[N. WERNECK SODRÉ] A SUBORDINAÇÃO DA AMÉRICA LATINA — O GOVERNO MILITAR SECRETO pt. 1

Primeira parte extraída da obra “O governo militar secreto” (1987) de Nelson Werneck Sodré. A política imperialista dos Estados Unidos para a América Latina evidencia sua visão para o continente americano e seu papel como monopolizador militar, político e econômico, subordinando os demais países a seguirem sua agenda. Para essa subordinação, além dos artifícios militares, é importante a articulação institucional para manter as aparências de “legalidade” e consolidar a forçada adesão dos demais países da região, constrangendo-os, inclusive, a cortar relações com aqueles que os Estados Unidos julgarem incompatíveis com seus objetivos de controle econômico e político mundial. O Brasil, maior país da América do Sul, teve — e ainda possui — um espaço de importância para o “tabuleiro” americano, na qual nossa submissão aos Estados Unidos representou um maior domínio estado-unidense na parte sul do continente, ao possibilitar a estes a utilização de nosso país como auxílio as intervenções políticas e militares na América do Sul. Para isso, é claro, o golpe de 1964 receberia suporte como um assentador dos interesses da geopolítica americana.


Em 2 de dezembro de 1823, o presidente James Monroe fez saber às potências europeias que os Estados Unidos não admitiriam mais interferências nos assuntos latino-americanos. Como se sabe, tais interferências não cessaram por isso, e mesmo nas vizinhanças dos Estados Unidos, a França operaria uma intervenção militar, a aventura mexicana, cedo malograda.

O fato é que a declaração do presidente Monroe ficou estabelecida como doutrina, invocada sempre que os Estados Unidos tiveram necessidade de agir para reservar-se o direito à exploração do continente, excluindo dessa exploração os concorrentes de além-mar.

A Doutrina de Monroe, no fim de contas, significava apenas que os Estados Unidos se arvoravam em monopolizadores dos mercados latino-americanos e das riquezas dos países desta parte do mundo.

Durante longo tempo, foi apenas doutrina; enquanto se desenvolvia o capitalismo norte-americano, passou a tornar-se fato, de vigência efetiva; a partir da etapa imperialista, constituiu teoria e prática incontestadas.

Como os norte-americanos conceberam a Doutrina de Monroe pode ser avaliado por algumas das operações realizadas sob a invocação da declaração de 1823, entre as quais merecem destaque especial aquela de que foi vítima o México, que perdeu mais da metade de seu território, em benefício de seu bom vizinho, território que constituiria os Estados do Texas, Califórnia, Arizona e Novo México, com mais de um milhão de quilômetros quadrados de superfície; aquela de que foi vítima a Colômbia, amputada de parcela importante de seu território, que constituiria o Panamá, nação gerada da necessidade norte-americana de construir e explorar o canal que ligaria os oceanos Atlântico e Pacifico; sem falar nas várias invasões e ocupação de Cuba, do Haiti, de São Domingos, da Nicarágua, da Guatemala (1).

Seria longo lembrar os detalhes de cada uma das façanhas norte-americanas da fase pré-imperialista, de que a mais destacada seria a amputação brutal do território mexicano, tão celebrada, aliás, em vários filmes de Hollywood, desde a etapa cinematográfica no qual o tipo do vilão era sempre figurado por um mexicano.

A “operação” típica da fase imperialista, praticamente iniciada com a intervenção em Cuba, de que resultou apropriação de Porto Rico, Guam e Filipinas, em 1898, foi aquela realizada na Colômbia, com a amputação da zona do istmo, destinada à construção do canal do Panamá.

Como se sabe, a República do Panamá era, no século XIX, um departamento da Colômbia. Para concretizar os planos de ali construir um canal ligando o Atlântico ao Pacífico, os Estados Unidos dirigiram-se à Colômbia e, após laboriosas negociações, concluíram o tratado de 22 de janeiro de 1903, firmado por Tomás Herran, pela Colômbia, e o secretário de Estado John Hay.

Esse tratado é repelido pela opinião pública colombiana; o Senado, por unanimidade, declara-o nulo. Os Estados Unidos decidem, então, desmembrar a área do istmo, retirando-a à soberania colombiana: aproveitando alguns mercenários e grupos dispostos a lucrar com a construção do canal, fomentam a rebelião do general Huertas.

O couraçado norte-americano Nashville impede que as tropas colombianas ataquem as de Huertas: a 3 de novembro, a rebelião está vitoriosa; a 6, o governo panamenho é reconhecido pelos Estados Unidos como soberano; a 18, é assinado com esse “governo” o Tratado do Canal, firmado, “em nome dos panamenhos”, pelo francês Philipe Bunau- Varilla, principal acionista da companhla concessionária da construção, e pelo secretário de Estado John Hay; por esse tratado, o Panamá concedeu “a título perpétuo”, segundo o artigo inicial, o “uso, ocupação e controle” de uma faixa de dez milhas de largura. O tratado é um insuperado modelo de colonialismo brutal (2).

Em 1936, quando Roosevelt governava os Estados Unidos, este país fez algumas concessões ao Panamá, em detalhes: elevou para 430.000 dólares a anuidade paga pelo governo americano, cancelou compromisso de entrega de mais terras adjacentes, limitou o direito de intervenção das tropas norte-americanas no Panamá.

Com a morte de Roosevelt, voltaram os processos antigos: em 1954 (ano em que Vargas foi assassinado e ocorreu o golpe de Estado que motivou a denúncia da sua carta-testamento, terrível documento antiimperialista), a campanha de sucessão presidencial foi acirrada, surgindo como candidato Ramón Cantera que, em sua pregação, levantou a ideia de revisão do Tratado do Canal. Foi assassinado a 2 de janeiro de 1955.

Em 1962, os Estados Unidos, governados por Kennedy, fizeram nova concessão ao Panamá: a bandeira deste país poderia ser hasteada ao lado da bandeira norte-americana, na Zona do Canal. O governador desta, porém, mandou, convenientemente, retirar todos os mastros dos edifícios, para que isso não se consumasse.

Estudantes panamenhos invadiram, certo dia, aquela Zona, dirigindo-se ao Colégio Balboa, destinado aos filhos de norte-americanos, para hastear ali a bandeira panamenha; a polícia norte-americana atacou-os; retraindo, destruíram tudo quanto era americano que encontravam em seu caminho.

O general O’Meara — guardem este nome, pois conhecê-lo-lo prestando curioso e edificante depoimento a respeito do Brasil — assumiu o comando das forças norte-americanas e decretou a lei marcial na Zona do Canal.

Na manhã seguinte, cerca de 40.000 panamenhos estavam reunidos, em frente à Assembleia Nacional, em protesto contra os americanos: os soldados de O’ Meara lançaram-se contra a massa, causando dezessete mortos e mais de duzentos feridos.

O governo panamenho protestou e rompeu relações com os Estados Unidos, ao mesmo tempo, em que apresentava queixa ao Conselho de Segurança da ONU e pedia a convocação da OEA.

Pelo Tratado Interamericano de Assistência Mútua, qualquer ataque armado contra um dos países americanos, levado a efeito por outro, é considerado ataque armado a todos; todos, em consequência, são obrigados a cortar relações com o agressor e a auxiliar o agredido.

Tal disposição fora introduzida para que a OEA funcionasse a serviço dos Estados Unidos e contra Cuba. Claro que não funcionou contra os Estados Unidos. Inaugurado em 1914, o canal constituiu, além de instrumento estratégico importante, para os Estados Unidos, fonte extraordinária de lucros (3). Para o Panamá, constituiu fonte de humilhações.

De qualquer forma, o essencial, no caso, está em que o Panamá não tem condições para exercer a soberania da faixa de seu território em que foi construído o canal; está em que qualquer movimento no sentido de conseguir essa soberania é apontado como atentatório à segurança do hemisfério e motiva não apenas represálias imediatas, mas a ocupação os tensiva e militar.

A insegurança, para os países latino-americanos, começa, entretanto, quando recebem investimentos norte-americanos, particularmente do tipo do canal: ou quando recebem instalações militares, como aconteceu com a base de Guantanamo, em Cuba, e as próprias instalações militares da Zona do Canal, no Panamá.

Os Estados Unidos não apenas exploram economicamente tais países; tornam tais países, dependências coloniais suas, para fins militares inclusive. No caso do Panamá, o quadro foi assim descrito por jornalista brasileiro, recentemente:

“A Zona do Canal é uma faixa de 82 quilômetros de extensão por 16 quilômetros de largura (oito quilômetros de cada lado do canal), com uma superfície total de 1.432 quilômetros quadrados. Além dos funcionários civis, os norte-americanos mantêm ali bases militares das três armas, com um total de aproximadamente 40.000 homens. Dos quartéis da Zona do Canal já saíram cerca de dez mil soldados para o Vietnã. Além disso, existe ali a Escola das Américas, que treina militares latino-americanos na tática da luta anti guerrilhas. Os oficiais brasileiros, que há alguns anos eram alunos, agora são enviados ao Panamá como instrutores. De todos os países centro-americanos e do Caribe, o Panamá é o único onde o Brasil mantém adidos militares em sua Embaixada, havendo atualmente um adido naval e um de aeronáutica. Na Zona do Canal têm sua vida social os diplomatas estrangeiros de serviço no Panamá e é lá também que estudam seus filhos”. (4)


A dominação exercida sobre o Panamá não repousa apenas no que diz respeito ao Canal, entretanto; o economista norte-americano Victor Perlo assinala muito bem isso ao pôr o dedo em outra ferida:

“Ora, os lucros do canal não se podem comparar com os que obtêm as corporações norte-americanas, graças à situação colonial do Panamá e da Zona. As inversões das corporações norte-americanas no Panamá ultrapassaram os 58.000.000 de dólares, em 1950, chegando a 556.000.000, em 1962, e os lucros declarados subiram a 114.000.000, em 1962, equivalendo a mais de cem dólares por cada habitante do Panamá. O lider das inversões norte-americanas é a United Fruit. Esta companhia extraiu do Panamá 600 milhões de libras de bananas, em 1961, com um valor de exportação de 20.400.000 de dólares, ou seja, 3 a 4 centavos por libra. Isto representa todos os gastos da United Fruit do Panamá, inclusive salários, impostos e outras coisas. A arrecadação da venda a retalho das bananas somou cerca de 90 milhões de dólares. A zona de livre comércio de Colón, desligada do território panamenho, está segregada economicamente e sob o domínio prático das companhias norte-americanas, cujos depósitos cobrem a zona. Aproveitando esta área franca, podem dominar, com maior eficácia, o comércio do Panamá e de outros países da América Central. Em 1961, aos Estados Unidos pertenceram cerca de duas terças partes das importações panamenhas e 98 por cento das exportações do Panamá. As leis panamenhas permitem aos capitalistas norte-americanos constituirem companhias ficticias e usarem as contas correntes numerativas para lludir o fisco. A matricula panamenha é utilizada pelas grandes companhias petrolíferas e de navegação, para burlar as tarifas de salários, os direitos sindicais e os impostos vigentes nos Estados Unidos, e contratar marinheiros panamenhos por remuneração colonial.”

Ora, assim sendo, não espanta de modo algum, que um jornal brasileiro tenha estampado, certo dia, a manchete: “Chefe militar dos EUA diz que defesa está nas Caraíbas“, informando a seguir:

“O major-brigadeiro Jack N. Donohew, chefe do Estado Maior do Comando Sul dos Estados Unidos, pronunciou, ontem, na Escola de Comando e Estado Maior de Aeronáutica (ECEMAR), conferência sobre A importância estratégica do setor das Caraíbas na defesa do continente americano.”

O conferencista fez afirmações muito interessantes, realmente, segundo o jornal:

O conferencista afirmou que nenhum dos países do mundo livre é auto-suficiente em matérias-primas ou bens manufaturados, e lembrou que isto significa que o acesso livre e o uso do Mar das Caraíbas e do Canal do Panamá são vitais para os Estados Unidos e para o Brasil, e, portanto, igualmente vitais para a defesa militar do Continente.”

Era, pois, a chantagem da segurança, generalizada esta, ao continente inteiro, englobando especificamente o Brasil. O problema do canal mereceria outra referência:

“Disse que o impacto da perda do Canal do Panamá, mesmo por um periodo reduzido, seria estonteante, bastando lembrar que, no ano passado, mais de 12 mil navios transitaram pelo canal, o que equivale a quase 72 milhões de toneladas.”

As teses defendidas pelo conferencista merecem ser lembradas; uma delas, das mais caras e mais repetidas, foi a de que “a sorte de todas as nações ligadas à Organização do Estados Americanos está relacionada com a efetiva segurança e bem-estar dos países do Continente Americano“.

Outra, já concretizada em medidas, estaria no “programa de assistência mútua Brasil- Estados Unidos“, com “a duração de cinco anos, abrangendo o Exército, a Marinha e a Aeronáutica“.

Desde o momento em que a revolução cubana evoluiu, deixando de ser apenas mais um movimento destinado a substituir governantes, sem afetar em nada as estruturas vigentes, os Estados Unidos planejaram e executaram meticulosamente a agressão econômica e, depois, militar, ao mesmo tempo em que começaram a exigir dos países latino-americanos submissão rigorosa aos ditames de sua política, subordinação rigorosa aos seus interesses.

Essa orientação, aparentemente vesânica, foi em crescendo de pressões e violências, começando no plano econômico, quando os Estados Unidos pretenderam conseguir a submissão de Cuba pela liquidação de sua economia, para passar, adiante, ao plano militar, em medidas que oscilaram desde o bloqueio naval ao ataque da Baía dos Porcos.

Assim, em janeiro de 1959, já o deputado Wayne Hays levantava a idéia de mandar tropas a Cuba, além de impor sanções econômicas; em julho, o Senado facultava ao presidente Eisenhower decretar a suspensão da ajuda estrangeira a qualquer país que confiscasse propriedades norte-americanas, visando especialmente o caso de Cuba; em outubro, a representação norte-americana em Havana advertia o governo cubano sobre “a adequação da Reforma Agrária no tocante à forma e à quantia da indenização aos cidadãos americanos que possuíam propriedades em Cuba“; começavam em outubro, por outro lado, os ataques incendiários por aviões norte-americanos, procedentes dos Estados Unidos, contra as plantações de cana e as usinas de açúcar em Cuba, com o propósito de afetar a safra e desorganizar a economia do país; em novembro, desencadeava-se, nos Estados Unidos, campanha vigorosa e organizada contra as viagens de turismo a Cuba; em dezembro, surgiam propostas para redução da quota de açúcar cubano a ser importado pelos Estados Unidos.

A ofensiva persistia e aprofundava-se, em 1960, começando com as declarações, em janeiro, dos homens de negócios norte-americanos, de que “Cuba terá que ser riscada, mais cedo ou mais tarde, da lista de embarcadores e inversionistas norte-americanos, assim como o foi o México em 1910“; o representante dos Estados Unidos em Havana renovava ameaças contra a Reforma Agrária cubana, ameaças repetidas, nos Estados Unidos, pelo vice-presidente Richard Nixon; no Senado, por outro lado, surgia a idéia de não pagamento do subsídio ao açúcar proveniente de Cuba; a essa altura, a intervenção militar era pregada claramente e começava a ser aguardada; em março, surgia a primeira redução na quota de açúcar cubano; em maio, a Associação Internacional de Estivadores anunciava o boicote, nos Estados Unidos, à carga e descarga de navios cubanos nos portos norte-americanos, e o Departamento de Estado suspendia a Assistência Técnica a Cuba, enquanto as empresas petrolíferas norte-americanas, em Cuba, recusavam-se a refinar o petróleo soviético adquirido pelo governo cubano; em julho, o presidente Eisenhower reduzia a quota do açúcar cubano em 856.000 toneladas, o governo norte-americano congelava as propriedades de cubanos nos Estados Unidos, num montante de 46 milhões de dólares, e aviões cubanos eram sequestrados em Miami, enquanto todas as contas bancárias do governo cubano eram congeladas em bancos norte-americanos; em outubro, eram proibidas as exportações norte-americanas para Cuba.

Em janeiro de 1961, o governo norte-americano proibia as viagens de seus cidadãos a Cuba; em março, comunicava ter em cogitações a aplicação da Lei de Comércio com o Inimigo ao caso de Cuba, para vedar tanto as exportações como as importações; ainda em março, o presidente, agora John Fitzgerald Kennedy, suspendia totalmente a entrada de açúcar cubano no mercado norte-americano, enquanto prosseguiam os seqüestros, nos Estados Unidos, de aviões cubanos.

Dean Rusk divulgava a orientação norte-americana em relação a Cuba, afirmando que “o primeiro passo importante é isolar Cuba neste hemisfério“; em fevereiro, o governo norte-americano decretava o embargo total no comércio entre os Estados Unidos e Cuba, enquanto o Diretor do Conselho de Planificação Politica do Departamento de Estado, Walt W. Rostow, viajava à Europa para providenciar para que os países membros da OTAN secundassem o embargo comercial decretado contra Cuba; em março, o Departamento do Tesouro comunicava estar proibida a entrada nos Estados Unidos de qualquer produto elaborado, total ou parcialmente, com produtos de origem cubana, “mesmo que tenha sido fabricado em outro país“; em setembro, o Departamento de Estado pressionava os paises membros da OTAN para que seus navios não conduzissem mercadorias a Cuba, enquanto o presidente do Instituto Americano de Marinha Mercante apelava a todos os países para que efetivassem um “embargo voluntário” no comércio com Cuba, apelo e pressão encontravam receptividade na Alemanha Ocidental e na Inglaterra; em Houston, os estivadores recusavam movimentar a carga do navio iugoslavo Drzic porque transportara cereais da URSS para Cuba.

Em setembro, as pressões sobre os países latino-americanos chegavam a ponto insuportável: os representantes desses países em Washington eram chamados ao Departamento de Estado, deles sendo solicitado que avisassem seus governos de que os Estados Unidos esperavam medidas mais rigorosas de vigilância econômica contra Cuba; o pedido mais insistente abrangia quatro pontos:

Rompimento de relações diplomáticas do Brasil, Uruguai, Chile, Bolivia e México com Cuba; novas restrições ao comércio com Cuba, da parte do Chile, México e Brasil; apelo aos países não-socialistas e não-americanos para que cessassem os fornecimentos a Cuba; e vigilância crescente em relação às viagens de Cuba e para Cuba.

Em outubro, o governo norte-americano pedia a Inglaterra, Alemanha Ocidental, Itália, Grécia, Noruega, Dinamarca e Suécia que impusessem restrições a seus navios que operavam com Cuba; os países latino-americanos eram compelidos a assinar, em Washington, recomendação no sentido de intensificar a pressão econômica sobre Cuba; dezenove desses representantes iam mais longe, apelando a todas as nações não comunistas para que suspendessem seu comércio com Cuba; a nova Lei de Ajuda Estrangeira facultava ao presidente dos Estados Unidos suspender a ajuda econômica a qualquer país que fornecesse ajuda econômica a Cuba ou permitisse que navios de sua bandeira levassem tal ajuda.

Seria infindável enumerar, pela ordem, as medidas tomadas pelos Estados Unidos, ou por pressão dos Estados Unidos, para liquidar Cuba pelo isolamento comercial; o presidente Kennedy poderia proclamar, a determinada altura, que as trocas de Cuba com o mundo ocidental haviam sido reduzidas de 90%.

Quando tudo isso se mostrou insuficiente, os Estados Unidos não hesitaram em apelar para a agressão militar; a CIA encarregou- se de planejar e superintender o treinamento das forças que intentariam a invasão de Cuba, levadas ao desastre da Baía dos Porcos.

Depois, inteiramente dementados, intentaram o bloqueio naval, arvorando-se o direito de deter e revistar os navios que se destinassem a Cuba, medida que se inseriu no problema dos mísseis.

A solução do gravíssimo incidente internacional, que poderia ter levado o mundo à destruição atômica, trouxe a retirada dos mísseis contra o compromisso dos Estados Unidos, pela palavra do presidente Kennedy, de que não seria mais intentada a agressão militar a Cuba. Esse compromisso custou a Kennedy a vida. (5)

Notas:

1. Uma relação sumária e incompleta das agressões norte-americanas aos paises latino-americanos pode arrolar fatos como os seguintes:

  • 1806, México: invasão pelas forças do general James Wilkinson;
  • 1822, Cuba: desembarque de forças para “perseguir piratas“;
    1823, Cuba: desembarque, em Puerto Escondido, para o mesmo fim;
    1824, Cuba: desembarque em Matanzas, para o mesmo fim;
    1825, Cuba: desembarque em vários pontos, para o mesmo fim;
  • 1831, Argentina: desembarque de forças nas Malvinas e destruição de Puerto Soledad;
    1835, México: anexação final do Texas;
    1835, Peru: desembarque de forças no Callao e permanência delas em Lima por 1 ano;
  • 1842, México: invasão por forças, ocupação de Monterrey e San Diego;
    1846-1848, México: guerra e anexação aos Estados Unidos de mais da metade do território mexicano;
  • 1852, Argentina: desembarque de forças em Buenos Aires, para “proteger os interesses estrangeiros“;
    1853, México: anexação de novos territórios mexicanos, imposição do Tratado de Mesilla.
    1853, Nicarágua: bombardeio e incêndio e ocupação de San Juan del Norte.
    1853-1860, Nicarágua: Invasão pelo pirata americano William Walker, reconhecido presidente do país pelos Estados Unidos;
    1855, Uruguai: desembarque de forças em Montevidéu, para “proteger os estrangeiros“;

    1856, Colômbia: desembarque de forças no Panamá, para “proteger a ferrovia“;
    1857, Nicarágua: Invasão pelo comodoro Paulding e prisão de William Walker;
    1858, Uruguai: desembarque de forças em Montevidéu e ocupação da Alfândega;
    1859, México: invasão militar, para “perseguir o bandido Cortina“;
  • 1865, Colombia: desembarque de forças no Panamá, para “proteger a ferrovia“;
    1868, México: Invasão e ocupação de Matamoros pelas forças do general Zedgwick;

    1868, Colombia: desembarque de forças em Aspinwall;
  • 1873-1882, México: invasão militar, combates de Remolina e Las Cuencas;
    1876, México: desembarque de forças em Matamoros, para “proteger os estrangeiros“;
    1885, Colombia: desembarque de forças no Panamá, ocupação de Colón;
    1888, Haiti: demonstração naval para obter satisfações pelo apresamento de navio;
  • 1890, Argentina: desembarque de forças, para “proteger o consulado americano“;
    1891, Chile: desembarque de forças em Valparaiso, para “proteger o embaixador dos Estados Unidos“;
    1894, Nicarágua: desembarque de forças, para “proteger os interesses norte-americanos“;
    1895, Colombia: desembarque de forças no Panamá, ocupação de Boca del Toro;
    1896, Nicarágua: desembarque de forças, ocupação de Corinto;
    1898, Nicarágua: desembarque de forças, para “proteger os norte-americanos“;
    1898, Cuba: Intervenção armada, governo militar do general Leonard Wood (até 1902); aquisição de Porto Rico;
  • 1900, Nicarágua e Costa Rica: imposição dos tratados Hal-Correa e Hay-Calvo, visando a construção de um canal transoceanico;
    1902, Cuba: imposição da Emenda Platt, que permite a intervenção americana;
    1902, Colombia: desembarque de forças, para “proteger a ferrovia“;
    1903, Honduras: desembarque de forças, para “proteger o consulado“;
    1903, Panamá: intervenção militar para a autonomia do Panamá e colocação da zona do canal sob soberanis americana;
    1904, Dominicana: desembarque de forças, para “proteger o vice-consul alemão“:
    1904, Panamá: invasão pelas tropas do almirante Goodrich;
    1906, Cuba: intervenção militar comandada pelo general Charles E. Magoom (até 1909);
    1907, Honduras: desembarque de forças, para “por fim à guerra entre Honduras e a Nicarágua“:
    1907, Dominicana: intervenção fiscal e controle da Coletoria de impostos;
    1909, Nicarágua: rompimento de relações e intervenção armada
    ;
  • 1910, Nicarágua: desembarque de forças em Corinto;
    1910, Honduras: desembarque de forças, ocupação de Puerto Cortez até 1911:
    1912, Honduras: desembarque de forças, para “impedir a ocupação pelo governo de ferrovin pertencente a uma empresa norte americana”:
    1912, Cuba: desembarque de forças o ocupação, para “proteger vidas e interesses norte-americanas
    1912, Nicaragua: desembarque de forças e ocupação do país até 1926,
    1913, Mexico de embarque de forças em Claris Estero, para “proteger os norte-americanos.
    1913, México: intervenção do mi nistro norte-americano Heary Lene Wilson na golpe de La Ciudadela e assassinio do presidente Madero;
    1914, Haiti: desembarque de forças em Porto Principe;
    1914, Dominicana:-bombardelo e desembarque de forças em Puerto Plata;
    1914, Nicarágua: Imposição do Tratado Bryan-Chamorro: os Estados Unidos recebem, a título perpétuo, a rota interoceânica para construir novo ca- nal;
    1914, México: desembarque de forças, ocupação de Vera Cruz;
    1915, Halti: ataque armado, invasão e ocupação por 19 anos;
    1916, Dominicana: desembar- que e ocupação do pais até 1922 (6 anos);
    1916, Mexico: “expedição punitiva mi- litar do general J. Pershing, durando um ano: 1917, Cuba: desembarque de for- ças e ocupação até 1919;
    1918, Panamá: desembarque e ocupação até 1920;
    1918, México: très invasões por forças norte-americanas;
    1919, México: seis in- vasões por forças norte-americanas;
    1919, Honduras: desembarque de forças em Puerto Cortez;
    1919, Panamá: invasão e permanência de forças norte- americanas, para “supervisionar eleições”;
  • 1920, Guatemala: desembarque de forças, ocupação da capital, para “proteger norte-americanos”;
    1922, Cuba: de- sembarque de forças, para “proteger norte-americanos”; 1923, México: pressão noite-americana dos governos Coolidge e Hoover contra governos “comunis- tas”;
    1924, Honduras: desembarque de forças, para “proteger norte-ame- ricanos”;
    1925, Panamá: ocupação militar da capital, para “prestar serviço de policia por ocasião de uma greve”:
    1925, Honduras: desembarque de forças pa- ra “proteger norte-americanos”;
    1926, Nicarágua: invasão e ocupação militar do pals, até 1933, assassinio de Sandino; inicio da ditadura Somoza;
  • 1930, Do- minicana: imposição da ditadura Trujilo;
    1931, Guatemala: intervenção militar para imposição da ditadura disfarçada do presidente Jorge Ubico, candidato da United Fruit Co.;
  • 1954, Guatemala: intervenção militar, montada pela CIA, le- vando à queda do governo Arbenz e imposição da ditadura do coronel Castillo Armas;
  • 1961, Cuba: organização e apoio militar, financeiro e politico ao ataque dos mercenários a Cuba, desastre da Baia dos Porcos;
    1962, Panamá: forças norte-americanas da Zona do Canal atacam o povo panamenho, matando dezes- sete pessoas;
    1965, Dominicana: invasão e ocupação, do pais, com a ajuda pos- terior de tropas latino-americanas.


[MARIÁTEGUI] HETERODOXIA DA TRADIÇÃO E TRADIÇÃO NACIONAL


Transcrição de artigos publicados na revista peruana Mundial, em 25 de novembro de 1927 e 2 de dezembro de 1927 por José Carlos Mariátegui. Extraído de “Mariátegui — Textos Escolhidos: Marxismo, política e questão indígena”. Tradução de Mariana Pahim. Cio da Terra Edições. Junho de 2021. Esse trabalho possui grande valor dada a exposição que o autor peruano faz da relação entre tradição e cultura nacional a partir da luta de classes. O conjunto de ideias, símbolos e signos que perfaz a identidade nacional pode, portanto, ser instrumentalizado pela classe dominante ou possuir um caráter orgânico e verdadeiro quando utilizado pela classe trabalhadora. Excluindo as diferenças na formação nacional peruana e brasileira, é possível traçar paralelos com a realidade brasileira, por meio desse texto. Da mesma forma, Nelson Werneck Sodré em sua obra “Síntese de História da Cultura Brasileira” tratará da formação de uma “cultura popular” e uma “cultura das elites” que irá opor ambas as visões de mundo e definirá, por princípio, o que é povo e o que é nacional. Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil” também falará sobre como a multiplicidade de culturas e o contexto histórico colonial português moldou a cultura do povo que aqui foi criado. E por esses motivos, A coisa pública brasileira recomenda uma leitura atenciosa aos artigos abaixo.

Continuar lendo “[MARIÁTEGUI] HETERODOXIA DA TRADIÇÃO E TRADIÇÃO NACIONAL”

[TRADUÇÃO] ESTUDOS MODERNOS DO EURASIANISMO DE ESQUERDA

Tradução de “КЛАССИЧЕСКОЕ ЛЕВОЕ ЕВРАЗИЙСТВО” (“eurasianismo” clássico de esquerda) do portal “Eurásia Server”, publicado originalmente em 26 de maio de 2020. Os acréscimos do tradutor estão entre [], objetivando dar mais clareza a tradução. O objetivo dessa tradução é evidenciar uma corrente do pensamento russo pouco estudada, explorar suas ideias acerca do papel do “espírito da história” no contexto russo, atrelado ao desenvolvimento histórico deste país e a formação da União Soviética. Parte dos estudos acerca da relação entre espírito da história, libertação nacional e socialismo.


Apesar do peculiar “renascimento eurasiano” na Rússia moderna [e do] interesse cada vez maior pelos eurasianos dos anos 20 e 30, a ala esquerda do eurasianismo do século passado teve “azar” para os pesquisadores.

É explicado de forma simples. O interesse pelo eurasianismo surgiu no final dos anos 80 e início dos anos 90 do século passado, ou seja, numa época em que as ideias anticomunistas e antissoviéticas começaram a ganhar força e depois dominaram a Rússia, e, ainda mais tristes, emoções políticas sem limites.

Não é de surpreender que os primeiros pesquisadores soviéticos tardios e pós-soviéticos do eurasianismo se concentrassem principalmente no eurasianismo de direita original de P. N. Savitsky, G. V. Florovsky, N. S. Trubetskoy, N. N. Alekseev devido à sua atitude ambivalente e amplamente negativa em relação à URSS e uma rejeição inequívoca do marxismo {1}.

1. Veja as obras de A. V. Sobolev, S. M. Polovinkin, N. Yu. Stepanov, A. G. Dugin, L. Novikova, I. Sizemskaya e outros.

Tal certo viés ideológico, infelizmente, não contribuiu para o nível adequado de objetividade científica. Mesmo os historiadores e pesquisadores mais conscienciosos do eurasianismo clássico da época estavam inclinados a descartar a existência de uma ala esquerda no eurasianismo como um fato acidental, supostamente não ligado internamente de forma alguma à evolução das próprias ideias eurasianas.

Assim, um dos melhores historiadores do eurasianismo, N. Yu. Stepanov, vinculou o surgimento da “ala esquerda” com as atividades do “agente de Moscou” S. Ya. Efron, sua influência sobre o líder do eurasianismo Suvchinsky e suas oportunidades financeiras, que ele devia à “mão de Moscou” {2}.

2. Ver N. Yu. StepanovTentativas do trabalho prático dos eurasianos na Europa como uma organização política nas décadas de 1920 – 1930.” A versão eletrônica está disponível no site da Gumilevica (www.gumilevica.kulichki.net).

O não menos autoritário pesquisador S. M. Polovinkin realmente expressou a mesma ideia, embora mais corretamente, na forma de uma suposição: “É possível que a liderança da OGPU* tenha considerado o movimento eurasiano perigoso em algum momento e instruído um grupo de agentes, incluindo S .Y. Efron, a tarefa de decompô-lo por dentro através do jornal “Eurásia” {3}.

* A Diretoria Política do Estado (GPU) foi o serviço de inteligência e a polícia secreta da República Socialista Federativa Soviética Russa (RSFSR) de fevereiro de 1922 a dezembro de 1922, e da União Soviética de 29 de dezembro de 1922, até 15 de novembro de 1923. Posteriormente, surge o Diretório Político do Estado Unificado (OPGU), serviço de inteligência e segurança do estado e a polícia secreta da União Soviética, de 1923 a 1934.

3. Polovinkin S. M. “Eurasianismo e emigração russa” // Trubetskoy N. S.História. Cultura. Linguagem M.”, 1995, p. 761.

Outro pesquisador proeminente, S.S. Khoruzhy, explicou o “desvio à esquerda” pelo fato de que alguns eurasianos “não conseguiam tirar os olhos da jiboia totalitária” {4}.

4. S. S. Khoruzhy Krasavin, “Eurasianismo e o PCUS” / / “Questions of Philosophy” 1992, No. 2, p. 84.

Assim, a originalidade ideológica foi negada por trás do eurasianismo de esquerda, foi entendida apenas como “rendição ao marxismo”, ou mesmo como uma formação artificial criada por serviços especiais, e sua crítica foi reduzida a acusações ideológicas anticomunistas.

Todas essas afirmações são mais do que discutíveis. Abaixo nos voltaremos para os próprios conceitos do eurasianismo de esquerda e mostraremos tanto sua conexão orgânica com o eurasianismo original quanto sua originalidade ideológica.

Primeiro, notemos que a afirmação de que o eurasianismo de esquerda foi criado pelo “agente da OGPU, Efron simplesmente não corresponde aos fatos. Conforme o biógrafo de Tsvetaeva, A. Saakyants, Efron começou a trabalhar voluntariamente para a inteligência soviética — a GPU* — apenas em 1931 {5}.

5. Anna SaakyantsMarina Tsvetaeva. Vida e Obra”. Parte 2 “Estrangeiro 7. Última França (1937 – junho de 1939) 37 de setembro – 39 de junho. cit. Conforme a versão eletrônica do site “O Mundo de Marina Tsvetaeva. Patrimônio cultural da Idade de Prata”.


Segundo o pesquisador do eurasianismo A. Isaev, a cooperação de Efron com a GPU começou em 1932 {6}.

6. A. Isaev, “Eurasianismo: a ideologia do estado” // “Ciências sociais e modernidade” 1994, n.º 5.

Em ambos os casos, isso aconteceu após o colapso do grupo eurasiano de esquerda que compunha o Seminário Eurasiano em Clamart (1927 – 1928) e publicou Eurásia (1927 – 1929). M. Laruelle, um renomado pesquisador francês do eurasianismo, expressa o mesmo ponto de vista que S. Efron ainda não trabalhava para os serviços secretos soviéticos durante sua participação no jornal Eurasia {7}.

7. Ver M. LaruelleA Ideologia do Eurasianismo Russo ou Pensamentos sobre a Grandeza do Império”, M., 2004, p. 38.

Na verdade, tudo foi ao contrário. Não foi o eurasianismo de esquerda criado pelo “agente da GPU” Efron, mas as ideias eurasianas de esquerda — segundo as quais a URSS é uma nova etapa no desenvolvimento histórico da Rússia e, portanto, a luta da inteligência soviética contra o Ocidente é uma continuação do confronto milenar entre a Rússia e o Ocidente[que] levou Efron e alguns outros a uma cooperação voluntária e consciente com a GPU.

Portanto, esses pesquisadores estão trocando causa e efeito aqui. Efron e seus camaradas viram em sua cooperação com a inteligência soviética seu dever patriótico, [seu] serviço à Rússia, embora soviética.

Você pode discordar dessa posição, mas não pode deixar de respeitá-la, a menos, é claro, que adote o ponto de vista do dissidente “mito negro” sobre a GPU-NKVD-KGB, que vê nos serviços especiais “servos do inferno”, “escaramuçadores” e, por assim dizer, não percebe que mesmo os serviços especiais mais ideológicos ainda desempenharam as tarefas de segurança nacional, fizeram um trabalho positivo para proteger a Pátria.

Mas o principal nem é isso. Na verdade, temos uma simples substituição do tópico. O pesquisador deste ou daquele sistema de ideias deve primeiro estudar essas próprias ideias e só então as circunstâncias externas de seu surgimento e desenvolvimento. E no caso do eurasianismo de esquerda, observamos apenas discussões sobre Efron, que trabalhava para a GPU, sobre possível financiamento da esquerda de Moscou, etc.

Mas, estritamente falando, os eurasianos de direita estavam envolvidos nos jogos dos serviços especiais soviéticos, Savitsky até viajou ilegalmente para Moscou e os smenovekhitas geralmente publicavam suas publicações estrangeiras com dinheiro soviético, mas isso não é motivo para duvidar da originalidade e até mesmo o significado das ideias do eurasianismo e do smenovekhismo de direita.

Infelizmente, ainda não encontramos estudos modernos do eurasianismo de esquerda, onde as ideias dos eurasianistas de esquerda da década de 1920 foram pelo menos adequadamente e mais ou menos totalmente expostas. Em vez disso, muitas vezes vemos um após o outro “argumentos para uma pessoa”, cujo significado está nas acusações de eurasianos de esquerda de pró-bolchevismo, pró-stalinismo e traição à emigração russa {8}.

8. Indicativa é a avaliação que A. Saakyants dá a S. Efron no ensaio especificado (7º capítulo da 2ª parte), onde ela o repreende por… Traição à cultura russa, preservada na emigração, mas supostamente destruída na URSS, como se a cultura soviética em suas mais altas manifestações (Yesenin, Pasternak, Kuznetsov, Rubtsov, Sholokhov, Fadeev, etc.) não fosse uma continuação direta e orgânica da cultura russa clássica.

Um exemplo disso é o artigo de S. S. KhoruzhyKarsavin, Eurasianism and the CPSU”, o qual é uma das fontes mais citadas e, portanto, autorizadas. Ele fornece uma revisão muito superficial e, infelizmente, tendenciosa do período da esquerda eurasiana da obra de Karsavin, que não é isenta de grandes deficiências.

Dessa revisão, parece seguir-se que a principal característica do eurasianismo de esquerda de Karsavin é o reconhecimento dos comunistas soviéticos como ferramentas inconscientes do “astuto” Espírito da História (embora Khoruzhy observe que essa opinião nasceu de Karsavin na época em que sua Filosofia da História estava sendo escrita) {9}.

9. Decreto. S.S. Khoruzhy, pág. 83.

Khoruzhy chama esse ponto de vista de “atitude dogmática”, que levou Karsavin a buscar algo novo e importante nas atividades do regime bolchevique {10}.

10. Ibid.

Mas esta é uma afirmação totalmente errônea. O fato é que o reconhecimento da natureza de libertação nacional da revolução bolchevique e certos aspectos positivos do estado soviético é uma posição pan-eurasiana, característica não apenas da “esquerda”, mas também da “direita”, em geral, eurasianos anticomunistas (outra coisa é que a esquerda dá mais ênfase a uma avaliação positiva da civilização soviética).

Um eurasiano excepcionalmente “certo” como príncipe N. S. Trubetskoy escreveu em “The Legacy of Genghis Khan”: “o governo soviético… realmente se esforça para mudar radicalmente todo o curso da política da monarquia antinacional derrubada” {11}.

11. “Legado de Genghis Khan”, N. S. Trubetskoy, 1999, p. 276.

No manifesto “Eurasianismo. A experiência de uma apresentação sistemática” (1926), escrito antes mesmo do surgimento do grupo eurasiático de esquerda, e expressando plenamente o ponto de vista dos eurasianos “de direita”, “mais velhos” — P. N. Savitsky, N. S. Trubetskoy diz-se sobre a Revolução de 17:

“A revolução que pôs fim ao período imperial… um processo profundo e significativo que… abre caminho a um saudável elemento estatal. Isso não significa de forma alguma que o significado da revolução seja corretamente compreendido … por seus ideólogos oficiais e seus chamados “líderes”, que …. não eram seus líderes, mas suas ferramentas.” {12}.

12. P. N. Savitsky. Continente Eurásia, 1997, p. 52.

Mas, para entender tais “sutilezas“, é necessário realizar uma revisão objetiva do conceito eurasiano de esquerda, e não extrair citações convenientes dos artigos de Karsavin na “Eurásia” para “confirmar” seus “argumentos para uma pessoa “, como S. S. Khoruzhy fez no artigo mencionado.

A propósito, existem outros erros diretos na pesquisa de Khoruzhy, que ele teria evitado se tivesse tentado atuar como um cientista pesquisador, e não como um expositor ideológico do “eurasianismo de esquerda“.

Assim, ele declara que “começando com o reconhecimento de seus méritos (bolcheviques*) na preservação do estado russo …. Eles (os parisienses, eurasianos de esquerda*) foram cada vez mais longe. O conceito de uma ideocracia logo surgiu… um novo ideal… justificou um sistema de governo de partido único” {13}.

13. Decreto. S.S. Khoruzhy, pág. 83.

Mas isso não condiz com os fatos. O conceito de ideocracia “apareceu” muito antes do surgimento do grupo parisiense de “esquerda“. As principais disposições do conceito de ideocracia foram expressas no artigo do “eurasianista de direitaP. N. SavitskyCidadania da ideia” (publicado pela primeira vez no “Eurasian Times” – livro 3, Berlim, 1923), ou seja, 5 anos antes da criação da “Eurásia” – órgão do eurasianismo de esquerda.

Um dos principais desenvolvedores do conceito de ideocracia foi outro eurasiano de direita, Princípe N. S. Trubetskoy e seu artigo de programa sobre ideocracia – “Sobre o sistema estatal e a forma de governo” (Eurasian Chronicle, edição 8, 1927) também foi escrito antes do surgimento da “Eurásia“.

Finalmente, a justificativa para as vantagens de um sistema de partido único em relação a um sistema multipartidário pode ser encontrada em um “eurasiano de direita” como N. N. Alekseev (Lembre-se de que ele, junto com Savitsky e Ilyin, fez uma forte condenação do eurasianismo de esquerda no panfleto “Sobre o jornal Eurasia – o jornal Eurasia não é um órgão eurasiano”) (1929). Em particular, os argumentos de que o sistema de partido único é superior à democracia burguesa podem ser encontrados em sua obra “Sobre os caminhos para a futura Rússia (o sistema soviético e suas possibilidades políticas)”.

Quanto às acusações ideológicas contra o eurasianismo de esquerda de [ter sido]enfeitiçado pelos bolcheviques“, [ou que]traiu a emigração“. Com um exame imparcial, é fácil ver que eles se baseiam em supostamente “dados” para pesquisadores anti-soviéticos, mas na realidade [são] disposições teóricas muito controversas – que a URSS supostamente não é a Rússia, mas algum tipo de aberração histórica sem fundamento, […] que a “verdadeira Rússia” permaneceu apenas na diáspora russa.

Todas essas declarações não são evidentes por si mesmas, mas requerem comprovação separada. A propósito, um apelo aos escritos de eurasianos de esquerda revelaria contra-argumentos teóricos a estas posições.

É verdade que mais tarde, no início dos anos 2000, quando as emoções anticomunistas e anti-soviéticas começaram a diminuir, as opiniões dos pesquisadores sobre o eurasianismo de esquerda também suavizaram um pouco.

Assim, V. Ya. Pashchenko em sua monografia “The Social Philosophy of Eurasianism” (2003) observou corretamente que alguns dos comentários de Khoruzhy sobre o grupo parisiense “causam frustração” devido à sua parcialidade {14}, e admite que para “esquerda” o grupo parisiense de eurasianos havia razões objetivas, “em primeiro lugar, os sucessos bastante convincentes do governo soviético em fortalecer as posições da URSS tanto interna quanto internacionalmente” {15}.

14. V. Ya. PashchenkoFilosofia Social do Eurasianismo“, 2003, p. 41.
15. V. Ya. PashchenkoFilosofia Social do Eurasianismo“, 2003, p. 40


Podemos concordar com a afirmação de V. Ya. Pashchenko de que o teórico dos eurasianos de esquerda “Karsavin foi perspicaz o suficiente para escapar das garras de certos estereótipos que Khoruzhy lhe confere” {16}. No entanto, este pesquisador não se propôs a tarefa de estudar o eurasianismo de esquerda propriamente dito, concentrando-se na filosofia social do eurasianismo em sua forma original.

16. V. Ya. PashchenkoFilosofia Social do Eurasianismo“, 2003, p. 43-45.

No ano seguinte de 2004, o jovem pesquisador A. V. Samokhin, de Moscou, publicou uma série de artigos sobre o eurasianismo de esquerda {17} e, em seguida, defendeu seu doutorado sobre o tema “Eurasianismo como uma tendência ideológica e política na Rússia no século XX” {18}{19}.

17: A. V. Samokhin. “A trajetória histórica do eurasianismo como tendência ideológica e política” // Problemas atuais das humanidades. Artigos científicos. 8. Alfa, 2002. “Eurasianismo de Esquerda Moderna como o sucessor ideológico e político do Eurasianismo na década de 1920” // Problemas atuais das humanidades. Artigos científicos. 10. Alfa, 2004.

18. Veja Samokhin Alexander Vladimirovich. “Eurasianismo como tendência ideológica e política na Rússia do século XX“. Especialidade 23.00.01 – Teoria da política, história e metodologia da ciência política. Resumo da dissertação para o grau de candidato a Ciências Históricas. Moscou, 2004.

19. O caminho do eurasianismo (artigo principal) // Mundo da Rússia-Eurásia. Antologia M., 1995, p. 299.

Seu trabalho pode ser considerado o início de um “avanço” no estudo do eurasianismo de esquerda. Ele expressa uma série de idéias interessantes, embora, em nossa opinião, não sejam indiscutíveis; ele acredita que a divisão em eurasianos de direita e esquerda ocorreu em 1928-1929, quando o jornal Eurasia foi publicado, que se tornou alvo de críticas de Savitsky, Trubetskoy, Alekseev e Ilyin.

Ao mesmo tempo, a opinião de L.P. Karsavin era realmente diferente, ele argumentou que o eurasianismo de direita era o eurasianismo de 1921–1928, ou seja, o eurasianismo antes do surgimento do grupo Clamart, e seu apogeu declinou em 1923–1925 {20}.

20. “Rússia entre a Europa e a Ásia: tentação da Eurásia”, 1993. “Caminhos da Eurásia”, “Êxodo para o Oriente”, Dobrosvet, 1997. P. N. SavitskyContinente da Eurásia”, Agraf, 1997. N. TrubetskoyO legado de Genghis Khan“, Agraf, 1999. N. N. Alekseev, “Povo e estado russo“, Agraf, 2000. G. V. Vernadsky “Inscrição da história russa”, São Petersburgo 2000. J. Bromberg, “Judeus e Eurásia“, Agraf, 2002.

O mérito de A. V. Samokhin reside na verdadeira “descoberta do tema”, no entanto, ele concentra sua atenção no eurasianismo de esquerda moderno.

À luz disso, também não parecerá surpreendente que as obras dos clássicos eurasianos de esquerda ainda não tenham sido republicadas e sejam desconhecidas do público educado em geral ou de amplos círculos de especialistas, para quem a capital e os arquivos estrangeiros são inacessível.

A situação é bem diferente com as obras dos “eurasianos de direita”. No final do século passado e no início deste século, reimpressões bastante completas das principais obras eurasianas de P. N. Savitsky, N. S. Trubetskoy, G. V. Vernadsky, J. Bromberg, tanto na forma de livros separados quanto na forma de coleções coletivas, viu a luz {21} .

21. Em 1992, na revista “Questões de Filosofia” (nº 2), foram publicados artigos de L. Karsavin e A. Kozhevnikov (A. Kozhev) com o mesmo título “Filosofia e o VKP [Partido Comunista da União Soviética]“, publicado pela primeira vez em “Eurásia” (1929, nº 20). Então, em 1992, na coleção “Filosofia Doméstica: Experiência do Problema“, […] dois artigos eurasianos de esquerda de Karsavin foram publicados “Avaliação e Tarefa” (pela primeira vez – “Eurásia”, Paris, 1928 nº 3) e “Da doutrina à ideia (manuscrito do arquivo de P. N. Savitsky (IGAOR)). Em 1995, a editora Vysshaya Shkola publicou a antologia The World of Russia-Eurasia, onde na parte 2, The Split of Eurasianism, foram publicados dois materiais da Eurásia – o artigo de KarsavinSocialism and Russia” e o editorial anônimo The Way of Eurasianism (para ele acrescentou críticas sobre o eurasianismo de esquerda – Trubetskoy, Alekseev e Savitsky). Em 1997, a antologia “The Russian Knot of Eurasianism. Oriente no pensamento russo. Collection of Works of the Eurasians” (compilado por Klyuchnikov), onde alguns dos experimentos críticos de Svyatopolk-Mirsky de “Eurasia” e “Verst” são republicados. Em 2002, uma coleção de D.P. foi publicada em São Petersburgo. Sviatopok-Mirsky, “Poetas e Artigos da Rússia. Avaliações. Retratos. Obituários”, onde são colocadas aproximadamente as mesmas poucas críticas da Eurásia e Verst, com a marca das ideias da esquerda eurasiana (observamos Tyutchev – por ocasião do 125º aniversário de seu nascimento -, Nekrasov, Zinaida Gippius, Khlebnikov, E. Bagritsky. “Sudoeste“, “Notas sobre literatura de emigrantes“). Também em 2000, a revista “Philosophical Sciences” (nº 2) republicou o artigo de V. Ya. Seseman, “Filosofia Bolchevique na Rússia Soviética” (publicado pela primeira vez na revista Der Russische Gedanke nº 2, 1931 (em alemão)). V. Ya. Seseman era um amigo próximo de L. P. Karsavin, um membro da Eurásia, e posteriormente liderou o grupo eurasiano na Lituânia. Seu artigo mencionado está próximo da avaliação da esquerda eurasiana da filosofia soviética (para comparação, veja L.P. KarsavinPhilosophy and the VKP”). Em 1991, o artigo “O Estado e a Crise da Democracia” de L.P. Karsavin foi republicado na revista Novy Mir (nº 1) (publicado pela primeira vez na revista lituana Ochag, 1934, nº 5.6 em lituano). Foi escrito depois que Karsavin deixou o grupo eurasiano de esquerda, mas carrega a marca do eurasianismo de esquerda (em particular, na avaliação dos ensinamentos de Marx).

As obras da esquerda eurasiana de Karsavin, Svyatopolk-Mirsky, Efron e outros estão espalhadas entre raras publicações de emigrados com quase um século de idade, e pode-se, como dizem, contar nos dedos as publicações modernas dos “esquerdistas” que refletiriam a ideias do eurasianismo de esquerda {22} (embora artigos separados de Karsavin e Suvchinsky do período pré-clamário, escritos no espírito do eurasianismo original de direita, introduzidos em circulação por pesquisadores) {23}.

22. “Fundamentos do Eurasianismo“, 2002 (aqui estão os artigos de KarsavinFundamentos da Política” (1927) e SuvchinskyO Poder dos Fracos” (1921). L.P. KarsavinReligious and Philosophical Works“, 1992, em 2 volumes, como fica claro no título e posfácio do compilador, não pretendia estar completo e a coleção não contém o jornalismo político de Karsavin do “período de Paris” . Coleção “Nó Russo do Eurasianismo. Oriente no pensamento russo. Coleção de obras dos eurasianos“, 1997 contém um artigo de SuvchinskyPara superar a revolução” (1923).

23. Apontamos para o trabalho de S. S. Khoruzhy, “Karsavin, Eurasianismo e o PCUS” / / Questions of Philosophy, 1992, No. 2. O. A. Kazina, “D.P. Svyatopolk-Mirsky e o Movimento Eurasiano” // Nachala, 1992, No. 4. V. V. Perkhin, “Poesia russa na avaliação de D.P. Svyatopolk-Mirsky” // D.P. Poetas Svyatopolk-Mirsky e Rússia. Artigos. Avaliações. Retratos. Ekrologii St. Petersburg, 2002 (pp. 1013 são dedicados ao período eurasiano de sua obra)”. Anna Saakyants, “Marina Tsvetaeva. Vida e Obra”, 1999, onde há muitas digressões sobre S. Ya. Efron, Parte 2, “5“, um bloco rastejante (final) (1928-1929) sobre o jornal Eurasia e “7“, “Última França. 1937 – junho de 1939[…] são especialmente interessantes “sobre a relação entre S. Ya. Efron e a GPU“.


Como resultado, o intelectual moderno é compelido a extrair informações sobre o eurasianismo de esquerda clássico de trabalhos especiais sobre seus líderes {24} que, como já foi mostrado, são geralmente escritos de uma posição anti-soviética e altamente tendenciosos.

24. A. G. Dugin. O Partido Comunista da Federação Russa e o Eurasianismo / Fundamentos do Eurasianismo, 2002.

Um conhecimento tão fraco das idéias do eurasianismo de esquerda leva a alguns incidentes. Assim, o teórico do neo-eurasianismo, A. G. Dugin, declara o Partido Comunista da Federação Russa… o partido do eurasianismo de esquerda {25}. E isso apesar do fato de que o Partido Comunista (G. A. Zyuganov) representa a tradição, embora russa, mas ainda o comunismo (continuando a linha do patriotismo socialista e do socialismo soberano, vindo do final de Lenin e Stalin {26}), enquanto o eurasianismo, embora de esquerda, ainda é um desdobramento do pensamento religioso e conservador russo.

25. Veja sobre isso, por exemplo, no artigo de G. A. ZyuganovO Construtor do Poder” // Pravda, 10 a 15 de dezembro de 2004, nº 140 (28754).

26. Ver A. A. Zinoviev, “Comunismo como uma realidade“, V. V. Kozhinov, Rússia: século 20, em 2 livros, S.G. Kara-Murza, “Civilização soviética“, em 2 volumes.


Naturalmente, não podemos preencher esse “espaço em branco” com uma determinada obra. Mas esperamos que nosso modesto trabalho sirva como mais um impulso para o estudo desse fenômeno original e até agora pouco conhecido do pensamento russo. Além disso, as ideias dos clássicos eurasianos de esquerda são extremamente relevantes hoje. Está chegando a hora de um estudo objetivo da civilização soviética, livre de aberrações ideológicas, que começou hoje com os estudos de A.A. Zinoviev, V.V. Kozhinov, S.G. Kara-Murza {27}.

27. L. I. Novikova, I. N. SizemskayaEurasian Art” / Mundo da Rússia-Eurásia. Antologia, 1995, p. 8.

Eles provaram de forma convincente que a autodeterminação da civilização soviética, baseada no marxismo vulgar, não correspondia à sua essência (de modo que as invectivas dos liberais modernos contra a URSS, que, via de regra, repetem os selos da propaganda soviética, apenas mudar a avaliação para o contrário, tem valor cognitivo zero).

E os eurasianos de esquerda compreendiam a URSS não com base no marxismo vulgar, mas com base em uma abordagem civilizacional, na dialética hegeliana, nas ideias religiosas e filosóficas de N. F. Fedorov, que ainda são úteis para uma compreensão profunda da sociedade em que viveu recentemente, e a sociedade que veio substituí-lo.
































[DARCY RIBEIRO] Sobre a multilinearidade do processo histórico geral do desenvolvimento humano. Em: “O PROCESSO CIVILIZATÓRIO — Estudos de antropologia da civilização. Etapas da evolução sócio-cultural”.

Prefácios retirados da 9ª Edição. Editora Vozes. Petrópolis, 1978.


PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO:

Iniciamos com este livro a publicação de uma série de estudos sobre o processo de formação dos povos americanos, sobre as causas do seu desenvolvimento desigual e sobre as perspectivas de autossuperação que se abrem aos mais atrasados.

O objetivo deste primeiro estudo é proceder a uma revisão crítica das teorias da evolução sócio-cultural e propor um novo esquema do desenvolvimento humano. Bem sabemos quanto é temerária uma tentativa de reformulação das teorias de alto alcance histórico como a que aqui apresentamos, que focaliza a evolução sócio-cultural nos últimos dez milênios.

No entanto, esta tarefa se impôs como requisito prévio indispensável àquele estudo da formação dos povos americanos. Na verdade, só poderíamos eludi-la se deixássemos inexplícito o esquema conceitual com que trabalhamos ou se apelássemos para esquemas evolutivos clássicos, visivelmente inadequados para explicar as situações com que nos deparamos.

Com efeito, queiramo-lo ou não, agimos todos com base numa teoria global explicativa do processo histórico, quando usamos conceitos referentes a fases evolutivas — tais como escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo — ou conceitos concernentes a processos universais de mudança sócio-cultural como revolução agrícola, revolução mercantil ou revolução industrial.

Isto é o que faz a maioria dos cientistas sociais de perfil acadêmico, mesmo em contextos em que negam a possibilidade de estabelecer sequências evolutivas. Os cientistas de orientação marxista, aceitando embora uma teoria geral do processo histórico, pouco têm contribuído para desenvolvê-la, em virtude da tendência a converter a maioria dos seus estudos em meras exemplificações, com novos materiais, das teses marxistas clássicas.

Acresce ainda que, nas últimas décadas, acumulou-se copioso material etnográfico, arqueológico e histórico descritivo das sociedades humanas de diversos tipos, bem como uma série de estudos especiais sobre os processos de mudança cultural e sobre certas vias multilineares de evolução sócio-cultural que tornaram viável, e inadiável, a formulação de uma teoria geral da evolução.

Por sua própria natureza, os nossos estudos sobre as causas da desigualdade de desenvolvimento dos povos americanos tanto exigiam a formulação de um esquema das etapas evolutivas quanto possibilitaram sua elaboração.

Exigiam-na porque tomavam imperativa a construção de uma tipologia para classificar diversos contingentes que se conjugaram para formar as sociedades nacionais americanas de hoje.

Como classificar, uns em relação aos outros, os povos indígenas que variavam desde altas civilizações até hordas pré-agrícolas e que reagiram à conquista segundo o grau de desenvolvimento que haviam alcançado?

Como situar, em relação àqueles povos e aos europeus, os africanos desgarrados de grupos em distintos graus de desenvolvimento para serem transladados à América como mão de-obra escrava?

Como classificar os europeus que regeram a conquista? Os ibéricos que chegaram primeiro e os nórdicos que vieram depois — sucedendo-os no domínio de extensas áreas — configuravam o mesmo tipo de formação sócio-cultural?

Finalmente, como classificar e relacionar as sociedades nacionais americanas por seu grau de incorporação aos modos de vida da civilização agrário-mercantil e, já agora, da civilização industrial?

Estas questões e muitas outras igualmente cruciais exigiam a elaboração de uma teoria geral do processo evolutivo que definisse de forma mais precisa os conceitos faseológicos (geralmente usados de maneira arbitrária) e que explicitasse mais acuradamente os modos pelos quais interagem as sociedades diversamente desenvolvidas.

Conforme assinalamos, aqueles estudos não só exigiram a elaboração desta teoria, mas também possibilitaram sua formulação. Isto porque nos deram uma perspectiva não cêntrica de análise das causas da desigualdade de desenvolvimento e também porque forneceram uma extraordinária base fatual.

Aquela perspectiva nos permitiu criticar o eurocentrismo das teorias correntes sobre a evolução cultural; esta base fatual — representada pela copiosa bibliografia americanista de fontes primárias e por nossa própria experiência no estudo antropológico de sociedades tribais e nacionais — proporcionando-nos um conhecimento acurado de sociedades que exemplificam quase todas as etapas da evolução e quase todas as situações de conjunção de povos, nos permitiu reexaminar a teoria evolucionista com maior amplitude de visão.

Desse modo é que, no esforço por estabelecer critérios de classificação dos povos americanos, tivemos de alargar nossa perspectiva de análise no tempo e no espaço, acabando por elaborar uma primeira esquematização dos passos da evolução tecnológica, social e ideológica das sociedades humanas, de cujo desdobramento posterior resultou este trabalho. Ela é aqui apresentada como formulação preliminar de um estudo que continuaremos desenvolvendo, mas cujo aprofundamento exige, nesta altura, o exame crítico de outros especialistas.

Cumpro o dever de registrar que· o presente estudo só pôde ser realizado graças ao amparo da Universidade da República Oriental do Uruguai, através de um contrato do autor como professor de tempo integral. E tenho a satisfação de assinalar que este trabalho, na forma em que se apresenta, muito deve à colaboração de minha colega Betty J. Meggers e, sobretudo, de minha mulher, Berta Ribeiro.


PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO VENEZUELANA:

Publiquei este livro com muito medo. Temia que a ousadia de enfrentar temas tão amplos e complexos me levasse a um desastre. Meu medo devia ter aumentado quando um conhecido intelectual marxista, ledor de importante editora, deu um parecer arrasador sobre O Processo Civilizatório.

Dizia ele que o autor, etnólogo de índios, brasileiro, que não era nem se quer marxista, pretendia nada menos que reescrever a teoria da história, o que equivalia, pensava ele, a inventar o moto continuo.

O diabo é que eu pretendia mesmo! Só não fiquei aplastado debaixo daquele parecer competentíssimo porque fui salvo por um ataque de raiva possessa contra todos os que pensam que intelectual do mundo subdesenvolvido tem de ser subdesenvolvido também. Mas logo surgiram vozes de alento para levantar meu ânimo.

Principalmente as de alguns amigos e colegas tomados de entusiasmo pelo livro. Entre eles, o mais competente arqueólogo que conheço: Betty Meggers. Além de me estimular, Betty se propôs ajudar na revisão dos dados sobre a evolução técnica e na fixação das cronologias. Depois, se dispôs a traduzir O Processo Civilizatório ao inglês, o que fez admiravelmente.

Afinal, conseguiu também que ele fosse editado pela Smithsonian Institution, que, sendo o mais vetusto dos órgãos de pesquisa antropológica deste mundo, lhe garantiria a melhor atenção profissional. A tudo isto a Smithsonian aliava a qualidade, ainda mais simpática para mim, de ter sido a editora de obras de Lewis W. Morgan, cujo texto fundamental — Ancient Society — eu retomava via F. Engels — em O Processo Civilizatório.

Agora, com dez anos, O Processo é um filho bem-sucedido: 15 edições e cerca de 160 mil exemplares vendidos fazem dele o meu principal livro. Só menos querido do que o meu filho caçula —, o romance MAÍRA — que, por outras razões, é meu xodó.

Grande e generosa foi, também, a fortuna crítica de O Processo, recebido com carinho em vários países. Foi, inclusive, objeto de um debate coletivo promovido por Current Anthropology, para os livros que seus editores consideram importantes. [1]

Este debate (CA treatment) consiste em remeter a obra selecionada para debate a uns vinte antropólogos para que a critiquem; em recolher, depois, e remeter ao autor os diversos comentários para que ele redija a réplica; e, por fim, na publicação conjunta de todo o material.

Os comentários assinalam tanto os aspectos com que os críticos concordam, como aqueles de que discordam. Entre os primeiros, recordo agora o gosto que me deu ler as apreciações frequentes, assinalando que O Processo Civilizatório proporcionava, pela primeira vez, um quadro conjunto dos últimos cinco séculos da história, que possibilitava tratar as sociedades avançadas e as atrasadas não como etapas sucessivas da evolução humana, mas como polos interativos de um mesmo sistema socioeconômico tendente a perpetuar suas posições relativas.

O hoje dos povos avançados não é, pois, o nosso amanhã: nós e eles encarnamos posições opostas, mas coetâneas. Esta integração teórica, que nos permitiu fundir, a partir de 1500, nosso esquema evolutivo com nossa reconstituição do processo histórico, tornou-se possível graças ao apelo aos conceitos complementares de aceleração evolutiva e de atualização histórica.

Nos últimos anos, tive a alegria de vê-los reproduzidos nestes termos e em variantes semânticas deles em diversos estudos. Com sua ajuda, muitos autores puderam superar tanto as visões unilineares que mediocrizam as teorias evolutivas como as proposições desenvolvimentistas das teorias da modernização, que fazem supor uma progressão espontânea do subdesenvolvimento ao desenvolvimento, através da industrialização substitutiva.

Foi também assinalado que esta concepção de duas linhas divergentes de trânsito de uma a outra etapa da evolução tinha tanto a virtude histórica de facilitar a compreensão das vicissitudes dos povos subdesenvolvidos no passado, como a qualidade preditiva de possibilitar a antevisão dos riscos que eles enfrentam, agora, de serem outra vez atualizados no curso do processo civilizatório posto em marcha pela Revolução Científica.

A primeira atualização que experimentamos ocorreu com os índios e os negros que, atingidos pela expansão européia, não evoluíram da tribalidade à civilização, mas foram tão somente arrastados à condição de força de trabalho das colônias escravistas mercantis que as nações ibéricas fundaram no Novo Mundo no curso da Revolução Mercantil.

A segunda ocorreu com o trânsito que sofremos da condição Colonial à Neocolonial, no corpo da Revolúção Industrial, e que nos confirmou na situação de povos de segunda classe, enquanto os EUA, por exemplo, se integravam autonomamente: por aceleração evolutiva, na nova civilização.

A terceira é a que nossas classes dominantes gerenciais, na qualidade de associados das corporações multinacionais, estão promovendo em nossos dias com a maior eficiência. A luz dos conceitos de Atualização versus Aceleração, fica evidenciado que seus esforços de modernização só visam nos atrelar à civilização pós-indutrial outra vez na condição de povos dependentes que continuarão contribuindo tanto para a prosperidade alheia, que nao poderão cuidar de sua própria prosperidade.

As principais reservas apresentadas contra as proposições do nosso esquema conceitual vêm de duas vertentes: as dos que o contestam por ser “marxista”, e as dos que, ao contrario, o desmascaram como infiel ao “verdadeiro marxismo”.

As primeiras, tolas demais para merecer atenção, caem ora em objeções irritadas contra a idéia de progresso, ora em advertências escandalizadas contra a admissão de que as revoluções sociais violentas possam ser socialmente positivas.

As últimas merecem maior atenção, embora sejam, às vezes, igualmente tolas. Este é o caso de todos os que, supondo que existem respostas finais de Marx para todas questões, consideram uma ousadia repensar os esquemas ditos marxistas, porque só admitem recitá-los.

Estes ruminantes de Marx deviam, no presente caso, concordar que, havendo dois esquemas legitimamente atribuíveis ao marxismo sobre a evolução sócio-cultural humana, caberia pelo menos o esforço de engendrar um terceiro que os conciliasse.

Efetivamente, isto é o que sucede, uma vez que o esquema de Engels em A Origem, etc. (1884) — que Marx conheceu e aprovou — é não só diferente, mas oposto ao esquema do próprio Marx nos Grundrisse (escritos em 1857/59, mas só editados em 1939 e difundidos depois de 1950) o qual, por sua vez, Engels conhecia muito bem.

A divulgação tardia do texto de Marx veio criar uma grande celeuma, porque ele se revelou muito superior ào de Engels ou, pelo menos, mais conciliável com os conhecimentos antropológicos acumulados no último século. Onde ficamos neste debate entre os dois ilustres defuntos, se não nos consentimos repensá-los?

Este tipo de contestação é especialmente irritante quando parte dos pretensos marxólogos que convertem o marxismo numa técnica erudita de exegese de textos. Eles querem que se leia as obras de Marx partindo da suposição de que nelas como na Bíblia, para Lutero — residisse toda a sabedoria.

Uma sabedoria, aliás, só recuperável se lidos e relidos com a devida atenção e com a indispensável obediência ao guia parisino que esteja em moda. Penso que a verdade, no que tenha de apreensível, não está em texto algum, mas na vida e na história. Penso que ela só pode ser lida através da observação direta ou da reconstituição histórica criteriosa de contextos sociais concretos e da comparação sistemática dos mesmos.

Os clássicos e, com eles, todos os que teorizaram fecundamente, com base em pesquisas científicas e históricas — nos provêm no máximo de orientações, diretrizes, a partir das quais temos é de abrir os olhos para olhar e ver e rever a experiência vivida dos povos, como a única fonte de saber referente à sua vida e ao seu destino.

Nosso papel é, pois, o de nos fazermos herdeiros do discurso da ciência, apenas para refazê-lo com base na exploração exaustiva do valor explicativo tanto dos contextos sociais concretos que observamos, como das circunstâncias de lugar e posição, desde as quais vemos a eles e aos seus contornos.

Para fazê-lo com a ousadia de Marx, porém, é indispensável observar, comparar e interpretar de olhos postos no trânsito entre o que foi e o que pode ser, e com a predisposição de conhecer para intervir e influir, no sentido de que venham a se concretizar na história, amanhã, as possibilidades mais generosas dela.

Com esta postura é que escrevemos O Processo Civilizatório. Ele é o melhor discurso que podíamos formular sobre o caráter necessário — e, portanto, compreensível — de nosso passado de nações que fracassaram na história. É também a mais clara advertência que podíamos escrever sobre as ameaças que pesam sobre nós, de recairmos na condição de povos explorados e subalternizados; ameaça tanto maior porque este é o projeto de nossas classes dominantes.

É, por fim, a expressão mais eloqüente que consigamos formular sobre as possibilidades reais que se abrem à nossa frente de ruptura revolucionária dos fatores causais do atraso autoperpetuante, para a realização das potencialidades dos nossos povos, dentro da civilização emergente.

Uma reserva surpreendente ao nosso esquema conceitual é a de quem o inquina de “evolucionista“. E daí, quê? Desejariam que fosse funcionalista? Mais do que surpreendente, porém, esta reserva passa a ser absurda quando parte de pretensos marxistas. Que são os esquemas de sucessão das formações econômico-sociais de Marx e Engels, senão teorias evolutivas?

Aqui se somam, provocando curto-circuitos, diversas confusões. Primeiro, a de jogar na mesma lata-de-lixo das doutrinas ultrapassadas, junto com o evolucionismo meio unilinear de Tylor ou do progressivismo de Spencer, nada menos do que a concepção vital para as ciências sociais de que o processo histórico, não sendo arbitrário nem errático, é, por isto mesmo, explicável e, em certa medida, até previsível.

Segundo, o de opor-se nominalmente ao academicismo sócio-antropológico norte-americano, apenas para beber suas piores águas de lavagem. Inclusive, o reacionarismo antievolucionista de quantos detestam e repelem qualquer idéia de evolução como uma predisposição perigosa à revolução.

Leslie White (1945), demonstrando como e por que razões políticas e não científicas se constituiu e difundiu esta estultice teórica, fez dela a vergonha das ciências sociais norte-americanas com que, hoje em dia, ninguém mais se identifica.

Só resta assinalar aqui que assim como as ciências da vida não podem passar sem um esquema da evolução biológica — o que não converte ninguém em darwinista — assim também as ciências da sociedade e da cultura não podem prescindir do único esquema teórico capaz de tornar a história inteligível — e este será inevitavelmente evolutivo, ainda que não necessariamente evolucionista, de estilo tylonista ou spenceriano.

Tudo isso significa que, quando não se conta com uma teoria explícita da evolução, se corre o grave risco de cair num evolucionismo irresponsável por si mesmo, porque inexplícito.

Quando se fala, por exemplo, de Revolução Industrial no plano tecnológico, ou de Revolução Socialista no político, se está usando categorias que só têm sentido dentro de uma concepção evolutiva da história. Isto é, aliás, o que se faz habitualmente sem maiores conseqüências. Fazê-lo, porém, pretendendo ser expressamente antievolucionista é pecado de indigência teórica.

Quero comentar ainda duas ordens de objeção nominalmente marxistas que se opõem às teses de O Processo Civilizatório.

A primeira diz respeito à noção de feudalismo, que conceituamos não como uma etapa da evolução sócio-cultural situada entre o Escravismo e o Capitalismo, mas como uma inteligência geral de regressão histórica. Assim concebida, seria um tipo geral de vicissitude em que até agora tendiam a cair e até a recair reiteradamente todas as altas civilizações.

Os europeus e os norte-americanos (como um transplante ultramarino de sociedades européias) têm dificuldades de assumir esta visão porque, identificando o feudalismo com a Idade Média que está no seu próprio passado, são levados a concebê-lo como uma ponte histórica entre o Escravismo greco-romano — seus supostos ancestrais, mais dignificatórios do que reais — e os alvores do Capitalismo Mercantil, no Renascimento.

A luz desta percepção eurocêntrica, o milênio de atraso medieval — em que desaparece toda a produção mercantil, em que a imensa estrutura do Império Romano se coalha em milhares de feudos — é alçada fantasiosamente da condição de seqüência histórica específica à de categoria teórica geral da evolução humana.

Tenta-se até fundamentar a tese, buscando no Feudalismo assim concebido signos do progresso que através dele se teriam dado no trânsito da Escravidão ao Trabalho Assalariado através da Servidão. A verdade é que não há tais avanços. O que se toma por sinal deles já são prenúncios das novas formações pós-feudais.

O grave, porém, desta concepção, é que dado o seu caráter genérico, ela conduz à tendência nefasta de catalogar como “feudalismo” tudo que não seja Escravismo puro nem Capitalismo pleno.

Nossa concepção de Feudalismo, ao contrário, além de proporcionar explicações satisfatórias para as regressões cíclicas que experimentaram as civilizações egípcia, mesopotâmica, indiana e chinesa, etc., permite superar a estreiteza da concepção anterior.

Esta, além de não explicar nada — nem mesmo a história medieval européia — impossibilita entender a natureza real das revoluções socialistas não obreiras nem pós-capitalistas que são, aliás, as únicas que se conhece.

Esta qualidade é que fazia aquela concepção tão cara a Stalin quanto sua obsessão pelo caráter democrático-burguêsporque pós-feudal — de toda revolução nas áreas neocoloniais. Dentro desta percepção, Fidel haveria feito a revolução por ignorância.

Outra reserva pseudomarxista ao esquema conceitual de o Processo Civilizatório vem da escolha do desenvolvimento da tecnologia como o critério básico de construção do nosso esquema de evolução sócio-cultural.

Alega-se, aqui, que esta postura importa em invalidar o critério marxista que faz das lutas-de-classe o motor da história e do desenvolvimento dos modos-de-produção o critério fundamental da evolução social.

Não há nesses argumentos senão palavreado vazio. Primeiro, porque não negamos a luta-de-classes, apenas assinalamos que apesar de serem tão importantes, elas não se prestam ao papel de categorias diagnósticas da evolução humana.

Tanto é assim, que muitas das suas formas básicas se reiteram em formações sociais inteiramente diferentes e com defasagem evidentes – como o Escravismo romano e o Escravismo brasileiro – o que, se ratifica por um lado sua relevância, comprova, por outro lado, sua desvalia como critério distintivo de etapas da evolução.

Em segundo lugar, porque os componentes estratégicos do modo-de-produção para o estudo da evolução social são precisamente os meios-de-produção, vale dizer, a tecnologia o não as relações-de-produção, que seriam os antagonismos de classe acima referidos.

Contestar em nome de Marx a utilização do critério tecnológico no estudo da evolução social humana é tanto mais absurdo porque é o próprio Marx quem reclama no primeiro tomo de O Capital (1961:303) a necessidade imperiosa de se escrever a história crítica da tecnologia. Isto porque, a seu juízo, ela seria, no plano social, o equivalente da obra de Darwin no plano da evolução das espécies.

Com efeito, depois de salientar a importância da história da tecnologia natural de Darwin, Marx pergunta: Será que a história da criação dos órgãos produtivos do homem social (quer dizer, dos meios-de-produção, isto é, das técnicas produtivas, esclareço eu) que são a base natural de toda organização específica da sociedade, não merece a mesma atenção?

Conforme se verifica, foi Marx quem me pediu que escrevesse O Processo Civilizatório. Obviamente, ele esperava uma obra mais lúcida e alentada do que minhas forças permitiam. Ainda assim, fico com o direito de crer que, apesar de tudo, o herdeiro de Marx sou eu.


[1] Este debate foi publicado no Vol. 114 de 1970 de Current Anthropology e republicado em livro sob o titulo de Configurações Histórico-Culturais dos Povos Americanos, no México (1972), em Montevidéu (1972), no Rio de Janeiro (1975) e em Buenos Aires (1976).

ESCRITOS SOBRE A TEORIA POLÍTICA PARA O TRABALHISMO BRASILEIRO DO SÉCULO XXI — Uma coletânea de artigos sobre o desenvolvimento do trabalhismo brasileiro e do movimento socialista no Brasil.


Publicamos, 17 de abril de 2022, um dia de Páscoa, nosso primeiro livro. Este que é fruto de um extenso trabalho coletivo que vem de longe. Desde 2017 nos esforçamos, seja através do trabalho do Núcleo de base Caminho Brasileiro para o Socialismo e da equipe da A coisa pública brasileira, junto de seus colaboradores e apreciadores, seja através da dura, mas necessária, bela e recompensadora tarefa de, ao mergulhar na história do Brasil, almejar compreender os elos que ligam os movimentos socialistas, comunistas e trabalhistas à sua história comum de construção do Brasil moderno e popular. Esperamos entregar um material à altura de nossos leitores e do momento vivido por nosso país.

Agradecemos, mais uma vez, aos camaradas que são a expressão do ressurgimento do trabalhismo como caminho brasileiro para o socialismo e que, espalhados pelos quatro cantos do país, são sentinelas sempre alertas, comprometidos com a libertação nacional e com a defesa do nosso povo.

[TRADUÇÃO] Entrevista de Ang Bayan com Marco Valbuena, chefe do Serviço de Informação do PCF, sobre a posição do Partido no conflito armado na Ucrânia.

Publicado originalmente pela revista Ang Bayan, do Partido Comunista das Filipinas, em 28 de fevereiro de 2022. Para ler um pouco mais sobre o PCF recomendamos [1], da União Reconstrução Comunista.

Nota do tradutor:

Possuímos o intento de traduzir para o português por acreditarmos que as considerações desenvolvidas são importantes para a reflexão e amadurecimento deste debate no cenário brasileiro, bem como para uma avaliação correta da nossa linha de atuação, diante de um cenário internacional de turbulências que impactam no curso da luta de classes no Brasil.

É preciso compreender seriamente a partir de que posição no sistema internacional os países se enfrentam, onde a Ucrânia foi apenas o cenário “escolhido” para o desenrolar dessa contenda entre a Rússia e EUA-OTAN, e não vacilar na correta pontuação de como, historicamente, esta se aprofundou a partir do colapso da União Soviética e da política de subjugação da Europa aos interesses de hegemonia americanos.

Ao mesmo tempo, não podemos dar passos atrás e ignorarmos a realidade da luta da população de Donbass por sua autonomia e pelo direito a paz e estabilidade por contradições internas e em sua relação com a Rússia. Constatamos como um equívoco histórico aqueles que não consideram esses fatores tão importantes para a luta dos trabalhadores do Leste da Ucrânia e confiamos no julgamento da história.

É temerário furtar-se a defesa dessas populações, fechando os olhos para os crimes cometidos pelos Estado ucraniano. É crucial, portanto, que as repúblicas recebam o apoio de trabalhadores de vários países na sua batalha sagrada pela paz, para que se fortaleçam e possam, também, travar seu caminho de autonomia em relação aos interesses geoestratégicos e econômicos da Federação Russa. Acreditamos que esse é o papel de apoio e de solidariedade proletária que precisamos destacar.


Alguns ativistas, amigos e leitores levantaram a preocupação crítica de que o PCF não condenou clara ou redondamente a “invasão da Ucrânia” da Rússia nas duas declarações divulgadas antes da “operação militar especial” de 24 de fevereiro e no artigo de fundo publicado naquele dia. Há a opinião de que a Rússia, como país imperialista, é tão culpada quanto os EUA e seus aliados da OTAN pela escalada do conflito armado na Ucrânia. Ou que os ataques da Rússia contra a Ucrânia servem apenas aos interesses dos oligarcas da Rússia, portanto, devem ser combatidos pela classe trabalhadora na Rússia e na Ucrânia e pelos povos de todo o mundo.

  • Em primeiro lugar, o PCF considera a Rússia imperialista?

Sim, a Rússia é uma potência imperialista, embora muito menor que os EUA, Japão, China, Alemanha, França e outros países imperialistas. Como país imperialista, a Rússia impõe seu domínio militar, político e econômico a países menores, particularmente em torno de suas fronteiras na Ásia Central e na Europa Oriental, a maioria dos quais pertencia à União Soviética (URSS) até ser dissolvida em 1991.

Desde que a liderança da União Soviética foi assumida pelos revisionistas modernos em 1953, que posteriormente realizaram a restauração capitalista, o capital e os recursos tornaram-se cada vez mais concentrados nas mãos dos capitalistas monopolistas estatais na Rússia, o maior estado da União Soviética, à custa dos estados-membros menores e das áreas do campo russo, muitos dos quais foram reduzidos a fontes de mão de obra barata ou de matérias-primas (grãos e minerais). Eles se tornaram dependentes de investimentos russos e commodities importadas da Rússia.

A Rússia perpetua seu poder hegemônico através do poder militar e pelo fato de manter um dos maiores arsenais nucleares do mundo, herdado da União Soviética. Como força militar, a Rússia está em segundo ou terceiro lugar no mundo, atrás dos EUA, e em torno do equivalente à força geral da China. Tem quase a mesma quantidade de armas nucleares que os EUA e está à frente em muitos campos de pesquisa tecnológica militar, incluindo o desenvolvimento de armas hipersônicas.

Gastos militares excessivos combinados com corrupção burocrática em larga escala e pilhagem por oligarcas e grupos criminosos, no entanto, esgotaram os recursos econômicos da Rússia. Apesar de ser o maior país do mundo em termos de extensão territorial e de possuir vastos recursos econômicos, a Rússia não é tão grande quanto os EUA ou a China em termos econômicos (está classificada apenas em 11.º no mundo em termos de PIB estimado pelo FMI em 2021, apenas 7% do tamanho da economia dos EUA e 9,7% da China) e depende em grande parte da exportação de petróleo e gás natural. Os trabalhadores e o povo da Rússia sofrem com a estagnação econômica, a miséria generalizada, o agravamento das formas de exploração e opressão, o desemprego crônico, baixos salários e a deterioração das condições socioeconômicas.

  • O PCF considera o conflito armado na Ucrânia como resultado do conflito armado interimperialista?

O atual conflito armado na Ucrânia está no contexto de crescentes contradições interimperialistas e conflitos armados. É uma manifestação do impulso dos EUA e suas potências imperialistas aliadas para redividir o mundo e tirar da Rússia suas esferas de influência, investimento e comércio; e o contra-impulso da Rússia para preservar a ordem atual e recuperar suas esferas perdidas.

A esfera de influência da Rússia tem sido sistemática e violentamente corroída pela aliança da OTAN liderada pelos EUA desde a dissolução da União Soviética em 1991, começando com a guerra iniciada pelos EUA-OTAN e consequente destruição da Iugoslávia, e a expansão da OTAN nos antigos países do Pacto de Varsóvia na Europa Central (República Checa, Eslováquia, Romênia, Lituânia, Polônia) e na Europa Oriental, até às fronteiras da Rússia.

Isso é uma violação flagrante do Acordo de Minsk de 1991 que dissolveu a URSS e envolveu garantias dos EUA, OTAN e OSCE de que os membros do Pacto de Varsóvia não seriam convertidos em membros da OTAN. Mesmo aqueles que celebraram o Acordo de Minsk de 1991 como uma conquista histórica para acabar com a Guerra Fria e a ameaça de uma guerra nuclear estão chocados com como ele foi sistematicamente violado pelos EUA e pela OTAN.

Desde 1991, os EUA e a OTAN estabeleceram instalações militares e bases de mísseis e antimísseis na Polônia, República Tcheca e Romênia, além do Alasca, na fronteira com a Rússia. Em 2019, os EUA destruíram o acordo de mísseis balísticos de alcance intermediário (IRBM) com a Rússia, abrindo ainda mais o caminho para a expansão do sistema de mísseis dos EUA e da OTAN.

The history of Nato in Europe, in one gif.
  • Quais são as circunstâncias específicas que deram origem ao atual conflito armado na Ucrânia?

Embora seja importante entender o conflito armado na Ucrânia como no contexto de crescente conflito interimperialista, devemos prosseguir para compreender suas características particulares, os principais aspectos do conflito e o principal aspecto do conflito armado.

Devemos entender que a Ucrânia é a última fronteira no impulso imperialista dos EUA para cercar a Rússia com seus mísseis balísticos de alcance intermediário. Os EUA gastaram pelo menos US$ 4 bilhões em assistência militar à Ucrânia desde 1991, com mais de US$ 2,5 bilhões desde o golpe de 2014. O país também recebeu mais de US$ 1 bilhão em ajuda militar do Fundo Fiduciário da OTAN.

Além disso, o Reino Unido forjou acordos com Kiev, nos quais o Reino Unido gastaria 1,5 bilhão de libras para atualizar as capacidades navais da Ucrânia e armar seus navios de guerra com mísseis britânicos e construir bases militares navais no Mar Negro e no Mar de Azov, na fronteira com a Ucrânia, Crimeia e Rússia.

Tendo erodido a esfera de influência da Rússia na Europa Central e Oriental desde 1991, o imperialismo dos EUA e seus aliados da OTAN continuaram a impulsionar seu esforço para estabelecer seu domínio militar na Ucrânia e completar sua rede de bases de mísseis ao redor da Rússia.

Em 2014, os EUA instigaram um golpe na Ucrânia e instalaram um regime neonazista. O fez financiando e armando grupos de extrema-direita sob o chamado Batalhão Azov, formado em 2014 por grupos como o Patriot of Ukraine e a Social National Assembly. Esses grupos têm suas raízes na Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) de Stepan Bandera e no Exército Insurgente Ucraniano, ambos aliados da Alemanha nazista.

Protestos generalizados de pessoas no sul e leste da Ucrânia, bem como na Crimeia, contra o golpe patrocinado pelos EUA foram violentamente reprimidos pelo regime neonazista ucraniano combinado com as forças do Batalhão Azov.

Eles procederam ao montarem ataques contra a população predominantemente russa na Crimeia e na região de Donbass, marcada por graves violações dos direitos humanos, crimes de guerra, saques em massa, detenção ilegal e tortura. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas estima que cerca de 14.000 pessoas foram mortas em massacres e bombardeios de artilharia.

Os ataques russofóbicos contra a região de Donbass instigaram o povo a montar uma resistência armada e buscar o apoio da Rússia. Em abril de 2014, a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk foram declaradas estabelecidas, reforçadas por um referendo em 11 de maio de 2014.

Em 2014 e 2015, nas negociações entre a Ucrânia, Rússia, Alemanha e França em Minsk, a região de Donbass foi reconhecida como uma área autônoma sob a Ucrânia, todas as tropas estrangeiras foram retiradas e uma “linha de contato” foi estabelecida onde nenhum dos lados entraria ou cruzaria.

  • Qual é o status dos acordos de cessar-fogo de 2014 e 2015 na região de Donbass?

Os ataques contra a população da região de Donbass não cessaram após os acordos de Minsk de 2014 e 2015 com repetidas violações por parte da Ucrânia, que fortificou suas forças ao longo da chamada linha de contato. Somente este ano, as organizações de monitoramento registraram 8.000 violações do acordo, em grande parte do lado ucraniano.

Armas dos EUA, conselheiros militares e empreiteiros privados foram implantados em torno da área de Donbass para armar, treinar e instigar as forças militares ucranianas na montagem de ataques contra o povo de Donetsk e Lugansk.

O objetivo imediato dos EUA é provocar a Rússia para justificar sua intervenção militar intensificada e financiamento militar na Ucrânia, pressionar pela inclusão da Ucrânia na OTAN e obrigar a Alemanha e outros aliados na Europa a cancelar acordos comerciais com a Rússia, especificamente contra a operações do gasoduto Nord Stream 2.

A Rússia e o povo predominantemente russo de Donbass têm feito repetidos apelos por negociações para revisitar os acordos de Minsk de 2014 e 2015, a fim de garantir sua implementação, tornando suas disposições mais explícitas. A demonstração de força da Rússia desde dezembro em sua área de fronteira ocidental foi um chamado direto para negociações para revisitar os acordos de Minsk e forjar novos acordos para garantir a segurança das regiões de Donbass e pressionar por proibições claras contra a inclusão da Ucrânia na OTAN.

Provocada pelos EUA, a Ucrânia ignorou os pedidos de negociações. Em vez disso, intensificou os ataques contra Donetsk e Lugansk em 21 de fevereiro, disparando 1.500 tiros de artilharia em 24 horas, atingindo infraestrutura civil, incluindo usinas de energia, sistemas de água e prédios escolares.

Esses atos descarados levaram a RPD e a RPL a declarar a secessão da Ucrânia como o único recurso para acabar com sua opressão. Isso também aumentou os pedidos para que a Rússia reconhecesse a RPD e a RPL como estados-nação independentes tanto de dentro da região de Donbass, quanto da Bielorrússia e Rússia. A Rússia reconheceu formalmente a RPD e o RPL em 22 de fevereiro e imediatamente enviou tropas de “manutenção da paz” para fortalecer as defesas da região de Donbass contra ataques ucranianos e, posteriormente, montou uma “operação militar especial”.

O objetivo declarado das “operações militares especiais” montadas pela Rússia na Ucrânia diz respeito principalmente à luta do povo da região de Donbass, que assumiu agora a forma de sua defesa de seu direito à autodeterminação nacional.

  • O PCF condenou os EUA por provocar a guerra na Ucrânia? Os imperialistas dos EUA e da Rússia não são, de fato, igualmente culpados pelo atual conflito armado na Ucrânia?

De fato, o PCF já emitiu declarações denunciando as provocações de guerra e belicismo dos EUA na Ucrânia, especificamente seus ataques frenéticos contra a região de Donbass para provocar a Rússia. Também denunciou a expansão da OTAN para as fronteiras da Rússia, bem como intrusões dos EUA-OTAN e criação de problemas internos na Chechênia e na Geórgia, as chamadas revoluções coloridas. Os atos agressivos dos EUA e da OTAN contra a Rússia são duradouros e contínuos.

O PCF considera o atual conflito armado como principalmente resultado direto dos ataques intensificados das forças armadas ucranianas, instigados pelos EUA e planejados com assessores militares dos EUA, contra a população da região de Donbass.

As ações militares da Rússia na Ucrânia não são sem provocação. O PCF considera a ação da Rússia, taticamente, como uma contra-reação às incessantes provocações e ataques militares apoiados pelos EUA contra o Donbass. A escalada do conflito armado poderia ter sido evitada se a Ucrânia tivesse atendido aos apelos para que interrompesse os ataques contra o Donbass e se envolvesse em novas negociações. O PCF, no entanto, está ciente que o apoio da Rússia à região de Donbass é motivado por seus interesses imperialistas estratégicos de garantir e expandir seus interesses hegemônicos.

Se culparmos e condenarmos os EUA e a Rússia com igual peso pela escalada do conflito armado na região, estaríamos minando a justiça da luta pela autodeterminação nacional do povo de Donetsk e Lugansk, a valente resistência do povo de Donbass e seu esforço para tirar vantagem do conflito interimperialista ganhando o apoio da Rússia. Também tornará o povo de Donbass culpado por pedir à Rússia que ajude a repelir a agressão ucraniana.

Na verdade, é razoável criticar a Rússia e Putin por terem demorado tanto em estender apoio suficiente aos povos de Donetsk e Lugansk. Por oito anos, permitiu que os fascistas russofóbicos massacrassem 14.000 russos nascidos na Ucrânia, com a destruição de suas fábricas, casas, escolas, hospitais e serviços públicos e a migração forçada de milhões de russos, reduzindo assim a participação da população russa na Ucrânia de 22% em 2014 para 17% em 2022.

O povo de Donetsk e Lugansk deve defender firmemente seu direito à autodeterminação nacional e adotar uma política externa consistente com seus interesses nacionais.

Ao mesmo tempo, em que conquistam o apoio da Rússia, as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk também devem se posicionar firmemente contra o hegemonismo russo e exigir igualdade de tratamento como estados-nação independentes. No entanto, apenas os imperialistas dos EUA-OTAN e trotskistas exigiriam agora que o povo de Donetsk e Lugansk lute contra a “invasão” da Rússia, que os está ajudando a combater os fantoches fascistas de Kiev dos EUA e da OTAN.

  • Isso significa que o PCF considera a “operação militar especial” da Rússia contra a Ucrânia justificada devido aos seus objetivos declarados de acabar com os ataques contra o povo da região de Donbass?

Do ponto de vista da guerra revolucionária nacional do povo de Donetsk e Lugansk, o apoio militar russo é justificado e necessário. Antes do apoio direto da Rússia, eles estavam praticamente sendo massacrados pelas forças militares da Ucrânia apoiadas pelos EUA, que demonstraram total desrespeito a todos os acordos internacionais anteriores.

O PCF, no entanto, também está ciente que a Rússia é uma potência imperialista impulsionada por seus objetivos hegemônicos e por defender e expandir suas esferas de influência e controle. Enquanto a Rússia declara sua “operação militar especial” como congruente com o objetivo do povo Donbass de pôr fim aos ataques da Ucrânia, é motivada principalmente por seu objetivo imperialista de defender sua esfera de influência e pelo objetivo estratégico de reinstalar um estado-cliente na Ucrânia.

Se a Rússia mantiver suas declarações de atingir apenas alvos militares e não ocupar território, suas ações podem ser consideradas defensivas e retaliatórias que são geralmente aceitáveis ​​sob as regras internacionais de guerra. Será da conta da própria Rússia se não tiver aprendido nenhuma lição tanto da agressão e ocupação social-imperialista soviética no Afeganistão na década de 1980 quanto das guerras de agressão e ocupação dos EUA desde o final da Segunda Guerra Mundial, frustradas pela resistência, mas que causaram a morte de 25 a 30 milhões, bem como custos autodestrutivos para os EUA que aceleraram seu declínio estratégico.

Há informações de que as forças militares russas estão avançando para além da região de Donbass e ocupando o território ucraniano supostamente motivado pelo massacre de russos na região de Kharkov pelas forças do Batalhão Azov.

O PCF se junta aos apelos ao povo ucraniano para exigir o fim dos ataques fascistas russofóbicos e exigir que seu governo respeite e proteja os ucranianos de nacionalidade russa nas várias cidades da Ucrânia dentro e fora da região de Donbass.

Ao mesmo tempo, o PCF apoia sua luta para defender a soberania de seu país e na exigência de que a Rússia suspenda suas ofensivas militares, retire suas forças o mais rápido possível e abra caminho para o diálogo e a resolução pacífica do conflito.

  • Os ataques da Rússia contra a Ucrânia estão agora em seu quinto dia. Há notícias de vítimas civis e apartamentos residenciais danificados por foguetes. Pessoas em Kiev e outras áreas estão evacuando em massa. Por outro lado, a Rússia insiste que os civis não estão sendo alvejados e afirma ter eliminado 975 instalações militares ucranianas e derrubado jatos, helicópteros e drones. À luz desses desenvolvimentos, qual é o apelo do PCF?

Em tempos de intenso conflito armado, o nevoeiro da guerra aumenta e os fatos reais no terreno tornam-se difíceis de determinar em tempo real. Espera-se que ambos os lados aumentem sua ofensiva de propaganda para apoiar seus objetivos militares.

Até mesmo a fotografia amplamente divulgada de um apartamento em Kiev danificado por disparos de mísseis não foi verificada e contestada: a Ucrânia afirma que foi atingido por um míssil russo, enquanto há informações de que foi danificado por um míssil ucraniano ou foguete antimíssil que falhou.

Diante dos ataques blitzkrieg da Rússia, Kiev lamentou publicamente que foi “deixado sozinho” para lutar e declarou abertura ao diálogo para discutir a “neutralidade” da Ucrânia e outras questões. Isso foi seguido pela ordem da Rússia de suspender as operações militares em 25 de fevereiro.

No entanto, os imperialistas dos EUA e seus aliados intensificaram sua intervenção com a decisão dos EUA de estender uma ajuda militar de US$ 600 milhões à Ucrânia. Os EUA também conseguiram pressionar a Alemanha a enviar tanques e outras armas contrárias à sua própria política de não enviar armas para áreas de conflito. Isso aparentemente encorajou o governo Zelensky a retornar à sua posição bélica anterior e abandonar as negociações planejadas. A resposta da Rússia foi retomar seus ataques.

O PCF congratula-se com as novas notícias de que as linhas de diálogo permanecem abertas e que a Ucrânia propôs se reunir com autoridades russas na cidade bielorrussa de Gomel, e que a Rússia declarou que enviará sua delegação. As conversas devem começar hoje. A Rússia, no entanto, disse que não suspenderá novamente seus ataques militares durante o próximo diálogo.

O PCF insta a Rússia a suspender suas ofensivas militares contra a Ucrânia, a fim de aumentar as chances de sucesso das negociações e as autoridades de Kiev a interromper sua ofensiva contra o povo da região de Donbass, bem como os ataques aos russos por suas unidades territoriais russófobas e grupos de vigilantes neonazistas como o Batalhão Azov contra apartamentos e comunidades russas.

Mais importante ainda, o PCF insta os EUA e seus aliados na OTAN a pôr fim à intervenção e provocar a Ucrânia para escalar a guerra, e deixar o diálogo entre os dois países prosseguir e buscar resolver o conflito através de negociações pacíficas para discutir a questões levantadas por ambas as partes.

O PCF pede aos trabalhadores e ao povo da Ucrânia que exija o fim da guerra genocida contra o povo na região de Donbass, resista à agressão russa, oponha-se à intervenção dos EUA e da OTAN e lute pela neutralidade de seu país diante dos crescentes conflitos entre os hegemônicos poderes.

O PCF pede aos trabalhadores e ao povo da Rússia que reforcem o apoio à luta pela autodeterminação nacional do povo da região de Donbass e exija que o governo Putin suspenda imediatamente suas ofensivas militares contra a Ucrânia, estenda [os trabalhadores da Rússia] a solidariedade com o povo democrático da Ucrânia e avancem em suas próprias lutas contra os oligarcas russos e as classes dominantes.


[ENTREVISTA EXCLUSIVA] Jornalista Dmitri Kovalevich, comunista ucraniano, sobre a situação das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk.

Por Cíntia Xavier e Daniel Albuquerque.

A coisa pública brasileira, no intuito de esclarecer sobre o que ocorre na Ucrânia neste presente momento e elucidar mais sobre as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, obteve uma entrevista exclusiva como o ucraniano Dmitri Kovalevich, para que brasileiros possam ter informações relevantes que nos vem sendo negadas, devido ao intenso bloqueio midiático.

Dmitri é um jornalista ucraniano e participava da organização comunista banida ‘Borotba’. Após o golpe pró OTAN, Estados Unidos e União Europeia sofrido pela Ucrânia, a organização foi tornada ilegal em 2014 por protestos ativos contra o golpe e contra a institucionalização do neonazismo na sociedade ucraniana.

Sua organização apoiou ativamente os rebeldes do Donbass no conflito civil que, desde o golpe e a operação militar contra a população das regiões do Leste da Ucrânia por parte das Forças Armadas Ucranianas e sua estrutura paramilitar neonazista, causa uma dolorosa e sangrenta ferida na sociedade ucraniana.


A coisa pública brasileira: Como você definiria o movimento de independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk em termos ideológicos? (muitas pessoas no Brasil tem dificuldade em compreender isso.)

Dmitri Kovalevich: Bem, é apenas um desejo de viver separado de um estado que não gosta. Os motivos podem ser étnicos, religiosos, econômicos (como no caso da independência dos EUA da Grã-Bretanha) ou ideológicos. No caso do nosso conflito civil na Ucrânia podemos ver sim, a questão ideológica. A esmagadora maioria da região altamente industrializada de Donbass preserva principalmente sua mentalidade de classe e pró-soviética.

Historicamente sendo trabalhadores de várias origens étnicas, eles resistem à política de estado mono étnico na Ucrânia e suas tentativas de revisionar os resultados da Segunda Guerra Mundial, visto que as autoridades de Kiev promovem oficialmente o culto de fascistas da Segunda Guerra Mundial e conduzem a política de descomunização (proibição de partidos comunistas, símbolos, materiais, postagens na internet, etc.).

O movimento pela independência do Donbass foi desencadeado pelo golpe pró-EUA em 2014. Muitos ucranianos pró-soviéticos ou comunistas/de esquerda se mudaram de Kiev para Donetsk resistindo contra seus antigos vizinhos. Em 2015, foram assinados os acordos de Minsk. Implicaram a reintegração das repúblicas do Donbass de volta à Ucrânia, se isso permitisse que a região possua sua autonomia cultural. Kiev assinou, mas não cumpriu por 7 anos, pois isso seria ruim para impor o nacionalismo étnico.

ACPB: Qual o papel do socialismo/marxismo/comunismo na vida política das repúblicas de Donbass? (alguns dizem se tratar apenas de uma questão de estética)

D. K.: Como eu disse, muitos comunistas ucranianos, marxistas se mudaram para as repúblicas de Donbass do resto da Ucrânia fugindo do terror fascista. Muitos deles se juntaram aos rebeldes do Donbass (então — o exército das repúblicas). Muitos morreram em ações na guerra que dura 8 anos.

Devo enfatizar: nossa guerra começou não em fevereiro de 2022, mas na primavera de 2014 — quando voluntários neonazistas (paramilitares) foram enviados para cidades rebeldes do leste que não reconheciam o governo pós-golpe. E todos os liberais ocidentais que apenas começaram a gritar “Pare a guerra na Ucrânia” agora ignoraram completamente a guerra no Donbass.

Em ambas as repúblicas trabalham partidos comunistas. Você pode visitar o site do partido comunista de Donetsk (www.wpered.su)*. Os comunistas de Donbass são apoiados e auxiliados principalmente pelo Partido Comunista da Federação Russa. E o projeto de lei sobre o reconhecimento das repúblicas em fevereiro de 2022 foi apresentado exatamente pelos comunistas russos e depois adotado pelo parlamento russo.

Na foto acima, você pode ver um tanque sob bandeira vermelha — de comunistas de Donetsk que também participam da operação russa.

ACPB: Ambas as repúblicas possuem o mesmo perfil ideológico? (por exemplo, uma apresenta um brasão de armas com conotação mais nacionalista e outra possui uma simbologia mais soviética).

D. K.: Sim, quase não há diferença entre eles. Surgiram duas repúblicas apenas porque haviam duas regiões rebeldes com seus centros e fronteiras administrativas entre elas.

ACPB: Por último, mas não menos importante: há muitos esquerdistas, comunistas e socialistas no Brasil que se confundem com a propaganda ocidental e não sabem nada sobre o assunto. O que você diria para explicar que precisamos apoiar as forças do Donbass e a independência das repúblicas do Donbass?

D. K.: Muitos esquerdistas estão sob controle total da mídia ocidental. Podemos não saber pessoalmente o que está acontecendo na Indonésia ou na Bulgária — por isso tendemos a confiar na mídia de grandes empresas. E os grandes capitalistas investem bilhões em mídia não é em vão — seus investimentos são pagos quando você confia neles e promove sua política.

Eles têm um número grande de ferramentas para manipulação. Posso ver agora o influxo em massa de falsificações sobre nosso conflito. Você é bombardeado por milhares deles e todos visam pressionar seus profundos sentimentos humanos. Isso é fácil para manipular a moral das pessoas.

Muito provavelmente você não ouviu nada sobre o bombardeio sistemático de Donetsk, que não parou por 8 anos. E muito provavelmente você não ouviu falar sobre o ‘beco dos anjos’ de Donetsk — memorial às crianças mortas pelo bombardeio do exército da Ucrânia. Você ouve sobre a guerra e os sofrimentos apenas quando os rebeldes de Donetsk contra-atacam e um aliado da OTAN pode ser derrotado.

O terror da extrema-direita na Ucrânia deve ser interrompido e nossos camaradas devem ter a possibilidade de voltar para casa e trabalhar aqui legalmente. O fascismo e o racismo são uma característica do nosso regime (bem, o presidente Zelensky é apenas um fantoche, um ator contratado atuando como Presidente). Nossa ideologia nacional desde 2014 é baseada em culpar o comunismo e a ideologia de esquerda.

Mas o fascismo também ajuda a promover reformas neoliberais aqui — aumentando os preços de tudo, enquanto qualquer categoria de protesto contra isso está sendo rotulado como “pró-russo” e impiedosamente agredida por paramilitares fascistas. Este é um modelo para qualquer outro país. O fascismo é apenas uma ferramenta do capitalismo destinada a obter mais lucros. Se perder uma guerra em qualquer lugar — isso o abala (o capitalismo) — e é um alívio para os trabalhadores em todos os lugares.

* O site do Partido Comunista de Donetsk utiliza o domínio .su (Soviet Union).

[GETÚLIO VARGAS] Discurso da II Convenção do Partido Trabalhista Brasileiro, 1947.

Segundo discurso da série “A IMPORTÂNCIA DA DEFESA CRÍTICA AO LEGADO DE GETÚLIO VARGAS“, iniciada em 2019.

A coisa pública brasileira, em continuidade com o projeto de trazer discursos feitos por Getúlio à época de seu mandato como Senador, em 1946-1947, com fins de promover um debate justo acerca da complexidade dessa figura que tanto influenciou a história do Brasil, traz hoje o material proferido na II Convenção Nacional do PTB, em 1947. Getúlio Vargas, à época, realizou uma retrospectiva do mundo industrial do pós-guerra, em especial da Europa e dos Estados Unidos, e acentuou que são pontos do programa do PTB o aumento em quantidade e qualidade das atividades produtivas, e a defesa da legislação social.


RIO DE JANEIRO, 10 DE MARÇO DE 1947.

Trabalhadores do Brasil, estamos no limiar de uma nova era e precisamos concentrar todas as energias da inteligência e da ação para nos anteciparmos aos fenômenos que transformarão o ritmo da vida dos homens, dos povos e das nações. Depois de uma guerra que exigiu supremos sacrifícios, a humanidade ainda hesita entre o passado e o futuro, detendo-se na contemplação das ruínas e incerta em face dos novos valores. A paz ainda não desceu sobre os homens.

No Oriente, o prestígio do homem branco está sendo renovado pelas armas. A Europa ainda é um acampamento. A África é campo de disputas. Somente na América a liberdade tem seu clima*. Todos os povos buscam fórmulas para sua restauração. E no Brasil, como em toda parte, a intranquilidade é o pão cotidiano. A guerra foi um parêntese, armado como solução ou tentativa de solução provisória ao problema social, que estava desafiando todos os estadistas. A humanidade retoma seu caminho. E encontra todos os fenômenos agravados.

Antes da guerra, 100 organizações industriais dos Estados Unidos fabricavam 30% da produção desse país. Isto correspondia a 15% do total da produção mundial. Hoje, 100 empresas controlam 70% da produção industrial norte-americana, representando mais de 40% do total da produção do mundo inteiro. Durante a guerra desapareceram 500 mil empresas independentes. O fenômeno é tão grave que Wendell Berge, procurador assistente da República dos Estados Unidos e chefe do Departamento Antitruste, declarou: “A concentração do poder econômico em poucos grupos privilegiados é, hoje em dia, maior do que em qualquer época da história”.

A par desse fenômeno, se processam outros de importância capital. Em 1939, o salário dos mineiros de carvão dos Estados Unidos era de 24 dólares semanais, correspondentes a quase Cr$ 2.000,00 mensais de nossa moeda. Hoje, o salário dos mineiros de carvão nos Estados Unidos é de 66 dólares semanais, equivalente a mais de Cr$ 5.000,00 por mês. Mas o salário dos mineiros ingleses não alcança hoje 5 libras semanais, ou seja, Cr$ 1.600,00 mensais. Apesar disso, o preço do carvão norte-americano é igual ao do carvão inglês. Ninguém mais quer trabalhar nas minas de carvão da Inglaterra e estamos assistindo a uma crise de pavorosas consequências. Por quê? Porque enquanto uns empregam o trabalho mecânico a pleno rendimento, os outros, com instrumentos rudimentares, exaurem suas forças em escassa produção.

Todos apresentam críticas, todos se consideram capazes de salvar a humanidade. Mas ainda não se fez o diagnóstico do mal. Ou melhor, ainda não se tentou fazer um diagnóstico com serenidade, buscando-se as causas reais dos fenômenos. Quando a máquina a vapor e as grandes instalações industriais do fim do século passado começaram a criar os desajustamentos naturais a um novo ciclo econômico, surgiu Karl Marx com a concepção da mais-valia. Mas a ciência não evoluiu apenas no setor industrial. No campo agropecuário realizou verdadeiros milagres.

A Europa se libertou das importações de açúcar, multiplicou a fertilidade de suas terras com os adubos químicos e conseguiu manter seu ritmo de crescimento graças à utilização de todos os recursos da ciência. A mais-valia marxista deixou de ter importância econômica*, pois a margem com que o capital onerava a produção passou a ser insignificante em face da multiplicação da produtividade do homem, que os recursos da ciência, desenvolvida pelo capital, determinavam. A eletricidade e o motor a explosão colocaram ao alcance das massas inúmeros benefícios de que há meio século nem os mais ricos poderiam usufruir.

Os serviços sanitários, a luz, os serviços de transporte – mesmo com a crise atual – representam mais uma fase de evolução das massas. A imprensa, com seus novos maquinismos, rasgou horizontes de amplitude sem par na esfera da educação e cultura. E o rádio, finalmente, se apresenta hoje como o milagre da nossa geração. Mas todos esses fenômenos de evolução trouxeram um ritmo desordenado e confuso. Não se produziu apenas o necessário. A atividade humana se estendeu para o supérfluo, sem considerar que a resistência dos produtos vitais tem um limite.

Ao ônus econômico da produção ilimitada e desordenada do supérfluo se acresceram os ônus de atividades não relacionadas com a produção. A Europa, desejando manter em cada nação, por motivos políticos, o maior número de habitantes, foi concentrando atividades de toda espécie e estabeleceu um sistema econômico na importação de gêneros alimentícios. Pelos últimos cálculos, antes da guerra a Europa necessitava de 200 milhões de toneladas de gêneros alimentícios e importava essa massa gigantesca, além de manter uma política artificial de subvenção para determinadas culturas.

No fundo, a Europa não apresentava uma solução científica para seu problema. Sua solução era política e se baseava na troca de valores de horas de trabalho por um maior número de horas de trabalho de outros povos. Entre esses povos que contribuíam com maior número de horas de trabalho para manter o sistema econômico europeu estava o Brasil.

Eis a origem do Partido Trabalhista Brasileiro. Não é possível mais tomar em consideração o trabalho humano apenas na sua base quantitativa. É indispensável considerar outros dois fatores: o da multiplicação da sua quantidade e o da melhoria da sua qualidade. Multiplicação e melhoria só se alcançam por meios científicos. A multiplicação dos valores e a melhoria da qualidade das horas de trabalho representam a elevação econômica do trabalhador, a melhoria de seus salários e um nível de vida digno.

E este é o programa do Partido Trabalhista Brasileiro. Sem receio de erro, podemos diagnosticar a crise mundial como consequência da desproporção entre as horas de trabalho aplicadas na produção de utilidades e as horas de trabalho consumidas em inutilidades, somadas às horas de consumidores totalmente improdutivos. Onde as horas de trabalho aplicadas na produção de utilidades se multiplicam pela ciência, temos uma redução desse desequilíbrio, como ocorre no Canadá e nos Estados Unidos.

Mesmo assim, até nos Estados Unidos o peso das atividades semi ou totalmente improdutivas já se faz sentir, superando a evolução da ciência. Esse desequilíbrio determina a crise, que a inteligência deve dominar. A Revolução Francesa explodiu como consequência da pressão do consumo improdutivo sobre os trabalhadores produtivos. Nos últimos anos que precederam a guerra, a situação já se vinha agravando com o desenvolvimento de atividades dirigidas a um setor de produção de elementos prescindíveis, ao invés de se concentrarem na produção de utilidades indispensáveis.

Inúmeras outras atividades absorveram milhões de horas de trabalho ou de consumo improdutivo. A guerra acentuou ainda mais esse fenômeno e o após-guerra se caracteriza pela intensificação dessas atividades para a produção dispensável. A troca do resultado de horas de trabalho aplicadas em produção de utilidades indispensáveis por certo número de horas de trabalho aplicadas em bens de consumo dispensáveis ou supérfluos é um desperdício do trabalho e, portanto, uma redução do seu valor.

E o Partido Trabalhista Brasileiro surge como força para impedir esse mal. Eis, em linhas gerais, a nossa doutrina. Eis um aspecto do programa do Partido Trabalhista Brasileiro. Consideramos [que] os valores do capital não [são] preponderantes sobre os valores do trabalho. Eles, sempre que examinados como elementos constitutivos de bens de produção, se apresentam dinâmicos, ao nível de uma energia de operação, e são tanto mais úteis quanto mais multiplicam os valores iniciais das horas de trabalho do homem.

São estáticos os valores de capital que não multiplicam os valores de trabalho. E são negativos os que não servem nem à produção, nem à vida do homem. Esses valores negativos não podem ser considerados pelo Partido Trabalhista Brasileiro como legítimos. Mesmo porque são contrários, com sua negatividade, ao bem-estar coletivo.

A doutrina do Partido Trabalhista Brasileiro é resultante da atividade espiritual. O homem produz com inteligência e espírito. Esse partido é nacionalista, mas seu nacionalismo é defensivo e não agressivo. Deverá manter, rigidamente, sua estrutura nacional, porque as organizações políticas devem ser nacionais para poderem ser nacionalistas. Precisamos respeitar a sabedoria das nossas tradições e evoluir de acordo com as nossas possibilidades reais.

O Partido Trabalhista Brasileiro é essencialmente democrático. E, por ser democrático, compreende a necessidade da existência dos outros partidos, praticando a norma básica da democracia, que é o respeito à vontade e à opinião alheia. Nesta difícil conjuntura, sentimos todos que a democracia não sobreviverá à crise sem uma planificação econômica e social. Depois de meio século de choques sangrentos entre operários e patrões, a experiência Roosevelt criou, com o New Deal, o ambiente para uma nova filosofia política e social. O espírito liberal fulminou o New Deal. As consequências são as que aponta hoje Wendell Berge.

Na Europa, os ingleses revivem a era dos espartanos com um sacrifício patriótico que faz da privação glória e orgulho. E o Partido Trabalhista britânico enfrenta com energia a crise, realizando um programa social. Na França, Monnet traça um plano para a reestruturação da economia gaulesa. As dificuldades de seu êxito são excepcionais. A França, para o sucesso do Plano Monnet, precisa de, pelo menos, mais um milhão de toneladas de carvão mensais do que tem hoje. E não existe no mundo esse carvão.

A Bélgica adota outra política econômica: a da restauração psicológica através de um período de bem-estar que lhe é assegurado pela sobra de divisas. Nos Estados Unidos, Chester Bowles enfrenta “o amanhã sem medo”, baseando-se no full employment prosperity. No Japão, Edwin Pawley projeta a reorganização econômica do Oriente. Finalmente, a Organização das Nações Unidas recomendou, por unanimidade da assembleia, que seu Conselho Econômico e Social preparasse os planos de uma Comissão Econômica para a Europa.

O Brasil precisa de máquinas modernas para a renovação de seu parque industrial e para revitalizar seu sistema de transportes. Não devemos esgotar nossas disponibilidades no exterior com a importação de mercadorias supérfluas. Providenciemos também para que Volta Redonda desempenhe sua missão de fabricar máquinas para produzir máquinas. A planificação de nossa economia é ponto vital do programa do Partido Trabalhista Brasileiro.

Estão definidas as diretrizes básicas do partido. O trabalhismo no Brasil, todos o sentem, mesmo os seus adversários, é o grande movimento que empolga os espíritos e as consciências. Não visa o Partido Trabalhista Brasileiro conquistar posições políticas para satisfação de seus membros. Cada função é um encargo à nossa soma de responsabilidades. Sua disciplina assegurará o triunfo de seu programa e de seus ideais.

Entre os quatro grandes partidos do Brasil, o Partido Trabalhista Brasileiro foi o único que não só não apresentou redução de votos, como ainda demonstrou sua pujança com aumento do número de eleitores. É uma questão de fato. Apesar de ter contra si as dissidências, sub-repticiamente, os partidos improvisados para atrair operários à sombra do poder; apesar da preocupação generalizada de impedir seu crescimento, sem recursos, sem propaganda, elevou seu prestígio e se consolidou.

Insisto num ponto de grande importância para o futuro. O Partido Trabalhista Brasileiro não é o reflexo nem a projeção da minha personalidade. É o sentimento consolidado pela legislação que afirmou a consciência política do socialismo no Brasil. Não é a vontade de um homem e sim a opinião das massas e a cristalização das leis sociais que devem ser cumpridas.

O Partido Trabalhista Brasileiro é a estrutura política do direito trabalhista. Hoje, a reorganização do partido é um imperativo de seu desenvolvimento. O Partido Trabalhista Brasileiro abre suas portas à nova geração e dirige um apelo a técnicos, estudiosos, especialmente à juventude pura e vibrante, no sentido socialista, para que formem seus departamentos de todas as atividades, porque nenhum outro partido pode oferecer carreira tão livre e tão digna na estrada do serviço à causa pública. Ele é o partido dos trabalhadores e não dos políticos. Para aqueles devem ser franqueadas todas as portas e seus postos de comando ocupados pelos verdadeiros líderes das classes.

Ruiu a mística do poder. Os partidos conservadores esgotam-se, porque não satisfazem às necessidades das massas. As chamadas elites fracassam, porque só têm finalidades políticas e não compreendem o sentido econômico da evolução social. E o povo, angustiado e sofredor, manifesta seu descontentamento pela abstenção nas urnas.

[…] Estas observações são sugeridas pelo estudo da nossa existência e dos acontecimentos internacionais, feito por quem nada mais aspira na política do Brasil. Desejo apenas, antes de me afastar inteiramente da via pública, deixar no Partido Trabalhista Brasileiro um componente novo, uma força de equilíbrio que atenda às aspirações dos trabalhadores e eleve a nossa cultura como a expressão doutrinária do socialismo brasileiro.

Resumindo: constitui programa do Partido Trabalhista Brasileiro a defesa da legislação social elaborada em benefício do trabalhador brasileiro. É um patrimônio seu, que deve ser defendido e fiscalizado, para que o não destruam, soneguem ou deturpem, para que seja fielmente interpretado e cumprido.

Essa legislação foi acrescida de novas conquistas, como a conseguida pela representação trabalhista na Constituinte, as férias semanais remuneradas e a participação nos lucros das empresas. Essas novas conquistas, embora integradas na Constituição, não foram ainda cumpridas. Cabe também ao Partido Trabalhista Brasileiro, como definição de seu programa, bater-se pelo aumento, em quantidade e qualidade, das atividades produtivas do brasileiro, reduzindo as improdutivas.

A superação das primeiras sobre as segundas resolveria a crise que nos aflige, restabelecendo o equilíbrio orgânico do país. Esses são pontos do programa partidário nas atividades nacionais, dentro do território de nossa pátria. Fora de nossas fronteiras, isto é, no campo internacional, a bandeira que defendemos deve ser a da nossa tradição histórica, a bandeira do pan-americanismo – a política de amizade e colaboração com todos os países da América, para a defesa da ordem e da paz no continente.

As boas relações com os países extracontinentais devem estar subordinadas ao primado da paz e da tranquilidade dos povos americanos, sem qualquer sacrifício ao princípio da soberania e integridade de cada um deles. O ambiente que nos envolve, os fenômenos que influem sobre nós são tanto de ordem nacional como internacional. E num e noutro campo precisamos situar nossa posição. O programa do Partido Trabalhista Brasileiro, lançado no momento de sua organização e ampliado pela evolução dos acontecimentos, abre largos horizontes aos vossos estudos, à vossa capacidade de trabalho e à vossa dedicação pelo Brasil.

*Nota da página: De acordo com as leituras de Getúlio, através do desenvolvimento da indústria especializada, a multiplicação da produtividade de um trabalhador torna-se muito superior à época que o conceito de mais-valia foi cunhado. É nesse sentido que interpretamos sua frase acerca da perca de importância do conceito de mais-valia, em relação a multiplicação da produtividade a partir do desenvolvimento das forças produtivas. Através de um projeto de industrialização que construa máquinas que constroem máquinas e que sejam responsáveis por grande parte do processo produtivo, há cada vez menos necessidade da utilização da mão de obra humana. Getúlio, portanto, com essa leitura, defendia uma política de qualificação e aumento do valor do trabalho atrelado ao projeto de industrialização brasileira para o suprimento das necessidades internas. A página, contudo, têm sua própria interpretação sobre a importância do conceito de mais-valia para o trabalho capitalista no século XX e XXI, com as respectivas indústrias e divisão social do trabalho de seu tempo, que em alguns pontos diverge da análise de Getúlio, o que não traz prejuízo pro conteúdo geral do discurso de Vargas.

Fonte: Coleção Perfis Parlamentares 72 – Getúlio Vargas. 2ª Ed. Maria Celina D’Araujo. Câmara dos Deputados. 2015-2019.

[MIYAMOTO MUSASHI] Fichamento “Sobre a atitude do espírito e o olhar na arte militar.

A coisa pública brasileira inaugura uma série a parte de textos, discussões e reflexões sobre ciência militar. Selecionaremos para reprodução trechos e obras de autores clássicos, modernos e contemporâneos que abordam a área, bem como produção autorais brasileiras via colaboração cujo assuntos sejam considerados relevantes para os estudos e reflexão brasileira. Caso tenha interesse em colaborar com algum material autoral, entre em contato conosco através das nossas redes sociais. Abrimos essa série, portanto, com o fichamento e comentários de “Sobre a atitude espiritual na arte militar” e “Sobre o olhar na arte militar” de Miyamoto Musashi, por Nelson, disponível originalmente no Medium.


Os textos “Sobre a atitude espiritual na arte militar ” e “Sobre o olhar na arte militar”, ambos do notório samurai Miyamoto Musashi, fazem parte de seu livro, conhecido em português como o “Livro dos Cinco Anéis”. Este antigo tratado militar consiste em uma obra de enorme valor, dividida em cinco capítulos, considerado o registro mais acurado daquilo que era considerado por Musashi como seu mais valioso legado, seu meticuloso e racional modo de pensar a arte militar, e em particular, duelos individuais.

Tal doutrina, cabe destacar, arduamente constituída através de uma vida de treinamentos, combates de vida ou morte desde a juventude, e meditações filosóficas profundas sobre a realidade e suas possíveis aplicações na arte da guerra, não deve de forma alguma ser subestimada ou ignorada em nosso tempo presente. Esta importante obra, embora tenha um foco evidente no kenjutsu, ou seja, na esgrima japonesa, mais especificamente, do estilo Niten ichi-ryū, fundado pelo próprio Musashi, não deixa de apresentar reflexões relevantes sobre a arte da guerra de forma mais geral. Pelo contrário, como o autor deixa claro logo em seu primeiro capítulo, a exemplo do pensador chinês Sun Tzu, que todo soldado deve ter razão de general, e todo general deve ter razão de soldado.

Mesmo quando analisa e se esforça para refletir sobre duelos individuais, sua especialidade, na qual, por sinal, sagrou-se vitorioso por mais de sessenta vezes, além de terminar sua “carreira” invicto, Musashi também nos ensina conceitos aplicáveis para confrontos de proporções inimaginavelmente maiores entre exércitos e nações. Exatamente nesse sentido, os textos sobre os quais aqui nos debruçaremos, “Sobre a atitude espiritual na arte militar ” e “Sobre o olhar na arte militar”, tem um enorme valor, e seu conteúdo deve ser absorvido e assimilado de forma crítica.

Em resumo, neste presente texto, tentaremos desenvolver uma reflexão sobre a arte da guerra e sua estreita relação com o estado de espírito, portanto, o estado psicológico, de quem a pratica, bem como analisar a importância e os tipos de olhar utilizados para analisar aquilo que o lendário samurai chamava de “arte militar”.

“Arashi Rikan II as Miyamoto Musashi”, 1832. Gigadō Ashiyuki.

Sobre a atitude do espírito na arte militar:

Musashi alude ao fato de que, segundo os fundamentos da arte militar, o estado de espírito de um guerreiro ou general não deve ser diferente do de sua vida comum. O autor pondera que, tanto na arte militar quanto no dia a dia, o espírito não deve sair de balanço. Sobre isso, nos diz o intelectual:

Mantenha o espírito aberto, reto, sem tensão excessiva nem relaxamentoem perfeito equilíbrio. Aja com tranquilidade, tendo o cuidado de evitar a paralisação, mesmo por um instante. O espírito deve se manter dinâmico e livre.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Refletindo, podemos entender que Musashi, ao dizer que tanto na vida cotidiana quanto na prática de artes militares devemos manter o mesmo estado de espírito está afirmando que a atitude espiritual deve ser a mesma para tudo na vida. Ainda assim, como veremos abaixo, isso não implica, de forma alguma, em rigidez ou fixidez. Ao descrever tal estado, o lendário samurai, reforça que tanto o excesso de preocupação e tensão, ou seja rigidez excessiva, quanto a abundância de relaxamento e despreocupação devem ser evitados.

O samurai inicia uma reflexão que resvalará posteriormente, sobre a paralisia, uma constante em sua obra e em sua teoria dos duelos, como veremos em outros textos sobre este tema. Um espírito excessivamente rígido, se detém sobre problemas pequenos todo o tempo, e portanto, tem dificuldades em progredir e se adaptar em questões mais gerais. Já um espírito abundantemente despreocupado, tem dificuldades em ambos, mas sobretudo em resolver os pequenos problemas, pois não se detém sobre eles de forma alguma. 

Ambos tem propensão a paralisia, em diferentes sentidos e esferas, este, que é um estado fatal para qualquer combatente ou comandante. Não é, contudo, de uma mera questão de “caminho do meio”, como poderiam imaginar alguns incautos, a que se refere o autor. Prossegue, ao recomendar que se proceda com tranquilidade, fazendo uma alusão direta sobre evitar o estado de paralisia.

Sua frase subsequente, enquanto complemento, alerta para que o espírito se mantenha livre, mas mais fundamental que isso, que se mantenha dinâmico. Com isso, o autor nos demonstra que, acima de tudo, o estado de espírito ideal e correto, é aquele que transita, que é dinâmico, que se adapta as circunstâncias necessárias.

Nesse sentido, se faz urgente uma reflexão. Como já dizia o filósofo Karl Marx, complementado com algumas noções referentes ao filósofo Heráclito de Éfeso, se a matéria precede a consciência, o espírito, não se desprezando a importância deste último, e a realidade material em si, e a vida em sociedade, como se sabe, são constante movimento e transformação, todo o tempo, disso podemos entender que as afirmações de Musashi fazem todo sentido. 

O estado de espírito para sobreviver em um mundo natural e social cuja realidade material está sempre em transformação, repleta de contradições, em constante movimento, só poderia ser igualmente dinâmico e estar, na mesma medida, equilibrado sobre o caos aparente que esconde a perfeita ordem e harmonia que é esta mesma realidade. Musashi, adiante, reflete sobre como funciona o estado de espírito, e sua relação com a arte da guerra e com duelos individuais, no que basicamente recomenda uma “receita de bolo” em termos de atitude espiritual.

“Miyamoto Musashi Masana”, 1867. Tsukioka Yoshitoshi.

Prossegue, então, afirmando que em momentos em que o corpo se encontra em repouso, o espírito não deve de forma alguma estar completamente relaxado. Contudo, completa este raciocínio aludindo ao fato de que em situações em que o corpo se encontra agitado, o espírito e a consciência devem se manter alerta, atentos, não se deixando guiar ou proceder apenas pelo desejo, paixões ou pelas necessidades do corpo. O autor, abaixo, ao prosseguir com sua explicação, complementa este bloco de pensamentos com as seguintes reflexões e recomendações:

“1º. O corpo não segue o espírito, e o espírito não acompanha o corpo.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Apesar de parecer uma frase trivial, tal afirmação se trata do ponto de partida para uma reflexão sobre o ser. Musashi entra de cabeça na questão da existência imediata enquanto corpo, e da existência sensível e racional enquanto consciência, ambas formas de existir em multiplicidade no mesmo ser. Ainda assim, na contradição que é existir enquanto humano em nossa realidade, não raro é verificável que nem a existência imediata na realidade e no meio enquanto parte integrante e existente neste e restrito as limitações relativas a este, representado pelo corpo, segue necessariamente os desígnios do espírito, tampouco a consciência e o espírito necessariamente acompanham tal corpo em suas paixões e desejos. Embora seja importante ressalvar que ambos existam ao mesmo tempo, em uma unidade contraditória e caótica que é força motriz interna do próprio ato de existir, e não fracionados ou apartados como interpretaria boa parte do pensamento hegemônico ocidental.

2º. Preste atenção no espírito, mas não no corpo.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

A partir da primeira reflexão, Musashi deriva esta segunda, partindo da premissa da dificuldade de sequer tomar consciência da existência imediata na realidade e no meio enquanto parte integrante e existente neste e restrito as limitações relativas a este, representado pelo corpo, sobretudo dentro de um contexto de artes marciais, ou seja, militares, em que o indivíduo entra em um estágio de concentração extrema para cumprir objetivos e tarefas específicas e complexas e deve gerenciar e direcionar seu foco. Com isso, o autor aconselha que se mantenha o foco e a atenção no espírito, mas não no “corpo”. Este segundo, deve apenas “ser”, leve, relaxado e rápido.

3º. Não deixe nada fora do alcance do espírito, mas mantenha-o sereno, sem excesso de ânimo.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Musashi nos trás a noção de que nada deve estar de fora das possibilidades de contemplação do espírito e da consciência, mas não nos deixa de explicitar claramente a trava, de que nada de bom retira o espírito se nenhuma relação tem com a realidade as reflexões e sensações a partir deste. Portanto, mantenha-o sereno e sem excesso de ânimo, embora contemplativo e ciente de todas as possibilidades.

“4º. Mesmo que na aparência o espírito se apresente fraco, no fundo ele deve ser forte. Mantenha o seu espírito sempre inescrutável para os outros.”

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

“Hijikata Toshizô, vice comandate do Shinsen-gumi”, autor e data desconhecidos.

O autor alude para a necessidade de que pessoas de corpo “pequeno”, devam conhecer e aprender sobre tudo o que é grande no espírito e na consciência, e que pessoa de corpo “grande” devem se debruçar em conhecer as coisas pequenas e delicadas do espírito.

“Tanto aquele de corpo grande como o de corpo pequeno devem ter o espírito reto, mantê-lo imparcial em relação a si próprio.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Com tal recomendação, Musashi reforça para um ponto que é central e se estende por toda a sua obra: a questão da busca pela verdade, da autocritica, e da correção de equívocos do pensamento, do espírito, do corpo, e da execução da técnica. Para que isso seja possível, é fundamental seguir o conselho destacado sabiamente pelo autor, e manter seu espírito imparcial em relação a si próprio, bem como ser reto e coerente. Em seguida, complementa o samurai, arrematando a conclusão do raciocínio:

“É necessário conservar o espírito imaculado e aberto, e a sabedoria dentro de amplos horizontes. E é essencial polir tanto a sabedoria como o espírito. Aguçar a sabedoria. Conhecer a justiça e as injustiças do mundo. Penetrar em todos os campos das artes, percorrer seus caminhos. Evitar sempre ser enganado por outrem. Só então se atingirá a sapiência da arte militar. Na sabedoria da arte militar, aprende-se a discernir coisas distintas entre si.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Com tais palavras, o autor reforça a necessidade de se cultivar a sabedoria, ponto comum com a obra de Sun Tzu, de quem o samurai era leitor. Para além disso, o filósofo nos auxilia a compreender melhor sua definição para o conceito de “sabedoria”, ao definir características, atitudes e práticas que se relacionam com esta.

Musashi explicitamente recomenda que o general e o guerreiro conheçam a justiça, o mundo real e as suas injustiças, algo que é essencial para qualquer pensador prático que trabalha num campo tão influenciado pelas ciências humanas como é a arte da guerra. Conseguir compreender, manipular e utilizar todos estes princípios e variáveis em um curto espaço de tempo, com maestria, são necessários anos de treinamento do corpo e da mente. Ao encerrar suas reflexões sobre o espírito na arte militar, conclui o lendário samurai:

“Mesmo nos momentos tumultuados de um combate, é preciso buscar os preceitos da arte militar, mantendo o espírito inabalável.”

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”


Batalha naval e terrestre de Hakodate: República de Ezo vs Império Meiji. Xilogravura de Utagawa Yoshitora (assinado como Nagashima Mosai).

Sobre o olhar na arte militar:

Esta passagem é iniciada, como um raio que parte o tronco de uma enorme árvore anciã, com Musashi diferenciando o que considera os dois tipos de olhar: o de ver, como espectador, e o de perceber, como analista. Sobre ambas as formas do olhar, diferencia o autor:

O olhar da percepção é poderosoenquanto o de apenas ver é fraco. Ser capaz de enxergar como se estivesse perto o que está longe e como se estivesse longe o que está perto, eis o essencial na arte militar.”

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre o olhar na arte militar.”

Fortaleza Goryokaku, quartel general do exército rebelde pró fundação da República Samurai de Ezo. Observemos as fraquezas e virtudes de tal estrutura defensiva.

Com suas ponderações expostas, Musashi reforça o entendimento de que é necessário ter percepção das pequenas coisas, quando estamos a uma grande distância, visto que a visão é difícil em tais circunstâncias. E em sentido inverso, mas não menos importante, quando estamos de perto, e nossa percepção pode ser poluída por infinitas particularidades, devemos focar o olhar objetivo e direto, para não perder tempo, momentum e ritmo.

Sobre isso, nos reforça Musashi ao encerrar tal trecho de sua obra:

O olhar deve ser o mesmo tanto num combate individual como numa batalha de exércitos. Ver os dois lados, sem mexer o globo ocular, é fator de grande importância. Mas todo esse aprendizado demanda disciplina e paciência, não pode ser aprendido de repente, em momentos de urgência. Depois de ter compreendido tudo o que foi exposto aqui, é necessário refletir sobre a questão do olhar — que deve se manter o mesmo, tanto nas circunstâncias da vida cotidiana como em quaisquer outras.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre o olhar na arte militar.”

[ANTONIO GRAMSCI] “Todo homem é filósofo”.

Texto originalmente publicado na Revista Espaço Acadêmico, de título “Todo Homem é Filósofo”, por António Gramsci, célebre intelectual italiano, árduo do socialismo científico.


Todo Homem é Filósofo:

É preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são ‘filósofos’, definindo os limites e as características desta ‘filosofia espontânea’, peculiar a ‘todo o mundo’, isto é, da filosofia que está contida:

  1. Na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo;
  2. No senso comum e no bom senso;
  3. Na religião popular e, consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por ‘folclore’.

Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente já que, até mesmo na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na ‘linguagem’, está contida uma determinada concepção do mundo, passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível ‘pensar’ sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, ‘participar’ de uma concepção do mundo ‘imposta’ mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na ‘atividade intelectual’ do vigário ou do velho patriarca, cuja ‘sabedoria’ dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?

Pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que compartilham um mesmo modo de pensar e de agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos. O problema é o seguinte: qual é o tipo histórico de conformismo, de homem-massa do qual fazemos parte?

Quando a concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é compósita, de uma maneira bizarra: nela se encontram elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista, preconceitos de todas as fases históricas passadas estreitamente localistas e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado.

Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído. Significa também, portanto, criticar toda a filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular.

O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um ‘conhece-te a ti mesmo’ como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa análise.”

Fonte: Revista Espaço Acadêmico.