de um trabalho sistemático de nosso partido e de nossa fundação para disputar a historiografia. Nenhuma universidade irá patrocinar uma retomada da visão de mundo trabalhista.

Não existe entidade estrangeira, oligarca, personalidade pública, rede de mídia, que possa ou tenha interesse em auxiliar na criação de movimento de massas trabalhista. A única organização ou entidade que se importa e é responsável por isso é o Partido Democrático Trabalhista, e é exatamente por isso que os trabalhistas têm que fortalecer seu partido, enquanto buscam melhorar seus equívocos e assimetrias internas, para dar fim às sequelas do fisiologismo e do cretinismo parlamentar e resolver a questão “cirista”, que continua a ser um potencial mal aproveitado pelo partido.

7: Conclusão – Um chamado para que todos os trabalhistas sigam esse caminho!


Vivemos um contexto marcado pela coexistência de importantes fatores em diferentes planos, tais quais, a formação gradual de uma nova ordem mundial, a crise do neoliberalismo ao nível nacional e internacional, e a existência de um período propício para disputa de movimentos de massas. Além disso, é verificável em vários casos que, tanto no continente americano quanto na Europa ocidental, a adesão de grande parte da esquerda ao neoliberalismo acabou por influenciar no crescimento da extrema-direita, em um contexto que a esquerda abdica de seu papel transformador para com a nação e a classe trabalhadora, e tenta humanizar o projeto político e econômico da direita.

O movimento trabalhista e seu partido, tem que entender tal contexto com uma dupla reflexão. Se por um lado os desafios são imensos e a responsabilidade histórica é tremenda, por outro lado, o movimento trabalhista detém a melhor posição a médio prazo, se souber batalhar na disputa corretamente. Isso se dá, pois, a visão de mundo trabalhista é naturalmente multipolar em relações internacionais, nacionalista popular e anti-imperialista, sua visão econômica é extremamente crítica ao neoliberalismo, inclusive nas esquerdas, e, enquanto representante do socialismo brasileiro, o trabalhismo esteve historicamente conectado com intensos momentos de mobilização e disputa de massas.

Em outras palavras, de um ponto de vista geral, o trabalhismo brasileiro está bem posicionado teórica e ideologicamente para a nova ordem mundial que se desenha com a ascensão dos BRICS, tem um programa político e econômico minimamente compatível com o contexto de quarta revolução industrial e crise do neoliberalismo, e, como crítico desse modelo, se não capitular ao social-liberalismo, por seu tamanho e história, tem grandes chances na disputa pela hegemonia dentro da esquerda contra seus adversários, bem como na disputa pulsão por transformação social contra a extrema-direita.

O movimento trabalhista deve, portanto, negar as armadilhas e tentações da frustração pelo desafio vencido e as injustiças do processo, e deve corrigir certa postura reativa por parte de alguns companheiros e simpatizantes, que acabam inconscientemente nos jogando para uma posição de centro e centro-direita. Precisamos estar atentos contra qualquer desvio de direita, ou desvio social liberal e manter nossa posição e trabalhar para construir um movimento de massas para termos força e condições de uma futura disputa pelo poder. O Trabalhismo Brasileiro em sua história, como mostra o exemplo de Roberto Silveira na interiorização e crescimento do antigo PTB, sempre cresceu e rendeu mais quando se colocou no papel de radical defensor de uma esquerda nacional-popular e do socialismo brasileiro.

Exatamente por isso, o Partido Democrático Trabalhista, em seu VI Congresso Nacional, deve tratar e debater com extrema seriedade e urgência a disputa pela visão de mundo e hegemonia da sociedade brasileira para além da questão eleitoral, e a criação de um movimento de massas relativo ao trabalhismo brasileiro e sua cultura política, com a criação de estratégias de longo prazo para fomento e financiamento a mídias, editora, formação política, e a execução de projetos sociais a partir de movimentos e núcleos de base, bem como a disputa pela produção do conhecimento a partir da Fundação Leonel Brizola e da Universidade aberta Leonel Brizola.




Fontes utilizadas:

Originalmente publicado pela Tribuna Trabalhista da Fundação Leonel Brizola.

[EDITORIAL] Sobre a baixa popularidade do governo e a política econômica.

Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.

Diante do atual debate que ocorre na esquerda brasileira, em um contexto de forte queda de popularidade do governo, a revista A Coisa Pública Brasileira, que se orgulha por ter ajudado a formar e a moldar a visão de mundo de uma geração de trabalhistas e socialistas, não poderia fugir da responsabilidade de lançar o presente editorial. Com este texto, almejamos auxiliar a reflexão dos camaradas da Ação Popular Revolucionária e demais trabalhistas e socialistas nesse debate sobre economia política.


Introdução:

Lula tem a pior popularidade em um governo em toda sua história política. Avisos não faltaram, de que o resultado dessa política econômica neoliberal e o austericídio levados a frente por Haddad e quejandos seria exatamente esse. Agora a matilha de analistas chapa-branca e demais bajuladores ficam tontos e aparvalhados. Alguns, pulando do navio, já até mesmo lançam cartas públicas contra o governo.

O motivo de tal queda de popularidade é muito simples, e, para além disso, um tanto quanto óbvio. Alertamos, junto a nosso campo político, desde as eleições de 2022, que se o novo governo adotasse uma abordagem social-liberal em matéria de política econômica, aderindo a fantasia fiscalista e a amplas concessões à classe dominante, não punisse os militares de maneira rápida e efetiva, e não cumprisse as promessas de campanha, derreteria sua popularidade e ficaria sujeito até mesmo a algo pior, como um golpe.

A política econômica do governo, contudo, não mobiliza nem agracia a maior parte dos trabalhadores com melhorias substanciais, embora existam melhorias em pequenos setores focalizados, no geral, seguiu-se a lógica do Plano Ponte para o Futuro, de Michel Temer.

AFINAL, A ECONOMIA BRASILEIRA VAI BEM?

Quando confrontados com a baixa na popularidade de Lula e seu governo, muitos influenciadores e formadores de opinião caem numa armadilha conceitual, ou iludem propositalmente sobre a realidade. Seja proposital ou não, a maioria tem seguido um discurso que diz algo como:

“Se a economia não está ruim, e o governo está realizando projetos, só pode ser um problema de comunicação!”

Que não se trata de um problema de comunicação, mas um problema de orientação e foco das medidas tomadas pelo governo até aqui, já comentamos nas ultimas publicações. O fato das maiores realizações do governo serem de natureza pró-mercado e anti-povo, como o Novo Arcabouço Fiscal, com certeza é um problema muito maior do que a comunicação morna e muitas vezes fora de tom.

Gostaria de falar hoje, contudo, sobre o primeiro pressuposto utilizado na argumentação pró-governo acima destacada, a falsa crença de que “a economia vai bem.” Para refletir sobre isso, deveríamos pensar em algumas perguntas:

1-Quais os critérios para saber se a economia está realmente boa?

2-Se está tão boa, porque os efeitos disso não são notados?

3-Se está boa, isso é em relação a quais países?

4-Se está boa, está boa para quem?

Não almejamos aqui neste editorial responder nenhuma dessas perguntas de forma específica, pois gastaríamos muitas linhas com cada uma delas. Mas, é possível responder de forma bem geral, que economia não é uma ciência exata que estuda fenômenos da natureza, mas uma ciência social que pode utilizar matemática entre suas ferramentas. Você não pode dizer que a economia de um país é boa ou ruim por si só, você tem que comparar alguns indicadores e dados com os de outros países e com mais dados do próprio país ao longo da série histórica.

O Brasil obteve uma melhora em seu indicador PIB quanto comparamos com o período Bolsonaro. Além de observar a questão dos critérios para elaboração de alguns indicadores, deveríamos comparar e almejar ser levemente melhores do que o pior período de nossa história? É necessário que sejamos sinceros, uma taxa de crescimento menor que 5% ao ano, com alguns períodos de crescimento realmente muito abaixo desse padrão de outros países emergentes, não é nada de impressionante do ponto de vista do crescimento econômico.

O Brasil, desde a década de 90, quando comparado a outros membros dos BRICS e outros países emergentes, tem um déficit de crescimento, que se acumulou e se tornou pior na década de 2010. Ainda hoje, as taxas de crescimento do Brasil são baixas para um país emergente, e mais baixas ainda, quando comparado com o potencial que o Brasil tem e pro que se imagina ou se espera do país.

Para além disso devemos entender que mesmo o PIB demonstrando leve e desanimado crescimento, pela organização econômica do país, isso não significa que o Brasil tenha realmente enriquecido. O PIB é, superficialmente, a soma do valor das riquezas produzidas e serviços operados em determinado país.

Em uma economia organizada como a nossa, primarizada entre o agro e a exploração extrativista de recursos naturais e rentismo, setores onde o lucro é privatizado e em um país com grande concentração de riqueza que não taxa ou tributa tais atividades econômicas, o aumento do PIB não representa em absolutamente nenhum ganho relevante para a coletividade brasileira, já que a maior parte desses recursos fica com o 1% dos brasileiros mais ricos (latifundiários e rentistas) e com “acionistas estrangeiros” naquilo que Leonel Brizola chamava de perdas internacionais. Quase nada disso retorna para a coletividade brasileira na forma de infraestrutura, direitos, serviços públicos etc etc.

Outro exemplo que merece ser destacado, é o índice de desemprego. Segundo o governo, o Brasil vivencia o menor nível de desemprego da série histórica. Contudo, os critério para medição e aferição do desemprego mudaram drasticamente desde o golpe de 2016, e os subsequentes governos de Michel Temer e Bolsonaro. A mais brutal informalidade, e as novas formas distópica de semi-escravidão pós moderna a partir de aplicativos, são consideradas positivamente no cálculo de tais indicadores. Até mesmo a luta contra a escala 6×1, a pauta trabalhista mais importante de nossos tempos, que numa visão oportunista pragmática clássica poderia conferir alguma popularidade ao governo, é ignorada e negligenciada.

Nesse sentido, por mais que tenha melhorado alguns de seus indicadores, as maiores realizações do governo em termos de foco, foram pró mercado. A manutenção das reformas ultraliberais de Temer, sem tentativa de luta política, legitimando diretamente o projeto Ponte Para o Futuro do Golpe de 2016, como com a criação do Novo Arcabouço Fiscal ou da precificação dos combustíveis que impacta no custo dos alimentos mantendo parte substancial do antigo PPI.

As propostas de campanha não foram cumpridas, as privatizações e a reforma trabalhista e da previdência ultra liberais foram mantidas e no lugar, um projeto liberal com obsessão na questão fiscal foi implementado. Um projeto Liberal que foi mais competente que Temer e Bolsonaro, é verdade, mas para beneficiar e excluir as mesmas pessoas. Que tipo de pessoa acredita que, por exemplo, a cruzada anti-povo contra os “fraudadores do BPC” e a limitação de crescimento anual do salário mínimo não iriam ter um impacto negativo na avaliação de Lula e do governo?

E no final de tudo, ao invés de assumir uma postura crítica, muitos procuram bicho papão e teorias da conspiração, onde não existe espaço para tal, outros alegam ser um problema de comunicação, como forma polida de dizer que faltou mentir melhor.

SOBRE O PROBLEMA DO AUMENTO DE PREÇOS:

O problema do aumentos dos preços dos alimentos não é um problema de origem unicamente monetária, muito menos um problema de origem fiscal. Se trata, na verdade, também de um problema produtivo e do foco exportador de nossa produção agropecuária de tendências monocultoras.

Sim, é verdade, que em tese, é possível resolver, de forma indireta, parte da questão do ponto de vista da moeda, se esforçando muito para fortalecer o real perante a alta do dólar, já que muitos desses produtos são importados e não são produzidos por aqui. Mas isso é extremamente inviável e também não depende de mero aumento da taxa de juros.

Essa meia verdade, porém, guarda em si a solução real para o problema.

Explicamos:

A forma mais simples de resolver esse problema não é indiretamente a partir do ponto de vista da moeda, mas diretamente a partir do ponto de vista da produção. A melhor resposta para o problema do aumento de preços, além de manter uma política de estoques forte e bem organizada, é passar a produzir as coisas, sobretudo os alimentos, em território nacional, escapando da dependência por importações. Isso se mostra vital, sobretudo naquilo que é essencial.

Hoje boa parte do que consumimos e também do que comemos é, em algum grau de sua cadeia produtiva, importado. Aliado ao foco monocultor do setor agro, que não produz em grande variedade e também tem o foco exportador, que visa o lucro a partir da venda para o estrangeiro. Para além disso, a própria precificação do combustível que é utilizado para translado de mercadorias, é feita de forma artificial e propositalmente dolarizado. Estes são os reais motivos do aumento de preços e é aqui, na raiz do problema, que se poderia combater tal questão.

As falsas crenças de que é o agro que abastece e alimenta a mesa dos brasileiros, junto ao mito de que o problema do aumento dos preços nos super mercados e etc deva, em nosso contexto, ser resolvido com aumento de juros, são, como se verifica, centrais para iludir quanto a real natureza do problema econômico brasileiro.

SOBRE A AÇÃO E A POLÍTICA:

Quem se coloca como “eterno escravo das condições” e não constrói contexto, é obrigado a aceitar as condições e o contexto que os outros produzem…

Na política isso consiste num erro mortal.