O governo Goulart, a política externa independente e os reflexos do aguçamento das lutas sociais sobre as relações com os Estados Unidos, 2013.


Trecho retirado do livro “Brasil-Estados Unidos – A Rivalidade Emergente”, publicado em 2013, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais, e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira.


AS NECESSIDADES NACIONAIS E A POLÍTICA EXTERNA INDEPENDENTE:

Os serviços de inteligência dos Estados Unidos avaliaram que a crise constitucional, desencadeada pela renúncia de Quadros, restringiria, pelo menos durante algum tempo, a expansão da influência internacional do Brasil, cuja “aspiração ao status de grande potência sofrera um revés”.[1]

Eles acreditavam que o Brasil persistiria em sua posição, contrária às sanções contra Cuba, e que, embora houvesse restabelecido (em menos de três meses) as relações diplomáticas com a União Soviética (o que Quadros prometera e em sete meses não chegara a cumprir), seus vínculos com os países do Bloco Socialista não iriam muito além daquela moldura. O governo de Goulart, segundo estimavam, continuaria a acentuar o caráter “independente” de sua política externa, porém a necessidade de obter financiamentos bem como considerações de ordem interna torná-la-iam “menos truculenta” vis-à-vis dos Estados Unidos do que fora na administração de Quadros.[2]

Não obstante a moderação, Goulart, em verdade, tinha menos condições do que Quadros para modificar os rumos da política externa, em virtude não apenas das necessidades objetivas do desenvolvimento nacional, a demandarem a abertura de novos mercados, mas também dos compromissos políticos e ideológicos com a classe trabalhadora, suporte eleitoral do PTB, os quais também o coibiam, por outro lado, de executar coerentemente qualquer programa de estabilização monetária, conforme o FMI e as entidades financeiras internacionais exigiam, como requisito para a concessão de linhas de crédito ao Brasil.

Com ele, as pressões dos sindicatos passaram, pela primeira vez, a influir diretamente sobre o governo, condicionando suas decisões políticas e obstaculizando a aplicação de medidas econômicas, como a contenção dos salários, contrárias aos interesses dos trabalhadores. A tendência nacional-reformista de Goulart, pois, diferia essencialmente do populismo de Quadros e daí as crescentes dificuldades internas e externas com as quais ele se defrontou antes e depois de sua ascensão à presidência da República.

A comunidade empresarial, sobretudo o setor estrangeiro, mobilizou-se, a fim de combatê-lo, e concorreu decisivamente para induzir Kennedy, por fim, a antagonizá-lo.[3] As relações do Brasil, onde as lutas de classes se intensificavam, com os Estados Unidos, traumatizados pela Revolução Cubana, não podiam senão degenerar-se em meio a sucessivos problemas, a emergirem, interna e externamente, e a conturbá-las, aguçando-lhes as contradições.

A política exterior constituiu, sem dúvida, importante fator de desconfiança e conflito entre os dois países, porque a linha de independência, que Quadros focalizara com as luzes da ribalta, não decorria de uma opção ideológica, e sim do amadurecimento da consciência, sob crescente pressão das necessidades do próprio Estado nacional, de que os interesses dos Estados Unidos, em sua condição de potência hegemônica, nem sempre coincidiam e no mais das vezes se contrapunham aos do Brasil, enquanto país também capitalista e em rápida expansão.

San Tiago Dantas, um dos responsáveis, desde o segundo governo de Vargas, pelo delineamento da resistência às diretrizes dos Estados Unidos, consolidou os fundamentos doutrinários da chamada política externa independente quando assumiu o cargo de ministro das Relações Exteriores de Goulart, sob o regime parlamentarista, afirmando que ela se pautava apenas pela “consideração exclusiva do interesse do Brasil, visto como um país que aspira ao desenvolvimento e à emancipação econômica e à conciliação histórica entre o regime democrático representativo e uma reforma social capaz de suprimir a opressão da classe trabalhadora pela classe proprietária”.[4]

O restabelecimento de relações diplomáticas com a União Soviética, que ele efetivou, obedeceu às conveniências econômicas e políticas nacionais, uma vez que o Bloco Socialista, cujo índice de crescimento do comércio, da ordem de 6,47%, era, àquela época, o mais elevado do mundo, oferecia boas oportunidades de negócios, e o Brasil somente as poderia melhor aproveitar se saísse do seu autoimposto isolamento político.

Ante a perspectiva de que sua população, a crescer, como estava, a uma taxa de 3,5%, saltaria de 70,5 milhões de habitantes, em 1960, para 99 milhões, em 1970, e 125 milhões, em 1980, o Brasil, onde a renda per capita era então de US$ 240, necessitava duplicar as exportações, elevá-las de US$ 1,4 bilhão para US$ 3,1 bilhões, em 1965, de modo a ampliar a própria capacidade de importação de bens de capital e insumos básicos, necessários à manutenção de um ritmo acelerado de expansão econômica, no mínimo de 7,5% a.a., evitando assim que a pauperização e o aumento da miséria, dentro de 20 anos, reproduzissem, em seu território, o “espetáculo das comunidades asiáticas em franca regressão”.[5] Conforme San Tiago Dantas salientou: “um país sobre o qual pesa esse desafio não tem o direito de colocar limites de qualquer natureza à sua necessidade de procurar novos mercados. Discriminar é fazer discriminação à custa do futuro do seu povo e das condições mínimas do seu desenvolvimento e da sua segurança econômica”.[6]

Os termos de comércio que a União Soviética oferecia eram realmente bastante favoráveis e atrativos para o Brasil, a enfrentar gravíssima crise cambial. Ela se dispunha a projetar, construir e financiar, em longo prazo, a represa hidrelétrica de Itaipu, recebendo parte do pagamento em café, algodão, arroz e outras commodities,[7] em troca das quais também se dispunha a fornecer petróleo, trigo, bem como equipamentos e máquinas.[8]

Por isso, em abril de 1963, o Brasil concluiu um acordo de comércio e pagamento com a União Soviética, visando ao incremento do intercâmbio, que passaria de US$ 70 milhões, em 1962, para US$ 160 milhões, em 1963, US$ 200 milhões, em 1964, e US$ 225 milhões, em 1965, segundo as estimativas.[9] Assim, se tais metas se cumprissem por volta de 1965 estaria a receber da União Soviética cerca de um terço de suas importações de óleo cru e subprodutos do petróleo.[10]

Aos Estados Unidos, evidentemente, não convinha que aqueles dois países intensificassem suas transações bilaterais, sobretudo à base de acordos de pagamentos, contrariando-lhes os esforços para promover a multilateralização do comércio, por meio da livre conversibilidade das moedas. E Robert Kennedy, secretário de Justiça e irmão do presidente, expressou pessoalmente a Goulart a inconformidade norte-americana com os negócios entre o Brasil e a União Soviética, ao visitar Brasília no final de 1962.

Suas razões não eram naturalmente ideológicas, e sim de política comercial e de competição por mercados, posição em que Goulart se colocou, respondendo-lhe que o Brasil daria a preferência aos Estados Unidos desde que estes lhe oferecessem as mesmas condições de comércio, sem o dispêndio de divisas. E era o que eles não podiam fazer, empenhados que estavam em forçar o cumprimento das normas do FMI, contrárias a qualquer restrição do câmbio e a acordos monetários discriminatórios, a fim de liberalizar e multilateralizar cada vez mais o comércio internacional. Os interesses dos Estados Unidos colidiam, portanto, com as necessidades do Brasil.[11]

A expulsão de Cuba da OEA constituiu, entrementes, outro importante fator de conflito entre os dois países. Kennedy, após o fiasco da invasão de Playa Girón, tratou de promovê-la, obstinadamente, como forma de contemplar a opinião pública dos Estados Unidos e compensar o abalo que seu prestígio sofrera. O Brasil recalcitrou, repulsando as pressões para que rompesse relações com Cuba e aprovasse sua expulsão da OEA, isolando-a do convívio com os demais países do continente, porque o governo de Fidel Castro se declarara marxista-leninista.

Apesar da grave crise financeira por que passava, com as linhas de crédito suspensas praticamente desde a posse de Goulart, o Brasil manteve-se firme no campo dos princípios, enquanto, naquelas circunstâncias, os Estados Unidos se dispunham a fazer as mais amplas concessões a fim de obter seu apoio às sanções contra Cuba.[12]

Durante a VIII Reunião de Consulta dos Chanceleres Americanos, em Punta del Este (22 – 31/1/1962), San Tiago Dantas condenou as fórmulas intervencionistas ou punitivas, propostas pelos Estados Unidos, argumentando que elas “não encontram fundamento jurídico e produzem, como resultado prático, apenas o agravamento das paixões e a exacerbação das incompatibilidades”.[13] A ação militar, por ser coletiva, não deixaria de caracterizar uma intervenção, contrária à Carta de Bogotá, assim como “iria provocar, na opinião pública latino-americana, uma justificada reação, que favoreceria a radicalização da política interna do hemisfério e debilitaria, ao mesmo tempo, os laços de confiança mútua essenciais à própria existência do sistema inter-americano”.[14]

As sanções econômicas, segundo San Tiago Dantas, pareciam-lhe um “remédio juridicamente condenável”, também nos termos da Carta de Bogotá, e “politicamente inidôneo”, uma vez que o comércio de Cuba com a América Latina não passava, em média, de 4,5% do volume global das exportações e 9% das importações. E o rompimento de relações diplomáticas só se compreenderia, multilateralmente, como um passo preliminar para outras medidas, pois, do contrário, apenas eliminaria a influência dos demais países sobre o regime de Fidel Castro e deslocaria o caso de Cuba para a área do litígio entre o Leste e o Oeste, o que não interessava ao Brasil.[15]

O governo de Goulart não defendia os rumos políticos e ideológicos do regime revolucionário de Cuba. Entretanto, considerava indevida a ingerência de qualquer outro Estado, sob o pretexto que fosse, nos seus assuntos internos. Os Estados americanos, conforme San Tiago Dantas demonstrou, firmaram o Tratado do Rio de Janeiro[16] para se defenderem conjuntamente dos riscos de um ataque armado ou de uma agressão equivalente, por meio de fato concreto, por parte de potências extracontinentais, e não para se transformarem em juízes dos regimes políticos que algum dos seus signatários viesse a adotar, por via eleitoral ou de revolução.[17] Assim, ele acentuou:

Nada seria mais perigoso para a independência dos povos deste hemisfério, nada estenderia uma sombra mais aterradora sobre o futuro de nossas soberanias do que uma decisão coletiva pela qual se constituísse um organismo regional em juiz, árbitro e perito da natureza democrática dos regimes que praticamos e que abrisse definitivamente a porta para a intervenção, sob o signo do consentimento coletivo.[18]

O governo brasileiro entendia que o caso de Cuba não se diferenciava do que ocorrera em outras áreas geográficas mais distantes, como Europa e Ásia, e não havia, portanto, razões para que as Américas não aceitassem também a coexistência com regimes socialistas, como forma de reduzir as tensões e preservar a paz mundial. O isolamento entre países com sistemas sociais antagônicos só se justificaria dentro de uma estratégia que colimasse, consciente ou inconscientemente, a eliminação de um dos blocos ideológicos, por meio de decisão militar, o que o equilíbrio das armas atômicas descartara.

E, no caso de Cuba, significaria abandoná-la, definitivamente, à via atrativa da União Soviética, renunciando a qualquer possibilidade de influir, por via diplomática, sobre a evolução ulterior do regime revolucionário de Fidel Castro. O Brasil, por isso, propôs que se negociasse com aquele país um estatuto consensual de neutralidade, com o objetivo de evitar sua integração política e militar no Bloco Soviético, conseguindo seu desarmamento até níveis compatíveis com as necessidades defensivas regionais, ao mesmo tempo em que lhe daria segurança contra as ameaças de intervenção militar por outro Estado.[19]

A neutralização de Cuba, com o estabelecimento, por meio da mediação, de um estatuto de obrigações negativas, conciliaria os princípios de autodeterminação e não intervenção com as necessidades de segurança do sistema interamericano, bem como permitiria, segundo San Tiago Dantas, que aquele país se amoldasse aos princípios democráticos, devido às conveniências econômicas e diplomáticas que o seu próprio regime, em coexistência com as democracias representativas, viria a perceber. Os Estados Unidos, no entanto, rejeitaram a fórmula do Brasil, apoiada por México, Argentina, Chile, Equador e Bolívia, e conseguiram, por 14 votos, a exclusão de Cuba da OEA durante a VIII Reunião de Consulta.

E, nove meses mais tarde, duas semanas após outra conferência de chanceleres americanos em Washington (2 – 3/10/1962), Kennedy determinou o bloqueio naval de Cuba, revelando que a União Soviética lá instalara, a pedido de Fidel Castro, bases de mísseis teleguiados. Escreveu então uma carta a Goulart, dizendo que: “Issues on which we in the Hemisphere may have marginal disagreements as well as political divisions among our peoples become insignificant in the face of this threat to the peace.”[20]

E solicitou-lhe o apoio à posição dos Estados Unidos, que convocariam urgente reunião do Órgão de Consulta do Sistema Interamericano, sob o Pacto do Rio de Janeiro, a fim de propor a adoção de todas as medidas, individual ou coletivamente, inclusive o emprego da força, de modo a impedir que Cuba continuasse a receber da União Soviética e da China material bélico e suprimentos capazes de ameaçar a paz e a segurança do continente. Convidou Goulart, outrossim, para entendimentos, por intermédio das autoridades militares dos dois países, visando à possibilidade de participação do Brasil, juntamente com os Estados Unidos e outras forças do hemisfério, em qualquer ação militar que o desenvolvimento da situação em Cuba pudesse requerer.[21]

Goulart respondeu-lhe com firmeza e moderação, ponderando que o Brasil sempre se manifestara contra a intervenção militar em Cuba, porque sempre reconhecera a todos os países, quaisquer que fossem seus regimes ou sistemas de governo, o direito de soberanamente se autodeterminarem.[22]

Considerava, por conseguinte, legítimo o seu direito de se defender contra possíveis agressões, “partissem de onde partissem”[23] e que visassem pela força ou pela violência a impedir sua autodeterminação. O Brasil, acentuou, “sempre foi claro na sua posição, coerente com a sua tradição e fiel ao espírito cristão do seu povo”, motivo pelo qual “nunca reconheceu a guerra como instrumento capaz de resolver conflitos entre as nações”.[24] E, “por todas essas razões, não aceitaríamos também como legítimo o armamento ofensivo de Cuba”.[25]

O governo de Goulart, tendo o jurista Hermes Lima como primeiro-ministro, instruiu o seu embaixador junto à OEA, Ilmar Pena Marinho, no sentido de aprovar o bloqueio naval de Cuba e a inspeção dos navios que a ela se dirigiam, a fim de evitar que outros carregamentos de armas ofensivas lá chegassem, bem como recomendou a modificação da proposta dos Estados Unidos, no sentido de exigir, antes de qualquer ação militar, a comprovação por observadores da ONU de que o arsenal soviético realmente existia e continuava em seu território.[26]

Ao mesmo tempo, a pedido do embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, o governo de Goulart enviou a Cuba o general Albino Silva, chefe da Casa Militar da presidência, com a missão de transmitir pessoalmente a Fidel Castro a posição do Brasil, que compreendia a necessidade de Cuba possuir armamento defensivo mas se opunha à instalação, em seu solo, de mísseis ofensivos soviéticos, por significarem um risco para a segurança do hemisfério e para a própria paz mundial.[27]

A crise internacional, finalmente, evoluiu para um agreement entre a União Soviética e os Estados Unidos, cujo compromisso de não mais tentarem a invasão de Cuba possibilitou, como contrapartida, o desmantelamento das bases de foguetes balísticos lá construídas.

Apesar do comedimento de Goulart, não negando o apoio a Kennedy no que lhe fora possível, sem abdicar da defesa da autodeterminação de Cuba, as relações entre o Brasil e os Estados Unidos não melhoraram, antes se engravesceram cada vez mais daí por diante. Esse fato evidenciava, portanto, que as crescentes dificuldades entre os dois países não decorriam, na verdade, das divergências em política externa e sim, essencialmente, de incoercíveis pressões de política interna, a expressarem interesses econômicos e sociais contraditórios, que afetavam suas relações bilaterais e compeliam seus respectivos governos ao conflito, conquanto se esforçassem, em certos momentos, para alcançar algum termo de inteligência.

Goulart, quando assumiu a presidência, tratou efetivamente de entender-se com Kennedy, não tomando qualquer atitude que pudesse parecer hostil aos Estados Unidos. Não sancionou a Lei nº 4.131, que regulamentava as remessas de lucros para o exterior, deixando ao Congresso, onde ela tramitara desde o final do governo de Kubitschek, a responsabilidade por sua promulgação.

E também nada fez para regulamentá-la e, consequentemente, cumpri-la. Seu objetivo não era afrontar e sim negociar, mas, enquanto articulava uma visita aos Estados Unidos, que ocorreria em abril de 1962, Brizola, sem pedir, como a lei determinava, sua autorização, expropriou outra empresa norte-americana, subsidiária da IT & T Co., responsável pelos serviços telefônicos no Rio Grande do Sul.[28]

Kennedy, por sua vez, opôs-se à iniciativa de alguns deputados e senadores, que, como represália à atitude de Brizola, apresentaram emenda à legislação dos Estados Unidos, proibindo qualquer assistência financeira a países onde propriedades norte-americanas fossem nacionalizadas sem adequada indenização.[29] E advertiu os jornalistas para o erro de hostilizar o Brasil devido ao gesto de um governador de Estado. E, em entrevista à imprensa, disse-lhes: “Look at the map and realize the vitality of Brazil. I think that we ought to keep the sense of proportion.”[30]

A Kennedy interessava, claramente, manter o entendimento com o Brasil, cujo território, população e economia representavam pelo menos a metade da América do Sul e lhe davam enorme peso político nos destinos do hemisfério. Por isso entendia que o atacar, naquelas circunstâncias, era fazer o jogo dos inimigos, como considerava Brizola, fortalecendo-os e diminuindo a influência dos Estados Unidos. O que lhe importava era:

“the whole Brazilian nation, which is vital and which is a key and with which we must have the closest relations”.[31]

Embora Kennedy apresentasse a nacionalização da IT & T como simples manifestação de antiamericanismo e não como um caso de contenda comercial, devido à ineficiência da companhia, sua prudência correspondia então a uma política que visava atrair Goulart para a órbita da Nova Fronteira e o influenciar, de modo que ele se mantivesse politicamente no centro, apartando-se da esquerda, o que, na percepção dos Estados Unidos, não significava apenas o comunismo, porém qualquer tendência contrária aos seus interesses econômicos e financeiros.

E o recrudescimento do nacionalismo preocupava, sem dúvida, as autoridades de Washington. Às vésperas da viagem de Goulart aos Estados Unidos, o Departamento de Estado, em documento para Kennedy, observou que, embora sem os “extravagantes acenos” de Quadros para os países neutralistas e o Bloco Sino-Soviético, a política externa do Brasil continuava com geral aceitação por todos os partidos e pelo povo.[32] O amplo apelo de sua linha de independência, conforme o Departamento de Estado ressaltou em sua análise, relacionava-se com o crescimento do nacionalismo, que emanava da crença de que o destino do Brasil era tornar-se potência mundial e adquirir o seu lugar ao sol.[33]

Arthur Schlesinger Jr., outrossim, escreveu a Kennedy um memorandum aconselhando-o, a fim de seduzir Goulart, a considerar que a “psicologia do Brasil contemporâneo” se caracterizava por forte nacionalismo, “de nenhuma forma violento ou fora de controle”, mas constituindo ainda grande fator de condicionamento de sua política, tanto interna quanto externa.[34] Segundo ele, o Brasil via a si próprio como o maior país da América Latina, o mais dinâmico e o mais progressista, com o maior crescimento econômico, e queria ser reconhecido na condição de transformar-se em potência mundial.[35]

E, depois de salientar que o governo do Brasil se considerava nacionalista e progressista, lembrou que, por muito tempo, a política dos Estados Unidos foi vista na América Latina como essencialmente interessada em defender-lhes os investimentos privados no estrangeiro e que, embora a Nova Fronteira e a Aliança para o Progresso “confundissem” essa imagem, o “estereótipo” continuava a subsistir sob a superfície, e a reação norte-americana à nacionalização da IT & T o reativara.[36] Schlesinger, por fim, recomendou que Kennedy dissesse que o Brasil, aspirando liderar, como Afonso Arinos proclamara na ONU, as nações subdesenvolvidas e amantes da paz, poderia conduzir com os Estados Unidos o movimento por um mundo pluralista, pois

“just as the future of democracy in Asia depends considerably on the example of India, so the future of democracy in Latin America depends considerably on the example of Brazil”.[37]

A contenda na América Latina, como Kennedy deveria acentuar, não era entre o statu quo e a revolução, mas “entre a revolução democrática e a revolução comunista”, que os Estados Unidos combatiam “não porque o comunismo ameaça os investimentos privados e sim porque ameaça as reformas democráticas e a independência nacional”.[38] Assim, no entendimento de Schlesinger, a competição pelo futuro da América Latina seria “entre o caminho brasileiro e o caminho de Castro”.[39]

As palavras, no entanto, não podiam modificar a dinâmica dos acontecimentos. O idealismo liberal da Nova Fronteira, após um ano de administração, esgotara-se e já não resistia ao conservadorismo real do poder. A política de Kennedy, àquela altura, começara a ceder às pressões da comunidade empresarial e financeira com interesses no Brasil. E seus objetivos, praticamente, pouco se diferenciavam daqueles que Eisenhower encalçara. Ela colimava a manter condições de segurança e rentabilidade para os investimentos privados norte-americanos, diante dos quais todo o intuito de favorecer reformas econômicas e sociais empalidecia.

Assim, em tais circunstâncias, Kennedy nada tinha de politicamente novo a oferecer ao Brasil, exceto mais recursos de Estado para Estado, desde que Goulart reprimisse tanto os comunistas quanto os demais elementos de esquerda, sobretudo nos sindicatos, aplicasse rigoroso plano de estabilização monetária e indenizasse não apenas a IT & T como também a American & Foreign Power (Amforp), subsidiária da Bond & Share, que Brizola nacionalizara em 1959. A revisão da lei de limitação das remessas de lucros constituía mais um ponto do contencioso. E aí se condensavam os principais fatores do impasse e dos conflitos, que levaram os Estados Unidos, entre 1962 e 1964, a intervirem cada vez mais na política interna do Brasil como agente de desestabilização e subversão da democracia.

Goulart sempre considerou impertinência o fato de autoridades norte-americanas, sobretudo Robert Kennedy, falarem, durante as conversações, sobre suposta infiltração de comunistas no seu governo, mas se mostrou algumas vezes bastante complacente, não repelindo in limine a abordagem do assunto. E não podia expurgar os comunistas e outros elementos de esquerda dos sindicatos e das entidades estudantis, como os Estados Unidos desejavam, senão por meios repressivos, antidemocráticos e anticonstitucionais, o que criaria também para Goulart uma incompatibilidade com os setores que o apoiavam politicamente.

Essas mesmas razões, inter alia, executar não lhe permitiram também, até as últimas consequências, o plano de estabilização monetária, porque, além da oposição de certos setores do empresariado nacional, não podia admitir a compressão dos salários, mantendo-os abaixo dos índices de elevação do custo de vida, em virtude de seus compromissos políticos e programáticos com a classe trabalhadora, o esteio de sua carreira como líder de massa.

Quanto à indenização da IT & T e da Amforp, Goulart também se empenhou para resolver o problema, que conturbava as relações do Brasil com os Estados Unidos. No curso de 1962, instituiu a Comissão de Nacionalização das Empresas Concessionárias de Serviços Públicos (Conesp) e não só instalou a Eletrobras, cujo objetivo, segundo o velho projeto de Vargas, seria encarregar-se de todo o setor de produção e distribuição de energia elétrica, como criou o Conselho Nacional de Telecomunicações (Contel) e a Comissão Nacional de Energia Nuclear, com o monopólio estatal para a pesquisa, a lavra de jazidas e o comércio de minérios nucleares e outros materiais físseis. A expansão dos serviços de energia elétrica e telecomunicações constituía então um imperativo do desenvolvimento industrial e urbano do país, e Goulart percebia claramente que, como aquelas e outras empresas estrangeiras havia muito não investiam no setor, outras nacionalizações tornavam-se inevitáveis, ampliando ainda mais o problema com os Estados Unidos.

A compra do seu acervo, a começar pelo da IT & T e da Amforp, afigurava-se, por conseguinte, como solução. Ele, entretanto, não teve condições internas para a efetivar, porque tanto os nacionalistas, com Brizola à frente, quanto o próprio Lacerda, que encampara, no Rio de Janeiro, outra companhia telefônica, ligada à Light & Power, passaram a atacar duramente a transação com aquelas empresas. O valor por elas exigido estava muito acima do seu valor real, dado que se apurou a existência de fraudes contábeis, em prejuízo do Estado; seus equipamentos eram completamente obsoletos, e os contratos estavam vencidos.[40] Assim, aparte da reconhecida legalidade dos atos de desapropriação e da controvérsia sobre se ainda tinham direito e o quantum a receber como compensação, a imagem daquelas empresas, sobretudo pela ineficiência, era péssima perante a opinião pública, o que constrangia Goulart de as favorecer, arrostando tamanha oposição.

Mas, enquanto ele tratava de equacionar os entendimentos com a IT & T e a Amforp, outros dois fatos concorreram para estorvar ainda mais as relações com os Estados Unidos e aumentar sua animosidade contra o Brasil. O Conselho de Ministros, em meados de 1962, aprovou o cancelamento das concessões de jazidas de ferro à Hanna Mining Co., o que já estava em pauta desde a administração de Quadros, e o governador Cid Sampaio, da UDN, nacionalizou, em Pernambuco, a subsidiária da Amforp, cujo contrato igualmente expirara.

Embora após seu primeiro ano de mandato Kennedy começasse a esposar os interesses do empresariado e se tornasse mais consciente de que o presidente não é realmente livre para determinar por si próprio a política externa, como a historiadora norte-americana Ruth Leacock observou,[41] não considerou que Goulart também enfrentava toda sorte de limitações, inclusive constitucionais, devido à restrição de seus poderes pelo parlamentarismo, não dispondo de força para executar, ao seu arbítrio, medidas de tal magnitude em uma sociedade democrática. Dessa forma, enquanto o Congresso, com a oposição do próprio Kennedy, votava a emenda do senador Bourk Hickenlooper, a proibir a assistência financeira a países onde propriedades norte-americanas fossem nacionalizadas sem pronto pagamento da indenização, o governo dos Estados Unidos resolveu intervir nas eleições do Brasil, marcadas para outubro de 1962, a fim de eleger o máximo de deputados e senadores anticomunistas, ou melhor, de direita, e assim intensificar as pressões sobre Goulart.[42]

De acordo com a informação do ex-agente da CIA Philip Agee, sua organização gastou no Brasil uma soma equivalente a US$ 12 milhões, talvez atingindo US$ 20 milhões,[43] dos quais o próprio embaixador Lincoln Gordon, posteriormente, admitiu cerca de US$ 5 milhões,[44] de qualquer modo uma importância muitíssimo superior à aplicada no Chile, da ordem de US$ 2,6 milhões, com o objetivo de assegurar a vitória do candidato democrata-cristão Eduardo Frei sobre o socialista Salvador Allende durante a campanha presidencial de 1964.[45]

A covert action constituiu um instrumento da política externa dos Estados Unidos, mas evidentemente ela não se restringiu ao esforço de propaganda anticomunista e ao apoio aos candidatos de direita e extrema direita, uma vez que em 1962 ingressaram no país 4.968 norte-americanos com vistos especiais, número quase quatro vezes superior à média dos anos anteriores e posteriores, o que causou estranheza ao governo de Goulart e levou o deputado Renato Archer, subsecretário de Relações Exteriores, a solicitar explicações ao embaixador Lincoln Gordon.[46] O número caiu para 2.463 em 1963, devido talvez às restrições do Itamaraty e à repercussão que aquela invasão informal começava a alcançar, com denúncias a aparecerem na imprensa e na Câmara dos Deputados.[47]

Os norte-americanos, na condição de pastores evangélicos, comerciantes, estudantes, pesquisadores, membros do Peace Corps etc., rumavam, na maioria, para o Nordeste, a região que mais preocupava o governo dos Estados Unidos como potencialmente revolucionária, e as autoridades militares e diplomáticas brasileiras, inclusive Renato Archer, suspeitaram, senão concluíram que eles, em grande parte, pertenciam à CIA e/ou às unidades especiais de contrainsurreição.[48]

A penetração do Brasil pelos norte-americanos, com o empreendimento das mais variadas modalidades de covert action e spoiling action, engravesceu, sem dúvida alguma, a crise interna, induzindo artificialmente o processo político à radicalização, muito além dos próprios impulsos intrínsecos das lutas sociais. Não havia, naquelas circunstâncias, sequer a possibilidade de que Cuba viesse a estimular qualquer insurreição contra o governo de Goulart, que defendia seu direito à autodeterminação, nem à União Soviética, empenhada em combater o stalinismo chinês, interessava criar outro problema na América Latina. O jornalista Tad Szulc, do New York Times, reconheceu como “evidente” que “não foi a influência direta de agentes, dinheiro ou armas de Cuba que levou Goulart e seus companheiros à beira de um Estado quase revolucionário no Brasil”, embora fosse “inconfundível a influência psicológica e intelectual” da revolução de Fidel Castro, “ainda que transmudada em termos puramente brasileiros”.[49]

Com efeito, o que levou Goulart à beira de um “Estado quase revolucionário”, se é que assim se pode considerar o desbordamento da democracia sob o seu governo, foi principalmente o fato de que Kennedy, com as promessas de reformas da Nova Fronteira e da Aliança para o Progresso, reagiu, diante de algumas nacionalizações, que nada tinham de socialistas e sim visavam à expansão nacional do capitalismo bem como dos esforços do Brasil para manter maior independência em suas políticas interna e externa, do mesmo modo que Eisenhower em face das primeiras mudanças empreendidas por Castro. Assim, as lutas sociais, das quais, no Brasil, a comunidade empresarial norte-americana participava como significativo segmento de suas classes dominantes, condicionaram, em larga medida, o comportamento de Kennedy e a forte hostilidade dos Estados Unidos a Goulart, porquanto, àquela época, as corporações multinacionais, em busca de fatores mais baratos de produção, não podiam tolerar nos new industrializing countries nenhum governo de corte social-democrático que, sob influência dos sindicatos, favorecesse a valorização da força de trabalho.

O Council of the Americas, sob a liderança de David Rockfeller, empenhou-se, efetivamente, na desestabilização do governo de Goulart, com o conhecimento e a participação da CIA, conforme o depoimento do ex-embaixador no Chile, Edward Korry, perante o Senado dos Estados Unidos.[50] No segundo semestre de 1962, a somar-se à IT & T, a Hanna passou a pressionar o governo de Kennedy para não dar qualquer assistência financeira ao Brasil até que Goulart resolvesse o caso do cancelamento de suas concessões no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais.[51] E o banqueiro William H. Drapper, que visitara o Brasil em missão oficial, manteve, durante as primeiras semanas de outubro daquele ano, diversos contatos com elementos da comunidade empresarial norte-americana e, a refletir suas opiniões, sugeriu a Dean Rusk que os Estados Unidos adotassem a linha dura, recusando qualquer ajuda ao balanço de pagamentos do Brasil até que Goulart ou aplicasse um plano de estabilização monetária satisfatório para o FMI ou caísse do governo, tragado pela voragem da crise de suas contas externas.[52] Sua perspectiva era a de que Goulart provavelmente não executaria o plano de estabilização monetária e, inflectindo mais para a esquerda, possibilitaria a “polarização das forças políticas domésticas” e, em uma segunda etapa, o golpe de Estado, com a instauração de forte regime militar de direita, “melhor orientado para os Estados Unidos”.[53] John Richard, executivo da RCA e presidente da Câmara Americana de Comércio, sugeriu-lhe que os Estados Unidos forçassem o colapso econômico do Brasil, com o corte de toda ajuda ao governo de Goulart, de modo a produzir sua queda e abrir o caminho para os militares.[54] Lincoln Gordon, por outro lado, temeu que Goulart se fortalecesse, na onda do antiamericanismo, e realizasse expropriações maciças de empresas dos Estados Unidos, razão pela qual propôs o adiamento de tão drásticas decisões por poucos meses mais, até a realização do plebiscito, em 6 de janeiro de 1963, quando o povo decidiria pela restauração do presidencialismo.[55]

Entretanto, embora o governo de Goulart aprovasse a inspeção dos navios com destino a Cuba durante a crise dos mísseis, demonstrando que a defesa de sua autodeterminação não significava favorecimento da expansão militar da União Soviética nem abdicação dos compromissos fundamentais com o Ocidente, Kennedy, em dezembro de 1962, já se mostrava desmesuradamente inquieto e nervoso com a situação no Brasil. No dia 11 daquele mês, reuniu o comitê executivo do Conselho de Segurança Nacional para examinar a “ameaça comunista” no Brasil e a crise do seu balanço de pagamentos. Ao que tudo indica, naquela oportunidade, decidiu-se que os Estados Unidos suspenderiam totalmente qualquer financiamento ao governo de Goulart, nada fazendo, como prorrogação de vencimentos, para aliviar as dificuldades de suas contas externas, e só destinando recursos aos Estados, depois denominados “ilhas de sanidade administrativa”,[56] cujos governadores eram militantes anticomunistas.[57] No dia seguinte, ao falar à imprensa, referiu-se duramente à situação do Brasil, declarando que uma inflação de 5% ao mês anulava a ajuda norte-americana e aumentava a instabilidade política. Segundo ele, uma inflação no ritmo de 50% ao ano não tinha precedentes, e os Estados Unidos nada podiam fazer para beneficiar o povo do Brasil, enquanto a situação monetária e fiscal no país fosse tão instável.[58] Sua atitude, a afirmar praticamente que outra nação estava em bancarrota, chocou o governo de Goulart, que a considerou irresponsável, pois seus efeitos econômicos e políticos seriam desastrosos para o Brasil, em particular para seus créditos externos. E, enquanto sua entrevista repercutia, no dia 13 Kennedy, recebeu em audiência o senador Juscelino Kubitschek, ex-presidente do Brasil, e Lleras Camargo, ex-presidente da Colômbia, abordando com eles o tema da América Latina e, em particular, do Brasil. Kubitschek, que notara uma crescente animosidade contra o Brasil nos Estados Unidos, defendeu Goulart, como um “homem de sólidos princípios, com bom entendimento político”, que necessitava sentir-se apoiado para contrarrestar as influências adversas, tais como a do seu cunhado, Leonel Brizola, “violentamente antiamericano”.[59] Kennedy ponderou que não importava quanto os Estados Unidos haviam aplicado no Brasil, a verdade era que o dinheiro não produzira nenhum resultado, uma vez que a inflação e a fuga de capitais continuavam. O outro fato a preocupar, segundo ele, era a forte influência marxista ou comunista no movimento operário e em outras áreas importantes da sociedade brasileira, o que contribuía para o total agravamento da situação. Kubitschek explicou que os elementos de esquerda, embora não tivessem um peso significativo, eram muito atuantes e barulhentos, de modo que contribuíam para impopularizar a Aliança para o Progresso. E instou Kennedy, várias vezes, a cooperar com o Brasil — e sem demora — na solução dos seus problemas de balanço de pagamentos. No curso da conversa, salientou que, na sua administração, o Brasil recebera mais de US$ 2,5 bilhões, o equivalente à média anual de US$ 500 milhões, o que contrastava com os parcos US$ 10 milhões investidos naquele ano. Kennedy ponderou que as políticas radicais de nacionalização do capital e expropriação de empresas estrangeiras afugentavam cada vez mais os investimentos. E Kubitschek aproveitou, mais adiante, uma oportunidade para salientar que, durante seu mandato, promovera a luta pelo desenvolvimento do Brasil, alcançando grande sucesso, mesmo sem quase receber qualquer ajuda do governo dos Estados Unidos. E havia certas áreas, como a situação do balanço de pagamentos, em que a cooperação dos Estados Unidos, ele enfatizou, seria muito útil. Os argumentos de Kubitschek em favor da colaboração com Goulart não sensibilizaram Kennedy. Por duas vezes, ele repetiu que considerava a situação do Brasil, devido à sua natureza e à sua posição-chave nos assuntos do hemisfério, mais grave que a de Cuba, que afinal era um país pequeno, e por isso tinha a máxima prioridade. Contudo, acentuou, o fato era que, não importando o que os Estados Unidos fizessem, a situação do Brasil devia deteriorar-se.[60]

Uma semana depois da reunião do Comitê Executivo do Conselho de Segurança Nacional e quatro dias após o encontro com Kubitschek, Kennedy enviou ao Brasil seu irmão Robert, procurador-geral dos Estados Unidos, com o objetivo inter alia de influir na reforma do ministério de Goulart, prevista como consequência do plebiscito a realizar-se em 6 de janeiro de 1963, ameaçando com a suspensão de toda a assistência financeira (decisão, aliás, já tomada) caso não entregasse os postos da administração a elementos que se dispusessem a colaborar com os Estados Unidos. Robert Kennedy referiu-se à propalada infiltração de comunistas, bem como à presença de esquerdistas e nacionalistas antiamericanos em altos escalões civis e militares do governo, nos sindicatos e nas entidades estudantis, e criticou a “omissão” de Goulart, por não se opor publicamente a atitudes antiamericanas de alguns dos seus funcionários, que atacavam inclusive o Peace Corps. Os Estados Unidos, ele declarou, queriam ajudar e cooperar, mas precisavam de gente no governo (do Brasil) que não lhes fosse hostil, bem como de um sólido programa para colocar a casa em ordem nos setores econômicos e financeiros.[61] A conversa abordou os vários pontos de atrito, inclusive a compra de helicópteros da Polônia pelo Brasil com pagamento em café, e tornou-se bastante tensa e dura quando Goulart passou a retrucar rispidamente, mas, ao fim, evoluiu para um tom mais cordial.[62]

Goulart naturalmente não cedeu, porquanto nem afastou do governo seus colaboradores apontados como comunistas ou esquerdistas nem reprimiu os sindicatos e as entidades estudantis. Entretanto, apesar da maioria esmagadora que obteve no plebiscito (9 votos em cada 10 foram favoráveis à restauração dos poderes presidenciais), tratou de contemporizar com os Estados Unidos e nomeou San Tiago Dantas para executar o Plano Trienal, que Celso Furtado, ministro do Planejamento, elaborara, buscando conciliar as medidas de combate à inflação, conforme as normas recomendadas pelo FMI, com as metas de desenvolvimento. E antes de viajar para os Estados Unidos, onde retomaria as negociações para a obtenção de recursos e o reescalonamento da dívida externa, San Tiago Dantas aplicou as medidas para a estabilização da moeda, tais como a criação do cruzeiro forte, o corte de subsídios às importações e taxas de câmbio, dando mais alguns passos no sentido da uniformização das taxas de câmbio. Concomitantemente, por meio do Banco do Brasil, concedeu um empréstimo de US$ 7,3 milhões à IT & T, como forma disfarçada de adiantamento da indenização, que a empresa desejava, e acelerou as negociações para a compra da Amforp.

A missão de San Tiago Dantas, contudo, não alcançou resultados efetivamente satisfatórios. Antes mesmo de sua viagem, a imprensa norte-americana, na mesma linha de pensamento de Kennedy, acusava o Brasil de dissipar os recursos que ao longo dos anos os Estados Unidos supostamente lhe destinaram. O Itamaraty, por meio de sua embaixada em Washington, teve de divulgar uma nota, mostrando que, de 1955 a 1961, em apenas cinco anos, o Brasil perdera, com a queda substancial dos preços pagos por seus produtos exportados, cerca de US$1,4 bilhão, montante superior aos desembolsos líquidos efetuados entre 1940 e 1962 pelos Estados Unidos, cuja propalada ajuda, da ordem, portanto, de apenas US$ 1 bilhão, fora condicionada à compra de bens de serviços norte-americanos.[63] E durante as conversações de San Tiago Dantas com as autoridades de Washington, os problemas concretos, que transcendiam o programa de estabilização, afloraram. O secretário de Estado assistente Herbert May e o próprio embaixador Lincoln Gordon, a levantarem o contencioso dos Estados Unidos com o Brasil, referiram-se, especificamente, às “ameaças” à indústria farmacêutica, à carne industrializada, às exportações de minério de ferro, café, algodão, produtos petroquímicos, à distribuição de petróleo, às refinarias privadas e, sobretudo, à lei de limitação das remessas de lucros para o exterior.[64]

San Tiago Dantas esclareceu cada ponto, diferenciando a posição de Goulart, enquanto governo, daquela que a Frente Parlamentar Nacionalista e o próprio PTB defendiam no Congresso. E antecipou que proporia nova legislação para as remessas de lucros, de modo a satisfazer as empresas estrangeiras. O ambiente, no entanto, era de receios e desconfiança. A perspectiva de comércio do Brasil com a União Soviética, os possíveis vínculos de Cuba com a esquerda brasileira e a apregoada infiltração de comunistas no governo de Goulart entraram igualmente na agenda das discussões, dando-lhes caráter mais político do que técnico. As dificuldades foram tantas que San Tiago Dantas, durante outras negociações em Washington, examinou com o embaixador do Brasil, Roberto Campos, a conveniência de interrompê-las, na mesma linha do que Kubitschek fizera com o FMI. Mas concluiu que, àquela altura, nenhuma atitude mais enérgica mudaria o ambiente, pelo contrário, o engravesceria. A percepção prevalecente nos Estados Unidos era então a de que o Brasil envesgava para a esquerda, não por meio da subversão e sim, conforme Gordon denominara, do processo de “superversão” com o qual o próprio governo de Goulart tratava de promover, de cima para baixo, a destruição da ordem econômica, social e política, a fim de implantar algum tipo de república sindicalista ou socialista.

Por essa e outras razões, entre as quais, certamente, as divergências da política externa em relação Cuba, os Estados Unidos decidiram que, do total dos financiamentos prometidos ao Brasil, ainda durante a administração de Quadros, da ordem de quase US$ 400 milhões, e não efetuados devido à sua renúncia, eles só liberariam US$ 84 milhões, dos quais US$ 30 milhões o Departamento do Tesouro reteria, como pagamento do crédito de emergência outorgado, em janeiro de 1963, ao governo de Goulart por um prazo de 90 dias para atender às dificuldades do balanço de pagamentos.[65] Mais recursos dependeriam, posteriormente, de parecer favorável do FMI, do sucesso das negociações com os credores da Europa e da apresentação de um plano mais explícito de desenvolvimento, promoção de exportações e estímulos aos investimentos estrangeiros.

Após seu regresso ao Brasil, San Tiago Dantas agravou as medidas de estabilização monetária, e Goulart encaminhou ao Congresso o anteprojeto de reforma bancária, criando o Conselho Monetário Nacional e o Banco Central. Brizola, no entanto, arremeteu violentamente contra o Plano Trienal, as negociações com o FMI e os entendimentos entre o Brasil e os Estados Unidos, denunciando como lesivo ao interesse nacional o acordo para a compra da Amforp. Outrossim, embora Almino Afonso, ministro do Trabalho, concertasse com San Tiago Dantas e Celso Furtado não permitir que a expansão do salário monetário se convertesse em fator de inflação, o governo não pôde impedir o recrudescimento das greves, em consequência da alta do custo de vida, provocada pelas próprias medidas monetaristas, entre as quais a desvalorização do cruzeiro. Os militares e os funcionários públicos não aceitaram o aumento de apenas 40% em seus soldos e vencimentos. O próprio Goulart, que evitara, comprometer-se publicamente com o Plano Trienal, sempre dissera a San Tiago Dantas e a Celso Furtado que autorizaria o aumento dos salários, se os preços disparassem. E com efeito, em maio, o governo concordou com um aumento de 70% para o funcionalismo, buscando financiar essa despesa por meio de um empréstimo compulsório, que elevaria os impostos. As restrições ao crédito, por outro lado, diminuíram as atividades da indústria, particularmente a produção de automóveis, e antagonizaram com o governo vários setores do empresariado,[66] bem como alguns grupos nacionais, por temerem a abertura do mercado à competição estrangeira se o programa de San Tiago Dantas, em sua sequência, apelasse para a cooperação do capital privado norte-americano.[67] Kennedy, entrementes, escreveu a Goulart, elogiando as “importantes medidas construtivas” por ele adotadas e manifestando a esperança de que “these developments will lead to other positive measures affecting the private sector and will mark the beginning of a new phase of expanding and beneficial participation of private foreign capital in contributing to the economic strength of Brazil and the well-being of its people”.[68]

Kennedy reconheceu as “inevitáveis dificuldades e a resistência” que o programa de estabilização enfrentava, e incentivou Goulart a prosseguir com a sua execução, prevendo que o sucesso de tais medidas criaria um clima favorável ao Brasil nas discussões com as entidades financeiras internacionais e os países da Europa, bem como abriria o caminho para uma cooperação em longo prazo dos Estados Unidos, sob os procedimentos da Carta de Punta del Este, em respaldo ao Plano Trienal.[69]

Contudo, naquelas circunstâncias, somente palavras de simpatia não bastavam para Goulart. Sem receber, imediatamente, concreto apoio financeiro, de modo a libertar-se das constantes pressões do balanço de pagamentos, ele não podia continuar com a execução de um programa anti-inflacionário, que ameaçava danificar, se não destruir por completo sua popularidade e liderança. Combatido pela direita, cujas articulações para o golpe de Estado, já em andamento, contavam com a participação do seu próprio ministro da Guerra, general Amaury Kruel, [70] e chegavam ao conhecimento da CIA,[71] Goulart, com aquela política de estabilização monetária, alienava o apoio da esquerda, dos sindicatos e, em geral, da massa trabalhadora, bem como das classes médias e dos setores do empresariado nacional. A própria Confederação Nacional da Indústria, a reagir contra a restrição do crédito, já então acusava o Plano Trienal de converter-se em mero programa de estabilização e provocar queda catastrófica nas vendas, aumento anormal de estoques, drástica redução das encomendas, início de desemprego e paralisia das atividades de investimento.[72]

A queda de San Tiago Dantas do Ministério da Fazenda, em face do agravamento da crise econômica, social e política, significou, virtualmente, o fim dos entendimentos com os Estados Unidos, embora Goulart, após a coroação do papa Paulo VI, ainda viesse, em 1o de julho de 1963, a conversar com Kennedy, que cobrou dele o compromisso sobre a compra da Amforp e atendeu seu pedido de prorrogação, por mais 90 dias, do prazo para o pagamento de US$ 25,5 milhões.[73] Mas, àquela altura, Goulart também já decidira pelo endurecimento da política vis-à-vis dos Estados Unidos. Kennedy bloqueara os fundos compensatórios negociados por San Tiago Dantas, e ele, Goulart, não mais suportava ter de negociar, a cada três meses, a fim de obter a prorrogação de vencimentos de pequenas somas, enquanto o governo dos Estados Unidos estava a distribuir recursos da Aliança para o Progresso entre governadores e prefeitos, exatamente os seus adversários políticos, que conspiravam para derrubá-lo. Assim, antes de viajar para Roma, determinou publicamente que o Itamaraty comunicasse ao Departamento de Estado sua decisão de não mais tolerar aquele procedimento, que atentava contra a soberania nacional e a unidade da Federação.[74] Goulart estava disposto a denunciar a Aliança para o Progresso, caso a Embaixada Americana continuasse a não respeitar a realidade do Estado nacional e o monopólio das relações exteriores pela União.[75]

A dívida externa do Brasil montava, àquela época, US$ 3 bilhões. Não crescera, praticamente, desde a renúncia de Quadros, uma vez que Goulart não recebera nenhum empréstimo de dinheiro novo desde sua ascensão à presidência. Segundo Carvalho Pinto, ex-governador de São Paulo e sucessor de San Tiago Dantas no Ministério da Fazenda, aquela soma era “bastante razoável”, mas, como os prazos de vencimento se congestionavam, as pressões dos Estados Unidos, devido ao impasse político, dificultavam o equacionamento do problema.[76] O Brasil devia então pagar a outros países o equivalente a US$ 150 milhões por ano, ou seja, quase 15% da receita cambial em moeda conversível, a título de juros. E metade da dívida estava por vencer entre 1963 e 1965, o que totalizava, somando-se a ela os encargos dos juros, a importância de US$ 1,8 bilhão, o equivalente a 43% da receita das exportações brasileiras, estimadas em US$ 4,2 bilhões naquele período.[77] E cerca de 19,6% dos juros e amortizações já venciam naquele ano. O déficit nas transações correntes (mercadorias e serviços) alcançaria, assim, a cifra de US$ 2 bilhões, o que compelia o governo a agir com energia e rapidez para conter a evasão de divisas. Embora ainda pretendesse executar o Plano Trienal e não quisesse radicalizar, como a nomeação de Carvalho Pinto, conservador e ligado ao empresariado de São Paulo, demonstrara, Goulart resolveu decretar a moratória unilateral, conquanto não chegasse a concretizá-la, e determinou a regulamentação de lei que limitava as remessas de lucros para o exterior.

Conforme a previsão da CIA, ao avaliar, entre o fim de junho e o começo de julho de 1963, a evolução da crise, o Brasil tomaria drásticas medidas a fim de enfrentar os problemas do balanço de pagamentos caso os Estados Unidos e o FMI lhe sustassem toda a assistência financeira.[78] Suspenderia o pagamento da dívida externa, se não a repudiasse, e cortaria ou até proibiria as remessas de lucros. E os investimentos estrangeiros cessariam. Porém, se houvesse alívio das remessas e das obrigações de pagamento da dívida, ele poderia manter ao menos o nível mínimo de importações com a continuidade das exportações, embora as taxas de crescimento diminuíssem, o desemprego aumentasse e a inflação recrudescesse.[79] A CIA observou que a colaboração do Bloco Socialista não supriria a lacuna causada pela interrupção do intercâmbio econômico do Brasil com os Estados Unidos e a Europa Ocidental. No entanto, a União Soviética poderia assegurar os objetivos do acordo comercial com aquele país, fazendo consideráveis esforços para atender suas necessidades caso o governo brasileiro promovesse ampla agitação contra os Estados Unidos. E, conquanto estivesse relutante em assumir encargos em largo prazo, sobretudo em vista de seus compromissos com Cuba e em outras regiões, poderia, sem se obrigar a garantir a viabilidade econômica do Brasil, prestar-lhe importante cooperação, como o atendimento de grande parte, se não de todas as suas necessidades de petróleo (equivalentes a 20% do total de importações). A CIA não acreditava, entretanto, que Goulart se alinhasse com o Bloco Soviético, com o qual apenas aumentaria suas relações de comércio, dentro dos limites economicamente possíveis, porque seria vantajoso alargar os mercados de exportação e reduzir as importações da área do dólar.[80] De qualquer forma, com ou sem a ajuda da União Soviética, as políticas do Brasil quase certamente tornar-se-iam mais e mais radicais, e suas relações com os Estados Unidos, na melhor das hipóteses, encrespar-se-iam, enquanto as tensões internas entre esquerdistas e conservadores, aguçando-se, levariam a situação a um ponto crítico. Àquele tempo, meados de 1963, a CIA inclinava-se a acreditar que o Brasil decairia para “o ultranacionalismo e uma solução autoritária” se os Estados Unidos lhe bloqueassem toda a assistência financeira.[81] Conforme constatava, a maioria dos brasileiros era nacionalista e por isso se lhe afigurava “muito difícil” conseguir grande apoio para abater o governo de Goulart, pois pareceria um esforço com o objetivo de satisfazer os Estados Unidos. Mais fácil seria, em sua opinião, o governo de Goulart obter respaldo para medidas, como o repúdio da dívida externa, a nacionalização de propriedades norte-americanas e a maior cooperação com o Bloco Soviético.[82] Daí o “grande perigo”, que a CIA percebia, de uma inflexão para o autoritarismo, pelo próprio Goulart, dado o “extremo clamor” dos ultranacionalistas e da esquerda contra os Estados Unidos, cujas relações com o Brasil sofreriam, assim, sério revés.[83] Por outro lado, a CIA ainda ponderou que, qualquer que fosse o desdobramento das relações com os Estados Unidos a respeito das questões financeiras, o Brasil provavelmente não abandonaria a “linha nacional e independente” de sua política exterior. Mesmo um “governo moderado ou direitista”, que cooperasse mais estreitamente com Washington, continuaria com aquele propósito de independência nos assuntos internacionais e de liderança na América Latina.[84] A CIA considerava, entretanto, que, embora as dificuldades internas compelissem os políticos brasileiros para “soluções de esquerda”, não era inevitável que a crise evoluísse naquela direção. A prever que o governo brasileiro, por meio de uma série de atos e negociações, não atenderia totalmente às exigências norte-americanas, mas também não se afastaria demasiado dos Estados Unidos, de modo a não perder qualquer possibilidade de assistência, julgava que “ainda chances” havia em favor de que Goulart terminasse seu mandato constitucional, em janeiro de 1966, e que seu sucessor fosse “alguém mais responsável” e “talvez mais constante” em aderir “ao gradualismo e à cooperação hemisférica”.[85]

Essas estimativas da CIA, datadas de 2 de junho de 1963, eram, em certos aspectos, realistas e prudentes, a indicarem o receio de que o Brasil, como consequência da pressão econômica dos Estados Unidos e das entidades financeiras internacionais, derivasse para a esquerda, não propriamente comunista, e sim sob a forma do autoritarismo ultranacionalista, algo no modelo de Vargas ou Perón.[86] Os matizes e as profundas diferenças, no caso, pouco importavam aos Estados Unidos, uma vez que o nacionalismo ou o comunismo se lhes equivaliam, na medida em que ambos contrariavam os interesses dos seus capitais privados no estrangeiro. E por isso mesmo a CIA intensificou suas operações, organizando, com o apoio de latifundiários e homens de negócios, grupos paramilitares e instalando, em fazendas e até mesmo em igrejas, depósitos de material bélico com o objetivo de deflagrar a luta civil, na hipótese de que aquela perspectiva realmente se concretizasse.[87] Nas Forças Armadas, como a proposta de derrubada de Goulart não encontrara maior receptividade, os oficiais comprometidos com a conspiração passaram a aliciar seus camaradas para a “defesa” da Constituição, caso o governo descambasse para a ilegalidade.[88] O apelo contra a ameaça comunista e o perigo de bolchevização do Brasil valeu para obscurecer o caráter antinacionalista do movimento e confundir a oficialidade.

Goulart já não tinha dúvidas a respeito das atividades da CIA, pois a Comissão Parlamentar de Inquérito comprovara que o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e a Ação Democrática Popular (Adep), responsáveis pelo financiamento da campanha dos candidatos de direita nas eleições de 1962, recebiam recursos do exterior, por meio do Royal Bank of Canada, do Bank of Boston e do First National City Bank. E decidiu, em fim de agosto, suspender por três meses o funcionamento daquelas associações, como primeiro passo para fechá-las, com o argumento de que elas atentavam contra a segurança das instituições e, inclusive, contra a segurança nacional.[89] No mesmo dia, aliás, concedeu uma audiência ao embaixador Lincoln Gordon e lhe disse que, por meio do Serviço Federal de Informações e Contrainformações (SFICI), sabia dos seus encontros com Lacerda e empresários, que conspiravam contra a sua administração. Gordon, cujo alinhamento com as posições do empresariado multinacional e fervorosa militância pró-Lacerda o próprio subsecretário de Estado assistente, Edwin Martin, criticara,[90] desmentiu, naturalmente, as informações.[91] E Goulart, embora conhecesse também certas atividades do coronel Vernon Walters, adido militar norte-americano e agente do Defense Intelligence Agency (DIA), fingiu aceitar sua negativa para não ter de o declarar persona non grata, o que exacerbaria ao extremo as tensões do Brasil com os Estados Unidos.[92] Mas o serviço secreto do Exército, conduzido por oficiais nacionalistas, começou a desvendar os depósitos de armas, inclusive em frente ao sítio de Goulart, em Jacarepaguá (Rio de Janeiro), a indicar igualmente a existência de um complô para assassiná-lo.[93]

A turbulência social, com o enrijecimento do impasse econômico e financeiro, recresceu, desde então, e a inquietação política, com a revolta dos sargentos em Brasília (setembro de 1963), atingiu o seio das Forças Armadas, onde a radicalização fora largamente induzida, a fim de configurar mais ainda o clima de guerra revolucionária e persuadir a oficialidade legalista a aceitar o golpe de Estado como solução. Os Estados Unidos, àquela época, já examinavam os vários tipos de planos de contingência, denominados Operação Brother Sam, a fim de intervir militarmente no Brasil, sustentando os insurgentes contra o governo de Goulart. Àquela época, entretanto, Goulart já começara a perder o controle sobre os acontecimentos. Não conseguiu sequer que a esquerda apoiasse a instauração do estado de sítio, solicitada ao Congresso, em meio a uma tentativa frustrada para prender Lacerda e intervir no estado da Guanabara. O assassínio de Kennedy, pouco tempo depois (em novembro de 1963, com a ascensão de Lyndon Johnson à presidência da República e a substituição de Edwin Martin por Thomas Mann como subsecretário de Estado assistente), possibilitou, finalmente, o abandono da política de não encorajamento de golpes de Estado, que, mesmo inconsequentemente, constituía ainda um compromisso de Aliança para o Progresso. No dia 1o de janeiro de 1964, Goulart recebeu a mensagem do embaixador Roberto Campos, transmitida pelo ministro-conselheiro da Embaixada em Washington, de que os Estados Unidos se dispunham a declarar, unilateralmente, a insolvência do Brasil e que a única maneira de evitá-lo seria o seu pronunciamento em favor da Aliança para o Progresso. Ele então se voltou para San Tiago Dantas, que, juntamente com Renato Archer, acompanhara o diplomata, e comentou: “Não adianta mais, professor. Não acredito que nenhuma frase minha detenha a conspirata que os Estados Unidos patrocinam.”[94] Apanhou então uma pasta com alguns informes do serviço secreto e contou-lhes que o coronel Vernon Walters mantinha encontros com os generais Cordeiro de Farias, Nelson de Melo, Juracy Magalhães, o brigadeiro Eduardo Gomes, e também viajara para Belo Horizonte, onde, na residência do cônsul, conversara com o governador Magalhães Pinto. Goulart, por fim, contou que um certo general Bell chegara ao Brasil, em uma Fortaleza Voadora, e não só o brigadeiro Eduardo Gomes, que tramava contra o governo, fora recebê-lo como ele estivera com o general Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, e o próprio ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro.[95]

Nenhuma frase, realmente, evitaria a desestabilização do regime. A crise econômica, social e política afoitou-se. Goulart ainda tentou mobilizar o apoio da massa trabalhadora para a sustentação do seu governo, mediante a convocação de vários comícios e a adoção de algumas medidas nacionalistas e populares, uma vez que as forças conservadoras obstaculizavam a aprovação das reformas de base, como a agrária, no Congresso. Mas um levante dos marinheiros, em fins de março de 1964, serviu como pretexto para a deflagração do golpe de Estado, por legitimar, sobretudo diante da vacilação de Goulart em reprimir o movimento, que tinha caráter de provocação, e castigar os amotinados, a propaganda de que a guerra revolucionária estava em pleno curso, com a indisciplina e a quebra da hierarquia militar. As unidades do Exército, sediadas em Minas Gerais, adiantaram-se ao grupo liderado pelo general Castelo Branco e iniciaram, assim, a sedição, com o apoio do governador Magalhães Pinto e dispostos a promover uma guerra civil de pelo menos três meses contra o governo Goulart. San Tiago Dantas, a tentar uma solução política para a crise, de modo a evitar o conflito armado, telefonou para Afonso Arinos, nomeado uma espécie de secretário das Relações Exteriores pelo governador Magalhães Pinto, e dele então ouviu que os Estados Unidos apoiavam a sublevação e não somente reconheceriam a beligerância de Minas Gerais como interviriam militarmente no Brasil em caso de guerra intestina.[96] Essa informação, transmitida por San Tiago Dantas a Goulart, pesou, evidentemente, na sua decisão de não resistir. Ele considerava inútil o derramamento de sangue e quis evitá-lo, bem como a internacionalização do conflito e a secessão do Brasil.[97] Com efeito, naquele momento, os Estados Unidos enviavam para o Brasil uma força-tarefa, composta pelo porta-aviões Forrestal, destroieres de apoio, inclusive um com mísseis teleguiados, navios carregados de armas e mantimentos, bem como quatro petroleiros, ao mesmo tempo em que sete aviões de transporte C 135, levando 110 t de armas, oito aviões de caça, oito aviões-tanques, um avião de comunicações e um posto aéreo de comando estabeleceriam uma ponte aérea, interconectando as bases norte-americanas e as regiões rebeladas.[98] A Operação Brother Sam, chefiada pelo general George S. Brown, contrataria também uma força-tarefa ultrassecreta do Exército, da Marinha, Aeronáutica e CIA, posta em ação na base do Panamá, sob o comando do general Breitweiser.[99] E Lincoln Gordon, posteriormente, manifestou a Lacerda estar “muito feliz” com a vitória da sublevação de Minas Gerais, “porque evitou uma coisa muito desagradável, que seria a necessidade de intervenção militar americana no Brasil”.[100]

A DERROTA DAS TENDÊNCIAS NACIONALISTAS NO BRASIL. O GOVERNO CASTELO BRANCO E O RETROCESSO NA POLÍTICA EXTERNA:

Kennedy não manteve nem uniforme nem consequentemente a política de desencorajar golpes de Estado. O mesmo pavor de que outro regime contrário aos interesses dos Estados Unidos se instalasse no hemisfério, assim como o levou a lançar, a partir da Operação Pan-Americana, a Aliança para o Progresso, também esterilizou completamente quaisquer propósitos renovadores e democráticos que ele porventura alimentasse. Kennedy reconheceu os governos oriundos de levantes militares na Argentina e no Peru (1962), bem como no Equador, na República Dominicana, em Honduras e na Guatemala (1963). E a instrumentalizar, de um lado, as pressões financeiras e, do outro, as ações clandestinas, a fim de vergar o Brasil, desejou e concorreu decisivamente para a desestabilização do governo de Goulart. Johnson, na verdade, não modificou, essencialmente, a orientação de Kennedy.[1] Apenas assumiu, talvez com mais desenvoltura, a responsabilidade pelo desfecho da crise no Brasil, a qual refletia, em larga medida, a crise nas relações daquele país com os Estados Unidos. Mesmo consciente de que o putsch poderia deflagrar a guerra civil, a maior preocupação do Departamento de Estado era a de preservar, na derrubada de Goulart, o formalismo constitucional e o estabelecimento de alguma aparência de legitimidade, de modo a justificar, perante o Congresso e a opinião pública dos Estados Unidos, a Operação Brother Sam e até mesmo a intervenção armada, se necessário fosse.[2] Goulart, por não resistir, evitou o “drama de proporções continentais”, conforme o Washington Post previra,[3] e suas funestas consequências para a unidade nacional e o desenvolvimento do país.

O golpe de Estado, porém, não se deteve nos limites formais da Constituição, já violentada pela forma ilegal como o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazilli, assumira o governo, recebendo saudações de Johnson, quando Goulart, que não renunciara, ainda estava no Rio Grande do Sul. O general Artur da Costa e Silva, o almirante Augusto Rademaker Grünewald e o brigadeiro Francisco Correia de Melo, que se impuseram, de facto, como ministros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, autodenominaram-se Comando Revolucionário e, no dia 9 de abril, editaram um Ato Institucional com o qual se investiram de poderes discricionários para erradicar todos os focos de contestação ao novo regime. E a repressão, a abater-se sobre sindicatos, ligas camponesas e entidades estudantis, alcançou o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, com a cassação dos mandatos e a suspensão dos direitos políticos de dezenas de senadores, deputados e vereadores dos mais diversos partidos, bem como de centenas de outros cidadãos, por defenderem posições nacionalistas. Por esse mesmo motivo, uma vez que os supostos comunistas eram igualmente muito poucos, 122 oficiais — número que se elevaria, com o correr dos meses, a cerca de 450 — foram expurgados das Forças Armadas.

Àquela altura, os diferentes chefes militares e líderes civis que conspiraram contra Goulart competiam pelo controle do poder. O que mais inspirava confiança à Embaixada Americana era, entretanto, o general Humberto Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, devido, sobretudo, aos seus vínculos pessoais e ideológicos com o coronel Vernon Walters. E ao que tudo indica esta foi, talvez, a principal razão por que Lacerda, em direto entendimento com Gordon, propôs e articulou seu nome para a presidência da República,[4] finalmente aceito, depois de muita resistência, pelo general Costa e Silva.[5] A queda de Goulart e, posteriormente, a ascensão de Castelo ao poder significaram assim ampla vitória dos Estados Unidos, não contra os comunistas, que o Departamento de Estado sabia não terem condições, “em futuro previsível”, de tomar o poder, e sim contra as tendências nacionalistas, excitadas pelas necessidades do processo de industrialização do Brasil e pelo recrudescimento das lutas sociais, em uma conjuntura nacional de extrema escassez de recursos e marcada internacionalmente pelo impacto da Revolução Cubana.

Em virtude de ter fronteiras comuns com quase todos os países da América do Sul (exceto Chile e Equador), o que lhe dava fundamental importância estratégica, o Brasil sempre preocupou, e por isso recebeu certos cuidados dos Estados Unidos, que percebiam não só sua aspiração ao status de potência mundial como suas possibilidades reais de atingi-lo. Dessa forma, os Estados Unidos mantiveram com o Brasil intenso relacionamento de “atração-medo”, conforme expressão de Alfred Stepan.[6] O medo, sobremodo pronunciado entre 1961 e 1964, era o de que o Brasil pudesse servir como santuário e campo de treinamento para as operações de guerrilhas “pró-comunistas” ao longo da América do Sul.[7] Porém, aparte essa hipótese pouco provável, o fato é que apenas o exemplo do Brasil, com um governo fortemente nacionalista, influenciaria, naquelas circunstâncias, as políticas de seus vizinhos, que se tornariam mais rebeldes vis-à-vis da hegemonia dos Estados Unidos. Essa mesma percepção de sua importância, segundo Stepan, foi o que, aliás, levou Johnson, depois do golpe de Estado de 1964, a conceder maciça ajuda militar ao Brasil, esperando que ele desempenhasse, em favor dos Estados Unidos, um papel anticomunista hegemônico na América do Sul.[8]

O general Castelo Branco tinha, sem dúvida, todas as condições pessoais e ideológicas para corresponder a tal perspectiva. Participara da Força Expedicionária Brasileira, durante a Segunda Guerra Mundial, e se unira a oficiais, como Jurandyr Bizarria Mamede e Oswaldo Cordeiro de Farias, que se alinharam politicamente com a UDN, passando a combater Vargas e o nacionalismo quando regressaram da Itália, em 1945. Essa elite militar formou, em 1949, a Escola Superior de Guerra, na qual os generais Juarez Távora e Golbery do Couto e Silva destacar-se-iam, e constituiu o principal suporte, no princípio dos anos 1950, da Cruzada Democrática e do movimento contra o segundo governo de Vargas. Sua doutrina, cristalizada nos cursos da Escola Superior de Guerra, absorvera a teoria do general Góes Monteiro sobre a agressão interna como a principal ameaça à segurança nacional, mas a adaptara às concepções norte-americanas da guerra fria, em uma variante geopolítica, ao aceitar a bipolaridade do poder mundial, como axioma, a partir do qual o silogismo apontava para a necessidade de vincular estreitamente o Brasil à liderança dos Estados Unidos, como forma de defender os valores do Ocidente, ou seja, o regime de livre empresa e, quando possível, o sistema democrático representativo. As doutrinas sobre contrainsurreição, desenvolvidas sobretudo durante a administração de Kennedy, e a concepção dos exércitos latino-americanos como simples forças de polícia, com preparo apenas para combater as ameaças internas ou regionais de revolução, harmonizavam-se, por conseguinte, com o pensamento precursor da Escola Superior de Guerra.

O movimento que derrubou Goulart e, em seguida, editou o Ato Institucional, na primeira de uma série de outras erupções do arbítrio, refletiu e realizou aquelas doutrinas de segurança nacional e contrainsurreição ao instalar no Brasil um regime em contrarrevolução permanente, em nome de uma razão de Estado, que terminou por gerar um Estado sem razão. Suas políticas fundamentaram-se na Weltanschaung maniqueísta do militarismo, segundo a qual a confrontação entre os dois polos do poder internacional — Estados Unidos e União Soviética — se deslocara para o interior de cada país, uma vez que o desenvolvimento das armas nucleares e de sua capacidade de destruição não só superara a guerra convencional como praticamente inviabilizara o conflito direto entre as duas superpotências. O general Juracy Magalhães, quando ocupava o Ministério da Justiça na administração de Castelo Branco, justificou a edição do Ato Institucional nº 2, acentuando que:

todos os povos devem estar preparados para a guerra instantânea, mas o desenvolvimento tecnológico, que criou este extraordinário poder de destruição, força também o convívio pacífico […]. Assim, a guerra atômica se tornou impossível, mas o que se registra hoje, em toda parte, no Vietnã, na República Dominicana, na Coreia, na África, é um tipo de guerra diferente, que o presidente Kennedy classificou de guerra subversiva.[9]

A sociedade, no Brasil, passou então a viver em um clima de guerra fria civil, na medida em que o regime autoritário não aceitava coexistir com a oposição, e até mesmo qualquer manifestação contrária aos Estados Unidos, por serem considerados o “guardião do mundo livre”, passara a equivaler a um atentado à própria segurança nacional do Brasil. As Forças Armadas, diante de tais circunstâncias, deviam desempenhar simples papel de polícia, incumbida de reprimir conflitos sociais como se fossem ações de guerra revolucionária. E, orientado por essa percepção, o governo de Castelo Branco defendeu a reformulação do conceito de soberania, que, não mais se restringindo aos limites e às fronteiras territoriais, abrangeria o caráter político e ideológico dos regimes, de modo a permitir a intervenção dos países americanos nos assuntos internos uns dos outros quando um governo aceito como democrático estivesse ameaçado por movimento supostamente comunista ou de natureza semelhante. Sua proposta, inspirada pelos Estados Unidos, era a da integração de contingentes militares de todos os países americanos em uma stand by force, pronta para intervir imediatamente onde quer que se caracterizasse um processo de subversão. Essa Força Interamericana de Paz, nome proposto para a stand by force, ficaria à disposição da OEA, que assumiria os encargos da segurança coletiva e à qual os Estados Unidos transfeririam o poder de polícia regional, eximindo-se da aplicação unilateral do corolário, em sua dimensão ideológica, da Doutrina Monroe. Sua criação implicaria, naturalmente, a limitação das funções das Forças Armadas nacionais às tarefas de defesa interna, promovendo-se apenas a modernização dos setores subordinados ao esquema continental da OEA. Castelo Branco, menos de três meses depois de sua elevação à presidência do Brasil, justificou, em discurso ao Itamaraty, ao afirmar que:

No presente contexto de uma confrontação de poder bipolar, com radical divórcio político-ideológico entre os dois respectivos centros, a preservação da independência pressupõe a aceitação de certo grau de interdependência, quer no campo militar, quer no econômico, quer no político.[10]

Castelo Branco entendia que “o nacionalismo se agravou internamente, criando contradições em nossa política externa”, e que se deturpou a ponto de se tornar “opção disfarçada em favor dos sistemas socialistas”.[11] Acusou então as “pressões internas em favor do estatismo e da nacionalização” de repercutirem na política externa e gerarem “áreas de atrito”, como nos casos das encampações de concessionárias de serviços públicos, da política semimonopolista de minérios, assim como dos desestímulos aos capitais estrangeiros.[12] O Brasil, dali por diante, trataria de “enveredar pela política de livre empresa e de acolhimento ordenado do capital estrangeiro”.[13]

O projeto de Castelo Branco, teórica e praticamente, induzia o Brasil a abdicar de sua aspiração ao status de potência, resignando aos seus próprios interesses nacionais, como país capitalista em expansão, em nome da unidade do hemisfério ocidental, uma vez que, de acordo com aquela percepção também totalitária, qualquer dissidência significava o favorecimento do comunismo e da União Soviética. O princípio da segurança coletiva, “tão da responsabilidade dos Estados Unidos”,[14] segundo Castelo Branco, assim se sobrepôs ao da segurança nacional. E por isso mesmo, a política externa do Brasil, logo nos meses posteriores ao putsch de 1964, “removeu, antes de tudo, a irreconhecível doutrina de nossas posições ambíguas e, ao mesmo tempo, de postulante”.[15] Castelo Branco nunca falou, certamente, em alinhamento automático com os Estados Unidos e, no Itamaraty, declarou:

Não devemos dar adesão prévia às atitudes de qualquer das grandes potências — nem mesmo às potências guardiãs do mundo ocidental, pois que, na política externa destas, é necessário fazer a distinção entre os interesses básicos da preservação do sistema ocidental e os interesses específicos de uma grande potência.[16]

Com essa diretriz, o governo de Castelo Branco recusou-se a mandar soldados para o Vietnã, por considerar que essa guerra não afetava diretamente o interesse nacional do Brasil, mas apenas o dos Estados Unidos, enquanto potência mundial.[17] Por outro lado, no caso da República Dominicana, o Brasil enviou um contingente de 1.100 soldados, sob o comando do general Hugo Penasco Alvim, como forma de criar condições para o estabelecimento da Força Interamericana da Paz. Os Estados Unidos, segundo Roberto Campos, prometeram que aquela seria a última intervenção unilateral, e Castelo Branco resolveu assumir os riscos e partilhar das responsabilidades pela ação conjunta na República Dominicana.[18] Ele acreditava que, para adquirir autoridade de opor vetos a iniciativas isoladas dos Estados Unidos, o Brasil devia demonstrar que estava disposto a colaborar nas tarefas de segurança coletiva, se necessário fosse, desde que previamente consultado.[19] Não lhe passava também despercebido que “a afinidade dos sistemas não garante a coincidência dos interesses” e que o Brasil, como país que lutava pelo seu desenvolvimento, tinha “prioridades e interesses que muitas vezes diferem daqueles dos países desenvolvidos”.[20] Por esse motivo, atento à opinião das Forças Armadas, Castelo Branco evitou comprometer o Brasil com qualquer decisão que o impedisse de desenvolver a energia nuclear. E só aceitou o Tratado de Tlatelolco (1967) com a clara ressalva de que a proscrição das armas nucleares na América Latina apenas atingia a fabricação de artefatos para fins bélicos.[21]

Tais sutilezas, mais de forma do que de conteúdo, não transpareceram nas políticas — nem interna nem externa — de Castelo Branco. Com a “opção básica” pelo Ocidente, ao qual se devotava “uma fidelidade cultural e política”, o que obviamente prevaleceu foi a linha de eliminação das áreas de atrito, a ponto de Juracy Magalhães, embaixador em Washington e depois ministro das Relações Exteriores de Castelo Branco, declarar que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.[22] Como o ex-chanceler Afonso Arinos observou, após lamentar o “atrelamento melancólico” do Brasil à política externa norte-americana:

o presidente Castelo Branco, por si e por influências dos círculos militares e civis que o assessoravam, levou as premissas até às suas conclusões mais radicais, privando o Brasil de qualquer ação própria internacional, destruindo o prestígio que conquistáramos, e tudo para quê? Para nada, a não ser desfigurar nossa fisionomia nacional.[23]

Não sem razão a politóloga norte-americana Jan K. Black afirmou que, com Castelo Branco, transformado em “porta-voz” das políticas dos Estados Unidos para a América Latina, “o Brasil declarou sua dependência”.[24] Efetivamente, Castelo Branco praticou, em suas políticas, tanto interna quanto externa, todos os atos que os Estados Unidos reclamaram. Menos de um mês após sua ascensão à presidência da República, rompeu relações diplomáticas com Cuba. Impôs ao Congresso, humilhado e acovardado pelas cassações de mandatos, a reformulação da lei de remessas de lucros. Pagou pelos acervos da Amforp e da ITT o preço que os norte-americanos pretendiam, apesar da violenta oposição de Lacerda. Estabeleceu nova política de minérios, devolvendo à Hanna concessões de jazidas de ferro, canceladas pelo governo de Goulart, e aceitando entregar-lhe o porto, que ela havia muito tempo pleiteava, no Espírito Santo. E, além de vários ajustes militares e um Acordo Aerofotogramétrico, firmou com os Estados Unidos o Acordo sobre Seguros de Investimentos Privados, pelo qual as companhias estrangeiras no Brasil adquiriam direitos especiais. A contenção dos salários em níveis inferiores aos índices de elevação do custo de vida, a restrição do crédito bancário, enquanto as empresas estrangeiras, por meio da Instrução 289, da Sumoc, ganhavam um regime de privilégios para tomar empréstimos no exterior, e o corte dos subsídios ao trigo, ao petróleo e ao papel de imprensa constituíram, por fim, algumas das medidas do programa de estabilização monetária recomendado pelo FMI e executado dentro da moldura do Plano de Ação Econômico Governamental (Paeg), que os ministros do Planejamento, Roberto Campos, e Fazenda, Otávio Gouvêa de Bulhões, elaboraram.

A presença dos Estados Unidos no Brasil durante a administração consular de Castelo Branco alcançou assim a sua magnitude. A Missão Militar norte-americana transformou-se na maior do mundo, apenas superada pela existente no Vietnã.[25] Funcionários da Usaid instalaram-se em vários ministérios brasileiros, civis e militares, inclusive nos órgãos de segurança. Pessoal do Departamento de Rendas Internas dos Estados Unidos transferiu-se para o Ministério da Fazenda, a fim de “ensinar” os brasileiros a recolher impostos.[26] Com cerca de 1.500 funcionários,[27] quase o mesmo número que a Grã-Bretanha mantinha na Índia antes da independência, a Embaixada Americana passou então a ter uma importância e uma influência nas decisões de política interna, muito maior que em todos os períodos precedentes. Gordon, que nunca se caracterizou pela discrição e compostura de um diplomata, considerou-se não mais um embaixador, mas um cidadão do país, dentro das fronteiras ideológicas, a fazer frequentes declarações sobre a política nacional, inclusive na Escola Superior de Guerra. Era tal a sua força sobre o governo de Castelo Branco que o povo ironicamente começou a dizer: “Chega de intermediário! Lincoln Gordon para presidente!” E o jornalista Carlos Heitor Cony publicou no Correio da Manhã uma crônica prevendo a decretação de um Ato Constitucional nº 2, cujo art. 1o determinaria: “A partir da publicação deste Ato, os Estados Unidos do Brasil passam a denominar-se Brasil dos Estados Unidos.”[28]

Entretanto, apesar da forte ascendência sobre o governo de Castelo Branco, o Departamento de Estado não tinha controle dos acontecimentos políticos no Brasil. Gordon disse que a edição do primeiro Ato Institucional, em 9 de abril de 1964, chocou-o e ele até pensou em renunciar, pelo menos como um gesto simbólico de protesto.[29] E de fato, dois meses depois, o Departamento de Estado mostrou-se bastante apreensivo com a forma de repressão e, conquanto compreendesse o desejo dos militares de eliminar bona fide os pretensos comunistas e subversivos das posições de influência e poder na administração e nas Forças Armadas, instruiu Gordon no sentido de que expressasse a Castelo Branco sua “crescente” preocupação com o alcance dos procedimentos adotados de acordo com o art. 10 do Ato Institucional, especialmente por não permitir aos acusados o direito de defesa.[30] Posteriormente, quando Castelo Branco cedeu aos militares da linha dura e editou o Ato Institucional nº 2, Gordon, em Washington, sugeriu ao Departamento de Estado que fizesse uma declaração pública lamentando aquele acontecimento.[31] Seu objetivo era, decerto, fortalecer Castelo Branco contra as pressões dos radicais da direita, mas o Departamento de Estado, a fim de evitar, pudorosamente, “acusações de intervenção no Brasil” e não aborrecer a direita militar, que poderia chamar de volta o contingente brasileiro na República Dominicana, preferiu que ele, em conversações particulares, expressasse a inquietação do governo dos Estados Unidos.[32] Com efeito, ao regressar ao Brasil, Gordon manteve demorada entrevista (duas horas) com Castelo Branco, de quem ouviu, ante o seu pessimismo, que o Ato Institucional nº 2 evitara “tanto uma ditadura tradicional tipo latino-americana quanto do tipo nasserista”.[33]

Àquela altura, outubro de 1965, alguns segmentos das Forças Armadas, sobretudo dos oficiais mais jovens, já manifestavam forte inconformismo com os rumos do governo de Castelo Branco e queriam radicalizar o que chamavam de revolução. O que deflagrou a crise, como fator imediato, foi a eleição para os governos da Guanabara e de Minas Gerais dos antigos políticos Francisco Negrão de Lima e Israel Pinheiro, candidatos da coligação PSD-PTB e intimamente ligados, os dois, ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, que também tivera seu mandato de senador cassado e os direitos políticos suspensos. Castelo Branco assegurou a posse a ambos e, a fim de contornar a crise militar, editou o Ato Institucional nº 2, extinguindo os partidos políticos tradicionais da República. Porém, ao que tudo indica, certa tendência de corte nacionalista e antioligárquico subjacente manifestava-se no radicalismo dos oficiais da linha dura, tais como os coronéis Francisco Boaventura, Albuquerque Lima e Andrada Serpa, e, caso empolgassem o poder, eles poderiam rapidamente evoluir do anticomunismo para o anticapitalismo e o antiamericanismo, levados por uma postura moralista típica das classes médias, ao tentarem concretizar, no nível econômico e social, o que entendiam como autêntica revolução. O então coronel Antônio Carlos de Andrada Serpa, na época adido militar em Paris, veio ao Brasil e disse a Castelo Branco que o caminho para a realização do “bem comum” era “o da organização do poder das bases para cima, e nunca através dessas cúpulas oligárquicas dos velhos serviçais e áulicos da ditadura getuliana”.[34] E Afonso Arinos, antes da decretação do Ato Institucional nº 2, deu um parecer sobre a necessidade de reformas das instituições políticas, a pedido do próprio Castelo Branco, ponderando que:

as condições do nosso desenvolvimento econômico e social levariam uma ditadura militar, para se manter, a tomar uma rápida coloração socialista. Paradoxalmente isto é o contrário mesmo do que pretendem os grupos de oficiais jovens, como os políticos ou juristas que a preconizam. Tal governo conduziria à guerra civil, ou seria levado à radicalização de esquerda, para se manter. Coisa, aliás, muito difícil, dada a provável oposição.[35]

Afonso Arinos, obviamente, não considerava o governo de Castelo Branco uma ditadura militar, e, de fato, ele procurou preservar os aspectos formais da mecânica democrática, como também os seus sucessores, não obstante o vezo autoritário do regime, aprofundado por sucessivos atos institucionais, que outorgavam poderes discricionários ao presidente da República e facultavam as mais ferozes práticas de repressão política e de violação dos direitos humanos. De qualquer forma, naquelas circunstâncias, o movimento que derrubou Goulart não podia sustentar o poder senão pela violência. O governo de Castelo Branco, na verdade, não tinha a menor condição de enfrentar eleições realmente livres e democráticas, dado o altíssimo grau de sua impopularidade, em consequência tanto da repressão política, a atingir os líderes de maior prestígio no Brasil, quanto das medidas de estabilização monetária. Os trabalhadores nunca apoiaram o putsch contra Goulart, e o próprio Gordon observara que “a única nota triste era a participação obviamente limitada das classes baixas” na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, promovida no dia 2 de abril de 1964.[36] As classes médias, amplos setores das quais aplaudiram o golpe de Estado, derivaram, logo depois, para a oposição. E o próprio empresariado, sobretudo dos setores que produziam para o mercado interno, não escondia o seu descontentamento com as medidas econômicas da administração de Castelo Branco. Em 1965, a Confederação Nacional da Indústria responsabilizou o Paeg pela crise industrial de São Paulo, onde a taxa de desemprego aumentara de 1%, em janeiro daquele ano, para 9%, em março, e 13,5%, em junho.[37] A recessão da economia brasileira, cujo processo cristalizara depois da queda de Goulart, alcançara então seu ponto mais baixo, acentuando extraordinariamente a desnacionalização das indústrias. Pequenas e médias empresas, até mesmo grandes grupos brasileiros ou de capital europeu, faliram, asfixiadas pela contração do consumo interno e pelas restrições do crédito. O passivo médio insolvente elevou-se, naquele ano, em mais de oito vezes. A tendência continuou em 1966 e, em outubro, São Paulo conheceu seu mais alto índice de falências e concordatas, enquanto as emissões de papel-moeda somavam, naquele mês, Cr$ 382 bilhões.[38] Os empresários, àquela altura, já se tornavam cada vez mais críticos à administração de Castelo Branco.[39]

Por outro lado, como a política deflacionária de Roberto Campos e Gouvêa de Bulhões acarretara o subemprego dos fatores de produção disponíveis, as empresas postergaram novos investimentos que não lhes pareciam inadiáveis nem imediatamente lucrativos. E, em face da recessão, o fluxo de capitais privados estrangeiros para o Brasil, que Castelo Branco esperava, não ocorreu em grande escala, apesar da revogação da lei de remessa de lucros e da assinatura do Acordo sobre Seguros de Investimentos. A fim de não aumentarem investimentos fixos, as empresas estrangeiras preferiram financiar as atividades de suas subsidiárias no Brasil por meio de swaps, operações de empréstimos em curto prazo, garantidas pelo Banco do Brasil e que permitiam o repatriamento de todo o capital ao término do contrato, normalmente de um a três anos. Uma economia em recessão, evidentemente, não podia atrair capitais estrangeiros, e por isso, ao que tudo indica, os investimentos diretos líquidos que entraram foram de apenas US$ 70 milhões, em 1965, US$ 74 milhões, em 1966, e US$ 76 milhões, em 1967, somas bastante inferiores às registradas entre 1956 e 1961, da ordem de mais de US$ 100 milhões, em média, por ano.[40] Assim o governo de Castelo Branco não só não teve condições econômicas e políticas de promover a privatização das empresas estatais, conforme pretendia, como, pelo contrário, teve de fazer maciços investimentos públicos, de modo a reativar a produção, cuja queda ameaçava arrastar o próprio regime militar. A participação do Estado na formação bruta de capital fixo, que alcançara, no governo de Kubitschek, em 1958, o patamar de 40,8%, no qual se manteve, com pequenas variações, até 1962, saltou então para 58%, em 1964, 80%, em 1965, e 90%, em 1966.[41] O investimento público baixou para 62%, em 1967, mas as percentagens previstas eram de pelo menos 69% para os anos seguintes.[42]

O fracasso da Aliança para o Progresso já se afigurava claramente àquela época. Em 1966, o economista Rômulo Almeida, membro do Comitê dos Nove à 4a Reunião do Conselho Internacional Econômico e Social (Cies) da OEA, renunciou ao seu mandato, afirmando que “os objetivos básicos da Aliança para o Progresso não foram cumpridos nestes cinco anos da Carta de Punta del Este”.[43] Seu discurso constituiu um libelo contra a Kennedy Round. Ele declarou que o esforço de planificação dos países latino-americanos fora desestimulado pelo “bilateralismo a varejo” da Agência Interamericana de Desenvolvimento (AID), que chegava ao ponto de “venda humilhante de favores, um perfeito clientelismo internacional de tipo neocolonialista”.[44] Segundo Rômulo Almeida, a América Latina, depois da Aliança para o Progresso, perdera posição relativa no mercado dos Estados Unidos, cujos obstáculos às importações de vários produtos ainda persistiam, e o déficit da capacidade de compra dos países da região, sobretudo em face das necessidades de desenvolvimento, agravara-se naquele período, aumentando a dependência da chamada “ajuda externa”, que também não cumprira seu papel. Ele também observou que: “a integração da América Latina — a mais importante reforma de base e o mais importante esforço próprio da América Latina — está sendo mais dificultada pelas práticas da Aliança para o Progresso do que ajudada por alguns auxílios à América Central”.[45]

Rômulo Almeida demonstrou ainda que as comparações de desembolso e de compromissos financeiros, depois da Carta de Punta del Este, eram destituídas de significado em comparação com o decênio anterior. Os desembolsos brutos dos Estados Unidos, com a colaboração financeira, representavam apenas 0,1% (um décimo por cento) do seu PIB, enquanto com o Plano Marshall chegaram a 2%, 20 vezes mais, e não compensavam as perdas da América Latina nos termos de intercâmbios, além de não serem suficientes para cobrir os serviços financeiros, que oneravam os balanços de pagamentos de todos os países da região.[46] E, após ressaltar que o desembolso da “ajuda” norte-americana à América Latina não ultrapassava um vigésimo dos seus gastos anuais na Guerra do Vietnã, lembrou que, enquanto os Estados Unidos, com todo o panache da Aliança para o Progresso e o poder econômico incomparavelmente maior, aplicavam na região cerca de 0,5% dos seus savings anuais, a Grã-Bretanha, antes da Primeira Guerra Mundial, investia talvez 20 vezes mais, em termos relativos, e, apesar de todos os inconvenientes dos financiamentos da época, abria mercados para as exportações.[47] De acordo com a exposição de Rômulo Almeida, os Estados Unidos não cumpriram os compromissos da Carta de Punta del Este e, no que se referia à AID, os melhores termos dos empréstimos foram anulados pelos sobrecustos, resultantes das cláusulas de vinculação à compra de bens, serviços técnicos e fretes, com “notórios sobrepreços”.[48]

O fluxo de financiamentos dos Estados Unidos para o Brasil fora, efetivamente, menor do que o programado desde o lançamento da Aliança para o Progresso. E durante os três anos da administração de Castelo Branco, entre 1964 e 1966, enquanto recebeu apenas US$ 1,3 bilhão como empréstimos e investimentos diretos, o Brasil remeteu para o exterior, a título de amortizações, juros, lucros, dividendos e outros serviços, cerca de US$ 1,5 bilhão.[49] A expansão das empresas estrangeiras ocorreu, portanto, não devido à entrada maciça de novos investimentos, e sim com a aplicação de capitais acumulados internamente no Brasil. E muitos empresários começaram a protestar contra a desnacionalização da economia brasileira, com o apoio dos coronéis da linha dura.[50] A Câmara dos Deputados constituiu uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o problema e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo encaminhou-lhe um estudo, como subsídio, mostrando que “o investimento privado nacional tornou-se marginal no período de 1965/1966”.[51] A CPI concluiu, por fim, que “a entrada de capital estrangeiro, no período recente, apesar de ter ficado muito aquém do que seria necessário para apoiar nosso desenvolvimento, já foi suficiente para onerar muitíssimo nosso balanço de pagamentos”.[52] O serviço da dívida externa então absorvia mais de 30% de receita das exportações.

A Aliança para o Progresso, sem dúvida alguma, não alcançara os objetivos, nem econômicos nem sociais e políticos, a que Kennedy oficialmente se propusera quando a lançou em 1961. Nem favorecera maior desenvolvimento econômico nem contribuíra para a realização de reformas sociais e a consolidação de regimes democráticos. Muito menos concorrera para tornar os povos da América Latina mais simpáticos aos Estados Unidos. Pelo contrário, desde a assinatura da Carta de Punta del Este (1961), as políticas dos Estados Unidos não apenas engravesceram a situação econômica como fomentaram, direta ou indiretamente, as condições internas de instabilidade política na América Latina, ao apoiarem golpes de Estado e a implantação de regimes autoritários, que suprimiram os direitos democráticos e congelaram as reformas sociais. O Brasil somente não se viu mergulhado numa crise ainda mais profunda e, superando a recessão, não estagnou, porque as resistências nacionalistas, sobretudo de fortes setores do empresariado e das Forças Armadas, cujas frustrações os coronéis da linha dura à direita passaram a interpretar, impediram a administração de Castelo Branco de implementar até as últimas consequências o programa monetarista, com a privatização das empresas estatais, o que significava, naquelas circunstâncias, a transferência do seu controle para os cartéis internacionais e a completa abertura do mercado nacional à competição dos artigos estrangeiros. Àquele tempo, segundo semestre de 1966, o regime autoritário já alienara praticamente quase todo o suporte político interno, e o prestígio dos Estados Unidos, por se associarem à sua implantação e ao seu desempenho, alcançara o mais baixo nível de degradação perante a opinião popular no Brasil. O próprio Lacerda, que alimentara a esperança de tornar-se candidato à presidência da República, rompera publicamente com Castelo Branco e buscara entendimentos com os ex-presidentes Kubitschek e Goulart para formarem o que se tornou conhecido como Frente Ampla, de oposição ao regime autoritário. Sua retórica assumira então um tom francamente antiamericano, a ponto de confundir-se em vários aspectos com a da própria esquerda. Era, porém, a única maneira de salvar sua popularidade e sobreviver ao desgaste do governo que ele ajudara a instalar. Por outro lado, o Ato Institucional nº 2, embora momentaneamente contivesse a revolta da direita radical, não superara o descontentamento nas Forças Armadas, bastante agastadas com as diretrizes econômicas de Roberto Campos e Gouvêa de Bulhões. Em face de tais circunstâncias, como o Ato Institucional nº 2 bloqueara a possibilidade de alternância no poder e a sucessão de Castelo Branco por um civil, menos ainda, da oposição, o nome do general Artur da Costa e Silva, ministro da Guerra, consolidou-se como a única candidatura viável e capaz de conciliar a continuidade do regime autoritário e de suas políticas em favor do capital estrangeiro com as aspirações nacionais de desenvolvimento. A fim de manter a coesão do empresariado e conservar o apoio da direita nacionalista, que se expressava, confusamente, por intermédio dos coronéis da linha dura, Costa e Silva necessitava, portanto, apelar para o combate à recessão e a retomada da expansão industrial do Brasil, o que implicava certo distanciamento, sobretudo em política externa, das pautas dos Estados Unidos. Castelo Branco, embora se opusesse a sua candidatura, não teve força para evitá-la. Perdeu. E Costa e Silva se impôs como presidente do Brasil.

NOTAS DA PRIMEIRA PARTE:

1      Special National Intelligence Estimate nº 93-2-61 — Short-Term Prospects for Brazil under Goulart, cit.

2      Ib.

3      Ruth Leacock, “JFK, Business and Brazil”, Hispanic American Historical Review, 59(4), Nov. 1979, p. 636-673.

4      San Tiago Dantas, Política externa independente (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1962), p. 5.

5      Id., p. 77.

6      Id., p. 77.

7      Central Intelligence Agency, Subject: National Intelligence Estimate n. 93-2-63: Situation and Prospects in Brazil, 2/7/1963, secret, JFKL.

8      Ib.

9      Ib.

10    Ib.

11    Entrevista de João Goulart ao Autor, Punta del Este, 26/6/1976.

12    Hanson’s Latin American Letter, nº 881, Washington, 3/2/1962.

13    Exposição do ministro San Tiago Dantas aos chefes de missão dos Estados Americanos no Itamaraty, em 12/1/1962, in Ministério das Relações Exteriores, O Brasil em Punta del Este (VIII Reunião de Consulta de Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas) (Seção de Publicações, 1962), p. 32.

14    Ib., p. 32.

15    Ib., p. 33.

16    Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar).

17    Discurso de San Tiago Dantas na Câmara dos Deputados, Brasília, 7/2/1962, in Ministério das Relações Exteriores, op. cit., p. 73.

18    Ib., p. 73.

19    Exposição de San Tiago Dantas aos chefes de missão, ib.

20    Carta de John F. Kennedy a Goulart, Washington, Oct. 22, 1962, secret, DJG.

21    Ib.

22    Minuta manuscrita por Goulart, DJG.

23    Ib.

24    Ib.

25    Ib.

26    Hermes Lima, Travessia (Memórias) (Rio de Janeiro: José Olympio, 1974), p. 268-270.

27    Id., p. 268.

28    Sobre o assunto ver Moniz Bandeira, Brizola e o trabalhismo, cit., p. 63-67.

29    R. Leacock, doc. cit., p. 647-650.

30    Public Papers of the Presidents of the United States — John F. Kennedy, 1962 (Jan. 1 to Dec. 31, 1962) (U. S. Government Printing Office), p. 203.

31    Ib., p. 203.

32    Visit of President Goulart to Washington D.C., April, 1962, Background Paper — Foreign Policy of Brazil, confidential, PGV B-3/2, Mar. 27, 1962, JFKL.

33    Ib.

34    Memorandum for the President — Subject: Brasil. Briefing Book, A. Schlesinger Jr., Washington, Mar. 31, 1962, confidential, JFKL.

35    Ib.

36    Ib.

37    Ib.

38    Ib.

39    Ib.

40    O estado do Rio Grande do Sul decidira descontar as plantas doadas, a indenização do pessoal e os lucros ilegalmente remetidos para o exterior, reduzindo o valor de cerca de Cr$ 70 milhões (na moeda da época) para efeito de depósito prévio na Justiça.

41    R. Leacock, doc. cit., p. 649.

42    Ib., p. 640. Sobre o assunto, ver R. A. Dreyfuss, op. cit., p. 205-209. Moniz Bandeira, O governo João Goulart, cit., p. 64-76. J. K. Black, United States Penetration of Brazil, p. 82-86 e 98-100.

43     Philip Agee, Dentro da “Companhia” — Diário da CIA (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975), p. 285.

44    Entrevista do embaixador Gordon a Roberto Garcia, Veja, São Paulo, 9/3/1977, p. 6.

45    U.S. Congress, Senate, Hearings Before the Select Committee to Study Governmental Operations with Respect to Intelligence Activities (Covert Action), cit., p. 9 e 156.

46    Entrevista de Renato Archer ao Autor, 1971.

47    Os números exatos foram extraídos dos Anuários Estatísticos do Brasil 1961, 1963 e 1964, IBGE, p. 52, 38 e 48. A imprensa, na época, falou de um número entre 5.000 e 6.000 pedidos de vistos oficiais, sendo a informação originária do Itamaraty e do Exército.

48    Esse fato depois foi também confirmado, em entrevista ao Autor, por João Goulart, Amaury Silva, na época ministro do Trabalho, pelo jornalista Samuel Wainer e por Afonso Arinos, que, em 1962, chefiou a Missão do Brasil na ONU. Mais detalhes em Moniz Bandeira, O governo João Goulart, cit., p. 136-139 e 181, e Presença dos Estados Unidos no Brasil, cit., p. 446-449.

49    Tad Szulc, “Exportação da revolução cubana”, in Cuba e os Estados Unidos, John Plank (ed.) (Rio de Janeiro: Ed. O Cruzeiro, 1968), p. 91.

50    Depoimento de Edward Korry, ex-embaixador dos Estados Unidos no Chile durante o governo de Salvador Allende, perante o Senado norte-americano, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14/2/1977.

51    R. Leacock, doc. cit., p. 654. O estudo de Ruth Leacock é um dos mais elucidativos sobre as relações entre o governo de Kennedy e o de Goulart.

52    Id., ib., p. 655.

53    Ib., p. 656.

54    Ib., p. 656.

55    Ib., p. 657.

56    Entrevista de Lincoln Gordon a Roberto Garcia, Veja, São Paulo, 9/3/1977.

57    Um dos mais beneficiados foi Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara.

58    Public Papers… John F. Kennedy, cit., p. 871. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13/2/1962. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 14/2/1962.

59    Memorandum of Conversation, Dec. 13, 1962, NLK-76-96 § 2, JFKL.

60    Ib.

61    Gordon ao Departamento de Estado, Rio de Janeiro, 19/12/1962, secreto, JFKL. Entrevista de Goulart ao Autor, Punta del Este, 24/6/1976.

62    Ib.

63    A nota foi distribuída pelo embaixador Roberto Campos, em Washington, e, simultaneamente, pelo Itamaraty. Jornal do Brasil, 24/1/1963.

64    Memorandum of Conversation, Feb. 7, p. l, encl. 5, Airgram A 918, 8/2/1963, Ralph V. Korp, Financial Attache, AID (US) Braz. JFKL. Essas conversações, das quais há cinco memoranda, realizaram-se entre 3 e 8 de fevereiro de 1963.

65    Central Intelligence Agency, NIE 93-3-63: Situation and Prospects in Brazil, secret, JFKL.

66    Ib.

67    Department of State, “Dificulties Confronting Brazil’s Finance Minister San Tiago Dantas”, confidential, NKL-75-48, JFKL.

68    Carta de Kennedy a Goulart, Washington, 20/5/1963, secret, DJG.

69    Ib.

70    Telegram, Information Report, Central Intelligence Agency, 15/3/1963, JFKL.

71    Telegram, Information Report, Central Intelligence Agency, 30/4/1963, JFKL. Nesse telegrama, o agente da CIA anunciava que o general Olympio Mourão Filho, então comandante da Segunda Região Militar, preparava-se para deflagrar uma revolta contra Goulart em 15 de maio daquele ano, ao mesmo tempo em que comentava a existência de vários grupos que também conspiravam. Há vários telegramas na JFKL sobre o mesmo assunto, datados da mesma época.

72    P. Malan, op. cit., p. 103.

73    Carta de Kennedy a Goulart, Washington, 10/7/1963 (tradução não oficial), e carta de Goulart a Kennedy, Brasília, 27/7/1963, DJG.

74    Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 30/6-1º/7/1963. Entrevista de Waldir Pires, que fora consultor-geral da República, ao Autor, em 1972.

75    Ib.

76    Entrevista de Carvalho Pinto ao Autor, São Paulo, 26/10/1976.

77    Exposição feita pelo ministro Carvalho Pinto ao presidente João Goulart em reunião ministerial de 4 de julho de 1963 (Ministério da Fazenda, 1963), p. 14-15, ACP.

78    Entrevista de Carvalho Pinto ao Autor, cit.

79    Central Intelligence Agency, NIE 93-2-63: Situation and Prospects in Brazil, 2/7/1963, JFKL.

80    Ib.

81    Ib.

82    Ib.

83    Ib.

84    Ib.

85    Ib.

86    Ib.

87    O Estado de S. Paulo, São Paulo, 24/9/1963, p. 6, e 29/9/1963, p. 5.

88    José Stacchini, Março 64: mobilização da audácia (São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1965), p. 66.

89    Entrevista de Goulart ao Autor, cit. integral do Decreto em O Estado de S. Paulo, São Paulo, 1º/9/1963.

90    R. Leacock, doc. cit., p. 666-667.

91    Telegrama nº 345, de Gordon ao Departamento de Estado, 17/8/1963, 2 p.m. (Section One of Two), Ken NSF Co Brazil 8/21/63 — 8/311, JFKL.

92    Entrevista de Goulart ao Autor, Punta del Este, 3/6/1976.

93    Parecer do general Dantas Ribeiro, ministro da Guerra, encaminhando o relatório do general Paulo F. Torres, presidente do Inquérito Policial-Militar, à Justiça Militar, DJG.

94    Entrevistas de Renato Archer ao Autor, Rio de Janeiro, 7/3/1977 e 19/7/1977.

95    Ib.

96    Entrevista de Amaury Silva ao Autor, Curitiba, 2/6/1977 e 3/6/1977. Entrevista de Samuel Wainer ao Autor, São Paulo, 17/6/1977.

97    Entrevista de Goulart ao Autor, cit.

98    Ordens dos chefes de Estado-Maior Conjunto (JCS) ao comandante em chefe da Esquadra do Atlântico (CINCLANFLT) 26.24-312046Z; ao chefe do Estado-Maior da Aeronáutica (CSAF) e ao chefe do Estado-Maior do Exército (CSA), Contingency Plan 2-61, 31/3/1964, a) contra-almirante L. A. Bryan, LBJL.

99    Ordem dos chefes do Estado-Maior Conjunto ao Comando da Zona do Panamá (CINCSO) e ao Comando das Forças Armadas de Ataque (CINCSTRIKE), 311907Z-Março, contra-almirante J. L. Chew, vice-diretor de Operações, LBJL. Os documentos sobre a Operação Brother Sam foram reproduzidos por Marcos Sá Correia, 1964 visto e comentado pela Casa Branca (Porto Alegre: L&PM), p. 30-41. Outros detalhes in Phyllis R. Parker, 1964 — O papel dos Estados Unidos no golpe de Estado de 31 de março (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977), p. 103-106.

100  “As confissões de Lacerda”, Jornal da Tarde, São Paulo, 6/6/1977, p. 20.

NOTAS DA SEGUNDA PARTE:

1      Gordon Connell-Smith, Los Estados Unidos y la América Latina (México: Fondo de Cultura Económica, 1977), p. 270.

2      Entrevista de Lincoln Gordon ao Autor, Washington, set. 1977. Ver também P. R. Parker, op. cit., p. 105, 111-115.

3      Telegrama in Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 2/4/1964, p. 8.

4      Ronald M. Schneider, The Political System of Brazil — Emergence of a “Modernizing” Regime — 1964-1970 (Nova York/Londres: Columbia University Press, 1971), p. 124.

5      Luís Viana Filho, O governo Castelo Branco, 2ª ed. (Rio de Janeiro: José Olympio, 1975), p. 46-59.

6      Alfred Stepan, The Military in Politics — Changing Patterns in Brazil (Princeton, Nova Jersey: Princeton University Press, 1971), p. 129.

7      Id., p. 129.

8      Id., p. 129.

9      Entrevista de Juracy Magalhães, quando ministro da Justiça de Castelo Branco, justificando o Ato Institucional nº 2, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 5/11/1965, última página.

10    Discurso de Castelo Branco no Palácio Itamaraty, por ocasião da entrega de diplomas aos candidatos aprovados para a carreira de diplomata, em 31/7/1964, in Ministério das Relações Exteriores, A política exterior da revolução brasileira (Discursos) (Seção de Publicações, 1968), p. 12-13.

11    Id., p. 16.

12    Id., p. 17.

13    Id., p. 17.

14    Id., p. 20.

15    Id., p. 19-20.

16    Id., p. 13-14.

17    Entrevista de Roberto Campos ao Autor, Brasília, 12/1/1988. L. Viana Filho, op. cit., p. 441-444.

18    Entrevista de Roberto Campos ao Autor, cit. Id., ib., p. 434-436.

19    Entrevista de Roberto Campos ao Autor, cit.

20    Apud L. Viana Filho, op. cit., p. 447.

21    Id., p. 447-450. General Carlos Meira Matos, Brasil — Geopolítica e destino (Rio de Janeiro: José Olympio, 1975), p. 94.

22    Juracy Magalhães, Minha experiência diplomática (Rio de Janeiro: José Olympio, 1971), p. 275. Id., Minhas memórias provisórias (depoimento prestado ao CPDOC), Alzira Alves de Abreu (coord.) (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982), p. 176-177.

23    A. A. de Melo Franco, op. cit., p. 188. Sobre a política externa interdependente, ver Hans-Jürgen Brummel, Brasilien zwischen Abhängigkeit, Autonomie und lmperialismus (Die Grundlinien der brasilianischen Aussenpolitik (1964-1978) unter besonderer Berück-sichtigung der Beziehungen zu Lateinamerika (Frankfurt/Main: Haag und Herchen, 1980), p. 92-102.

24    J. K. Black, United States Penetration of Brazil, cit., p. 49-53.

25    U.S. Senate — United States Policies and Programs in Brazil — Hearings before the Subcommittee on Western Hemisphere Affairs of the Committee on Foreign Relations (Washington: U.S. Government Printing Office, 1971), p. 146-156.

26    Id., p. 277-278.

27    Id., p. 275-276.

28    Apud Nelson Werneck Sodré, A história da imprensa no Brasil (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966), p. 501. O nome oficial do Brasil, adotado desde a Proclamação da República, era Estados Unidos do Brasil. Posteriormente, Castelo Branco mudou-o para República Federativa do Brasil.

29    Entrevista de Lincoln Gordon a Elio Gaspari, Veja, São Paulo, 17/11/1971, p. 6.

30    Telegrama nº 1.716, Departamento de Estado à Embaixada Americana, 9/6/1964, 5,22 p.m., NSF Co. Brazil, 1 v. 4, LBJL.

31    Memorandum, E. G. Bowdler a Bundy, confidential, The White House, 27/10/1965, LBJL.

32    Id.

33    Apud L. Viana Filho, op. cit., p. 357.

34    Id., p. 360.

35    Id., p. 343-344.

36    Cf. P. R. Parker, op. cit., p. 109.

37    Georges-André Fiechter, O regime modernizador do Brasil, 1964-1972 (Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas), p. 102.

38    Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8/11/1966.

39    G. A. Fiechter, op. cit., p. 134.

40    Estatísticas históricas do Brasil — Séries Estatísticas Retrospectivas, v. 3, Séries Econômicas, Demográficas e Sociais — 1550-1985 (Rio de Janeiro: IBGE, 1987), p. 537-538.

41    Ramón Tamames, O Brasil e a integração econômica da América Latina (Buenos Aires: Instituto para la Integración de América Latina/ Banco Interamericano de Desarrollo, 1969), p. 367-368.

42    Id., p. 368.

43    Exposição de Rômulo Almeida, membro do Comitê dos Nove, à 4ª Reunião do Conselho Interamericano Econômico e Social, no nível ministerial, a propósito da Resolução contida no Doc. CIES/971 — CIES/1067, Buenos Aires, 1º-4-1966, DRA.

44    Id.

45    Id.

46    Id.

47    Id.

48    Id.

49    Estatísticas históricas do Brasil, cit., vol. 3, p. 537-538.

50    G. A. Fiechter, op. cit., p. 137.

51    Cf. Rubem Medina, Desnacionalização — Crime contra o Brasil? (Rio de Janeiro: Saga, 1970), p. 58.

52    Id., p. 45.

[ENTREVISTA] Comprovadas acusações feitas por Moniz Bandeira em 2016: Sobre a Lava-Jato e sua relação com os EUA.

Diálogos de Moro recém divulgados pelo STF comprovam as acusações de Moniz Bandeira em entrevista concedida ao jornalista Eduardo Miranda, originalmente publicada no Jornal do Brasil em 2016 :


“Moro e Janot atuam com os Estados Unidos contra o Brasil”

Respeitado pela vasta obra em que disseca o poderio dos Estados Unidos a partir do financiamento de guerras e da desestabilização de países, o cientista político brasileiro Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira afirma, em entrevista ao Jornal do Brasil, que representantes da Lava Jato, como o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o juiz de primeira instância Sérgio Moro, avançam nos prejuízos provocados ao país e à economia nacional. Segundo o professor, os “vínculos notórios” de Moro e Janot com instituições norte-americanas explicam a situação atual das empresas brasileiras.

“Os prejuízos que causaram e estão a causar à economia brasileira, paralisando a Petrobras, as empresas construtoras nacionais e toda a cadeia produtiva, ultrapassam, em uma escala imensurável, todos os prejuízos da corrupção que eles alegam combater. O que estão a fazer é desestruturar, paralisar e descapitalizar as empresas brasileiras, estatais e privadas, como a Odebrecht, que competem no mercado internacional, América do Sul e África”, argumenta Moniz Bandeira, que está lançando o livro A Desordem Mundial: O Espectro da Total Dominação.

Na entrevista a seguir, o cientista político, que é autor de mais de 20 obras sobre temas como geopolítica internacional, Estados Unidos, Brasil e América Latina, faz críticas severas ao presidente Michel Temer, que, segundo ele, “não governa”, mas segue apenas as coordenadas do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, “representante do sistema financeiro internacional”.

“Seu propósito é jogar o peso da crise sobre os assalariados, para atender à soi-disant, ‘confiança do mercado’, isto é, favorecer os rendimentos do capital financeiro, especulativo, investido no Brasil, e de uma ínfima camada da população – cerca de 46 bilionários e 10.300 multimilionários”, critica Moniz Bandeira.

Confira a entrevista com o cientista político: 

Jornal do Brasil – Um livro como Quem pagou a conta?, da historiadora britânica Frances Stonor Saunders, aponta a cultura como estratégia de dominação e força dos Estados Unidos em relação aos seus artistas e intelectuais e em relação a outros países durante a Guerra Fria. Essa dominação ainda se dá da mesma forma? Ela passou por novas configurações?

Moniz Bandeira – Sim, o inglês é a língua franca e os Estados Unidos ainda possuem o maior soft power. É através do controle dos meios de comunicação, das artes e da cultura que influenciam e dominam, virtualmente, quase todos os povos, sobretudo no Ocidente. E os recursos financeiros correm por diversas fontes. 

Jornal do Brasil – Como o senhor vê o modo como os EUA elegem seu presidente da República? É um método seguro? A Rússia chegou a anunciar que enviaria fiscais para acompanhar o processo de votação até a apuração do resultado.

Moniz Bandeira – Os grandes bancos e corporações, concentradas em Wall Street, são, geralmente, os grandes eleitores nos Estados. George W. Bush não foi de fato eleito, mas instalado no governo por um golpe do poder judiciário. Agora, porém, a tentativa de colocar na presidência dos Estados Unidos a candidata de Wall Street e do complexo industrial-militar, a democrata Hillary Clinton, falhou. Elegeu-se Donald Trump, um bilionário outsider, como franco repúdio ao establishment político, à continuidade da política de guerra, de agressão. Trump recebeu o apoio dos trabalhadores brancos, empobrecidos pela globalização, dos desempregados e outros segmentos da população descontentes com o status quo. E o fato foi que mais de 70 milhões de cidadãos americanos (59 milhões em favor de Trump e 13 milhões em favor Bernie Sanders, no Partido Democrata) votaram contra o establishment, contra uma elite política corrupta, e demandaram mudança.

Jornal do Brasil – De que modo os EUA participaram da destituição da presidente Dilma Rousseff? Essas intervenções se dão em que nível, quando comparadas às do período da ditadura militar no Brasil?

Moniz Bandeira – Conforme o historiador John Coatsworth contabilizou, entre 1898 e 1994, os Estados Unidos patrocinaram, na América Latina, 41 casos de “successful” de golpes de Estado para mudança de regime, o que equivale à derrubada de um governo a cada 28 meses, em um século.  Após a Revolução Cubana, os Estados Unidos, em apenas uma década, a partir de 1960, ajudaram a derrubar nove governos, cerca de um a cada três meses, mediante golpes militares, como no Brasil. Depois de 1994, outros métodos, que não militares, foram usados para destituir os governos de Honduras (2009) e Paraguai (2012). No Brasil, o impeachment da presidente Dilma Rousseff constituiu, obviamente, um golpe de Estado. Houve interesses estrangeiros, elite financeira internacional, aliados a setores do empresariado, com o objetivo de regime change (mudança de regime), através da mídia corporativa, com o apoio de vastas camadas das classes médias, abaladas com as denúncias de corrupção. 

Jornal do Brasil – E qual teria sido o papel norte-americano na destituição?

Moniz Bandeira – Há evidências, diretas e indiretas, de que os Estados Unidos influíram e encorajaram a lawfare, a guerra jurídica para promover a mudança do regime no Brasil. O juiz de primeira instância Sérgio Moro, condutor do processo contra a Petrobras e contra as grandes construtoras nacionais, preparou-se, em 2007, em cursos promovidos pelo Departamento de Estado. Em 2008, ele participou de um programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard, em conjunto com sua colega Gisele Lemke. E, em outubro de 2009, participou da conferência regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida no Rio de Janeiro pela Embaixada dos Estados Unidos. A Agência Nacional de Segurança (NSA), que monitorou as comunicações da Petrobras, descobriu a ocorrência de irregularidades e corrupção de alguns militantes do PT e, possivelmente, forneceu os dados sobre o doleiro Alberto Yousseff ao juiz Sérgio Moro, já treinado em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação, inclusive com demonstrações reais (como preparar testemunhas para delatar terceiros). 

Jornal do Brasil – O sr, cita também o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no desmantelamento de empresas brasileiras…

Moniz Bandeira – Rodrigo Janot foi a Washington, em fevereiro de 2015, apanhar informações contra a Petrobras, acompanhado por investigadores da força-tarefa responsável pela Operação Lava Jato, e lá se reuniu com o Departamento de Justiça, o diretor-geral do FBI, James Comey, e funcionários da Securities and Exchange Commission (SEC).  A quem serve o juiz Sérgio Moro, eleito pela revista Time um dos dez homens mais influentes do mundo? A que interesses servem com a Operação Lava-Jato? A quem serve o procurador-geral da República, Rodrigo Janot? Ambos atuaram e atuam com órgãos dos Estados Unidos, abertamente, contra as empresas brasileiras, atacando a indústria bélica nacional, inclusive a Eletronuclear, levando à prisão seu presidente, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva. Os prejuízos que causaram e estão a causar à economia brasileira, paralisando a Petrobras, as empresas construtoras nacionais e toda a cadeia produtiva, ultrapassam, em uma escala imensurável, todos os prejuízos da corrupção que eles alegam combater. O que estão a fazer é desestruturar, paralisar e descapitalizar as empresas brasileiras, estatais e privadas, como a Odebrecht, que competem no mercado internacional, América do Sul e África.

Jornal do Brasil – Levando-se em consideração a destruição de empresas de infraestrutura no país, projetos para acabar com a exclusividade da Petrobras na exploração da commodity, o senhor acredita na tese de que o cérebro da Lava Jato está fora do país? Se sim, como se daria isso?

Moniz Bandeira – Não há cérebro. Há interesses estrangeiros e nacionais que convergem. Como apontei, os vínculos do juiz Sérgio Moro e do procurador-geral Rodrigo Janot com os Estados Unidos são notórios. E, desde 2002, existe um acordo informal de cooperação entre procuradores e polícias federais não só do Brasil, mas também de outros países, com o FBI, para investigar o crime organizado. E daí que, provavelmente, a informação através da espionagem eletrônica do NSA, sobre a corrupção por grupos organizados dentro da Petrobras, favorecendo políticos, chegou à Polícia Federal e ao juiz Sérgio Moro. A delação premiada é similar a um método fascista. Isso faz lembrar a Gestapo ou os processos de Moscou, ao tempo de Stálin, com acusações fabricadas pela GPU (serviço secreto). E é incrível que, no Brasil, um juiz determine, a polícia faça prisões arbitrárias, ilegais, sem que os indivíduos tenham culpa judicialmente comprovada, um procurador ameace processá-los se não delatarem supostos crimes de outrem, e assim, impondo o terror e medo, obtêm uma delação em troca de uma possível penalidade menor ou outro prêmio. Não entendo como se permitiu e se permite que a Polícia Federal, que reconhecidamente recebe recursos da CIA e da DEA, atue de tal maneira, ao arbítrio de um juiz de 1ª Instância ou de um procurador, que nenhuma autoridade pode ter fora de sua jurisdição, conluiados com a mídia corporativa, em busca de escândalos para atender aos seus interesses comerciais. A quem servem? Combater a corrupção é certo, mas o que estão a fazer é destruir a economia e a imagem do Brasil no exterior. E em meio à desestruturação da Petrobras, das empresas de construção e a cadeia produtiva de equipamentos, com o da “lawfare”, da guerra jurídica, com a cumplicidade da mídia e de um Congresso quase todo corrompido. O bando do PMDB-PSDB apossou-se do governo, com o programa previamente preparado para atender aos interesses do sistema financeiro, corporações internacionais e outros políticos estrangeiros.

Jornal do Brasil – O economista Bresser-Pereira, ex-ministro de FHC, afirma, na apresentação de A Desordem Mundial, que os EUA, segundo a tese do senhor, passaram por um processo de democracia para a oligarquia. Que paralelo se pode fazer com o Brasil nesse sentido, tomando como base as últimas três décadas? O sr. acredita que passamos brevemente por um momento de democracia e agora voltamos à ditadura do capital financeiro/oligarquia?

Moniz Bandeira – Michel Temer, que se assenhoreou da presidência da república, não governa. É um boneco de engonço. Quem dita o que ele deve fazer é o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, como representante do sistema financeiro internacional. E seu propósito é jogar o peso da crise sobre os assalariados, para atender à soi-disant, “confiança do mercado”, isto é, favorecer os rendimentos do capital financeiro, especulativo, investido no Brasil, e de uma ínfima camada da população – cerca de 46 bilionários e 10.300 multimilionários.

Jornal do Brasil – O senhor afirma que onde quer que os EUA entrem com o objetivo de estabelecer a democracia, eles entram na verdade por interesses políticos e econômicos. É esse o caso da aproximação dos norte-americanos com Cuba? Fidel Castro é um dos que compartilhavam dessa visão de interesse.

Moniz Bandeira – Sim, havia forte pressão de empresários americanos para o restabelecimento de relações com Cuba, por causa de seus interesses comerciais. Estavam a perder grandes oportunidades de negócios e investimentos devido ao embargo econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba desde fins de 1960, portanto mais de 50 anos, sem produzir a queda do regime instituído pela revolução comandada por Fidel Castro. Era um embargo de certa forma inócuo, uma vez que outros países, como o Brasil, estavam a investir e fazer negócios com Cuba. A construção do complexo-industrial de Mariel, pela Odebrecht, com equipamento produzidos pela indústria brasileira e o apoio do governo do presidente Lula, contribuíram, possivelmente, para a decisão do presidente Barack Obama de normalizar as relações Cuba. Essa Zona Especial de Desarrollo de Mariel (ZEDM), 45 quilômetros a oeste de Havana, tende a atrair investimentos estrangeiros, com fins de exportação, bem como opção para o transbordo de contêineres, a partir da ampliação do Canal do Panamá, ao permitir a atracagem dos grandes e modernos navios de transporte interoceânicos. Tenho um livro sobre as relações dos Estados Unidos com Cuba (De Martí a Fidel – A Revolução Cubana e a América Latina).

Jornal do Brasil – O processo de apoio financeiro de instituições políticas às religiões cristãs de direita, tal como o senhor descreve ao tratar do governo Bush, se assemelha de alguma forma ao contexto do Brasil, levando-se em conta o crescimento da bancada evangélica no Congresso Nacional e a conquista de cargos do Poder Executivo por representantes da Igreja?

Moniz Bandeira – Sim, o processo é secreto. Ocorre através de ONGs, muitas das quais são financiadas pela USAID, National Endowment for Democracy, conforme demonstro em A Segunda Guerra Friae A desordem mundial, bem como através de outras agências semi-oficiais e privadas. Essas igrejas também coletam muito dinheiro dos crentes, acumulam fortunas. E as bancadas de deputados recebem dinheiro de empresas não nacionais, mas de grandes empresas estrangeiras, muitas das quais apresentam no Brasil balanços com prejuízos, conquanto realizem seus lucros nas Bahamas e em outros paraísos fiscais. Tais empresas multinacionais não foram investigadas pelo juiz Sérgio Moro, o procurador-geral Rodrigo Janot e a força-tarefa da Operação Lava-Jato et caterva. A quem eles servem? Racine, o dramaturgo francês, escreveu que “não há segredo que o tempo não revele”. Não sabemos exatamente agora, porém podemos imaginar.

Sobre o início do movimento socialista no Brasil.

Trecho retirado da obra “O ano vermelho: A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil”, publicada em 1967, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira.


A indústria no Brasil, durante o século XVII e o começo do século XVIII, constituía, virtualmente, parte superior da atividade agrícola, com a produção de açúcares, melaço, cachaça etc., derivados do cultivo da gramínea Saccharum nas regiões de massapê, sobremodo na Bahia e em Pernambuco. A economia do país, segundo Roberto Simonsen, superava a da Grã-Bretanha, e mais ainda a das treze colônias que formariam os Estados Unidos da América(1).

Começava, então, a surgir uma classe de ourives, fiadores de ouro, linhas de prata, seda, tecidos e algodões e também uma indústria siderúrgica e de construção naval, com estaleiros que fabricavam navios para Portugal. Em fins do século XVIII e princípios do século XIX, o Brasil podia extrair vários minérios, como cobre e platina, explorava salitre e produzia instrumentos de ferro e ourivesaria, tecidos de algodão, móveis, sapatos, cerâmica, assim como galeões de 700 e 800 t, caravelas, fragatas e outros barcos, em estaleiros da Bahia e do Rio de Janeiro. Mas não possuía carvão, o que obstaculizou, entre outros fatores, o desenvolvimento das pequenas forjas siderúrgicas.

Ademais, induzida, certamente, pelos interesses comerciais da Grã-Bretanha, a rainha de Portugal, Dona Maria I (1734-1816), alegou “o grande número de fábricas e manufaturas, que de alguns anos a esta parte se tem difundido em diferentes capitanias do Brasil, com grave prejuízo da cultura, e da lavoura” e ordenou, mediante alvará de 5 de janeiro de 1785, que fossem fechadas todas as oficinas, pequenas, médias ou grandes, de ouro, prata, sedas, algodão, linho e lã, os têxteis em geral, à exceção de tecidos grosseiros de algodão, como sacos para produtos agrícolas e/ou roupas para os escravos(2)

Após Dona Maria I mentalmente desequilibrar-se e ser declarada incapaz, seu filho, o príncipe Dom João (depois rei Dom João VI, 1767-1826), assumiu a regência em 1792 e, quando as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram Portugal, alternativa não teve senão transferir a corte para o Brasil, sob a proteção da Grã-Bretanha, a fim de não ser capturado, como foi Carlos IV, Rei de Espanha, e seu filho Fernando VII.

O príncipe regente chegara à Bahia em 22 de janeiro de 1808 e, seis dias depois, em 28 de janeiro, abriu os portos do Brasil, abolindo, ipso facto, o regime colonial, com uma tarifa de 24% ad valorem sobre as importações, com o fito de estimular e proteger a produção interna. Outrossim, pouco de um mês depois de desembarcar com a corte no Rio de Janeiro, derrogou, em 1° de abril de 1808, o alvará de 5 de janeiro de 1785, de sua mãe, Dona Maria I, e autorizou o estabelecimento “de todo o gênero de manufaturas, sem excetuar alguma, fazendo os seus trabalhos em pequeno, ou em grande, como entenderem que mais lhes convém”(3)

A Grã-Bretanha, embora não quisesse, teve de aceitar a abertura dos portos. Porém, uma vez que Dom João também não lhe concedera o monopólio de um porto exclusivo, o de Santa Catarina ou outro, como propusera na convenção secreta de 1807, sobre o traslado da corte para o Brasil, a Grã-Bretanha forçou a celebração de três tratados, entre os quais o de Comércio e Navegação, de 1810, que a privilegiou com uma tarifa de 15% ad valorem, tributo menor do que os 16% que Portugal usufruía, enquanto todas as outras nações pagariam direitos da ordem de 24%.

Esse Tratado de 1810, virtualmente, anulou a abertura dos portos ao desferir duro golpe não apenas sobre o comércio do Brasil como também sobre o esforço do príncipe regente Dom João para industrializar o país. A reação foi enorme, mas a Grã-Bretanha não concordou em revisar o Tratado e, derrotado Napoleão Bonaparte em 1814, Dom João, em 16 de dezembro de 1815, elevou o Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarves, a fim de lá permanecer com a Corte e contrapor-se à Grã-Bretanha.

Essa sugestão partiu de Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838), representante da França no Congresso de Viena, através do Conde de Palmela, Dom Pedro de Sousa Holstein, representante de Portugal. Posteriormente, em 1822, o príncipe Dom Pedro, como regente, defrontou-se com a pressão das cortes de Lisboa, que pretendiam restaurar o regime colonial após a revolução liberal de 1820 iniciada na cidade do Porto, e constatou que não lhe restava alternativa senão cortar os laços com Portugal. Herdou, porém, os tratados de 1810 e teve de renová-los, em 17 de agosto de 1827, como condição, exigida pela Grã-Bretanha para o reconhecimento da independência do Império do Brasil.

Quando o Tratado de Amizade, Navegação e Comércio de 1827, válido por 15 anos, expirou em 1842, o gabinete ministerial de Dom Pedro II recusou-se a renová-lo, não obstante toda a pressão da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e de outras potências com as quais o Brasil firmara acordos semelhantes. E, em 12 de agosto de 1844, o ministro da Fazenda, Manuel de Alves Branco (1797-1855), empreendeu radical mudança na política econômica do Brasil, que, até então, continuava a cobrar a tarifa de 15%, estabelecida pelo Tratado de 1810 e renovada pelo Tratado de 1827, para importação de calçados, têxteis, velas e outros produtos.

O processo de industrialização era ainda muito incipiente. Com o fito de aumentar a receita alfandegária e superar o déficit orçamentário, disponibilizando mais recursos ao governo, o ministro Manuel Alves Branco elevou as tarifas de cerca de 3.000 produtos importados, grande parte em 20% ou 30%, ou ainda mais altas, entre 40% e 60%, para mercadorias que o Brasil tinha condições de produzir.

A tarifa estabelecida pelo ministro da Fazenda, a revestir-se de caráter protecionista, possibilitou iniciativas de caráter industrial e reanimou a economia do país. O Brasil, a partir de então, passou a rejeitar a assinatura de novos tratados de comércio que entorpeciam os verdadeiros interesses nacionais, conforme declarou, em 1847, o 2° Barão de Cairu, Bento da Silva Lisboa, ministro dos Negócios Estrangeiros.

Cuidou de se desembaraçar os compromissos e os tratados que correspondiam às necessidades de desenvolvimento, quando já decrescia a influência dos barões do açúcar e ainda não se firmara o predomínio dos plantadores de café. Diante de tais atitudes do Brasil, rechaçar o novo tratado de comércio e instituir a Tarifa Alves Branco, a Grã-Bretanha duramente reagiu.

O Parlamento do Reino Unido, em 1845, aprovou o Slave Trade Suppression Act ou Bill Aberdeen, apresentado pelo ministro de Assuntos Estrangeiros, George Hamilton-Gordon, 4° Earl Aberdeen, autorizando a Armada Inglesa a inspecionar e apreender, no Atlântico, navios de quaisquer nacionalidades que estivessem a transportar escravos africanos, além de permiti-la julgar os comandantes. Era uma afronta à soberania nacional dos países.

De qualquer forma, assim sob pressão, o Brasil terminou por suspender o tráfico de escravos, ainda que oficialmente, com a aprovação da Lei Eusébio de Queirós, em 4 de setembro de 1850. Entretanto, nenhum tratado comercial voltou a assinar com a Grã-Bretanha ou qualquer outra potência, até o fim da Monarquia, em 15 de novembro de 1889.

O fim do Tratado de Amizade, Navegação e Comércio com a Grã-Bretanha, a Tarifa Alves Branco, ao implicar a proteção do mercado interno, e a suspensão oficial do tráfico de escravos possibilitaram que capitais, até então empregados no comércio da África, o mercado negreiro, passassem a ser aplicados em oficinas e fábricas para a produção de manufaturas, entre as quais artefatos de couro, sabão, papel e bens de consumo, antes importados.

A esse tempo, o Barão de Mauá, ao depois Visconde de Mauá, Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), impulsou a industrialização do Brasil com grandes empreendimentos, entre os quais a Fundição e Estaleiros da Ponta d’Areia, em Niterói, que produziu, entre 1846 e 1877, cerca de 72 navios para transporte de cargas, cabotagem e, inclusive, navios de guerra, canhões, pontes, trilhos e outros artefatos de ferro. Outrossim, ademais de várias empresas, fundou o Banco Mauá, ligado à MacGregor & Cia, e espraiou suas sucursais aos países da Bacia do Prata – Argentina e Uruguai.

A partir de 1857, em meio a uma crise econômica internacional, a tarifa alfandegária, instituída pelo ministro Domingos Alves Branco, foi sucessivamente reduzida, primeiro por João Mauricio Wanderley (1815-1889), então secretário de Estado dos Negócios da Fazenda e Presidente do Tribunal do Tesouro Nacional, e, logo depois, por seu sucessor, no cargo, Bernardo de Sousa Franco (1805-1875). Tais decretos, ao permitir a entrada no mercado nacional de artigos de consumo, alimentos e manufaturas, sem maiores ônus tarifários, entorpeceram o processo de industrialização do país.

O colapso financeiro, que irrompeu na Europa e alcançou os Estados Unidos, em 1873, provocou longa recessão mundial, até 1878, pelo menos, e a Grã-Bretanha aproveitou-se das franquias alfandegárias e outras, que o Brasil teve de fazer, a fim de obter recursos, antes e durante a guerra contra o Paraguai (1864-1870), para atacar seu mercado interno. O primeiro a tombar, sob pressões e manobras da Casa Rothschild, foi o Banco Mauá. Sem contar com o apoio do governo, faliu, em 1878, juntamente com os estaleiros de Ponta da Areia e todas as demais empresas.

O surto industrial, que ocorrera, não gerou imediatamente significativo contingente operário. O trabalho ainda era exercido, sobretudo, por escravos de ganho e libertos. Entretanto, desde o início dos anos 1840, ideias utópicas, nem sempre claras, de socialismo, começaram a entrar no Brasil, procedentes da Europa, no estilo do que o economista francês Jerôme Blanqui (1798-1854) denominou de socialismo utópico, em 1839,(4) definição também adotada, posteriormente, por Friedrich Engels (1820-1895).

Segundo o jornalista Nereu Rangel Pestana, nesse mesmo ano, 1839, foi publicado, no Rio de Janeiro, o jornal O Socialista, com um apelo “para que se lançassem as bases de uma organização que estabelecesse a ‘cidadania universal’”, inspirado, quiçá, por imigrantes alemães.

Pouco depois, o médico homeopata Benoît-Jules Mure (1809-1858) e o engenheiro Louis Leger Vauthier (1815-1901), ambos franceses, tentaram empreender no Brasil algumas iniciativas de reforma da sociedade. Benoît-Jules Mure chegou ao Brasil em novembro de 1840, com 31 anos, e o imperador Dom Pedro II (1825-1891), recém-aclamado e coroado aos 14 anos (14 de julho de 1841) e a quem foi apresentado como representante oficial da Société Union Industrielle, fundada em Lyon, estava interessado na colonização e autorizou o governo conceder-lhe terras e financiamento para a realização de seu projeto de construir uma sociedade para as “classes sofredoras” da França (5).

Quem intermediou o encontro, aparentemente, foi o primeiro-ministro do Império (Ministério da Maioridade), Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845), que promovera o movimento para antecipar a maioridade de Dom Pedro II e que, em 7 de outubro de 1840, assinara com o francês Camille Trinocq, professor de história e geografia no Rio de Janeiro, um contrato de sociedade em comandita para a criação de uma colônia societária, nos moldes de um phalanstère – a Vila Andrada – na região do Rio das Pedras, província de São Paulo(6).

O governo imperial havia designado o sul do Brasil – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – para o povoamento com imigrantes oriundos da Europa, com o objetivo de colonizar e defender o território. E, em 1841, entraram os primeiros 117 colonos franceses para integrar a colônia societária, o falanstério que Benoît-Jules Mure projetava fundar entre os rios Saí-Guaçu e Saí-Mirim, na Península do Saí, próxima de São Francisco do Sul (Santa Catarina), cujos membros trabalhariam no que tivessem vocação e o que produzissem seria distribuído a cada família de acordo com suas necessidades(7)

Outras três levas de franceses aportaram no Rio de Janeiro e foram para Santa Catarina. Mas o falanstério, que chegara a ter mais ou menos 500 imigrantes franceses, cindiu-se, devido às divergências que tiveram Benoît Mure com Michel Marie Derrion (1803-1850)(8), desde que chegaram ao Brasil, e foi outro falanstério estabelecido em Palmital, distante algumas léguas de Saí(9) As experiências, porém, fracassaram. Benoît-Jules Mure, em Santa Catarina, permaneceu de janeiro de 1842 a setembro de 1843, quando regressou ao Rio de Janeiro. E Michel Marie Derrion defrontou-se com as intempéries da região e a falta de recursos, o que o levou a abandonar o falanstério e seus habitantes dispersaram-se.

Pouco tempo depois, 1847, outro médico, Jean Maurice Faivre (1795-1858), nascido em Jura, fronteira da França com a Suíça, e adepto das doutrinas socialistas de Fourier, Saint Simon e Robert Owen (1771-1858), inaugurou, entre os rios Ivaí e Ivaizinho, na região central da província do Paraná, uma espécie de falanstério com imigrantes europeus – 25 famílias, num total de 63 pessoas – e brasileiros, denominado Colônia Agrícola Tereza Cristina, nome da imperatriz, em virtude do apoio que recebeu do imperador Dom Pedro II, um homem aberto a esses experimentos, de modo a colonizar o país e substituir, gradativamente, a força de trabalho escrava pelo trabalho livre(10).

As terras, ao empreendimento, foram repartidas, os gastos do trabalho, bem como os lucros, seriam divididos, e a produção da colônia distribuída coletivamente. O naturalista francês Gustave Rumbelsperger (1814-1892), grande amigo de Dom Pedro II e do comandante (depois almirante) Luiz Felipe Saldanha da Gama (1846-1895), participou da fundação da Colônia Agrícola Tereza Cristina e passou a dirigi-la quando, em 1858, Jean Maurice Faivre faleceu, em consequência de estranha febre. A Colônia Agrícola Tereza Cristina ainda resistiu mais dez anos, porém, desvaneceu-se isolada, como todas as outras tentativas de construir uma utopia em terras brasileiras.

Outro adepto das ideias de Charles Fourier, Louis Leger Vauthier, contratado para a execução de obras públicas pelo governo de Pernambuco, trabalhou na cidade de Recife e lá se empenhou em difundir a doutrina do falanstério. Colaborou com Antônio Pedro Figueiredo (1814 ou 1822-1859), conhecido como Cousin Fusco, e ajudou-o a fundar a revista O Progresso, na qual propagou as ideias socialistas, importadas da Europa(11) Outrossim, em 1 de agosto de 1845, Manuel Gaspar de Siqueira Rêgo começou a editar, na cidade de Niterói, o jornal O Socialista da Província do Rio de Janeiro e, no editorial, explicou que

O vocábulo – Socialista – sob cuja denominação sai hoje à luz a nossa folha, define exuberantemente o objeto principal com que ela é publicada: a conservação e melhoramento do pouco de bom que existe entre nós; a extirpação de abusos e vícios provenientes da ignorância, falsa educação e imitação sem critério: a introdução de novidades no progresso universal: enfim, todo o aperfeiçoamento de que for suscetível a sociedade, provincial, nacional e universal, quer na parte moral, quer na material, em que naturalmente está dividida a vivenda humana no mundo terreno. Assim, pois O Socialista tratará de agronomia prática, economia social, didática jacotista,(12) política preventiva e medicina doméstica, e sobretudo do socialismo, ciência novamente explorada, da qual basta dizer que seu fim é ensinar aos homens a se amarem uns aos outros. […](13)

No número 26, publicado em 5 de outubro de 1845, O Socialista da Província do Rio de Janeiro publicou que “hoje o socialismo tende a associar os povos” e defendeu a organização de uma “liga americana que possa opor-se às exigências à mão exorbitante das potências europeias, que possa estabelecer uma justa reciprocidade”(14).

Adeptos de Fourier, tais como Benoît-Jules Mure, o ex-cônsul da Bélgica no Rio de Janeiro, Edmond Tiberghien, o médico homeopata João Vicente Martins e diversos intelectuais colaboraram em O Socialista da Província do Rio de Janeiro, que circulava três vezes por semana. Em agosto de 1847, sua publicação parou, certamente por falta de recursos financeiros.

Alguns anos depois, em 1855, o general José Ignácio de Abreu e Lima (1794-1869)(15), que participara da guerra de libertação da Grã-Colômbia (Colômbia e Venezuela) ao lado de Simon Bolívar, publicou um livro, intitulado O Socialismo, no qual iniciava dizendo que “o socialismo não he uma sciencia, nem uma doutrina, nem uma religião, nem uma seita, nem um systema, nem um principio, nem uma idéa: he mais do que tudo isto, porque he um designio da Providencia”(16).

Homem culto, Abreu e Lima conhecia as ideias dos pensadores bem como os sistemas socialistas, como o Phalanstère pretendido por Charles Fourier, a sociedade cooperativa de Robert Owen (1771-1858), de Claude Henri de Rouvroye de Saint-Simon (1760-1825), além da filosofia de Auguste Comte (1798-1857), mas nenhum especificamente adotou, muito menos o radicalismo de François Noël Babeuf, chamado de Gracchus Babeuf (1760-1797).

Gracchus Babeuf, durante a Revolução Francesa (1789-1799), organizou a Conjuration des Égaux, a primeira manifestação realmente política do comunismo na Europa(17). Denunciou a propriedade “individuelle” como “cause de l’esclavage” e defendeu “l’égalité parfaite” social, “l’égalité de biens et des travaux”(18). “Détruire cette inégalité et donc tâche d’un legislateus vertueux”, disse Babeuf, ao concluir que também “l’esclavage des nations est tout entière dans l’inégalité, et que, tant qu’elle existera, l’exercice de leurs droits sera à peu près illusoire[…]”(19).

A Conjuration des Égaux foi delatada em 1796, e Babeuf guilhotinado em 8 prairial, ano V (27 de maio de 1797), juntamente de Augustin Darthé(20). A esse movimento foi que Abreu e Lima referiu-se e rejeitou a sua própria identificação com o comunismo, “porque não somente ataca as gerarchias sociais, mas também a família e a propriedade, sem cujas bases seria impossível qualquer sociedade humana”(21). Para Abreu e Lima “a palavra socialista encerra em si uma missão divina, e a ninguém he lícito aviltal-a, prostituindo-a entre a escoria da espécie humana”(22).

Àquele tempo, meados do século XIX, o ideal socialista emigrou da França para o Brasil e influenciou intelectuais, mas a construção de falanstérios, empreendida por Benoît-Jules Mure, Michel-Marie Derrion, Jean Maurice Faivre e outros, não prosperou. Tendências anarquistas e outras socialistas começaram a difundir-se em conjunto de migrantes crescentes, chegando os estrangeiros a representar 3,8%, em uma população de 10 milhões de habitantes, dos quais 15,24% eram escravos, segundo o Censo de 1872(23).

E certa repercussão tiveram as notícias sobre insurreição dos trabalhadores e a instauração da commune implantada em Paris por anarquistas, socialistas e revolucionários de todas as nuances(24) após a derrota da França de Napoleão III (Charles-Louis Napoleon Bonaparte – 1808-1873), em Sedan, pelas tropas do Kanzler da Prússia, Otto von Bismarck (1815-1898), na guerra de 1870-1871.

Essa commune resistiu dois meses, de 18 de março a 28 de maio de 1871, mas foi esmagada pelas tropas de Adolphe Thiers (1797-1877), presidente de França, instalado em Versailles, que desencadeou feroz e sangrenta repressão, com execuções massivas e sumárias de milhares de revolucionários sem julgamento. Calcula-se o número de mortos entre 17.000 e 20.000 communards(25).

Os massacres em massa começaram em 5 de abril, durante a guerra civil, com o fuzilamento dos prisioneiros, em Versailles(26) e continuaram em Paris, até meados ou fins de junho de 1871, lotando os cemitérios de Père-La-Chaise, Montmartre, Montparnasse e outros, ademais da cremação de cadáveres putrefatos, tendo a repressão prosseguido, pelo menos até 1874, com os conselhos de guerra a condenar os communards à pena de morte ou à deportação(27).

O episódio da Comuna de Paris repercutiu na imprensa brasileira. Quando os soldados prussianos, enviados pelo Kanzler Otto von Bismarck para ajudar o esmagamento da Commune, entraram em Paris e ocuparam os Champs-Élysées, entre 1° e 3 de março de 1871, o Diário do Rio de Janeiro comentou que “pensávamos até aqui que o governo alemão, inspirado em sentimentos de moderação e de sensatez, se abstivesse de infligir ao povo francês a grave humilhação de ver desfilar pelos boulevards de Paris o Exército prussiano em marcha ostentosa de triunfo[…]”(28).

No Parlamento brasileiro, o deputado Theodoro Machado Freire Pereira da Silva (1832-1910) advertiu os colegas para o comunismo, que chamou de “cancro do mundo moderno”(29). Assim, referências às ideias de Karl Marx (1818-1883) começaram a aparecer na imprensa, como no jornal O Seis de Março, publicado em Recife, em 25 de março de 1872, sob a direção de Afonso d’Albuquerque Melo(30).

Àquele tempo, ao iniciar a década de 1870, a classe operária ainda não se formara no Brasil, um país que contava com 15,24% de escravos em uma população da ordem de 10 milhões de pessoas, das quais 3,8% eram imigrantes europeus, segundo um censo realizado em 1872(31). A abolição da escravatura era, portanto, o que a configurava como grave questão social. Porém, a estrutura econômica e social do Brasil estava, então, a mudar.

O café, cultivado em São Paulo, suplantava o açúcar e se consolidava como o principal produto de exportação do Brasil, absorvido, sobretudo, pelo mercado dos Estados Unidos, onde o povo o consumia em quantidade cada vez maior, como sucedâneo do chá, desde que foi estabelecido o aumento do imposto de circulação pelo Tea Act de 1773 e se iniciou a guerra revolucionária contra a Inglaterra (1775-1783). E para lá, América do Norte, emigraram, entre 1846 e 1875, cerca de 9 milhões de europeus, que passaram a beber mais e mais café na medida em que avançaram na conquista do oeste.

O café era, no entanto, um produto de elasticidade negativa (menos que 1%) e seus preços oscilavam, i.e., frequentemente se deterioravam e caiam, no mercado internacional. Daí que o fazendeiro, para enfrentar as crises, passou a investir também no comércio e na indústria. Muitos capitais fluíram das plantações de café para o estabelecimento ou associação com as fábricas de tecelagem, metalurgia, bens de consumo e outros manufaturados, que substituíssem as importações e permitissem o Brasil superar as dificuldades financeiras para saldar suas contas externas.

Contudo, segundo o professor Leôncio Martins Rodrigues, a implantação das primeiras fábricas, no Brasil, decorreu, “geralmente de iniciativa de imigrantes, grande parte dos recursos, tanto para sua instalação quanto para a posterior ampliação, veio de empréstimos externos”, mesmo quando a propriedade pertencia às famílias de imigrantes lá radicadas(32).

E, assim, começou a desenvolver-se um parque industrial nas cidades, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, bem como, consequentemente, uma classe operária, formada significativamente por imigrantes europeus. Também artesãos; agricultores, como Francisco Matarazzo, que chegou ao Brasil em 1881; e muitos outros levaram recursos e passaram a investir em oficinas e fábricas de bens de consumo, sobretudo tecidos e alimentos.

O fluxo de europeus – italianos, portugueses, espanhóis, alemães e outros – para o Brasil, com passagens subvencionadas pelo governo, recresceu na segunda metade do século XIX, devido à crescente escassez de força de trabalho, consequência dos escravos em cada vez menor número e mais caros, nas fazendas de café, no Vale da Paraíba e em São Paulo, e nos engenhos de açúcar do nordeste, resultante das dificuldades do tráfico, após o Bill Aberdeen e sua proibição oficial pelo governo brasileiro, em 1850.

Ao fim da década de 1880, os imigrantes respondiam por dois terços da produção de café e constituíam grande ou quiçá a maior parte dos trabalhadores de fábrica, no Rio de Janeiro e, principalmente, em São Paulo, onde os estrangeiros passaram a representar 90% da classe operária(33). Cerca de 735.076 europeus entraram no Brasil, ao longo dos anos 1890(34).

E, com a crescente oferta de força de trabalho, devido, outrossim, à entrada dos escravos libertos no mercado, a reduzir ao mínimo o custo de contratação, os salários, a questão social conformou-se e recrudesceu. A exploração da força de trabalho, inclusive de crianças e mulheres, tanto nas fazendas como nas fábricas, era brutal.

O déficit orçamentário para viver, de uma família operária com quatro membros, no Rio de Janeiro(35), era, no mínimo, de 7$000 (sete mil réis), em 1890, e estava a recrescer mais e mais, aumentando o excedente econômico das indústrias. E as fábricas geralmente funcionavam em galpões fechados, sob a vigilância de guardas armados, que revistavam os trabalhadores quando entravam e saíam do estabelecimento. A repressão era contínua e sistemática.

Os ideais socialistas ainda eram vagos e difusos, com predominância das tendências anarquistas e anarcossindicalistas – oriundas de Errico Malatesta (1853-1932), Mihail Aleksandrovitch Bakunin (1814-1876) e o príncipe Pyotr Alekseevič Kropotkin (1842-1921) –, que entraram no Brasil com imigrantes italianos, portugueses e espanhóis.

Diversos clubes socialistas surgiram de 1878 em diante, não mais inspirados pelo socialismo dos discípulos de Fourier, mas a espelhar, sem muita nitidez, as ideias divulgadas pelo Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Alemanha (Sozialdemokratische Arbeiterpartei Deutschlands, SDAP), fundado, em 1869, por Ferdinand August Bebel (1840-1913), Wilhelm Liebknecht (1826-1900) e Ferdinand Lassalle (1825-1864).

O aparecimento de jornais de militância social, embora de curta duração, consequentemente, aumentou, no Rio de Janeiro, São Paulo e nas mais diversas cidades do Brasil. Em 1875, circulou Gazeta dos Operários; em 1876, A Revolução Social; em 1877, A Barricada e O Proletário; em 1878, O Socialista; em 1881, A Barricada; em 1881-1882, O Carbonário e A Revolução; em 1882-1883, O Nihilista, que se declarava “órgão dos operários do Exército e da Armada”(36). Circulavam livremente, assim como os jornais republicanos, A República, órgão do Partido Republicano, e mais de vinte surgiram, a divulgar a mesma ideologia, entre 1870 e 1872(37).

As rebeliões de escravos nos engenhos de açúcar e nas fazendas de café estavam, então, a recrescer e se intensificaram, na década de 1880, com o encorajamento, muitas vezes, de estudantes, advogados, parcela da intelectualidade e das classes médias. Um jornalista, em 1882, escreveu que a abolição da escravatura devia ser feita imediatamente por decreto e acrescentou que restava saber “se esse Decreto será um acto do poder publico, sábio e fecundo; ou se será um Decreto do destino – revolucionário e violento”(38).

O temor de uma sublevação em massa dos escravos cada vez mais aumentava(39). Os escravos insurgiam-se, conquistavam a liberdade com as próprias mãos e os próprios pés. Somente no município de Campos (Estado do Rio de Janeiro), entre 11 de março e 5 de abril de 1888, cerca de 8.727 escravos rebelaram-se e fugiram(40). Muitas fazendas ficaram quase desertas.

Maltas de escravos africanos e fugitivos espalhavam-se pelas cidades, sem que a polícia nada pudesse fazer, ou agrupavam-se na Mata Atlântica, nos arredores da cidade do Rio de Janeiro. Outros, no interior da província, em Campos dos Goytacazes e adjacências, e no Nordeste, incendiavam canaviais e, em São Paulo, destruíam plantações de café e formavam quilombos no Vale da Ribeira, Cubatão e Jabaquara, em Santos.

Os confrontos com os senhores dos cafezais tornaram-se frequentes e cada vez mais graves nas regiões de Belém do Descalvado, Pirassununga, Rio Claro e Campinas(41). As punições e os maus-tratos, que os escravos sofriam, eram terríveis, insuportáveis, a tal ponto que, algumas vezes, revoltados, assassinaram fazendeiros e senhores de engenho.

No Engenho de Itatigui, os estrangularam, em 1878, Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, filho de marechal de campo Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, Barão de Cajahyba (1801-1870), senhor do Engenho de Cajahyba, em São Francisco do Conde, Recôncavo da Bahia(42). Os quilombos expandiam-se no Nordeste e na região centro-sul do país. A polícia não tinha meios de conter o crescente do alvoroto.

E os oficiais do Exército, através do Clube Militar, manifestaram-se recusando-se a perseguir os escravos fugitivos sob a alegação de que não eram “capitães do mato”. A abolição da escravatura tornara-se inevitável.

Com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel, como regente, reconheceu uma situação irreversível. Os negros ganharam a liberdade sem que os senhores recebessem indenização, o que levou grande parte dos fazendeiros, sobretudo em São Paulo, a adensar o movimento republicano. Os escravos eram para eles um patrimônio, uma propriedade e, como propriedade, era sagrada. Níccoló Machiavelli, em Il Principe, afirmou que “o homem esquece mais rapidamente a morte do pai que a perda do patrimônio”(43).

E a Princesa Isabel, como regente, alienou-lhes o patrimônio. Assim pensavam e ressentiam. A escravatura, porém, fora uma necessidade da economia agrícola, um modo de produção, que historicamente se esgotara, estava superado, anacrônico, sob o impacto do capitalismo em nova fase de evolução e expansão mundial. A força de trabalho devia tornar-se mercadoria. Milhares de escravos, que se haviam rebelado e fugido, já se espalhavam pelas cidades.

Afigurava uma sedição. Mas, com a abolição da escravatura, lançando à liberdade mais de 750.000 homens, i.e., quase um milhão de homens, no valor de 2 (dois) contos de réis cada um, desarticulou o modo de produção e a crise econômica e social ainda mais se agravou. À maior parte dos senhores de terra, sobretudo do Rio de Janeiro e do Nordeste, faltava o meio circulante para alugar a força de trabalho, de que necessitavam nas fazendas de café e nos engenhos de açúcar.

O trabalho com pagamento de grande número de ex-escravos, libertados para um novo tipo de escravidão, como assalariados, demandava maior oferta de meio circulante. E não havia. O desconforto e a insatisfação, destarte, aumentaram, a generalizar-se entre os membros da nobreza e da burguesia agrária, em todas as regiões do país.

No Recôncavo da Bahia, a Baronesa de Alenquer, proprietária de vários engenhos de açúcar em Santo Amaro, São Francisco do Conde e Cachoeira, observou, um ano após a abolição da escravatura, que “quanto ao nosso governo, e a miséria que estamos passando, é uma calamidade! Deus nos acuda! Só vejo todos se queixarem, há uma falta de dinheiro nunca vista”(44). E na mesma carta aduziu: “Desde que me entendo até hoje, nunca ouvi dizer que no Brasil se morresse de fome e, há um ano para cá, só é o que se ouve dizer. Que desgraça!”(45).

O Visconde de Ouro Preto (1836-1912), Afonso Celso de Assis Figueiredo, do Partido Liberal, ao assumir a presidência Conselho de Ministros do Império, em 7 de junho de 1889, e acumular, em seguida, a função de ministro da Fazenda, tentou superar a crise com a mudança da política econômica, até então baseada nos princípios ortodoxos. Logo, tomou uma série de medidas a fim de atender à necessidade de circulação monetária do capitalismo emergente, impulsionado pela cafeicultura de São Paulo, já em grande parte com trabalho assalariado, quanto pelo crescimento do parque industrial do Rio de Janeiro.

Verteu no mercado o triplo do capital em moeda metálica, elevou o câmbio ao par e facultou às empresas, com capital de 5.000 e 10.000 contos de réis, a emissão garantida. O Visconde de Ouro Preto baixou os juros, ao mesmo tempo em que aumentou as tarifas de importação, na base de 50% e 60%, para a proteção das indústrias(46), e não aceitou o tratado de livre comércio, proposto pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, James Gillespie Blaine.

A mudança da política econômica rapidamente produziu efeitos. A mesma Baronesa de Alenquer, em outra carta, datada de 14 de agosto de 1889, comentou que “o novo ministro [Visconde de Ouro Preto] tem já feito em benefício da lavoura […] e o banco [está] dando dinheiro a 6% ao ano e com o prazo de até 15 anos, conforme as quantias”(47).

Em 1888 ou 1891, o joalheiro italiano Arturo Campagnoli (1874-1944) desembarcou em São Paulo, e com os recursos que levou adquiriu alguns alqueires de terra em Guararema, região situada entre o Alto Tietê e o Vale do Paraíba. Lá, fundou uma comuna ácrata com a participação de outros companheiros italianos, bem como espanhóis, franceses, russos e até brasileiros(48).

Dom Pedro II, naquele ano, 1888, estava em Milão (Itália), e era um imperador que nunca vestiu uma farda. Intelectual e democrata, “inimigo pessoal do luxo”, e, como ressaltou o embaixador Manuel de Oliveira Lima (1861-1928), era “ainda menos disposto a encorajar os apetites de fortuna, que sentia serem latentes em torno de si”; preferia a companhia de escritores, como Victor Hugo e outros, “à dos arrivistas da riqueza e à das mediocridades sem requintes intelectuais”(49). Durante seu reinado, as liberdades nunca foram suprimidas – “não se podia sentir-lhe a falta”(50).

E, receptivo a ideias avançadas de organização social, atendeu, então, a uma carta do médico-veterinário italiano Giovanni Rossi (1856-1943). Ao chegar ao Brasil, concedeu-lhe 300 alqueires de terra para que concretizasse o projeto de uma comunità anarchica sperimentale, uma espécie de socialismo agrário, libertário, pacífico e sem propriedade privada, em que tudo pertenceria a todos: homens, mulheres e filhos, uma comunidade poliândrica, em que até o amor seria livre(51).

Esse experimento seria na comarca de Palmeira, já habitada pelos russos-alemães do Volga, província do Paraná(52), vizinha de Santa Catarina, onde outrora os médicos franceses Benoît-Jules Mure e Jean Maurice Faivre tentaram construir colônias inspiradas por Charles Fourier. Mas as terras doadas pelo imperador Dom Pedro II, em 1888, somente começaram a ser ocupadas por Giovanni Rossi e os imigrantes italianos, em 1890, pouco depois do coup d’État que instaurou a República.

A Colônia Cecília, como se denominou a comunità anarchica, chegou a ter 250 habitantes, porém não durou mais do que quatro anos. Desintegrou-se, gradativamente, devido a vários fatores, inclusive porque Giovanni Rossi havia recusado, como anarquista, a receber o título de propriedade e a legalizá-la(53).

Daí que, após a proclamação da República, Américo Pereira Leite Lobo (1841-1903), nomeado presidente da província do Paraná, não reconheceu a doação, ameaçou prender Giovanni Rossi e aos demais habitantes da Colônia Cecília, ademais de exigir o pagamento das terras e de impostos. A Colônia Cecília, criticada como ilusão utópica até pelo anarquista italiano Errico Malatesta e pelo socialista Filippo Turati (1857-1932),(54) sucumbiu em 1894.

Clique aqui para ler o segundo texto da série “Sobre a história do Socialismo no Brasil”.

NOTAS

1. Roberto C. Simonsen, 1939, pp. 9-10; J.M. Pereira da Silva J. M., Garnier, 1864, p. 246.

2. Heitor Ferreira Lima, 176, pp. 40-47, 64-66; <http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=978&sid=107&gt;; <http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/11/30/por-mares-sempre-navegados/>

3. <http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=979&sid=107&gt;.

4. G. D. H. Cole, 1957, p. 12

5. Lilian Fávero Remuszka, 1910, pp. 54-56.

6. Laurent Vidal, 2014, pp. 48-49, 82.

7. Isadora Tavares Maleval, dez./2011, pp. 150-177.

8. Michel Marie Derrion era, em Lyon, fabricante de estofos de seda e adepto das ideias de Saint-Simon, depois aderiu às de Charles Fourier e se juntou a Benoît Mure na fundação da colônia societária de Saí.

9. Ivone Gallo, jan.-jul./1990.

10. Jean Maurice Faivre assistiu à coroação de D. Pedro II, em 1849, ao casamento e acompanhou o nascimento de Dom Afonso Pedro (1845-1847), o primogênito do imperador, que morreu de epilepsia aos dois anos, e, na condição de médico, se tornou íntimo da família imperial. <http://www.webartigos.com/artigos/o-cooperativismo-em-suas-raizes-a-formacao-da-colonia-agricola-tereza-cristina-no-parana-do-seculo-xix/69459/>.

11. Era chamado de Cousin Fusco por ser mulato e haver traduzido Cours d’Histoire de la philosophie moderne, obra de Victor Cousin (1792-1867), educador francês, defensor do ecletismo filosófico.

12. Refere-se a Jean-Joseph Jacotot (1770-1840), professor de latim e grego e educador francês, que formulou o método pedagógico de emancipação intelectual (émanciper les intelligences), com base no postulado de que todas as inteligências são iguais (l’égalité des intelligences) e que toda criança poderia instruir-se por si só, sem o ensino de um mestre. Em 1823 publicou Enseignement universel. Esse método também fora adotado no falanstério de Saí por Benoît Mure. Laurent Vidal, 2014, p. 72.

13. O Socialista da Província do Rio de Janeiro, 1o de agosto de 1845 apud Ivone Gallo, 8 a 12 de setembro de 2008, CD-Rom.

14. O Socialista da Província do Rio de Janeiro, 5 de outubro de 1845. Ibidem.

15. O general José Ignácio de Abreu e Lima era filho do padre José Inácio Ribeiro de Abreu Lima, que largara a batina para se casar e, conhecido como Padre Roma, participou da sublevação de Pernambuco, em 1817, razão pela qual foi preso e, acusado de crime de lesa-majestade, condenado à morte por fuzilamento.

16. General José Ignácio de Abreu e Lima. 1979, p. 29. A transcrição mantém a ortografia original.

17. Análise da doutrina de Babeuf, dos manifestos e dos projetos de decretos vide: Ian H. Birchall., 2016, pp. 191-208; Rosa Luxemburg, 1973, Bd. 3, pp.178–186.

18. Philipe Buonarroti, 2015, pp. 80-83.

19. Ibidem, p. 81.

20. O babouvisme, tendência socialista revolucionária, inspirada por Gracchus Babeuf, reemergiu, em 1828, com a publicação, por Philippe Buonarroti (1761-1837), do Conspiration pour l’Égalité, dite de Babeuf, cujos métodos e ideais igualitários radicais muito influenciaram Louis-Auguste Blanqui (1805-1881), um dos líderes da revolução de 1848, na França, membro da Charbonnerie, sociedade secreta francesa à qual se vinculavam os Carbonari, da Itália. O Manifeste des Égaux foi escrito por Gracchus Barbeuf e Syvain Maréchal (1759-1803), o principal teórico da conjura contra o Directoire, o governo que se formou após a Revolução Francesa de 1789 e funcionou entre 26 outubro de 1795 (4 brumairean IV) a 9 novembro de 1799 (18 brumairean VIII), quando Napoleão Bonaparte (1769-1821) assumiu o poder com um golpe de Estado.

21. General José Ignácio de Abreu e Lima, 1979, p. 63.

22. Ibidem, p. 63. Mantida a ortografia original.

23. <http://www.brasil.gov.br/governo/2013/01/censo-de-1872-e-disponibilizado-ao-publico&gt;.

24. P. Luquet, s/d, pp. 30-32.

25. Prosper-Olivier, Lissagaray, 1995, pp. 282-289.

26. La Commune de Paris (Actes et Documents – Episodes de la semaine sanglante),1921, pp. 38-39.

27. Francisco Foot Hardman, 2002, pp. 327-329.

28. <http://outubrorevista.com.br/wp-content/uploads/2015/02/Revista-Outubro-Edic%CC%A7a%CC%83o-6-Artigo-09.pdf>; <https://www.scribd.com/document/251483757/A-Comuna-de-Paris-no-Brasil>.

29. Leandro Konder, 2010, pp. 118-119.

30. Vamireh Chacon, 1981, p. 168.

31. <http://www.brasil.gov.br/governo/2013/01/censo-de-1872-e-disponibilizado-ao-publico&gt;.

32. <http://static.scielo.org/scielobooks/5y76v/pdf/rodrigues-9788599662991.pdf>.

33. Sheldon Leslie Maran, 1979, pp. 15-16.

34. <http://www.revistas.usp.br/prolam/article/view/102283>.

35. <http://www.uff.br/geographia/ojs/index.php/geographia/article/viewArticle/54&gt;.

36. <https://pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=209:a-imprensa-operaria-no-brasil-palestra-de-astrojildo-pereira&catid=1:historia-do-pcb&gt;.

37. Nelson Werneck Sodré, 1966, pp. 243-246.

38. <http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/221753/000560432.pdf?sequence=3>.

39. Maria Helena Pereira Toledo Machado, 2010, pp. 80-81.

40. Celso Peçanha, 1969, p. 32.

41. Maria Helena Pereira Toledo Machado, 2010, p. 85.

42. Oswaldo Augusto Teixeira, 2011, pp. 239-240; Luiz Viana Filho, 1976, pp. 112-113.

43. “…gli uomini dimenticano piú presto la morte del padre che la perdita del patrimonio.” Niccoló Machiavelli, 1986, p. 130.

44. Carta de Francisca de Assis de Vianna Moniz Bandeira, Baronesa de Alenquer, ao seu filho Manuel Ignácio, Subaé, 2/5/1889. Arquivo do Autor.

45. Ibidem.

46. Pedro Calmon, 1961, p. 1816.

47. Carta de Francisca de Assis de Vianna Moniz Bandeira, Baronesa de Alenquer, ao seu filho Manuel Ignácio, Subaé, 14/8/1889. Arquivo do Autor.

48. Consta que a colônia teria existido até 1930. <http://bfscollezionidigitali.org/index.php/Detail/Object/Show/object_id/702&gt;.

49. Manuel de Oliveira Lima, 1944, p. 257.

50. Ibidem, p. 258.

51. Afonso Schmidt, 2015, pp. 14-15, 35-37; <http://www.sarapegbe.net/articolo.php?quale=112&tabella=articoli>.

52. Giovani Rossi havia fundado na Itália em Stagno Lombardo (Cremona) uma colônia libertária – Associazione Agricola Cooperativa di Cittadella – que fracassou após três anos de experiência, entre 1887 e 1890, antes de ir para o Brasil.

53. Afonso Schmidt, 2015, pp. 150-151.

54. <http://www.revistamorus.com.br/index.php/morus/article/viewFile/251/226>.

Nazi-fascismo: O fenômeno dam”mutazione dello stato”, 2016.

Trecho retirado do livro “A desordem mundial”, publicado em 2016, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais, e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira.


CAPÍTULO 1

O nazifascismo não constituiu um fenômeno particular da Itália e da Alemanha, quando ameaçou e se estendeu, sob diferentes modalidades, a outros países da Europa, como Portugal e Espanha, entre os anos 1920 e a deflagração da Segunda Guerra Mundial (1939–1945).1

O que ocorreu nesses países foi uma espécie do que Niccolò Machiavelli (1469–1527) referiu como mutazione dello stato (mutatio rerum, commutatio rei publicae), quando a res publica, um Estado, sob o nome da liberdade, transmuda-se em Estado tirânico, com violência ou não.2 O fenômeno político denominado nazifascismo no século XX podia e pode ocorrer, nos Estados modernos, onde e quando a oligarquia e o capital financeiro não mais conseguem manter o equilíbrio da sociedade pelos meios normais de repressão, revestidos das formas clássicas da legalidade democrática, e assumir características e cores diferentes, conforme as condições específicas de tempo e de lugar.

Porém sua essência permanece como um tipo peculiar de regime, que se ergue por cima da sociedade, alicerçado em sistema de atos de força, com a atrofia das liberdades civis e a institucionalização da contrarrevolução, tanto no plano doméstico quanto no plano internacional, mediante perpétua guerra, visando a implantar e/ou a manter uma ordem mundial subordinada aos seus princípios e interesses nacionais e favorável à sua segurança assim como à prosperidade nacional.

Durante a Grande Depressão, que se seguiu ao colapso da bolsa de Wall Street, em outubro de 1929, a Black Friday, alguns grupos financeiros e industriais — cerca de 24 das mais ricas e poderosas famílias dos Estados Unidos, entre as quais Morgan, Robert Sterling Clark, DuPont, Rockefeller, Mellon, J. Howard Pew e Joseph Newton Pew, da companhia Sun Oil, Remington, Anaconda, Bethlehem, Goodyear, Bird’s Eye, Maxwell House, Heinz Schol e Prescott Bush — conspiraram. Planejaram financiar e armar veteranos do Exército, sob o manto da American Legion, com a missão de marcharem sobre a Casa Branca, prender o presidente Franklin D. Roosevelt (1933–1945) e acabar com as políticas do New Deal.3 O objetivo consistia na implantação de uma ditadura fascista, inspirada no modelo da Itália e no que Hitler começava a construir na Alemanha.4

O Wall Street Plot, porém, abortou. O major-general (r) Smedley Darlington Butler (1881–1940), que os big businessmen tentaram cooptar, denunciou a conspiração, ao repórter Paul French, do Philadelphia Record e do New York Evening Post. E, em 20 de março de 1934, a House of Representatives adotou a Resolution 198, 73d Cong., proposta pelos deputados do Partido Democrata, John W. McCormack (Massachusetts) e Samuel Dickstein (Nova York), criando o Special Committee on Un-American Activities, Investigation of Nazi Propaganda Activities and Investigation of Certain Other Propaganda Activities United States Congress (HUAC).

Ao testemunhar perante o McCormack-Dickstein Committee, o major-general Smedley D. Butler, duas vezes condecorado com Medals of Honor por distintos atos de excepcional heroísmo, contou que o golpe fascista teria o suporte de um exército privado de 500 mil ex-soldados e outras pessoas, e fora delineado pelos empresários Gerard C. MacGuire (1897–1935), advogado da companhia de corretagem Grayson M-P. Murphy & Co., e William Doyle, antigo comandante da American Legion, uma das mais poderosas organizações fascistas dos Estados Unidos.5

Ofereceram-lhe, de início, US$ 100.000 para comandar o levante contra o presidente Roosevelt.6 Ele recusou. O tenente-coronel James E. Van Zandt, comandante da organização assistencial Veteran of Foreign Wars (VFW), confirmou que se recusou a participar do complô, assim como o capitão Samuel Glazier, do CCC Camp em Elkridge, Maryland. Este último contou ao McCormack-Dickstein Committee, sob juramento, que Jackson Martindell, conselheiro financeiro de Wall Street e ligado aos bancos de investimentos, convidou-o para treinar 500.000 soldados civis.7

Os documentos do inquérito realizado pelo McCormack-Dickstein Committee foram desclassificados,8 mas com vários trechos extensivamente apagados e o testemunho do general (r) Smedley D. Butler, em virtude de implicar no complô vários diretores de corporações financeiras e executivos de importantes grupos industriais, tais como, inter alia, Guaranty Trust, Grayson Murphy, JPMorgan, Irénée du Pont, da DuPont Company, e Lammot du Pont, proprietário da Remington Arms Co., fabricante de armamentos, que estava a investir pesadamente na Itália fascista e havia criado a Black Legion, espécie de Klux Klux Klan, e a American Liberty League, organizada em 1934, em oposição ao governo do presidente Franklin D. Roosevelt (1933–1945) e à política do New Deal.9

Houve um cover up a fim de resguardar a imagem dos Estados Unidos como democracia, o mito da “excepcionalidade”, o país onde nunca houve golpe de Estado.10 Ninguém foi processado. O McCormack-Dickstein Committee excluiu do relatório muitos dos nomes mais embaraçosos, apontados por Gerald MacGuire e confirmados pelo general Smedley D. Butler, entre os quais, posteriormente revelados, Alfred E. Smith (1873–1944), candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos em 1928; o general Hugh S. Johnson (1882–1942), chefe do National Recovery Administration; e o general Douglas MacArthur (1880–1964), chefe do Estado-Maior do Exército e provável comandante do assalto à Casa Branca,11 bem como vários outros militares, que estavam inteirados do complô.12 O presidente Roosevelt também não ordenou a prisão de nenhum businessman, como os citados Irénée du Pont, Lammot du Pont II, ou William Knudsen, presidente da General Motors, com receio de provocar novo crash em Wall Street e o engravecimento da depressão em que os Estados Unidos se atascavam desde 1929.1

A imprensa corporativa dos Estados Unidos igualmente não deu maior importância ao episódio. O jornalista George Seldes assinalou que, “of all the hypocrisies of American journalism the greatest is the claim of a free press”.14 Era um sistema de faturar lucros, que atacava os trabalhadores em nome da Free Enterprise. O historiador americano Henry B. Adams já havia observado, em meio à depressão causada pelo crash financeiro de 1893, nos Estados Unidos, que

The press is the hired agent of a monied system, and set up for no other purpose than to tell lies where its interests are involved. One can trust nobody and nothing. As far as my observation goes, society is today more rotten than at any time within my personal knowledge. The whole thing is one vast structure of debt and fraud.15

Os documentos do McCormack-Dickstein Committee, depositados no National Archive dos Estados Unidos, permaneceram secretos e somente foram totalmente desclassificados em 2001, quando dois velhos judeus-alemães, Kurt Julius Goldstein (1914–2007), então com 87 anos, e Peter Gingold (1916–2006), sobreviventes do Holocausto, iniciaram, nos Estados Unidos, um processo contra a família Bush, demandando US$ 40 bilhões pelo trabalho escravo que tiveram de realizar para as empresas do grupo Thyssen no campo de concentração de Auschwitz.16 A juíza Rosemary Mayers Collyer rejeitou o processo, com a especiosa alegação de que não podia dar-lhe continuidade, sob o princípio da “state sovereignty”, i.e., porque George W. Bush, neto de Prescott Bush, o sócio de Fritz Thyssen, era presidente dos Estados Unidos e, como tal, tinha imunidade. Depois, ela ganhou seu prêmio. O presidente George W. Bush nomeou-a juíza da Corte do Distrito de Columbia e da United States Foreign Intelligence Surveillance Court.

Não constituía novidade que a família Bush estivera envolvida com a lavagem e a remessa de dinheiro para os nazistas na Alemanha. Em 31 de julho de 1941, o New York Herald-Tribune17 havia noticiado que a Union Banking Corporation (UBC), da qual Prescott Bush era diretor, nos Estados Unidos, enviara, em 1933, US$ 3 milhões para o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP), chefiado por Adolf Hitler.18 Sidney Warburg, em Hitler’s Secret Backers, e Antony C. Sutton, em Wall Street and the Rise of Hitler, calcularam que a UBC, até 1933, remeteu para “nazi bigwigs”, na Alemanha, o total de US$ 32.000.000.19 E o diário britânico The Guardian, com a desclassificação dos documentos pelo National Archive, confirmou o envolvimento financeiro de Prescott Bush com os arquitetos do nazismo, na condição de diretor e acionista da UBC, que vinha a ser representante dos interesses de Fritz Thyssen em Nova York.20

De fato, Prescott Bush (1895–1972), pai do presidente Herbert Walker Bush (1989–1993) e avô do presidente George W. Bush, fora diretor da Union Banking Corp. (UBC), filial do Bank voor Handel en Scheepvaardt N.V., vinculada ao conglomerado United Steel Works (Vereinigte Stahlwerke [United Steel Works Corporation ou German Steel Trust]), e tanto o banco quanto a indústria de aço integravam o conglomerado de Fritz Thyssen (1873–1951) e de seu irmão, Heinrich Thyssen-Bornemisza (1875–1947), de acordo com o informe do Office of Alien Property Custodian, datado de 5 de outubro de 1942.21

Ademais, Prescott Bush participava da Consolidated Silesian Steel Company (CSSC), que explorava as reservas minerais da Silésia, na fronteira da Alemanha com a Polônia, e se valeu do trabalho escravo, em campos de concentração, inclusive Auschwitz. Entretanto, os documentos abertos ao público não deixam claro se Prescott Bush e a UBC ainda estavam ligados à CSSC em 1942, quando os acervos de Thyssen, nos Estados Unidos, foram capturados, após a declaração de guerra entre os dois países, em 11 de dezembro de 1941.22

Segundo Webster Griffin Tarpley e Anton Chaitkin, autores da biografia do ex-presidente George H. W. Bush, seu pai, Prescott Bush, como diretor das empresas da família, desempenhou papel central no financiamento e armamento de Hitler.23 Ele recebeu US$ 1,5 milhão por sua participação na UBC.24 Esse capital permitiu que seu filho, George H. W. Bush, montasse as firmas Bush-Overbey Oil Development Co. e a Zapata Petroleum, depois denominada Harbinger Group Inc., congregando várias companhias para exploração de petróleo no Golfo do México e offshore na ilha de Cuba. De acordo com um memorandum interno da CIA, datado de 29 de novembro de 1975, George H. W. Bush fundou a Zapata Petroleum com a colaboração de Thomas J. Devine, que abandonou seu cargo na alta direção da CIA para dedicar-se aos negócios privados, pois como oil wild-catting possuía vasto conhecimento da localização das grandes reservas de petróleo, em várias regiões.25

A simpatia pelo nazifascismo não esmoreceu, após o fracasso do complô contra a administração do presidente Franklin D. Roosevelt. Em Wall Street, sobretudo desde o início da década de 1930, o comunismo era temido, mas o fascismo, admirado como avant-garde.26 Por longo tempo, diversos banqueiros, tanto católicos como evangélicos, e até mesmo judeus, negociaram com o regime nazista e lhe concederam financiamento de cerca de US$ 7 bilhões, naquela década.27 Os banqueiros judeus justificaram, dizendo que o antissemitismo lhes parecia certo, sob o regime nazista, porque era contra os pobres, refugiados e trabalhadores.28 E, em 1936, dos 919 membros da diretoria do Stock Exchange 148 eram judeus (de acordo com o inventário de 1936 publicado pela revista Fortune).29 Com razão, o professor Gaetano Salvermini (1873–1957), da Universidade de Harvard, declarou ao repórter Joseph Philip crer que “quase 100% do American Big Business” simpatizavam com a filosofia por trás do totalitarismo de Hitler e Mussolini por seus métodos de coerção do trabalho.30

Os banqueiros Winthrop Aldrich, presidente do Chase National Bank, Nova York, e Henry Mann, do National City Bank, estiveram na Alemanha, onde se entrevistaram com Hitler, em agosto e setembro de 1933, e manifestaram ao embaixador dos Estados Unidos em Berlim (1933–1938), William E. Dodd (1869–1940), disposição de “work with him”,31 a despeito de suas ideias e seu antissemitismo. Segundo o historiador Arthur M. Schlesinger Jr., ex-assessor do presidente John F. Kennedy (1961–1963), o fascismo nos Estados Unidos não foi meramente uma enfermidade da classe média baixa.32 Ainda permaneceu enevoado e confuso, o sonho acalentado pelos big businessmen de Wall Street.33

Em 1934, William Randolph Hearst (1863–1951),34 um tycon da mídia, proprietário do San Francisco Examiner, The New York Journal e muitos outros diários (cerca de 28), revistas e cadeia de rádios, visitou Berlim, entrevistou-se com Hitler e, ao voltar aos Estados Unidos, escreveu que ele, o Führer, era “certainly an extraordinary man” e empenhou-se em fazer propaganda do regime nazista, como “great policy, the great achievement”, por haver salvado a Alemanha do comunismo.35

O embaixador dos Estados Unidos em Berlim, William E. Dodd, escreveu em seu diário, com data de 28 de novembro de 1935, que o empresário Thomas J. Watson (1874–1956), presidente e CEO da International Business Machines (IBM), cujo salário era de US$ 1.000 por dia, visitou-o e disse-lhe que “if the big business insists on defeating the democracy in the United States there will be a revolution which may lose business men all they have”.36

Entretanto, também a IBM, conhecida na Alemanha como Deutsche Hollerith Maschinen Gesellschaft, ou Dehomag, cooperava com o regime de Hitler. Ademais de outros equipamentos, forneceu-lhe, através de suas subsidiárias, máquinas que possibilitaram a matança de milhões de judeus, em Treblinka e em vários outros campos de concentração.37 Thomas J. Watson, o empresário que visitara o embaixador William E. Dodd, recebeu a Großkreuz des Deutschen Adlerordens [Grande Cruz da Ordem da Águia Alemã], porém a devolveu em 1940.38

Em 30 de dezembro de 1935, o major Truman Smith (1913–2007), attaché militar dos Estados Unidos em Berlim (1935–1939), informou ao embaixador William E. Dodd que a Alemanha era “one military camp”.39 Em fins de 1937, a Luftwaffe, a força aérea, possuía de 175 a 225 esquadrões de aparelhos de guerra, e Hitler, além de manter simultaneamente imenso exército, construía enorme frota de submarinos, prosseguia com o programa de desenvolvimento de foguetes e instalava numerosas indústrias têxteis e de gasolina sintética, de modo a lançar toda a sorte de projéteis.40

Em 1935, Douglas Miller, attaché commercial em exercício, previra também que “in two years Germany will be manufacturing oil and gas enough out of soft coal for a long war, the Standard Oil Company of New York furnishing millions of dollars to help”.41 Com efeito, desde 1933, a Standard Oil, da família Rockefeller, em colaboração com a I. G. Farben, esteve a gerar petróleo e produzir gasolina e borracha sintética para a Alemanha nazista, a partir de carvão betuminoso, hulha, mediante o processo de hidrogenação, o que possibilitou a Adolf Hitler deflagrar a Segunda Guerra Mundial, com a invasão da Polônia, em 1939.42

O quartel-geral da Standard Oil, na Suíça, funcionava independentemente por se tratar de um país neutro, e em 1942 a empresa pediu autorização para continuar a vender petróleo à Alemanha, desta vez, aquele que produzia nos campos que explorava na Romênia.43 E, no mesmo ano, sua subsidiária, a West India Oil Company, formada para refinar petróleo em Cuba e no Caribe, embarcou óleo para a Alemanha através da Cia. Argentina Comercial de Pesquería, de Buenos Aires.

Em 29 de agosto de 1936, o embaixador William E. Dodd, ao comentar que Hitler era “absolute master” de 60 milhões de pessoas na Alemanha e Benito Mussolini, “master” de 42 milhões na Itália, a levarem outros países no caminho da ditadura, anotou que nos Estados Unidos os “capitalists are pressing in the same Fascist direction, supported by capitalists in England”.44

Em carta ao presidente Roosevelt, o embaixador Dodd relatou:

At the present moment more than a hundred American corporations have subsidiaries here or cooperative understandings. The DuPonts have three allies in Germany that are aiding in the armament business. Their chief ally is the I. G. Farben Company, a part of the Government which gives 200,000 marks a year to one propaganda organization operating on American opinion. Standard Oil Company (New Jersey sub-company) sent US$ 2,000,000 here in December 1933 and has made US$ 500,000 a year helping Germans make Ersatz gas for war purposes; but Standard Oil cannot take any of its earnings out of the country except in goods. They do little of this, report their earnings at home, but do not explain the facts. The International Harvester Company president told me their business here, in Germany, rose 33% a year (arms manufacture, I believe), but they could take nothing out. Even our airplanes people have secret arrangement with Krupps. General Motor Company and Ford do enormous businesses [sic] here through their subsidiaries and take no profits out. I mention these facts because they complicate things and add to war dangers.45

Posteriormente, declarou à imprensa:

A clique of U.S. industrialists is hell-bent to bring a fascist state to supplant our democratic government and is working closely with the fascist regime in Germany and Italy. I have had plenty of opportunity in my post in Berlin to witness how close some of our American ruling families are to the Nazi regime. Certain American industrialists had a great deal to do with bringing fascist regimes into being in both Germany and Italy. They extended aid to help Fascism occupy the seat of power, and they are helping to keep it there.46

Grandes corporações dos Estados Unidos não somente se opuseram ao governo do presidente Roosevelt como ainda colaboraram, decisivamente, para a ascensão e consolidação da tirania de Adolf Hitler, da mesma forma que para o advento da tirania de Benito Mussolini. Diversas casas bancárias de Wall Street, entre as quais o Bank of America (Forbes), Dillon, Read & Co. Harris Bank, Morgan Bank, Guaranty Trust, e Chase Manhattan Bank, investiram na Alemanha e lucraram com o regime nazista, assim como as corporações Standard Oil (New Jersey), Du Pont, Dow Chemical, General Motors (GM), General Electric (A.E.G.), Vacuum Oil Company e Ford Motors Company.

Henry Ford (1863–1947), autor do livro The International Jew: The World’s Problem (1920), começara, desde os anos 1920, a financiar o partido nazista, o NSDAP (National-Sozialist Deutschland Arbeit Partei), bem como enviar dinheiro pessoal — cerca de 10.000 ou 20.000 marcos (Reichmarks) — para Adolf Hitler, e o fez como presente de aniversário, todos os anos, no dia 20 de abril, até 1944, através de bancos da Suíça ou da Suécia.47 Os dois identificavam-se no ódio aos judeus. E, ao completar 75 anos, em 30 de julho de 1938, Henry Ford foi condecorado, em Cleveland, com a Großkreuz des Deutschen Adlerordens pelo embaixador da Alemanha nos Estados Unidos, Karl Kapp, assim como o haviam sido Benito Mussolini e Francisco Franco, ditador da Espanha.

Os investimentos das corporações dos Estados Unidos na Alemanha, durante o regime nazista, avultavam cerca de US$ 475 milhões, por ocasião do bombardeio de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941.48 O presidente Roosevelt, seis dias depois, reativou o Trading With the Enemies Act (TWEA), de 6 de outubro de 1917, e Washington, em 1942, determinou o fechamento e a captura dos acervos do Union Banking Corp., filial do Bank voor Handel en Scheepvaardt N.V., vinculada ao conglomerado United Steel Works (Vereinigte Stahlwerke [United Steel Works Corporation]).

Porém, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), muitas corporações dos Estados Unidos, entre as quais a Mack Truck, Phillips Petroleum, Standard Oil of California e Firestone Tires, prosseguiram clandestinamente os negócios com o regime nazista, através de subsidiárias na Suíça e na Suécia. Outras, ainda, tais como a Ford, com 52% das ações da Ford-Werke, em Colônia, e a General Motors, proprietária da Adam Opel A.G, fabricante de caminhões, minas terrestres, detonadores de torpedos e foguetes balísticos, mantiveram suas filiais com instalações em Rüsselsheim (Hesse) e Brandenburg.49 Em 1944, a General Motors, na Suécia, ainda importava produtos da Alemanha.50 Hitler não havia confiscado nenhuma das subsidiárias das corporações americanas — Ford e GM — porém colocou, sistematicamente, todas sob a jurisdição do Reich, custodiadas como propriedades do inimigo.

Entrementes, o National City Bank e o Chase National Bank continuaram a manter conexões com o Bank für Internationalen Zahlungsausgleich (BIZ) ou Banco de Pagamentos Internacionais, que prosseguiu com suas operações em Basel, sob a lei de neutralidade, da Suíça, e intermediou negócios com os países do Eixo. Esse banco, presidido, entre 1940 e 1946, por Thomas H. McKittrick (1889–1970), cidadão americano, era, porém, controlado por próceres do regime nazista, entre os quais Walter Funk, ministro da Economia (1938–1945) e Emil Johann Rudolf Puhl, diretor e vice-presidente do Reichsbank da Alemanha. O BIZ aceitou, em 1944, a transferência do ouro que os nazistas saquearam dos judeus, de diversos países, exterminados nas câmaras de gás de Auschwitz, Majdanek, Treblinka, Belzec, Chelmno e Sobibor, por meio do tóxico Zyklon B, composto de ácido cianídrico, cloro e nitrogênio, fornecido pelo poderoso conglomerado da indústria química I. G. Farben.51 O ouro era fundido e marcado com data anterior à Segunda Guerra Mundial, a fim de disfarçar sua origem e ser usado pelos chefes nazistas, ante a perspectiva de derrota na guerra.

NOTAS

1.Luiz Alberto Moniz Bandeira, 1969, p. 7.

2.“[…] Mutazione che si fanno dalla vita libera a lla tirannica, e per contrario, alguna se ne faccia com sangue, alguna sanza […].” Niccoló Machiavelli, 2013, pp. 491–492; Hannah Arendt, 1965, pp. 35–36.

3.O New Deal, que o presidente Roosevelt promoveu a fim de recuperar os Estados Unidos da Grande Depressão, causada pelo crash de 1929, foi consubstanciado por uma política de reformas econômicas e sociais, com o fito de diminuir o desemprego e a pobreza e acabar com eles. Algumas de suas principais medidas foram o Social Security Act, o U.S. Housing Authority, o Farm Security Administration e o Fair Labor Standards Act, que fixou o máximo de horas de trabalho e o salário mínimo para a maior parte das categorias dos trabalhadores.

4.“McCormack-Dickstein Committee”. U.S. House of Representatives, Special Committee on Un-American Activities, Investigation of Nazi Propaganda Activities and Investigation of Certain Other Propaganda Activities United States Congress. Disponível em: <http://www.archives.gov/legislative/guide/house/chapter-22-select-propaganda.html>; Barbara Lamonica, “The Attempted Coup against FDR”. PROBE, março/abril de 1999 issue (vol. 6, n° 3). Disponível em: <http://www.ctka.net/pr399-fdr.html>; Arthur M. Schlesinger Jr., 2003, pp. 83–86.

5.George Seldes, Facts and Fascism. Nova York: In Fact Inc., 5th Edition, 1943, pp. 105–114; Denton, Sally. The Plots against the President — FDR, a Nation in Crisis, and the Rise of the American Right. Nova York: Bloomsbury Press, 2012, pp. 192–197.

6.Barbara Lamonica, “The Attempted Coup against FDR”. Probe, março-abril de 1999 issue (vol. 6, no. 3). Disponível em: <http://www.ctka.net/pr399-fdr.html>; Sally Denton, 2012, p. 54.

7.Katie L. Delacenserie, & (professor) James W. Oberly, & Eau Claire Wisconsin, “Wall Street’s Search for a Man on a White Horse: The Plot to Overthrow Franklin Delano Roosevelt”. For Presentation to History 489. University of Wisconsin-Eau Claire. Spring 2008, p. 29; “The Business Plot (Takeover of the White House) 1933”. 10 de janeiro de 2009. Disponível em: <http://www.abovetopsecret.com/forum/thread426623/pg1>.

8.“Investigation of un-American propaganda activities in the United States. Hearings before a Special Committee on Un-American Activities, House of Representatives, Seventy-fifth Congress, third session-Seventy-eighth Congress, second session, on H. Res. 282, to investigate (l) the extent, character, and objects of un-American propaganda activities in the United States; (2) the diffusion within the United States of subversive and un-American propaganda that is instigated from foreign countries or of a domestic origin and attacks the principle of the form of government as guaranteed by our Constitution; and (3) all other questions in relation thereto that would aid Congress in any necessary remedial legislation”. United States Congress House. Special Committee on Un-American Activities (1938–1944). Volume: Appendix pt.7. Washington, U.S. Govt. Printing Office. National Archive. Disponível em: <https://archive.org/stream/investigationofu07unit/investigationofu07unit_djvu.txt>.

9.Jules Archer, 2007, pp. 20–34.

10.Se nos Estados Unidos não ocorreram propriamente golpes militares, em virtude de suas tradições culturais e políticas, bem como do alto desenvolvimento do capitalismo, quatro presidentes foram assassinados, em consequência de conspirações para mudança de governo: Abraham Lincoln (1865), James Garfield (1881), William McKinley (1901) e John F. Kennedy (1963). Outros cinco sofreram atentados, mas escaparam com vida. Andrew Jackson (1835), Franklin D. Roosevelt, como presidente eleito (1933), Harry S. Truman (1950), Gerald Ford (1975) e Ronald Reagan (1981).

11.Sally Denton, 2012, pp. 1, 31–32, 191.

12.Clayton Cramer, “An American Coup d’État?” History Today, vol. 45, issue: 11, 1995. Disponível em: <http://www.historytoday.com/clayton-cramer/american-coup-detat>; “An attempted American coup d’État: 1934”. What Really Happened — The History the Government hopes you don’t learn. Disponível em: <http://whatreallyhappened.com/WRHARTICLES/coup.htmlDouglasa>.

13.Charles Higham, 1983, pp. 162–165.

14.George Seldes, 1943, pp. 244–245.

15. Letters of Henry Adams (1892–1918) — Edited by Worthington Chauncey Ford — Boston/Nova York: Houghton Mifflin Company, 1938, vol. II, p. 99. Disponível em: <http://archive.org/stream/lettersofhenryad008807mbp/lettersofhenryad008807mbp_djvu.txt>.

16.Ben Aris (Berli) & Duncan Campbell, (Washington), “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”. The Guardian, Saturday, 25 de setembro de 2004.

17.Fac-símile disponível em: <http://www.fleshingoutskullandbones.com/P.Bush-Union_Banking/NYTH.html#>.

18.Michael Kranish, “Prescott Bush & Nazis”, Boston Globe, 4 de julho de 2001. The Mail Archive, Disponível em: <https://www.mail-archive.com/ctrl%40listserv.aol.com/msg71122.htm>; Idem. “Powerful alliance aids ‘Bushes’ rise”. (Part One), Boston Globe, 22 de abril de 2001; Idem. “Triumph, troubles shape generations”. (Part Two), Boston Globe, 23 de abril de 2001; Bushology Interactive: 2000–2004 — The Bush dynasty. Disponível em: <http://www.moldea.com/bushology3.html>.

19.Sidney Warburg, 1995, pp. 14–16 e 44–47; Antony C. Sutton, 2011, pp. 25–30, 132.

20.Ben Aris, (Berlim) & Duncan Campbell (Washington), “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”. The Guardian, 25 de setembro de 2004; “Documents: Bush’s Grandfather Directed Bank Tied to Man Who Funded Hitler”, 17 de outubro de 2003. Associated Press. Disponível em: <http://www.foxnews.com/story/2003/10/17/documents-bush-grandfather-directed-bank-tied-to-man-who-funded-hitler/>.

21.“Documents: Bush’s Grandfather Directed Bank Tied to Man Who Funded Hitler”. 17 de outubro de 2003. Citado.

22.Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2004/sep/25/usa.secondworldwar/print>.

23.Webster Griffin Tarpley & Anton Chaitkin, 1982, pp. 28–34; Ben Aris, (Berlim) & Duncan Campbell (Washington), “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”. The Guardian, 25 de setembro de 2004.

24.“Looking behind the Bushes — Great moments in a great American family”. The Progressive Review. An Online Journal of Alternative News & Information. Disponível em: <http://prorev.com/bush2.htm>.

25.Russ Baker & Jonathan Z. Larsen, “CIA Helped Bush Senior in Oil Venture”. Real News Project, 8 de janeiro de 2007. Disponível em: <http://www.ctka.net/zapata.html>.

26.Sally Denton, 2012, p. 54.

27.George Seldes, 1943, pp. 154–155.

28. Ibidem, p. 154.

29. Ibidem, p. 155.

30. Ibidem, p. 46.

31. William E Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, pp. 35 e 45.

32. Arthur M. Schlesinger Jr., 1960, p. 82.

33. Antony C. Sutton, 2002, pp. 167–172.

34. William Randolph Hearst foi interpretado por Orson Welles no filme Citizen Kane, produzido em 1941. Essa película, dirigida pelo próprio Welles, é considerada uma das obras-primas do cinema.

35. Ibidem, pp. 84–86.

36. William E. Dodd, Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, p. 288.

37. Edwin Black, “How IBM Helped Automate the Nazi Death Machine in Poland” Week of March 27-April 2, 2002 [Postado em 26 de março de 2002]. Disponível em: <http://emperors-clothes.com/analysis/ibm.htm>; Edwin Black é autor do livro IBM and the Holocaust: The Strategic Alliance between Nazi Germany and America’s Most Powerful Corporation.

38. Gesche Sager, “Henry Ford und die Nazis — Der Diktator von Detroit”. Spiegel Online, 29 de julho de 2008. Disponível em: <http://www.spiegel.de/einestages/henry-ford-und-die-nazis-a-947358.html>.

39. William E. Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, pp. 299–300.

40. Truman Smith, 1984, pp. 117, 143.

41. William E. Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), pp. 299–300.

42. Antony C. Sutton, 2002, pp. 67–76; Joseph Borkin, 1978, pp.76–94.

43. Charles Higham, 1983, pp. 54–55; George Seldes, 1943, pp. 252–253.

44. William E. Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, pp. 352–353.

45. “William E. Dodd to Franklin D. Roosevelt”. Franklin D. Roosevelt Presidential Library and Museum — Great Britain/German Diplomatic Files — Box 32 — Folder Titles List Dodd–>FDR 10/19/36. Germany: William E. Dodd: 1936–38 (i300) Index. Disponível em: <http://docs.fdrlibrary.marist.edu/psf/box32/a300l02.html>.

46. Dodd interview: Federated Press, January 7, 1938. Apud George Seldes, 1943, pp. 122–123; Sheldon Drobny, “Bob Novak Thinks Prescott Bush Was A Liberal”. Huffington Post, 27 de julho de 2007. Disponível em: <http://www.huffingtonpost.com/sheldon-drobny/bob-novak-thinks-prescott_b_58119.html>.

47. George Seldes, 1943, pp. 135–138; Gesche Sager, “Henry Ford und die Nazis — Der Diktator von Detroit”. Spiegel Online, 29 de julho de 2008. Disponível em: <http://www.spiegel.de/einestages/henry-ford-und-die-nazis-a-947358.html>.

48. Jacques R. Pauwels, “Profits über Alles! American Corporations and Hitler”. Global Research, 15 de maio de 2014 — Global Research, 8 de junho de 2004. Centre for Research on Globalization. Disponível em: <http://www.globalresearch.ca/profits-ber-alles-american-corporations-and-hitler/4607>.

49. Edwin Black, “The Nazi Party: General Motors & the Third Reich”. Jewish Virtual Library. American-Israeli Cooperative Enterprise. Disponível em: <http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/Holocaust/gm.html>; Jacques R. Pauwels, “Profits über Alles! American Corporations and Hitler”. Global Research, 15 de maio de 2014; Global Research, 8 de junho de 2004. Centre for Research on Globalization. Disponível em: <http://www.globalresearch.ca/profits-ber-alles-american-corporations-and-hitler/4607>.

50. Charles Higham, 1983, p. 176.

51. Joseph Borkin, 1978, pp. 121–123 e 205; Paul Joseph Watson, “Former Nazi Bank to Rule the Global Economy”. Prison Planet.com, 30 de abril de 2010/In Featured Stories, Old Infowars Posts Style. Disponível em: <http://www.infowars.com/former-nazi-bank-to-rule-the-global-economy/>.




Pequeno guia: Sobre como organizar movimentos de massa.

Artigo de Nelson, publicado originalmente no Medium, e cedido para a redação da Coisa Pública Brasileira. Esta versão sofreu atualizações e distingue-se da original, postada no dia 30 de março de 2020.


Introdução:

É preciso ter em mente que para organizar movimentos de massa, apesar de resguardadas as particularidades relativas ao contexto geográfico e histórico de cada lugar, certas características gerais se repetem:

1º: Pautas

Primeiro, é fundamental que tratemos de boas pautas. Isso pode parecer uma obviedade, é verdade. Mas afinal, o que seria uma boa pauta? Pautas não são boas ou ruins apenas por serem moralmente corretas ou não, mas sim por seu potencial de universalização dentro de determinada classe social.

Ou seja, por terem poder, ou não, de impactar positivamente na vida do maior número possível de pessoas. Por exemplo, se almejamos formar um movimento de massa dentro de um município, por óbvio que uma boa pauta é aquela capaz de impactar positivamente na vida da maior parte dos moradores que fazem parte da classe trabalhadora de tal cidade.

Tomemos como exemplo as grandes revoluções dos últimos séculos, a Francesa, a Russa, a Cubana, e a Chinesa. Mais do que dar fim a monarquias, batalhar contra o imperialismo e colonialismo, o que mobilizou respectivos povos, inicialmente, foram as boas pautas.

Exemplo:

Pão, terra, melhores condições de vida, direitos, e sobretudo a noção de fazer parte da construção de um futuro que valia a pena ser vivido.

Conclusão:

Cabe lembrar que, uma vez atraídos pelas boas pautas, o povo, começa a fazer parte e construir ativamente o projeto político gerado pela unidade de tais pautas. De forma que, mesmo que inicialmente sejam as boas pautas que atraem o povo ao movimento, no fim das contas, é a verdade do projeto que as faz permanecer.

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Foto de Sebastião Salgado. Luta pela Reforma Agrária, um exemplo de boa pauta em um país ruralizado dominado por senhores de terra.

2º: Projeto

Já sabemos que boas pautas são necessárias. Isso é bom. Mas não é tudo. Para além de boas pautas é importante que se tenha um esquema geral, que agregue tais pautas em um plano. Ou seja, um projeto. Isso não significa dizer que tal projeto deva estar pronto antes de tal movimento.

Na realidade isso quase nunca ocorre desta forma na prática. Para ser bem sincero, quando analisamos todos os movimentos de massa bem sucedidos dos últimos séculos, a maior verdade é que embora houvesse um plano e um esquema, tal projeto sempre acabou por evoluir e ficar mais elaborado, pronto, ao longo do processo.

Isso não significa dizer, que não devamos ter um projeto em mente quando pensamos em organizar um movimento. Mas sem mais delongas, o que seria tal “projeto”? Creio que um projeto, seja, na verdade, a unidade de todas as pautas, direcionadas a finalidades últimas que mirem em metas concretas.

Exemplo:

A Revolução Cubana tinha por finalidade derrubar o Tirano Fulgêncio Batista do poder, e para além disso, instituir um Estado-Nacional Cubano, que fosse capaz de prover boa qualidade de vida para tal povo, ao mesmo tempo em que superasse os efeitos do subdesenvolvimento da ilha caribenha.

Conclusão:

Portanto, o projeto esquemático inicial, básico, de tal movimento era a união de todas as boas pautas que remavam nesse sentido. Como falado acima, se torna evidente quando analisado o processo histórico cubano, que tal projeto evoluiu e se transformou ao longo do processo. Devemos, então, encarar o projeto como o esquema geral, o “universal” e cada pauta individual como parte, o “particular” deste. Ambos se relacionam, de forma a melhor se ajustarem ao longo de um processo revolucionário e de um movimento de massa.

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Foto de Domicio Pinheiro. Trabalhadores mobilizados na defesa das reformas de base. Um bom exemplo de “Projeto”.

3º: Propaganda

Ter boas pautas e um projeto, é bom e recomendável. Mas ambos não valem de nada se ninguém sequer toma consciência de que estes existem. A difusão destes, portanto, é a coluna central de qualquer movimento de massa, nesse sentido é importante dominar todas as formas possíveis da propaganda:

Jornais:

Jornais são, por excelência, meios de se transmitir informações. Para além da ingenuidade que prega a neutralidade, todo jornal segue uma linha editorial ideológica bem definida, relativa a, dentre outras coisas, interesses de classe.

Quando falamos em propaganda, é importante que tal movimento disponha não de um, mas de uma miríade de jornais, de forma a passar informações, sob determinado ponto de vista ao passo em que propagam a ideologia e visão de mundo do movimento, sobre determinados acontecimentos ou ocorridos.

É importante frisar, rádios voltaram a ser mais importantes do que nunca. Entre rádio e internet, como Facebook, Twitter e outras mídias, a opção por uma cadeia de rádios comunitárias é mais interessante. Tenhamos em mente que Facebook, Twitter e outras plataformas são geridas por interesses de classe, pois estes são, no fundo, empresas, e efetivamente agem, para interditar debates que atrapalhem suas finalidades.

Exemplo:

Os movimentos comunistas, em todas as épocas, sabem muito bem disso. Em todas as revoluções proletárias pelo mundo e períodos históricos, a prevalência de jornais anti-hegemônicos, bem como sua eficácia como método de propaganda foi devidamente comprovada com o “Pravda”, o “Granma” e outras mídias.

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Trabalhador cubano lendo o Granma. Bom exemplo de “Jornal contra-hegemônico”.

Livros:

Não menos importantes que os jornais, a literatura pode se mostrar um excelente veículo de propaganda. Seja na forma de livros teóricos, para expor sobre a ideologia, estratégia, metas e métodos de tal movimento, sejam os livros ficcionais que exprimem certa visão de mundo e nos levam a benditas reflexões, sejam os livros de poemas que nos fazem pensar e grudam em nossa memória, e até mesmo livros históricos e biográficos que demonstram certa personalidade heroica e determinados períodos históricos para causarem reflexões e comparações.

Não podemos desprezar a literatura como vetor de propaganda, isso pode se mostrar um erro atroz. É importante que um movimento de massa tenha entre seus intelectuais orgânicos, não um, mas uma penca de autores de livros dispostos a produzir conteúdo que entretenham, ensinem, e passem a visão de mundo de tal movimento.

Exemplo:

É importante recordar que, no advento da Revolução Francesa, a primeira revolução Burguesa da Europa, a prensa moderna havia acabado de ser inventada, de forma que os revolucionários da época difundiam seu pensamento não apenas em uma miríade de jornais, mas sobretudo livros.

Isso se torna notável quando observamos tanto o número de teóricos daquele período consagrados até hoje, bem como o número de obras ficcionais e de poesias que até os nossos dias são consideradas obras primas, e continuam a exprimir as mesmas reflexões e os mesmos pontos de vista, hoje, deslocados de seu contexto inicial.

O mesmo pode se dizer de todas as revoluções proletárias ocorridas no globo em séculos passados, a infinidade de livros teóricos, ficcionais e de poesia que exprimiam a visão marxista de mundo e da resolução de certos problemas de determinadas eras é incontável, bem como os gênios que os escreveram. Basta recordar, Lênin, Mao Zedong, o próprio Marx e outros autores, são lidos em todo o mundo, e com justiça, muito apreciados até os dias de hoje.

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Capa de “O Imperialismo, fase superior do capitalismo.” de Vladimir Lênin. Publicado pela editora anti-hegemônica Nova-Cultura. Um bom exemplo de literatura a serviço de movimentos de massa.

Artes:

Quem pensa que quadros, pinturas, arquitetura, música, teatro, cinema, e outras formas de arte não expressam determinada visão de mundo, classe, ou ideologia, certamente ainda engatinha em sua compreensão sobre o que é arte.

Um gênio alemão uma vez disse que a arte é materialização do espírito humano. Errado ele não estava. Se Hegel nos disse mais ou menos isso, é correto pensar que a arte é a materialização do espírito, ou seja consciência, de uma classe e de suas experiências e contradições materiais concretas durante a experiência do “ser” imerso na realidade.

Se como nos disse, mais ou menos, outro gênio alemão, Karl Marx, a ideia e o espírito são uma das mais nobres e elevadas formas da matéria, que dizer da arte? Esta cumpre todo o ciclo, experiência material concreta do “ser”, espírito, e novamente matéria? Uma síntese de toda a experiência do real vivida sob o ponto de vista de determinada classe.

Por óbvio que um movimento de massa deve contar com toda expressão artística que conseguir. Sobretudo em um país como o Brasil, em que ao longo de sua história a maior parte da população não esteve em escolas ou teve a oportunidade de cursar o ciclo de ensino formal, tendo as artes do povo e a cultura popular como fonte majoritária de ensino.

O Samba, a MPB, o Carnaval, o Teatro e o cinema, e as reflexões que estes trazem, devem importar muito àqueles que pretendem organizar um movimento de massa. Quem os negligenciar, fracassará.

Exemplo:

Um grande exemplo é o Samba de 2019, apresentado no carnaval carioca, da Mangueira, “História de ninar de gente grande”, feito sob uma perspectiva claramente Benjaminiana, tal hino preza por demonstrar a historiografia sob um ponto de vista da classe trabalhadora brasileira, e com isso, trazer reflexões sobre o momento histórico que vivemos.

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Desfile da Estação Primeira de Mangueira em 2019. Um bom exemplo das artes prestando um serviço a mobilização de movimentos de massa.

Estética:

Não entraremos aqui numa discussão profunda sobre o sexo dos anjos, isto é, sobre o que é a concepção filosófica da Estética. Ao invés disso, assumiremos que estética, no sentido deste “pequeno-guia”, se trata de uma espécie de assinatura visual, auditiva e de linguagem, referentes a materialidade e características centrais de tais movimentos, que facilmente remeta os receptores de tais mensagens ao movimento que as emite. Nesse sentido, a estética é uma parte importante da construção de um movimento de massa, dentro da área da propaganda.

Exemplo:

A foice e o martelo, eternizados pelo movimento comunista internacional desde a Revolução Bolchevique de 1917, ocorrida na Rússia, representa a aliança operário-camponesa, partes centrais de tal movimento de massa. Tal símbolo estético, de fácil compreensão, até os dias de hoje, é capas de agregar e mobilizar seus defensores, bem como amedrontar todos os seus detratores pelo globo.

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Conclusão:

A propaganda, em todas as suas facetas, é de extrema importância para a construção de qualquer movimento de massa ou movimento revolucionário. O segredo para o sucesso é que os intelectuais orgânicos da classe trabalhadora estejam presentes e dominem todos os ramos acima descritos. Não adianta ter Jornais e não dominar a Literatura, não adianta dominar Literatura, e negligenciar outras áreas da arte, não adianta dominar Jornais, dispondo de um bom número de Jornais anti-hegemônicos, fomentando o debate público, e não ter uma forte assinatura estética. Quanto maior for o número de bons Jornais, Livros, produção artística e inovações estéticas que captem os anseios da classe trabalhadora do nosso tempo, mais efetiva será a propaganda de tal movimento.

4º. Tática e Estratégia

Não é a intenção deste pequeno-guia elipsar a natureza real de movimentos políticos de massa. Estes se tratam em todas as sua facetas de Guerra Popular. Isso precisa ser bem compreendido. E nesse sentido, como em toda a guerra, tática e estratégia se tornam fundamentais quando estamos organizando um movimento de massa.

A relação entre tática e estratégia é algo muito debatido em manuais militares, desde o teórico chinês Sun Tzu, até o germânico Clausewitz, bem como em livros de xadrez e outros jogos milenares que simulam a arte da guerra.

Tal relação se dá no sentido de que a “tática” representa o “particular” imediato, enquanto a “estratégia” representa o “universal” de longo prazo. Ambos estão em uma relação que sempre se ajusta, e antes de ser algo fixo e imóvel, está em constante mudança, mesmo que a finalidade da linha geral a ser seguida permaneça a mesma.

Uma infinidade de táticas relativas as condições materiais e históricas respondem a um direcionamento final, a unidade de tais táticas, para se chegar a uma situação que leve ao objetivo final. Esta é a estratégia.

Enfim, a vitória, da mesma forma que tal direcionamento final, a “linha estratégica”, só se torna completa quando repleta de táticas particulares que permitam que tal linha estratégica, o universal, seja executada corretamente.

Exemplo:

Os movimentos de trabalhadores, em geral, utilizam a linha estratégica de implodir a produção interna de seu Estado-Nacional, de forma a mostrar quem tem o poder efetivo de fazer a máquina produtiva funcionar, para tal diversas táticas podem ser utilizadas, a depender de várias circunstâncias.

Em um país agrário, ocupam-se terras improdutivas, e expropriam-se latifúndios, bem como impedem vias de circulação interna e externa de mercadorias. Já em países industrias, operários param a produção das mercadorias mais importantes para o sustento de tal Estado-Nacional, bem como também impedem a circulação interna e externa de mercadorias.

Isso evidentemente não se dá por acaso, existe uma linha estratégica central operando, e ela obviamente se relaciona as táticas que serão utilizadas para que esta possa efetivamente ser posta em prática.

Passemos então a observar movimentos históricos de guerrilha popular. A linha estratégica, em geral, versa sobre a derrubada do Governo pela força das armas. Para tal, guerrilheiros engajam em táticas como tomar regiões de tal Estado-Nacional, cuja as forças de repressão do Estado sejam mais débeis, bem como áreas pauperizadas onde tal guerrilha conseguirá encontrar um bom contingente de adeptos, bem como espalhar sua palavra e fazer valer sua teoria e propaganda. Além disso, ações como roubo de armas de quartéis pouco protegidos, bem como expropriação de bancos, veículos terrestres, aéreos e marítimos, e outros bens de valor para tal empreitada, são utilizados como tática, para a efetivação da estratégia.

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Guerra Popular de caráter maoísta no Peru.

Conclusão:

Quem entra numa guerra, como é a luta de classes, sem uma estratégia bem definida, mesmo que, é verdade, esta varie, se torne mais rica e progrida conforme mudam as circunstâncias, já inicia fadado ao fracasso. É importante ponderar qual é a melhor “linha estratégica” a ser seguida, bem como quais táticas melhor se relacionam com esta, a fim de obter a vitória e a redenção para a classe trabalhadora.

O que torna uma boa “linha estratégica”, bem como quais serão as táticas imediatas mais úteis, pode variar a depender das influências teóricas do grupo que as planeja. O general chinês Sun Tzu por exemplo, recomendava que o menor esforço possível seja dispendido. Já outros teóricos como o germânico Clausewitz e o italiano Maquiavel defendem outras linhas de pensamento.

Isso não significa que necessariamente apenas um ou outro esteja correto. Na realidade, os mesmos fins podem ser obtidos de diversas formas, a realidade é um enorme jogo de potências, possibilidades, a serem relacionadas e encaixadas.

Para uma Guerra Popular, por óbvio, o que importa é que tal “ linha estratégica” e as “táticas” relacionadas a esta funcionem e que a classe trabalhadora tome o poder político, o Estado e o poder econômico. No mínimo que faça valer suas demandas ao demonstrar força e poder de organização.

Síntese de História da Cultura Brasileira, Nelson Werneck Sodré, 1983. Parte II. “2ª fase”.

Fichamento de Cintia Xavier, originalmente publicado no Medium. Síntese de História da Cultura Brasileira, Nelson Werneck Sodré, 1983.


  • 7. “Cultura de Transição” — “A pequena burguesia”:

Entre as peculiaridades do desenvolvimento histórico brasileiro, está o surgimento precoce de uma “camada intermediária entre a classe dos senhores (de escravos e/ou de servos) e a classe dos escravos e/ou dos servos, isto é, o aparecimento da pequeno burguesia antes do aparecimento da burguesia” (p. 23). Tal processo foi uma tendência em países e regiões cujo o desenvolvimento das relações capitalistas deu-se de forma tardia, e os elementos pré-capitalistas persistiram por mais tempo.

O surgimento da pequena burguesia possui importância tanto do ponto de vista político, quanto do ponto de vista cultural: Político, porque corresponde ao processo de “transplantação, aqui, de reivindicações e postulações que constituem o núcleo da burguesia em ascensão” (p. 24) e cultural, pela “transplantação de valores estéticos oriundos do desenvolvimento da burguesia no Ocidente europeu” (p.24).

[…]Nessa dupla função veiculadora, a pequena burguesia colonial — que cresce em influência depois da autonomia, de cujas lutas participa intensamente — apresenta ampla receptividade, interesse singular pelas coisas do espírito. Nela se recrutam, em número crescente, os elementos que desempenham funções de natureza intelectual; nelas se recrutam ainda os que consomem os produtos do trabalho intelectual , aquilo que se conhece como o público para as artes. (p. 24).

Os representantes da pequena burguesia eram figuras de eventos que antecederam e sucederam à Independência, “no turbulento período entre a decadência mineradora e o golpe político da Maioridade do segundo imperador” (p. 24). Caracterizavam-se pela atividade intelectual, de caráter político e estético, que forneceu-lhes condições para a ascensão social.

A sociedade onde a pequena burguesia passa a existir sofrera uma complexificação e distingue-se da sociedade dos “primeiros séculos de vida colonial” (p. 24). Tal sociedade foi fundada na “enorme “distância social” entre classe dominante e classe dominada” (p. 24) e “na propriedade da terra e em sua exploração agrícola” (p. 24).

Com o desenvolvimento da mineração do ouro, esse esquema foi modificado, impondo novas condições. Há, portanto, um deslocamento dos esforços da atividade econômica, da terra, “da propriedade do solo” (p. 25), para o ouro, a “permissão para minerar” (p. 25), para o garimpo.

Esta atividade permitiu que “indivíduos isolados se realizem economicamente” (p. 25) — “o que não acontecia no sistema de produção açucareiro (p. 25)” — gerando um grande aumento demográfico, principalmente nas regiões próximas as áreas de mineração (“altiplanos das Gerais” (p. 25)). A partir desse aumento, há a ascensão do poder aquisitivo e o surgimento, em ampla escala e circulação, do mercado interno brasileiro.

Se o latifúndio açucareiro procurava a autossuficiência e dela se aproximava, produzindo quase tudo que seus habitantes necessitavam, a propriedade mineradora contrastava absolutamente com isso, pois pela sua alta rentabilidade, excluía, entre os que a ela se entregavam ou mesmo lhe estavam indiretamente associados, outra atividade complementar como, por exemplo, a de produzir alimentos ou objetos de uso. Assim, a população mineira tinha de ser abastecida por outra região, gerando-se o comércio interno, em função do desenvolvimento do mercado interno. (p. 25)

A criação ampla do mercado interno significou a transformação em mercadoria de todos os bens que uma vez “consumidos no local onde existia ou era produzido, passa agora a entrar na troca e deve ser consumido em grande escala e em região afastada” (p. 25).

Em decorrência, ocorre a ampliação da divisão do trabalho, o surgimento de novas atividades e o desenvolvimento e ramificação da infraestrutura do Estado, “milícias, órgãos de justiça, repartições fiscalizadoras e arrecadadoras, forças policiais e militares, hierarquia religiosa” (p. 26). O crescimento do poder público gera contradições com os elementos privados e demonstra-se o oposto do que historicamente aconteceu no modelo açucareiro anterior.

Nesta sociedade, “realmente, a classe dominante, muito poderosa — absorvendo, inclusive, parcela considerável do poder público, assim transferido à esfera privada — era reduzida numericamente, enquanto a classe dominada, numerosíssima, em termos relativos, ficava separada daquela por distância social muito grande, existindo, entre elas, apenas rala e insignificante camada intermediária” (p. 26).

No modelo açucareiro, a estrutura de classes sociais constituiu-se de forma distinta, predominava a figura do senhor de engenho, e ainda não existia uma camada intermediária, entre senhores de terra, servos e escravos. Apesar do poder político, a classe dominante da sociedade mineradora era numerosamente mediana, enquanto a classe dominada, maioria.

Nesses momentos finais do período colonial, a mão de obra livre, constituída na camada intermediária, era maior que a população escravizada. Há um duplo movimento de ampliação da camada intermediária e de multiplicação da divisão do trabalho, com atividades ligadas à cultura, sinalizando “exigências de cultura que antes não existiam” (p. 26).

Dado o seu crescimento em números, a camada intermediária propiciava o espaço em que seriam fornecidos os elementos culturais, criando através desse movimento um público interno para tais atividades. No apogeu do modelo minerador, “decênio inicial da segunda metade do século XVIII” (p. 27), a sociedade desse período já possui esses traços constituídos.

O desenvolvimento da mineração foi crucial para o surgimento da camada intermediária e para o aparecimento da pequeno-burguesia antes da burguesia. A pequeno-burguesia, portanto, é um “veículo de transplantação” (p. 27), atraída pela ideologia burguesa e pelos valores de uma burguesia exterior.

  • 8. “Cultura de Transição” — “O ensino pós-jesuítico”:

A partir da transformação da estrutura da colônia, surgem novas necessidades para o ensino. O antigo modelo se encontrava inadequado diante das novas condições. “Toda ela [modelo educacional] pertencia ao esforço dos jesuítas, tornados especialistas, na transmissão dos conhecimentos” (p. 27).

Em consequência da expulsão dos jesuítas dos reinos e domínios de Portugal, e dos conflitos entre missionários e colonos no território brasileiro, toda a infraestrutura da Ordem foi confiscada pela Coroa Portuguesa.

O formato de ensino era dogmático e abstrato, ensinado pelos padres com vistas a “uniformidade intelectual” (p. 28). Não havia ensino das ciências (“planos de estudos excessivamente literários e retóricos” (p. 28)) e nem ensino de línguas modernas, “conservando na elite uma tal ignorância sobre essas línguas que de maravilha se encontraria, na colônia, um brasileiro que soubesse francês” (p. 28).

A reforma pombalina, de início, não criou novas estruturas, “limitando-se a prescrições gerais” (p. 28). Teve por consequência, na colônia, a fragmentação como característica básica, e a formação deficiente dos mestres, em contraste com o ensino geral e unitário do ensino jesuítico.

A educação passou do colégio de padres às aulas das escolas régias, com mestres de formação deficiente, ou nos próprios latifúndios, com os padres-mestres que, de capelães, passaram a professores. (p. 28)

Na segunda metade do século XVIII, no entanto, a reforma pombalina possibilitou a entrada do Estado nesta seara. E, a partir desse momento, a organização do ensino, que antes era monopolizada pelos jesuítas, teria participação mista, com esferas privadas (ordens religiosas concorrendo entre si) e esfera pública. Esse traço inovador será ampliado com a reforma joanina, no início do século XIX. Contudo, movimentos como estes foram vistos desde antes da expulsão dos jesuítas, com a formação de Seminários.

As condições de difusão cultural são distintas das condições dos primeiros períodos urbanos, principalmente após ampliação do mercado interno, na segunda metade do século XVIII. As cidades, portanto, tornam-se focos de produção e difusão da cultura dos elementos da classe dominante e daqueles que a servem e por ela são protegidos.

A classe dominante começa a formar seus quadros, meio século antes da autonomia. E só a classe que tem posses e, em consequência, lazeres, pode dar-se à cultura, […], fazendo-as ou admirando-as e usando-as. (p. 29)

Em um meio onde, historicamente, a cultura era restrito a “um número reduzido de pessoas” (p. 29), há a geração de uma elite culta, universalista, europeizante, “unilateralmente voltada para as letras” (p. 29), cujo conhecimentos foram adquiridos através do ensino jesuíta, dos seminários, das aulas régias e do ensino superior em Coimbra, de influência jesuítica, e outras universidades europeias, principalmente após o século XIX. Eram poucos os brasileiros que, na segunda metade do século XVIII, demonstravam domínio sobre conhecimentos científicos especializados.

As centenas de outros que alcançaram o diploma universitário — filhos-família mantidos na Europa para os estudos— formaram a cultura humanística nos moldes do tempo, absolutamente distanciada dos problemas da terra em que haviam nascido e onde exerciam ou exerceriam suas atividades (p. 30).

Contudo, as artes plásticas, principalmente em Minas Gerais da segunda metade do século XVIII, conseguem desenvolver uma produção genuinamente autêntica, através do barroco brasileiro, à parte dos “velhos modelos metropolitanos” (p. 30), “de influência jesuítica quase todos” (p. 30).

Durante o declínio da mineração, surgem grandes artistas de origem popular através da torêutica, da escultura e da arquitetura religiosa, como Mestre Valentim, desenhista e ilustrador, Aleijadinho, artista plástico de grande importância para a arquitetura do período colonial no Brasil, o grupo de poetas que veio a chamar-se “Escola Mineira”, com a produção da obra política “Cartas Chilenas” e da obra literária “Marília de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga, além dos “mestres do barroco musical mineiro”(p. 31), José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, Marcos Coelho Neto, Francisco Gomes da Rocha e Ignácio Pareira Neves. NWS destaca particularmente as duas obras da Escola Mineira como demonstração de um “avanço da expressão literária” (p. 31), onde um caráter original, “nacional”, popular, começava a esboçar forma e conteúdo.

A terra continuava a aparecer como objeto, cantada nas suas belezas, mas há, na sátira à autoridade local desmandada, uma primeira nota de rebeldia que transcende a pessoa visada, como há, nos cantos à jovem noiva, uma primeira nota lírica que rompe com as tradições do arcadismo. Mas é preciso não esquecer que a distância que separa — ainda em nível qualitativo—os poetas recrutados na camada intermediária e os extraordinários artistas que surgem da mesma, mas com origens na gente escrava, os humildes artesãos que trabalham para os padres, é enorme. Nas obras destes é que está, pela primeira vez, o traço original, brasileiro. Deles parte o fio da autêntica e específica cultura, aquilo que, ao longo do tempo, virá a ser nacional e que só ainda não pode ser — no caso deles — porque nem existe a nação (p. 31)

A estrutura social do Brasil, portanto, se difere dos primeiros períodos coloniais, mas continuava a ser regida por senhores de terra — estes donos de escravos e servos. No entanto, a expansão da mineração, do comércio interno e da camada intermediária, livre, “uma pequena burguesia precoce” (p. 32), fez desenvolver a produção, difusão e consumo de elementos culturais nos espaços urbanos. Ao mesmo tempo, o período da vinda da corte portuguesa para o Brasil é um momento de transformação nas “relações capitalistas no ocidente da Europa” (p. 31) e de convulsão causada pelas campanhas napoleônicas, que ameaçavam as monarquias da Península Ibérica e seu modo de produção feudal.

Nela [camada intermediária] recrutam-se os letrados, os funcionários, os religiosos, todos aqueles que necessitam dos conhecimentos, em qualquer escala — quase sempre em escala rudimentar — e que tem receptividade, em parte, para as manifestações artísticas, a que a vida urbana em desenvolvimento proporciona as condições iniciais de existência. (p. 32)

  • 9. “Cultura de Transição” — “A classe culta”:

A cultura, nesta ‘nova’ sociedade, “como forma do conhecimento ou como prenda — não importa” (p. 32), começa a possuir espaço e adesão entre a camada intermediária “e, em parte, na classe dos senhores — pelo menos menos como motivo de ostentação” (p. 32). Aqueles que alcançam posição de destaque neste meio cultural distinguem-se socialmente, e acabam “tendo em comum com os lazeres da classe dominante” (p. 32).

A expansão das ferramentas para a instrução nas cidades gerou uma demanda de pessoas que queriam ser instruídas e outra leva de pessoas que ministravam, como por exemplo com a generalização do uso de instrumentos musicais nas “casas senhoriais de fazendas, estâncias e engenhos, como nos sobrados ou solares urbanos” (p. 33) e, principalmente, as artes plásticas nas igrejas, muitas vezes obras de pequenos pintores, santeiros, mestres toreutas e ourives desconhecidos, cuja a arte era associada não com o lazer da burguesia, mas com o ofício do escravo ou do servo, com o trabalho braçal, próprio de homens que não são livres, o que, no entanto, não arrancou a capacidade de inovação do barroco brasileiro, quebrando “a uniformidade do barroco de importação” (p. 33).

A cidade portuária do Rio de Janeiro, que à época possuía 25.000 habitantes, com a transferência da capital da colônia de Salvador para lá, “por força das necessidades administrativas geradas pela mineração” (p.33), transformou-se de “porto humilde” (p. 33) em um “burgo de 50.000 que a corte bragantina atulhará com o numero séquito de fidalgos e o funcionalismo que vem prover um aparelho de Estado que cresce depressa” (p. 33). A corte portuguesa chega ao Brasil com “os monumentos do barroco já marcando a paisagem” (p. 33), fruto da obra de pequenos artistas.

Grande parte dos toreutas, santeiros, ourives, ficou desconhecido, numa época em que a autoria carecia de importância, em que, vindos de camadas inferiores, esses mestiços de talento eram vistos como simples artesãos. É uma arte que, fugindo às casas dos senhores e aos palácios das autoridades, acolhe-se aos templos e aos claustros. (p. 33)

NWS destaca dois aspectos do incentivo à cultura durante o governo joanino que caracterizam a continuidade do projeto de transplantação no início do século XIX, através dos esforços de acumulação de conhecimentos: “atividades ligadas ao conhecimento do país, particularmente pelo levantamento das variedades de plantas e animais” (p. 33), “o incentivo dado às expedições científicas” (p. 33) e atividades ligadas a difusão de “modelos europeus e ao recrutamento de discípulos” (p. 34), como a “fundação de escolas de arte e de museus e a contratação de mestres estrangeiros” (p. 34).

O agrupamento de conhecimentos sob o rótulo de “História Natural” se dava de forma generalista, sem muito aprofundamento em questões abstratas, o que facilitava a ação de homens que, apesar da “falta de vocação ou de instrução geral ” (p. 34), possuíam paixão pelas ciências.

Assim é que a época assinala a atividade de naturalistas como Manuel de Arruda Câmara, frei Leandro do Sacramento, frei Custódio Alves Serrão; marca a passagem dos primeiros cientistas estrangeiros que buscam material, […], predecessores do que, às véspera da autonomia, constituíram as sucessivas expedições que cortaram o território brasileiro no século XIX (p. 34).

Na contratação de mestres estrangeiros no período joanino, destaca-se a “iniciativa de trazer a missão artística francesa” (p. 34) com a vinda de pintores, gravadores, mestres de ofícios, e outros, que constituíam a base docente da Academia de Belas Artes, em 1826.

As consequências dessa iniciativa, que operaram na cultura “por força do aparelho oficial de transmissão sistemática” (p. 34) romperam com a tradição da arte colonial. Os poucos discípulos, que estudavam na Europa, eram adeptos de modelos importados, que exibiam a correlação entre transplantação e alienação.

A fundação da imprensa, em 1808, possibilitou a abertura de jornais, de livros impressos, de “biblioteca[s] destinada[s] ao público” (p. 35) e criação dos primeiros cursos superiores, “destinados à formação de quadros militares” (p. 35). Para atender necessidades pragmáticas, a reforma joanina transcende o modelo de ensino escolástico e literário anterior.

O imediatismo e o praticismo, entretanto, pretendiam apenas substituir aquele sentido, como outra forma de alienação, para atender as necessidades do aparelho colonial de dominação, sem despertar a centelha da curiosidade e a inquietação que o conhecimento proporciona e que, normalmente, se constitui em fermento de rebeldia. Essa rebeldia encontrava o seu momento e suas formas de manifestação, apesar de tudo, na eloquência sagrada e profana da imprensa. (p. 35)

A estrutura social do Brasil do início do século XIX, portanto, sofre uma mudança política, onde a “classe culta” “teria papel destacado, dando expressão política aos desejos da classe senhorial” (p. 35) A classe intermediária, “em que são recrutados os intelectuais” (p. 35), correspondia as aspirações e padrões da classe dominante.

O horror ao trabalho físico, caracterizado como trabalhos dos escravos e servos, e à ode ao ócio, a atividade intelectual, como atividade enobrecedora e traço de classe eram pressupostos para aquele que oriundo da camada intermediária respeitasse os padrões da classe dominante.

Pelo seu caráter tardio, a atividade intelectual no Brasil é introduzida através de uma camada intermediária, “como via de acesso social” (p. 36), onde a cultura é “cultivada para ser ostentada, exteriorizada” (p. 36), e não para trazer algum benefício pessoal ou coletivo através do processo de conhecimento. Essa cultura, portanto, permitia o acesso da classe intermediária as “funções não maculadas pelo trabalho físico” (p. 36), e estes ofícios e títulos possuíam o caráter enobrecedor.

A cultura que tinha por finalidade não o saber, mas o diploma — que funcionava como título de enobrecimento — seria, consequentemente, “literária e abstrata”, transmitida “por métodos que se baseavam, não sobre a ação e o concreto, mas sobre a leitura, o comentário e a especulação”, destinando-se, assim, “a formar pregadores, letrados e eruditos” que, com o título, aspiravam às profissões liberais e aos empregos públicos. Nada teria de surpreendente, pois, que o elemento desse tipo de cultura fosse o intérprete natural dos interesses da classe dominante, no tormentoso processo da autonomia (p. 36).

Clique para ler a parte 1.

Bibliografia:

DE AZEVEDO, FERNANDO: A cultura brasileira. Introdução ao estudo da cultura no Brasil. Rio, 1943.

SODRÉ, NELSON WERNECK: Síntese de História da Cultura Brasileira. São Paulo. 1983.

Sobre a descentralização da produção e a relação entre política e ideologia:

Artigo de Daniel Albuquerque Abramo, publicado originalmente no Medium, e cedido para a redação d’A Coisa Pública Brasileira.


A descentralização da produção, o desenvolvimento de novas tecnologias e a intensificação do processo de substituição da mão de obra humana:

Desde o processo gradual de implementação do credo neoliberal no velho continente, ocorreram transformações, relativas a esta passagem, do modelo socialdemocrata, (este, ainda que corrompido) para o neoliberalismo. Uma delas é a crescente descentralização da produção. Tal fato, não vem a ocorrer por acaso, e se dá por pelo menos cinco motivos:

1º. Em um contexto de guerra fria as classes dominantes de países centrais do capitalismo não se sentiam mais seguras para abrigar grandes parques industriais, por que isto implicava na existência de maior organização entre os trabalhadores, e, portanto, geram risco às classes dominantes de tais países.

2º. Se mantivessem a maior parte do trabalho industrial e outras formas de trabalho que propiciam a organização de trabalhadores em países de terceiro mundo, poderiam inchar internamente seu setor de serviços, bem como de empregos terceirizados, que propiciam menor organização de trabalhadores. Com isso, poderiam focar todo o investimento de ponta em um pequeno e controlável setor industrial que produz peças de alta-tecnologia com enorme valor científico agregado, que “vendem” para a enorme miríade de filiais terceiro-mundistas de seu esquema multinacional, onde tais peças são montadas no produto final.

3º. Como os países centrais do capitalismo são mais fortes geopoliticamente que os países de terceiro mundo, suas burguesias poderiam impor as políticas predatórias de suas multinacionais sobre países mais frágeis, destruindo lhes o Estado-Nacional, ora fazendo acordos espúrios com ínfimas elites que representam populações inteiras, ora impondo-lhes ideologias de abertura total ao capital estrangeiro, estado-mínimo, com inchaço das forças de segurança pública, para a repressão da população local e “cobrança de maiores taxas de produtividade¹”.

Não foi raro o exemplo mais extremo, de abertura de novos mercados para o imperialismo, na base da força. Isso se dá, por que em tal forma de organização do sistema capitalista, muito globalizado, não são apenas os exércitos nacionais, as milícias formais das burguesias nacionais, mas sim blocos militares supranacionais, extremamente complexos. Estes, inicialmente mobilizados para guerra fria, após seu fim, atuam apenas como milícia formal de um conjunto de burguesias associadas, de países centrais do capitalismo, disciplinando e impondo ordem sob países de terceiro mundo que se rebelam, ou perseguindo novos mercados e rapinando sob nossos cadáveres.

Cientes de que toda a exploração, somada a inserção dos parques industriais, provavelmente gerará greves, organização e mobilização dos trabalhadores, destroem todo o Estado-Nacional e lhe torna voltado apenas a repressão da mão de obra, visto que uma vez predada, tal nação e seu povo, são vistos como mero objeto de produção da coalização da classe dominante dos países centrais.

Reparem a semelhança do que está descrito acima, com as célebres greves do ABC paulista, na década de 80, que foram duramente reprimidas pela Ditadura Empresarial-Militar brasileira. Isso não se dá por acaso, visto que o Brasil recebeu grande parte da transfusão de montadoras automobilísticas, marcadamente da FIAT, frutos dessa “nova forma” do modo de produção capitalista global.

4º. “Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.” — Karl Marx

A passagem, ainda que gradual, para uma nova organização do modo de produção e suas consequências, implicam em novas formas de “ser²”, novas e pioradas relações de trabalho, novas e pioradas relações com o Estado-Nacional.

A pequena consciência coletiva, já avariada, mas ainda reforçada pelas relações sociais e relações de trabalho relacionados a organização anterior do modo de produção, começava a dar lugar a novas formas de consciência cada vez mais atomizadas e individualistas, como contraparte ideológica, ou seja, superestrutural, da nova forma de organizar o modo de produção, a infraestrutura.

5º. Desnecessário seria dizer que não podemos nunca nos esquecer que, sob a ditadura da classe dominante, todo avanço científico-tecnológico, sobretudo os que mais impactam no avanço das forças produtivas, e, portanto, na organização do modo de produção, não demonstram carácter emancipatório de rompimento com o modo de produção capitalista, mas sim de aumento da exploração. Tais países, por terem alto nível de avanço das forças produtivas, poderiam gradualmente automatizar ainda mais suas produções, “reduzindo custos” e diminuindo a organização da classe trabalhadora, de forma a não precisar mais de trabalho humano de baixa-qualificação em uma série de áreas de sua economia, fazendo com que muitas pessoas perdessem seus empregos e virassem trabalhadores do setor de serviços, trabalhadores terceirizados, ou trabalhadores autônomos. O problema, claro, não está no avanço técnico-científico, nem de tecnologias, mas da questão chave:

“Qual a classe detém o controle sobre os meios de produção?”

  • O predomínio do teatro democrático, do consenso neoliberal, sobre o ocidente:

Uma vez explicitado tal movimento de mudança na organização do modo de produção, suas motivações e seu contexto, podemos analisar como isso impactou já no final dos anos 90 e começo do século XXI. Conforme mencionado anteriormente, tal processo não se deu da noite para o dia, mas ocorreu de forma mais ou menos gradual, desde meados dos anos 60, e começou a se intensificar de forma muito aguda nos anos 80.

No fim dos anos 90, tal modelo econômico passa por uma reforma, que marca seu movimento pós dissolução da URSS para se assenhorar de todos os sistemas políticos do globo em duas frentes, se mesclando em duas faces ideológicas, uma com características e retórica “progressistas difusas”, mas economicamente neoliberal, e outra com característica e retórica conservadora, mas economicamente neoliberal.

Tal teatro, verdadeiro simulacro de disputa política, um grande “telecatch³” onde o neoliberalismo econômico sempre vence, prevaleceu desde o início do século XXI na maior parte do mundo ocidental.

Como exemplos podemos ver os casos dos governos George W. Bush, e Barack Obama, o primeiro como sendo a faceta politicamente conservadora do neoliberalismo econômico, enquanto Obama, representaria a faceta politicamente progressista do neoliberalismo econômico. Ambos igualmente ruins, tanto a nível interno, em seu país, quanto a nível externo, mas um sendo a verdade nua crua e amarga de digerir, e o outro, sendo uma espécie de mesmo remédio, só que bem mais doce e fácil de idealizar enquanto bombardeia nações terceiro-mundistas a esmo.

Com isso, a ortodoxia neoliberal foi se tornando o “padrão absoluto” no período que contempla o fim da URSS e o início do século XXI, auge do sonho dourado de “Fukuyama”, de domínio absoluto do neoliberalismo e do capital sobre o globo.

Tal processo, marca o total império da aparência e retórica nas disputas e debates políticos formais ou parlamentares, visto que, na ausência de possibilidades de real disputa em termos de modelo econômico, já que ambos os lados quase sempre defenderão variações da ortodoxia econômica, o que sobra para o embate político são meras aparências e questões sem substância.

  • O caso brasileiro em particular:

“ Pode-se ter um termo de comparação na esfera da técnica industrial: a industrialização de um país se mede pela sua capacidade de construir máquinas que construam máquinas e na fabricação de instrumentos cada vez mais precisos para construir máquinas e instrumentos que construam máquinas, etc. O país que possuir a melhor capacitação para construir instrumentos para os laboratórios dos cientistas e para construir instrumentos que fabriquem estes instrumentos, este pais pode ser considerado o mais complexo no campo técnico-industrial.” 

— Os Intelectuais e a organização da cultura — Gramsci.

O Brasil é um caso a parte, mesmo sem ter concluído sua revolução industrial de forma satisfatória, isso é, conseguindo competir na vanguarda do desenvolvimento tecnológico e científico, passou por um processo em que ao mesmo tempo que era destino dos parques industriais de montadoras e de multinacionais, por ser um país em desenvolvimento, passou a sabotar seu próprio crescimento industrial autônomo, algo que era sua meta já havia muito tempo, e a aplicar a “ideologia e política econômica da moda”, na versão progressista, como se fosse um país central.

Na realidade, pretendiam com isso, reeditar em nova espécie o já velho “desenvolvimento associado”, ou seja, dependência, dessa vez em novos termos. Para isso, pensavam que bastava seguir todas as diretrizes dos organismos internacionais, comprometidos até o pescoço, com o neoliberalismo, fazendo o papel que Nildo Ouriques gosta de chamar de “bom mocismo internacional”.

Desnecessário dizer que, não é assim que as coisas funcionam, e se o modelo que foi criado desde o primeiro mandato de FHC, e depois reeditado com nova roupagem pelo Partido dos Trabalhadores, conseguiu se manter se baseando em alto consumo interno e exportação massiva de commodities, trocando na prática toneladas massivas de produtos primários com baixo valor tecnológico agregado, por produtos complexos, dos mais variados tipos, apenas se manteve até a primeira crise econômica do capitalismo global que enfrentou.

A crise de 2008 deixou bem claro que a classe-dominante ligada ao imperialismo pode escolher qual vertente e qual perfil de gerencia sobre nossos países eles preferem. Após a crise de 2008 o neoliberalismo progressista deixou de ser opção para as classes dominantes, tanto as locais associadas menores, quanto as internacionais ligadas ao imperialismo, isso pode ser evidenciado pelo golpe branco e troca do Partido dos Trabalhadores, trocando este por um gerente representante da outra faceta do neoliberalismo, Michel Temer.

Posteriormente, Bolsonaro, um militarista ultra repressor, veio, não por acaso, a assumir o governo, com a economia sendo regida por um ultraliberal. Ou seja, é a face mais agressiva do mesmo sistema. Isso não se dá por acaso, mas sim pois a classe dominante ligada ao imperialismo quer aumentar a produtividade, apertar o passo da contrarrevolução, e assegurar que as perdas da crise de 2008, e agora mais ainda com a crise acentuada pela pandemia, sejam pagas com o sangue e o suor de nações e populações submetidas.

  • Uma oportunidade histórica, até aqui, não aproveitada pela esquerda-radical:

Tais processos geraram um quadro bastante singular, mas que em si não apresenta nada de tão inovador. Como é de conhecimento notório, são as contradições dos próprios sistemas que os derrubam.

Com a tomada do neoliberalismo por quase todo o globo, e tendo a versão progressista chegado ao poder em muitos países no começo do século XXI, em um período que coincidia com o período de maior globalização e descentralização da produção, parte dos efeitos negativos para a classe trabalhadora, começou a estourar nas mãos dos gestores da faceta “progressista” do neoliberalismo.

Um exemplo flagrante era, o fato de que o desemprego estrutural e o nível de trabalhadores informais tende a crescer com esse tipo de organização adotada no sistema neoliberal. Muitas pessoas se ressentiram de perder a estabilidade que tinham em seus antigos empregos. Tudo isso, passou a ser colocado na conta daqueles que levavam as reformas neoliberais adiante.

Muitas vezes esses eram governos com retórica, estética, e roupagem, de esquerda, mas apenas como simulacro. Visto que aplicavam políticas econômicas neoliberais que traiam completamente a classe, até mesmo em perspectivas reformistas mais pueris. Isso gerou, devido a essa contradição, uma evidente frustração em setores da classe trabalhadora contra a esquerda partidária que assumiu os dogmas neoliberais.

Por outro lado, após toda a repressão sofrida pelos Partidos Comunistas de cada país, ao longo de toda a guerra fria, e com sua perda de poder, com a dissolução da URSS, estes não estavam em condições de conseguir captar ou canalizar as frustrações da classe trabalhadora e frações da pequeno-burguesia, que se avolumavam cada vez mais, muitas vezes de forma desorganizada e imatura enquanto movimento político, em contestação contra a hegemonia e o “establishment”.

Tal processo, como veremos mais adiante, será um aspecto fundamental no renascimento da extrema-direita, que sobretudo na Europa e nos EUA, se aproveita da não existência de movimentos socialistas organizados para capitalizar todo o discurso anti-hegemônico e ascender ao poder com apoio das massas.

  • Sobre a ideologia nessa organização em particular do modo de produção capitalista:

Como explicitado acima, a mudança na organização do modo de produção e da organização da sociedade em relação a este, gerou novas formas de “ser” e claro, novas formas e arranjos sociais. Tudo isso, claro, relacionado a essa nova forma de produzir e suas relações de trabalho. Isso, como foi exposto brevemente acima, propiciou o surgimento de ideologias, de matriz idealista e irracionalista, e consciências cada vez mais atomizadas, egóicas e individualizadas.

Não por acaso, o século XXI se notabilizou pelo avanço da forma “identitária⁴” de se fazer política, ou seja, posições políticas baseadas nos interesses e nas perspectivas de grupos sociais, com os quais cidadãos se identificam, com tendência a serem cada vez mais fracionados, visto que emana da infraestrutura, pela forma de organização do modo de produção, um reforço e estímulo a produção de novas identidades que operem atreladas a nichos e mercados cada vez mais específicos e “personalizados⁵”.

Ainda que isso seja mais visível em grupos que orbitam o neoliberalismo progressista, seria ingênuo e míope pensar que não existe identitarismo de direita.

A ideologia do neoliberalismo, se adéqua a própria fluidez da organização descentralizada do modo de produção capitalista contemporâneo. As consciências são mercadorias e identidades disponíveis, e, ao mesmo tempo, em outra dimensão, contraparte superestrutural para a criação de novos mercados, para escoamento de mercadorias, essas sim materiais, que se relacionem a tal identidade vendida como um produto.

Tomemos como exemplo, a identidade de direita do tipo “homem de bem”, é uma mercadoria razoavelmente comum no mercado de “identidades”, vendida em toda a sorte de produtos cinematográficos, literários, e na mídia em geral. Essa identidade trás em si, a simbologia, a retórica e a mentalidade do “guerreiro” e do “militar”, mas o faz como engodo, para associar tal impulso a um desejo e fetiche armamentista. Isso é evidentemente muito interessante para o enorme lobby e mercado armamentista e seus associados como clubes de tiro e outros estabelecimentos que arrancam dinheiro daqueles que tem o fetiche pelo militarismo, que aumentam bastante os seus lucros, todas as vezes que esta “identidade” está em alta no mercado.

O mesmo ocorre do outro lado da moeda, com as consciências e identidades respectivas ao neoliberalismo progressista, e aos mercados e produtos relacionados a estas, como por exemplo os produtos “amigáveis com o meio ambiente”, ou todo um mercado de produtos veganos, produzidos e cultivados em larga escala, isso para não falar no cultivo da cannabis, que poderiam deixar extensas plantações de soja e seus latifundiários enrubescidos diante de sua pequenez perante este jovem mercado, que certamente, tem uma identidade para si, disponível no grande mercado de identidades da ideologia neoliberal.

Nem mesmo o glorioso marxismo está imune deste fenômeno, visto que já existe, inclusive operando em nosso país, uma pretensa identidade marxista, que mais do que apego ao método de análise e história da tradição filosófica e prática do marxismo, é pautada em um jogo de aparências, signos e símbolos, ou seja, não passa de um fetiche. Tal identidade, nada mais é do que uma das muitas identidades anti-hegemônicas disponíveis no conjunto das identidades possíveis em tal sistema superestrutural, uma de suas versões de esquerda. Desnecessário dizer que aí operam vários mercados de produtos e mercadorias como camisetas, bottons, jogos, música, e todo o tipo de conteúdo pago, ou que reverta valores para grupos econômicos ou empresas.

A superestrutura, ou seja, contraparte política, ideológica, cultural e jurídica da infraestrutura material nessa nova forma de organização do modo de produção capitalista, aliás, como sempre, não poderia trabalhar em um sentido que não fosse o da ilusão quanto as debilidades de tais formas de produzir e as relações laborais inerentes a elas. Ilusão, nada mais é, que jogar luz sobre algo, particular e desfocado, enquanto se oculta uma verdade central.

Não por acaso em uma era em que “identidades” são mercadorias fluídas e flexíveis, existindo em abundância com o avanço das redes-sociais e formas de “ser” interagir e produzir com estas, marcadamente notadas por um enorme grau de exposição, sejam enormes as hordas de verdadeiros invisíveis, terceirizados, trabalhadores de aplicativos, prestadores de serviços autônomos, vítimas diretas da mudança da organização do modo de produção.

Um exemplo disso, se deu no Brasil, ainda durante a pandemia se tornou claro que o combalido Estado-Nacional brasileiro, sob domínio do neoliberalismo e sua batalha teatral entre vertentes de diferentes roupagens, sequer conseguia encontrar tais trabalhadores em seus cadastros, para todos os fins, eles não existiam.

Assim a direita roubou o ouro venezuelano.

Artigo de Jesús Inojosa, para o jornal venezuelano Últimas Notícias.
Tradução de Cíntia Xavier.

Nesta quinta-feira, o Supremo Tribunal da Grã-Bretanha decidiu pelo imediato reconhecimento da patética junta designada pelo deputado Juan Guaidó para o Banco Central da Venezuela (BCV), violando a normativa que rege a eleição do diretório do ente monetário máximo do país e a Constituição.

Essa sentença, que será objeto de apelação pelas autoridades do BCV e do governo venezuelano, pode ser a consumação de uma operação iniciada em 2018 e que parecia encerrar-se antes das eleições parlamentares, onde os venezuelanos com seu voto escolherão uma nova Assembléia Nacional, conforme estipulado na constituição.

Passo 1: Tríade Borges-Vecchio-Ledezma

As ações para o bloqueio dos ativos da Venezuela no exterior foram empreendidas pelo deputado Julio Borges em abril de 2018, quando em companhia dos fugitivos Carlos Vecchio e Antonio Ledezma, realizam uma “turnê” pela Europa para solicitar “maior pressão” contra o governo venezuelano e “vigilância internacional para impedir” que o governo venezuelano “siga endividando-se e vendendo os ativos da nação”.

“Junto de @alcaldeledezma e @julioborges realizando reuniões com os governos de França e Espanha”

Como resultado dessa jornada e após a aprovação de uma ordem executiva do governo dos Estados Unidos, orientada a boicotar o uso de ouro pelas autoridades venezuelanas, em 9 de novembro do mesmo ano, o Banco da Inglaterra se recusou a entregar as 14 toneladas de ouro solicitadas pelo BCV.

Esta ação foi aplaudida pela tríade liderada por Borges, quem em 30 de novembro, prevendo a possibilidade de concretização da entrega destes ativos ao governo venezuelano, publica uma carta onde adverte ao Banco da Inglaterra que, ao concordar com o pedido feito pelas autoridades venezuelanas, eles violariam a ordem executiva de Trump.

Passo 2: Auto-proclamação de Guaidó

Em 5 de janeiro, a maioria da oposição da Assembleia Nacional elegeu a Juan Guaidó como presidente da junta diretiva do parlamento, cujo projeto apresentado tinha como segundo ponto a “a designação e reconhecimento de representantes legítimos ante instâncias e organismos internacionais”.

Da mesma forma, ele indicou como o sétimo ponto de sua “rota para a transição”, “criar o fundo para a recuperação de ativos para que pudessem “ser congelados e devolvidos ao povo quando a usurpação cessasse”.

Posteriormente, em 15 de janeiro, o deputado Carlos Paparoni apresentou um projeto de acordo à AN em desdém, onde 46 países foram solicitados a “proteger os ativos do Estado venezuelano, em face da flagrante usurpação do poder executivo pelo cidadão Nicolás Maduro Mouros”, que foi aprovado, apesar de não ter legalidade.

Dada a impossibilidade legal e constitucional de significar que essas ações foram realizadas pelo parlamento, em 23 de janeiro, Juan Guaidó se proclamou “presidente interino”, como o primeiro passo na construção de um “governo” paralelo que abriria a possibilidade de construção de uma cortina jurídica, que facilitaria a operação de sequestro de ativos.

“Não vamos continuar permitindo que roubem o dinheiro de toda Venezuela (…) Nas próximas horas faremos comunicados oficiais para alcançar a proteção desses ativos”, foram as primeiras declarações oferecidas por quem se auto erigiu como “presidente”.

Passo 3: Cortina jurídica

Até 28 de janeiro, Guaidó publica o “progresso” no âmbito do acordo aprovado antes de sua auto-proclamação, onde se anuncia que irá iniciar ações “concretas” para cumprir com este documento.

Após esse anúncio, surgiram notícias na mídia internacional sobre uma carta assinada por Guaidó solicitando a então primeira-ministra da Grã-Bretanha, Theresa May, para impedir uma possível repatriação do ouro venezuelano, solicitada pelo BCV.

“Estou escrevendo para pedir que você encerre essa transação ilegítima”, escreveu Guaidó na carta enviada ao presidente britânico e a Mark Carney, presidente do Banco da Inglaterra.

“Guaidó foi quem solicitou à primeira ministra britânica, Theresa May, para deter a repatriação das 31 toneladas de ouro que o governo venezuelano têm no Banco da Inglaterra, segundo uma carta enviada pelo próprio político”.

Seguidamente, em 5 de fevereiro de 2019, a AN em desacato aprova um “Estatuto para a transição”, o qual revoga os poderes supra constitucionais, que coloca nas mãos do autoproclamado e entre as quais se estipula a designação de juntas diretivas para empresas e instituições venezuelanas.  

Passo 4: Diretivas paralelas

Sob a fundação deste “estatuto” e que foi declarado “nulo” pela Câmara Constitucional do Supremo Tribunal de Justiça (TSJ), Guaidó passa a designar “embaixadores” e “diretivas ad hoc” nas Empresas e instituições venezuelanas.

Assim, em 19 de março, foi anunciada a nomeação como “embaixadora” no Reino Unido, Vanessa Newmann; mulher venezuelana de origem judia, residente nos Estados Unidos, onde trabalhou como consultora do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa dos EUA na luta contra “finanças ilícitas”.

Então, em 23 de julho de 2019, o autoproclamado anunciou a nomeação do conselho de administração ad hoc do Banco Central da Venezuela, composto por Ricardo Villasmil, Nelson Lugo, Manuel Rodríguez e Guaicoima Cuius.

Entre os oito considerandos contidos no “decreto” para essa designação ilegal, quatro mencionam a importância de “obter controle” das reservas venezuelanas e do ouro no exterior.

Passo 5: Pacto com Reino Unido

Uma vez desenvolvida toda a arquitetura burocrática, com o apoio dos Estados Unidos, uma série de reuniões é realizada em uma das quais, além do embaixador do Reino Unido na Venezuela, Andrew Soper, esteve presente o chefe da Chancelaria Britânica da América Latina, James Dauris, que, ao sair da reunião realizada em 16 de outubro, confirmou o apoio do governo inglês a Guaidó.

“O chefe da Chancelaria Britânica da América Latina @JamesDauris conversou com o Presidente constitucional interino @jguaido sobre a necessidade de alcançar eleições livres e justas na Venezuela através de um acordo político”.

Em janeiro de 2020, Guaidó estava em turnê pela Europa, que o levou ao Reino Unido, onde se encontrou com o primeiro-ministro Boris Johnson e o chanceler Dominic Raab.

Como resultado dessas reuniões, foi acordada a criação de uma “unidade para a reconstrução da Venezuela” na Chancelaria Britânica, que foi mantida em segredo, até ser exposta pelo jornal britânico “The Canary”, que publicou documentos, onde foi indicado que esta ação buscou estabelecer a promoção das empresas britânicas após a derrubada hipotética do presidente constitucional da Venezuela, Nicolás Maduro.

Após essa revelação, o embaixador venezuelano nas Nações Unidas (ONU), Samuel Moncada, em sua conta no Twitter, denunciou que essa ação do Ministério das Relações Exteriores britânico fazia parte da operação de “saques” que o Reino Unido e Guaidó estavam realizando contra a nação venezuelana.

“Documentos oficiais britânicos revelam a existência de uma “unidade de reconstrução da Venezuela” encarregada de trabalhar com os mesmos criminosos que assinaram o contrato colonial nos EUA para assassinar milhares de venezuelanos. É assim que uma nação é saqueada!”
“O governo britânico busca vantagens comerciais quando Trump estabelece seu regime colonial na Venezuela. Essa é a explicação para o envio de um navio de guerra ao Caribe e a cumplicidade em operações de “pressão máxima” em meio a uma crise humanitária global.”

Passo 6: Consumação do roubo

Dadas essas ações que evidenciaram a estrutura tecida para a remoção de reservas de ouro e, em vista da constante recusa por parte do Banco da Inglaterra de entregar essa herança a seus legítimos proprietários, em 20 de maio de 2020 a Venezuela procedeu a ação contra essa instituição, por quebra do contrato firmado em 2008 com o BCV.

O fracasso desse processo que, por enquanto, favorece os interesses dessa trama orquestrada por um setor da oposição venezuelana, Estados Unidos e Reino Unido, poderia ser a consumação de outra operação de assalto à Venezuela, sob os auspícios de Juan Guaidó, que celebra e se vangloria dessa sentença, que nega aos venezuelanos a possibilidade de transferir esses recursos para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), para que tal como haviam acordado, este organismo adquirisse equipes e medicinas para o combate da pandemia de Covid-19 no país.

Síntese de História da Cultura Brasileira”, 1983. Parte I. 1ª fase.

Fichamento de Cíntia Xavier, originalmente publicado no Medium. Síntese de História da Cultura Brasileira”, 1983. Nelson Werneck Sodré.


1. “A herança cultural” — definição do conceito de cultura:

Para determinar as características da herança cultural brasileira no processo de desenvolvimento histórico, o autor faz uso da definição de cultura encontrada no Dicionário Filosófico Abreviado, de M. Rosental e P. Iudin, Ediciones Pueblos Unidos, Montevidéu, 1950, que a define nos seguintes termos:

Conjunto dos valores materiais e espirituais criados pela humanidade, no curso de sua história. (…) fenômeno social que representa o nível alcançado pela sociedade em determinada etapa histórica: progresso, técnica, experiência de produção e de trabalho, instrução, educação, ciência, literatura, arte e instituições que lhes correspondem. Em um sentido mais restrito, compreende-se (…) o conjunto de formas da vida espiritual da sociedade, que nascem e se desenvolvem à base do modo de produção dos bens materiais historicamente determinados (1950, p. 104 apud SODRÉ, 1983, p. 3).

2. “A herança cultural” — “Origem colonial”:

É preciso distinguir a origem colonial brasileira das origens coloniais de outros povos, e dar atenção ao seu caráter de “civilização transplantada”. A origem do Brasil, a partir do mito da “descoberta”, do processo de colonização, possui como consequência a incorporação do território ao mercado mundial, que começa a existir nesse momento devido a necessidade das grandes expedições marítimas, através da complexificação da organização e divisão do trabalho da produção manufaturada.

Diferente das colônias asiáticas e africanas que possuíam comércio e produção, mesmo em parte, como o caso da segunda, foi necessário para a empresa de colonização brasileira, para a ocupação produtiva do território, a criação de riquezas à base de mercadorias já existentes.

Ou seja, uma grande transplantação do exterior de elementos humanos e recursos materiais para essa ocupação produtiva, cuja a produção está destinada ao mercado externo, “(…) são para aqui transplantados, tanto os senhores — os que exploram o trabalho alheio — como os trabalhadores — os escravos.” (SODRÉ, 1983, p. 5). A importância da colonização, assim, é dada pela quantidade extensa de terra inculta disponível. O autor argumenta que a partir do transplante do modo de produção ocorre, também, o movimento de transplante de uma cultura, uma “cultura transplantada”.

3. “A herança cultural” — “áreas culturais”:

O autor não pretende tratar especificamente sobre os distintos modelos de organização social que os três signos fundantes do processo de colonização brasileiro “o índio, o negro, e o português” faziam parte antes deste acontecimento. Basta apenas ressaltar a heterogeneidade presente na formação da cultura brasileira, onde cada signo trouxe consigo elementos do seu modelo de organização social anterior.

Desse múltiplo processo de conflitos e ajustes, “transitórios ou duradouros” (p. 6), ocorre o processo de “aculturação”. No Brasil colonial é possível, segundo o autor, fazer uma breve distinção de duas áreas culturais: “área de supremacia da cultura indígena [“área amazônica, área sertaneja, área vicentina, área platina”], em extensão, economicamente secundária, com predomínio de relações feudais” (p.6) e “área de supremacia da cultura transplantada, economicamente principal, com predomínio de relações escravistas” (p. 6).

A colônia é definida pelas áreas de supremacia da cultura transplantada, como “capitania de Pernambuco e vizinhanças e capitania da Bahia, depois de revertida à Coroa e sediada no Recôncavo o Governo-Geral” (p. 6), que possuem formas sistemáticas de transmissão da cultura, através de Ordens religiosas, como a Companhia de Jesus, dos jesuítas. E na área de supremacia da cultura indígena existiam formas não sistemáticas de transmissão da cultura, “transmitidas oralmente ou por imitação” (p. 6), com exceção das ordens religiosas presentes.

Em ambas áreas, segundo o autor, são defendidos dois tipos de cultura — da classe dominante e da classe dominada — tendo a cultura dominante o status de cultura oficial. Ambos os tipos de cultura, salvo os elementos que são dos povos indígenas do território, são também transplantados e participam como componentes no processo de “aculturação”. Esse tipo de sociedade colonial não possui “exigências culturais destacadas”, os que recebem o básico do ensino elementar são poucos pertencentes à classe dominante.

O aparelho de Estado, na colônia, é rudimentar; suas funções são providas da metrópole; a ordem pública está submetida à ordem privada. Não há, assim, exigência cultural sistemática a ser preenchida pelo ensino(…). Os poucos elementos cultos — em que se distinguem os religiosos das Ordens — operam com a cultura transplantada. Aqui chega, realmente, mínimo e distante eco das criações renascentistas e mesmo do (…) quinhentismo português. Assim, a cultura parece, ostensivamente, como traço de classe; privativa da classe dominante pouco numerosa (p. 7).

4. “A herança cultural” — “etapas da cultura”:

“Somente para fins de explicação, o desenvolvimento da cultura brasileira pode ser dividido em três “etapas”: A primeira situa o momento da “cultura transplantada” anterior ao aparecimento da pequeno burguesia no Brasil. A segunda, o momento posterior ao aparecimento da pequeno burguesia no Brasil, e a terceira, a que marca o “surgimento e processo do desenvolvimento da cultura nacional, com o alastramento das relações capitalistas” (p. 7).

As primeiras duas etapas pertencem ao período no qual a classe dominante “brasileira” possuía elementos predominantemente escravistas (e feudais) e que desenvolve-se de um momento onde primeiramente não existia uma camada intermediária entre senhores e escravos/servos, para um momento no qual essa camada começa a existir e ter fator influenciador na cultura, entre o início da segunda metade do século XVIII.

A terceira etapa marca a consolidação da burguesia no Brasil com os meios modernos de cultura de massa, contudo, persistindo elementos do modelo pré-capitalista.

Os eventos históricos destacados para exemplificar a passagem do primeiro ao segundo momento são: Tratado de Madrid, em 1750, que “fixa, em linhas gerais, a fisionomia territorial da colônia” (p. 8), a fundação do Seminário de Mariana, no mesmo ano, “assinalando o princípio da passagem da estrutura jesuítica do ensino às outras Ordens e aos leigos” (p.8), 1759, a expulsão dos jesuítas e ruína de seu modelo de ensino de dois séculos e meio, 1762, “Rio de Janeiro passa a ser sede do governo colonial, em decorrência do apogeu da mineração” (p. 8).

E a partir desse apogeu, as condições necessárias para o surgimento da pequena burguesia como elemento econômico e cultural. Já na passagem da segunda para a terceira etapa, é assinalada a Revolução de 1930 como momento determinante para o aprofundamento das relações capitalistas e da ascensão da burguesia como elemento econômico e político.

O novo poder, derivado do movimento político-militar do referido ano, apresenta a burguesia como classe dominante; seu domínio no aparelho de Estado não é absoluto, mas existe nitidamente. (…) A partir de então, as relações capitalistas, que (…) vinham desenvolvendo lentamente, aceleram seu ritmo de desenvolvimento e definem o regime de produção, apesar da vigência ainda, em extensas áreas, de relações pré-capitalistas (p. 9).

5. “Cultura Colonial” — “transplantação da cultura metropolitana”:

A transplantação de um modelo de organização social predominantemente escravista para o território brasileiro no início do século XVI contribuiu de forma determinante para a dizimação dos modelos de organização social existentes no território antes do processo de colonização e para a integração do novo território à lógica mercantil, com produção em larga escala voltada ao mercado externo.

A partir do final do século XVI, a colônia possui traços destacados: a “distância entre o Brasil e a metrópole e os mercados a que sua produção se destina” (p. 12), a “servidão oceânica, impedidas as áreas produtoras de internamento, (…) dependentes do transporte marítimo” (p. 12), e “isolamento das áreas produtoras, sem ligação entre si, vivendo autônomas e esquecidas” (p. 12). A estrutura da colônia equivale a um grande arquipélago econômico e demográfico, onde os centros de “ocupação humana, [e] de áreas produtoras” (p. 12) estão fragmentados, e sua economia é limitada pelo “monopólio do comércio exercido pela metrópole” (p. 12).

A identidade de fins, de propósitos e de métodos [da metrópole para as colônias, e vice versa] neutraliza a dispersão e o isolamento, estabelecendo condições para a unidade cultural; a clausura [econômica] sanciona e acoberta essa unidade cultural. Alicerça-a, ainda, a língua (…) que estabelece a comunidade no meio de transmissão da cultura, apesar do bilinguismo inicial (…). Outro fator de unidade cultural é a religião, pois à “colonização” junta-se a catequese, completando-a, reforçando-a(…). (p. 12)

O bilinguismo do século XVI deveu-se, sobretudo, a ação dos religiosos para a catequização e ensino, na convencionalidade da utilização de uma “língua geral” através do tupi, popularmente falada nas relações comuns, em contraste com a língua oficial, o português, utilizada em “áreas de supremacia cultural transplantada”, além do latim, para as ordens religiosas. Em 1727, uma provisão proíbe a utilização do tupi como língua, devido a sua popularização.

Até a proibição com a provisão, a classe dominante, pouco numerosa, teve que conviver e se utilizar do tupi para tratar das relações comuns, enquanto a língua “culta” da metrópole era utilizada entre pares e incentivada como único e “superior” instrumento oficial de transmissão cultural. A quase “ausência de vida urbana” (p. 13) na colônia, segundo o autor, é também um fator importante para a dificuldade de transmissão cultural. A população estava concentrada nos latifúndios e a as pequenas áreas urbanas eram influenciadas social e economicamente pelos grandes proprietários de terra.

6. “Cultura Colonial” — “transplantação e alienação”:

Devido a expansão das navegações ter sido financiada por nações católicas (e este fato ter se passado depois da Reforma Protestante e da Contrarreforma), o processo de colonização e a catequese para fins de conversão foram instrumentos complementares.

No Brasil, por necessidades próprias da Ordem e por necessidades de exercício do mister da conversão, especializam-se (…) na tarefa do ensino e montam (…) a estrutura que, por dois séculos e meio, assegurou a transmissão sistemática da cultura. (p. 15)

Foi montada uma estrutura com dois planos: as “escolas de ler, escrever e contar” (p. 15), para crianças, e colégios, para adolescentes, onde sobretudo filhos de senhores puderam estudar. O caráter de “transplantação” do modo de produção e da cultura dá uma nova dimensão, para o Brasil, na forma da alienação desenvolvida com este processo de ensino. A cultura brasileira das elites coloniais, segundo o autor, que cita Fernando de Azevedo, pretendia-se um compilado da cultura européia, “neutra”, “internacionalista”, de ideologia católica. Essa alienação, por outro lado, contrastava com a “unidade orgânica, ligada a uma determinada concepção de vida, dominante (…) na metrópole” (p. 16) das ordens religiosas para o recrutamento de novos quadros que fossem ensinados e dessem prosseguimento ao ensino jesuítico.

Os religiosos, que possuíam uma conexão ultramarina, representavam os únicos elementos intelectuais presentes na colônia e, portanto, passíveis de ensinar e formar os primeiros elementos intelectuais do território. Só através do ensino religioso era possível entrar em contato com a escrita, a leitura e os cálculos, uma vez que para quaisquer outra atividade não era necessário ter esse conhecimento. As pessoas letradas dos primeiros decênios, foram, portanto, religiosos, que utilizavam desses conhecimentos para a catequese e para formalidades e abstrações do ofício. O ensino de uma “disciplina escolástica, verbalista e dogmática” (p. 17) permanecia à margem, justamente por sua co-relação com a estrutura da colônia e por seu objetivo último ser, enfim, apenas o da conversão.

Há uma justaposição entre o meio e os intelectuais. O autor considera, portanto, que as condições objetivas da colônia impediam a atividade cultural ampla, que era secundária. Assim, o seu florescer possuiu características particulares, condicionadas historicamente às condições objetivas da colônia, sua estrutura social e econômica, como, citando Fernando de Azevedo, “a facilidade, a graça, (…) a rapidez no assimilar, a ausência (…) de exatidão e de precisão, o hábito de tomar as coisas obliquamente (…)” (1943, p. 114–155 apud SODRÉ, 1983, p. 18), além da tendência ao entendimento dos aspectos mais sensíveis do que formalmente intelectuais.

Sodré ressalta que esses aspectos na formação da cultura brasileira não são “defeitos” advindos da genética ou da geografia, não são inatos, são características da formação cultural colonial que, uma vez que as condições objetivas que as estruturam estejam solapadas, tais características também tendem a se transformar. A catequese também possuiu o efeito de destruição massiva dos valores e expressões indígenas presentes no território brasileiro, substituindo-os gradativamente pela visão de mundo jesuíta.

Há, portanto, uma supressão do modelo de organização social indígena e a transplantação de um modelo de organização social escravista, e, também, de uma “cultura jesuítica” (apesar dessa tarefa cultural empreendida também ter sido vista com maus olhos pela metrópole). Esse espírito cultural dogmático, abstrato, pretensamente desinteressado pelas “coisas do mundo”, e seu instrumento de dominação intelectual e de penetração, fazia parte de um conjunto de traços que, devido as condições objetivas da colônia, iriam consagrar por muito tempo a qualificação do trabalho intelectual e cultural como atividade “preenchedora do ócio”, enquanto o trabalho mecânico e da terra era interpretado como sinônimo de escravidão e relegado às camadas baixas da sociedade.

Uma vez que poucos eram os letrados da classe dominante e ínfimos eram aqueles da classe dominada que possuíam acesso ao conhecimento “formal”, está expresso, portanto, o caráter de classe desta cultura colonial. A formação cultural neste momento está restrita às classes, à “cultura da classe dominante” e à “cultura da classe dominada” e distantes entre si. Os elementos que formam essa distinção, à exceção dos elementos indígenas, são transplantados.

Nesse período inicial, a formação cultural da classe dominante, exceto os desdobramentos culturais do episódio holandês, advém da exportação do modelo metropolitano, de “literatura portuguesa elaborada na colônia” (p. 20). Na classe dominada, “destaca-se a música e sua parceira, a dança” (p. 20) para a suavização dos trabalhos braçais ou ligadas a ritos indígenas e africanos. Ao lado da música religiosa das igrejas, utilizada em cerimônias, há o surgimento da música popular, principalmente a partir da segunda metade do século XVI, com elementos portugueses, indígenas e africanos, através da fusão e criação de novos instrumentos e ritmos musicais, uma das primeiras riquezas da herança cultural brasileira.

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Bibliografia:

DE AZEVEDO, FERNANDO: A cultura brasileira. Introdução ao estudo da cultura no Brasil. Rio, 1943.

SODRÉ, NELSON WERNECK: Síntese de História da Cultura Brasileira. São Paulo. 1983.

Raízes históricas do Nacionalismo Brasileiro, 1959.

Primeira aula do curso regular do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). O discurso de Nelson Werneck Sodré demonstra as aspirações do espectro nacional popular do período. Compartilhamos pela relevância do conteúdo histórico, quer pese as diferenças com o período atual, principalmente no que diz a respeito à burguesia nacional. Publicado originalmente em setembro de 2010 pelo jornal Hora do Povo.


Em obediência a uma praxe estabelecida no ISEB, cabe-me pronunciar a aula inaugural, iniciando o contato com os estagiários neste novo ano de atividades regulares. Decidiu a Congregação, e me parece que acertadamente, versasse esta palestra matéria pertinente ao curso que me cabe desenvolver e atendesse ao interesse generalizado que o Nacionalismo vem despertando entre nós.

Qualquer que seja a posição face a esse fenômeno central da vida política brasileira, nos dias que correm, não há dúvida que representa um fato de importância indiscutível, configurando um quadro em que essa posição deixa de ser indiferente para ser militante.

Só os fenômenos cuja grandeza se traduz por semelhante generalidade e profundidade podem tornar-se divisores de águas. O Nacionalismo, no Brasil, atingiu tal magnitude. Cumpre, pois, analisar as suas raízes, uma vez que, na vida das coletividades, nada acontece por acaso, tudo tem o seu momento próprio e decorre de condições concretas.

A tarefa que me cabe, pois, resume-se em demonstrar, pela análise histórica, que o Nacionalismo não só tem raízes profundas entre nós, como ainda, o que é fundamental, só poderia ter ocorrido agora, e não antes, e não poderia deixar de apresentar-se, nesta fase, com a força que não lhe podem negar, mesmo os seus mais ferrenhos adversários. Entre estes cumpre, desde logo, situar, como esmagadora maioria, os equívocos – aos quais se aplica a frase já bastante conhecida que os define como os que “perderam o fio da história”.

Em todos os momentos, na vida individual como na vida coletiva, há, realmente, uma contradição entre o que está morrendo e o que está nascendo, entre o que pertence ao passado e o que pertence ao futuro. Quando o que nasce adquiriu a força necessária para vencer a resistência do que morre, diz-se que “perderam o fio da história” aqueles que se apegam ao que morre.

Os últimos desaparecem com o próprio passado. Vivem agarrados ao que se dissolve a cada dia, defendendo-se por vezes bravamente, e outras vezes valendo-se apenas de teorias confusas, formulações abstratas e doutrinações subjetivas, em que, não raro, existe o brilho aparente do virtuosismo e uma esmerada técnica no tratamento dos assuntos.

Essa desumanização dos especialistas é, certamente, um dos espetáculos mais tristes da luta entre o que está morrendo e o que está nascendo, no Brasil de hoje, e não espanta nem surpreende que o insulamento em determinado campo específico se assemelhe tanto à defesa de baluartes largamente protegidos por obras artificiais, o fosso, a levadiça, a seteira, de que foi pródiga a crônica medieval.

Humanizar o especialista é, assim, uma das tarefas a que a renovação dos estudos brasileiros se vem propondo, obrigando-o a olhar o que se passa em redor, a sentir a realidade, a compreender aquilo que não está nas suas fórmulas, a responder adequadamente ao concreto, fora de cujo campo tudo definha e se corrompe.

O novo corresponde, por isso mesmo, a uma visão de conjunto, em que as partes se compõem na sua relatividade, e denuncia todas as ideias como historicamente condicionadas, isto é, peculiares a determinado tempo e a determinado meio, e jamais eternas e absolutas, receitas universais diante das quais todos se deveriam curvar sem análise.

Quando determinada formulação, como encantatória, polariza as atenções, ganha o pensamento da generalidade e aprofunda os seus efeitos, nega-la é mais do que uma infantilidade, porque é um erro. Os que, ante o Nacionalismo, que agora empolga nosso País, se colocam na atitude irônica, cética ou negativista, denunciam o rompimento com a realidade, o desprezo pelo concreto, a aversão ao objetivo – “perderam o fio da história”.

Seria difícil fazer a análise desse fenômeno político acompanhando a sua lenta e laboriosa gestação, quase sempre inconsciente. Na impossibilidade de apresentar, na sequência ininterrupta a que o cinema nos habituou, o desenvolvimento daquela gestação, até a sua passagem do domínio inconsciente para o domínio consciente, quando se incorpora à realidade e afeta todas as suas manifestações, preferimos a técnica dos cortes.

No largo, agitado e aparentemente confuso evolver da vida brasileira, selecionamos três cortes apropriados, em três fases características de transformação institucional: a da Independência, a da República, a da Revolução Brasileira. Pela simples comparação dos quadros, verificaremos o que era novo em cada momento, e o que era velho, e como, inevitavelmente, o velho cedeu lugar ao novo – e que o novo de determinada etapa passa a ser o velho da futura, e assim se desenvolve a história, e por isso mesmo é que é história.

Uma estimativa de 1823 admite a existência de quatro milhões de habitantes, no Brasil, e esclarece que, no total, cerca de um milhão e duzentos mil são escravos. Para fins de raciocínio, admitamos que a população tenha sido esta, numa faixa de tempo que vai da segunda metade do século XVIII aos dois primeiros decênios do século XIX – a faixa em que se processa a autonomia. Ela não acontece por acaso: assim como a descoberta e o povoamento foram consequência da Revolução Comercial, a Independência está vinculada à Revolução Industrial.

É a Revolução Industrial que exige a ruptura do regime de monopólio de comércio, que era a própria razão de ser da dependência, naquela fase, em relação à metrópole. Que é a colônia, na segunda metade do século XVIII? Tínhamos atingido, geograficamente, a desmedida expansão territorial que hoje é uma das bases de nossa força. Os limites estabelecidos pelo Tratado de Madrid são, mais ou menos, os limites do Brasil atual.

O povoamento, entretanto, é ganglionar e, nessa imensidade territorial, apenas algumas áreas têm vida econômica ativa. No extremo norte, há uma atividade meramente coletiva, propiciada pelo quadro das especiarias amazônicas e que será substituída pelo primado do algodão maranhense.

No Nordeste, prevalece o regime escravista, com a produção açucareira atravessando uma crise que provém da concorrência, que a metrópole agrava com as taxas, e da valorização do escravo, acarretada pela mineração.

No Centro, a atividade mineradora inicia o seu declínio, depois de ter aberto as perspectivas de um mercado interno que impulsiona inclusive a circulação terrestre, com os tropeiros, os registros e o sistema fiscal extorsivo imposto pela Coroa.

No Extremo Sul, com o advento da charqueada, a carne apresenta-se agora como bem econômico; em vez de lutar apenas pelo gado, o gaúcho terá de lutar também pelas pastagens; os campos começam a sofrer a apropriação, surgem os aramados e o espaço livre fica reduzido aos “corredores”. Toda a produção colonial se destina aos mercados externos, salvo o charque. Nela avulta, pelo seu caráter específico, o ouro. É a mineração, realmente, que inaugura uma etapa diferente na vida brasileira do século XVIII.

O sistema colonial fundamentara-se, desde o início, no binômio terra-escravo – mas é inegável que o escravo era mais importante do que a terra, era mesmo a mercadoria por excelência. O desenvolvimento açucareiro articulava-se numa divisão de atividades e de lucros: ao senhor territorial pertencia a produção, à metrópole pertencia a circulação.

Enquanto essa divisão funcionou de modo a proporcionar vantagens a cada uma das partes, a classe dos senhores de terras e de escravos, que era a classe dominante, funcionou na colônia como mandatária da metrópole, era a sua procuradora natural, a sua representante, uma vez que os interesses eram comuns.

Ora, tal divisão não ocorreu na área mineradora: a metrópole operou a fundo uma total invasão do domicílio do explorador direto, fazendo-se dona do que era produzido e da transformação do que era produzido em valor. Não existiu, assim, na área mineradora, a mesma comunhão de interesses entre a classe dominante e a Coroa. Os motins sucessivos assinalam essa contradição. Ao aproximar-se o fim de século, a Inconfidência Mineira revela o clima que ali se criara.

Do ponto de vista social, a população se repartia em senhores de terras e de escravos, que compunham a classe dominante, e pessoas livres, que não viviam da exploração do trabalho de outrem, constituindo-se uma camada social instável, sem função na estrutura vigente e sem qualquer poder político. O aumento numérico dessa camada intermediária – uma vez que depois dela vinha o escravo, sem nenhum direito, objeto de troca e instrumento de trabalho – constitui o fenômeno importante da segunda metade do século XVIII.

Tal camada constitui o mercado interno que aparece no centro-sul. Uma parte gera a incipiente vida urbana que então começa marcar o quadro colonial; outra parte vai operar a transição do regime escravista para o regime feudal e semifeudal, que o substitui em vastas áreas, particularmente no interior. O elemento livre, insuscetível de escravização, transforma-se em servo.

A parte que vive nas vilas e cidades, e que forma o grosso dos quadros administrativos, representa a fração instável, que alimenta as conspirações e os motins. No quadro minerador, ela tem importância – como no sul pastoril – porque preenche determinadas funções, a militar, a religiosa, a judiciária: a Inconfidência Mineira será uma conspiração de padres, letrados e militares.

Tal cenário não apresenta sintomas de alteração até o momento em que a conjugação entre o interesse da classe dominante e o interesse da metrópole não sofre perturbações. A crise açucareira traz a primeira perturbação; a espoliação mineradora agrava o problema. A ideia de libertação, de rompimento dos laços de dependência, surge primeiro na camada intermediária, porque é a mais profundamente interessada em alterar a estrutura vigente.

O Brasil está, no entanto, suficientemente fragmentado para que a metrópole trate cada um dos focos de per si, reduzindo-os brutalmente, e bastante submisso, porque a classe dominante receia lançar-se à empresa da luta contra a taxação. Qualquer movimento, nas condições da época, que não contasse com o apoio da classe de senhores territoriais e de escravos estava condenado ao malogro. Qualquer movimento que não superasse a fragmentação geográfica, por outro lado, estava sob a poderosa ameaça de um tratamento isolado.

Ora, a Revolução Industrial, no quadro externo, vem proporcionar justamente as condições que faltavam aqui. O aumento vertical, produzido pela máquina, no volume e na variedade das mercadorias, impunha a abertura de novos mercados e a ampliação dos existentes.

Quando Napoleão invade a península ibérica, derrocando as cortes metropolitanas, cria a circunstância favorável à reforma que se impõe nas áreas coloniais americanas. À Inglaterra, que comanda a transformação econômica, interessa rasgar a clausura, romper o regime de monopólio comercial, eliminar as metrópoles intermediárias, estabelecer a troca direta.

Isto interessa também à classe dominante colonial, que, eliminando o monopólio que a metrópole mantém sobre a circulação, vai realizar os valores do que produz em seu próprio benefício. Deixa de associar-se à metrópole para associar-se à burguesia européia. À Inglaterra interessa, ainda, a transformação do regime de trabalho: a ampliação de mercados só é possível onde o trabalhador vive de salário. Daí a sua pressão contra o tráfico negreiro e o trabalho escravo.

Mas nesse ponto não encontra apoio na classe dominante colonial, interessada no comércio livre, mas não no trabalho livre. Os acontecimentos mostram o acordo que se estabelece entre as forças em presença: a abertura dos portos, a montagem de um aparelhamento administrativo próprio, a Independência, o reconhecimento da Independência e a prolongada luta inglesa contra o tráfico.

Essa luta corresponde, no Brasil, a uma resistência da classe dominante, que se prolonga praticamente da Independência à República. Essa classe tinha condições para durar na resistência porque se valia do crescimento vegetativo da massa escrava. Os elementos diretamente ligados ao tráfico negreiro, investimento importantíssimo na época, não tinham, porém, a mesma capacidade de resistência, e há, desde então, uma progressiva transferência de capitais daquela atividade para outras, inclusive as que aparecem na segunda metade do século XIX, após a lei Eusébio de Queirós, atividades de transporte, atividades industriais, serviços públicos etc.

O cenário em que se processou a Independência apresenta-nos alguns aspectos interessantes. Convém destacar aqueles que mostram a solução das contradições então existentes. Em primeiro lugar, é fácil perceber que o Brasil não tinha povo e, assim, a sua sorte seria decidida quando a classe dominante, de senhores de terras e de escravos, esposasse o ideal da emancipação. Em segundo lugar, é ainda fácil perceber que a emancipação seria limitada àquilo que interessasse à classe dominante, única a deter poderes suficientes para lutar.

Por último, é ainda interessante acentuar que, apesar de tudo, quando a referida classe aceita a participação numa empresa como a da autonomia e pretende configura-la à sua imagem e semelhança, está lançando a semente de transformação futura, quando não será a única a decidir de uma transformação. Pode, na segunda década do século XIX, negar a abolição do trabalho escravo; na penúltima, estará interessada na abolição. Cada fase traz em germe, assim, a transformação posterior.

2

Vejamos, agora, da mesma forma sumária e com as deficiências peculiares ao inevitável esquematismo, como se apresenta o quadro em que o Brasil abandona as instituições monárquicas e adota o regime republicano. O quadro físico é constante e não há que referir os seus aspectos.

A população cresceu, entretanto, o cálculo, agora, apresenta quatorze milhões de brasileiros. Isto, por si só, seria importante. Mais importante, porém, é a composição demográfica: os escravos, no momento da abolição, mal somam setecentos mil, e há províncias que se livraram desse regime de trabalho sem grandes tropeços, antes mesmo da lei de 1888.

Dos quatorze milhões, calcula-se em trezentos mil os que são proprietários, compreendido os parentes e aderentes. Há, então, maioria esmagadora de não proprietários, e já não há escravos. São todos trabalhadores livres, repartidos em classes: é possível mencionar a existência de uma classe média e naturalmente uma classe média peculiar a um povo de formação colonial.

É possível falar em trabalhadores, embora seja ainda prematuro falar em operários. Há operários porque há indústrias – indústrias de bens de consumo, naturalmente, que explicam o crescimento do mercado interno e a transferência de capitais de determinadas áreas de aplicação para outras –, mas tais operários, recrutados nas sobras do campo, já nesse tempo, ou nas correntes imigratórias, carecem de significação política.

Há muitas atividades novas, além das indústrias: cresceu desmedidamente o aparelho do Estado, aparecendo o malsinado, mas bem pouco analisado, empreguismo; desenvolveu-se muito a atividade mercantil, tanto no setor interno como no setor externo. Em determinadas faixas, particularmente as litorâneas, há um mercado consumidor apreciável.

As oscilações da política econômica e financeira refletirão esse novo quadro. Nele há, evidentemente, contradições, que, em todo o decorrer da segunda metade do século XIX, não cessam de crescer. Começa a ruir muito depressa a velha estrutura colonial. Em grandes áreas, há sinais visíveis de uma existência que busca assemelhar-se à européia.

Na última parte do século XIX, realmente, operaram-se, no Brasil, transformações de importância. Algumas são ostensivas, não escapam à observação de qualquer viajante: há, agora, um quadro urbano específico, em que a divisão do trabalho apresenta a sua variedade; há serviços públicos que oferecem um mínimo de conforto às populações citadinas, particularmente para a locomoção e a iluminação; há meios de transmissão do pensamento, como o telégrafo e, depois, o cabo submarino; há meios de transmissão de ideias, como a imprensa e o livro.

As profissões ditas liberais – e assim chamadas porque peculiares aos homens livres – ampliam os seus horizontes. O comércio cresce e já movimenta importante volume de mercadorias. O aparelhamento administrativo está sempre a exigir novos quadros e nele começa a se destacar o setor financeiro. A embrionária rede bancária das primeiras décadas do século foi substituída por uma estrutura de crédito que mostra a sua importância logo depois da República, quando surge a questão da pluralidade nas emissões.

Como estamos ainda na fase em que tem cabimento o lugar-comum de que somos um país “essencialmente agrícola”, é fácil verificar que todas essas transformações e todas essas inovações se originam no campo. O que aí se passou, realmente, altera bastante o panorama brasileiro.

O açúcar, que detinha posição ainda importante, quando da Independência, estava agora praticamente alijado dos mercados externos, e os elementos ligados à sua produção dependiam de medidas protetoras do Governo. Surgira o fenômeno da borracha, trazendo muitas e desmedidas ilusões. Cacau, tabaco, madeira, couros, figuravam na exportação. Mas, nela, aparecia, com índice ascensional e força extraordinária, o café.

Partindo do Município Neutro e ganhando as terras fluminenses para, depois, passar ao Vale do Paraíba, o café fizera a grandeza do Império, alicerçara o primado do centro-sul, fundamentara a tarefa unificadora e centralizadora empreendida pela monarquia e, principalmente, dera à balança do comércio externo os saldos que permitiram ao Brasil realizar as transformações ostensivas já mencionadas.

É do café, realmente, que surgem os recursos para o aparelhamento material do País, a manutenção do aparelho político e administrativo, a construção dos portos e ferrovias. Dele originaram-se, ainda, e com função destacada, os capitais que, em circunstâncias favoráveis, foram investidos em atividades industriais.

Quando o século se aproximava do fim, a lavoura do café não só se libertara do regime escravista como aceitara transformações outras que a estrutura ainda colonial da produção açucareira tornava impossíveis. Há, no Brasil, no fim do século, uma área agrícola estacionária.

Nesta, aparece um mercado interno cuja capacidade de consumir vai em ascensão contínua; nesta, a capacidade aquisitiva apresenta aquela paralisia que hoje nos alarma. O monopólio prático dos mercados proporciona ao ritmo ascensional da expansão cafeeira uma espécie de euforia. Nos fins do século, e principalmente nos primeiros anos do século seguinte, começam a aparecer os primeiros sinais de que a euforia não tinha sólidas bases.

O cenário da sociedade é também muito diverso daquele que a Independência apresentava. A classe dominante continua a ser a dos senhores de terras. Já não são senhores de escravos, porém – e a transformação fundamental está na passagem do regime escravista para um regime latifundiário e feudal, em que o pequeno produtor sem posses está vinculado ao senhor de terras por laços não institucionais.

Há, por outro lado, uma cisão, que tende a se aprofundar, entre os que ancoraram nas lavouras velhas, seja de açúcar, seja de café, numa atividade predatória a que só por eufemismo se pode chamar de agricultura, e os que exploram a terra sob o regime de trabalho a salário, embora esse regime sofra os agravantes próprios de um meio em que o trabalho livre ainda sofria as mazelas do longo domínio do trabalho servil.

De qualquer modo, os interesses do senhor do engenho não são, face a alguns problemas importantes, os mesmos do fazendeiro de café, os deste divergem dos que se especializaram na criação pastoril, e o seringalista se apresenta com uma face também diferente. A classe dominante diverge, em algumas faixas importantes, entre as quais passa a destacar-se a do câmbio e a do regime de trabalho.

Aquela camada média que, desde a mineração, surgira em algumas áreas, e particularmente no centro-sul, crescera em número e encontrara acomodação social com a multiplicação das atividades. Embora estivesse comprometida em suas atividades pela origem de grande número de seus componentes, recebera também consideráveis reforços de outra origem e, entre estes, avultaria o dos militares de terra. O desenvolvimento das atividades comerciais lhe fornecera parcela ponderável.

A decomposição familiar da classe dominante já apresentava o espetáculo dos detentores de nomes tradicionais que se resignavam em modestos cargos públicos. Quando da passagem do século, os cursos jurídicos que, na sua fundação, se destinavam a prover, com elementos classificados – numa época em que o diploma e o anel de grau classificavam –, os quadros do Estado, particularmente os políticos, começavam a mostrar razoável contribuição de elementos qualificados.

Vinha, por último, a classe que fornecia o trabalho manual, a que a tradição servil duplamente onerara, com o estigma e o baixo nível de remuneração, repartida desigualmente entre o campo e a cidade, naquele reduzida a condições de vida próximas da servidão ou especificamente de servidão, e nesta limitada a determinados setores que a estreiteza do artesanato permitia e o número reduzido de estabelecimentos fabris e comerciais proporcionava.

Que era povo, na fase a que nos referimos? Povo era tudo aquilo que não vivia do trabalho de outrem e compreendia, portanto, a maioria esmagadora da população. Nesse total bruto, no entanto, é fácil verificar um líquido, reduzido numericamente, de elementos que estavam interessados na vida política, entendida em toda a sua amplitude. A estes, a estrutura do regime monárquico não conferia papel algum, e a própria escolha eleitoral, ainda depois da reforma da lei primitiva, discriminava profundamente. Nos últimos anos do Império, era ainda possível fazer um senador vitalício com duas centenas de votos.

A monarquia estivera, desde a Independência, na posição de mandatária da classe dominante, dos senhores territoriais, que enobreceu com títulos. Representara, naquela fase de transição, a saída mais fácil, a ânsia em manter tudo o que era colonial, não sendo colônia. À medida que o Brasil se transforma, e se transforma relativamente depressa na segunda metade do século XIX, o regime se incompatibiliza com os seus suportes naturais. Caminhava para a situação em que decaiu, de uma aposentadoria por inútil.

Desde os fins da guerra com o Paraguai, novas ideias atraíram os elementos novos na sociedade. A força do que era velho, porém, ainda era muito grande, e o malogro da experiência pioneira de Mauá demonstra, com clareza exemplar, a falta de ressonância econômica para os empreendimentos de sentido progressista.

Que era o velho, nos fins do século? Era o trabalho servil, o regime monárquico emperrado, a centralização, a política financeira ortodoxa, a falácia da solução dos contínuos empréstimos externos, a franquia total aos investimentos sob garantias as mais amplas, como aquela que permite a uma ferrovia a exploração monopolista, por noventa anos, do transporte entre o maior centro distribuidor e o maior centro exportador do país.

Na época da Independência, qualquer transformação dependia do apoio da classe dominante de senhores de terras e de escravos. A composição social e os interesses em jogo agora eram outros – mas a classe dominante permanecia a mesma. Qualquer transformação dependia ainda de seu apoio, embora não mais de um apoio unilateral.

A República decorre justamente da composição de forças entre uma classe média que disputava a participação no poder e de uma fração da classe dominante cindida, aquela que se emancipara do que o Império era a representação característica, a lavoura nova do café. Quando a circunstância favorável surge, essa composição de forças não tem mais do que alijar o trono. A partir daí, no entanto, assiste-se a um movimento inverso: a luta da classe territorial para expulsar do poder os elementos de classe média, que eram os militares, recompondo-se, para isso, a unidade dos velhos tempos.

A referida luta é que provoca os incidentes do governo de Deodoro e, principalmente, os que pontilham o período em que Floriano detém as rédeas do poder. Um cronista apressado, de quem se repete informação inidônea, afirmou que a queda do Império fora assistida com indiferença pelo povo.

A falsidade da informação fica demonstrada no largo movimento de opinião que permite a Floriano resistir às correntes que contra ele se montam, movimento apaixonado, vibrante, trazido para a rua e, mais de que isso, desembocando na arregimentação de forças, que é a defesa do Rio contra a esquadra rebelada. Floriano representa, tipicamente, a classe média, que começa então a disputar um papel político. E a própria difusão do positivismo nessa classe revela a solução fácil que permitia a defesa de posições progressistas sem rompimento com valores éticos tradicionais.

A composição entre a classe média e a facção economicamente mais poderosa da classe territorial seria rompida com os episódios que se seguem à proclamação do novo regime. E terminaria, com os presidentes paulistas, isto é, os representantes da lavoura cafeeira, por conduzir a um total alijamento da classe média. Esse alijamento se completa quando Campos Sales chega ao poder.

Define-se, em seu governo, pela reforma dos empréstimos externos, com o serviço das dívidas previsto no funding, pela orientação financeira, que pretende paralisar o assustador desenvolvimento, para a época, de novas empresas – de que o episódio do encilhamento fora uma singular caricatura –, e, particularmente, pela chamada “política dos governadores”, que consistia em entregar os Estados às oligarquias, para que os explorassem como fazenda particular.

Dentro dessa repartição de poderes – em que o governo central, para realizar a sua política financeira, buscava a paz por meio da transformação política do país em feudos federados – os pleitos eleitorais eram resolvidos sumariamente pelas combinações de cúpula, no revezamento entre representantes dos grandes Estados, e pela execução resumida nas atas falsas e nos “reconhecimentos” adrede preparados. Reinava a paz em Varsóvia.

Tudo isto significava, na verdade, que a classe dos senhores territoriais, de proprietária natural e indisputada de coisa pública, que fora no Império, necessitava agora articular todo um complicado sistema de compressão para defender o seu predomínio.

E a República, por isso mesmo, vai assistir a uma sucessão de tumultos, de motins, de perturbações, de que as mais características são as campanhas de Rui Barbosa, particularmente a segunda, as “salvações” empreendidas pelo Governo Hermes, a revolta da esquadra com João Cândido para, em pleno século XX, abolir a chibata e, finalmente, o movimento tenentista que reflete, com a força crescente da classe média, as inquietações represadas.

Revolta da Chibata, 1910. Marinheiros apontam canhões para o Rio de Janeiro para exigirem melhores condições de trabalho.

3

Vejamos o terceiro corte, que ocorre com a Revolução Brasileira, isto é, praticamente em nossos dias. O seu processo tem início com a Revolução de 1930. Pouco estudado, até agora, esse episódio característico, que constitui um divisor de períodos históricos, marca, outra vez, a composição entre uma facção da classe dominante de senhores territoriais – representada, no caso, pelo governo de três estados da federação, e a classe média, representada particularmente pela contribuição tenentista.

Da parte da classe trabalhadora há uma expectativa simpática. A nova composição, a que se sucederá, outra vez, a luta interna pelo poder e o rompimento consequente, opera-se agora, porém, em condições muito diversas: a classe dominante é menos poderosa, a classe média é mais forte, a classe trabalhadora começa a participar da vida política. Essa composição traduzia as alterações ocorridas no campo econômico, entre a República e a Revolução.

A mais grave, pelas suas implicações imediatas, foi a que afetou o regime da monocultura. O café passara de predominante a absoluto, na balança de comércio externo, tornando-se o eixo da vida nacional. Tudo o que produzíamos era consumido no interior, menos o café, que fornecia os recursos com que nos aparelhávamos. Enquanto dominamos os mercados, tudo correu mais ou menos normalmente, traduzindo-se na euforia a que nos referimos.

Nos fins do século XIX e particularmente no início do século XX, o cenário já não era o mesmo, e sucessivas crises surgiram no mercado externo. Tais crises, com o domínio político da classe territorial, correspondiam, sucessivamente, a uma concentração dos lucros e uma distribuição magnânima dos prejuízos – tratava-se, em suma, de socializar as perdas. Essa socialização singularíssima vai provocar a contradição entre a classe territorial e as demais classes.

Mas existe ainda a contradição entre os senhores de terras que produzem café e dependem da exportação e de toda a política econômica, particularmente da tarifa e do câmbio, que regula a exportação, e os que produzem o que se destina ao mercado interno.

Esse mercado interno corresponde agora a uma população da ordem de cinquenta milhões, caminhando para setenta milhões em nossos dias, não sendo demais admitir que, no total, o mercado seja representado por vinte a trinta milhões. Trata-se, é bem de ver, de um mercado de importância. E tanto é importante que vem merecendo tratamento especial da parte das forças econômicas externas, que o disputam, e quase sempre o conquistam, em condições também quase sempre onerosas para as forças econômicas internas, cujo crescimento é acelerado.

A pressão externa, que não cessa de avultar, sofre, porém, três pausas pouco intervaladas: a guerra mundial de 1914-1918, a crise de 1929 e a guerra mundial de 1939-1945. Essas três pausas permitem à estrutura nacional de produção dar três saltos e, mais do que isso, altera fundamentalmente a fisionomia econômica do país.

Seria impossível analisar em detalhes os efeitos dessas pausas, aqui. Cumpre mencionar, no entanto, que permitiram à capitalização nacional o transitório desafogo em que fortaleceu para enfrentar as pressões inexoráveis que se sucederam a cada uma.

Essa capitalização operou-se particularmente pela possibilidade de montar um parque industrial de substituição de importações, com todos os reflexos que tal industrialização espontaneamente acarreta, e pela possibilidade de transferir recursos de um campo para outro, do campo agrícola para o industrial, do campo do café para o do algodão etc.

A pausa nas importações, por outro lado, permitia, também espontaneamente, que se acumulassem recursos no exterior. A dilapidação impressionante desses recursos, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial, corresponde a um dos erros mais clamorosos já cometidos contra o país – e mostra como a classe dominante não atendia aos interesses do conjunto, mas apenas aos seus próprios interesses.

Se a transformação na economia fora profunda, na fase que decorre entre os antecedentes da Revolução de 1930 e os nossos dias, a transformação social lhe refletira os efeitos com celeridade surpreendente. A classe dominante continuaria a ser representada pelos senhores territoriais, mas já sem condições para manter-se sozinha no poder e, progressivamente, sem condições para orientar a vida nacional segundo os seus exclusivos interesses.

O crescimento numérico e o amadurecimento político da classe média foi um fenômeno de importância inequívoca, cujos reflexos logo se fizeram sentir na seriação dos acontecimentos, seguindo as oscilações próprias dessa classe. O fator mais importante, porém, seria o advento de uma classe trabalhadora em que o operário definia nitidamente o seu campo e entrava a participar da vida política com uma força inédita no Brasil.

A pressão das forças econômicas externas encontrava resistências ou apoios diferentes e contraditórios nessa estrutura social que traduzia as transformações ocorridas na estrutura econômica interna. A velha associação entre a classe territorial e a metrópole, sucedida pela associação entre a classe territorial e a burguesia européia que liderava a Revolução Industrial, seria substituída pela associação entre aquela classe e as forças econômicas externas que lutavam pelo domínio do mercado nacional.

Havia perfeita consonância de interesses entre umas e outras. A referida classe declinara em poder, efetivamente. Mas, na mesma medida que perdia sua própria força, recebia uma ajuda importante do setor da burguesia vinculado ao comércio exterior. Pela função que o comércio exterior exerce, quem o controla adquire o controle do país. Assim, as contradições tornaram-se flagrantes na disputa pelo mecanismo que se refere a mercadorias, mas também, e principalmente, no que se refere ao movimento de capitais.

Este movimento, por sua vez, trazia a contradição para o mercado interno, disputado pelo investimento nacional, enfrentando todas as dificuldades, e pelo investidor estrangeiro, coberto de todas as proteções. A progressiva e inexorável expulsão dos capitais nacionais das áreas de alta rentabilidade agravou profundamente o choque de interesses. De outra parte, a velha regra de socializar os prejuízos encontrava, cada vez mais, resistências tenazes e politicamente organizadas quer na classe média, quer na classe trabalhadora, a que se atirava, de preferência, o ônus de uma continuada espoliação.

É curioso que se tenha levantado, nesta fase, o problema da não intervenção do Estado na vida econômica, cobrindo-se algumas de suas intervenções, não combatidas, sob o eufemismo de “ação supletiva”. Qualquer estudante de curso secundário sabe que a intervenção na vida econômica existe desde que o Estado existe.

Não provocou debate e controvérsias enquanto a posse unilateral do poder ocultava o problema, uma vez que o Estado funcionava, na tonalidade de suas manifestações, como instrumento de uma só classe. O que traz a controvérsia a primeiro plano, encoberta, aliás, quase sempre, por abstrações doutrinárias, e não clarifica pela situação concreta, é o fato, novo na vida brasileira, de agora termos no poder, não apenas a classe territorial, mas esta e representações ponderáveis da classe média, daquilo que se convencionou chamar de burguesia nacional.

Uma vez que o Estado ora atendia aos interesses antigos, ora aos novos, tornava-se necessário levantar o problema de um Estado neutro, abstrato, subjetivo, que realizasse o milagre de não existir, porque proibido de atuar, todas as vezes em que sua intervenção tende a favorecer ou simplesmente a tolerar as forças novas, agora presentes e mobilizadas em nosso país.

Todas essas contradições deveriam provocar reflexo na vida política, agitando-se, sob os mais diversos pretextos. O amadurecimento proporcionado pelo novo cenário em que vivemos, quando as classes definem precisamente os seus campos e mobilizam-se para a defesa dos interesses, intervindo na escolha eleitoral e na composição das forças e na constituição do poder, configura o espetáculo de tomada de consciência a que vamos assistindo.

É nesse espetáculo que aparece, como uma singularidade para os desatentos, com profundas razões para os pesquisadores, o problema do Nacionalismo. Por que Nacionalismo? Porque, agora, são as forças econômicas externas o mais poderoso obstáculo ao nosso desenvolvimento, e os seus aliados internos declinam em resistência, já não tutelam o país.

Realizar-se nacionalmente, para um país de passado colonial, com estrutura econômica subordinada a interesses externos, corresponde a uma tarefa em muitos pontos idêntica à que os países europeus realizaram, no alvorecer da Idade Moderna, com a derrota dos remanescentes feudais e o avanço da capitalização. O que, para eles, eram as relações feudais, antepondo-se ao desenvolvimento, é, para nós, tudo o que reflete ainda o passado colonial.

O Nacionalismo apresenta-se, assim, como libertação. De seu conteúdo libertador provém o teor apaixonado de que se reveste e que leva os seus opositores a considerá-lo mais como paixão do que como política. Conviria acentuar, no caso, que não existe paixão pelo abstrato, e que o Nacionalismo traduz uma verdade – a verdade do quadro histórico, e a verdade é concreta.

Aos que sentem dificuldade em situar o Nacionalismo no campo econômico, julgando falsas as afirmativas de que se apresenta como um escudo ante formas variadas de verdadeira agressão externa, é talvez mais claro o quadro político cujas linhas estão precisamente definidas.

Nesse cenário, o Nacionalismo representa o ideal democrático, só esposado pelas classes em ascensão, que necessitam da liberdade como o organismo humano de oxigênio, que vivem do esclarecimento da opinião, que precisam discutir e colocar de público. Precisam, mais do que tudo, do apoio popular, e só isso revela o caráter democrático, essencial, da posição nacionalista.

As forças opostas, muito ao contrário, perderam as condições para a vida ostensiva e exercem variadas e repetidas tentativas de limitação de franquias, de restrições às opiniões, de redução do jogo político às velhas fórmulas da combinação de poucos, das decisões clandestinas, das articulações de cúpula, com um horror característico ao que é popular.

O Nacionalismo aparece, pois, num cenário histórico em que é a saída para uma situação real difícil, cujos sintomas ocorrem na existência cotidiana. Corresponde a um quadro real, a necessidades concretas – não foi inventado, não surge da imaginação de uns poucos, não vive da teoria mas da prática.

É uma solução espontânea, e esta aparece como das suas limitações e traduz a dificuldade em assumir formas organizadas de luta política. Organizado, é invencível. O teor de paixão que o acompanha, sinal positivo de sua força e não sintoma de fraqueza, assinala a generalidade e a profundidade de seus efeitos: revela que o Nacionalismo é popular, o que não pode surpreender a ninguém, uma vez que só é nacional o que é popular.

Não procedem as comparações, solenemente apresentadas, como acusatórias, de que o Nacionalismo é historicamente inatual – o colonialismo também o é – e que pode levar ao que levou em outros países, em particular na Alemanha e na Itália, recentemente.

Esta claro que o Nacionalismo pode levar a tudo, mas não há qualquer parentesco entre a situação apresentada por um país como o Brasil, de estrutura econômica ainda fortemente eivada de colonialismo, e as nações, como as apontadas, em que a ordem capitalista estava plenamente instalada. E seria simples, aliás, estabelecer as distinções pela comparação fácil: as forças econômicas que ajudaram o nazismo e o fascismo são as mesmas que se opõem, aqui, ao surto nacionalista.

O Nacionalismo surge da necessidade de compor um novo quadro conjugando interesses de classe, reduzindo-os a um denominador comum mínimo, para a luta em defesa do que é nacional em nós. É o imperativo de superar a contradição entre a burguesia nacional e a classe trabalhadora que adota o Nacionalismo como expressão oportuna de uma política.

É a compreensão de que só passando a segundo plano, sem negá-la ou obscurece-la, a contradição entre a classe que fornece o trabalho, e que ganha em consciência cada dia que passa, e a classe que necessita realizar-se pela capitalização com os recursos nacionais e seu adequado aproveitamento, poderemos subsistir como nação que apresenta o Nacionalismo como solução natural e lhe dá essa força, essa penetração e esse poder catalisador que a simples observação registra.

Criar todos os obstáculos à composição de um quadro em que se harmonizem as forças interessadas no desenvolvimento nacional, torna-se, assim, a tarefa essencial dos que lutam contra o Nacionalismo, dos que nele vêem a ameaça direta ao que representam, dos que verificam a existência de uma possibilidade para o Brasil superar o que nele existe de colonial, realizando-se como nação.

O processo mais simples para dividir as forças cuja tendência natural é a articulação, consiste em estabelecer como fundamental a contradição que as separa, agravando as condições de vida, para levar ao desespero os que trabalham e à angústia os que compõem a gama variada da classe média.

Daí os perigos de uma política econômica e financeira que gera as condições de incerteza e propicia as de subversão, e as anomalias de exportar capitais a um país faminto de capitais, de criar dificuldades ao aparelhamento das empresas que operam com capitais nacionais, de sistematizar a desesperança dos que têm o direito de esperar tratamento igual, quando não preferencial, pelo simples fato de aqui viverem, investirem e trabalharem.

Ora, que é velho e que é novo, nesta fase? É velho, sem dúvida, o quadro do campo, em que relações semifeudais impedem a ampliação do mercado interno; é velha a política de socializar os prejuízos, reduzindo o poder aquisitivo da massa demográfica ascendente; é velha a orientação de relegar o Estado à inércia; é velho o mercantilismo que se traduz numa curva ascensional em volume e decrescente em valor; é velha uma norma que nos aprisiona nos moldes de fazenda tropical produtora de matéria-prima para industrialização externa; é velho o que nos subordina a razões externas, por legítimas que sejam no exterior; é velha, particularmente, a ideia de que o Brasil só se pode desenvolver com ajuda alheia e, principalmente, com capitais estrangeiros.

E que é novo? Nova é a composição social que inclui uma burguesia capaz de realizar-se como classe e começa a compreender que a sua oportunidade é agora ou nunca, e que apresenta a classe média atenta e ideologicamente receptiva, pela maior parte de seus elementos, ao clamor que se levanta do fundo da história no sentido de que nos organizemos para a tarefa que nos cabe realizar, e uma classe trabalhadora que adquiriu consciência política e se mobiliza, a fim de partilhar do empreendimento nacional, vendo nele a abertura de perspectivas ao seu papel histórico. Novo é, pois, o povo.

Nada ocorrerá mais sem a sua participação. Nova é a indústria nacional, superada a etapa de bens de consumo e iniciada a de bens de produção, limitada embora pelo atraso na capacidade aquisitiva do mercado interno e onerada por uma política de obstáculos e de dúvidas. Volta Redonda é o novo que afirma a nossa capacidade de realização sem interferências. Novo, em suma, é o Nacionalismo que corresponde ao que nos impulsiona para a frente e rompe com o que nos entrava e entorpece.

Entre o novo e o velho, a escolha não é difícil. Entre o passado e o futuro, a dúvida não existe. Nós escolhemos o futuro. Não pretendemos “perder o fio da história”.