[Fichamento e comentário] A arte da guerra, de Sun Tzu, capítulo 1.

A coisa pública brasileira dá sequência em sua série especial de textos, discussões e reflexões sobre ciência militar. Neste segmento, selecionaremos para reprodução trechos e obras de autores clássicos, modernos e contemporâneos que abordam a área, bem como produção autorais brasileiras via colaboração cujos assuntos sejam considerados relevantes para os estudos e reflexão brasileira. Caso tenha interesse em colaborar com algum material autoral, entre em contato conosco através das nossas redes sociais. Prosseguimos com nosso estudo, portanto, com o fichamento e comentários acerca do primeiro capítulo de “A arte da guerra” de Sun Tzu, por Daniel Albuquerque (Nelson), disponível originalmente no Medium.

Capítulo 1: Planejamento Inicial — Análise:

O general Sun Tzu começa o primeiro capítulo de sua obra definindo a arte de gerir a guerra como sendo algo de fundamental importância para o Estado, e argumenta que essa é uma questão de vida ou morte, e que pode resultar em vitória ou derrota, e que portanto esta questão nunca poderia ser tratada com negligência ou de forma pouco clara. Algo que denota que Sun Tzu estava ciente da necessidade da criação de uma sólida teoria militar, pautada na realidade, com a intenção de maximizar as vitórias, e sobretudo eliminar as derrotas.

Após essa breve exposição, o autor argumenta que a arte da guerra é sempre regida por cinco fatores:

1: Leis morais;
2:Espaço;
3:Tempo e Clima¹;
4:Método;
5:Comandante;

Sobre esses cinco fatores que regem a arte da guerra, Sun Tzu nos dá as seguintes informações:

Leis morais: Sobre esse tópico, o autor nos diz que as Leis morais fazem com que os “subordinados” executem as ordens do comandante, sem recear nenhum perigo. Como antes exposto na análise da primeira sentença do capítulo, os conceitos de “Justiça ( Yì/)”, “Benevolência(Rèn/仁)” e “Integridade moral (Xìn/ )”, desempenham um papel importante para o entendimento do que o autor caracteriza como “Leis morais”. Essa categoria, “Leis morais”, dentro do sistema de Sun Tzu, diz respeito a adequação do comandante e dos comandados, a leis formais, mas sobretudo as informais, e sociais. Essa é uma categoria relacionada a unidade do grupo, em um pacto social em que seguem regras comuns. Um grupo o qual o líder estipula, preferencialmente de acordo com as necessidades de cada qual, preceitos e normas, e os segue de forma exemplar, contagiando e impactando em seus comandados, é organicamente mais unido e coeso, e pode superar adversidades. Notadamente, essa é uma categoria que versa sobre o espírito, a unidade e a moral do grupo.

Espaço: Sobre esse tópico, o autor nos diz que, o espaço inclui tanto dimensões, como distante e próximo, características do relevo, como vastidões, campos, e passagens estreitas, quanto risco e segurança, e a possibilidade de morte ou vida. Essa categoria diz respeito ao terreno, mas não necessariamente em um sentido restrito, mas em um sentido mais geral, se refere a uma série de conhecimentos geográficos. Veremos, mais adiante, Sun Tzu falar sobre espiões e inteligência militar, ainda assim, é importante destacar que, muitas vezes na história, para obter dados referentes a geografia, ao terreno, a cultura local e outras informações pertencentes ao que se refere o espírito da categoria “Espaço”, impérios cooptaram cidadãos inimigos.

Tempo e Clima: Sobre esse tópico, o autor nos diz que, essa categoria significa ao mesmo tempo, noite e dia, calor e frio, e as estações do ano. Se conhecer a geografia aparente e o relevo é bom, conhecer os climas em cada tempo, em determinado espaço geográfico é o necessário para poder utilizar com completude, o terreno como arma e armadilha

Método: Sobre esse tópico, o autor nos diz que, por método se entende a divisão do exército em subdivisões apropriadas, a organização e preservação das estradas e da logística de transporte de suprimento até onde o exército está posicionado, assim como o controle e a gestão dos gastos militares. Essa categoria, em sua lógica interna, diz respeito a forma como obteremos nossos objetivos e pontos estratégicos, bem como as ferramentas e o tipo de organização necessários para tal. O método está intimamente ligado a tecnologia.

Comandante: Sobre esse tópico, o autor nos diz uma importante frase escolhida para análise no final deste capítulo:

“O comandante apoia sua autoridade nestas virtudes: sabedoria, justiça, coragem, rigor e humanidade.”

Sobre esses cinco fatores, o autor nos diz que esses devem ser familiares a todos os comandantes e soldados, e pondera que se estes os conhecem, serão vitoriosos, senão, serão derrotados e fracassarão.

Após isso, o general, afirma que diante da dúvida de avaliação sobre quem tem mais chances de vencer e quem tem mais chances de perder em um conflito político-militar, é possível prever as tendências a partir de sete questionamentos:

1:“Qual dos dois comandantes está imbuído na moralidade?”. Em outras palavras, qual dos comandantes domina a balança moral?

2:“Qual dos dois comandantes é mais talentoso?”. Em outras palavras, qual dos comandantes é tecnicamente superior em estratégia e teoria militar?

3:“Quem é o detentor das vantagens que derivam do tempo/clima e do espaço/terreno?”.

4: “ Em que lado a estratégia é mais rigorosamente elaborada?”. Existe uma diferença grande entre ser o comandante mais talentoso, algo individual, e ter uma estratégia mais rigorosamente elaborada, algo em boa parte coletivo.

5: “ Qual é o exército mais forte?”. Em outras palavras, qual dos dois lados tem mais tropas, melhores armamentos, ferramentas e logística.

6: “Em que lado os oficiais e soldados são mais disciplinados e bem treinados?”. Tendo essa pergunta como critério, Sun Tzu demonstra objetivamente que não basta apenas ser detentor do exército mais forte para obter vitórias.

7: “Em qual dos exércitos há maior justiça, tanto na recompensa quanto na punição?”. Essa pergunta, como critério, versa sobre a unidade e o espírito do grupo, e é relacionada aos conceitos de “Justiça ( Yì/)”, “Benevolência(Rèn/仁)” e “Integridade moral (Xìn/ )”.

Após expor os cinco fatores que, segundo o autor, regem a arte guerra, e expor sete perguntas que atuam como critério objetivo para a previsão de tendências de vitória ou derrota, este alude para o fato de que uma vez que nos encontremos em posições favoráveis, para nos utilizarmos destas e nos adaptarmos ao meio.

Segundo o autor, a arte da guerra é também a arte da dissimulação. Portanto, expõe o general, quando estamos capacitados para o ataque, devemos denotar incapacidade, quando estamos perto, é interessante que nosso adversário pense que estamos longe. Sun Tzu recomenda a utilização de iscas para atrair os inimigos, bem como o ato de simular desordem interna, para esconder uma intransponível organização coletiva.

O autor segue com seus conselhos e recomenda que, se o seu oponente tem temperamento colérico, irrite-o, para derrubá-lo mentalmente e atrapalhar sua tomada de decisão. Uma estratégia observada no futebol, sobretudo, sul-americano, conhecida como “catimba”, que visa a provocação. Sun Tzu recomenda o ato de dissimular sua real força, de forma a tornar seu oponente arrogante e vence-lo de surpresa, algo certamente proibido em mesas de sinuca, onde alguns golpistas se utilizam desse estratagema para fazer certo dinheiro.

Tais recomendações parecem estar muito relacionadas ao conceito Sabedoria ( Zhì/ 智) ), previamente analisado, sobretudo quanto ao caráter ligado a astúcia e à esperteza. Para um brasileiro, se torna difícil não relacionar esses conselhos do autor aos conceitos de drible e finta, muito presentes tanto no futebol brasileiro quanto na capoeira.

Ao finalizar seu primeiro capítulo, o autor nos diz que, o comandante que vence muitas batalhas, também é alguém que planejou e pensou muito e afirma que, planejar bastante, leva à vitória, planejar pouco leva à derrota, e que não planejar nada, leva ao desaparecimento e ao esquecimento histórico. Com isso, Sun Tzu novamente nos passa a noção de que a arte da guerra é coisa muito séria para ficar entregue aos deuses ou ao acaso, e deve ser estudada e conhecida pela humanidade, para entender seus mecanismos e evitar batalhas desnecessárias.

Nesse capítulo, o teórico Sun Tzu, lança as bases fundamentais para o início do estudo sobre teoria político-militar, leitura indispensável para quem quer entender a atual movimentação na geopolítica mundial e local.

Explicação sobre conceitos importantes:



“O comandante apoia sua autoridade nestas virtudes: sabedoria, justiça, coragem, rigor e humanidade.” Sun Tzu.

Introdução:

Já nessa pequena sentença contida no primeiro capítulo da obra que é considerada, com justiça, a bíblia dos tratados militares, o general e teórico chinês Sun Tzu nos demonstra aspectos fundamentais sobre a política e a guerra, em suas diferentes facetas.

Porém, antes de tudo, para compreender tal sentença, aparentemente das mais simples, é necessário levar em consideração alguns pontos fundamentais. Todas essas cinco qualidades sob as quais o comandante supostamente apoia sua autoridade, “sabedoria”, “justiça”, “coragem”, “rigor” e “humanidade”, tratam-se de traduções que podem se mostrar imprecisas, e por demais pautadas por uma interpretação subjetiva, a partir da perspectiva e linguagem dos tradutores e difusores da obra de Sun Tzu no ocidente.

Todas essas “qualidades” são, na verdade, conceitos provenientes da própria filosofia e cultura chinesas, em grande parte tributários da filosofia de Confúcio, o que pode prejudicar em muito a interpretação da sentença, se não buscarmos entender o que originalmente quis dizer Sun Tzu, com cada um desses conceitos. A barreira da língua, sobretudo para nós brasileiros não versados em mandarim, deve ser superada por uma busca, mesmo que breve, sobre a história e os significados destes conceitos, em seu país de origem.

SABEDORIA (ZHÌ/):

Sabedoria ( Zhì/ 智) )

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Sabedoria” é formado pela junção de outros três ideogramas. Shi( 矢), que simboliza a “flecha” ou o “Juramento”, Kou(口), que simboliza “boca” e “fala”, e Rì(日), que simboliza o “dia” e a “luz”.

Juntos esses caracteres(智/ Zhì) simbolizam a “Sabedoria”, mas não qualquer tipo de sabedoria, especificamente uma sabedoria ligada a capacidade de verbalizar pensamentos e explicar a realidade. Um tipo de sabedoria referente ao bom juízo e ao bom julgamento, e que também pode ser, por vezes, utilizada como sinônimo de astúcia.

JUSTIÇA(Yì/義):

Justiça ( Yì/義)

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Justiça” é formado pela junção de dois outros ideogramas. Yáng (羊), que simboliza “ovelha” e “carneiro”, e Wo( 我), que simboliza tanto a noção de “ Eu”, quanto a de “ em si mesmo”. Cabe ressaltar que ovelhas e carneiros são vistos com bons olhos pela cultura chinesa, e por muitas vezes podem ser vistos como um símbolo da disciplina, da lealdade e do trabalho duro. Não por acaso, a junção desses ideogramas, em uma tradução literal, significaria algo como “ Tornar a si próprio uma ovelha” ou “ Eu sou um carneiro”.

Juntos esses caracteres (義/ Yì) simbolizam a “Justiça”, mas não todo e qualquer tipo de justiça, especificamente uma justiça pautada pelo auto-sacrifício e pela lealdade, em nome do correto.

CORAGEM(Yong/勇):

Coragem ou bravura ( Yong/勇)

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Coragem” ou “Bravura” é formado pela junção de outros dois ideogramas. Yòng( 用), que simboliza uma ação ou algo sendo posto em prática, como “utilizar” ou “operar” e nos trás certa noção de utilidade e bom uso de algo, e Lì(力), que simboliza “força”, “poder”, “ energia” e “habilidade”.

Juntos esses caracteres (勇/ Yong) simbolizam a “Coragem”, mas não todo e qualquer tipo de coragem, especificamente uma coragem ou bravura marcada pelo bom uso, ou seja, em nome de algo nobre, em geral do bem comum, da força, poder, e outras habilidades e qualidades em geral.

RIGOR(Xin/信):

Rigor ou Integridade moral (Xìn/ 信)

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Rigor” é formado pela junção de outros dois ideogramas. Rén(人), que significa “ Pessoa” ou “ Humano” ou “ Benevolência”,e Yán (言), que representa “opinião”,“palavra”, “promessa” e “explicação”. A junção desses ideogramas significam literalmente “Verdadeiro”, “Confiável” e de “Palavra”.

Juntos esses caracteres (信/Xìn) simbolizam o“Rigor”, mas não todo e qualquer tipo de rigor, especificamente um tipo de rigor associado ao conceito de integridade moral e daquele que é rigoroso com a própria palavra.

HUMANIDADE(仁/ Rèn):

Humanidade, Benevolência(Rèn/仁)

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Humanidade” é formado pela junção de outros dois ideogramas. Rén(人), que significa “ Pessoa”,“ Humano” ou “ Benevolência”,e Èr (二), que representa “Segundo”, “Diferente” e pode ser usado para diferenciar palavras similares.

Juntos esses caracteres (仁/Rèn) simbolizam a “Benevolência”, mas não todo e qualquer tipo de benevolência, especificamente um tipo de benevolência associada ao conceito de “Humanidade”e ”Bondade”. Este conceito é um dos pontos centrais do humanismo de Confúcio.

Analisando a sentença:

Após uma breve pesquisa sobre a origem e o significado desses conceitos, podemos finalmente analisar a sentença de Sun Tzu de forma justa, minimizando projeções provenientes de nosso tempo, língua e cultura, e tentando entender o que realmente tentou nos dizer o teórico chinês.

Ao nos dizer que o comandante apoia sua autoridade em cinco virtudes, o autor chinês já nos diz algo muito relevante antes mesmo de elencar tais virtudes. Precisamente ao nos dizer que a autoridade do comandante se apoia em algo, este nos passa a noção de que “autoridade” é condicionada a algo, as cinco virtudes nesse caso, e que por isso, esta não poderia nunca ser irrestrita,irrevogável, ou um direito natural de indivíduo ou de grupos. Pelo contrário, esta, por ser condicionada a algo, tem natureza transitória, deveria ser conquistada, e mantida através de práticas específicas.

Para além de uma nomeação burocrática para um cargo de poder, a verdadeira autoridade ante um batalhão é, antes de mais nada, uma questão política e de exemplo. Não existe soldado algum no mundo disposto a colocar sua própria vida em risco, ao seguir as recomendações e planos daqueles que ele não admira e sobretudo não respeita. Para conquistar a verdadeira “autoridade” sob suas tropas, o comandante deve, segundo Sun Tzu, executar na prática, essas cinco virtudes. Não por acaso, as práticas relacionadas aos conceitos “Justiça ( Yì/)”, “Benevolência(Rèn/仁)” e “Integridade moral (Xìn/ )”, formam o núcleo duro da manutenção da “autoridade moral” e tem a ver sobretudo com respeito, enquanto as práticas relacionadas aos conceitos de “Sabedoria ( Zhì/ )”, e “bravura ( Yong/)” são, em geral, as ideais para a conquista inicial da “autoridade” em boa parte dos casos, e tem a ver sobretudo com admiração.

Essa simples sentença de pouco mais de uma linha, quando analisada, se mostra muito mais complexa, reveladora e carregada de sentido do que nos poderia parecer à primeira vista. Isso reforça o entendimento de que nada na obra de Sun Tzu pode ser considerado como trivial, e de que o debate acerca de sua obra textual “ A arte da guerra”, deve continuar também no século XXI.

[ARTIGO] Por que o Trabalhismo e a Quarta Teoria Política são incompatíveis e inimigos ideológicos? — Uma crítica trabalhista a “nova” “moda reacionária”.

Autor: Daniel Albuquerque,
Revisão: Cíntia. X. Dias.

Aqueles que apenas reagem em negação contra a pressão da cultura de massas são inequivocamente pautados por esta, e estão mais ligados ao sistema que dizem combater do que quem de fato propõe um caminho nacional autêntico e orgânico para superação dessas pautas.

Antes de serem solução para os problemas que vivemos, a existência destes é, na realidade, um sintoma causado por anos de dominação do neoliberalismo, seja com a roupagem que for, da sociedade do espetáculo e da crescente individualização e criação de uma sociedade narcísica.

Esse é só mais um dos exemplos da importância e centralidade da “questão nacional”, observada por um pensamento socialista, em nosso período histórico. Exatamente para ampliar o entendimento sobre o tema no campo da esquerda nacionalista, este presente artigo visa demonstrar a profunda crítica à Quarta Teoria Política do ponto de vista do Trabalhismo Brasileiro. 

O que é a Quarta Teoria Política do ponto de vista trabalhista?

“Se um cavalheiro brasileiro ou estrangeiro
Só vive falando em Olavo ou em Dugin,
Eu vou me desviando
Que esse cara está bancando
O quinta-coluna pra cima de mim.

Releitura de trecho da música “Sai quinta coluna”
Antônio Nássara, Eratóstenes Frazão, 1943.

A Quarta Teoria Política é uma visão de mundo reacionária que prega a criação de “uma nova ideologia política”, em um suposto sincretismo entre o que seu criador (o filósofo russo Alexander Dugin) elenca como as “três teorias políticas campeãs da modernidade“: o liberalismo, o socialismo e o fascismo. Essa “nova ideologia política“, segundo seu autor, mira “acabar com a modernidade“.

Contudo, tudo indica que não se trate de um impulso progressista de superação quanto ao que esta tem de pior, mas um esforço retrógrado para um período bem anterior ao Iluminismo, período pregresso a todas as conquistas da própria modernidade.

Essa “nova ideologia” mira um caminho para um passado em que a classe social dos pensadores do início do século XX, em que tal visão de mundo se baseia (aristocracia, senhores de terra e a classe média de certos países) vivia a mais profunda decadência moral e intelectual e sentiam haverem sido retiradas do jogo político pelo liberalismo e pelo socialismo, ambas ideologias fruto de partes do legado da modernidade.

Tal visão de mundo está intimamente relacionada com a forma pela qual o autor pensa as Relações Internacionais e, particularmente, em sua interpretação do conceito de multipolaridade na distribuição do poder político entre as nações.

Não abordaremos as piores citações diretas de autores de tais teorias, pois não consideramos que seja de bom-tom, visto que  a intenção desse presente artigo não é a de causar o choque ou o espanto e muito menos mero denuncismo.

Contudo, cabe destacar de forma clara que Alexander Dugin baseia boa parte de seu pensamento, além de misticismo e esoterismo, no estudo do fenômeno do surgimento do fascismo na Europa do século XX. Portanto, conhece profundamente autores que organizaram intelectualmente tal movimento e o pensamento de cada um destes.

Além disso, os autores que mais influenciam o pensamento de Dugin são o filósofo Martin Heidegger, o fascista espiritual Julius Evola e o esotérico René Guénon. Partes do pensamento de tais respectivos pensadores, articulados com o modelo e a prática política e de propaganda do nacional-bolchevismo e do strasserismo, formam o núcleo duro da atuação da Quarta Teoria Política.

Tal quimera bisonha – diferente de boa parte do movimento neo-nazista no globo que se fundamenta mais centrado no conceito dialético Heideggeriano de “dasein” – vence a barreira da particularidade metafísica e gera um princípio normativo universal que, supostamente, seria particular em cada local do globo, sem perder, contudo, uma ligação com a matriz originária de seu pensamento, tornando se com um movimento internacional de extrema-direita com uma agenda distinta em princípios.

Outrossim, por se basear no ideário de matriz filosófica irracionalista e no método de análise duvidoso de um decadente membro da aristocracia do sul da Itália (o fascista espiritual Julius Evola), tal movimento de extrema-direita tem um caráter culturalista, identitário, pois não se volta para pura violência ligada ao racismo biológico, mas sim para o critério da cultura, identidade e de ethos. Exatamente por isso a Quarta Teoria Política proposta por Dugin se enquadra enquanto uma das teorias da pós-modernidade:

“E é aqui que os novos prospectos se abrem para a Quarta Teoria Política. Aquele tipo de pós-modernidade que está atualmente sendo realizada na prática, a pós-modernidade pós-liberal, cancela a lógica estrita da própria modernidade – após o objetivo ter sido alcançado, os passos para alcançá-la perdem o sentido. A pressão da concha ideológica se torna menos rígida.

A ditadura das ideias é substituída pela ditadura das coisas, senhas de login e códigos de barras. Novos buracos estão aparecendo no tecido da realidade pós-moderna. Como a terceira e segunda teorias políticas, concebidas como uma versão escatológica do tradicionalismo, uma vez tentaram “colocar uma sela na modernidade” em sua luta com o liberalismo, a primeira teoria política, hoje há uma chance de conquistar algo análogo com a pós-modernidade, usando esses “novos buracos”, em particular. […]

A Quarta Teoria Política deve buscar sua “inspiração sombria” na pós-modernidade, na liquidação do programa do Iluminismo e na chegada da sociedade do  simulacro, interpretando isso como um incentivo para a batalha, ao invés de como um dado fatal.” Alexander Dugin, Quarta Teoria Política, p. 36.

Na época em que a forma de produção no sistema capitalista assume sua descentralização e modo de produzir personalizado, se fundamentando cada vez mais no consumo em cima de desejos e particularmente no desejo de “pertencer”, a Quarta Teoria Política prega uma visão de mundo que fomenta uma identidade que, ainda que se utilize do fator pertencimento de grupo, é oposta ao “espírito do tempo” de integração particularizada.

Tal identidade é de recusa e abandono a esse espírito, se auto-proclamando “dissidente” e apontando as contradições de outras identidades enquanto defendem, a depender de qual território estão, identidades previamente existentes na cultura em que se hospedam (culturas regionais, certos gêneros de música e até mesmo algumas culturas e tradições políticas).

Como um ser parasitário, se aproveita do sentimento positivo de uma determinada população por uma determinada identidade coletiva previamente existente e tenta, a partir do revisionismo, encampar uma luta cultural contra seus oponentes políticos utilizando essa roupagem cultural, não se restringindo a ser contra apenas aqueles que realmente se utilizam, da mesma forma que eles, da identidade enquanto locus e critério central para a análise e tomadas de decisão política.

Por ser precisamente uma identidade e uma teoria apenas em potência, não raro podemos ver uma ambiguidade típica do fascismo, onde boa parte de seus defensores não conhecem ou não sabem os pressupostos de tal teoria e não raro acreditam que estão em uma “missão heroica”.

O “macete” filosófico está no fato de que a Quarta Teoria Política não é ainda uma teoria, mas uma “potência de teoria”, baseada numa visão de mundo. Portanto, tal identidade parasitária de revolta e rejeição é uma identidade vazia, uma vacuidade, sem determinações, pronta para ser preenchida pelas características da identidade hospedeira:

Não obstante, o ponto de partida dessa ideologia é precisamente a rejeição da própria essência da pós-modernidade. Esse ponto de partida é possível – mais nem garantido, fatal ou pré-determinado – porque ele emerge do livre arbítrio do homem, de seu espírito, ao invés de um processo histórico impessoal.

Porém, essa essência (muito como a detecção da razão por trás da própria modernidade – imperceptível previamente – que realizou sua essência tão completamente que exauriu seus recursos internos e mudou para o modo de reciclagem irônica de suas fases anteriores) é algo completamente novo, previamente desconhecido e apenas deduzido intuitivamente e fragmentariamente durante as fases primitivas da história ideológica e do conflito ideológico.

A Quarta Teoria Política é uma “Cruzada” contra: Se a terceira teoria política criticou o capitalismo a partir da Direita e a segunda – a partir da Esquerda, então a nova fase não mais destaca essa topografia política: é impossível determinar onde a Direita e a Esquerda estão localizadas em relação ao pós-liberalismo.

Há apenas duas posições: conformidade (o centro) e dissenso (a periferia). Ambas as posições são globais. A Quarta Teoria Política é o amálgama de um projeto comum e um impulso comum em relação a tudo que foi descartado, derrubado e humilhado durante o curso da construção da “sociedade do espetáculo” (construindo a pós-modernidade).Alexander Dugin, Quarta Teoria Política, p. 28.

Exatamente por isso, o método de política empregado pelos membros da Quarta Teoria Política (influenciado por Julius Evola) visa a guerra cultural para, a partir dos preconceitos e fragilidades da cultura nacional, tentar fabricar o mesmo ambiente que propiciou o surgimento do fascismo no início do século XX.

Anti-materialistas ferrenhos que são, partem do plano das ideias, dos mitos e da guerra de propaganda, tentando trazer o mesmo espírito do surgimento do fascismo, para a criação de um fascismo do século XXI.

Inclusive, essa é uma das proposições do livro “Fascismo visto da Direita”, de Evola, onde este pinça o que acredita ser “aspectos positivos do fascismo” e tenta criar um conjunto de ideias do ideário fascista que sejam supostamente“toleráveis” nas sociedades que sucederam à Segunda Guerra Mundial, tanto em caráter internacional quanto nacional.

O que torna a defesa quanto ao fato de serem ou não fascistas, empregadas pelos seguidores do pensamento de Evola e Dugin, um tipo caricato de deboche. Um interlocutor mais sábio poderia afirmar: “Se de fato não são fascistas, podem ser até mesmo piores.”

Se utilizando da ignorância geral quanto a sua existência e da ignorância de seus próprios seguidores quanto ao conteúdo programático que defendem, os seguidores da Quarta Teoria Política se sentiram confortáveis para instituir como programa político “aquilo que fora banido pela modernidade”:

Enquanto esse curso dos eventos é, de algumas maneiras, ainda mais aterrorizante do que o materialismo e o ateísmo dogmático diretos e descomplicados, o enfraquecimento da perseguição da Fé pode ser aquela chance, se os representantes da Quarta Teoria Política agirem consistentemente e descompromissadamente na defesa dos ideais e valores da Tradição. Agora é seguro instituir como programa político aquilo que foi banido pela modernidade.

E isso não mais parece tão tolo e destinado à derrota quanto antes – pelo menos porque tudo na pós-modernidade parece tolo e destinado à derrota, inclusive seus aspectos mais “glamourosos”. Não é por acaso que os heróis da pós-modernidade são “aberrações” e “monstros”, “travestis” e “degenerados” – essa é a lei do estilo. Contra o pano de fundo dos palhaços do mundo nada e ninguém pode parecer “arcaico demais”, mesmo as pessoas da Tradição que ignoram os imperativos da vida moderna.

A validade dessa asserção não é provada apenas pelas conquistas significativas do fundamentalismo islâmico, mas também pelo ressurgimento da influência exercida pelas vastamente arcaicas seitas protestantes (dispensacionalistas, mórmons, etc.) na política externa americana. George W. Bush foi à guerra no Iraque porque, em suas próprias palavras, “Deus me disse para invadir o Iraque!”. Isso é bastante compatível com seus professores protestantes metodistas.” Alexander Dugin, Quarta Teoria Política, p. 36-37.

Por que o Trabalhismo e a Quarta Teoria Política são incompatíveis e inimigos ideológicos?

O Trabalhismo Brasileiro, advindo do positivismo jacobino praticado no sul do Brasil parte de uma matriz filosófica empirista, que, ao absorver antropofagicamente partes fundamentais da teoria socialista utópica e materialista, de tipo metafísico vulgar ou dialético, bem como concepções importantes do iluminismo, contempla idealismo e materialismo, desde que racionalmente e logicamente plausível, e cientificamente comprovável, pois tem no empirismo uma espécie de “cola” e trava conceitual, como critério para adesão.

Além disso, como resultado desse processo, o Trabalhismo Brasileiro é de forma evidente um instrumento da classe trabalhadora, cujos dilemas materiais e contradições apenas se tornaram mais evidentes no atual desenrolar do ciclo neoliberal em nosso país, realidade que este pretende vingar para construir um novo futuro nos paradigmas da modernidade, com democracia socialista, igualdade, liberdade e uma concepção classista e não identitária como nexo central de análise.

Ou seja, o Trabalhismo Brasileiro é um gigante representante da modernidade, particular do próprio espírito e história da classe trabalhadora brasileira, e se orgulha e se ufana muito disso, pois enquanto cultura política e fruto de uma tradição, também nunca perdeu sua ligação com o Mito (como pregam os apologistas do Apolíneo asséptico) desde que submetido a análise material do logos, sob um critério da luta de classes e do humanismo, como espécie de trava da potência destrutiva da palavra mítica.

Já a “Quarta Teoria Política”, que nem nasceu, mas já está morta, se afirma não apenas como combatedora da pós-modernidade, mas como um fruto indissociável desta. Se insere na esteira da conjunção do pensamento aristocrático do final do século XIX e começo do século XX, se vende enquanto idealismo radical, mas é sabidamente parte do irracionalismo filosófico, repaginado e distribuído em roupagem popular, colocando uma identidade vazia submetida a uma visão de mundo proveniente dos autores que a baseiam (muitas vezes implícita) como centro de sua prática e pensamento político.

Além disso, seu discurso e identidade se fundamenta na crítica ao  “mundo moderno”, ao Iluminismo, e boa parte do universalismo que também existia antes mesmo de tal período. O futuro ideal e idílico dos criadores da falsa necessidade de uma “Quarta Teoria Política” é um futuro particularizado, por muralhas acríticas de cultura, ethos e identidade, simbolizado no mundo das tradições como espelho, como uma forma de reação estúpida, romântica e pós-moderna aos fenômenos negativos da própria pós-modernidade e da nova formatação e organização do neoliberalismo e do sistema capitalista, marcada por uma globalização assimétrica que camufla fortes vínculos imperialistas.

Se baseando nesse sentimento de rejeição e em meias verdades sobre o mundo contemporâneo, vendem tal saída extrema, absurda e desnecessária de retorno, que também termina em particularização em ilhas, como uma verdadeira tentação de Mefistófeles. Existe uma importante e intransponível interdição entre tais visões de mundo. Embora ambas rejeitem a fábula conhecida como “Fim da História”, proposta por Francis Fukuyama, elas a rejeitam por motivos radicalmente diferentes:

A visão de mundo dos criadores da “Quarta Teoria Política” a “rejeita” aceitando seu conteúdo e aderindo a este, a saber, aos próprios princípios e forma de pensar política da pós-modernidade, como forma de se aproveitar da decadência do coração filosófico do ideário iluminista para trazer a tona “tudo aquilo que fora banido pela modernidade”. Por isso também envergonhado, em sua proposta de criação de uma Quarta Teoria Política, Dugin afirma fazendo coro discreto com Fukuyama uma suposta vitória do liberalismo como representante do espírito da modernidade.

Isso não se dá por acaso, é uma necessidade a ser afirmada por Dugin. Caso contrário seu argumento para converter socialistas e fascistas em defensores de sua “nova-teoria” não existiria, pois, se o liberalismo não venceu e não representa a “modernidade”, por que diabos alguém seria convertido a uma reação extremada que traia seus próprios princípios? O Trabalhismo Brasileiro desdenha da tese de “Fim da História” e rejeita com veemência qualquer adesão a essa estúpida premissa que consigo carrega um triplo cavalo de Troia:

1º. A adesão a unipolaridade dos Estados Unidos e aceitação acrítica do credo-neoliberal, em sua versão que prima pela comercialização de identidades e produtos relacionados a estas, (seja de esquerda ou de direita conservadora), que destrói o globo e as sociedades de forma assustadora e cada vez mais visível.

2º. A adesão à multipolaridade quando atrelada a um reacionarismo de identidade particularista, culturalista, esotérica e boçal.

3º. Adesão a uma síntese moderada entre os dois primeiros, ainda assim reconhecendo pressupostos fundantes da pós-modernidade e da tese de “fim da história”.

Não temos que escolher entre narcísicos (ou seja, irracionalistas afixados a própria consciência), dionisíacos (os que se guiam apenas na pulsão, paixão e emoção, para o bem ou para o mal), nem apolíneos (neoliberais e racionalistas assépticos que desconhecem a totalidade do que é ser humano), visto que nenhuma dessas alternativas serve ao projeto histórico da classe trabalhadora brasileira, que tem seu próprio tempo.

Por outro lado, o Trabalhismo Brasileiro entende sua responsabilidade histórica com nosso país e nosso povo por isso, age com paciência e escolhe Kairós, ou seja, o tempo correto para agir, o melhor instante possível, onde habita a possibilidade de se conseguir afastar o caos e até mesmo reverter processos em andamento, para trazer um tempo bem melhor para se viver. Se a era presente ruma para um caminho incorreto, temos fé inabalável de que existe possibilidade de reverter tal rumo e avançar a história de forma correta para o nosso povo. 


“Tese XVI: O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história.

O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.”  Walter Benjamin, Teses sobre a história. 


Por isso, o Trabalhismo Brasileiro se banha em sua própria memória e na história da América Latina e procura no ponto de vista da classe trabalhadora os fios de nossa própria história para, ciente da corrupção dos valores Iluministas do próprio liberalismo durante a pós-modernidade, se afirmar como radicalmente inclusivo, democrático, universalista, igualitarista, querendo construir através do passado pensado pelos nossos mortos (que a historiografia da classe dominante não conta) um futuro realmente redentor!


“Tese II: Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana”, diz Lotze, “está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro”. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído.

Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa.

Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.”  Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Além disso, se baseia na constatação de que em nosso continente o ideário socialista subsiste com mais força do que em qualquer outro lugar do mundo, como prova cabal de que o “fim da história” de Fukuyama sempre se tratou de uma bravata que não nos impediria de construir finalmente o programa radicalmente universalista da modernidade, de uma forma que o liberalismo nunca foi capaz! Avançando com a modernidade e seus valores para superá-la em suas deformações fulcrais, (o domínio econômico, político e social por parte do mercado, corporações e grandes potências) como demonstra a atual organização do sistema capitalista imperialista.


Particularmente em relação ao Brasil, estabelecer finalmente o início do fim da aliança espúria de nossa classe dominante submissa com a classe dominante relativa aos países centrais e emergentes em ascensão, que destrói nosso povo e nação na matéria e no espírito e retira dos trabalhadores qualquer poder político real, dando em troca um teatro de fantoches burlescos. Se essa era desmorona sobre si mesma e cai de podre, é porque já está morta e a verdadeira teoria política que reconstruirá a nova era, ao menos para o Brasil, já existe e seus pressupostos foram pensados pelos maiores gênios brasileiros do século XX. Não existe espaço para oportunistas (aqueles que não estão realmente conectados com tal espírito) pegarem carona na cauda deste cometa.

Reconhecer a necessidade de uma “Quarta Teoria Política” ou seus pressupostos sobre o “fim da história” e a pós-modernidade representa, instantaneamente, uma traição ao programa histórico do Trabalhismo Brasileiro pactuado com a classe trabalhadora e com os espíritos de nossos mortos, oprimidos e injustiçados do passado!

O Trabalhismo Brasileiro não responde a nenhuma dessas questões afirmando identidades vazias de revolta ou que são contra outras identidades, muito menos prega a criação de qualquer “nova teoria política”, pois já se considera a única teoria correta para o futuro brasileiro, que o conecta com nosso passado relacionado a outro futuro possível que nos foi negado. Ao contrário dos pensadores que baseiam e propagam a necessidade de uma suposta “Quarta Teoria Política”, somos radicais defensores da modernidade como ponto onde se tornou, por intermédio da tecnologia e da ciência, possível uma sociedade de abundância, realmente livre, justa, igualitária, radicalmente democrática e profundamente humanista.

Acreditamos e está no coração da ideologia trabalhista, que temos um povo criativo e valoroso. Já temos nossa terra prometida e só nos falta fazer, pela luta, cumprir a promessa de construir uma República, soberana, independente, e verdadeiramente democrática para nossa classe trabalhadora, feita por ela e para ela, para um futuro marcado por igualdade, justiça, democracia e respeito a todos e qualquer cidadão brasileiro, sem discriminações de qualquer tipo. O Trabalhismo Brasileiro é rebelde, esperançoso, tem orgulho de ser autônomo e tem as respostas para o dilema brasileiro em nosso presente momento histórico.

É verdade que o Trabalhismo Brasileiro, em sua visão de política externa independente construída desde o século XX, é latinista, terceiro-mundista, com aspectos pan-americanistas e está atrelado ao anti-colonialismo e ao anti-imperialismo na defesa da soberania nacional e autodeterminação dos povos. Portanto, francamente em oposição a um mundo unipolar, representado por uma adesão acrítica a globalização, a sociedade do espetáculo, ao aumento exponencial da centralidade (econômica, política e social) do setor financeiro, enquanto fruto de uma visão escatológica e determinista do fenômeno como sendo irreversível e inevitável. No entanto, este de forma alguma o faz pelos mesmos motivos dos que defendem uma reação a esse fenômeno, também identitária e tacanha baseada em escatologias religiosas de outro tipo, perversas no sentido de fragmentação com a realidade.

O Trabalhismo Brasileiro se baseia no melhor das ciências humanas produzidas em nosso país, discutindo de forma científica o fenômeno da globalização, suas assimetrias, desigualdades, tendências, a divisão internacional do trabalho, pois tem uma responsabilidade séria para com a nação e nosso povo, e não tem tempo a perder brincando com a “sociedade do espetáculo” na internet, como fazem os amantes de Narciso e Dionísio noite e dia. Existe uma intransponível diferença entre nós.

Nesse sentido, tais diferenças gritantes e não conciliáveis, não são apenas incompatíveis, mas aberrantemente incompatíveis. O Trabalhismo Brasileiro, se baseando na recusa a premissa de que identidade deva ser o nexo de práxis política, sobretudo na sociedade do espetáculo e dos espasmos midiáticos, prega o cidadão político como totalidade, sujeito complexo e humano, em constante relação com o meio e especialmente com a sociedade, portanto, em constante transformação de espírito e consciência.

Ao contrário do que fazem os ilusionistas da “Quarta Teoria Política”, identidade canibal de identidades, o Trabalhismo Brasileiro, enquanto negador da identidade no centro da política na sociedade do espetáculo, não nega, e nunca irá negar, identidades por si ou a necessidade histórica urgente de unir a luta de classes com o fim das opressões sofridas por todas as minorias. Esta é uma pauta histórica do PDT e do Trabalhismo Brasileiro a partir das lutas de minorias no Brasil ao longo da história. Diferente do que fazem os reacionários, o Trabalhismo Brasileiro não mobiliza preconceito de nossa população conservadora contra identidades relacionadas a defesa de minorias, pois entende que não nos interessa a divisão de nossa classe trabalhadora, nem a discriminação de irmãos e irmãs do povo.

Sobretudo de patrícios trabalhadores que expressem porventura as formas neoliberais e pró-mercado de “defesa” dos interesses das minorias, pois entendemos que o sistema capitalista, a partir de uma sólida infraestrutura burocrática e de um aparato superestrutural de difusão e reprodução, se apropria das lutas sociais para amenizar e modular como as pulsões sociais se dão e isto não é culpa de nossos irmãos e irmãs que sofrem e sempre sofreram. Sabemos que a causa última pelo que batalham não é apenas o correto, mas o justo.

Enquanto os farsantes misticistas oferecem ódio, segregação e manipulação de preconceito tolo, nós, os verdadeiros defensores do Trabalhismo Brasileiro e seu espírito, oferecemos amor e integração ativa para toda a classe trabalhadora, sem distinções. Somos todos irmãos, paz entre nós, guerra aos senhores!

O Trabalhismo Brasileiro nega as formas neoliberais de fazer política e democracia, justamente porque quer tirar nosso povo dos grilhões da democracia formal do dinheiro e da representatividade superficial apenas para os amigos do sistema e do mercado e trazer uma democracia radical e direta universalmente profunda, com gigantes reformas na distribuição do poder na sociedade.

No âmbito das minorias, dar poder político e econômico não apenas a alguns representantes atomizados, mas um extenso número de direitos sociais que concedam poder político e econômico para estes enquanto indivíduos que são parte de uma comunidade integrada a sociedade como um todo; enquanto membros da classe trabalhadora que comandará os destinos do país e parte de uma nação igualitária, justa, livre e próspera, na prática e não apenas na ideia formal; enquanto agentes criadores da própria identidade na cultura nacional e em relação a sua projeção internacional e por fim, como cidadãos completos, cidadãos políticos na totalidade e não como segmentos de uma identidade que é mercadoria.

Isso, como se pode verificar, não está em contradição alguma, nem tampouco colide frontalmente com os anseios de movimentos em defesa de diferentes minorias que temos no país. Pelo contrário, está adequado a uma agenda histórica relacionada a um vasto ciclo de lutas e que relaciona a luta de classes, pautas relativas a minorias e a luta anti-imperialista.

A recusa de se colocar a identidade no centro da luta política tem o intuito de auxiliar na mobilização popular contra as forças anti-populares, sem castrar a afirmação de diferenças, porém reduzindo a particularização da classe trabalhadora em nichos cada vez mais sectários e que não se comunicam, as “bolhas”, características da sociedade do espetáculo, onde um ser humano precisa expressar a complexidade do ser e sua relação com o meio e sociedade ao longo de sua vida, a saber, toda sua experiência em apenas alguns segundos, a partir de um catálogo de “identidades simbólicas, signos e palavras-chave”, muitas vezes originadas sob uma perspectiva até mesmo preconceituosa, vendidas e moduladas de cima para baixo, do centro para a periferia, pela própria lógica do sistema capitalista do século XXI. Em tal reino, impera a lógica de “reconhecimento” e “pertencimento”.

Exatamente por isso, defensores da necessidade de uma “Quarta Teoria Política”, que tentam sem sucesso revisar a história, visão de mundo e a teoria do Trabalhismo Brasileiro, se queixam do PDT por não abandonar, como nunca abandonará pois, é representante legítimo de uma tradição sinceramente humanista a justiça e a radicalidade universal de sua agenda democrática, política, social e economicamente integradora, com as minorias da classe trabalhadora.

Demonstram com esta postura, os pregadores da palavra vazia, justamente o caráter alienígena de sua presença na cultura política e tradição do Trabalhismo Brasileiro. Só quem não pertence e não carrega consigo o verdadeiro espírito do legado de Getúlio, Jango e Brizola e de toda cultura política no entorno destes poderia demonstrar desconhecimento, ou a ausência de uma prática inconsciente, relativa ao fato do humanismo enquanto ponto comum fundamental de todas as doutrinas que se acoplaram no que veio a ser o Trabalhismo Brasileiro. Cabe destacar que, se o Positivismo praticado no Rio Grande do Sul age como uma espécie de cola na teoria política trabalhista, isso ocorre por uma opção histórica distinta que este grupo tomou em relação a outros positivistas de nosso país.

O amor vem por princípio, a ordem por base

O progresso é que deve vir por fim

Desprezaste esta lei de Auguste Comte

E foste ser feliz longe de mim.”
         Positivismo – Orestes Barbosa / Noel Rosa

A música acima brinca de forma muito pedagógica com a ideologia positivista, elencando os princípios expressos em seu lema: Amor, Ordem e Progresso. O amor, nesse sentido talvez seja um dos pontos mais interessantes da crítica positivista ao liberalismo. Este não se trata do conceito de amor romântico como tratamos habitualmente, mas sim do amor irrestrito pela humanidade, em oposição ao princípio de fraternidade liberal, visto por Augusto Comte como fraternidade apenas entre os partícipes da classe dominante ou da oligarquia esclarecida de seu período histórico.


Por motivos diversos, após a Segunda Guerra Mundial, enquanto a vertente positivista ligada aos militares foi aderindo a uma concepção norte-americana, tendo na “ordem” como seu princípio guia, até se tornar liberal-positivista, o positivismo do Rio Grande do Sul, na figura de Getúlio Vargas e seu discípulo mais famoso, João Goulart, tendo no “amor” pela humanidade como seu princípio guia, se envolveu com os movimentos de trabalhadores até se tornar o Trabalhismo Brasileiro e aderir a uma posição socialista com orgulho.


É justamente esse amor irrestrito para com todos os nossos irmãos brasileiros e seres humanos que agiu como trava em nossos piores momento mais de uma vez, que nos fez ser muito melhores do que poderíamos ter sido, que nos fez, mesmo quando não estávamos totalmente corretos, rumar para o caminho correto e corrigir os nossos enganos lutando sempre por nosso povo no papel de vingador da classe.


Tal amor pela humanidade, universalizante, é central na ideologia trabalhista e é precisamente o ponto comum entre todos que já contribuíram de mente e corpo para o espírito dessa tradição se tornar o gigante que hoje é. Uma vez tendo a revelação, cientes desse fato, nenhum de nós irá abdicar disso nunca. Nesse sentido, pensemos num dos símbolos mais fundamentais de toda a mitologia trabalhista, parte presente também na própria história do Brasil e na identidade nacional, Getúlio Vargas.

“No caso da morte de figuras políticas, os funerais costumam se tornar um momento de consagração de suas vidas. Trata-se da ocasião em que, morto o corpo, a alma torna-se imortal, como imortais tornam-se alguns de seus “feitos”, selecionados e ressignificados pela memória, poderosa força que permite “que se saia da vida para entrar na história.” Ângela de Castro Gomes, Brizola e o Trabalhismo, p. 12-13.

Considerando os ensinamentos da gigantesca historiadora brasileira Ângela de Castro Gomes e conscientes que após seu supremo-sacrifício, a simbologia de Getúlio ,criada a partir de seus feitos e de sua relação com a classe trabalhadora, se sacramentou com a Carta Testamento e representam agora, partes que, em sua totalidade (descartados os  erros e as partes criticáveis por cada grupo ideológico a partir de seus princípios), formavam um legado para ser defendido e ressignificado. Nesse sentido, Vargas, enquanto marco central na história de nosso país, é o espelho de cada grupo que o reivindica:

Os defensores do Trabalhismo Brasileiro interpretam o símbolo de Vargas não apenas enquanto um signo de seu legado propriamente dito, mas sintetizado com a agenda da classe trabalhadora construída desde antes do século XX.  Pois, após o sumo-sacrifício de Getúlio em defesa de tal agenda acoplada a modernização do estado-nacional brasileiro, os trabalhadores passaram a ter força e fé na imagem do burguês mais esclarecido que já tivemos que, ao cometer suicídio traiu sua classe e entrou para a história de forma decisiva como herói dos trabalhadores brasileiros, representando para estes, um deles e, em simultâneo, eles próprios, e apenas por isso este se tornou eterno e sagrado a partir da redenção, pelo sacrifício em benefício dos vivos que sofrem e dos mortos que sofreram.  

Poderia ter feito um acordo, mas cometeu suicídio em nome dos pobres. Poderia ter se retirado em silêncio para São Borja, mas cometeu suicídio em nome dos humildes. Conseguiria ter escapado de seu destino, mas o seguiu em benefício dos espoliados, redimindo assim não apenas a si próprio, mas a história de nosso país e povo, que teve assim um pai fundador da nação e da própria nacionalidade, com sacramentada imagem heroica, generosa, altruísta. Não um tirano como seus inimigos tentavam representá-lo e forçá-lo a ser, mas um gigante em nossa memória, que nos inspira a fazer mais por nós e pela humanidade.


De contradições e eventos como este, inesperados à luz das teorias estrangeiras, é que floresce a delícia e a particularidade de ser brasileiro. Isso é algo que qualquer pessoa que defenda o espírito do Trabalhismo Brasileiro “de corpo e alma” sabe muito bem. Mesmo que não saibam expressar ou articular tais Logos, sua prática e sua interpretação evidente da identificação de Vargas com a esquerda reside especialmente neste fato.


Observemos o caso de Brizola, o homem que mais amou o Brasil e o povo brasileiro. O velho Leonel, que nesse ano muito especial completaria 100 anos, quando criança teve uma vida muito humilde e difícil. Por ser beneficiado com a Revolução de 30, conseguiu aprender a ler e a escrever, se tornou engenheiro, se envolveu com política de juventude e com o Trabalhismo Brasileiro, defendendo sempre os mais humildes e o interesse nacional.


Brizola foi profundamente influenciado não apenas pelas transformações materiais promovidas pela Revolução de 30, mas também por seu ideário e por sua mítica. Tendo a oportunidade de conviver de perto com Vargas, o velho Leonel sempre carregou o estandarte de Getúlio, para defender a agenda e as pautas da classe trabalhadora, necessárias ao desenvolvimento nacional perante o imperialismo e o subdesenvolvimento. Ninguém pode negar que Brizola tinha uma interpretação profundamente positiva de Getúlio Vargas e seu legado, nem negar que Brizola tenha conseguido a partir disto uma profunda conexão com a história de nosso povo e seja marcado como um dos maiores nomes da esquerda na história do Brasil, tendo sido, por exemplo, grande aliado de Luís Carlos Prestes no fim da vida deste.


Nesse sentido, é importante reforçar a noção que a historiadora Ângela de Castro Gomes traz em sua obra de nome “A invenção do Trabalhismo”, de que a classe trabalhadora não é estática ou estúpida, ela participou da criação do Trabalhismo Brasileiro, se beneficiou dele na medida de seus interesses, e “subverteu” a ideologia em seu benefício como instrumento de luta, cobrando o cumprimento do que lhes era prometido por tal doutrina e seus representantes, muitas vezes colocando estes últimos em posições mais radicais do que as que ostentavam pessoalmente. O mito sociológico da classe trabalhadora tola e espectadora, é, pois, um mito da classe dominante que cumpre um propósito específico.


Já os defensores da necessidade de uma “Quarta Teoria Política”, quando no teste do espelho de Getúlio, projetam seu próprio anticomunismo, reacionarismo e tendências autoritárias contra o que consideram diferente ou “degenerado”, características que são fruto não do legado de Getúlio, mas das mesmas pessoas que o traíram em 45 e o levaram ao suicídio em 54.


Se arvorando em mitos da historiografia da classe dominante, especificamente relacionada às forças anti-Vargas, representantes dessa visão de mundo da “Quarta Teoria Política” reforçam uma interpretação idealista da história, centrando imagens e pessoas ao invés de classes sociais, na relação entre infraestrutura e superestrutura ao longo de determinado tempo em um determinado espaço geográfico, como faz, em resumo, a interpretação materialista da história.


Daí que, numa traição a autonomia do próprio espírito do Trabalhismo Brasileiro ao longo de sua trajetória em conjunto das lutas de nossa classe trabalhadora, estes defendem a tese da existência de um “Vargas fascista”, fazendo peso, num verdadeiro espírito de porco indesculpável, contra todo o esforço movido pelos representantes históricos da tradição trabalhista, que evidentemente por motivos anteriormente explicitados buscam compreender a totalidade de seu desenvolvimento (o seu movimento teórico em direção ao socialismo), não apenas a interpretação de fragmentos cristalizados e descolados do seu contexto histórico, compreendendo-o, como ele próprio se entendeu, evidente em sua atuação política após 1945, nacionalista e socialista, um digno represensentante da esquerda de seu tempo.


Os defensores da “Quarta Teoria Política” não o fazem porque isso seja verdade, mas, porque lhes convém fazer crer na falácia. Utilizando a ideologia e historiografia da reação ao fenômeno nacional-popular do século XX quando lhes é útil, tentam sustentar a tese de que se todo o extenso legado Varguista e da Revolução de 30 é fruto de um “Vargas Fascista”, isso não seria nada demais,  seria algo até “positivo”. Surfando na pós-modernidade e na pós-verdade, tentam cumprir sua missão de fazer  “o que fora banido pela modernidade transitar livremente”, como pregou Dugin no livro que baseia a prática dos seguidores da proposição de uma “Quarta Teoria Política” por aqui.


Para tal, “pegam carona” no símbolo mais sagrado para a ideologia, cultura política e tradição do Trabalhismo Brasileiro e um dos mais importantes símbolos da história nacional, enquanto tentam sujá-lo na mesma lama a qual chafurdam. Tratando-se de prática política, é uma desonestidade com a autonomia do espírito da cultura política e tradição do Trabalhismo Brasileiro, cujo representante é o PDT, e mais do que isso, trata-se de uma tentativa, infrutífera diga-se, de corrupção de um símbolo central para a história brasileira.


A direção que o Trabalhismo tomou em sua história foi uma decisão coletiva de todos que compuseram o movimento e da própria classe trabalhadora em luta, não de revisionistas. Trair essas pessoas e seus ideais é a maior corrupção que pode existir. Além disso, ela demonstra perfeitamente as diferenças entre os Trabalhistas e aqueles que tentam revisar sua história, sua ideologia, e parte de seu legado, da mesma forma que o fazem em outros nichos da esquerda nacionalista e da direita.


Nesse sentido, a partir das teses de Walter Benjamin sobre a história, particularmente quanto a sua sexta tese, podemos tecer uma das comprovações de como a teoria em potência “Quarta Teoria Política” não apenas é incompatível, mas como também é arqui-inimiga do Trabalhismo Brasileiro no presente momento histórico:

Tese VI: Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem.

Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer“. Walter Benjamin, Teses sobre a história.

Considerando que o reconhecimento de Getúlio enquanto simbologia para ambos os grupos (trabalhistas e postulantes da necessidade de uma “Quarta Teoria Política”) representa perfeitamente bem a situação descrita acima. Pensemos que ambos os grupos escolhem Vargas e Brizola enquanto símbolos, mesmo que lhe imputem valores opostos, não porque compartilham de valores ou princípios, mas, porque exatamente na simbologia de Vargas reside a chave para a compreensão mitológica e simbólica da possibilidade de uma reforma radical ou processo revolucionário contra a atual ordem de coisas em nosso país, a partir da memória que é operada com diferentes focos, estes relativos às diferentes origens de classe e concepções ideológicas de quem as opera. 

Ocorre que, existem dentro desta mesma linha jogada divergentes futuros possíveis, respectivos a qual grupo conseguir tomar a hegemonia cultural, simbólica, referencial e, mais importante, hegemonia real sobre o espírito da velha esquerda brasileira do século XX e, principalmente, seu legado. Seja como verdade ou como farsa, como redenção ou tortura e corrupção da memória bela em algo vil, por que isso ocorre?

“Tese IV: Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário, e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo”. Hegel, 1807

A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais.
Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos.

Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas”  Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Nos anos 90, como já debatemos aqui anteriormente, o sistema internacional e o sistema capitalista passam por uma reforma, que marca seu movimento após o fim da Guerra Fria, para tomar de assalto todos os sistemas políticos do globo em duas frentes:

  • uma com retórica e estética conservadora e neo-liberal na economia.
  • outra com retórica e estética “progressista”, mas, também neo-liberal na economia.

Ambas as opções são lastimáveis no caso brasileiro. Com isso, o neoliberalismo foi se tornando o “normal” no período que contempla o fim da Guerra Fria até o presente momento, e todas as disputas se deram sob seu domínio, em seu território conceitual e econômico, existindo certa alternância apenas em termos estéticos e de discurso.

Tal período centrou o nexo das disputas políticas sobre critérios de aparência, identidade, pertencimento e retórica nas disputas e debates políticos formais ou parlamentares. Já que ambos os lados quase sempre defenderam variações do neoliberalismo econômico alterando-se apenas o enfoque, sobra para o embate político meras aparências do discurso, não propostas de reformas políticas, econômicas e reformas estruturais concretas para mudar nossa sorte em benefício da classe trabalhadora, das minorias e da nação, mas apenas algumas vitórias simbólicas, que devemos admitir a importância no caso particular do Brasil.


Contudo, em um contexto de pós-crise econômica mundial de 2008, isso gerou uma evidente frustração na classe trabalhadora contra a esquerda partidária que aderiu a tal pensamento e prática. Resumidamente, e com diferenças e particularidades locais, tal fenômeno vem ocorrendo em todo o ocidente geográfico sendo representado pelo descrédito histórico dos trabalhadores para com a esquerda partidária de seus respectivos países.


Após a Guerra Fria, a esquerda socialista organizada de tais países e, no caso do Brasil, o processo de ditadura-militar e redemocratização, não está em condições de conseguir canalizar as pulsões da classe trabalhadora e frações da pequeno-burguesia, que começaram a se avolumar cada vez mais de forma desorganizada e imatura enquanto movimento político, em contestação romântica contra a hegemonia e o “establishment”. Sem uma explicação, isto é, uma teoria própria, ou um projeto, mas uma verdadeira pulsão sem rumo por transformação social.


Na verdade, tanto a “velha esquerda” quanto a esquerda partidária atrelada ao neoliberalismo econômico erraram muito em suas análises e em sua prática. Precisamente tal processo foi uma necessidade para o renascimento da extrema-direita na Europa e nos EUA e acabou por ocorrer de forma similar no Brasil, com o fenômeno do Olavismo e do Bolsonarismo, tendo em conta que a “velha esquerda” se desorganizou neste período e a nova-direita se aproveitou da não existência de movimentos socialistas de grande porte organizados contestando a atual ordem social, para capitalizar o discurso anti-hegemônico e ascender ao governo com apoio das mesmas massas que iria prejudicar profundamente.

Nesse sentido, o Trabalhismo Brasileiro não estava morto, mas, tirando um cochilo, sem nunca parar de tecer suas análises e cálculos para disputar um projeto rebelde quando a janela de tempo das transformações fosse aberta. Acordou de 2016 em diante, se propõe a traçar soluções para todos os problemas da vida nacional e, de um ponto de vista estratégico de longo prazo, se encontra acumulando forças, formando ideologicamente militantes em massa, organizando suas bases, em uma ferrenha disputa ideológica não pela hegemonia eleitoral, mas por uma hegemonia intelectual (como visão de mundo ideológica e programática) contra a fração liberal da esquerda-brasileira, e despende parte importante de seus esforços nisso.  Os outros grupos políticos da esquerda partidária organizada estão com o mercado, com a classe dominante e com o sistema, em grande medida.


O Trabalhismo Brasileiro, com respeito a todos os movimentos, é o único movimento político com partido grande organizado e viés anti-sistema, base militante, proposta econômica radical e tem a obrigação de estrategicamente fechar alianças orgânicas com as forças de esquerda independentes que contestam o neoliberalismo. Este tem como trunfo, sua memória, tradição e história que se mescla com a própria história da classe trabalhadora brasileira e nossa identidade nacional, para participar como um dos atores principais em uma reforma profunda e radical contra o atual estado de coisas.


Por isso, alertamos que, para nós trabalhistas, o embate ideológico com aqueles que seguem a proposição de “Quarta Teoria Política” é de natureza muito mais profunda e inevitável. Considerando o que nos diz Walter Benjamin e deslocando seus conhecimentos para nosso contexto:

“Apêndice 1: O historicismo se contenta em estabelecer um nexo causal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem estar dele separados por milênios. O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração, em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada. Com isso, ele funda um conceito do presente como um “agora” no qual se infiltraram estilhaços do messiânico.

Apêndice 2: Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo passado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Se nenhum dos grupos organizados, potencialmente catalisadores de tal evento, inimigos ou potenciais aliados históricos, reivindicam o mesmo legado, isso não ocorre em relação a “Quarta Teoria Política”, que entendeu que a chave simbólica para imprimir uma mudança profunda contra o neoliberalismo no Brasil está atrelada especificamente ao mito de Getúlio Vargas e da própria Revolução Brasileira, e também compreendeu que quem conseguir executar a reforma infraestrutural correta na economia, pode imprimir os rumos ideológicos em costumes e valores.


Uma coisa há de se dizer, foram mais espertos do que boa parte de nossa esquerda atual que, embora tenha sincero ódio do neoliberalismo até certo ponto, também têm sincero desconhecimento quanto a história nacional, em particular, do ponto de vista da “velha esquerda” que formou nossos mitos e influenciou em boa parte na consciência de nosso povo.


Nesse sentido, por ambos os grupos pretenderem imprimir mudanças radicais na vida nacional baseando-se no mesmo mito (mas partindo de perspectivas distintas), podemos observar um fenômeno de espelhamento muito particular e raro, que relembra a imagem do deus romano Jano, com uma face voltada para o passado e a outra para o futuro, que representa a transformação. Tal imagem representa o olhar para um passado, tendo no foco que se olha seu maior segredo, refletindo de forma decisiva na construção do futuro. Ambos os grupos aqui descritos podem olhar o mesmo passado, encontrar coisas absolutamente distintas e, a partir disso, projetar um futuro mutuamente exclusivo a partir do mesmo símbolo ou mito fundante do ideário nacional.


Nesse caso em particular, poderíamos também observar que, enquanto uma das faces faz força para “avançar os anos”, mas retornar a um passado mitológico milenar, fazendo com isso apenas “peso na história”, a outra faz força para avançar de forma consequente e finalmente decretar o fim desta era morta, levando desta o que de melhor teve, seguindo de forma natural com o fluxo das eras, dando pouco trabalho para Chronos. Sobre isso, pensemos:

Tese XVII: O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista se distancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio.

Ao contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada.

Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.” Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Retornando ao argumento, os ideólogos realmente vinculados com o trabalhismo sabem que tem consigo um tesouro histórico e um momento histórico propício para a transformação social. Eles encontram e se apropriam de uma reminiscência tal como ela relampeja no momento de perigo, fixando uma imagem do passado como ela se apresenta no momento do perigo ao sujeito histórico, alertando a classe trabalhadora da existência de uma “imobilização messiânica” dos acontecimentos, que pode se desenrolar tanto na redenção, caso seja salva a tradição, seus mitos e seu espírito, quanto na corrupção e trevas, caso a tradição, nesse caso tanto a história do trabalhismo quanto a história do Brasil, seja tomada pela conformidade e pelo interesse espúrio da classe dominante e projetos nefastos de poder e retrocesso material e espiritual.


Nesse caso em especial, tendo a própria história (também estória, fábula, mitologia, simbologia e teologia) como locus de disputa, o trabalhismo busca construir a possibilidade de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido, a redenção enquanto revolução social profunda. Mas o messias não vem apenas como libertador e redentor, vem também como vencedor do anticristo, pois o perigo deste ameaça tanto a existência da tradição libertadora como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento.

Nesse caso a redenção não mais seria revolução, seria corrompida em contra-revolução, escravizando nosso povo e esquecendo a alma de nossos mortos. Essa é a real natureza da batalha ideológica entre o Trabalhismo Brasileiro, que busca a revolução redentora por intermédio de nosso espírito histórico coletivo e símbolos, e da “Quarta Teoria Política” que busca a contra-revolução aprisionante, por intermédio da corrupção de nossos maiores símbolos. É a natureza de uma verdadeira Guerra Sagrada pela memória e pela possibilidade de redenção e revolução, mas mais do que isso, para não ser corrompida nossa tradição e para não ser concebível aventar a possibilidade desta ser utilizada por pessoas que não as merecem articular, não por ignorância ou desconhecimento, e sim por má-fé.


Exatamente por isso, conclamamos a todos os Trabalhistas que leram este presente texto até aqui para lutar uma batalha ideológica necessária, pois é relativa ao destino de nossa tradição e até mesmo, da própria possibilidade de futuro para esta. Uma vez corrompida a tradição, usada de forma equivocada, manipulada por farsantes, esta passará de um símbolo sagrado, de um instrumento de libertação, para símbolo de ódio, de desprezo do povo, pois terá sido utilizado como um instrumento de tirania. Quando isso ocorre, na maior parte das vezes, não existe retorno. Sem a sua tradição, memória, história, legado, o Trabalhismo perde sua razão de ser, e até mesmo pode deixar de existir.

Perspectivas para o futuro: O movimento trabalhista brasileiro e a disputa pela memória no centenário da Revolução de 30.

“O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. ” Walter Benjamin, Teses sobre a história. 


O filósofo russo, muitas vezes considerado o fundador do marxismo na Rússia, Plekhanov, tem como um dos pontos mais importante em sua obra o debate que contrapõe dialética e a metafísica, analisando respectivamente a primeira como lógica da transição e a segunda como lógica do que é estático. Como se, de forma mais simplificada ainda, a dialética fosse um filme, e a metafísica uma foto.

Para além de que evidentemente existe uma simplificação “pedagógica” desses conceitos, visto que filosoficamente é aceitável ponderar que Plekhanov escolheu um prisma bastante específico para analisar tais métodos de estruturação lógica do pensamento, também existe uma finalidade política. Isso se mostrar especialmente relevante para a esquerda brasileira entender nesse momento.


Pensamentos que primam pela lógica do que é estático, ou seja, a lógica da continuidade, quando aplicados à política, sempre são benéficos à classe dominante, pois em seu falso racionalismo, escondem justamente a capacidade de ação dos trabalhadores enquanto classe de se organizarem e mudarem as coisas. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, não teríamos Petrobras, Eletrobras nem nenhum direito trabalhista no Brasil, pois todas essas “conquistas” foram fruto da atuação ativa da classe trabalhadora.  Vânia Bambirra, em sua análise do pensamento de Mao Zedong, resume perfeitamente tal raciocínio, e comentou sobre a lógica e visão de mundo metafísica:

“A concepção metafísica abrange um longo período histórico quer no ocidente como no oriente. É adotada e defendida de um modo geral pelas forças reacionárias que desejam se manter no mundo.”  Conceito marxista de mudança social em Mao Tsé-tung, escrito por Vania Bambirra.


O que nos responde a lógica da transformação, a dialética, quanto a isso? Nos responde que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Ou seja, a força popular e a transformação social devem ser construídas material e teoricamente, e isso só pode ser feito a partir de mobilização e organização da classe trabalhadora  e de uma crítica radical do que temos no presente momento, bem como finalmente uma teoria revolucionária para transitar de um presente inglório rumo a um futuro redentor. A lógica da transformação nos ensina que dos escombros do velho, nasce o novo, enquanto o velho ainda não morreu. 

Nesse sentido, tal debate sobre a lógica da transformação e a lógica do que é estático, dentre muitas questões, também abrange centralmente o próprio debate sobre filosofia da história. Especialmente na reflexão sobre uma filosofia da história para transformar a realidade social e a própria história. Um grande mestre da Filosofia, na Universidade Federal Fluminense, um dia, disse algo que nunca podemos nos esquecer:

“Ninguém lembra de uma revolução, se ela não encontra lastro na memória popular, se ninguém se lembra, então essa revolução morreu.”

Pensemos nisso, também, sob os ensinamentos da filosofia da história de Walter Benjamin e sua descrição de como opera a dialética da lembrança e do esquecimento operada pela classe dominante. Não devemos morrer de pavor ao pensar no que nosso povo fará em 2030.  Devemos trabalhar para contrapor a ideologia paulista, que aspira levar o Brasil de volta para a República Oligárquica, e sermos hegemônicos em interpretar a importância de 1930 em seu centenário. Isso não é trivial, e nem tampouco, deveria ser importante apenas para os Trabalhistas. Sobre isso, nos alertava Walter Benjamin:

“Tese XVI: O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas para no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única.”  Walter Benjamin, Teses sobre a história. 


Numa era em que Apolíneos, racionalistas que temem a paixão, em que Narcísicos, liberais de esquerda que só se apaixonam por sua própria imagem, e que Dionisíacos, que são a pura paixão reacionária e caótica do “ser” querendo organicidade, disputam a hegemonia do caos político no globo, demos escolher Kairós, o momento perfeito para se reverter um processo inglório e alcançar a eternidade construindo um novo futuro a partir de um passado que também é presente.

A análise de nossa situação nos leva direto ao problema. A questão de nosso tempo não é que nossa esquerda é “reformista”, mas sim que ela está aquém disso, e não tem capacidade de propor ou sequer vislumbrar um mundo novo, enquanto parece estar presa na fábula de “Fim da história de Fukuyama”. Embora existam críticas e propostas para tal no imaginário da esquerda, institucionalmente ela segue esse dogma a ferro e fogo. Mas e o modelo socialista para o Brasil do século XXI, e o socialismo com características brasileiras?

Como será possível chegar nisso, se a formulação institucional da esquerda brasileira quando chega ao poder na Nova República é obviamente neoliberal e implicitamente reconhece uma vitória do Ocidente e com isso um suposto direito dos países centrais em governar o globo? A esquerda brasileira precisa antes de tudo reencontrar sua essência em uma práxis que é ambígua entre reforma e revolução, a síntese de ambos. Encontramos na história política brasileira isso no brilhante exemplo de Leonel de Moura Brizola, Roberto Silveira, Darcy Ribeiro, Vânia Bambirra, Guerreiro Ramos e tantos outros da história de nossa cultura política.

Devemos assumir publicamente o compromisso de fortalecer e dar base teórica e prática para um movimento Socialista brasileiro que realmente compreenda a importância do centenário, que merece ser comemorado em 2030, com criticidade, e aprendendo também com os equívocos do processo que fundou o Brasil moderno e escancarou uma janela de oportunidade para a construção da Revolução Brasileira, processo este em disputa há mais de 90 anos contra a “contra-revolução preventiva”. 

O que nosso povo morreu, sangrou, para construir no século XX não pode ser esquecido. Como Darcy Ribeiro dizia, o Brasil tem um sentido, mas quando não conhecemos nossa história, não é possível compreender tal sentido. Manter o fio da história, é revelar o sentido implícito do Brasil e do povo brasileiro, seu lugar de ser no mundo e na história do desenvolvimento da civilização humana.

[ARTIGO] TARCÍSIO DE FREITAS E A PRIVATIZAÇÃO DO TRANSPORTE PÚBLICO: Resistir ao Entreguismo Neoliberal

Pedro Henrique Biedermann Gonçalves,
Subsecretário de Comunicações da APR-SP
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Nesta semana, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tomou uma medida significativa ao privatizar a construção do Trem Intercidades Eixo Norte (TIC), conectando São Paulo a Campinas, e a Linha 7-Rubi da CPTM. A concessão foi concedida à Via Mobilidade, já conhecida por suas operações na região. Surpreendentemente, o grupo vencedor ofereceu um desconto ínfimo de apenas 0,01% sobre o valor máximo estabelecido no edital, aproximadamente R$ 8 bilhões.

O Estado de São Paulo planeja investir cerca de R$ 9 bilhões no projeto, com uma parte desse montante sendo financiada pelo BNDES, através do programa Novo PAC. Essa decisão implica que o setor privado desembolsará menos recursos do que o governo estadual para operar o novo Trem Intercidades pelos próximos 30 anos.

Além disso, o Consórcio da Via Mobilidade assegurou a concessão da operação da Linha 7 por três décadas. Adicionalmente, a interrupção do serviço 710, que conecta as linhas 7 e 10, acarretará em sérios problemas logísticos para os usuários. A atual privatização da linha 7 e as privatizações das linhas 8 e 9 da CPTM, bem como as propostas de entrega de linhas de metrô pelo governo de Tarcísio de Freitas, representam um insulto não apenas ao trabalhador paulista, mas a toda a população que depende do transporte público.

Este desmonte do nosso patrimônio público em prol dos interesses gananciosos do setor privado é não apenas inaceitável, mas também profundamente prejudicial ao desenvolvimento equilibrado e justo de nossa sociedade. Tarcísio de Freitas trai não somente o povo paulista, mas todo o compromisso com o bem-estar coletivo, ao renunciar ao controle estatal sobre o transporte público, deixando-o à mercê da voracidade do setor privado.

Em vez de defender os interesses da população, ele prefere ceder aos caprichos dos grandes conglomerados, ignorando completamente as necessidades e dificuldades enfrentadas diariamente pelos cidadãos. Trens lotados, tarifas exorbitantes, a falta de manutenção adequada e um serviço de qualidade questionável são apenas algumas das consequências desse abandono do interesse público em prol do lucro privado.

Não podemos permitir que esse entreguismo desenfreado prossiga! Devemos unir nossas vozes e nossas forças para combater incansavelmente pela Soberania Nacional e pela preservação do patrimônio público. As linhas de transporte não podem ser entregues de bandeja para os parasitas que espoliam nossa nação e nossa população.

Este governador, alinhado a um projeto de destruição nacional, não pode ser tolerado, e nós, como Trabalhistas e Socialistas engajados, devemos resistir com todas as nossas forças contra essa pilhagem! É hora de nos erguermos em defesa do que é nosso por direito! Não podemos permitir que Tarcísio de Freitas, Bolsonaro e seus comparsas continuem dilapidando nosso patrimônio em favor de uma classe dominante que demonstra aversão pelo Brasil e pelo povo!

Inspiramo-nos na coragem e na determinação de Brizola e lutaremos incansavelmente pela manutenção do transporte público sob controle estatal! Basta de entreguismo! Basta de lesa-pátria! O povo paulista e todos os brasileiros merecem muito mais! Devemos nos unir em uma luta constante para combater o entreguismo e o governo neoliberal de Tarcísio!

[ARTIGO] DE 1855 A 2023 — A CONSTRUÇÃO DO SOCIALISMO MORENO

Por Breno Frossard, militante da Juventude Pátria Livre, estudante de teologia na EST.


Inauguramos, com o presente artigo, a primeira chamada para a publicação de artigos na revista A coisa pública brasileira. Fazemos para inspirar a criação de um espaço qualificado de exposição, debate frutífero e confluência de ideias entre socialistas, comunistas e trabalhistas, objetivando a discussão de questões teóricas e práticas de suma importância para a classe trabalhadora, para o país, e para a formulação do socialismo brasileiro do século XXI.

Para tanto, nessa primeira chamada, sugerimos aos interessados a discussão acerca do conceito de “socialismo brasileiro” ou “socialismo moreno”. Os interessados podem enviar e-mail para “acoisapublicabrasileira@protonmail.ch” com nome, descrição do autor, artigo ou entrar em contato pelo WhatsApp e Telegram.


No campo progressista e nacionalista, muito se fala hoje sobre “socialismo moreno”, “socialismo brasileiro” e diversos outros conceitos que nos remetem a um “novo” ideal socialista, disposto a compreender a profundidade nacional e somá-la aos ideais marxistas.

No entanto, na prática, não existe atualmente um conceito exato do que significa “socialismo moreno”. Com uma rápida pesquisa ao Google, verá que “Alberto Pasqualini foi um dos maiores defensores do Socialismo Moreno” e que:

“Alberto Pasqualini rejeitou o socialismo real e fez a defesa da economia de mercado, mas, inspirado pelo solidarismo católico, ainda que agnóstico na sua vida pública, considerou que todo lucro deve corresponder a um ganho social, chegando a utilizar o termo “capitalismo solidarista” como sinônimo de trabalhismo, que foi posteriormente definido como sinônimo de socialismo moreno pelo PDT”.

De todo modo, o “socialismo moreno”, em sua vaga história de elaboração por diversas figuras, não se tornou sinônimo de mero “capitalismo solidarista”. Pasqualini, da mesma forma, rejeitou o conceito de “democracia socialista”, ainda que não marxista, defendida por Getulio e Jango. O “Socialismo Moreno”, portanto, ainda é um termo vago, a se preencher de sentido a partir da análise coletiva da realidade econômica, política e social.

Nesse sentido, o socialismo moreno precisa ser uma proposta de construção de uma sociedade justa, democrática e soberana, que não se limita a copiar e colar o marxismo-leninismo europeu, mas que utiliza das suas lições, bem como da experiência revolucionária dos países do Sul Global, como ferramenta para elaborar a sua própria solução socialista, adaptada à realidade nacional.

O socialismo brasileiro deve ter como base teórica e histórica a contribuição de diversos pensadores e militantes que, desde o século XIX, buscaram interpretar e transformar a realidade brasileira, dialogando com o movimento socialista internacional, mas sem perder de vista as especificidades do país.

Um dos precursores do socialismo brasileiro foi o General Abreu e Lima. Escritor e político brasileiro, participou da Independência da América Espanhola e da Confederação do Equador no Brasil, um dos grandes aliados de Simon Bolívar. Um dos primeiros pensadores socialistas do Brasil, defensor da emancipação dos escravos, da reforma agrária e da educação popular.

Em seu livro “O Socialismo”, publicado em 1855, Abreu e Lima demonstrou conhecer bem os autores clássicos do socialismo utópico, como Babeuf, Saint-Simon, Fourier e Owen, e analisou as suas propostas de organização social baseadas na igualdade, na fraternidade e na cooperação.

Ele criticou o capitalismo, o liberalismo e o colonialismo, considerando-os sistemas opressores e exploradores dos trabalhadores e das nações. Abreu e Lima propôs um socialismo adaptado à realidade brasileira, que respeitasse a diversidade cultural, étnica e religiosa do país.

O mais curioso aqui não é a honrada trajetória do General, mas sim que, em seu livro “O Socialismo”, além de analisar a obra do Socialismo Utópico, Abreu e Lima faz o mesmo que Marx e Engels: propõe a superação deste socialismo utópico em prol da sua maior concretitude e adaptação a diversas realidades nacionais. Hoje, os socialistas brasileiros, felizmente leem Marx, mas ler Abreu e Lima deveria ser tão importante e priorizado quanto.

Outro expoente do socialismo brasileiro foi Astrojildo Pereira. Escritor, jornalista, crítico literário e político brasileiro. Nasceu em 1890 em Rio Bonito e morreu em 1965, na mesma cidade. Fundador do Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1922, após desiludido com o anarquismo e o liberalismo.

Quando fundou o PCB, Astrojildo admite em suas obras que não conhecia muito sobre marxismo, mas que usava o que sabia de Lenin, misturado a conhecimentos posteriores sobre história do Brasil, algo que também podemos, e devemos, fazer.

Pereira também foi um grande admirador de Machado de Assis, sobre quem escreveu vários ensaios e um livro, que defendia o caráter socialista das obras nacionais, especialmente as de Machado.

Teve uma vida ativa e engajada na cultura e na política do seu tempo, participando de campanhas, greves, congressos, revistas e jornais. Considerado um dos principais intelectuais marxistas do Brasil e um dos pioneiros da crítica literária no país. Em sua obra, Astrojildo Pereira enfrentou o desafio de adaptar o marxismo à realidade brasileira, dialogando e criticando autores como Oliveira Vianna e Otávio Brandão.

Defendeu um socialismo que considerasse as particularidades históricas, sociais e culturais do Brasil, sem cair no dogmatismo ou no nacionalismo estreito. Além disso, na década de 30, Astrojildo foi expulso do Comitê Central, por ordem da Internacional Comunista, por acertadamente defender que os comunistas liderassem e participassem da revolução de 30.

Após o período Vargas, enquanto o PCB se guiava apenas pelas orientações da Internacional Comunista, restringindo o desenvolvimento interno de um movimento socialista, o PTB aparecia como maior força da esquerda brasileira. Atraídos pelo ideal nacionalista do partido, muitas lideranças que antes faziam parte de grupos como o POLOP e COLINA, começaram a integrar o PTB. 

Importante citar que essas lideranças eram majoritariamente trotskistas, mas enxergavam a entrada no PTB como positiva, pois Trotsky havia, em seus escritos latino-americanos, feito a defesa crítica do governo Vargas.

Estes foram presos e/ou exilados após a ditadura militar de 64 e a deposição do governo Jango, a qual muitos compuseram. Participaram também da fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT) em 1979, com Leonel Brizola e durante o período militar se dividiram em grupos como MRT, MR-8 e afins. 

Dentre esses nomes cito honrosamente Theotonio dos Santos, Moniz Bandeira e a grande Vânia Bambirra, que se exilou no Chile em 1980, onde continuou sua pesquisa acadêmica e sua atuação política. Reconhecida como uma das mais originais teóricas marxistas da América Latina e uma das mais influentes intelectuais feministas do continente.

Em sua obra, esse grupo desenvolveu uma análise crítica da dependência econômica da América Latina em relação ao capitalismo mundial, propondo uma alternativa de desenvolvimento autônomo baseada na integração regional e na participação popular.

O socialismo brasileiro também deve ter como base teórica figuras nacionalistas não necessariamente marxistas, como Getúlio Vargas, Leonel Brizola e João Goulart, que tiveram um papel importante na história política e social do Brasil, defendendo os interesses nacionais, os direitos dos trabalhadores e as reformas trabalhistas. 

Essas figuras representam uma tradição de luta pela soberania nacional e pela justiça social que não pode ser ignorada ou desconsiderada pelo socialismo brasileiro. O socialismo brasileiro deve se apropriar dessa tradição, reconhecendo seus méritos e limitações, buscando superar suas contradições e incorporar suas conquistas.

Um exemplo inspirador para o socialismo brasileiro é o caso de Cuba, que realizou uma revolução socialista em 1959, liderada por Fidel Castro e Che Guevara. Cuba conseguiu resistir ao bloqueio econômico e à agressão militar dos Estados Unidos, mantendo a sua independência e dignidade. 

Conseguiu também dar grandes passos na saúde, na educação, na cultura e no desporto, tornando-se um exemplo de solidariedade internacionalista. Cuba não começou a revolução como socialista, mas como nacionalista e anti-imperialista. Foi só depois da revolução que Cuba se declarou socialista e se aproximou da União Soviética.

Em Cuba, existe uma reverência pelo não marxista José Martí, poeta e herói da independência cubana, considerado o apóstolo da revolução. Cuba demonstra que o socialismo não é uma receita pronta, mas sim um processo histórico e criativo que se adapta às condições concretas de cada país.

Se algumas aplicações nacionais como “Socialismo com Características Chinesas”, a “Ideia Juche” e outras são, para estes povos, a inovação dialética da aplicação marxista para a realidade de suas nações, o Socialismo Moreno deve seguir e ser construído sob o mesmo norte.

Retornando ao primeiro parágrafo, aonde nos referimos à Alberto Pasqualini, é importante reforçar que este não é, como aquela breve definição nos diz, uma figura adepta do socialismo moreno, e sim do que chamou de capitalismo solidário. 

Mesmo com literatura vaga sobre o que seja o “socialismo moreno”, há uma divergência entre este conceito e o conceito de capitalismo solidário defendido por Alberto Pasqualini. Essa divergência é evidente através da comparação entre as concepções de capitalismo de ambos os conceitos.

Enquanto Pasqualini acreditava na possibilidade de humanizar e democratizar o capitalismo, por meio de uma maior participação dos trabalhadores na gestão e nos lucros das empresas, o socialismo moreno almeja superar o capitalismo, por meio de uma transformação radical das relações de produção e de distribuição.

O socialismo moreno não se contenta com reformas parciais e paliativas, que apenas amenizam os efeitos nefastos do capitalismo, mas sim busca uma ruptura com a lógica da exploração, da acumulação e da desigualdade.

O socialismo moreno não se ilude com a falsa ideia de que o capitalismo pode ser solidário, quando, na verdade, ele é intrinsecamente excludente, predatório e opressor. É impossível ser socialista e se conformar com a manutenção do status quo, que beneficia uma minoria privilegiada em detrimento da maioria empobrecida.

O socialismo moreno não é uma versão atenuada ou moderada do socialismo, mas sim uma versão autêntica e radical do socialismo, que tem como objetivo final a emancipação humana e a felicidade coletiva. Se a prática é o critério da verdade, não só de teoria vive o Socialismo Moreno.

Apesar de poucas e muitas vezes reprimidas experiências, o Socialismo Moreno já governou. Por primeiro exemplo, a Comuna de Manaus, uma revolta tenentista que ocorreu em 1924 no estado do Amazonas, liderada pelo tenente Alfredo Augusto Ribeiro Júnior. Teve grande apoio popular e foi motivada pela crise econômica e social causada pelo fim do primeiro ciclo da borracha, que levou à queda dos preços e à miséria dos trabalhadores.

A Comuna de Manaus defendeu as mesmas reivindicações políticas das outras revoltas tenentistas, como o voto secreto, a reforma do ensino público e a destituição do presidente da República. 

Além disso, a Comuna confiscou propriedades e fundos bancários dos membros das oligarquias, que exploravam e oprimiam o povo amazonense. Foi uma manifestação de resistência e de luta pela soberania nacional e pela justiça social, que expressou os anseios e as necessidades do povo do norte do Brasil.

Outra mencionável experiência concreta do socialismo moreno são os governos de Getúlio Vargas e João Goulart, presidentes do Brasil em diferentes períodos da história republicana. Getúlio Vargas governou o Brasil de 1930 a 1945, no período conhecido como Era Vargas, e de 1951 a 1954, no período conhecido como Segundo Governo Vargas. 

João Goulart foi vice-presidente de Juscelino Kubitschek (1956-1961) e de Jânio Quadros (1961), e assumiu a presidência após a renúncia deste último, governando de 1961 a 1964. Tanto Vargas quanto Goulart foram líderes trabalhistas, que defenderam os interesses nacionais, os direitos dos trabalhadores e as reformas sociais.

Enfrentaram a oposição dos setores conservadores da sociedade, que os acusavam de comunistas e de ameaçar a ordem democrática. Ambos foram vítimas de golpes, que interromperam seus mandatos e instauraram regimes antipopulares. São heróis brasileiros, que inspiraram o movimento nacionalista e socialista no Brasil.

O Socialismo Moreno é uma proposta de socialismo, a alternativa brasileira ao nosso modelo de capitalismo, o qual é a causa de todos os males. É uma proposta de reinvenção do Brasil, do nosso país, nosso lar, do nosso destino e do destino da América Latina, a nossa pátria grande, a nossa mãe terra, a nossa esperança.

O Socialismo Moreno é uma proposta de mundo, do nosso lar comum, o nosso planeta vivo, do nosso sonho possível. É uma proposta a nós, que somos os sujeitos da história, os construtores do socialismo, os filhos da revolução. O Socialismo Moreno é uma proposta de nós todos, que somos irmãos e irmãs, companheiros e companheiras, camaradas e amigos.

[ARTIGO] REVOLUÇÃO BRASILEIRA, SOCIALISMO E TRADIÇÃO NACIONAL — Uma análise sobre Mariátegui.

Autor: Cíntia Xavier D.

Dada a importância dos escritos do filósofo peruano e marxista, José Carlos Mariátegui, para a discussão dos conceitos de tradição nacional, revolução proletária e socialismo, a equipe d’A coisa pública brasileira publica uma análise concisa de três artigos do autor, publicados entre 1925 e 1927 na revista Mundial. São os títulos “NACIONALISMO E VANGUARDISMO NA IDEOLOGIA POLÍTICA” (1925), “HETERODOXIA DA TRADIÇÃO” (1927), e “A TRADIÇÃO NACIONAL” também publicado em 1927. Havíamos anteriormente publicado os dois últimos artigos, na íntegra, em junho desse ano.

A interconexão entre tradição, socialismo, e revolução representa uma força criativa e renovadora na história. Seu principal instrumento e agente histórico é a classe trabalhadora. Essa relação é, portanto, antagônica ao movimento reacionário que visa congelar a tradição, deturpando sua razão de ser e restringindo a história e a cultura “oficial” à narrativa e aos elementos da classe dominante.

Aqueles que se denominam socialistas, trabalhistas e comunistas brasileiros precisam estar vigilantes. A narrativa histórica das elites recrimina os elementos populares ao esquecimento ou à condenação. A narrativa histórica reacionária aprisiona os elementos da cultura e história brasileira, petrificando-os e fornecendo uma visão deturpada sobre nós.

Em “HETERODOXIA DA TRADIÇÃO” (1927), Mariátegui argumenta que a tradição não deve ser erroneamente associada aos tradicionalistas. Os tradicionalistas buscam uma tradição estática e inerte, enquanto a tradição, em sua essência, é dinâmica e em constante evolução.

A tradição, segundo o autor, é alimentada por aqueles que as renovam e a desafiam, para enriquecê-la, em vez de mantê-la imóvel. Os que desejam uma tradição estática frequentemente a distorcem com sua interpretação particular da história, enxergando-a como uma mera extensão do passado.

Mariátegui questiona se os revolucionários rejeitam completamente a tradição e afirma que os verdadeiros revolucionários não agem como se a história tivesse “começado com eles”. Reconhecem que representam forças históricas e usam a história existente como base para suas ações, assim como Marx usou o estudo da economia burguesa como fundamento para sua doutrina anticapitalista.

É crucial distinguir tradição e tradicionalismo. O tradicionalismo é uma atitude conservadora que vê a tradição como um conjunto de relíquias e símbolos inertes. A tradição, por outro lado, é diversificada e contraditória, resistindo a ser reduzida a um único conceito.

Para complementar, diferentes grupos sociais interpretam a tradição de maneira divergente devido a seus interesses políticos e econômicos. Como observado por Marx e Engels, as ideias dominantes em uma época são moldadas pela classe dominante que controla os meios de produção.

Walter Benjamin também contribui para essa discussão ao abordar a disputa narrativa pela história, na qual a história “oficial” é frequentemente definida pela classe dominante. Mariátegui argumenta que aqueles menos aptos para recriar a tradição, como os elementos reacionários da elite, frequentemente a invocam de maneira fictícia.

Portanto, a verdadeira luta não ocorre entre os revolucionários e a tradição, e sim entre os revolucionários e o tradicionalismo. Os revolucionários buscam impedir que a sociedade se torne estática, pois uma sociedade sem criatividade perde seu propósito e mostra sinais de envelhecimento e decadência.

No artigo “NACIONALISMO E VANGUARDISMO NA IDEOLOGIA POLÍTICA” (1925) Mariátegui aprofunda o debate entre o conservadorismo crioulo e a vanguarda indigenista na ideologia política peruana. O conservadorismo crioulo associa a nacionalidade peruana unicamente às influências espanholas e latinas, limitando a história do Peru há quatro séculos.

Durante o período colonial, a história peruana era frequentemente vinculada à chegada de Pizarro e à fundação de Lima, ignorando a rica herança indígena, como o Império Inca. A consciência nacional crioula estava fortemente ligada à herança espanhola, excluindo os elementos autóctones da história e da tradição peruana, como fora complementado dois anos depois, em “A TRADIÇÃO NACIONAL” (1927)

Em contraste, a vanguarda indigenista busca uma reconstrução peruana com base na herança indígena, rompendo com a visão limitada temporalmente do crioulo conservador e sua associação com a conquista e a colônia.

Os indigenistas revolucionários não veem o passado inca como um simples retorno ao passado, mas como uma base para a reconstrução peruana. Eles adotam uma concepção realista e moderna da história, considerando todos os eventos e elementos históricos que moldaram a realidade peruana ao longo de quatro séculos, sem excluir elementos autóctones, como frequentemente ocorre na visão colonialista da história

Mariátegui também destaca a relação entre nacionalismo e socialismo em países politica ou economicamente colonizados, como o Peru. Ele argumenta que o socialismo não é intrinsecamente antinacional, exceto nos impérios. Nas ex colônias, o socialismo assume uma postura nacionalista, em oposição ao imperialismo e ao capitalismo ocidentais.

Para o autor, a afirmação da nacionalidade peruana é de extrema importância, especialmente para aqueles historicamente oprimidos e despossuídos. A reconstrução peruana baseada na herança indígena é vista como uma maneira de restaurar a independência e a dignidade daqueles que foram conquistados e subjugados pelos espanhóis há quatro séculos.

Os escritos de José Carlos Mariátegui ecoam de maneira profunda na história e cultura brasileira, encontrando ressonância nas lutas da nossa classe trabalhadora. Suas reflexões sobre a tradição nacional, revolução e socialismo nos convidam a repensar a maneira como encaramos nossa própria história, eventos, movimentos e figuras de destaque, desafiando ambas as narrativas conservadoras e liberais que buscam restringir e distorcer a riqueza de nossa herança cultural.

Como Mariátegui ressalta, a tradição é dinâmica e resistente a ser reduzida a um único conceito. É necessário que aqueles que buscam a emancipação social, política e econômica reconheçam a importância de enriquecê-la, para que se mantenha sempre dinâmica e viva. Não podemos deixar que a história de luta da classe trabalhadora, bem como a sua rica cultura popular, seja vilificada ou condenada ao esquecimento. Somos, como sujeitos históricos, o fio da nossa história.

[ARTIGO] CULTURA POLÍTICA E MEMÓRIA. Do suicídio ao resgate político da simbologia de Vargas, 69 anos depois.

Artigo publicado originalmente no Portal Disparada, em 30 de janeiro de 2022, por Cíntia Xavier e Daniel Albuquerque, de título original “Do suicídio ao resgate político da simbologia de Vargas, 67 anos depois”. Editado pela equipe d’ACPB em 27 de agosto de 2023.

O objetivo desta análise é compreender o contexto histórico do periódico impresso do Jornal Última Hora, de número 980, referente ao dia 25 de agosto de 1954, cobrindo diversos aspectos do suicídio do então presidente Getúlio Vargas.

Especialmente, a reação popular de trabalhadores, o tributo fúnebre dos intelectuais filiados ao conteúdo político-ideológico de seu governo e as impressões de jornais internacionais e de chefes de estado quanto à tragédia. 

Com base nas publicações do jornal e na bibliografia selecionada, pretende-se argumentar sobre as intenções dos partidários de Vargas em construir um discurso a respeito do suicídio do presidente e de seus feitos, evidenciando uma relação entre cultura, política e memória. Por fim, objetivamos correlacionar a criação desse mito com o ressurgimento da simbologia e defesa do legado do presidente, 67 anos depois, no movimento estudantil.

O Jornal Última Hora, criado em junho de 1951, no Rio de Janeiro, pelo jornalista Samuel Wainer e dirigido por Danton Coelho e Bocayuva Cunha, foi um periódico impresso abertamente defensor do governo de Getúlio Vargas. Possuiu grande popularidade e circulação na cidade desde os seus primeiros anos(1).

O jornal era organizado peculiarmente para a época. De caráter popular, perceptíveis na diagramação e distribuição dos textos e comentários nas páginas, com muitas informações em uma linguagem direta e simples, além das posições políticas francamente expostas na linha editorial em matérias, reportagens, colunas, exceptuando os espaços para anúncios pagos.

Sua singularidade se deu por congregar práticas e métodos desenvolvidos ao longo dos anos anteriores na imprensa carioca, reunindo uma série de inovações, como fontes tipográficas chamativas e uma série de fotografias em páginas destacadas (Barbosa, 2007,p. 173).

O período foi fundado a partir de financiamento público e com o intuito de fazer concorrência às demais visões políticas de outros jornais sobre o projeto de Getúlio. Os mais tradicionais, relacionados a grupos familiares dominantes, e também jornais de fundação recente, como a Tribuna da Imprensa (Barbosa, 2007, p. 154, p. 171), criado em 1949 pelo jornalista e político Carlos Lacerda, árduo opositor desse projeto(2). 

A linha editorial do UH consistia em uma série de matérias, notícias de fatos políticos (inter)nacionais, diários e interpretações formuladas por jornalistas sobre feitos, ideologia, aspirações e defesa do projeto nacional por meio de colunas e, outras vezes, mensagens diretas do presidente(3).

A rivalidade comercial e política com a Tribuna da Imprensa, um dos que mais possuía postura militante contra o projeto de Getúlio, é um exemplo do choque de distintos projetos e interesses que os grupos possuíam (Barbosa, 2007, p. 181), onde a partir de 1953(4) a pressão política da imprensa brasileira se intensificou.

O ano de 1951 também é o momento em que Getúlio iniciava seu primeiro mandato, eleito democraticamente, após o fim do Estado Novo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e com o início da Guerra Fria, a situação política no mundo havia se alterado. Na política interna, como é de costume, não foi diferente. 

O período que contempla a experiência republicana e democrática de 1945 até 1964 é marcado por continuidades e rompimentos com o passado recente e fortes disputas ideológicas, bem como pelo fortalecimento dos partidos políticos e pela intensa participação trabalhadores na política (Gomes, 2018, p. 4).

De 1930 até 1945 Vargas se equilibrara sob diversas forças, como militares, igreja, oligarquias e, em menor escala, os trabalhadores. No entanto, havia ficado claro pouco antes de sua deposição — pactuada entre a classe dominante nacional, potências estrangeiras e militares — que Getúlio só poderia encontrar forças e apoio real em alguns de seus antigos e fiéis aliados políticos e nos trabalhadores. Estes, beneficiados com a Consolidação das Leis do Trabalho, e com outros dispositivos e políticas públicas executadas pelo Ministério do Trabalho.

O Partido Trabalhista Brasileira era, portanto, um espaço de atuação popular natural, formado pela união de trabalhadores, sindicalizados a partir da estrutura do Ministério do Trabalho, intelectuais como Alberto Pasqualini e aliados de Getúlio de longa data, que haviam participado da Revolução de 30, como Oswaldo Aranha (Bandeira, 1985,p. 20 – 24).

Apesar do forte discurso popular e nacionalista, bem como suas medidas econômicas de esquerda, a aliança entre Getúlio e a classe trabalhadora — embora garantiu a criação da Petrobrás e a Lei de Remessa de Lucros — foi dificultada pelos intensos ataques midiáticos, visando deslocar o mandatário de sua base de apoio. Esses ataques tiveram grande influência no isolamento vivido por Vargas nos últimos dias de seu governo (Sodré, 1975, p.8).

O suicídio em agosto de 1954 (tendo com estopim os desdobramentos do Atentado da Rua Tonelero), portanto, desencadearia novos fatos na relação entre o projeto de governo e ideologia e o trabalho de intérprete político e “emissário” que o Jornal Última Hora executava (Barbosa, 2007, p. 169).

A evidente convergência política e relação próxima entre presidente e fundador do jornal fez com que, no Rio de Janeiro, o Jornal Última Hora fosse primeiro a circular as últimas notícias sobre a morte de Getúlio. 

A catarse na qual a população foi submetida se espalhou pelas ruas do país durante vários dias. Passeatas, comícios e cortejos foram realizados por trabalhadores.

No Rio de Janeiro, multidões incendiaram as sedes dos jornais, Tribuna da Imprensa e O Globo, impedindo a circulação do periódico do dia(5), e atiraram pedras no quartel-general da Aeronáutica e na Embaixada dos Estados Unidos, dado que Carlos Lacerda se refugiava no local(6).

Tais ações foram represálias políticas aos que, naquele momento, foram consideradas pelas massas em fúria, e pelo Jornal Última Hora, na edição de n.º 980, como as forças políticas culpadas pela perseguição ao projeto e, por fim, ao suicídio do presidente.

Em Minas, o Consulado dos Estados Unidos também foi depredado. Em São Paulo, ocorreu o desfile do silêncio até a Praça da Sé e trabalhadores organizaram comícios que responsabilizavam os inimigos dos interesses do povo brasileiro pela morte de Vargas. 

As ruas de diversos lugares do país se mantiveram inquietas. Desmaios coletivos, desolação, colapsos nervosos e tentativa de suicídio foram registrados. Diversos manifestantes foram presos, entre eles, dirigentes sindicais que pretendiam organizar uma greve geral. Houve mortes, feridos e a suspensão de diversas atividades no país.

É preciso considerar o papel de intérprete político e mensageiro do Jornal Última Hora durante todo o segundo governo de Getúlio Vargas. Este foi responsável por esmiuçar, formular e repassar aos leitores o conteúdo dos feitos, justificativas políticas e históricas.

O Jornal Última Hora contribuiu com o processo de consolidação de uma cultura política, que decerto antecede a sua data de fundação e estende-se além de “mero sustentáculo de defesa do Estado Novo”, como aponta Ângela de Castro Gomes em A Invenção do Trabalhismo (2013) e Estado Novo — Ideologia e Poder (1982) — (Oliveira; Velloso; Gomes, 1982, p. 74).

Trata-se de uma cultura política ao entorno do símbolo de Vargas e do trabalhismo, que transcende seus feitos históricos e sua figura individual, reinterpretando e ressignificando-os a partir das lutas da classe trabalhadora das décadas seguintes ao suicídio. E, no caso desta análise, do movimento estudantil, 67 anos depois de seu suicídio. 

As edições de n.º 978 (23 de agosto de 1954), 979 (24 de agosto de 1954) e n.º 980, a primeira após o suicídio e escolhida para a nossa presente análise, representam os momentos finais dessa interlocução entre presidente, jornal e público. Retratam um anseio político para que, através da compreensão da mensagem deixada na carta de testamento e da divulgação da catarse e do desespero que acometeu a população carioca, seu símbolo, legado político e história pudessem ser apropriados pelas massas que o apoiavam, em suas próximas lutas, por uma cultura política que reverbera, transforma-se e sobrevive ao longo das décadas.

Figuram na capa da edição de n.° 980 um pequeno texto resumindo como ocorreu a visitação pública ao velório de Getúlio Vargas, uma grande foto de um cidadão anônimo emocionado se despedindo do falecido, uma legenda narrando a fotografia, bem como a manchete “Último encontro do povo com o grande presidente morto”.

Toda a linguagem e a construção textual reforçam e estimulam o entendimento de que havia ocorrido um evento de grande magnitude para a história nacional. O suicídio de Vargas resultou em luto oficial em quase todos os países da América e reações em diversos países da Europa. 

Na imprensa londrina, o Jornal The Times classificou-o como “campeão das massas”, “o homem que pela primeira vez na história do Brasil deu aos trabalhadores o direito de defenderem seus destinos”.

O jornal americano New York Herald Tribune o descreveu: “mesmo seus inimigos, invejosos que eram de sua penetração de espírito e de sua energia às vezes napoleônica, compreendiam muito bem que Vargas tinha identificado sua vida à sorte do Brasil”.

Chegaram condolências do presidente dos Estados Unidos, Eisenhower, estimando a perda dos familiares; em Cuba, fora decretado luto oficial de três dias; da Argentina, Peron enviou seus pêsames e em Santo Tomé, cidade argentina próximo a São Borja, houve profunda consternação.

No Uruguai, membros do Conselho do Governo prestaram tributo e decretaram luto, assim como no Chile. Na Colômbia, o diário liberal “El Tiempo” criticou a instabilidade política brasileira, “caótica a situação de um presidente eleito pelo povo, contra o qual está uma parte das forças armadas e que é defendido pela outra”.

No México, em artigo anterior ao suicídio do Vargas, o jornal Universal Gráfico pontuou que “lamentava a frequência das desordens políticas nas repúblicas latino-americanas, destacando que para essas desordens muito tem concorrido agentes estrangeiros ou nacionais a serviço do estrangeiro”.

Na ONU, o comitê de informações sobre os territórios não autônomos fez um minuto de silêncio em homenagem. Na página 2 da edição de n.º 980 há quatro blocos de textos, todos dedicados a discutir e anunciar o recente evento.

A diagramação da página permite-nos separar os conteúdos entre, do lado direito, um grande bloco com detalhes sobre a reação popular diante da notícia, de título “O último encontro do povo com o seu grande presidente morto”, com a aglomeração de horas em torno do Palácio do Catete de multidões em prantos paraver e homenagear o falecido, e, do lado esquerdo, um bloco contendo artigo assinado por Luiz G. M. Costa, de título “A última noite do presidente”, onde faz uma interpretação sobre a carta testamento, a conjuntura política do período e formula expectativas sobre como, devido a imensa repercussão, o propósito político do suicídio deveria impactar nos segmentos sociais que o apoiavam e estavam estupefatos pelo acontecimento.

Tal edição prima pela quantidade de informação textual, utilizando linguagem descritiva e diretamente emocional, com muitos textos pequenos divididos ao longo de uma mesma página, e muito material fotográfico, dispondo até mesmo de anúncios pagos homenageando o presidente Vargas. 

Por sua linha editorial alinhada a Getúlio, foi o Última Hora um dos únicos jornais cariocas a circular livremente nas enormes manifestações de massa ocorridas em lamento ao suicídio de Getúlio Vargas. Tendo por isso, extenso material para divulgar sobre um fato que se tornaria um divisor de águas da política nacional, que teve influência direta nas edições após o suicídio, na construção mitológica e simbólica da cultura política do trabalhismo e do evento tratado como “o supremo sacrifício de Getúlio Vargas”. 

A análise desse artigo considera que, dada a relação próxima entre Getúlio Vargas e Jornal Última Hora, este contribuiu, durante o segundo mandato de Getúlio (1951 – 1954), para sustentá-lo ideologicamente, fortalecendo a cultura política em torno do símbolo do presidente e do trabalhismo, interpretando-o e disseminando seus ideais para a população.

Nesse sentido, o suicídio, tal como fora abordado pelo Jornal Última Hora nas sedições 978, 979 e 980, especialmente a última, representa o ápice dessa relação político-ideológica entre presidente, jornal e classe trabalhadora e um dos instrumentos que, nas primeiras horas após o suicídio de Getúlio, fora utilizado para interpretar e, mais uma vez, disseminar a sua interpretação sobre qual era o peso daquele ato, as consequências para a vida política brasileira e as expectativas quanto a possibilidade de que sua simbologia pudesse ser ressignificada pelos movimentos operários e intelectuais partidários de seu legado, como bem aborda Ângela de Castro Gomes, em artigo de título “Brizola e o Trabalhismo”, publicado em 2004 na Revista Anos 90 do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul:

“Funerais, como os antropólogos advertem-nos com fartura, são rituais estratégicos, plenos de significados religiosos e também, em episódios específicos, políticos. No caso da morte de figuras políticas, os funerais costumam se tornar um momento de consagração de suas vidas. Trata-se da ocasião em que, morto o corpo, a alma torna-se imortal, como imortais tornam-se alguns de seus “feitos”, selecionados e ressignificados pela memória, poderosa força que permite “que se saia da vida para entrar na história””(GOMES, 2004, p. 12 – 13).

Somente por uma cultura política, a saber, cultivada, transformada e ressignificada através dos tempos é que se é possível articular todo o legado e mitologia criada em torno de Vargas — cujo Jornal Última Hora, foco especial dessa análise, foi um de seus últimos instrumentos em vida — e sua relação com o desenvolvimento do trabalhismo, como ideologia e cultura política própria, que ainda impacta a vida nacional e política do Brasil (Oliveira; Velloso; Gomes, 1982, p. 10) (GOMES, 2005, p. 24).

A partir de tal cultura que transcende a história é possível selecionar e articular os elementos mais importantes do passado, julgá-los com a régua de quem se apropria deles, para interpretá-los conforme as urgências políticos do momento histórico em que se vive, tal como descreve o filósofo alemão Walter Benjamin em sua tese de número VI sobre o conceito de história, onde estabelece uma crítica a concepção positivista e historicista da historiografia, a saber:

“Articular o passado historicamente não significa conhecê-lo “tal como ele propriamente foi”: significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela lampeja num instante de perigo. Importa ao materialismo histórico capturar uma imagem do passado como ela inesperadamente se coloca para o sujeito histórico no instante do perigo. O perigo ameaça tanto o conteúdo da tradição quanto os seus destinatários. Para ambos o perigo é único e o mesmo: deixar-se transformar em instrumento da classe dominante. Em cada época é preciso tentar arrancar a transmissão da tradição ao conformismo que está na iminência de subjugá-la.[…]” (LOWY, 2005,p. 65)

Argumentamos que através dessa cultura política ressignificada, transformada e viva foi possível para os movimentos e políticos que se consideram herdeiros do legado de Getúlio Vargas e do trabalhismo — alguns destes figuras de importante lugar na história brasileira, como o ex-presidente João Goulart e o ex-governador Leonel Brizola — sobreviverem através das décadas.

Sua sobrevivência está atrelada, portanto, aos dilemas econômicos e políticos que o Brasil enfrenta, que tanto perpetuam-se quanto se alteram conforme os tempos.

Em julho de 2021, conforme matéria online publicada no Jornal O Globo, de título “Manifestantes voltam às ruas por impeachment de Bolsonaro e rapidez na vacinação”(7), manifestantes de diversos segmentos da população foram às ruas de várias regiões do país protestar contra o governo de Jair Bolsonaro, responsabilizando-o pela péssima condução sanitária durante a pandemia do novo coronavírus, pelas mais de quinhentas mil mortes em decorrência da doença e cobrando celeridade na vacinação da população brasileira.

Em todo caso, as razões para tais manifestações não se restringiram apenas à pandemia, mas também estão relacionadas à gradual deterioração nas condições de vida da população brasileira, com o desmantelamento das leis trabalhistas, as reformas regressivas feitas na previdência social, e ao processo de privatização de estruturas do Estado e dos serviços públicos.

Nota-se que muitas dessas pautas estão diretamente relacionadas com o processo iniciado na vida política brasileira em 1930. Sessenta e sete anos depois do suicídio de Getúlio Vargas, voltava a ser a exibida, talvez em uma das poucas vezes na história recente das manifestações de ruas, uma bandeira de Getúlio.

Fato curioso é que tal ressurgimento tenha se dado, justamente, em São Paulo, uma das grandes cidades que não possuem uma grande via pública nomeada em homenagem ao presidente e que tem em sua história a defesa da Revolta Paulista de1932, que se erigiu contra o novo governo e contra os valores que este cultivava.

A bandeira foi erguida por manifestantes oriundos do movimento estudantil que, segundo matéria do Jornal O Globo, afirmaram que a presença da bandeira tratava-se de uma retomada política da simbologia trabalhista nas ruas.

Por fim, esse resgate político não pode ser entendido meramente como uma defesa acrítica do indivíduo Vargas, mas como uma apropriação dos feitos que seu símbolo representa — e que não podem ser considerados frutos apenas deste, mas de sua relação, por vezes conflituosa e imbricada, com a classe trabalhadora brasileira durante seus governos — e que se trata de uma forma de obter de tal símbolo as suas características mais positivas, a partir das contradições do presente e de uma seleção que considera o grau do impacto positivo para a classe trabalhadora.

Além disso, tal resgate tem a ver com uma apropriação e transformação da cultura política do trabalhismo brasileiro, considerando sua própria história e seu desenvolvimento teórico para impulsionar no século XXI uma cultura política tributária deste legado, consciente do papel que sua mitologia tem para a cultura política brasileira, e captar as aspirações presentes em setores diversos da sociedade por uma radical e sólida transformação social.

Notas:

  1. Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro –Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/biografias/samuel_wainer>
  2. Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/EleVoltou/RelacaoImprensa>
  3. Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/biografias/samuel_wainer>
  4. Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/EleVoltou/RelacaoImprensa>
  5. Idem.
  6. Castro, Júlia Kern. “Motins causados pelo suicídio de Getúlio Vargas”. Rio Memórias. Projeto República (UFMG). In: <https://riomemorias.com.br/memoria/motins-de-suicidio-de-getulio-vargas/>
  7. Jornal O Globo. “Manifestantes voltam às ruas por impeachment de Bolsonaro e rapidez na vacinação”. 03 de julho de 2021. In: <https://outline.com/VpPHSz>

Bibliografia:

Bandeira, Moniz. Trabalhismo e Socialismo no Brasil. Global Editora. São Paulo. 1985.

Barbosa, Marialva. História Cultural da Imprensa. Brasil: 1900 – 2000. Mauad X. 2ª Ed. Rio de Janeiro. 2007.

Castro, Júlia Kern. “Motins causados pelo suicídio de Getúlio Vargas”. Rio Memórias. Projeto República (UFMG). In: https://riomemorias.com.br/memoria/motins-de-suicidio-de-getulio-vargas/. Acesso em: 24/01/2022.

Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In:<https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/biografias/samuel_wainer> Acesso em: 24/01/2022.

Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/EleVoltou/RelacaoImprensa> Acesso em: 24/01/2022.

Gomes, Ângela de Castro; Ferreira, Jorge. (2019) 2021. “Brasil, 1945-1964: Uma Democracia Representativa em Consolidação“. Locus: Revista De História 24 (2). In: <https://doi.org/10.34019/2594-8296.2018.v24.20880>.

Gomes, Ângela de Castro. “Brizola e o Trabalhismo”. Revista Anos 90. Volume 11. n. 19/20. UFRGS. Rio Grande do Sul. 2004. In: <https://pdfs.semanticscholar.org/1084/398af38d68d08d41d62d6740d635897e94a2.pdf>

Gomes, Ângela de Castro. A invenção do Trabalhismo. 3ª Ed. FGV Editora. Rio de Janeiro. 2005.

Lowy, Michael. Walter Benjamin: Avisos de Incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Trad. Wanda Nogueira, Caldeira Brant, Jeanne Marie Gagnebin, Marcos Lutz Muller. Boitempo Editorial. São Paulo. 2005.

Oliveira, Lúcia. Velloso, Mônica; Gomes, Ângela. Estado Novo – Ideologia e Poder. Zahar Editores. Rio de Janeiro. 1982.

Sodré, Nelson Werneck. A Época de Vargas. Revista Ensaios de Opinião. Editora Inúbia. 1975. In: <http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1359307/mss1359307.pdf>

Jornal O Globo. “Manifestantes voltam às ruas por impeachment de Bolsonaro e rapidez na vacinação”. 03 de julho de 2021. In: <https://outline.com/VpPHSz>. Acesso em: 24/01/2022.

Jornal Última Hora. Edição 00978, 1954. In: <http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=386030&pagfis=20210>. Acesso em: 24/01/2022.

[ARTIGO] A EDUCAÇÃO PÚBLICA E OS LIMITES DO NEOLIBERALISMO PROGRESSISTA

O Novo Arcabouço Fiscal, o lançamento do programa Escola em Tempo Integral, o Educa + e o futuro da educação pública brasileira.

Autoria: Daniel Albuquerque
Cedido para a equipe d’A coisa pública brasileira em 07/08/23


No dia primeiro de agosto do presente ano de 2023, um dia após o programa Escola em Tempo Integral ser sancionado pelo presidente Lula, foi lançado o novo título direto do tesouro de nome Educa +.

Muito embora este ainda seja um desconhecido para a maioria dos interessados na defesa da educação pública brasileira, — jovens e profissionais da área da educação — tudo leva a crer que tal título tenha relação não apenas com o programa Escola em Tempo Integral, mas também com o Novo Arcabouço Fiscal e com uma, tímida e não divulgada, “nova forma de financiamento” do estado brasileiro.

Para entender e analisar melhor a importância dessa questão — extremamente divulgada em veículos ligados ao “mundo financeiro” — é necessário observar esse problema relacionado ao setor educacional pelo prisma da ciência política, a partir de três dimensões: o poder, a economia política, e como estes dois primeiros fatores se relacionam com a disputa pelo projeto educacional que será executado pelo Estado brasileiro.

Para enfim iniciarmos nossas reflexões, também se faz necessário uma pequena contextualização histórica, pois não chegamos ao ponto em que estamos por acaso, e sim por uma série de causas que se somaram durante determinado período.

Breve contexto histórico:

Desde o início dos anos 2000, após um intenso período de ataques contra a educação pública na década de 90, ocorreu um curioso duplo fenômeno.

Se por um lado foi possível observar uma melhoria na situação da educação pública em relação ao período anterior — sobretudo no que diz respeito às universidades públicas e sua interiorização — o crescimento do setor educacional privado, tanto na educação básica quanto na educação superior, foi avassalador.

Para além do crescimento da influência política de figuras e grupos de poder que controlam tal setor econômico, este período foi marcado pela implementação de inovações institucionais de ideário neoliberal — ainda que com verniz progressista — na resposta para o problema do acesso ao ensino superior.

Avança a implementação prática da concepção de que o Estado-Nacional não irá cumprir diretamente sua obrigação constitucional de prover educação pública em todos os níveis para seus cidadãos.

Portanto, quanto ao ensino superior, passa a mediar o acesso e o pagamento de seus cidadãos a rede de ensino superior privado, seja com bolsas ou por empréstimos intermediados com bancos públicos.

Ao fazer isso, o Estado-Nação aprimora a terceirização gradual da tarefa de receber o maior número de estudantes que concluíram o Ensino Médio e outros aprovados pelo ENEM e outras avaliações de ingresso no ensino superior.

Repassando, ainda que indiretamente, quantias de recurso público para o setor educacional privado, o privilegiando como parte da estratégia de desenvolvimento econômico nacional.

Tal modelo em processo de formação, embora tenha encontrado o primeiro grande obstáculo já no início da década de 2010, — com a crise política gerada pelos limites do neoliberalismo progressista iniciada em idos de 2013 — demonstrou suas principais fraquezas quando exposto à crise econômica. Esta, fruto da desaceleração chinesa no pós-crise econômica mundial de 2008, combinada a própria crise política interna.

Neste ponto, simultaneamente, as Universidades Federais e a educação de base começaram a ter problemas mais graves com recursos, ainda que não no mesmo nível dos dias de hoje.

Quanto ao setor privado, é nesse período que se inicia o endividamento em massa de parte de nossa juventude. Foi também, não por acaso, o período que iniciou o último grande ciclo de ocupações do movimento estudantil nas universidades e escolas públicas.

Com o golpe parlamentar de 2016, o grupo político ultra-liberal — com uma visão de mundo radical quanto a economia política e a organização do Estado — assumiu o poder e iniciou, contra a vontade popular e contra o voto, a implementação do programa “Ponte para o Futuro”.

Com isso, foi implementado, além de uma série de medidas neoliberais, o famigerado teto de gastos.

Desde então, a educação tem sido vítima de uma série anual de contingenciamentos de recursos para satisfazer o “equilíbrio fiscal”. Tal problema chegou ao seu ápice durante o governo Bolsonaro — iniciado em 2018 — e durante a pandemia de 2020, a qual foi aproveitada pelos neoliberais para pautar algumas de suas diretrizes educacionais, como a implementação progressiva do ensino remoto como forma de “cortar custos”.

Nesse sentido, cabe destacar, muitas Universidades Federais passaram por um processo de desfinanciamento e se tornaram *economicamente dependentes do ensino remoto*, uma vez que foi economicamente difícil retornar plenamente ao nível de funcionamento presencial pré-pandemia, tendo em vista a entrada contínua de novos estudantes e a redução dos recursos.

Foi exatamente neste momento histórico que o atual governo assumiu. Exatamente por isso, cabe ser justo, antes de avançar na análise e de finalizar esta contextualização inicial.

O contingenciamento vivido atualmente no setor da educação — que no final de julho e começo de agosto deste ano travou o orçamento do Ministério da Educação — faz parte de tal processo de cortes relacionados ao “teto de gastos” desde 2016 e, portanto, não é exclusivamente “culpa” deste atual governo.

Ainda que, como veremos adiante, medidas já poderiam ter sido tomadas quanto a tal questão anteriormente e o Novo Arcabouço Fiscal aprovado pelo atual governo — que passará a vigorar a partir do próximo ano — também poderá ser igualmente restritivo e ter um duro impacto contra o futuro da educação pública.

Sobre o título direto do tesouro “Educa +” e sua função “oculta” de nova ferramenta de financiamento do Estado brasileiro:

O título direto do tesouro Educa + foi anunciado pelo Secretário do Tesouro, Rogério Cerón, pela primeira vez no dia 27 de abril do presente ano, no mesmo período em que era elaborado o Novo Arcabouço Fiscal. Segundo Cerón, o Educa+:

“É um título educacional voltado pra você ir formando uma poupança pouco a pouco e depois, quando o seu filho tiver com 18 anos, ele poder ter mensalmente um valor durante 5 anos pra pagar mensalidade da universidade ou pagar os custos desse período”

À primeira vista, quando exposto dessa forma, do ponto de vista do usuário, o Educa + não parece ser nada de mais, não obstante, seja similar a ferramentas de financiamento de ensino superior privado dos EUA, um modelo de ensino amplamente rejeitado pela população brasileira.

Tal iniciativa traz consigo — e em sua propaganda — uma lógica atrelada ao neoliberalismo que anda em moda, de “educação financeira” como panaceia de todos os males, utilizada para culpar e penalizar a população quando o Estado brasileiro se omite e não cumpre suas obrigações constitucionais.

É importante salientar que o Educa + não foi criado apenas para ser utilizado como forma de pagamento de mensalidades para o ensino superior privado.

Sua propaganda nos veículos de comunicação ligados ao mercado também traz que o Educa + deva ser um “investimento planejado” para que seu filho possa se sustentar mesmo na Universidade Pública. Ou seja, um indício de desfinanciamento do ensino público superior, de que o Estado-Brasileiro pode abdicar de seus deveres quanto a assistência e permanência estudantil a fim de “cortar gastos”.

Além disso, tomemos nota, — conforme amplamente divulgado — que o valor relativo ao benefício final do Educa + ao se pagar o mínimo é calculado para um curso de ensino remoto em instituição privada. O que pode não ser o caso, mas parece dar continuidade, enquanto política de Estado, a lógica implementada por Bolsonaro de intensificar a adesão ao ensino remoto.

Nesse sentido, é importante que apresentemos um dos idealizadores do Educa +, Rogério Cerón, que também parece ter sido uma das cabeças centrais por trás do Novo Arcabouço Fiscal.

Indicado pelo Ministro da Fazenda Fernando Haddad, já participou da condução da área econômica de Haddad e Bruno Covas (PSDB) enquanto prefeitos da capital paulista e de Geraldo Alckmin (PSDB) enquanto Governador do Estado.

A criação do título Educa +, uma mudança institucional significativa, parece estar ligada ao Novo Arcabouço Fiscal e também ao programa Escola em Tempo Integral. Para começar a entender isso, cabe observar o Educa + não pelo que ele nos mostra em sua superfície, mas em seus detalhes.

Como todo título direto do tesouro, o Educa + não foi criado apenas para cumprir função social x ou y. Ainda que não seja apresentado dessa forma em nenhum material de propaganda e em nenhuma revista do mundo financeiro, o Educa + também é uma tentativa de criação de nova fonte de financiamento para o Estado brasileiro.

Uma fonte mais rentável, diga-se de passagem, por ter juros fixados pelo próprio Estado quando na emissão do título. E como tal, esta não foi pensada por acaso, pela boa vontade ou sabedoria de um gestor, mas a partir de uma estratégia e segundo uma demanda social presente, ou gerada para o futuro.

Ocorre que parece existir um grave “problema”. No presente caso, a fonte de financiamento do Estado brasileiro — que não foi discutida com a sociedade — se torna mais vantajosa conforme o nível de desfinanciamento, sucateamento e privatização do ensino superior.

Quanto mais jovens desassistidos pelo Estado brasileiro em sua obrigação de prover ensino superior público de qualidade com políticas de assistência e permanência estudantil, mais famílias ingressarão nesse sistema de financiamento coletivo, e serão “educadas financeiramente” a se “planejar”.

Sobre o Novo Arcabouço Fiscal, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), o programa Escola em Tempo Integral e sua possível relação estratégica com o Educa +:

Se o atual governo não tem “culpa” pelo atual contingenciamento, como deixamos claro anteriormente, pode vir a ter nos próximos.

Como destacado pelo economista David Deccache, o Novo Arcabouço Fiscal, embora seja menos rudimentar que o teto de gastos, — justamente por ser mais flexível e bem redigido — pode se provar uma regra fiscal muito mais restritiva do que o próprio teto de gastos aprovado por Temer em 2016.

O gráfico abaixo demonstra como os investimentos do governo teriam sido muito inferiores se fosse seguido a regra do Novo Arcabouço Fiscal já naquela época. Isso significa que teríamos menos escolas, menos universidades, maior domínio do setor de educação privado.

Para que isso não ocorra, o Brasil precisa crescer em uma proporção grande e intensa, o que não parece ser nem de longe a intenção do BACEN, que controla a taxa de juros, privilegiando o rentismo e deprimindo as expectativas de crescimento da economia brasileira.

Ao que tudo indica, portanto, existe uma expectativa de que os investimentos ficarão mais escassos e que o conflito para a distribuição dos recursos se tornará mais intenso e agressivo.

Não obstante, por conta da forma como está sendo levado adiante o Novo Arcabouço Fiscal, o FUNDEB acabou por ficar, ainda bem, de fora do teto, mas isso não significa que fique livre de restrições, nem que seja a única fonte de recursos da educação básica.

Neste momento está se criando artificialmente a condição perfeita para uma batalha orçamentária entre o custeio do ensino básico e o custeio do ensino superior por dentro do teto.

O argumento neoliberal nos últimos anos no Brasil é de que devemos privatizar as universidades para custear a educação integral até o ensino médio. Isso esteve presente nas diretrizes de Temer e Bolsonaro sobre educação

Embora isso seja apenas o ponto de vista ideológico dos neoliberais, está sendo construída uma situação em que isso poderá se tornar, artificialmente, um problema real. Nesse sentido devemos observar a aprovação do programa Escola em Tempo Integral.

Enquanto trabalhistas e socialistas — que lutam há muitos anos pela educação em tempo integral — evidentemente não podemos ser contra de forma alguma. Mas cumpre destacar que, dentro desse contexto, a aprovação do programa Escola em Tempo Integral cria uma obrigação de investimento para o Estado-Brasileiro, especialmente na educação até o nível médio.

Dessa forma, o conflito na distribuição de recursos entre o ensino superior e o ensino básico deverá ser progressivamente resolvido por força de lei pendendo para o ensino básico, existindo então uma tendência explícita ao desfinanciamento do ensino superior público, visto que não será possível financiar o primeiro apenas com o Fundeb

É dentro desse panorama, e parece ser exatamente nesse sentido estratégico, que foi pensado o novo título direto do tesouro, o Educa +.

O poder, a economia política e o futuro da educação brasileira:

Todos esses processos estão ocorrendo, mas a maioria de nós, por mais envolvidos com o tema, não sabemos de boa parte sobre o tópico, e não temos informações suficientes. 

Como se sabe, na ciência política, quando se estuda o conceito de “poder”, se estuda a possibilidade da tomada de decisões. Nesse caso, decisões parecem estar sendo tomadas em um sentido estratégico de longo prazo, sem o debate com a sociedade e com as categorias envolvidas.

Diversas questões pairam sobre a natureza ideológica da economia política que está sendo seguida. Da mesma forma, uma imensidão de dúvidas relativas a aspectos operacionais também se tornam inescapáveis pela falta de informações públicas. 

Para onde irá o recurso arrecadado? Para um fundo? Esse recurso será usado para reinvestir em educação? Ou irá para o orçamento, sujeito ao teto e será utilizado para cobrir despesas financeiras passadas? O que isso representa para o futuro da educação brasileira? É esse o rumo e sociedade que almejamos construir? 

Se faz necessária, portanto, a mobilização dos setores relacionados ao tema — isto é, jovens, profissionais da área e defensores da educação pública — para levantar informações e estarmos atentos a possíveis desdobramentos. 

Fato é, parece existir um novo rumo estratégico para equacionar o problema do financiamento para o Estado brasileiro.

Iniciativas como o Educa + e análogos demonstram que existe uma tentativa racional de mudar a fonte do financiamento da dívida pública, se utilizando de uma demanda artificial gerada pela privatização ou desfinanciamento de serviços públicos, e a integração de pessoas desassistidas em sistemas de captação coletiva mediante venda de títulos públicos. 

Para além de apenas resistir ao plano dos que almejam destruir a educação pública brasileira, devemos pensar em nosso próprio modelo e estabelecer internamente em nossos espaços de militância política uma crítica ao que está se projetando da educação pública brasileira, não auxiliando discursiva ou intelectualmente com qualquer oportunista e preparando nossa militância para defender e pautar uma posição e um projeto que impeça que o futuro que estão criando seja possível.

FONTES:

1: Informações Educa + | https://g1.globo.com/economia/noticia/2023/08/01/tesouro-educa-entenda-como-vai-funcionar-o-titulo-publico-para-financiar-estudos.ghtml

2: Contingenciamento dos recursos de educação | https://www.poder360.com.br/educacao/mec-faz-corte-de-r-332-milhoes-em-educacao-basica-e-superior/

3: Informações Educa + [2] | https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/educacao/audio/2023-08/governo-lanca-titulo-publico-educa-para-financiamento-de-estudos

4: Novo Arcabouço Fiscal, análise econômica | https://www.brasildefato.com.br/2023/04/03/arcabouco-fiscal-e-regra-que-podeser-cumprida-sem-manobras-diz-economista

5: Programa Escola em Tempo Integral | https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2023/07/11/senado-aprova-criacao-do-programa-escola-em-tempo-integral

6: 2016, o ano das ocupações estudantis | https://epoca.globo.com/educacao/noticia/2016/12/retrospectiva-2016-o-ano-em-que-alunos-tomaram-escolas.html

7: Alunos do Fies acumulam 11 Bilhões em dívidas | https://g1.globo.com/educacao/noticia/2023/03/07/inadimplentes-do-fies-acumulam-r-11-bilhoes-em-dividas-atrasadas.ghtml

[ARTIGO] CAMINHOS DE AÇÃO TRABALHISTA — Uma estratégia para o Trabalhismo Revolucionário tomar a vanguarda do movimento trabalhista.

Assinado por Daniel Albuquerque, do Partido Democrático Trabalhista — PDT. Manifesto do Núcleo Caminho Brasileiro Para o Socialismo. Publicado originalmente no Portal Disparada em 12/12/20. Essa presente versão foi alterada pela equipe d’ACPB em 26/07/23.


Paciência, preparo, trabalho duro e a audácia necessários para agarrar uma oportunidade histórica.

O movimento trabalhista brasileiro encontra-se em um momento crítico de sua história. Esta tradição política genuinamente brasileira vivencia uma experiência de “ressurreição” cativante.

Seu projeto e memória, como se sabe, foram sabotados, com direito ao sofrimento durante o nefasto período da ditadura cívico-militar — o maior exemplo da obstinação da classe dominante brasileira, em conluio com amplos setores americanófilos de nossas forças armadas; como diria Chico Buarque em sua canção “Roda Viva” — que impediu o florescimento da “roseira mais linda que há[1]: a construção de um Brasil pelos, e para, os brasileiros.

Há de se ressaltar que, para fins de critério, caracterizo por povo, a exemplo da classificação de Nelson Werneck Sodré no livro “Quem é o povo no Brasil?”, apenas a classe trabalhadora, visto que nossa classe dominante não se considera parte da cultura nacional, pelo contrário, a despreza em busca de uma identidade europeia, ou americanófila.

Dado o nível de associação submissa desta às classes dominantes de outros países, atreladas ao imperialismo, não é de se espantar que quando existam representantes nacionalistas da classe dominante, não passem de exceções que confirmam a regra.

Apesar de tal ressurgimento, o movimento trabalhista brasileiro enfrenta problemas de gravidade inescapável. Ao mesmo tempo, seus inimigos históricos, mais poderosos do que nunca, erguem suas carabinas e apontam um retorno a um passado anterior ao nascimento do glorioso Trabalhismo Brasileiro.

O mesmo passado destruído em 1930, e progressivamente enterrado com a criação do Brasil moderno de 1930 até 1964, legado da tradição do Trabalhismo Brasileiro em oposição a este passado oligárquico com contornos de atraso, submisso e subdesenvolvido.

Não por acaso, Vargas segue sendo mais atacado por tudo que fez de louvável, do que pelos equívocos e pelo que aquela “Era Vargas” que carrega seu nome, possa ter tido de abjeta.

Atualmente, os ultraliberais — saqueadores da nação e do povo brasileiro — não atacam o bolsa-família, um mecanismo de distribuição de renda que, sozinho, é insuficiente para zerar a desigualdade social. Na realidade, apenas o reeditam em seu benefício próprio.

Por outro lado, do legado do Trabalhismo Brasileiro: destroem a CLT; sabotam e almejam se desfazer da Petrobrás e da Eletrobras. Atacam as noções de décimo terceiro salário, avançam maliciosamente sobre as noções de salário mínimo, de Estado-Nacional indutor do desenvolvimento econômico, de construção de um mercado interno.

Dinamitam o conceito de necessidade histórica de superação de nosso subdesenvolvimento e atraso industrial na disputa global pela vanguarda cientifico-tecnológica.

Está diante do movimento trabalhista brasileiro o seu grande dilema e problema histórico:

O “espírito do tempo”[Zeitgeist[2]] e, — como este não existe de forma autônoma, claro — as condições materiais, urgem para a formatação do Estado-Nacional brasileiro como um escudo que minimize as pressões advindas das mudanças no cenário internacional e do imperialismo; bem como pressões de eventuais parceiros comerciais e de bloco que pensem que o Brasil se colocaria em situações arriscadas ou de submissão, apenas para satisfazê-los.

É imperativo desse mesmo Estado-Nacional organizar e induzir o crescimento da economia; aumentando a infraestrutura pública, a sua abrangência, e, ao mesmo tempo, promovendo as infraestruturas públicas de uso coletivo, que preparem o Brasil para questões concretas que estão por vir. [][3].

Por outro lado, o movimento trabalhista — após renascido, ainda imaturo — tem de moldar si próprio e suas concepções, para não desperdiçar essa oportunidade histórica, esse “vácuo[4], na qual sempre trabalhou com maestria.

Para que isso seja possível, é importante entender como funciona a atual militância do movimento trabalhista brasileiro:

O movimento trabalhista brasileiro — que sofreu um período de declínio, sem chegar a morrer, após a morte de Brizola — teve um enorme crescimento desde 2018, sobretudo em camadas mais jovens da população[]. Além disso, aumentou bastante o número de simpatizantes não filiados.

Algo que é muito positivo, mas que pode se tornar um enorme problema para a tradição do trabalhismo brasileiro, se esta não conseguir passar um bom processo de formação política coerente. Não se trata apenas de ter militantes, quantidade, mas de ter, também, muita qualidade.

Esse movimento, gerou um enorme fluxo nacional de pessoas, algumas delas atraídas por Ciro Gomes — outras apenas oportunistas, que visavam se aproveitar do partido — e um número surpreendentemente grande de pessoas interessadas na história do partido e da tradição do Trabalhismo Brasileiro.

Tais grupos divergem em ideologia, sendo esta uma afirmação mais ou menos óbvia. O “primeiro grupo” segue os posicionamentos de Ciro Gomes sobre o “Projeto Nacional de Desenvolvimento”. Esses estão mais ao centro político, e muitas vezes tomam posições consideradas “senso comum”.

No “segundo grupo”, podemos encontrar tanto fisiológicos, liberais e representantes de outras ideologias avessas a tradição e a história do PDT, que conjunturalmente tentam se aproveitar do partido, por oportunismo.

Por outro lado, no “terceiro grupo”, reside uma enorme quantidade de jovens ainda em formação política. Se encontram no processo de compreensão da história do trabalhismo brasileiro e de seu caminho de transformações em contato com a classe trabalhadora, a compreender ainda as condições materiais impostas ao nosso país ao longo do tempo.

Estes jovens — história e memória viva do trabalhismo brasileiro no século XXI — formam o núcleo duro intelectual do que é a real retomada do trabalhismo brasileiro, que está muito além de meras eleições, e muito além de Ciro Gomes e seu projeto.

Muitos deste último grupo já se filiaram ao Partido Democrático Trabalhista, enquanto um bom número apenas orbita o partido e contribui com o movimento trabalhista, em geral, enquanto simpatizantes.

Ainda que este núcleo intelectual — o qual é a legítima ressurreição do trabalhismo brasileiro — esteja em formação, seja “jovem” e muitas vezes confuso acerca de muitas questões importantes no debate político, são de longe o grupo mais organizado e coeso na militância trabalhista.

Em um nível mais geral, neste grupo está a alma deste ressurgimento do movimento trabalhista, a qual é, historicamente em sua essência, — como afirma o historiador Moniz Bandeira em seu livro “Trabalhismo e Socialismo no Brasil” —, um movimento de base.

O potencial é gigantesco para a formação de intelectuais orgânicos, comunicadores, lideranças comunitárias. Em suma, pessoas que construam o Projeto Nacional de Desenvolvimento do Partido Democrático Trabalhista, influindo em seu conteúdo e colocando-o socialmente em prática, levando-o em direção, cada vez mais, à criação de uma democracia-popular.

Em uma época como a que vivemos, em que a grande maioria da juventude não tem uma única centelha de esperança nos partidos tradicionais, a importância de se ter tal militância não deve ser ignorada.

É invejável o número de páginas, mídias, e veículos, de qualidade, que integrantes deste grupo operam e gerenciam, tanto em redes sociais quanto em outros espaços de militância.

Tal núcleo intelectual certamente representaria, aqui, a “qualidade” referida anteriormente. Diferentemente dos outros grupos, estes, sim, estão em maior “sintonia” com a história do partido, a tradição que este representa, e os desígnios e problemas jogados em nosso caminho por nossa era. Os grupos fisiológicos e liberais, dessa forma, representam a mera “quantidade”. [].

Existe um grande movimento por parte do Partido Democrático Trabalhista, da Juventude Socialista e outros organismos deste, para prover formação política para a maioria de seus militantes. O que é louvável, um sintoma de que o partido está compreendo o momento histórico e o que está ocorrendo em seu interior.

Ainda assim, forças alheias ao Projeto Nacional de Desenvolvimento e à construção de uma teoria revolucionária que permita ao trabalhismo ser o caminho brasileiro para o socialismo se aproveitam da confusão, inocência, e formação política inconclusa para cooptar militantes sinceros e macular concepções ideológicas caras para a tradição do trabalhismo brasileiro. [].

Eis aqueles que atualmente tentam deturpar e sujar a história e o desenvolvimento da tradição do trabalhismo brasileiro: A hidra liberal, com suas duas cabeças, uma progressista e outra conservadora, que tenta se infilitrar no partido e nos movimentos com a primeira e, além disso, a bizarra quimera da Quarta Teoria Política e seus derivados ideológicos.

A verdade da história do trabalhismo brasileiro e o dever de carregar o seu ressurgimento no século XXI, para cumprir com suas tarefas históricas para com o país, está em jogo, a cada segundo que um trabalhista respira:

A pureza, e, principalmente, a verdade da tradição, serão maculadas neste processo?

Não pensemos que se trata, nem por um único segundo, de uma questão pequena, muito menos uma questão eleitoral. A questão é muito maior:

Qual será a postura do movimento trabalhista brasileiro? Ela será digna e compatível com a gigantesca tradição que este ostenta?

O momento histórico praticamente implora pelo retorno do trabalhismo. Não por acaso, vieram com os militantes sinceros, também toda a sorte de oportunistas e sabotadores. Será que o movimento trabalhista estará, teoricamente e em termos de prática, à altura do desafio histórico?

“Você não sabe o valor que o trabalhismo brasileiro tem…”

Por uma defesa intransigente da tradição do Trabalhismo Brasileiro e um avanço de sua prática e teoria:

Urge aos militantes sinceros que, na prática, já agem como vanguarda, que se organizem propriamente para de fato sê-la, sem nenhum tipo de receio ou de constrangimento, pois, estando amparados na tradição e em sua história, não importa o tamanho do obstáculo, somos então, também, seus legítimos representantes.

Basta que estejamos em sintonia com a verdade que esta representa. Parafraseando, com certa liberdade artística, o que costumam dizer os camaradas: “Temos de ousar lutar, temos de ousar vencer.”

Cabe a nós, aos jovens, tomar a oportunidade histórica de direcionar o movimento trabalhista em nossas mãos. Se não vier de nós, da base, mais sincera e radical quanto a seus ideais, não virá de lugar algum.

As coisas sempre foram assim. Não por acaso, a trajetória do jovem Leonel Brizola — o homem que mais amou o povo brasileiro — no PTB, foi marcada por essa postura intransigente de defesa da pureza da tradição, ideais e premissas. Sem nunca renunciar aos avanços — desde que na direção correta — que continuassem expressando a verdade da tradição.

Sua defesa apaixonada do nacionalismo-popular revolucionário no período pré-golpe de 64 expressa exatamente esta verdade.

O inconformismo de quem percebia que a tradição não poderia ficar aquém do que seus compromissos históricos requisitavam, rumando cada vez mais para a concepção de criação de uma República Democrática Popular, sob inspiração da tradição do trabalhismo brasileiro em conjunto com todo o movimento socialista do Brasil.

Fato claro no livro “Trabalhismo e Socialismo no Brasil.”, de Moniz Bandeira, em seu capítulo sobre Brizola, e a aliança entre socialistas e trabalhistas no período histórico referido acima.

Esta mesma verdade é reiterada em 1979 no ato da confecção da “Carta de Lisboa”. Proclamada e aclamada pelos presentes, que, nas palavras de Brizola:

“O trabalhismo é o caminho brasileiro para o socialismo.”

Tal afirmação guarda um enorme poder, e, ao mesmo tempo, uma enorme missão e responsabilidade: Se o trabalhismo atual ainda não é, hoje, o caminho brasileiro para o socialismo, então certamente temos um problema.

Devemos corrigir as rotas e as teorias, porque — conforme proclamado por Brizola — a intenção prática e teórica do trabalhismo brasileiro, se até aquele período histórico não fora plenamente desenvolvida, daquele momento em diante se torna apenas uma:

“TORNAR-SE O CAMINHO BRASILEIRO RUMO AO SOCIALISMO”.

Caso contrário, tudo o que for feito desse movimento será uma traição a verdade histórica representada pela tradição e seu caminho com a classe trabalhadora, a ser vendida como “novidade anti-hegemônica” ou como “modernidade progressista”, ambas inofensivas para a classe dominante.

Alguns demagogos e fariseus — pessoas que não sabem o valor que o trabalhismo brasileiro tem, cuja única intenção é o oportunismo — tiram o nexo histórico e o contexto material da trajetória da tradição, desde seu nascimento até os dias atuais. 

Apontam para momentos longínquos da história da tradição do trabalhismo brasileiro, descontextualizando seu nexo histórico. O fazem como se a memória — ou seja, o espírito da tradição — não fosse um organismo vivo e dependente daqueles que, portando seu estandarte, fizeram no passado, e, ainda hoje, fazem a sua história. 

A utilizam, porém, morta, apenas como um compilado de argumentos prontos para posicionamentos que, no atual contexto, são, no mínimo, dúbios e vacilantes.

Articular trechos da história da tradição conforme seus interesses, num jogo de espelhos, não respeitando seu próprio movimento ao longo da história rumo a uma concepção de construção do socialismo no Brasil e da construção de uma República Federativa Democrática Popular, é revisionismo. Para além, UMA TRAIÇÃO AO ESPÍRITO DA TRADIÇÃO DO TRABALHISMO BRASILEIRO.

Tanto o primeiro grupo quanto o segundo — descritos no começo deste texto — são majoritariamente anticomunistas e não muito simpáticos, nem mesmo, ao socialismo democrático, e por desconhecer a tradição e seu percurso, estão mais afeitos a “comprar” concepções revisionistas e falsificadas.

Fica claro que a maior força capaz de defender a construção do socialismo brasileiro através do trabalhismo, é, ainda que confusa, imatura politicamente e em formação, o terceiro grupo referido no começo desse texto. 

Associado a militância de base Brizolista — que ainda tem muita força no movimento trabalhista, felizmente — ainda acreditam e reivindicam a construção brasileira do socialismo, chamando-o de “Socialismo Moreno”.


Referências:

  1. Em sua música “Roda Viva”, Chico Buarque nos traz a seguinte construção:

    “A gente vai contra a corrente
    Até não poder resistir
    Na volta do barco é que sente
    O quanto deixou de cumprir
    Faz tempo que a gente cultiva
    A mais linda roseira que há
    Mas eis que chega a roda viva
    E carrega a roseira pra lá


    Dado o contexto de lançamento da música — ano de 1967, três anos após o golpe de 1964 e apenas um ano antes do endurecimento do regime, em 1968, com o AI-5 — é inferível que “a mais linda roseira que há” — derrubada ciclicamente pela “Roda Viva” — é uma das mais belas metáforas para beleza estonteante da construção nacional-popular do germe socialista no Brasil. De uma pátria feita por, e para, os trabalhadores brasileiros. Também demonstra a obstinação de nossa classe dominante em podar qualquer impulso popular de construção coletiva de projeto de país, e, consequentemente, de um próprio Brasil que nunca existiu além da esfera da possibilidade. ↩︎
  2. Um breve comentário sobre a tradução do termo “Zeitgeist”: O termo “Zeitgeist”, do alemão, é um conceito filosófico, relacionado a Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Geralmente traduzido para o português como “espírito do tempo”. Visto que a palavra alemã “geist” pode ter inúmeros significados a depender do contexto utilizado, significados que, em certas ocasiões, podem ser traduzidos como “mente”, “consciência”, “fantasma”, dentre outros, recomendo, além de “espírito do tempo”, a tradução em termos de “consciência do tempo”. ↩︎
  3. Sobre as possíveis mortes em decorrência do aquecimento global e de ondas de calor no norte e nordeste do Brasil, caso o Estado-Nacional brasileiro não cumpra com suas atribuições. Esse é apenas um exemplo de emergência de médio prazo — questões de vida ou morte — que apenas o Estado-Nacional pode resolver, mas que subjugado pelos interesses de nossa classe dominante subalterna, e aos desígnios do imperialismo e da ortodoxia econômica, sem um governo verdadeiramente popular, não poderemos. Fonte: https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tera-aumento-de-mortes-por-ondas-de-calor-afirma-estudo,70002424589 ↩︎
  4. O vácuo político, como se diz, não dura muito tempo. Sempre é ocupado por alguma força presente no jogo. Com o fim do ciclo do neoliberalismo progressista — representação da esquerda partidária brasileira enquanto gerente da banca no poder — e com o neoliberalismo econômico enfrentando uma de suas piores crises como doutrina, ocorre, também, uma abertura para o novo, o futuro indeterminado, referente a um presente ainda em disputa. Dando assim — apesar da ascensão da extrema-direita e seu momentâneo poder — uma oportunidade para a esquerda nacionalista e a esquerda radical pautarem os seus projetos e aproveitarem essa oportunidade histórica contra seus inimigos comuns, a classe dominante e o imperialismo. ↩︎









[ARTIGO] BRIZOLA e os COMANDOS POPULARES: a organização da classe trabalhadora no contexto pré-golpe de 1964

Artigo publicado exclusivamente n’A coisa pública brasileira por Cíntia Xavier. No final, há um acréscimo com o Capítulo 4 do livro “Escritos sobre a teoria política para o trabalhismo brasileiro do século XXI” (2022), escrito por Daniel Albuquerque, “Sobre Brizola no pré-64 e os “Comandos Nacionalistas” do Núcleo Caminho Brasileiro Para o Socialismo do Partido Democrático Trabalhista.


Trata-se de compreender a criação do Grupo dos 11 (Comandos Populares ou Comandos Nacionalistas) entre 1963 – 1964 como parte da estratégia de atuação extra-parlamentar do então deputado federal Leonel Brizola (1963 – 1964) para conseguir apoio e a organização das massas a favor da aprovação das reformas de base do governo João Goulart (1961 – 1964) e — em vista da conjuntura política da época — para a resistência efetiva a ameaça de golpe militar.

Embora existam poucas fontes diretas com dados sobre a organização e a visão política do Grupo dos 11, isso não impede de defini-lo. Foi na Rádio Mayrink Veiga, popular entre a classe trabalhadora, que Brizola anunciou a criação deste, em 1963, enquanto deputado federal.

Brizola falava ao vivo às sextas, 21h na Rede do Esclarecimento. Pronunciava em apoio a aprovação das reformas de base, abordava os problemas nacionais e conclamava a população à mudança, em face do perigo de um golpe empresarial militar, com apoio dos Estados Unidos, encerrar a mobilização empenhada e a maturação política da classe trabalhadora, como de fato ocorrera.

Além do rádio, o movimento contava com apoio do jornal O Panfleto, criado em fevereiro de 1964, para divulgar as ideias e propostas da Frente de Mobilização Popular (FMP), que reunia os estudantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), os operários do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), a Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Empresas de Crédito (CONTEC), a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI), o Pacto de Unidade e Ação (PUA), associações de membros do baixo escalão das Forças Armadas, Ligas Camponesas, Ação Popular (AP), Organização Revolucionária Marxista — Política Operária (POLOP), Partido Operário Revolucionário (POR-Trotskista), setores radicais do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e a Frente Parlamentar Nacionalista (FPN). (Ver Jorge Ferreira sobre “A Frente de Mobilização Popular, a Esquerda Brizolista e a crise política de 1964”)..

Apesar de não serem exatos números, diversas fontes apontam a grande popularidade que a criação desses grupos teve na sociedade brasileira do período. Também o número 11, dada a características da cultura nacional, auxiliou na disseminação dos grupos, uma vez que remetiam a tradicional formação do time de futebol, em uma época em que o Brasil ganhava sua segunda Copa do Mundo (1).

O futebol, um jogo coletivo que também comporta a potência dos talentos individuais, foi associado aos valores de uma luta social comum, contagiando e entusiasmando a população brasileira.

“Pode parecer pequeno, mas também pequeno é um simples tijolo. E é exatamente com pequenos tijolos reunidos, somados, interligados, cada um com sua função e adequadamente dispostos é que se fazem as construções ou se complementam os grandes edifícios de concreto armado”. Caderneta de Organização dos Grupos de Onze Companheiros ou Comandos Nacionalistas, 1963, p. 8 (2).

Apesar de um movimento de massa descentralizado, a comunicação da direção nacional com os membros era estabelecida a partir da rádio ou de texto, facilitando a organização das tarefas.

Na ata de fundação de cada grupo, exibiam-se os principais objetivos “(…) a atuação organizada em defesa das conquistas democráticas de nosso povo, pela instituição de uma democracia autêntica e nacionalista, pela imediata concretização das Reformas, em especial das Reformas agrária e urbana e, a sagrada determinação de luta pela libertação de nossa pátria da espoliação internacional.” (3)

A ideologia do Grupo dos 11 não se autodenominava propriamente marxista ou comunista, mas, como parte da concepção política de Brizola, concebia a luta de classes e a espoliação nacional por uma elite servil associada ao monopólio estrangeiro. Os “nacional-revolucionários” representavam esse desenvolvimento do pensamento socialista e trabalhista brasileiro e eram a ala mais radical do PTB. (4)

Tal como aborda Sérgio Gonzalez em “Grupos dos Onze: lembranças que contam a verdade histórica” (5):

“Ninguém precisava fazer “juramento de obediência irrestrita ao chefe” e nem seguir qualquer decálogo ideológico para ser membro de um Grupo dos Onze. Lógico que eram todos de esquerda. Defendiam o trabalhismo de Alberto Pasqualini, base ideológica do PTB de Getúlio Vargas, o socialismo europeu e, os mais radicais como eu, o marxismo, que estudei por orientação do meu pai. Tinha apenas de ser alguém desejoso de trabalhar com o objetivo de evitar que o Brasil saísse dos trilhos da democracia, e levar adiante os avanços econômicos, sociais e políticos iniciados por Getúlio Vargas, seguindo sem solução de continuidade no governo do presidente João Goulart com as Reformas de Base.” (GONZALEZ, 2010, p. 98)

O grupo abordava, como problema social e sintoma do capitalismo brasileiro, a concentração de terras nas mãos de latifundiários e a necessidade da reforma agrária como primeiro passo para o acesso à terra e para o desenvolvimento das forças produtivas no campo. Reconheciam a exploração do trabalhador no modelo capitalista e denunciavam o imperialismo que impedia o desenvolvimento econômico e social.

Brizola, corretamente, quer pese algumas de suas posturas iniciais na formação de seu entendimento particular sobre o projeto brasileiro, defendeu a aplicação do socialismo segundo as características brasileiras.

A formação do Grupo dos 11, nesse sentido, seria um dos passos iniciais para a organização consistente da classe trabalhadora para a defesa das reformas de base, vislumbrando, em sua maturação futura, a construção de um Exército Popular de Libertação. (6)

“A partir do movimento de massas constituído pelos “Grupos dos 11”, pensava-se organizar numa segunda etapa, o partido revolucionário, já então considerado indispensável por Brizola. Um partido que teria inclusive seu “braço armado”, constituído pela oficialidade nacionalista, pelos sargentos e marinheiros.” (SCHILING, 1979, p. 243)3)

No documento “O porquê da revolução nacional libertadora” é enfatizada a aliança com o Partido Comunista Brasileiro — os “principais aliados”. No entanto, são pontuados os problemas de unidade do partido e os erros cometidos pelos comunistas do período.

Apesar do trabalho junto a sociedade, setores destes nutriram vãs expectativas nas Forças Armadas, na institucionalidade burguesa ou mesmo se limitaram a buscar orientar-se, sem firmeza na análise da própria conjuntura nacional, conforme os eventos na URSS. (7)

A Guerra Fria e a bipolaridade entre o modelo econômico capitalista e o modelo econômico soviético, com a promoção do anti comunismo nas áreas de influência do capitalismo ocidental, determinou a reação da classe dominante, das Forças Armadas e da direita política brasileira, que se organizavam em um movimento de contra-revolução cujo ápice seria a mobilização militar com apoio dos Estados Unidos.

A supressão das experiências de organização da classe trabalhadora teve sob pretexto a retórica anticomunista. As elites temiam corretamente a criação de um exército revolucionário popular que pudesse resistir e combater os projetos das elites nacionais associadas ao capital estrangeiro americano.

Após os eventos que dissolveram o Estado Novo (1937 – 1945) e, principalmente, durante o segundo mandato de Vagas (1951 – 1954) que culmina com seu suicídio e com sua carta-testamento anti-imperialista, era necessário que as massas mobilizadas tivessem maior organização, disciplina e visão clara acerca das responsabilidades da conjuntura da época.

Brizola corretamente, e claramente, em 1963, pronunciou na rádio sobre os objetivos com a formação do Grupo dos 11. Anunciando que um desfecho da situação política que se arrastava desde o final da Segunda Guerra Mundial se aproximava e que era necessário pressão popular para aprovar as reformas de base e para resistir as ameaças de um golpe das elites, com a formação posterior de um “Exército Popular de Libertação” (8).

Apesar disso, a experiência prática era de que apesar de populares, os grupos eram formados em grande maioria por simples trabalhadores que, ao contrário do receio das elites, não possuíam comando, organização, disciplina e instrumentos o suficiente para cumprir, ao menos naquela época, com o objetivo de se tornarem um “Exército Popular de Libertação” e foram, após o golpe militar, perseguidos e torturados.

“Já nos primeiros dias após o golpe – como comprovam prisões feitas em 03 de abril de 1964 na região Alto Uruguai – iniciou-se a “caça às bruxas” sobre os supostos inimigos da “democracia”, “perigosos agentes do comunismo internacional” que estavam colocando em risco a civilização ocidental com sua luta pelas Reformas de Base, principalmente a agrária. Os Grupos de Onze Companheiros se enquadravam nessa classificação, e mesmo sem prova nenhuma de sua suposta ação guerrilheira, as pessoas que assinaram as listas de formação dos grupos foram enquadradas na Lei de Segurança Nacional. No caso específico da região Alto Uruguai, sofreram perseguições e torturas, gerando medo e insegurança. Mesmo sendo, em sua maioria, pacatos agricultores católicos, foram acusados de comunistas e presos de forma ostensiva, com grande aparato policial militar. Muitos foram expostos publicamente: os militares desfilavam pela avenida principal de caminhão, com as pessoas acorrentadas para serem vistas pela sociedade, gerando medo, vergonha e discriminação. Além disso, vários relataram ter sofrido torturas, sendo que houve mortes como consequência direta delas e/ou após quadro depressivo relacionado com o tempo de permanência na prisão.” (9)

Pode se julgar, 60 anos após os eventos, que Brizola, em seu objetivo, estava por deveras atrasado e que a organização classe trabalhadora, naquele momento, por mais conscientemente avançada que fosse, não estava a altura dos desafios do período.

As elites, que não decidiram “esperar acontecer”, inflaram o mito do “perigo vermelho” para suprimir, desde o início, qualquer tentativa de emancipação da classe trabalhadora brasileira. O insuflamento desse mito exagerou as reais capacidades do Grupo dos 11, ajudando a criar uma atmosfera aterrorizante, para as elites, de que Brizola era um líder revolucionário, e de que o Grupo dos 11 eram perigosas células comunistas.

Apesar de toda a mitologia criada em torno do Grupo dos 11 pela mídia oficial, é fato que as elites, o Exército e até a inteligência dos Estados Unidos — que o comparou a Fidel Castro — temeram Brizola.

E de fato Brizola era um líder revolucionário e a experiência do Grupo dos 11, mesmo que muito aquém de cumprir com seus objetivos últimos, representou um momento breve de disseminação da capacidade de organização popular, conscientes da conjuntura do período, mas incapazes, à dada altura, de resistirem propriamente. Tal como menciona Elenice Szatkoski em “Os grupos dos onzes: Uma insurreição reprimida” (10): 

“os grupos, além do potencial guerrilheiro, desempenhariam o papel de conscientizadores políticos de um processo revolucionário” (SZATKOSKI, 2003, p. 148)

A organização insuficiente, o apego a determinadas ilusões (como o apoio de membros ou até mesmo de parte do Exército, como ocorrera outrora) e o medo, justificado e paralisante, que o Brasil fosse dividido de forma irreparável determinou o insucesso do impedimento do golpe militar que duraria 21 anos, o apagamento da história da mobilização da classe trabalhadora desde o início do século XX, e a perseguição ao legado trabalhista, socialista e comunista brasileiro.

No entanto, a experiência, o grande contágio na sociedade brasileira, entusiasmada com a formação desses grupos, em um contexto de aproximação do golpe contra-revolucionário de 1964, merecem ser lembradas por evidenciarem, com seus erros e acertos, o grau de maturação da classe trabalhadora no período, bem como as frutíferas interações entre trabalhismo e comunismo, os braços do socialismo brasileiro.


CAPÍTULO 4: Sobre Brizola no pré-64 e os “Comandos Nacionalistas”.

Ao estudar sobre a conjuntura pré 1964 percebe-se que Brizola — que pese ter pressionado João Goulart com suas atitudes e lhe gerado certas situações desconfortáveis que poderiam ser evitadas — tinha toda razão em acelerar o processo de formação de “Comandos Nacionalistas” e das células descentralizadas por todo o Brasil, formadas por até onze militantes.

Brizola percebia, corretamente, que dado o contexto, após a campanha golpista contra Vargas que culminou em seu suicídio, a tentativa de impedir a posse de JK — esta garantida pelo General Lott — e a tentativa de impedir a posse de João Goulart — esta garantida pela Campanha da Legalidade, em 1961, levada à cabo pelo próprio Brizola — se fazia necessário a demonstração de poder real e efetivo por parte das massas da classe trabalhadora.

Se não fosse à marra, demonstrando poder e amedrontando nossos inimigos de classe, a esquerda não passaria nem um mísero projeto. Nesse sentido, a mobilização e organização de suas bases em “Comandos Nacionalistas” servia tanto para garantir a implementação integral das “Reformas de Base”, quanto para resistir a um eventual movimento golpista.

Conforme os arquivos do CPDOC e segundo Glauco Carneiro, chegaram a existir no Brasil cerca de 1.298 grupos “dos Onze”. No início de 1964, Brizola afirmou que os grupos já contavam com cerca de duzentos mil integrantes. Na prática, porém, o movimento nunca teve um grande funcionamento efetivo.

Tal iniciativa do velho Leonel sofreu imensas críticas à época, tanto dos setores mais conservadores e reacionários da direita (UDN e PSD), quanto de representantes do PCB e do próprio PTB. Tal fato pode ajudar a explicar sua paralisia.

Dentre tais críticos no espectro da esquerda, estava Luís Carlos Prestes que, apesar de toda nossa admiração, se enganou ao acreditar na primazia do “esquema militar”, confiando por demais nas instituições e na ordem vigente naquele período, em detrimento da radicalização das bases e da criação dos “comandos populares”.

Brizola sabia que, num período como aquele — e isso vale de reflexão para nosso tempo — a única forma da esquerda conseguir “jogar o jogo” era se utilizando de uma postura ambígua entre reforma e revolução.





[ARTIGO] O CENTENÁRIO DE ROBERTO SILVEIRA, maior líder popular da história fluminense.

Escrito por Daniel Albuquerque Abramo e cedido exclusivamente para a equipe d’A coisa pública brasileira.


No renomado ensaio “Teses sobre o Conceito de História”, o filósofo alemão Walter Benjamin reflete sobre a noção de história, abordando o uso de fábulas e mitos.

Ele também discute a dialética entre lembrança e esquecimento, que influencia o imaginário coletivo sendo manipulada pelas classes dominantes para exercer seu poder sobre a classe trabalhadora.

Essa perspectiva é relevante para compreender o golpe de 1964 no contexto brasileiro, cujo objetivo era alinhar o país aos Estados Unidos e eliminar a influência da esquerda, não apenas diretamente, mas também no imaginário coletivo.

Da mesma forma, se faz importante destacar que em 11 de junho de 2023, comemorou-se o centenário de Roberto Silveira, líder popular de destaque ao lado da classe trabalhadora, como governador do Rio de Janeiro. Apesar de tal importância histórica como o maior líder popular da história fluminense, atualmente Silveira é alvo de um claro apagamento histórico.

A justificativa não poderia ser outra. Silveira foi um líder popular engajado nas lutas da esquerda fluminense — desde seu envolvimento no movimento estudantil durante a Segunda Guerra Mundial — e sua ascensão ao mais alto cargo do governo do Rio de Janeiro fortaleceu uma aliança de caráter ideológico nacional-popular, consolidando os princípios defendidos por essa aliança.

No entanto, devido à grandiosidade de seu exemplo para a classe trabalhadora, a historiografia dominante ocultou a importância de Silveira e retirou seu lugar do nosso conhecimento histórico.

A trajetória de Roberto Silveira até alcançar cargos de destaque no governo estadual e no PTB oferece importantes lições para os socialistas e trabalhistas contemporâneos. Foi um dos principais representantes do movimento nacionalista de esquerda de sua época e teve que enfrentar desafios complexos para acumular poder e fornecer apoio institucional a um movimento de massas radicalmente reformista.

É crucial entender como Silveira e o PTB fluminense conseguiram superar a poderosa oligarquia do estado do Rio de Janeiro, apesar das circunstâncias desfavoráveis.

Diante do panorama atual, é fundamental que os trabalhistas e socialistas se atentem a um dos maiores eventos da vida política fluminense no século XX, lamentavelmente apagado pela historiografia das classes dominantes: A grande marcha de Roberto Silveira contra Amaral Peixoto pelo interior do estado do Rio de Janeiro e a formação de um movimento de massas.

A grande marcha de Silveira pelo estado do Rio de Janeiro, iniciada em torno de 1947, teve como objetivo estabelecer diretórios municipais do PTB por todo o interior, prezando para que estes fossem verdadeiramente populares, contando com a participação dos excluídos do sistema de poder existente.

Importante destacar que, em muitos casos, o movimento de Silveira não auxiliou apenas o trabalhismo, mas todo o movimento socialista nas localidades onde eram fundadas as sedes do PTB. Essa marcha também teve um papel significativo ao posicionar Silveira e o PTB fluminense como líderes na crítica ao domínio do “amaralismo”, que prevaleceu no estado do Rio de Janeiro desde a intervenção de Amaral Peixoto durante o período do Estado Novo.

Embora tanto o “amaralismo” quanto o PSD, assim como o “robertismo” e o PTB, tenham surgido a partir da Revolução de 30, Silveira conseguiu expressar sua visão singular sobre o legado de esquerda da utopia revolucionária de 1930 e do varguismo, além de fortalecer as lutas e valores associados a esse processo histórico.

Tal movimento por parte de Silveira ganhou força e contou com a participação de trabalhadores, estudantes, militantes do movimento nacional-popular (como nacionalistas de esquerda e socialistas) e os excluídos do sistema de poder estabelecido, especialmente nas áreas rurais controladas por oligarquias.

A luta pela terra e pela reforma agrária, assim como a industrialização nas áreas urbanas, foram questões centrais para o movimento que acabou por ser liderado por Silveira.

Da mesma forma que o brizolismo, — um fenômeno político que desempenharia um papel central no futuro do Brasil — começava a se manifestar como a agenda mais radical do PTB, o robertismo também se desenvolvia de forma autônoma na mesma direção, tendo como pano de fundo o contexto político local do Rio de Janeiro.

Embora Silveira não fosse propriamente comunista ou marxista, ele seguia as diretrizes do trabalhismo com convicção e honestidade. Por isso, Silveira sempre tratou com justiça os comunistas e socialistas, reconhecendo a afinidade de suas lutas devido à interpretação coerente que ele fazia de seu nacionalismo.

Isso pode ser observado em seu engajamento na campanha pela entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, sua oposição à participação brasileira na Guerra da Coreia e sua defesa da causa “O petróleo é nosso”, sempre ao lado de socialistas, sindicalistas e comunistas.

Tal fato também é possível de ser observado na atuação de Silveira como governador durante o evento que ficou conhecido como “Revolta das Barcas”, impedindo que manifestantes fossem reprimidos de forma desproporcional e arbitrária e defendendo o interesse público e dos trabalhadores.

Podemos dizer que tanto o avanço da luta trabalhista ao nível nacional, quanto a luta local trabalhista, nacionalista e socialista no Rio de Janeiro levaram Roberto Silveira a desempenhar um papel histórico significativo para a sociedade fluminense e para a esquerda brasileira.

Exatamente por isso temos que refletir. O esquecimento de Silveira, um líder popular cuja eleição foi celebrada e cuja morte trágica comoveu a sociedade, não pode ser atribuído ao acaso, mas sim a uma política deliberada de apagamento dos heróis populares.

No centenário de Roberto Silveira, não apenas os trabalhistas do estado do Rio de Janeiro, mas socialistas de todo o Brasil deveriam refletir sobre a importância da grande marcha de Silveira pelo interior do estado, estabelecendo diretórios populares e fortalecendo o trabalhismo e o socialismo em sua totalidade. Roberto Silveira agiu com coragem e determinação, não esperou passivamente pelos acontecimentos.

É fundamental combater o esquecimento de nossos heróis e camaradas que sempre lutaram em defesa de nossa pátria e povo, especialmente neste ano em que celebramos o centenário de Roberto Silveira.

Essa luta pela memória nos permitirá avançar na construção e disseminação de um trabalhismo do século XXI, que seja o caminho brasileiro para o socialismo e para a libertação nacional. Devemos mostrar que a chama do processo de Revolução Brasileira, iniciada com o movimento de 1930, continua acesa e pronta para guiar-nos em direção a um futuro mais justo e um tempo bem melhor para se viver.