[ARTIGO] TRABALHISMO E HEGEMONIA: A NOSSA ESTRATÉGIA PARA A VITÓRIA!


Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira


A equipe da revista A Coisa Pública Brasileira traz para o público a reprodução da tese originalmente publicada na Tribuna Trabalhista da Fundação Leonel Brizola/Alberto Pasqualini, escrita pelo camarada Daniel Albuquerque Abramo e defendida pela APR como tese no grupo de trabalho de organização e comunicação partidária na ocasião do VI congresso nacional do PDT que ocorreu durante o ano de 2024.

Naquela oportunidade, a APR foi de suma importância na luta para que o termo socialismo, que havia sido retirado arbitrariamente do estatuto do partido no ano de 2022, retornasse ao estatuto do PDT, fazendo-justiça para com a história de nossa cultura política. Exatamente por isso, é importante entender esse que é um dos textos que orientam o pensamento, o planejamento, e a prática da Ação Popular Revolucionária enquanto organização política da classe trabalhadora para os próximos anos. Desejamos uma boa leitura e reflexão.

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TRABALHISMO E HEGEMONIA: A NOSSA ESTRATÉGIA PARA A VITÓRIA!

Por: Daniel Albuquerque Abramo.

“Se esse rumo assim foi feito, sem aprumo e sem destino,
Saio fora desse leito, desafio e desafino,
Mudo a sorte do meu canto, mudo o Norte dessa estrada.”
A estrada e o violeiro, Sidney Miller e Nara Leão.

Introdução:

Passam as eras, alternam-se superficialmente os inimigos, mas, pela força evocada em sua memória, um espectro continua a rondar o Brasil. O Trabalhismo, legítimo representante do socialismo brasileiro, se mostra sempre disposto a entrar na batalha pelo destino de nossa nação e povo. Todo trabalhista consegue perceber esse chamado da história. Estaremos à altura de nossa missão?

Os rumos de nosso país, em estado tão decrépito, aviltado e saqueado pelos interesses de uma classe dominante mesquinha e vendilhona e pela cobiça internacional, nos demonstram diariamente que está para cair de podre todo o consenso econômico neoliberal, sustentáculo intelectual da classe dominante utilizado para legitimar o alto nível de exploração de nosso povo. O desfinanciamento da educação pública superior, a inabilidade em lidar com os extremos climáticos, são apenas alguns dos sintomas evidentes da crise do neoliberalismo. Um dado inescapável.

Toda a ordem política e econômica está por um fio, e a nação clama, ainda que sem consciência, por profundas reformas que coloquem o Brasil de volta no grande jogo internacional com soberania e autonomia, e garantam bem-estar e melhores condições para nosso povo. Contudo, se desde 2016, sentindo o chamado do próprio espírito do tempo, o trabalhismo brasileiro, cultura política que, a partir de experiências concretas na história brasileira, melhor representa as soluções e respostas para tais dilemas, apresentou algum crescimento, desde 2022 o movimento trabalhista se encontra com um grave problema.

O trabalhismo brasileiro tem as respostas para o Brasil, mas para poder aplicar suas soluções, precisa chegar ao poder. Se os trabalhistas entenderam corretamente que a Nova República, em sua essência, representa uma marcha cada vez mais acelerada rumo à República Oligárquica, não fomos capazes de elaborar uma sólida estratégia capaz de nos colocar no caminho da vitória.

Pior que isso, após o “desafio” feito pela hegemonia da esquerda a partir de 2016, e com a grave derrota eleitoral em 2022, o movimento trabalhista encontrou momentos de perigosa paralisia, falta de unidade, e falta de rumo teórico e prático. Nesse sentido, o presente ensaio visa oferecer algumas soluções para o VI Congresso Nacional do PDT, e uma estratégia para o trabalhismo brasileiro recuperar seu lugar de direito, a partir da crítica aos nossos maiores equívocos e fragilidades, e encaminhamentos para resolução de tais problemas.

Não devemos ter medo de polêmicas decorrentes de tal debate, nem de contradições. A realidade se demonstra por demais contraditória, e a perfeição não existe no real, se trata apenas de uma ideia, não é nada mais que um conceito. Exatamente por isso, começaremos uma detalhada análise, feita de forma crítica, às claras, sem sofismas, sobre o momento vivido pelo movimento trabalhista, e em especial, pelo representante legítimo desta tradição, o Partido Democrático Trabalhista.

2: Sobre a crítica e a rejeição a uma visão idealista da história:


Para aprofundarmos nossas críticas, se faz necessário que façamos uma ponderação inicial. É importante elucidar sobre o equívoco de se ter um visão da história voltada para grandes personagens, enquanto se ignora as estruturas sociais, classes sociais e forças que disputam o poder político em determinada sociedade em determinada era ou em determinado contexto.

Ou seja, é importante salientar que para fins de análise crítica, rejeitamos um entendimento idealista sobre a história e sobre a filosofia da história. Além disso, antes de uma detalhada análise crítica, é importante reiterarmos nosso compromisso com o movimento trabalhista. A crítica, quando feita de forma universalista e em abstrato e de má-fé, se transforma em um mero mecanismo do divisionismo, porém quando bem direcionada, é a chave para solução de problemas e equívocos e pode ser uma das ferramentas que irá nos levar à redenção.

3: Por que nosso último desafio pelo poder fracassou?


Em toda essa trajetória citada anteriormente, de 2016 até 2022, contudo, já estavam presentes grandes problemas que posteriormente se mostraram cruciais para a derrocada trabalhista no primeiro turno da última eleição presidencial. Problemas estes que foram ficando bem perceptíveis no espaço de tempo compreende os anos de 2018 e 2022.

A não existência de um ecossistema de mídias trabalhistas forte o suficiente para sustentar nossa visão de mundo e opiniões nos tornava alvos fáceis para toda a sorte de distorções, polêmicas inúteis e factoides, sem termos como nos expressar ou reagir da maneira apropriada. Além disso, impossibilitou uma disputa real pela hegemonia de visão de mundo da sociedade. Com isso, foi impossível expressar o ponto de vista trabalhista da história e cativar a classe trabalhadora.

A falta de formação política, de alguns quadros partidários que desonram nossa tradição e história em votações absurdas, bem como de “simpatizantes” não-filiados, que humilham nosso legado a bel-prazer na sociedade do espetáculo, e escarram na história de quem construiu o partido, minava nossa imagem perante a opinião pública. Se faz mister pontuar também que, a falta de formação política, de certa forma, também foi um fator que atrapalhou a unidade interna do movimento trabalhista.

Para além dos problemas anteriormente citados, outras questões, como, por exemplo, a falta de organicidade e organização, sequelas do fisiologismo, impediram que, em uma disputa extremamente assimétrica pelo poder, pudéssemos ter mínimas chances de êxito.

4: Considerações aprofundadas sobre tais problemas:


A questão da mídia e o movimento trabalhista:


O Partido Democrático Trabalhista é, considerando história e estrutura, o segundo maior partido da esquerda brasileira no pós-democratização. Tanto em sua base quanto em sua direção existe um número infindável de jornalistas, marqueteiros, propagandistas, agitadores, intelectuais orgânicos, artistas, dentre outras profissões e ofícios que de alguma forma envolvam o setor da mídia. Além disso, o trabalhismo brasileiro, por ser uma cultura-política e por ter participado na criação de nossa identidade nacional, tem uma rica história quando a questão é comunicação entre o partido e nossas lideranças políticas e as massas.

Exatamente por isso, é incompreensível que as mídias relacionadas ao PDT e ao trabalhismo tenham atuado tão aquém do que mereciam e poderiam ser de 2016 até os dias atuais. É, também, lastimável e impossível de não ser mencionado o fato de que isso se deu não por falta de material humano, visto que desde 2016 foram fundados, de forma independente, inúmeros grupos de mídia trabalhista, revistas, e projetos do gênero.

Em suma, falhamos em nos atentar e fortalecer de forma séria e planejada todos os mecanismos indispensáveis para o fortalecimento e manutenção de nossa cultura política, que visam disputar a opinião pública e a hegemonia do pensamento da sociedade brasileira, em geral, e não apenas como finalidade de marketing político eleitoral.

É mais uma das sequelas do eleitoralismo e de uma prática fisiológica, ao qual o Partido Democrático Trabalhista recorreu, para se manter vivo em determinado período de necessidade. Mais uma das correntes que o partido tem que romper se quiser disputar realmente o poder com seriedade a médio e longo prazo. Por mais que o partido e a fundação Leonel Brizola/Alberto Pasqualini tenham tomado algumas medidas louváveis, a execução estadual e municipal por norma se demonstrou insuficiente em muitas localidades e em muitas ocasiões.

A questão da mídia se mostrou central tanto em 2018 quanto em 2022. Foi exatamente por esse fato que, por mais que o movimento trabalhista quisesse dar explicações importantes e sérias sobre o processo eleitoral de 2018, a tese de que “Ciro foi para Paris e ajudou Bolsonaro”, por exemplo, se tornou senso comum, sem que conseguíssemos reparar ou corrigir uma série de tristes injustiças que foram cometidas conosco e nossa imagem no processo.

A falta de formação política, organicidade e organização:
A falta de formação política foi um dos maiores e mais graves equívocos demonstrados em tal período. Isso acabou refletindo tanto nas atitudes de alguns quadros partidários envolvidos em votações absurdas, bem como pela prática e argumentações bizarras de “simpatizantes” não-filiados que exibiam posturas abertamente contra os princípios de nossa cultura política.

Por mais que o Partido Democrático Trabalhista, a Fundação Leonel Brizola, e a Juventude Socialista tenham tentado estabelecer projetos distintos de formação política, e que estes tenham obtido relativo grau de sucesso, pela não existência de um forte aparato reprodutor para impulsionar a cultura política trabalhista, tais iniciativas ficaram restritas a um grupo de pessoas, sobretudo jovens da Juventude Socialista e alguns outros movimentos partidários e núcleos de base.

Exatamente por isso, tais iniciativas não foram fortes o suficiente para promover a assimilação dos “ciristas” nem tampouco os cativar para descobrir, na totalidade, o ponto de vista trabalhista da história, ficando estes, quando muito, restritos a uma visão meramente “nacional desenvolvimentista” em termos econômicos.

Vânia Bambirra em seu texto de título “Formação política”, demonstra que a questão nunca foi, e isso continua válido até os dias atuais, apenas ter um número maior de militantes, em termos de quantidade, mas sim de ter, também, muita qualidade na formação de nossos quadros. Isso é um fator central para fazermos nossas reflexões, pois, de um ponto de vista estratégico, embora o PDT seja um partido de tamanho razoável em termos práticos, sempre estivemos em uma situação de “luta política assimétrica”, ou “luta política do pequeno contra o grande”, seja na luta contra a esquerda liberal pela hegemonia da esquerda, seja no cenário nacional da briga pelo poder político. Sobre isso, Vania, nos explicou em 2005, algo que já deveríamos ter aprendido:

“Ora, um partido não se afirma apenas porque tenha um grande líder, mas pela solidez de sua proposta, sua coerência e pela sua organização. Quem organiza são os quadros; se não estão preparados, sua “organização” é inepta ou personalista-oportunista. Em sua época, Lenin dizia preferir dez militantes inteligentes do que cem bobos (a citação é do livro Que fazer?). As condições de luta eram adversas na Rússia Czarista e o partido era clandestino. Porém, além de uma proposta imediata para organização partidária eficaz, o que ele queria dizer era que dez homens bem preparados mobilizam milhares enquanto cem despreparados não mobilizam nada.” Formação Política, escrito por Vânia Bambirra no ano de 2005.


A crença por algumas lideranças de que a única forma de atuação partidária deva se dar nas vias estritamente parlamentares e o ponto de vista que enxerga a política eleitoral como um fim em si causaram impactos negativos na práxis do movimento trabalhista. As sequelas do fisiologismo, bem como interesses regionais também impediram a sistematização de uma linha ideológica partidária coesa no sentido nacional, algo que era um problema já no período de 2018 até 2022, e continua sendo um problema custoso para o Partido Democrático Trabalhista no presente momento, minando nossa organicidade e organização.

A recorrente prática de filiação de caciques locais e seus quadros e apoiadores, suprimindo lideranças orgânicas ainda em construção, visando um atalho na estratégia eleitoral local, não raro mina a coerência e alinhamento ideológico da militância em nome de um pragmatismo que afirma garantir nossa sobrevivência no presente, mas que pouco a pouco, pode matar nossa chance resistir como fio da história no futuro, deixando com isso, órfãos os nossos mortos do passado, cuja memória com tanto afinco defendemos.

Por isso, é impossível abordar o tópico formação política e não salientar que, muitas vezes, o mau exemplo de quadros e lideranças, tanto em votações, declarações ou atitudes, não se deu por falta de oportunidade de entrar em contato com a história de nossa cultura-política e práxis, mas por absoluta e deliberada recusa por parte destas pessoas que usam o PDT enquanto desprezam o trabalhismo.

Infelizmente, nosso aparato de propaganda e de formação política, quase não entraram em contato com a base não filiada que orbitou nosso partido entre 2016 e 2022. Isso é um grande erro, pois o movimento trabalhista, infelizmente, está longe de ter a maior militância do país ou de nosso campo. Exatamente por isso, pelo caráter assimétrico da luta política que trava, tem que ser sagaz nas alianças que faz, e precisa ter um grau elevado de organização, qualificação e mobilização em sua militância. Talvez essa seja uma de nossas maiores derrotas coletivas enquanto movimento. Poderíamos ter capitalizado melhor, em termos de cativar e formar novos militantes, o período de crescimento ocorrido de 2016 até 2022.

Sobre o desafio derrotado e a frustração:


Evidentemente, se faz necessário pontuar que não é prudente fazer um desafio pela hegemonia da esquerda nacional sem ter uma máquina de mídia e propaganda, alto nível de organização e formação dos quadros, e sem um movimento de massas que consiga sustentar tal empreitada, e esperar resultados diferentes do que uma derrota. Exatamente por isso, devemos pensar nesse ponto em autocrítica, fugindo do escapismo reacionário e imobilista de culpar os outros por nossos equívocos e nossas fraquezas.

Não é produtivo para o trabalhismo brasileiro, após fazer um desafio pela hegemonia da esquerda nacional, que culpemos nossos adversários e rivais por nossas próprias fraquezas e fragilidades. Não podemos, enquanto movimento, estar aquém de nossa missão histórica. Devemos trabalhar com seriedade, para construir as bases materiais e culturais de um Brasil trabalhista.

Os arautos do absurdo e intelectuais orgânicos da burrice que insistem em estimular esse sentimento justo, porém mal direcionado, de revolta ante a injustiça sofrida no processo eleitoral, além de muitas vezes praticarem revisionismo com nossa história, nos impedem de avançar e fortalecer nossa posição enquanto partido e enquanto movimento na disputa contra a esquerda liberal pela hegemonia da esquerda, em geral, na luta pelo poder.

5: Encaminhamento para corrigir tais equívocos no VI Congresso Nacional


A questão da disputa pela hegemonia e visão de mundo e da formação política:


1 – Elaborar uma estratégia partidária, de médio e longo prazo, séria e meticulosa de propaganda e cultura que envolva a criação de uma editora, jornais, revistas, tanto físicos quanto digitais o lançamento de livros relativos a nossa teoria política, que promova e garanta a logística para palestras e formações políticas sistemáticas e em massa, que promova e facilite a atuação de quadros políticos como “influenciadores no debate público”, que promova e facilite a atuação de quadros políticos que atuem no setor cultural ou artístico.
Em suma, todos os mecanismos indispensáveis para o fortalecimento e manutenção de nossa cultura política, que visam disputar a opinião pública e a hegemonia do pensamento da sociedade brasileira, em geral, e não apenas como finalidade de marketing político eleitoral.

2- Fortalecer os cursos que já existem na Universidade aberta Leonel Brizola, com apoio da Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, instituindo mais mecanismos de fomento para pesquisa e produção de novos conteúdos teóricos acerca do passado e do futuro de nossa cultura política de forma a começar a competir no ramo da produção do conhecimento, com uma estratégia de médio e longo prazo para que este polo de conhecimento represente com excelência o pensamento social brasileiro no debate público e acadêmico.

A questão da organização e organicidade:


1- Elaborar junto a todos os movimentos partidários uma estratégia partidária com projetos concretos para multiplicar e expandir os níveis de trabalho de base como ocupações, pré-vestibulares sociais, projetos sociais esportivos e de laser, e todas as atividades e trabalhos sociais para além do cretinismo parlamentar, que ajudam a disputar o coração e a visão de mundo da população local construindo organicidade para criar condições de hegemonia, bem como estabelecer uma estratégia partidária de apoio logístico e de estrutura aos Núcleos de Base.

2 – Expandir os níveis de democracia interna em alguns espaços de nosso partido onde ela ainda funciona de forma precária, pois isso afeta diretamente o grau de organização e mobilização de nossa militância, especialmente em função do interesse local de certas lideranças, em detrimento do interesse partidário, de nossos valores, princípios, visão de mundo e de qualquer razão de partido.

3 – Estabelecer uma criteriosa estratégia de formação, qualificação e promoção dos quadros, desde a Juventude Socialista e o movimento estudantil, de forma que, no futuro próximo, nenhum parlamentar, candidato ou dirigente local de nosso partido seja um estranho sem nenhuma ligação com a cultura política do trabalhismo brasileiro e nossa visão de mundo, princípios e valores.

6: Sobre os movimentos de massa, a disputa pelo poder, e o trabalhismo:


O contexto de rápida transição tecnológica, atrelado a quarta revolução industrial, representa uma brusca mudança na intensidade dos fluxos de informação, impactando profundamente no setor midiático e de propaganda. Isso é visível sobretudo no terceiro mundo, por conta das assimetrias da globalização e da escalada de competição e da guerra de propaganda entre os países centrais do capitalismo e os BRICS. O avanço de tais formas de mídia, atrelados a mídia convencional, e da interação das pessoas com elas, bem como suas formas de utilização política pelas classes sociais, tem relação direta, por exemplo, com o fato da década passada, de 2010 até 2020, ser, em sua essência, uma década de mobilizações de massa no Brasil.

Podemos ponderar, por exemplo, quanto a natureza artificial de certos movimentos de massa que tem apoio tanto da classe dominante submissa local, quanto do imperialismo, mas não podemos negar a centralidade da luta de massas na luta pelo poder político no Brasil. A direita e a extrema-direita, a partir da legitimidade gerada por seus movimentos de massa artificiais e suas mídias, sacramentaram um golpe no Brasil em 2016. Além disso, é importante notar que a adesão de maior parte dos partidos de esquerda ao neoliberalismo progressista e ao cretinismo parlamentar amansou e destruiu a capacidade de mobilização de massas da esquerda.

O trabalhismo, verdadeiro socialismo brasileiro, não deveria ter vergonha de representar esse papel histórico de construir um movimento de massas socialista no Brasil do século XXI. O trabalhismo brasileiro é responsável, junto ao movimento comunista, por formar grande parte da identidade cultural nacional brasileira e também de nossa esquerda durante o século XX.

Isso, contudo, não virá espontaneamente através de nossa militância, nem a partir de um esforço individual. Pelo contrário, se a classe dominante e seus movimentos contra-revolucionários e golpistas tem apoio interno e externo, financeiro e de mídia, o movimento trabalhista, partindo sempre de um confronto assimétrico em posição de desvantagem, precisa mais do que nunca do apoio, organização, logística e decisão estratégica de nosso partido. Se precisamos disputar a história e a historiografia, por exemplo, não existe desculpa para nível baixo de um trabalho sistemático de nosso partido e de nossa fundação para disputar a historiografia. Nenhuma universidade irá patrocinar uma retomada da visão de mundo trabalhista.

Não existe entidade estrangeira, oligarca, personalidade pública, rede de mídia, que possa ou tenha interesse em auxiliar na criação de movimento de massas trabalhista. A única organização ou entidade que se importa e é responsável por isso é o Partido Democrático Trabalhista, e é exatamente por isso que os trabalhistas têm que fortalecer seu partido, enquanto buscam melhorar seus equívocos e assimetrias internas, para dar fim às sequelas do fisiologismo e do cretinismo parlamentar e resolver a questão “cirista”, que continua a ser um potencial mal aproveitado pelo partido.

7: Conclusão – Um chamado para que todos os trabalhistas sigam esse caminho!


Vivemos um contexto marcado pela coexistência de importantes fatores em diferentes planos, tais quais, a formação gradual de uma nova ordem mundial, a crise do neoliberalismo ao nível nacional e internacional, e a existência de um período propício para disputa de movimentos de massas. Além disso, é verificável em vários casos que, tanto no continente americano quanto na Europa ocidental, a adesão de grande parte da esquerda ao neoliberalismo acabou por influenciar no crescimento da extrema-direita, em um contexto que a esquerda abdica de seu papel transformador para com a nação e a classe trabalhadora, e tenta humanizar o projeto político e econômico da direita.

O movimento trabalhista e seu partido, tem que entender tal contexto com uma dupla reflexão. Se por um lado os desafios são imensos e a responsabilidade histórica é tremenda, por outro lado, o movimento trabalhista detém a melhor posição a médio prazo, se souber batalhar na disputa corretamente. Isso se dá, pois, a visão de mundo trabalhista é naturalmente multipolar em relações internacionais, nacionalista popular e anti-imperialista, sua visão econômica é extremamente crítica ao neoliberalismo, inclusive nas esquerdas, e, enquanto representante do socialismo brasileiro, o trabalhismo esteve historicamente conectado com intensos momentos de mobilização e disputa de massas.

Em outras palavras, de um ponto de vista geral, o trabalhismo brasileiro está bem posicionado teórica e ideologicamente para a nova ordem mundial que se desenha com a ascensão dos BRICS, tem um programa político e econômico minimamente compatível com o contexto de quarta revolução industrial e crise do neoliberalismo, e, como crítico desse modelo, se não capitular ao social-liberalismo, por seu tamanho e história, tem grandes chances na disputa pela hegemonia dentro da esquerda contra seus adversários, bem como na disputa pulsão por transformação social contra a extrema-direita.

O movimento trabalhista deve, portanto, negar as armadilhas e tentações da frustração pelo desafio vencido e as injustiças do processo, e deve corrigir certa postura reativa por parte de alguns companheiros e simpatizantes, que acabam inconscientemente nos jogando para uma posição de centro e centro-direita. Precisamos estar atentos contra qualquer desvio de direita, ou desvio social liberal e manter nossa posição e trabalhar para construir um movimento de massas para termos força e condições de uma futura disputa pelo poder. O Trabalhismo Brasileiro em sua história, como mostra o exemplo de Roberto Silveira na interiorização e crescimento do antigo PTB, sempre cresceu e rendeu mais quando se colocou no papel de radical defensor de uma esquerda nacional-popular e do socialismo brasileiro.

Exatamente por isso, o Partido Democrático Trabalhista, em seu VI Congresso Nacional, deve tratar e debater com extrema seriedade e urgência a disputa pela visão de mundo e hegemonia da sociedade brasileira para além da questão eleitoral, e a criação de um movimento de massas relativo ao trabalhismo brasileiro e sua cultura política, com a criação de estratégias de longo prazo para fomento e financiamento a mídias, editora, formação política, e a execução de projetos sociais a partir de movimentos e núcleos de base, bem como a disputa pela produção do conhecimento a partir da Fundação Leonel Brizola e da Universidade aberta Leonel Brizola.




Fontes utilizadas:

Originalmente publicado pela Tribuna Trabalhista da Fundação Leonel Brizola.

[NOTÍCIAS] Resumo jornalístico do dia 20/02/2025:

Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.



Introdução:

A revista A Coisa Pública Brasileira, que sempre prezou pela ética jornalística em seus artigos e textos de jornalismo investigativo, orgulhosamente inaugura uma sessão de notícias em mais uma parceria com o Jornal Toda Palavra. Inicialmente, em tal segmento, nossa equipe irá prezar por fazer um giro, com resumo das principais notícias do dia, mantendo a qualidade de análise que é a tônica de nossa revista ao longo dessa história de cerca de sete anos. 

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Giro diário de notícias da política brasileira:

Governo suspende linhas subsidiadas de crédito do Plano Safra.

No dia de hoje, em um contexto de crise de aumento de preços de alimentos, foi amplamente noticiada por jornais a decisão do Governo Federal de suspender as linhas subsidiadas do Plano Safra 2024/2025. Segundo o discurso oficial, isso se deu por falta de recursos no Orçamento em decorrência do aumento da taxa de juros. Cumpre lembrar, porém, que a alta da taxa de juros foi avalizada pelo presidente do BC indicado pelo governo, e por um COPOM majoritariamente “governista”.

A suspensão atinge todas as linhas, exceto aquela destinada a ações de custeio no âmbito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, que terá seu orçamento mantido. Fato que deve motivar e elevar conflitos entre parte dos setores oligárquicos latifundiários e o governo.  Em nota sobre o tema, o Ministério da Fazenda afirmou:

“A suspensão temporária das linhas de crédito com recursos equalizados do Plano Safra 24/25 se fez necessária em função da elevação da taxa básica de juros, o que resultou no aumento do custo de equalização de crédito do Plano Safra 24/25”

Segundo o governo, a suspensão deve valer até a aprovação da Lei Orçamentária Anual. O Orçamento de 2025, contudo, ainda está em fase de tramitação no Congresso Nacional, e a votação deve ocorrer só depois do Carnaval. 

Dino intima governo a passar pente-fino em emendas Pix para eventos.

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF) (Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF)

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou nesta quinta-feira a intimação do governo federal para que passe um pente-fino na execução de “emendas Pix” direcionadas por parlamentares ao setor de eventos.


Ao mencionar a farra das emendas Pix, Dino se refere às emendas de transferência especial, que não possuem finalidade definida previamente e são transferidas diretamente para algum Estado e município indicado por algum parlamentar. Desde 2019, tais emendas individuais são impositivas, ou seja, de liberação obrigatória pelo governo federal. Mesmo após a vitória eleitoral de Lula em 22, nada mudou em tal aspecto.


Na decisão desta quinta, Dino, um dos poucos que batalham contra essa malversação do dinheiro público, ordenou que seja verificado se as emendas para eventos foram transferidas para contas específicas ou genéricas. O ministro também mandou o governo informar se o dinheiro pode ser rastreado até o beneficiário final, bem como se o evento contemplado foi inserido no Programa Emergencial para Retomada do Setor de Eventos (Perse).

Entenda:

Nos últimos meses, o ministro Flávio Dino tem protagonizado um embate com o Congresso em torno da liberação de emendas parlamentares impositivas. Dino tem bloqueado a liberação de recursos que não permitam identificar qual o padrinho político da transferência, quem é o destinatário final do dinheiro e como os valores foram gastos, conforme critérios definidos pelo plenário do Supremo.

Nesta sexta, o ministro disse que segue “em permanente diálogo” com Executivo e Legislativo, “a fim de encontrar pontos de equilíbrio e superar impasses”. A atuação do Supremo ocorre depois de o Congresso ter ampliado seu poder sobre o Orçamento da União nos últimos anos. Na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2024, por exemplo, foram inseridos mais de R$49,2 bilhões em emendas parlamentares. Há dez anos, em 2014, esse valor era de R$6,1 bilhões.


Bolsonaro debocha da Justiça: ‘Caguei’.

(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Após ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por crimes que, somados, podem chegar a 40 anos de prisão, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) se manifestou publicamente nesta quinta-feira (20). Falando a militantes e parlamentares durante um seminário do Partido Liberal (PL) em Brasília, Bolsonaro debochou da possibilidade de ser preso após o julgamento da trama golpista no Supremo Tribunal Federal (STF), o que pode ocorrer ainda neste ano: “O tempo todo [é] ‘Vamos prender o Bolsonaro’. Caguei para a prisão”, disse, citado pela Folha de São Paulo.

Acusado de liderar a tentativa de golpe de Estado para permanecer no poder, Bolsonaro disse que não há nenhuma prova concreta contra ele. “Geralmente quem dá golpe é quem ganha, o golpista não perde, ou, se perde, ele está lascado”, argumentou.

Na quarta-feira (19), Bolsonaro e outras 33 pessoas do seu entorno de quando era presidente – incluindo 24 militares de alta patente e ex-ministros – foram denunciados pela PGR por crimes como tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado democrático de Direito e de organização criminosa. O caso agora está sob análise pela Primeira Turma do STF.

Moraes torna públicos vídeos e áudios da delação de Mauro Cid.

O tenente-coronel do Exército Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro (Foto: Lula Marques/ABr)

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), disponibilizou nesta quinta-feira (20) o acesso público a todo material em vídeo e áudio que foi captado durante os depoimentos do tenente-coronel Mauro Cid, que fechou acordo de colaboração premiada com a Justiça e revelou detalhes sobre um plano de golpe tramado na cúpula do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A transcrição dos depoimentos, todos colhidos em ao menos cinco dias no ano passado, já havia sido liberada na quarta-feira (19) pelo ministro, que é relator da investigação sobre a trama golpista.

A delação de Cid, que foi ajudante de ordens e trabalhou ao lado de Bolsonaro durante todo seu mandato, serviu de base para a denúncia apresentada na terça (18) em que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, acusou o ex-presidente e o próprio Cid, além de outras 32 pessoas, pelos crimes de tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Bolsonaro ainda foi denunciado como líder de uma organização criminosa armada, formada em grande parte por militares da reserva e da ativa, que estaria preparada para romper a ordem constitucional e usar a violência para manter o ex-presidente no poder.

Termos

Os termos do acordo também foram tornados públicos por Moraes. Em troca de revelar detalhes sobre diferentes linhas de investigação que tinham Bolsonaro como alvo, Cid pediu o perdão judicial pelos próprios crimes ou, se não fosse possível, que pegasse uma pena de, no máximo, dois anos de prisão.

O tenente-coronel também pediu que os benefícios fossem estendidos a seu pai, o general Mauro Lourena Cid, bem como a sua esposa e filha. Ele solicitou ainda proteção a sua família, o que foi concedido pela PF.

Ao pedir no máximo dois anos de prisão caso seja condenado, Cid buscou evitar uma representação por indignidade e incompatibilidade. De acordo com a Constituição (artigo 142, § 3°, incisos VI e VII), esse tipo de ação deve ser aberta no Superior Tribunal Militar (STM), obrigatoriamente, se o oficial receber pena privativa de liberdade superior a dois anos, seja na Justiça comum ou militar, pela condenação por qualquer crime. A sanção prevista é a perda de todas as patentes e seus respectivos soldos.

China reforça compromisso com presidência do Brasil no BRICS.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, expressou, em um briefing, sua confiança na expansão contínua da cooperação entre os países do BRICS e na obtenção de novos resultados significativos sob a presidência rotativa do Brasil na associação. A informação foi divulgada pela CCTV+, parceira da rede TV BRICS. Tal declaração é importante, em um contexto que o Brasil fez uma aposta errada, em se reaproximar do ocidente geopolítico e se afastou gradualmente dos BRICS. Com o retorno de Trump a presidência dos EUA, porém, a impossibilidade de tal via, deve significar uma maior aproximação e empenho do Brasil para com os BRICS, o que deve ser verificado na cúpula do bloco que ocorrerá no Rio de Janeiro no presente ano de 2025.


O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, enfatizou que China e Brasil, como grandes potências do Sul Global, seguirão trabalhando juntos para promover a paz, a estabilidade e o desenvolvimento.

“A China está pronta para cooperar com o Brasil na implementação dos acordos alcançados pelos chefes de Estado, além de aprofundar os laços em diversas áreas, preservar o papel central da ONU e defender os interesses dos países do Sul Global. A China apoia a presidência do Brasil no BRICS em 2025 e está focada em alcançar novos sucessos no desenvolvimento da parceria dentro da organização”, afirmou Jiakun.

O Brasil assumiu a presidência do BRICS em 1º de janeiro de 2025. Durante este período, o governo brasileiro pretende dar especial atenção a questões como saúde global, comércio e finanças, mudanças climáticas, governança da inteligência artificial, reformas na arquitetura de segurança internacional e desenvolvimento institucional.

O ponto culminante da presidência brasileira no grupo será a cúpula do BRICS, que ocorrerá de 6 a 7 de julho no Rio de Janeiro.





Fontes consultadas:

1:https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/02/governo-suspende-linhas-subsidiadas-de-credito-do-plano-safra-por-falta-de-recursos.shtml

2:https://www.todapalavra.info/single-post/dino-intima-governo-a-passar-pente-fino-em-emendas-pix-para-eventos

3:https://www.todapalavra.info/single-post/bolsonaro-debocha-da-justi%C3%A7a-caguei

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[EDITORIAL] Sobre a baixa popularidade do governo e a política econômica.

Por: Equipe da A Coisa Pública Brasileira.

Diante do atual debate que ocorre na esquerda brasileira, em um contexto de forte queda de popularidade do governo, a revista A Coisa Pública Brasileira, que se orgulha por ter ajudado a formar e a moldar a visão de mundo de uma geração de trabalhistas e socialistas, não poderia fugir da responsabilidade de lançar o presente editorial. Com este texto, almejamos auxiliar a reflexão dos camaradas da Ação Popular Revolucionária e demais trabalhistas e socialistas nesse debate sobre economia política.


Introdução:

Lula tem a pior popularidade em um governo em toda sua história política. Avisos não faltaram, de que o resultado dessa política econômica neoliberal e o austericídio levados a frente por Haddad e quejandos seria exatamente esse. Agora a matilha de analistas chapa-branca e demais bajuladores ficam tontos e aparvalhados. Alguns, pulando do navio, já até mesmo lançam cartas públicas contra o governo.

O motivo de tal queda de popularidade é muito simples, e, para além disso, um tanto quanto óbvio. Alertamos, junto a nosso campo político, desde as eleições de 2022, que se o novo governo adotasse uma abordagem social-liberal em matéria de política econômica, aderindo a fantasia fiscalista e a amplas concessões à classe dominante, não punisse os militares de maneira rápida e efetiva, e não cumprisse as promessas de campanha, derreteria sua popularidade e ficaria sujeito até mesmo a algo pior, como um golpe.

A política econômica do governo, contudo, não mobiliza nem agracia a maior parte dos trabalhadores com melhorias substanciais, embora existam melhorias em pequenos setores focalizados, no geral, seguiu-se a lógica do Plano Ponte para o Futuro, de Michel Temer.

AFINAL, A ECONOMIA BRASILEIRA VAI BEM?

Quando confrontados com a baixa na popularidade de Lula e seu governo, muitos influenciadores e formadores de opinião caem numa armadilha conceitual, ou iludem propositalmente sobre a realidade. Seja proposital ou não, a maioria tem seguido um discurso que diz algo como:

“Se a economia não está ruim, e o governo está realizando projetos, só pode ser um problema de comunicação!”

Que não se trata de um problema de comunicação, mas um problema de orientação e foco das medidas tomadas pelo governo até aqui, já comentamos nas ultimas publicações. O fato das maiores realizações do governo serem de natureza pró-mercado e anti-povo, como o Novo Arcabouço Fiscal, com certeza é um problema muito maior do que a comunicação morna e muitas vezes fora de tom.

Gostaria de falar hoje, contudo, sobre o primeiro pressuposto utilizado na argumentação pró-governo acima destacada, a falsa crença de que “a economia vai bem.” Para refletir sobre isso, deveríamos pensar em algumas perguntas:

1-Quais os critérios para saber se a economia está realmente boa?

2-Se está tão boa, porque os efeitos disso não são notados?

3-Se está boa, isso é em relação a quais países?

4-Se está boa, está boa para quem?

Não almejamos aqui neste editorial responder nenhuma dessas perguntas de forma específica, pois gastaríamos muitas linhas com cada uma delas. Mas, é possível responder de forma bem geral, que economia não é uma ciência exata que estuda fenômenos da natureza, mas uma ciência social que pode utilizar matemática entre suas ferramentas. Você não pode dizer que a economia de um país é boa ou ruim por si só, você tem que comparar alguns indicadores e dados com os de outros países e com mais dados do próprio país ao longo da série histórica.

O Brasil obteve uma melhora em seu indicador PIB quanto comparamos com o período Bolsonaro. Além de observar a questão dos critérios para elaboração de alguns indicadores, deveríamos comparar e almejar ser levemente melhores do que o pior período de nossa história? É necessário que sejamos sinceros, uma taxa de crescimento menor que 5% ao ano, com alguns períodos de crescimento realmente muito abaixo desse padrão de outros países emergentes, não é nada de impressionante do ponto de vista do crescimento econômico.

O Brasil, desde a década de 90, quando comparado a outros membros dos BRICS e outros países emergentes, tem um déficit de crescimento, que se acumulou e se tornou pior na década de 2010. Ainda hoje, as taxas de crescimento do Brasil são baixas para um país emergente, e mais baixas ainda, quando comparado com o potencial que o Brasil tem e pro que se imagina ou se espera do país.

Para além disso devemos entender que mesmo o PIB demonstrando leve e desanimado crescimento, pela organização econômica do país, isso não significa que o Brasil tenha realmente enriquecido. O PIB é, superficialmente, a soma do valor das riquezas produzidas e serviços operados em determinado país.

Em uma economia organizada como a nossa, primarizada entre o agro e a exploração extrativista de recursos naturais e rentismo, setores onde o lucro é privatizado e em um país com grande concentração de riqueza que não taxa ou tributa tais atividades econômicas, o aumento do PIB não representa em absolutamente nenhum ganho relevante para a coletividade brasileira, já que a maior parte desses recursos fica com o 1% dos brasileiros mais ricos (latifundiários e rentistas) e com “acionistas estrangeiros” naquilo que Leonel Brizola chamava de perdas internacionais. Quase nada disso retorna para a coletividade brasileira na forma de infraestrutura, direitos, serviços públicos etc etc.

Outro exemplo que merece ser destacado, é o índice de desemprego. Segundo o governo, o Brasil vivencia o menor nível de desemprego da série histórica. Contudo, os critério para medição e aferição do desemprego mudaram drasticamente desde o golpe de 2016, e os subsequentes governos de Michel Temer e Bolsonaro. A mais brutal informalidade, e as novas formas distópica de semi-escravidão pós moderna a partir de aplicativos, são consideradas positivamente no cálculo de tais indicadores. Até mesmo a luta contra a escala 6×1, a pauta trabalhista mais importante de nossos tempos, que numa visão oportunista pragmática clássica poderia conferir alguma popularidade ao governo, é ignorada e negligenciada.

Nesse sentido, por mais que tenha melhorado alguns de seus indicadores, as maiores realizações do governo em termos de foco, foram pró mercado. A manutenção das reformas ultraliberais de Temer, sem tentativa de luta política, legitimando diretamente o projeto Ponte Para o Futuro do Golpe de 2016, como com a criação do Novo Arcabouço Fiscal ou da precificação dos combustíveis que impacta no custo dos alimentos mantendo parte substancial do antigo PPI.

As propostas de campanha não foram cumpridas, as privatizações e a reforma trabalhista e da previdência ultra liberais foram mantidas e no lugar, um projeto liberal com obsessão na questão fiscal foi implementado. Um projeto Liberal que foi mais competente que Temer e Bolsonaro, é verdade, mas para beneficiar e excluir as mesmas pessoas. Que tipo de pessoa acredita que, por exemplo, a cruzada anti-povo contra os “fraudadores do BPC” e a limitação de crescimento anual do salário mínimo não iriam ter um impacto negativo na avaliação de Lula e do governo?

E no final de tudo, ao invés de assumir uma postura crítica, muitos procuram bicho papão e teorias da conspiração, onde não existe espaço para tal, outros alegam ser um problema de comunicação, como forma polida de dizer que faltou mentir melhor.

SOBRE O PROBLEMA DO AUMENTO DE PREÇOS:

O problema do aumentos dos preços dos alimentos não é um problema de origem unicamente monetária, muito menos um problema de origem fiscal. Se trata, na verdade, também de um problema produtivo e do foco exportador de nossa produção agropecuária de tendências monocultoras.

Sim, é verdade, que em tese, é possível resolver, de forma indireta, parte da questão do ponto de vista da moeda, se esforçando muito para fortalecer o real perante a alta do dólar, já que muitos desses produtos são importados e não são produzidos por aqui. Mas isso é extremamente inviável e também não depende de mero aumento da taxa de juros.

Essa meia verdade, porém, guarda em si a solução real para o problema.

Explicamos:

A forma mais simples de resolver esse problema não é indiretamente a partir do ponto de vista da moeda, mas diretamente a partir do ponto de vista da produção. A melhor resposta para o problema do aumento de preços, além de manter uma política de estoques forte e bem organizada, é passar a produzir as coisas, sobretudo os alimentos, em território nacional, escapando da dependência por importações. Isso se mostra vital, sobretudo naquilo que é essencial.

Hoje boa parte do que consumimos e também do que comemos é, em algum grau de sua cadeia produtiva, importado. Aliado ao foco monocultor do setor agro, que não produz em grande variedade e também tem o foco exportador, que visa o lucro a partir da venda para o estrangeiro. Para além disso, a própria precificação do combustível que é utilizado para translado de mercadorias, é feita de forma artificial e propositalmente dolarizado. Estes são os reais motivos do aumento de preços e é aqui, na raiz do problema, que se poderia combater tal questão.

As falsas crenças de que é o agro que abastece e alimenta a mesa dos brasileiros, junto ao mito de que o problema do aumento dos preços nos super mercados e etc deva, em nosso contexto, ser resolvido com aumento de juros, são, como se verifica, centrais para iludir quanto a real natureza do problema econômico brasileiro.

SOBRE A AÇÃO E A POLÍTICA:

Quem se coloca como “eterno escravo das condições” e não constrói contexto, é obrigado a aceitar as condições e o contexto que os outros produzem…

Na política isso consiste num erro mortal.

[ARTIGO] Sobre a construção de uma utopia trabalhista-comunista no Brasil

Uma reflexão sobre o caminho brasileiro para o socialismo.

Cíntia Xavier D.,
Secretária de Relações Internacionais,
Ação Popular Revolucionária.

Para guiar-nos no presente e entender como as atuais dinâmicas econômicas e políticas impactam nosso país, é essencial conhecermos nossa própria história. Conhecer a própria história é, por sua vez, conhecer a história da formação social e econômica do Brasil, a história da luta de classes brasileira.

No entanto, conhecer a história não é o suficiente. É preciso saber utilizar os seus elementos, de forma que a tradição não se transforme em conteúdo morto, e nem tampouco seja apropriada pelas classes dominantes , como pontuado por Mariátegui. É importante, portanto, que a historia brasileira seja uma fonte viva de inspiração para as lutas do presente.

Para esse artigo, uniremos conceitos fundamentais, no esforço de propor o resgate e, ao mesmo tempo, criação de uma utopia trabalhista-comunista no Brasil, ou seja, um mito político que reúna elementos de ambas as tradições políticas, tão importantes para a história do Brasil moderno. Para isso, uniremos três conceitos chaves: o fluxo heraclítico, a interrupção revolucionária benjaminiana e o mito político como força mobilizadora das massas, de Mariátegui.

Heráclito e o movimento como tensão e harmonia dos contrários

Para a filosofia de Heráclito, o movimento das coisas e dos seres é uma característica da própria lógica da natureza, que é parte transformadora da realidade apreendida pelos nossos sentidos. A lógica da natureza, segundo Heráclito, é responsável por salvaguardar o movimento (e sua consequente tensão e harmonia) entre unidade e multiplicidade.

Sendo o movimento o motor das transformações, esse princípio também pode ser aplicado à dinâmica histórica e política, uma vez que no processo histórico as sociedades nunca permanecem estáticas; elas estão sempre em processo de mudança, marcadas por rupturas e reconstruções. De tal forma, a história da luta de classes no Brasil é, ela mesma, um movimento de avanços e retrocessos.

Ao longo do século XX, a classe trabalhadora brasileira enfrentou contradições e avanços, mas também retrocessos significativos, como a repressão imposta pela ditadura militar de 1964 e as reformas neoliberais dos anos 1990. Esses fatores frearam seu desenvolvimento e contribuíram para o apagamento, na memória coletiva das gerações seguintes, de parte de suas conquistas.

Dentro do contexto do século XX, assim como Heráclito via o rio como símbolo da transformação incessante, a história do trabalhismo e do comunismo no Brasil pode ser vista como um fluxo dinâmico de avanços, rupturas e novas possibilidades.

Momentos de convergência, como as lutas operárias dos anos 1940 e 50, coexistem com momentos de choque, como a repressão ao PCB em 1935. Durante os governos Vargas, o conflito entre a política conciliadora trabalhista e a visão revolucionária do jovem movimento comunista moldou o movimento trabalhador e determinou as bases para a luta futura.

Com Goulart e Brizola, a convergência entre trabalhistas e comunistas só se concretizou nos momentos finais, sob a pressão das elites, resultando em tentativas tardias e ineficazes de resistir ao golpe de 1964. A hesitação de Goulart em mobilizar os sindicatos e organizar uma resistência armada, aliada à aposta do PCB em uma saída institucional, enfraqueceu a reação das forças populares e permitiu que o golpe se consolidasse rapidamente.

O trabalhismo de Vargas e Jango, apesar de possuírem medidas concretas para a proteção da classe trabalhadora e o fortalecimento do Estado nacional, não visavam, por suas limitações ideológicas e práticas, uma ruptura sistêmica com o capitalismo brasileiro.

Essa posição os tornou alvo constante das elites agrárias, industriais e do imperialismo, que buscaram destruir o projeto trabalhista sempre que ele ameaçou se tornar um obstáculo ao domínio burguês. O golpe de 1964 não apenas interrompeu esse projeto, mas abriu caminho para um realinhamento definitivo do Brasil ao neoliberalismo nas décadas seguintes.

O movimento comunista brasileiro, liderado principalmente pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), passou por diversas fases entre 1930 e 1964, alternando entre momentos de radicalização e conciliação, mas sem conseguir consolidar um projeto revolucionário autônomo.

A recusa de Luís Carlos Prestes (que se filiaria oficialmente ao PCB em 1934) em aderir à Revolução de 1930 afastou-o momentaneamente dos setores nacionalistas, enquanto o obreirismo do PCB impediu a construção de alianças estratégicas naquele momento, contribuindo para seu isolamento nos anos 30.

Nos anos seguintes, a dependência excessiva da linha soviética e o fracasso estratégico do levante de 1935, resultado de uma leitura equivocada do contexto brasileiro, não apenas levaram à repressão do partido por Vargas, mas também serviram de pretexto para a intensificação da criminalização do comunismo no Brasil.

Após a legalização do PCB em 1945, o partido adotou uma política conciliatória, intensificada nos anos 50, dentro da estratégia de “acúmulo de forças”. Apostando que a burguesia nacional poderia desempenhar um papel progressista no desenvolvimento econômico, os comunistas acreditavam ser possível estabelecer alianças táticas para avançar sua agenda.

Após dois anos da legalização, o governo Dutra, alinhado aos EUA, cassaria o partido em 1947. A ilegalidade forçou o partido à clandestinidade novamente, dificultando sua articulação política e tornando-o vulnerável à repressão. A expectativa do papel progressista da burguesia nacional também seria frustrada quando essa mesma burguesia se aliaria ao imperialismo.

Apesar dessas dificuldades, o PCB manteve influência sindical e social nos anos 50, mas sem consolidar uma base revolucionária autônoma. O partido oscilou entre apoio tático ao trabalhismo de Vargas e uma postura defensiva diante da Guerra Fria, priorizando uma estratégia eleitoral e institucional que limitou sua capacidade de mobilização popular e de construir uma estratégia revolucionária independente.

A fragilidade da estratégia do PCB ficou evidente no golpe de 1964, quando a ausência de um plano de resistência e a hesitação de João Goulart em armar os sindicatos impediram uma resposta eficaz ao avanço das forças reacionárias. A aposta do PCB na via institucional revelou-se um erro fatal.

A hesitação do PCB em adotar uma postura mais radical levou à ruptura que resultou na fundação do PCdoB em 1962, que rejeitou o reformismo e se alinhou ao modelo maoísta de guerra popular prolongada.

Nesse contexto de repressão e desorientação estratégica, emergiu uma das principais rupturas dentro da esquerda brasileira: a dissidência de Carlos Marighella, que rompeu com o PCB em 1967 para fundar a Ação Libertadora Nacional (ALN).

Marighella defendia que o caminho para enfrentar a ditadura passava pela guerrilha urbana, rejeitando a postura moderada do PCB, ainda controlado por Luís Carlos Prestes. Prestes, por sua vez, insistia na via institucional e no acúmulo de forças, temendo que a luta armada levasse a uma repressão ainda maior.

Essa divergência foi um reflexo da tensão estrutural entre as diferentes correntes do comunismo brasileiro. A soma desses fatores — desde a dificuldade em atuar de forma independente nos momentos decisivos da história brasileira até a adoção de estratégias conciliatórias sem garantias reais de avanço revolucionário — resultou em impasses que impediram a consolidação de um projeto revolucionário adaptado à realidade nacional e condenou ao fracasso as tentativas de luta armada.

Apesar de cada tradição possuir suas deficiências especifícas, o movimento trabalhista e o movimento comunista do período crucialmente erraram ao apostarem na conciliação com a burguesia nacional, superestimando o seu papel para o desenvolvimento econômico e social, acreditando ser possível contar com seu apoio na luta contra o imperialismo.

Brizola, em seu desenvolvimento intelectual pessoal após atuar como governador do Rio Grande do Sul, quando implementou reformas, como a desapropriação de empresas estrangeiras e a ampliação do controle estatal sobre setores estratégicos da economia, e durante a campanha pelas Reformas de Base no governo de João Goulart — quando se tornou o principal articulador da ala radical do trabalhismo, defendendo a reforma agrária, a estatização de setores estratégicos e o enfrentamento direto contra o imperialismo —, será responsável por, ao menos, ajudar a evidenciar o erro da estratégia conciliatória do trabalhismo de Vargas e Jango, o que ajudou no avanço teórico e prático dessa tradição, que passará a ter elementos revolucionários de maior consistência.

Apesar de partirem de matizes ideológicas e estratégias políticas distintas, ambas as tradições tinham o trabalhador como sujeito principal de seus projetos. Ambas as tradições cometeram erros ao subestimarem o papel da burguesia nacional e a sua correlação com o imperialismo, resultando na mobilização insuficiente das massas para avanços qualitativos.

No entanto, proponho que mesmo as tensões entre o movimento comunista e o movimento trabalhista brasileiro não foram obstáculos insuperáveis, mas parte do próprio movimento histórico. Foram necessárias para que pudessemos compreender, através dos choques entre as duas tradições, as deficiências de cada uma.

Os momentos de aproximação entre trabalhismo e comunismo na história brasileira, mesmo com suas contradições, é um exemplo de como tensões históricas podem ser ressignificadas e transformadas em oportunidades. Pois o movimento dos contrários não é apenas uma força de destruição, mas de criação. O trabalhismo, a partir de sua transformação ideológica, se aproximou gradualmente das concepções revolucionárias do movimento comunista, mesmo sem ter adotado, com Brizola, uma ortodoxia marxista.

Chegaram, através de caminhos distintos, a elementos comuns, pois, mesmo com as contradições e deficiências de suas visões de mundo, foram capazes de identificar aspectos centrais da formação econômica e social brasileira, bem como os meios mais apropriados para a transformação social.

A desilusão com a burguesia nacional, a ênfase em sua subordinação ao imperialismo e a necessidade de uma revolução proletária aproximaram setores do trabalhismo mais radical (ou trabalhismo revolucionário) da tradição comunista brasileira.

Portanto, as tensões históricas entre trabalhismo e comunismo, em vez de serem vistas como um impedimento, podem ser encaradas no presente como uma oportunidade de síntese e de criação de algo novo.

Para essa criação, é crucial que ambas as tradições aprendam com seus respectivos erros e possam contribuir para o avanço e amadurecimento de suas concepções acerca da realidade brasileira e das tarefas do momento.

Como Mariátegui menciona em “Heterodoxia da Tradição”, publicado em 1927:

“A tradição (…) [é] (…) resultado de uma série de experiências, isto é, de sucessivas transformações da realidade sob a ação de um ideal que a supera consultando-a, e a modela obedecendo-a. A tradição é heterogênea e contraditória em sua composição.

Walter Benjamin e a interrupção revolucionária do fluxo da história

Walter Benjamin, em suas Teses Sobre o Conceito de História (1940), critica a ideia de progresso como um caminho linear e inevitável. Para ele, a história não avança de forma contínua, mas é marcada por momentos de ruptura revolucionária que interrompem a opressiva continuidade do tempo.

Benjamin associa a ideia de progresso linear à lógica do capitalismo burguês, que esconde as contradições e a violência estrutural por trás do “avanço” tecnológico ou econômico.

A luta de classes, na visão benjaminiana, não é sobre esperar passivamente um futuro prometido, mas sobre interromper o presente e redirecionar o curso da história, reinvindicando as experiências históricas daqueles que foram vencidos. No Brasil, essa ideia se traduz na necessidade de romper com a narrativa oficial que marginaliza o papel do trabalhismo e do comunismo como forças estruturantes do Brasil moderno.

Benjamin defende que a luta revolucionária consiste em “salvar o passado” — ou seja, resgatar os legados esquecidos ou marginalizados pelos vencedores da história. No caso do Brasil, resgatar as experiências do trabalhismo e do comunismo é essencial para construir um mito que contraste com a hegemonia neoliberal que domina o presente.

A Era Vargas (1930-1945 e 1951-1954) é um exemplo de como o trabalhismo brasileiro tentou estruturar um projeto de desenvolvimento nacional que valorizasse o trabalho e protegesse os trabalhadores. Políticas como a criação da CLT (1943) e a nacionalização de setores estratégicos (petróleo e siderurgia) representaram uma ruptura parcial com o modelo dependente imposto pelas elites agrárias e industriais. O PCB, com sua influência nos sindicatos e movimentos de base, desempenhou um papel importante na organização da classe trabalhadora, especialmente nos anos 1940 e 1950.

A ditadura militar, iniciada a partir de 1964, e a hegemonia neoliberal, consolidada desde os anos 1990, apagou da memória popular a centralidade da luta de classes na história do país. As memórias dos governos de Vargas, da atuação dos sindicatos comunistas, das greves operárias e da resistência à ditadura foram suprimidas, distorcidas e até mesmo criminalizadas.

A ideia benjaminiana de salvar o passado significa mais do que reverenciar a história; trata-se de recuperar momentos de ruptura e resistência como inspiração para transformar o presente. Nesse sentido, o trabalhismo e o comunismo brasileiros são parte desse passado revolucionário que precisa ser “ativado” na luta contemporânea.

Não se trata apenas de um exercício de memória, mas, como define Benjamin, de uma tarefa revolucionária: resgatar o legado do trabalhismo, das lutas comunistas, das reformas de base e de todas as lutas da classe trabalhadora como parte essencial da luta contra os desafios do presente.

O resgate desses legados pode ser o ponto de partida para um novo projeto que una forças trabalhistas e comunistas em torno de uma ruptura necessária com o ciclo vicioso do liberalismo de esquerda, acumulando forças para uma ruptura com o projeto neoliberal e subserviente das elites brasileiras.

A ideia de síntese entre trabalhismo e comunismo no Brasil precisa ser mais do que uma constatação ou uma proposta teórica. Para que essa convergência seja viável e efetiva, é necessário um esforço coletivo para o estabelecimento de um modelo prático que evite a repetição dos erros do passado e forneça diretrizes estratégicas para a ação política no presente.

O desafio central é criar um projeto que supere as limitações do trabalhismo e do comunismo , forjando uma alternativa capaz de enfrentar os impasses estruturais do Brasil contemporâneo.

Historicamente, tanto o trabalhismo quanto o comunismo fracassaram em consolidar um projeto revolucionário autônomo. O trabalhismo varguista e janguista, apesar de suas conquistas sociais, permaneceu preso a uma lógica de conciliação com setores da burguesia nacional, acreditando que era possível desenvolver o país sem romper com o capitalismo.

O comunismo, por sua vez, oscilou entre períodos de radicalização e de aliança com setores progressistas da elite, sem conseguir estabelecer uma base social suficientemente ampla para levar adiante um projeto de poder real.

A experiência demonstrou que essa fração da elite esteve, em todos os momentos decisivos, alinhada aos interesses do imperialismo e contrária às reformas estruturais. Dessa forma, um novo projeto político deve partir da premissa de que não há mais espaço para confiar na burguesia nacional como aliada estratégica.

Isso significa que qualquer síntese entre trabalhismo e comunismo precisa se basear na classe trabalhadora (do campo e da cidade) como sujeito determinante do processo de transformação e na necessidade imperativa da revolução proletária.

Mariátegui e a força do mito político

O trabalhismo sempre teve um forte apelo simbólico, ancorado na figura de Vargas, Jango e Brizola. O comunismo brasileiro, por outro lado, nunca conseguiu consolidar um mito político com a mesma penetração de massas. Embora Luís Carlos Prestes tenha se tornado um símbolo da resistência comunista — especialmente nos anos 1930 e 1940, com o título de Cavaleiro da Esperança —, a clandestinidade do PCB e a forte repressão limitaram sua capacidade de construir um imaginário popular tão amplo quanto o trabalhismo, que teve a sua disposição o aparato do Estado e utilizou o rádio e setores da imprensa nacionalista para difundir sua mensagem, embora nunca tenha controlado totalmente os grandes jornais e revistas, que, em sua maioria, estavam alinhados às elites e ao liberalismo econômico.

José Carlos Mariátegui, em sua obra Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, defendeu o papel do mito revolucionário como força criadora capaz de despertar as massas para uma nova consciência histórica. Para ele, o socialismo precisava se enraizar nas realidades locais e ganhar forma mitológica para ter impacto.

O mito político não é apenas uma narrativa sobre o passado, mas um instrumento ativo de mobilização no presente. Ele não se limita à exaltação de figuras históricas, mas deve oferecer um horizonte utópico, um projeto de transformação social capaz de inspirar e unificar as massas.

No Brasil, essa construção precisa superar a fragmentação das tradições trabalhistas e comunistas, criando um novo referencial simbólico através de um projeto de ruptura com o atual sistema econômico.

Essa nova mitologia deve se manifestar nos símbolos, na cultura popular e nas práticas cotidianas da classe trabalhadora. A criação desse mito exige um esforço consciente de disputa cultural e ideológica, atuando nos meios de comunicação, na arte, na educação política e na organização de base. O desafio não é apenas revisitar o passado, mas tornar o mito uma força material, capaz de guiar a práxis revolucionária no Brasil contemporâneo, projetando um futuro viável e mobilizador para a classe trabalhadora.

Esse mito deve ser capaz de disputar o imaginário popular contra a hegemonia neoliberal, que, ao reduzir a política a uma lógica gerencial, dissolveu a ideia de transformação coletiva e deslocou a classe trabalhadora para um papel passivo e fragmentado.

Para romper essa lógica é necessário reconstruir a ideia de coletividade e mobilização popular, enfatizando a luta de classes como um fator estruturante da sociedade. O mito revolucionário deve atuar como um catalisador de ação no presente, um elo simbólico que liga as lutas do passado com as lutas contemporâneas, reconfigurando a identidade popular em torno de um projeto transformador.

Deve possuir um horizonte utópico que forneça uma direção clara para a classe trabalhadora e apresentar a libertação popular não como um evento isolado, vago e longínquo, mas como um processo histórico de desenvolvimento constante, que envolve organização, resistência e enfrentamento das elites.

Essa criação de uma nova utopia mobilizadora está respaldada pela própria história brasileira, pelas contribuições de ambas as tradições para a emancipação do trabalhador brasileiro, e mesmo por suas deficiências históricas, que nos servem de lições que não devem ser repetidas.

Uma vez superados os erros de ambas as tradições, sua união, na forma de um novo mito político, pode, entre outras tarefas históricas fundamentais, contribuir para o amadurecimento do campo popular, impulsionando sua reestruturação e ampliando seu alcance junto às massas. Essa união, portanto, deve se consolidar como um salto qualitativo na organização e na consciência da classe trabalhadora brasileira.

Se a história é movimento, como ensinou Heráclito, e se a luta revolucionária exige a interrupção desse fluxo histórico de opressões, como apontou Walter Benjamin, então o desafio do campo popular hoje não é apenas revisitar o passado, mas utilizá-lo como uma ferramenta de transformação.

Para isso, é fundamental disputar a cultura popular, estabelecer meios de comunicação de massa que dialoguem diretamente com os anseios da classe trabalhadora, bem como crucial a atuação nos espaços de socialização da mesma. A reconstrução desse imaginário não pode se limitar ao discurso acadêmico ou militante; precisa se tornar parte da cultura viva do povo, resgatando sua identidade de luta e resistência. O mito político, longe de ser um artifício ilusório, pode ser a ponte entre tradição e ruptura, entre memória e ação.

O Brasil moderno, e a tensão entre trabalhismo e comunismo, oferecem lições preciosas para a construção de uma nova utopia: uma síntese que supere as limitações do passado sem perder sua força mobilizadora. Cabe às forças populares resgatar os legados enterrados pelas classes dominantes, reinterpretar as experiências de luta da classe trabalhadora e rearticular um novo projeto.

A unidade entre trabalhismo e comunismo não deve ser apenas um resgate histórico, mas uma necessidade estratégica para romper o ciclo de dependência e exploração que marca a trajetória do país.

A construção de um novo mito que una essas tradições em um projeto revolucionário de longo prazo, que vá além da rememoração de figuras do passado, demanda a criação de uma identidade própria, baseada na experiência histórica das lutas, forte o suficiente para fornecer um horizonte para o futuro da classe trabalhadora brasileira.

Como nos momentos decisivos do século XX, a história nos exige agora um novo salto. É nesse encontro entre passado e futuro que pode emergir uma síntese revolucionária, capaz de transformar não apenas a política, mas o próprio destino da classe trabalhadora brasileira.

[RESENHA] O marxismo nos trópicos: a construção da revolução teórica da Teoria Marxista da Dependência

Lucas Barros,
Secretário Nacional de Comunicação
,
Ação Popular Revolucionária – APR PDT.

O texto a seguir é uma resenha da obra “A Teoria da Dependência: do nacional-desenvolvimentismo ao neoliberalismo”, de Claudia Wasserman. A obra de Wasserman é única e inovadora. Para além de resgatar os fundamentos econômicos dessa corrente, ou seja, tratar do arcabouço teórico por trás da literatura dependentista, a autora vai tratar dos caminhos e descaminhos políticos e pessoais das principais cabeças da Teoria Marxista da Dependência – a corrente radical da Teoria da Dependência.

Ampliando o debate sobre a conjuntura intelectual das esquerdas brasileiras do séc. XX, o ambiente universitário do mesmo século – com foco especial para o papel da Universidade de Brasília –, a frutífera produção acadêmica no exílio pós-1964 e a tentativa violentamente fracassada de reinserção acadêmica e profissional no pós-redemocratização, Wasserman destrincha, à luz da história, a trajetória de uma das teorias que mais abalaram o pensamento social brasileiro, dessa vez, sob o ponto de vista dos próprios teóricos marxistas da dependência.

Fato é que os teóricos da corrente radical da teoria da dependência formaram o que de mais avançado poderia haver no pensamento social brasileiro e latino-americano. Mesmo que seus posicionamentos pudessem acarretar isolamento nos meios acadêmicos e fracassos políticos severos, jamais deixaram de lado suas corajosas posições. Jamais costearam o alambrado, como diria Leonel Brizola. Se opuseram as teses reformistas do PCB, rejeitaram a ideia de uma aliança com a burguesia nacional, tal como a ideia da existência de “restos feudais” na economia brasileira. Nadaram contra a corrente, contra a hegemonia, compraram enfrentamentos teóricos que ninguém mais compraria.

Em última instância, esse texto pretende contar a história de uma derrota. Uma derrota profundamente sofrida e dolorosa, que é sentida, até hoje, pelas centenas de milhares de brasileiros e latino-americanos que sofrem dos males do capitalismo dependente e do subdesenvolvimento. A derrota política e o apagamento intelectual – propositalmente impostos pelo pacto petucano neoliberal que pretende nos jogar de volta à República Velha – dos intelectuais da corrente radical da Teoria da Dependência foi o que de mais trágico poderia acontecer contra a nação brasileira.

Enfim, sem mais delongas e partindo para o texto, quero parabenizar o intelectual e escritor trabalhista Daniel Albuquerque, com quem eu tenho a felicidade de dividir as fileiras da Ação Popular Revolucionária (APR), pela construção de seu jornal, o A Coisa Pública Brasileira (ACPB), que tem sido um espaço verdadeiramente fecundo de debates críticos sobre a realidade latinoamericana e profundamente comprometido com a Revolução Brasileira.

Se o Peru de José Carlos Mariátegui teve Amauta, o Brasil de Daniel Albuquerque tem A Coisa Pública Brasileira.

Os primeiros passos da Teoria Marxista da Dependência: contexto intelectual e universitário

A Teoria Marxista da Dependência (TMD) nasce em um contexto de profunda ascensão intelectual dos chamados “intérpretes do Brasil”. O debate público, à época, era marcado por figuras-chave do pensamento social brasileiro como Darcy Ribeiro, Alberto Guerreiro Ramos, Nelson Werneck Sodré, Josué de Castro, Maria da Conceição Tavares, Celso Furtado, Caio Prado Jr e outros.

É o momento propício para o surgimento da Universidade de Brasília (UnB), fundada em 1962 por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, sendo essa uma universidade com um propósito inovador ao abrigar o que de melhor a intelectualidade brasileira tinha a apresentar e carregar em si uma concepção de contribuição com a libertação nacional, descrita na obra A Universidade Necessária, de Darcy Ribeiro.

De acordo com a autora:

Juridicamente concebida como uma fundação, a UnB ampliava a independência em relação ao Estado. Sua organização estava baseada em departamentos e institutos, ao invés da cátedra e da faculdade, próprias da universidade tradicional; o projeto pedagógico privilegiava otrabalho docente em equipe, a relação ensino-pesquisa e dava estímulo à realização de cursos livre, debates e seminários e à abertura de cursos de pós-graduação. Sua concepção da relação universidade-sociedade e, inclusive, de formação profissional e capacitação sindical, constituía outro diferencial da instituição, que abrigava intelectuais comprometidos em compreender e projetas as transformações que o país sofria naquela metade de século.” (p. 32) [grifo nosso]

Da mesma forma, aponta Theotonio dos Santos:

A UnB foi uma experiência extremamente rica no campo pedagógico, mas também pelo contato com o que havia de mais ousado na intelectualidade brasileira. Foi na UnB também que conheci André Gunder Frank e iniciamos sistematicamente uma colaboração de décadas com Ruy Mauro Marini que, junto com minha então esposa Vânia Bambirra, formamos um trio polemizado no mundo inteiro.” (p. 105)

Será em 1963, nos anais da Universidade de Brasília (UnB), que os quatro autores debatidos pela obra – os brasileiros Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro Marini e o alemão André Gunder Frank – se encontram pela primeira vez – não à toa, ficariam conhecidos como o “grupo de Brasília”.

Ali, iniciam uma trajetória que nunca foi finalizada, a constituição de uma tentativa de leitura do desenvolvimento capitalista por fora da centralidade do sistema. Ou seja, uma tentativa de compreender e explicar o subdesenvolvimento capitalista e a dependência.

Da mesma forma, Darcy Ribeiro, apesar de não ser um dos teóricos dependentistas, é essencial para a própria existência da corrente, visto que pessoalmente convidou Gunder Frank para assumir um cargo de professor de antropologia na UnB, após este ser convidado a se retirar da Escola de Chicago por opor-se as teses de Milton Friedman.

De acordo com Gunder Frank:

A metrópole, e, pelo menos toda a sua cúpula, nunca vai produzir ideologia, ciência social ou políticas de ajuda ao mundo subdesenvolvido para este se desenvolver. No futuro, assim como no passado, esses auxílios metropolitanos só puderam ajudar o mundo subdesenvolvido a se tornar ainda mais subdesenvolvido. Eu não posso, em sã consciência, associar-me a esse empreendimento no futuro, como fiz em algum momento no passado.” (p. 84)

Imersos em um ambiente hegemonicamente nacional-desenvolvimentista – tanto sob o ponto de vista do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) quanto sob o prisma dos Partidos Comunistas (PCs) –, o grupo de Brasília teria a tarefa de apresentar um contraponto a tais teses, que carregavam uma leitura equivocada da realidade nacional, como por exemplo a leitura sobre a existência de “resquícios feudais” na economia brasileira.

O debate público, à época extremamente acalorado entorno de temas como o horizonte socialista, a industrialização nacional, o subdesenvolvimento e a dependência, era apropriado para o surgimento da corrente teórica que ficaria conhecida como a Teoria Marxista da Dependência. A conjuntura, portanto, apresentava uma série de interpretações errôneas sobre a realidade brasileira que precisavam ser confrontadas.

Rompendo com a hegemonia: contra o nacionaldesenvolvimentismo

Os alvos da crítica desses intelectuais (da TMD) foram as teorias da
modernização de Rostow, o pensamento nacional-desenvolvimentista da Cepal e o nacionalismo do Iseb, o reformismo comunista do PCB e da sociologia da USP.
” (p. 64)

No interior do campo das esquerdas brasileiras, cumpre ressaltar, confrontavam-se algumas correntes econômicas de diferentes espectros políticos, entre elas, a teoria do subdesenvolvimento ligada à Cepal, a lógica de revolução democrático-burguesa ligada aos PCs e o chamado grupo de Brasília, ligado a TMD.

De maneira resumida, o desenvolvimentismo cepalino partia do diagnóstico de que era fundamental quebrar a tendência ao desenvolvimento desigual entre centro e periferia e, para tal, era necessário a liderança do Estado como o promotor do desenvolvimento por meio do incentivo à industrialização, a ampliação do mercado interno e a diversificação da produção nacional, de tal forma que o Brasil deixaria de ter uma economia predominantemente agroexportadora para ter uma economia industrial.

A crise do desenvolvimentismo – que abalou o prestígio das teorias do desenvolvimento – é resultado da inviabilidade de superar as barreiras da dependência e do subdesenvolvimento por vias capitalistas. A fórmula cepalina – a história demonstra – fracassou, e passou a ser profundamente questionada pelas autoridades políticas da esquerda brasileira.

De acordo com Claudia Wasserman:

O projeto de desenvolvimento autônomo, baseado na industrialização e que apostava nos estímulos advindos de um Estado organizado para defender as atividades produtivas nacionais, investir em setores estratégicos e minimizar o problema da deterioração dos termos de intercâmbio apresentava sinais de esgotamento e fracasso.” (p. 72)

Ao mesmo tempo que a própria realidade prática torna claro a inviabilidade de tal teoria, a revolução cubana causou um grande impacto popular e intelectual, enriquecendo o horizonte das esquerdas brasileira e latinoamericana. Expandiu, dessa forma, o panorama de alternativas viáveis para o Brasil, para além do mero nacional-desenvolvimentismo – comprovadamente insuficiente.

Da mesma forma, os PCs – a exemplo de um de seus maiores intelectuais, Nelson Werneck Sodré – partiam de um pressuposto equivocado de que a economia brasileira estaria submetida à “resquícios feudais”, ou seja, relações de produção pré-capitalistas.

Em decorrência de tal diagnóstico, cumpriria defender a aliança com setores da burguesia brasileira – a chamada “burguesia nacional” – para liderar uma revolução burguesa antifeudal e concluir o pleno desenvolvimento do capitalismo e das forças produtivas.

No que diz respeito as teses dos PCs e as da TMD, a autora deixa claro:

A novidade e a diferença entre as análises precedentes [dos PCs] e a interpretação dos intelectuais de Brasília é que as teses destes últimos procuravam inserir o Brasil no sistema capitalista mundial. Ao mesmo tempo, pretendiam superar os debates estratégicos e suplantar a tese da estagnação. Os autores do grupo de Brasília afirmavam que o desenvolvimento capitalista efetivamente ocorreria, mas sob a forma do subdesenvolvimento.” (p. 60)

Em oposição a Sodré, entretanto, Caio Prado Jr., ainda nos anos 60, ressalta a existência de uma “parte dependente e subordinada” do sistema capitalista internacional. Da mesma forma, tinha menos otimismo com o reformismo trabalhista e com o horizonte de uma revolução democráticoburguesa.

Segundo Wasserman:

Um dos méritos da análise caiopradiana foi rechaçar a ideia de uma burguesia nacional – motivo de sua disputa com as teses oficiais do PCB. Não concordava que existisse uma parcela da burguesia brasileira que pudesse defender o capitalismo autônomo, proclamado anteriormente pela Cepal.” (p. 78)

Nesse contexto, autores como o sociólogo uspiano Fernando Henrique Cardoso (FHC) e o chileno Enzo Faletto protagonizaram um contraponto, dentro da própria Teoria da Dependência, as teses da corrente radical da teoria da dependência. Inicialmente, negavam a superexploração do trabalho pensada por Ruy Mauro Marini, tal como acreditavam na possibilidade de haver pleno desenvolvimento capitalista em países de economia dependente e periférica.

No artigo “As desventuras da dialética da dependência”, de FHC e José Serra, os autores criticam o dilema apresentado por Theotonio dos Santos, “socialismo ou fascismo”. Além disso, Vânia Bambirra, na obra “O capitalismo dependente latino-americano” faz uma detalhada crítica a tipologia histórico-estrutural formulada por FHC e Faletto.

Da oposição às teses apresentadas, surge esta outra teoria que procurou desvendar as mazelas do mundo periférico como um todo e solucioná-las. Buscou ferramentas de interpretação da realidade periférica e a construção de um projeto alternativo para o subdesenvolvimento capitalista. A Teoria Marxista da Dependência. Entretanto, opostos aos principais partidos da esquerda – o PTB e o PCB – onde tais intelectuais poderiam militar?

A Polop: uma alternativa política ao velho PCB

A Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop) cumpriu um papel de alternativa partidária aos comunistas que partilhavam da crítica ao PCB que os autores da dependência haviam formulado. Tal organização abrigou Vânia Bambirra, Theotonio dos Santos, Ruy Mauro Marini – que, anteriormente, militaram juntos na Mocidade Trabalhista do PTB –, Moniz Bandeira – dissidente da Juventude Socialista do PSB –, entre outros.

Segundo a autora:

Nos três congressos da Polop, organizados entre 1961 e 1964, enfatizou-se a necessidade de radicalização das classes trabalhadoras brasileiras e proclamou-se como imperativa a superação das teses burguesas, do PTB, e reformistas, do PCB. Os encontros elaboraram o Programa socialista para o Brasil, em que se afirmava que o grau de evolução do capitalismo no país comportava e exigia transformações socialistas imediatas, sem qualquer etapa “nacional-democrática.” (p. 62)

A intelectualidade da Polop, em franca oposição ao pensamento nacional-desenvolvimentista hegemônico e ao reformismo comunista, estava na linha de pensamento que descartava a existência de “restos feudais” na economia brasileira e de uma burguesia industrial que toparia unir-se ao proletariado pelo desenvolvimento nacional.

A Polop teve pouco tempo de vida. Após o golpe de 1964, passa a articular a luta armada contra a ditadura militar, participando da organização da Guerrilha do Caparaó, liderada por militantes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), de Leonel Brizola.

As marcas do exílio: o ciclo de ditaduras latino-americanas e as novas perspectivas intelectuais

O odioso e nojento ciclo de ditaduras latino-americanas, do qual o nosso Brasil também foi vítima após o Golpe de 1964, criou uma onda de exílios de intelectuais por toda a América Latina. A maior parte dos intelectuais brasileiros foram para as cidades de Santiago do Chile e para a Cidade do México, que viviam momentos de intensa euforia intelectual, sobretudo no campo das ciências sociais.

O Chile vivia a experiência do governo socialista de Salvador Allende, reivindicando a “via chilena ao socialismo”. Já o México era governado por Adolfo López, um governante de esquerda nacionalista que, ainda em 1964, deixaria o cargo para assumir o presidente da direita autoritária, Gustavo Díaz Ordaz Bolaños.

É a partir deste momento que o resto do globo começa a olhar com maior atenção a realidade latino-americana e o socialismo em tal região. Nos anos 60 e 70, a revolução cubana provocou uma ruptura teórica profunda no campo das ideias. De acordo com Vânia Bambirra, o movimento revolucionário cubano reacendia uma “tocha revolucionária” no continente.

Destaca Wasserman, que:

“Além do mais, foi uma época de ‘redescobrimento’ da América Latina nas universidades e centros de pesquisa do mundo inteiro. Estimulados por processos inusitados e originais, como a vitória da revolução cubana e seus desdobramentos, sobretudo relativos à latino-americanização da Guerra Fria, com a implantação de sucessivos regimes de segurança nacional nos países do Cone Sul, intelectuais do mundo inteiro se debruçaram sobre a história e as sociedades latino-americanas para compreender melhor esses processos.” (p. 90)

Esta onda de exílios, apesar de ter sido fruto de golpes abjetos, contribuiu com a constituição de novos paradigmas para pensar o socialismo na América Latina. O grupo de Brasília veio a verdadeiramente se afirmar enquanto intelectuais sérios e respeitados apenas no exílio.

De acordo com Bambirra:

“[No Chile] realmente me afirmei como intelectual, como professora, como pesquisadora e cientista social. Levantei voo. Adquiri autoconfiança, produto da segurança de que meu trabalho era sério e fundamentado. Comecei a realizar o sonho de entender o mundo para ajudar a transformá-lo. Apaixonei-me pela minha profissão.” (p. 93)

Inicialmente, André Gunder Frank partiu do Brasil para o Chile em 1964, sendo que em 1965 foi, a convite da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), lecionar no México, e em 1968 voltou para o Chile, onde permaneceu até o golpe de estado de setembro de 1973. Entre 1964 e 1973, encontrou Marini no México e Theotonio e Vânia do Chile.

Frank, após 1973, voltou para a Europa, em países como Alemanha, Inglaterra e Holanda, de onde nunca mais voltou. Theotonio e Vânia, por sua vez, como bom casal que eram, movimentavam-se juntos. Ficaram até 1966 clandestinamente no Brasil dirigindo a Polop, até que tiveram complicações com a ditadura e partiram para o Chile,
onde foram muito bem recebidos pelo Centro de Estudos Socio-Econômicos(Ceso), e permaneceram no país até o golpe de 1973, quando foram para o México.

Após o golpe chileno, Theotonio estava em uma lista das 10 pessoas mais procuradas pela junto de governo instalada em 11 de setembro. Ruy Mauro Marini, por outro lado, foi preso e torturado pela ditadura militar e teve de se exilar no México em 1965, onde permaneceu até 1971, quando foi convidado pelo Ceso para lecionar na universidade.

De acordo com Marini, o governo da Unidade Popular teria esvaziado a academia, levando os intelectuais para a administração pública. Com o golpe, Marini retorna ao México em 1974, para lecionar na Unam. Retornou definitivamente ao Brasil apenas em 1985.

Sobre o Ceso, Marini destaca:

“O Ceso foi, em seu momento, um dos principais centros intelectuais da América Latina. A maioria da intelectualidade latino-americana, europeia e norte-americana, principalmente de esquerda, passou por ali (…) O momento político que vivia o país, que tornara Santiago centro mundial de atenção e de romaria de intelectuais e políticos, fez o resto, além de incentivar o desenvolvimento de outros órgãos acadêmicos.” (p. 96)

De fato, o exílio estimulou a formação de redes de reconhecimento acadêmico em toda a América Latina. Da mesma forma, constituiu-se no exílio uma agenda nova, cheia de novidades, debatia-se o futuro do socialismo, a dependência, o subdesenvolvimento e os rumos do capitalismo periférico, além da experiência cubana. Ángel Rama, crítico literário uruguaio, aponta:

“Pienso que um libero imaginativo y talentoso como Las Américas y la
civilización de Darcy Ribeiro, hubiera sido imposible sin estos largos años de exilio que le permitieron recorrer y vivir por años em diversos países y zonas del continente.”
(p. 99)

Destaca-se, portanto, as marcas desse momento histórico impressas na produção intelectual e nos debates políticos e econômicos latino-americanos, no qual foram protagonistas os membros da Escola da Dependência. O exílio forçado, embora trágico, oferece aos teóricos da corrente radical da teoria da dependência uma plataforma para desenvolver uma nova agenda revolucionária.

Um ótimo resumo sobre o apontado foi o de Vânia Bambirra, “digo, como
acadêmica – e só nesse sentido -, bendito exílio
” (p. 101).

O DNA da Teoria da Dependência: a disputa pela paternidade

Cumpre observar a existência da chamada controvérsia da dependência – assim cunhada pelo economista Fernando Correa Prado –, ou seja, um campo de debates muito mais amplo do que simplesmente a Teoria Marxista da Dependência, que se utilizava do conceito da dependência como eixo central para explicar o desenvolvimento capitalista no Brasil e na América Latina.

A paternidade da chamada Teoria da Dependência foi, portanto, objeto de disputa pelas diversas correntes que debatiam o tema. Os autores da chamada Teoria Marxista da Dependência receberam diversas alcunhas, tal como “corrente radical da teoria da dependência”, “vertente de esquerda da teoria da dependência” e outros em tom mais pejorativo como “trotskistas” ou “neomarxistas”.

A denominação de “corrente radical da teoria da dependência” não apenas é, pessoalmente, a minha favorita e, portanto, a que eu costumo utilizar, como é também a que foi aceita e adotada pelo próprio grupo para referir-se a si mesmo.

O qualitativo “neomarxista” foi utilizado pelo economista Guido Mantega para referir-se aos teóricos da TMD. De forma rasa e não fundamentada, Mantega tenta desmoralizar tais teóricos e afastá-los da Teoria da Dependência. O interesse por trás era projetar FHC como o verdadeiro e legitimo representante da Teoria da Dependência, em contraponto aos chamados “neomarxistas”.

De acordo com Theotonio dos Santos:

Não quero entrar aqui no debate sobre quem iniciou a teoria da dependência. Fernando Henrique Cardoso e André Gunder Frank reivindicam muito sua autoria. Eu sou apontado por vários autores como seu fundador. Na verdade, como todo movimento de ideias, a teoria da dependência foi um produto coletivo, resultado da crise do modelo de substituição de exportações e do movimento populista na América Latina. No interior do movimento, formaram-se várias correntes e orientações diferenciadas que vão se separar com o correr do tempo.” (p. 116)

De fato, frente as outras correntes que enfrentavam esta disputa, a corrente radical da teoria da dependência carregava um diferencial único, a utilização e a adoção da metodologia e das categorias de análise marxistas.

Segundo tal corrente, a disputa em torno da paternidade da Teoria da Dependência está relacionada a um desvio da verdadeira origem da teoria, ou seja, a origem marxista. A Teoria da Dependência teria sido “impregnada” pelo pensamento desenvolvimentista.

Segundo Claudia Wasserman:

“Para Vânia, Ruy Mauro Marini, Theotônio e Gunder Frank, esse ‘desvio’ foi realizado pelos grupos funcionalistas e desenvolvimentistas. Por isso, a alcunha ‘marxista’ permitia que o ‘grupo de Brasília’ se diferenciasse das demais correntes presentes no início do percurso e responsáveis por esse ‘desvio’ indevido.” (p. 117)

A vitória da dependência: a tentativa de reinserção da intelectualidade crítica no limbo neoliberal

A promulgação da Lei da Anistia, em 1979, trouxe de volta a terras brasileiras os exilados políticos da esquerda brasileira. Apesar da ótima recepção das outras nações latino-americanas, os autores marxistas da dependência retornam ao Brasil, revelando o profundo compromisso com o próprio país.

Junto com a redemocratização brasileira, a insanidade neoliberal se aprofunda e definitivamente solidifica-se na economia brasileira. A década de 80 fica conhecida como a “década perdida”, tamanho o nível de estagnação econômica e de retração da atividade industrial.

De acordo com a autora:

“Nesse sentido, os intelectuais e políticos brasileiros deixaram um país onde, na década de 1950-1960, predominavam perspectivas otimistas sobre o desenvolvimento da economia e retornaram a um Brasil em forte crise de realização da atividade industrial, crise da dívida externa, índices altíssimos de inflação e grave desemprego.” (p. 148)

O retorno ao Brasil deixou uma coisa clara: a corrente radical da teoria da dependência decretava, ali, sua inquestionável derrota política e intelectual. A tentativa de reinserção no debate público foi humilhantemente fracassada. As polêmicas sobre o futuro do socialismo, a Revolução Brasileira e a América Latina já não mais eram o centro do debate público.

Wasserman pontua:

“As transformações do mundo socialista e o fracasso do comunismo determinaram, nos anos 1990, o abandono gradual da utopia socialista, cuja palavra quase desapareceu do vocabulário das esquerdas brasileiras.” (p. 152)

Ou seja, a sustentação da postura revolucionária e marxista no ambiente de redemocratização, para além da adesão ao brizolismo pedetista em um cenário de hegemonização da “nova esquerda” petista, levaram o grupo de Brasília a marginalização acadêmica e profissional.

Nesse sentido, destaca Theotonio dos Santos:

Em 1979, no México, havia organizado, na Divisão de Pós-Graduação de Economia da Unam, um debate sobre a volta da democracia no Brasil, em que trouxemos vários cientistas sociais brasileiros. Neste debate, comecei a sentir que a minha volta não seria tão bem recebida. Havia grandes divergências entre a minha visão do processo de democratização de nosso país e das implicações econômico-sociais e, sobretudo, de política econômica, em elação àquela que vinha presidindo grande parte dos pensadores sociais no Brasil”. (p. 159)

Já no campo das universidades, centros de pesquisa, jornais e revistas, os teóricos da dependência foram razoavelmente bem recebidos, apesar de ser mínima a inserção real no debate público. Marini assumiu a direção de um suplemento especial no Jornal do País e, com o jornalista e fundador do PDT Neiva Moreira, editou uma revista trimestral, chamada Terra Firme.

Também foi professor da Fundação Escola de Serviço Público do Rio de Janeiro (Fesp), onde tentou criar um curso de graduação em administração pública que foi inviabilizado, entre outras coisas, devido à derrota de Darcy Ribeiro nas eleições estaduais do Rio de Janeiro, quando foi demitido da Fesp. Mais tarde, foi reintegrado na UnB, em 1987, graças à intervenção do então reitor Cristóvão Buarque.

Theotonio dos Santos, por sua vez, participou de uma série de projetos acadêmicos ligados à Universidade das Nações Unidas (UNU). Sua esposa, Vânia Bambirra, foi convidada por Darcy Ribeiro, então vice-governador do Rio de Janeiro com Leonel Brizola, para trabalhar na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Também foi funcionária da Superintendência de Desenvolvimento Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.

Além do exposto, Vânia e Theotonio se ocuparam, majoritariamente, da docência universitária, tanto no departamento de economia da Universidade Católica de Belo Horizonte, quanto no Instituto Bennett de Ensino, no Rio de Janeiro, onde foram indicados por Moniz Bandeira para criar e implantar um curso de pós-graduação.

De acordo com Theotonio:

“A anistia política de 1979 trouxe-me de volta ao Brasil. Aqui não encontrei a mesma solidariedade que obtive junto aos povos irmãos do Chile e do México. A ditadura ainda dominava o ambiente acadêmico brasileiro e só pude obter posições instáveis como bolsista do CNPq ou em cargos acadêmicos temporários, como professor da PUC de Belo Horizonte e do Instituto Bennett.” (p. 167)

Theotonio dos Santos e André Gunder Frank, nessa época, sem superar ou deixar de lado os estudos sobre o sub-desenvolvimento latino-americano, a Revolução Brasileira e a Teoria da Dependência (muito pelo contrário), inseriram-se nos debates sobre as chamadas teorias do sistema-mundo, aproximando-se de tal enfoque em meio a um contexto de inevitabilidade da globalização e de neoliberalismo.

Segundo Theotonio:

“Dessa forma, descreveria meu percurso intelectual desde que cheguei ao México, no meu segundo exílio, em 1974, como parte do processo de elaboração de uma teoria do sistema mundial que vejo como uma fase superior à teoria da dependência.” (p. 186)

Fato é que outro fator importante a ser considerado na trajetória dos intelectuais do velho grupo de Brasília depois do retorno do exílio é que, em meio a decadência do ambiente acadêmico e universitário brasileiro e a dificuldade de reinserção no debate público, a atuação política surge como uma alternativa e, no caso de Vânia Bambirra e Theotonio dos Santos, político-partidária.

Segundo a autora:

“O desprezo quase generalizado pela via insurrecional no novo contexto
cultural latino-americano e o retorno do pluripartidarismo no Brasil levaram Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro Marini de volta à militância político-partidária.”
(p. 173)

Theotonio e Vânia contribuíram, junto a Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Moniz Bandeira, Francisco Julião e diversas outras figuras-chave da intelectualidade brasileira, com a refundação do PTB, a partir da redemocratização denominado Partido Democrático Trabalhista (PDT).

De acordo com Theotonio:

“Comecei a trabalhar na rearticulação política do exílio brasileiro que levou, posteriormente, a minha definição no sentido de restabelecer o
trabalhismo no Brasil, o que me fez participar do congresso em Lisboa
que deu origem à reestruturação deste movimento trabalhista. Isso exigiu também de minha parte uma síntese entre minhas preocupações de ordem teórica sobre a questão do capitalismo contemporâneo, do imperialismo, da dependência, da transição ao socialismo e a pesquisa e análise da realidade brasileira.”
(p. 177)

Bambirra, da mesma forma, esteve intimamente conectada com o processo de fundação do PDT. Sobre Leonel Brizola, admite:

“Estou com você, porque sei que jamais serás um Allende, vale dizer, jamais entregará, por pressão militar, o poder outorgado pelo povo.” (p. 178)

Nesse contexto, Vânia contribui e muito com a definição programática do PDT, que além de trabalhista, se declarava socialista. De acordo com Vânia:

“Nosso Partido jamais tratou de erigir uma fórmula rígida ou um pretenso ‘modelo’ de socialismo. (…) Definir-nos como social-democratas? Não! Historicamente, em todas as oportunidades em que chegou ao governo, serviu de força estabilizadora do capitalismo.”

Theotonio se candidatou pelo PDT para o governo de Minas Gerais em 1982 e para deputado federal em 1986. Foi derrotado em ambas as eleições. Da mesma forma, Vânia foi candidata a deputada federal em 1982, sendo, também, derrotada.

Ruy Mauro Marini, por sua vez, não se filiou a nenhum partido político. Entretanto, esteve extremamente próximo ao PDT e, mais especificamente, de Darcy Ribeiro na campanha pelo governo do estado do Rio de Janeiro em 1982.

Segundo a autora:

Nossos personagens, sobretudo Theotônio e Vânia, que militaram explicitamente no PDT, mas também Ruy Mauro Marini, que, embora, não tivesse filiação partidária, contou com as únicas chances profissionais pós-anistia junto aos políticos do PDT no Rio de Janeiro, foram identificados com o radicalismo político de Brizola, Darcy Ribeiro e outros pedetistas mais radicais em uma época em que a maior parte da esquerda se posicionava a favor da conciliação.” (p. 180) [grifo nosso]

Em suma, houve, concreta e deliberadamente, uma exclusão dos autores radicais da teoria da dependência após a redemocratização. O isolamento dos autores tem motivações claras, como a adesão ao brizolismo em um ambiente de contínua hegemonização da “nova esquerda” petista, crítica ao populismo trabalhista e a insistência nas teses revolucionárias em um cenário de aprofundamento do anticomunismo e do neoliberalismo.

O reflexo disso é a maneira como o mercado editorial brasileiro, mesmo que progressista, trata a contribuição teórica da TMD. As obras de tais intelectuais foram publicadas no mundo inteiro, em línguas variadas, com edições sucessivas. Entretanto, no Brasil, até hoje, não temos edições de várias obras dos autores, não há espaço no mercado editorial brasileiro proporcional ao sucesso recebido por eles no
estrangeiro.

De acordo com Wasserman:

Suas ideias [dos teóricos marxistas da dependência] não envelheceram ou foram substituídas e recriadas; elas jamais foram sequer consideradas interpretações válidas para a realidade brasileira. Eles foram marginalizados pelo mainstream das ciências sociais. Lidos na África, Índia e toda a América Latina, Ruy Mauro Marini, Theotônio, Vânia e Gunder Frank tiveram muita influência no pensamento periférico, mas seus oponentes, sobretudo no Brasil, procuraram, de um lado, desqualificar suas interpretações e, de outro, apossar-se do conceito de dependência, deturpando o sentido dado por eles ao termo.” (p. 214)

Considerações finais: o sonho da Revolução Brasileira

“Se você não conhecia está temática [da dependência] tão bem ocultada pelos setores conservadores, não pense que vai encontrar aqui um repousante recanto para sua vida teórica. Aqui só há desafios teóricos e históricos gigantescos sobre os quais necessitamos trabalhar incansavelmente. Você está entrando em águas agitadas.” Theotonio dos Santos

A corrente radical da teoria da dependência não se constituiu simplesmente enquanto um grupo de intelectuais com pequenas contribuições ao debate público. Os autores dessa corrente revolucionaram o horizonte teórico das esquerdas latino-americanas.

Marginalizada nos ecossistemas acadêmico e político, a TMD deixa um legado que, cada vez mais, deve ser considerado uma referência crucial para entender as dinâmicas do capitalismo periférico. Em tempos de crescimento contínuo do neoliberalismo selvagem e da reafirmação imperialista, a luta pela emancipação do trabalho do jugo do capital deve estar orientada pelo profundo conhecimento da realidade particular da América Latina.

A trajetória histórica desses intelectuais é a trajetória de homens e mulheres que tiveram garra para desafiar paradigmas postos, que confrontaram o mainstream, que não se contentaram com as tentativas de explicar o subdesenvolvimento latino-americano apresentadas no séc. XX.

O estudo sobre a maneira pela qual o capitalismo latino-americano se insere no capitalismo internacional e as consequências de tal inserção inauguram as bases de uma teoria verdadeiramente comprometida com a Revolução Brasileira e com a
emancipação humana.

No início do texto, disse ser essa a história de uma derrota. A derrota dos que tiveram a coragem de estar do lado certo da história. De não se curvar a interesses meramente pessoais ou privados. O velho grupo de Brasília jamais deixou de lado seus posicionamentos, jamais deixou de debater criticamente a Revolução Brasileira e o horizonte socialista – mesmo quando o contexto acadêmico apontava para o sentido contrário.

Ao se isolarem das concepções dominantes do nacionaldesenvolvimentismo e do reformismo comunista, os intelectuais da TMD não estavam apenas apresentando um contraponto a teses econômicas e sociais divergentes, mas também propondo alternativas políticas radicalmente diferentes.

Enquanto isso, o nosso Brasil segue mergulhado no subdesenvolvimento e na dependência. Seguimos sem rumo, sem um projeto socialista de país, sem esperança no nosso futuro. Até o mero horizonte reformista – pela completa rendição da autodenominada esquerda brasileira – saiu da nossa perspectiva.

Os intelectuais marxistas da dependência não apenas desenvolveram um diagnóstico do desenvolvimento capitalista brasileiro, mas apontaram saídas para nossos mais graves problemas.

Inevitavelmente, precisamos, com a urgência de um país onde mais de um milhão e meio de crianças e adolescentes passam fome, construir a vindoura Revolução Brasileira. Revolução esta que será socialista, além de profundamente comprometida com a centralidade da questão nacional.

Revolução esta que irá superar o subdesenvolvimento nacional e a dependência. Significará, portanto, a segunda e verdadeira independência nacional.

Ao contrário do que as aparências estão a indicar, o socialismo, por ser não apenas um ideal, mas uma necessidade histórica, voltará a reverdecer, não tão pronto quanto desejamos, mas, em todo caso, muito antes do que os liberais esperam.” – Vânia Bambirra

[FICHAMENTO E COMENTÁRIO] A arte da guerra, de Sun Tzu, capítulo 2.

A coisa pública brasileira dá sequência em sua série especial de textos, discussões e reflexões sobre ciência militar. Neste segmento, selecionaremos para reprodução trechos e obras de autores clássicos, modernos e contemporâneos que abordam a área, bem como produção autorais brasileiras via colaboração cujos assuntos sejam considerados relevantes para os estudos e reflexão brasileira. Caso tenha interesse em colaborar com algum material autoral, entre em contato conosco através das nossas redes sociais. Prosseguimos com nosso estudo, portanto, com o fichamento e comentários acerca do primeiro capítulo de “A arte da guerra” de Sun Tzu, por Daniel Albuquerque (Nelson), disponível originalmente no Medium.

Capítulo 2: Administrando a guerra — Análise:

O general e teórico Sun Tzu, inicia o segundo capítulo de sua “Magnum opus”, conhecida em português como “A arte da guerra”, aludindo aos enormes custos da manutenção de uma guerra. O autor literalmente cita, conforme a realidade de sua época, o custo diário necessário para manter um contingente comumente utilizado em seu tempo para a maioria dos conflitos militares. Com isso, Sun Tzu começa a trabalhar uma noção que parece ser central ao capítulo e obra:

Em termos gerais, ou seja, não necessariamente monetários, quanto custa a guerra, sobretudo as mais longas?

Mais precisamente, podemos ver nesse capítulo, uma reflexão acerca da administração deste mesmo custo. Isso com certeza nos abre espaço para, em futuros capítulos dessa discussão, traçar toda uma frutífera análise da “Arte da Guerra” em seu fronte mais crítico, a produção. Neste momento, porém, nos deteremos sob os ensinamentos de Sun Tzu acerca da administração da guerra, em geral, o que também inclui questões muito particulares como o “estado de espírito” das tropas sob determinadas circunstâncias.

O teórico segue em sua análise nos dizendo que, por mais mobilizados e dispostos para a batalha que estejam os soldados, se a vitória tarda, suas armas se tornarão “pesadas”, e seu “ânimo”, abatido. O teórico termina o segundo aforisma do segundo capítulo, após reflexão, afirmando que, ao sitiar uma cidade, o comandante irá, com o passar do tempo, exaurir todas as suas forças.

Sun Tzu, ao seguir com seu pensamento, nos adverte:

“ Além disso, se a campanha for prolongada, os recursos do Estado não serão equivalentes ao esforço despendido.”

E arremata o raciocínio ao concluir:

“Ora, quando suas armas estão embotadas, seu ardor entorpecido, sua força exaurida e seus recursos escassos, outros soberanos poderão se insurgir para tirar vantagem de suas debilidades. Então, nenhum homem, por mais sábio que seja, poderá evitar as consequências que certamente advirão”

Em seu raciocínio, portanto, o autor nos remete a pensar acerca de custos de diferentes naturezas, em uma determinada quantidade de tempo gasto ao se travar uma guerra prolongada.

O teórico os relaciona, no plano material, na oposição entre “Custo para empreender a guerra”, considerando a tendência crescente de uma guerra prolongada “Capacidade de produção e arrecadação daquele Estado”. Quando o primeiro em muito supera o segundo, de acordo com Sun Tzu, as coisas não vão nada bem, e o Estado que arca com os custos dessa guerra pode sofrer, e provavelmente sofrerá, sérias consequências.

Além disso, o autor, nos traz uma segunda oposição que em nada deve a sua antecessora. Ao relacionar o impacto da quantidade do esforço despendido pelas tropas, em determinadas situações, e em determinada quantidade de tempo, com o “estado de espírito” das mesmas. Nos trazendo então nossa segunda oposição, entre “Vigor físico e moral psicológica das tropas” e a “A dificuldade imposta pelas condições materiais em um certo intervalo de tempo”. Em uma guerra prolongada, a tendência do segundo termo desta oposição, é, em geral, crescente. Quanto mais tempo afastados de “casa” em uma guerra, na maioria dos casos, menor é o ímpeto das tropas e maiores são os desafios e custos inerentes a guerra. Quando o segundo termo desta oposição, em muito supera o primeiro, o arqueiro preciso não mais acertará suas flechas no peito do cavaleiro, o atirador de fuzil de precisão irá se embaralhar nas batidas de seu coração e não acertará seu alvo. Em situações como essa, não rara é a ocorrência de motins.

Essas duas oposições, inerentes a própria lógica e práticas da guerra e da realidade material, existem ao mesmo tempo, de forma não hierárquica, e podem nos auxiliar quando pensamos sobre os custos da guerra. Não podemos, porém, nos esquecer nunca, que essa ferramenta de análise deve ser utilizada de forma simultânea a uma extensa análise nas condições específicas do caso em questão. É especialmente importante tomar nota dos detalhes relativos a cada situação específica quando tratamos da arte da guerra. Condições muito particulares podem representar tanto uma possibilidade de derrota inesperada, quanto de uma vitória surpreendente para nosso adversário.

Sun Tzu prossegue, fazendo humor, ao criticar o prolongamento desnecessário de conflitos militares:

“Do mesmo modo, apesar de termos ouvido falar de precipitações estúpidas em batalhas, a inteligência nunca foi vista associada a procrastinações.”

O autor prossegue e afirma que nunca houve nenhum exemplo, até sua época, de guerra prolongada que trouxe ganhos para quem a travou, sobretudo de forma ofensiva.

Essa afirmação, a primeira vista, pode parecer generalista e bastante radical, mas tendo em mente que existe a possibilidade de, ganhar uma guerra e mesmo assim sair bastante enfraquecido, podemos inferir que Sun Tzu pensa de forma bastante similar a esse postulado em sua afirmação, fazendo uma alusão implícita a possibilidade de uma chamada “Vitória de Pirro”, isto é, uma vitória obtida a custo de um preço irreparável, que se observada sob uma perspectiva mais geral, de vitória não tem nada.

Seguindo com seu pensamento sobre o tema proposto, Sun Tzu, afirma que só aquele familiarizado com a natureza e o volume dos custos da guerra, onde o ser humano é matéria-prima, pode compreender a conveniência de leva-la adiante com rapidez. O autor reforça essa noção ao afirmar que o comandante habilidoso não recruta uma segunda milícia ou comando, e nem utiliza mais que dois carregamentos com suprimentos.

O mitológico General, tratando sobre esse tema, recomenda que, se possível, o comandante traga o próprio material bélico, e saqueie os suprimentos dos inimigos. Quando nos deparamos com os custos logísticos de abastecer tropas a longa distância, essa recomendação se mostra sábia. Sun Tzu chega a comentar que cada suprimento saqueado vale duas vezes mais que os nossos próprios, isso se dá por que na maior parte dos casos, menos energia e esforço é despendido ao saquear do que na produção e transporte de tais suprimentos.

O autor, ao seguir com o capítulo, inicia uma interessante digressão econômica sobre os custos para se manter tropas. Sun Tzu afirma que enormes são os gastos impostos ao povo enquanto este contribui em uma guerra distante, paradoxalmente, a presença das tropas em determinadas regiões de proximidade, em geral, aumenta a média dos preços das coisas, e preços elevados, igualmente esgotam os recursos do povo.

Quando as verbas públicas se esgotam e o povo está extenuado de colaborar, a próxima coleta de impostos provavelmente irá triturar o seu próprio povo e levá-lo a fome, a morte, e a tragédia.

Exatamente por isso, Sun Tzu, enfatiza sua opção pelo saque frequente e sistemático de todas as provisões inimigas possíveis, como forma de impedir esse efeito negativo dos gastos da guerra.

Terminada sua digressão econômica, Sun Tzu, começa uma reflexão sobre a necessidade de manter a moral das tropas elevadas. Para tal, devemos recompensá-las, nos diz o autor. Objetos saqueados e recolhidos como espólio, devem ser entregues como recompensa. Além disso, Sun Tzu, enfatiza a necessidade de tratar bem inimigos rendidos e prisioneiros, com a finalidade de assimilá-los e utilizá-los para aumentar nosso contingente.

Sun Tzu, termina seu segundo capítulo, aconselhando-nos a lembrarmos de que o objetivo deve ser a vitória, e não longas campanhas épicas, pois, como atesta o teórico, existe uma enorme dose de responsabilidade para aquele que gerencia a arte da guerra, segundo ele, este é o árbitro do destino do povo e da segurança da nação.

[ARTIGO] O pensamento de Darcy Ribeiro sobre o processo histórico geral do desenvolvimento humano e a particularidade do movimento socialista brasileiro:

Texto cedido por Daniel Albuquerque para a equipe da Revista A Coisa Pública Brasileira.

A ideia do desenvolvimento de um tipo de aplicação do socialismo, particular do Brasil, não é novidade dos tempos atuais. Ainda assim, existem muitas dúvidas e confusões feitas quanto ao tema no debate público. Mas afinal, o que é o trabalhismo brasileiro e o que este almeja? Para responder a essa pergunta, se faz necessário que façamos uma breve reflexão filosófica sobre a multilinearidade do processo histórico geral do desenvolvimento humano, como apontado por Darcy Ribeiro, e suas implicações na realidade do desenvolvimento do movimento socialista brasileiro.

Em seu livro de título “O processo civilizatório”, Darcy Ribeiro, entre muitas inovações em seu criativo pensamento, nos traz o conceito de que o desenvolvimento das sociedades e civilizações, embora detenha padrões e mantenha a noção de linearidade, não está restrito a uma única linha, ou seja, a uma única possibilidade de desenvolvimento. Pelo contrário, Darcy aborda que, apesar de evolutivo, tal processo se dá sob uma perspectiva multilinear.

Embora possa parecer algo abstrato, isso nos traz implicações práticas bem importantes e se trata de um fenômeno observável na realidade, não é por acaso que tal pensamento veio de um intelectual radical do sul global. Ao estudar o desenvolvimento das civilizações, sociedades e economias durante um largo espaço de tempo histórico, até o século XX, Darcy encontrou uma forma de explicar nosso subdesenvolvimento, a acumulação interna de capital nas mãos de uma classe dominante submissa ao imperialismo e, sobretudo, sua relação com a acumulação de capital nos grandes centros do sistema capitalista.

A linha de pensamento de Darcy prima por demonstrar como o subdesenvolvimento da América Latina e do continente africano são resultado direto da opulência, riqueza e “desenvolvimento” das nações europeias que participaram do processo de colonização, como método de acumulação de capital que sustentou as bases do sistema capitalista como o conhecemos, até sua forma atual, de intervenção imperialista e novas políticas neocoloniais.

É necessário compreender disto que, a pobreza e o subdesenvolvimento do terceiro-mundo não são uma contingência, mas uma das condições fundamentais para a ocorrência de tal processo, pela forma como foi organizado e se deu o desenvolvimento das economias de países centrais do capitalismo e do Sistema Internacional. Como exemplo, podemos observar que as grandes inovações tecnológicas da primeira e da segunda revolução industrial necessitaram de um grau de exploração e subdesenvolvimento de um número imenso de países, que supriram os grandes centros de matéria-prima barata, muitas vezes a partir de mão de obra escrava.

Evidentemente, existe uma implicação política em tal processo, no sentido de que os países que participaram desse processo de apropriação se tornaram cada vez mais ricos, poderosos, influentes, e os que estavam abaixo nessa cadeia, eram impedidos de se desenvolver pelo mesmo caminho, desenvolvendo-se por outra linha, atrelada à relação de exploração e apropriação econômica que viviam.

“. Entre os primeiros, recordo agora o gosto que me deu ler as apreciações frequentes, assinalando que O Processo Civilizatório proporcionava, pela primeira vez, um quadro conjunto dos últimos cinco séculos da história, que possibilitava tratar as sociedades avançadas e as atrasadas não como etapas sucessivas da evolução humana, mas como polos interativos de um mesmo sistema socioeconômico tendente a perpetuar suas posições relativas. O hoje dos povos avançados não é, pois, o nosso amanhã: nós e eles encarnamos posições opostas, mas coetâneas. Esta integração teórica, que nos permitiu fundir, a partir de 1500, nosso esquema evolutivo com nossa reconstituição do processo histórico, possibilitou-se graças ao apelo aos conceitos complementares de aceleração evolutiva e de atualização histórica.” Darcy Ribeiro, “PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO VENEZUELANA”, “O Processo Civilizatório”.

Nesse sentido, um dos desdobramentos mais importante de ser observado de tal linha de pensamento é a perspectiva de que o movimento dos trabalhadores também se desenvolve de forma desigual e particular ao redor do globo. Ao contrário do que pensam alguns materialistas vulgares, se o processo de desenvolvimento das sociedades humanas é evolutivo, porém multilinear, isso significa que condições materiais distintas e adversas de organização das sociedades também irão gerar condições materiais adversas e distintas para organização e formulação de movimentos de trabalhadores.

Isso significa dizer que, o desenvolvimento orgânico do movimento dos trabalhadores da Europa, não é uma regra para o desenvolvimento do movimento dos trabalhadores em todo e qualquer local do globo, ainda que existam padrões gerais e que tal recorte ajude a elucidar tais padrões. Para compreender melhor tal ponto, é necessário que façamos uma reflexão sobre Universal e Particular a luz do materialismo histórico e dialético:

A ideia e o conceito de socialismo, são universais, e, portanto, podem ser concebidos por todos. As condições materiais práticas para sua aplicação são, contudo, diferentes e desiguais, daí que a única derivação lógica para tal questão é que a aplicação do conceito de socialismo seja diversa quando posta em prática como experiência em diferentes localidades e períodos históricos, ainda que, todas estas experiências, por mais distintas que sejam, faça parte do mesmo processo de desenvolvimento do socialismo e do movimento dos trabalhadores quando olhamos sob um ponto de vista geral.

Portanto, de forma resumida, o desenvolvimento geral do movimento dos trabalhadores e do socialismo ao redor do globo é, na verdade, a síntese contraditória da aplicação do conceito de socialismo em realidades e épocas particulares ao longo da história. Nesse sentido, respondendo à pergunta inicial de tal artigo, o trabalhismo é a expressão brasileira da luta por libertação nacional e da dura batalha pela construção do socialismo em nosso contexto de capitalismo latino-americano subalterno e dependente, é também, como sacramentou a historiadora Ângela de Castro Gomes, uma cultura política, e, ao mesmo tempo, como asseverou Theotônio dos Santos em seu livro “O caminho brasileiro para o Socialismo”, uma fase do desenvolvimento político do movimento dos trabalhadores no Brasil.

[Fichamento e comentário] A arte da guerra, de Sun Tzu, capítulo 1.

A coisa pública brasileira dá sequência em sua série especial de textos, discussões e reflexões sobre ciência militar. Neste segmento, selecionaremos para reprodução trechos e obras de autores clássicos, modernos e contemporâneos que abordam a área, bem como produção autorais brasileiras via colaboração cujos assuntos sejam considerados relevantes para os estudos e reflexão brasileira. Caso tenha interesse em colaborar com algum material autoral, entre em contato conosco através das nossas redes sociais. Prosseguimos com nosso estudo, portanto, com o fichamento e comentários acerca do primeiro capítulo de “A arte da guerra” de Sun Tzu, por Daniel Albuquerque (Nelson), disponível originalmente no Medium.

Capítulo 1: Planejamento Inicial — Análise:

O general Sun Tzu começa o primeiro capítulo de sua obra definindo a arte de gerir a guerra como sendo algo de fundamental importância para o Estado, e argumenta que essa é uma questão de vida ou morte, e que pode resultar em vitória ou derrota, e que portanto esta questão nunca poderia ser tratada com negligência ou de forma pouco clara. Algo que denota que Sun Tzu estava ciente da necessidade da criação de uma sólida teoria militar, pautada na realidade, com a intenção de maximizar as vitórias, e sobretudo eliminar as derrotas.

Após essa breve exposição, o autor argumenta que a arte da guerra é sempre regida por cinco fatores:

1: Leis morais;
2:Espaço;
3:Tempo e Clima¹;
4:Método;
5:Comandante;

Sobre esses cinco fatores que regem a arte da guerra, Sun Tzu nos dá as seguintes informações:

Leis morais: Sobre esse tópico, o autor nos diz que as Leis morais fazem com que os “subordinados” executem as ordens do comandante, sem recear nenhum perigo. Como antes exposto na análise da primeira sentença do capítulo, os conceitos de “Justiça ( Yì/)”, “Benevolência(Rèn/仁)” e “Integridade moral (Xìn/ )”, desempenham um papel importante para o entendimento do que o autor caracteriza como “Leis morais”. Essa categoria, “Leis morais”, dentro do sistema de Sun Tzu, diz respeito a adequação do comandante e dos comandados, a leis formais, mas sobretudo as informais, e sociais. Essa é uma categoria relacionada a unidade do grupo, em um pacto social em que seguem regras comuns. Um grupo o qual o líder estipula, preferencialmente de acordo com as necessidades de cada qual, preceitos e normas, e os segue de forma exemplar, contagiando e impactando em seus comandados, é organicamente mais unido e coeso, e pode superar adversidades. Notadamente, essa é uma categoria que versa sobre o espírito, a unidade e a moral do grupo.

Espaço: Sobre esse tópico, o autor nos diz que, o espaço inclui tanto dimensões, como distante e próximo, características do relevo, como vastidões, campos, e passagens estreitas, quanto risco e segurança, e a possibilidade de morte ou vida. Essa categoria diz respeito ao terreno, mas não necessariamente em um sentido restrito, mas em um sentido mais geral, se refere a uma série de conhecimentos geográficos. Veremos, mais adiante, Sun Tzu falar sobre espiões e inteligência militar, ainda assim, é importante destacar que, muitas vezes na história, para obter dados referentes a geografia, ao terreno, a cultura local e outras informações pertencentes ao que se refere o espírito da categoria “Espaço”, impérios cooptaram cidadãos inimigos.

Tempo e Clima: Sobre esse tópico, o autor nos diz que, essa categoria significa ao mesmo tempo, noite e dia, calor e frio, e as estações do ano. Se conhecer a geografia aparente e o relevo é bom, conhecer os climas em cada tempo, em determinado espaço geográfico é o necessário para poder utilizar com completude, o terreno como arma e armadilha

Método: Sobre esse tópico, o autor nos diz que, por método se entende a divisão do exército em subdivisões apropriadas, a organização e preservação das estradas e da logística de transporte de suprimento até onde o exército está posicionado, assim como o controle e a gestão dos gastos militares. Essa categoria, em sua lógica interna, diz respeito a forma como obteremos nossos objetivos e pontos estratégicos, bem como as ferramentas e o tipo de organização necessários para tal. O método está intimamente ligado a tecnologia.

Comandante: Sobre esse tópico, o autor nos diz uma importante frase escolhida para análise no final deste capítulo:

“O comandante apoia sua autoridade nestas virtudes: sabedoria, justiça, coragem, rigor e humanidade.”

Sobre esses cinco fatores, o autor nos diz que esses devem ser familiares a todos os comandantes e soldados, e pondera que se estes os conhecem, serão vitoriosos, senão, serão derrotados e fracassarão.

Após isso, o general, afirma que diante da dúvida de avaliação sobre quem tem mais chances de vencer e quem tem mais chances de perder em um conflito político-militar, é possível prever as tendências a partir de sete questionamentos:

1:“Qual dos dois comandantes está imbuído na moralidade?”. Em outras palavras, qual dos comandantes domina a balança moral?

2:“Qual dos dois comandantes é mais talentoso?”. Em outras palavras, qual dos comandantes é tecnicamente superior em estratégia e teoria militar?

3:“Quem é o detentor das vantagens que derivam do tempo/clima e do espaço/terreno?”.

4: “ Em que lado a estratégia é mais rigorosamente elaborada?”. Existe uma diferença grande entre ser o comandante mais talentoso, algo individual, e ter uma estratégia mais rigorosamente elaborada, algo em boa parte coletivo.

5: “ Qual é o exército mais forte?”. Em outras palavras, qual dos dois lados tem mais tropas, melhores armamentos, ferramentas e logística.

6: “Em que lado os oficiais e soldados são mais disciplinados e bem treinados?”. Tendo essa pergunta como critério, Sun Tzu demonstra objetivamente que não basta apenas ser detentor do exército mais forte para obter vitórias.

7: “Em qual dos exércitos há maior justiça, tanto na recompensa quanto na punição?”. Essa pergunta, como critério, versa sobre a unidade e o espírito do grupo, e é relacionada aos conceitos de “Justiça ( Yì/)”, “Benevolência(Rèn/仁)” e “Integridade moral (Xìn/ )”.

Após expor os cinco fatores que, segundo o autor, regem a arte guerra, e expor sete perguntas que atuam como critério objetivo para a previsão de tendências de vitória ou derrota, este alude para o fato de que uma vez que nos encontremos em posições favoráveis, para nos utilizarmos destas e nos adaptarmos ao meio.

Segundo o autor, a arte da guerra é também a arte da dissimulação. Portanto, expõe o general, quando estamos capacitados para o ataque, devemos denotar incapacidade, quando estamos perto, é interessante que nosso adversário pense que estamos longe. Sun Tzu recomenda a utilização de iscas para atrair os inimigos, bem como o ato de simular desordem interna, para esconder uma intransponível organização coletiva.

O autor segue com seus conselhos e recomenda que, se o seu oponente tem temperamento colérico, irrite-o, para derrubá-lo mentalmente e atrapalhar sua tomada de decisão. Uma estratégia observada no futebol, sobretudo, sul-americano, conhecida como “catimba”, que visa a provocação. Sun Tzu recomenda o ato de dissimular sua real força, de forma a tornar seu oponente arrogante e vence-lo de surpresa, algo certamente proibido em mesas de sinuca, onde alguns golpistas se utilizam desse estratagema para fazer certo dinheiro.

Tais recomendações parecem estar muito relacionadas ao conceito Sabedoria ( Zhì/ 智) ), previamente analisado, sobretudo quanto ao caráter ligado a astúcia e à esperteza. Para um brasileiro, se torna difícil não relacionar esses conselhos do autor aos conceitos de drible e finta, muito presentes tanto no futebol brasileiro quanto na capoeira.

Ao finalizar seu primeiro capítulo, o autor nos diz que, o comandante que vence muitas batalhas, também é alguém que planejou e pensou muito e afirma que, planejar bastante, leva à vitória, planejar pouco leva à derrota, e que não planejar nada, leva ao desaparecimento e ao esquecimento histórico. Com isso, Sun Tzu novamente nos passa a noção de que a arte da guerra é coisa muito séria para ficar entregue aos deuses ou ao acaso, e deve ser estudada e conhecida pela humanidade, para entender seus mecanismos e evitar batalhas desnecessárias.

Nesse capítulo, o teórico Sun Tzu, lança as bases fundamentais para o início do estudo sobre teoria político-militar, leitura indispensável para quem quer entender a atual movimentação na geopolítica mundial e local.

Explicação sobre conceitos importantes:



“O comandante apoia sua autoridade nestas virtudes: sabedoria, justiça, coragem, rigor e humanidade.” Sun Tzu.

Introdução:

Já nessa pequena sentença contida no primeiro capítulo da obra que é considerada, com justiça, a bíblia dos tratados militares, o general e teórico chinês Sun Tzu nos demonstra aspectos fundamentais sobre a política e a guerra, em suas diferentes facetas.

Porém, antes de tudo, para compreender tal sentença, aparentemente das mais simples, é necessário levar em consideração alguns pontos fundamentais. Todas essas cinco qualidades sob as quais o comandante supostamente apoia sua autoridade, “sabedoria”, “justiça”, “coragem”, “rigor” e “humanidade”, tratam-se de traduções que podem se mostrar imprecisas, e por demais pautadas por uma interpretação subjetiva, a partir da perspectiva e linguagem dos tradutores e difusores da obra de Sun Tzu no ocidente.

Todas essas “qualidades” são, na verdade, conceitos provenientes da própria filosofia e cultura chinesas, em grande parte tributários da filosofia de Confúcio, o que pode prejudicar em muito a interpretação da sentença, se não buscarmos entender o que originalmente quis dizer Sun Tzu, com cada um desses conceitos. A barreira da língua, sobretudo para nós brasileiros não versados em mandarim, deve ser superada por uma busca, mesmo que breve, sobre a história e os significados destes conceitos, em seu país de origem.

SABEDORIA (ZHÌ/):

Sabedoria ( Zhì/ 智) )

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Sabedoria” é formado pela junção de outros três ideogramas. Shi( 矢), que simboliza a “flecha” ou o “Juramento”, Kou(口), que simboliza “boca” e “fala”, e Rì(日), que simboliza o “dia” e a “luz”.

Juntos esses caracteres(智/ Zhì) simbolizam a “Sabedoria”, mas não qualquer tipo de sabedoria, especificamente uma sabedoria ligada a capacidade de verbalizar pensamentos e explicar a realidade. Um tipo de sabedoria referente ao bom juízo e ao bom julgamento, e que também pode ser, por vezes, utilizada como sinônimo de astúcia.

JUSTIÇA(Yì/義):

Justiça ( Yì/義)

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Justiça” é formado pela junção de dois outros ideogramas. Yáng (羊), que simboliza “ovelha” e “carneiro”, e Wo( 我), que simboliza tanto a noção de “ Eu”, quanto a de “ em si mesmo”. Cabe ressaltar que ovelhas e carneiros são vistos com bons olhos pela cultura chinesa, e por muitas vezes podem ser vistos como um símbolo da disciplina, da lealdade e do trabalho duro. Não por acaso, a junção desses ideogramas, em uma tradução literal, significaria algo como “ Tornar a si próprio uma ovelha” ou “ Eu sou um carneiro”.

Juntos esses caracteres (義/ Yì) simbolizam a “Justiça”, mas não todo e qualquer tipo de justiça, especificamente uma justiça pautada pelo auto-sacrifício e pela lealdade, em nome do correto.

CORAGEM(Yong/勇):

Coragem ou bravura ( Yong/勇)

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Coragem” ou “Bravura” é formado pela junção de outros dois ideogramas. Yòng( 用), que simboliza uma ação ou algo sendo posto em prática, como “utilizar” ou “operar” e nos trás certa noção de utilidade e bom uso de algo, e Lì(力), que simboliza “força”, “poder”, “ energia” e “habilidade”.

Juntos esses caracteres (勇/ Yong) simbolizam a “Coragem”, mas não todo e qualquer tipo de coragem, especificamente uma coragem ou bravura marcada pelo bom uso, ou seja, em nome de algo nobre, em geral do bem comum, da força, poder, e outras habilidades e qualidades em geral.

RIGOR(Xin/信):

Rigor ou Integridade moral (Xìn/ 信)

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Rigor” é formado pela junção de outros dois ideogramas. Rén(人), que significa “ Pessoa” ou “ Humano” ou “ Benevolência”,e Yán (言), que representa “opinião”,“palavra”, “promessa” e “explicação”. A junção desses ideogramas significam literalmente “Verdadeiro”, “Confiável” e de “Palavra”.

Juntos esses caracteres (信/Xìn) simbolizam o“Rigor”, mas não todo e qualquer tipo de rigor, especificamente um tipo de rigor associado ao conceito de integridade moral e daquele que é rigoroso com a própria palavra.

HUMANIDADE(仁/ Rèn):

Humanidade, Benevolência(Rèn/仁)

O ideograma Chinês que representa o conceito de “Humanidade” é formado pela junção de outros dois ideogramas. Rén(人), que significa “ Pessoa”,“ Humano” ou “ Benevolência”,e Èr (二), que representa “Segundo”, “Diferente” e pode ser usado para diferenciar palavras similares.

Juntos esses caracteres (仁/Rèn) simbolizam a “Benevolência”, mas não todo e qualquer tipo de benevolência, especificamente um tipo de benevolência associada ao conceito de “Humanidade”e ”Bondade”. Este conceito é um dos pontos centrais do humanismo de Confúcio.

Analisando a sentença:

Após uma breve pesquisa sobre a origem e o significado desses conceitos, podemos finalmente analisar a sentença de Sun Tzu de forma justa, minimizando projeções provenientes de nosso tempo, língua e cultura, e tentando entender o que realmente tentou nos dizer o teórico chinês.

Ao nos dizer que o comandante apoia sua autoridade em cinco virtudes, o autor chinês já nos diz algo muito relevante antes mesmo de elencar tais virtudes. Precisamente ao nos dizer que a autoridade do comandante se apoia em algo, este nos passa a noção de que “autoridade” é condicionada a algo, as cinco virtudes nesse caso, e que por isso, esta não poderia nunca ser irrestrita,irrevogável, ou um direito natural de indivíduo ou de grupos. Pelo contrário, esta, por ser condicionada a algo, tem natureza transitória, deveria ser conquistada, e mantida através de práticas específicas.

Para além de uma nomeação burocrática para um cargo de poder, a verdadeira autoridade ante um batalhão é, antes de mais nada, uma questão política e de exemplo. Não existe soldado algum no mundo disposto a colocar sua própria vida em risco, ao seguir as recomendações e planos daqueles que ele não admira e sobretudo não respeita. Para conquistar a verdadeira “autoridade” sob suas tropas, o comandante deve, segundo Sun Tzu, executar na prática, essas cinco virtudes. Não por acaso, as práticas relacionadas aos conceitos “Justiça ( Yì/)”, “Benevolência(Rèn/仁)” e “Integridade moral (Xìn/ )”, formam o núcleo duro da manutenção da “autoridade moral” e tem a ver sobretudo com respeito, enquanto as práticas relacionadas aos conceitos de “Sabedoria ( Zhì/ )”, e “bravura ( Yong/)” são, em geral, as ideais para a conquista inicial da “autoridade” em boa parte dos casos, e tem a ver sobretudo com admiração.

Essa simples sentença de pouco mais de uma linha, quando analisada, se mostra muito mais complexa, reveladora e carregada de sentido do que nos poderia parecer à primeira vista. Isso reforça o entendimento de que nada na obra de Sun Tzu pode ser considerado como trivial, e de que o debate acerca de sua obra textual “ A arte da guerra”, deve continuar também no século XXI.

[ARTIGO] Por que o Trabalhismo e a Quarta Teoria Política são incompatíveis e inimigos ideológicos? — Uma crítica trabalhista a “nova” “moda reacionária”.

Autor: Daniel Albuquerque,
Revisão: Cíntia. X. Dias.

Aqueles que apenas reagem em negação contra a pressão da cultura de massas são inequivocamente pautados por esta, e estão mais ligados ao sistema que dizem combater do que quem de fato propõe um caminho nacional autêntico e orgânico para superação dessas pautas.

Antes de serem solução para os problemas que vivemos, a existência destes é, na realidade, um sintoma causado por anos de dominação do neoliberalismo, seja com a roupagem que for, da sociedade do espetáculo e da crescente individualização e criação de uma sociedade narcísica.

Esse é só mais um dos exemplos da importância e centralidade da “questão nacional”, observada por um pensamento socialista, em nosso período histórico. Exatamente para ampliar o entendimento sobre o tema no campo da esquerda nacionalista, este presente artigo visa demonstrar a profunda crítica à Quarta Teoria Política do ponto de vista do Trabalhismo Brasileiro. 

O que é a Quarta Teoria Política do ponto de vista trabalhista?

“Se um cavalheiro brasileiro ou estrangeiro
Só vive falando em Olavo ou em Dugin,
Eu vou me desviando
Que esse cara está bancando
O quinta-coluna pra cima de mim.

Releitura de trecho da música “Sai quinta coluna”
Antônio Nássara, Eratóstenes Frazão, 1943.

A Quarta Teoria Política é uma visão de mundo reacionária que prega a criação de “uma nova ideologia política”, em um suposto sincretismo entre o que seu criador (o filósofo russo Alexander Dugin) elenca como as “três teorias políticas campeãs da modernidade“: o liberalismo, o socialismo e o fascismo. Essa “nova ideologia política“, segundo seu autor, mira “acabar com a modernidade“.

Contudo, tudo indica que não se trate de um impulso progressista de superação quanto ao que esta tem de pior, mas um esforço retrógrado para um período bem anterior ao Iluminismo, período pregresso a todas as conquistas da própria modernidade.

Essa “nova ideologia” mira um caminho para um passado em que a classe social dos pensadores do início do século XX, em que tal visão de mundo se baseia (aristocracia, senhores de terra e a classe média de certos países) vivia a mais profunda decadência moral e intelectual e sentiam haverem sido retiradas do jogo político pelo liberalismo e pelo socialismo, ambas ideologias fruto de partes do legado da modernidade.

Tal visão de mundo está intimamente relacionada com a forma pela qual o autor pensa as Relações Internacionais e, particularmente, em sua interpretação do conceito de multipolaridade na distribuição do poder político entre as nações.

Não abordaremos as piores citações diretas de autores de tais teorias, pois não consideramos que seja de bom-tom, visto que  a intenção desse presente artigo não é a de causar o choque ou o espanto e muito menos mero denuncismo.

Contudo, cabe destacar de forma clara que Alexander Dugin baseia boa parte de seu pensamento, além de misticismo e esoterismo, no estudo do fenômeno do surgimento do fascismo na Europa do século XX. Portanto, conhece profundamente autores que organizaram intelectualmente tal movimento e o pensamento de cada um destes.

Além disso, os autores que mais influenciam o pensamento de Dugin são o filósofo Martin Heidegger, o fascista espiritual Julius Evola e o esotérico René Guénon. Partes do pensamento de tais respectivos pensadores, articulados com o modelo e a prática política e de propaganda do nacional-bolchevismo e do strasserismo, formam o núcleo duro da atuação da Quarta Teoria Política.

Tal quimera bisonha – diferente de boa parte do movimento neo-nazista no globo que se fundamenta mais centrado no conceito dialético Heideggeriano de “dasein” – vence a barreira da particularidade metafísica e gera um princípio normativo universal que, supostamente, seria particular em cada local do globo, sem perder, contudo, uma ligação com a matriz originária de seu pensamento, tornando se com um movimento internacional de extrema-direita com uma agenda distinta em princípios.

Outrossim, por se basear no ideário de matriz filosófica irracionalista e no método de análise duvidoso de um decadente membro da aristocracia do sul da Itália (o fascista espiritual Julius Evola), tal movimento de extrema-direita tem um caráter culturalista, identitário, pois não se volta para pura violência ligada ao racismo biológico, mas sim para o critério da cultura, identidade e de ethos. Exatamente por isso a Quarta Teoria Política proposta por Dugin se enquadra enquanto uma das teorias da pós-modernidade:

“E é aqui que os novos prospectos se abrem para a Quarta Teoria Política. Aquele tipo de pós-modernidade que está atualmente sendo realizada na prática, a pós-modernidade pós-liberal, cancela a lógica estrita da própria modernidade – após o objetivo ter sido alcançado, os passos para alcançá-la perdem o sentido. A pressão da concha ideológica se torna menos rígida.

A ditadura das ideias é substituída pela ditadura das coisas, senhas de login e códigos de barras. Novos buracos estão aparecendo no tecido da realidade pós-moderna. Como a terceira e segunda teorias políticas, concebidas como uma versão escatológica do tradicionalismo, uma vez tentaram “colocar uma sela na modernidade” em sua luta com o liberalismo, a primeira teoria política, hoje há uma chance de conquistar algo análogo com a pós-modernidade, usando esses “novos buracos”, em particular. […]

A Quarta Teoria Política deve buscar sua “inspiração sombria” na pós-modernidade, na liquidação do programa do Iluminismo e na chegada da sociedade do  simulacro, interpretando isso como um incentivo para a batalha, ao invés de como um dado fatal.” Alexander Dugin, Quarta Teoria Política, p. 36.

Na época em que a forma de produção no sistema capitalista assume sua descentralização e modo de produzir personalizado, se fundamentando cada vez mais no consumo em cima de desejos e particularmente no desejo de “pertencer”, a Quarta Teoria Política prega uma visão de mundo que fomenta uma identidade que, ainda que se utilize do fator pertencimento de grupo, é oposta ao “espírito do tempo” de integração particularizada.

Tal identidade é de recusa e abandono a esse espírito, se auto-proclamando “dissidente” e apontando as contradições de outras identidades enquanto defendem, a depender de qual território estão, identidades previamente existentes na cultura em que se hospedam (culturas regionais, certos gêneros de música e até mesmo algumas culturas e tradições políticas).

Como um ser parasitário, se aproveita do sentimento positivo de uma determinada população por uma determinada identidade coletiva previamente existente e tenta, a partir do revisionismo, encampar uma luta cultural contra seus oponentes políticos utilizando essa roupagem cultural, não se restringindo a ser contra apenas aqueles que realmente se utilizam, da mesma forma que eles, da identidade enquanto locus e critério central para a análise e tomadas de decisão política.

Por ser precisamente uma identidade e uma teoria apenas em potência, não raro podemos ver uma ambiguidade típica do fascismo, onde boa parte de seus defensores não conhecem ou não sabem os pressupostos de tal teoria e não raro acreditam que estão em uma “missão heroica”.

O “macete” filosófico está no fato de que a Quarta Teoria Política não é ainda uma teoria, mas uma “potência de teoria”, baseada numa visão de mundo. Portanto, tal identidade parasitária de revolta e rejeição é uma identidade vazia, uma vacuidade, sem determinações, pronta para ser preenchida pelas características da identidade hospedeira:

Não obstante, o ponto de partida dessa ideologia é precisamente a rejeição da própria essência da pós-modernidade. Esse ponto de partida é possível – mais nem garantido, fatal ou pré-determinado – porque ele emerge do livre arbítrio do homem, de seu espírito, ao invés de um processo histórico impessoal.

Porém, essa essência (muito como a detecção da razão por trás da própria modernidade – imperceptível previamente – que realizou sua essência tão completamente que exauriu seus recursos internos e mudou para o modo de reciclagem irônica de suas fases anteriores) é algo completamente novo, previamente desconhecido e apenas deduzido intuitivamente e fragmentariamente durante as fases primitivas da história ideológica e do conflito ideológico.

A Quarta Teoria Política é uma “Cruzada” contra: Se a terceira teoria política criticou o capitalismo a partir da Direita e a segunda – a partir da Esquerda, então a nova fase não mais destaca essa topografia política: é impossível determinar onde a Direita e a Esquerda estão localizadas em relação ao pós-liberalismo.

Há apenas duas posições: conformidade (o centro) e dissenso (a periferia). Ambas as posições são globais. A Quarta Teoria Política é o amálgama de um projeto comum e um impulso comum em relação a tudo que foi descartado, derrubado e humilhado durante o curso da construção da “sociedade do espetáculo” (construindo a pós-modernidade).Alexander Dugin, Quarta Teoria Política, p. 28.

Exatamente por isso, o método de política empregado pelos membros da Quarta Teoria Política (influenciado por Julius Evola) visa a guerra cultural para, a partir dos preconceitos e fragilidades da cultura nacional, tentar fabricar o mesmo ambiente que propiciou o surgimento do fascismo no início do século XX.

Anti-materialistas ferrenhos que são, partem do plano das ideias, dos mitos e da guerra de propaganda, tentando trazer o mesmo espírito do surgimento do fascismo, para a criação de um fascismo do século XXI.

Inclusive, essa é uma das proposições do livro “Fascismo visto da Direita”, de Evola, onde este pinça o que acredita ser “aspectos positivos do fascismo” e tenta criar um conjunto de ideias do ideário fascista que sejam supostamente“toleráveis” nas sociedades que sucederam à Segunda Guerra Mundial, tanto em caráter internacional quanto nacional.

O que torna a defesa quanto ao fato de serem ou não fascistas, empregadas pelos seguidores do pensamento de Evola e Dugin, um tipo caricato de deboche. Um interlocutor mais sábio poderia afirmar: “Se de fato não são fascistas, podem ser até mesmo piores.”

Se utilizando da ignorância geral quanto a sua existência e da ignorância de seus próprios seguidores quanto ao conteúdo programático que defendem, os seguidores da Quarta Teoria Política se sentiram confortáveis para instituir como programa político “aquilo que fora banido pela modernidade”:

Enquanto esse curso dos eventos é, de algumas maneiras, ainda mais aterrorizante do que o materialismo e o ateísmo dogmático diretos e descomplicados, o enfraquecimento da perseguição da Fé pode ser aquela chance, se os representantes da Quarta Teoria Política agirem consistentemente e descompromissadamente na defesa dos ideais e valores da Tradição. Agora é seguro instituir como programa político aquilo que foi banido pela modernidade.

E isso não mais parece tão tolo e destinado à derrota quanto antes – pelo menos porque tudo na pós-modernidade parece tolo e destinado à derrota, inclusive seus aspectos mais “glamourosos”. Não é por acaso que os heróis da pós-modernidade são “aberrações” e “monstros”, “travestis” e “degenerados” – essa é a lei do estilo. Contra o pano de fundo dos palhaços do mundo nada e ninguém pode parecer “arcaico demais”, mesmo as pessoas da Tradição que ignoram os imperativos da vida moderna.

A validade dessa asserção não é provada apenas pelas conquistas significativas do fundamentalismo islâmico, mas também pelo ressurgimento da influência exercida pelas vastamente arcaicas seitas protestantes (dispensacionalistas, mórmons, etc.) na política externa americana. George W. Bush foi à guerra no Iraque porque, em suas próprias palavras, “Deus me disse para invadir o Iraque!”. Isso é bastante compatível com seus professores protestantes metodistas.” Alexander Dugin, Quarta Teoria Política, p. 36-37.

Por que o Trabalhismo e a Quarta Teoria Política são incompatíveis e inimigos ideológicos?

O Trabalhismo Brasileiro, advindo do positivismo jacobino praticado no sul do Brasil parte de uma matriz filosófica empirista, que, ao absorver antropofagicamente partes fundamentais da teoria socialista utópica e materialista, de tipo metafísico vulgar ou dialético, bem como concepções importantes do iluminismo, contempla idealismo e materialismo, desde que racionalmente e logicamente plausível, e cientificamente comprovável, pois tem no empirismo uma espécie de “cola” e trava conceitual, como critério para adesão.

Além disso, como resultado desse processo, o Trabalhismo Brasileiro é de forma evidente um instrumento da classe trabalhadora, cujos dilemas materiais e contradições apenas se tornaram mais evidentes no atual desenrolar do ciclo neoliberal em nosso país, realidade que este pretende vingar para construir um novo futuro nos paradigmas da modernidade, com democracia socialista, igualdade, liberdade e uma concepção classista e não identitária como nexo central de análise.

Ou seja, o Trabalhismo Brasileiro é um gigante representante da modernidade, particular do próprio espírito e história da classe trabalhadora brasileira, e se orgulha e se ufana muito disso, pois enquanto cultura política e fruto de uma tradição, também nunca perdeu sua ligação com o Mito (como pregam os apologistas do Apolíneo asséptico) desde que submetido a análise material do logos, sob um critério da luta de classes e do humanismo, como espécie de trava da potência destrutiva da palavra mítica.

Já a “Quarta Teoria Política”, que nem nasceu, mas já está morta, se afirma não apenas como combatedora da pós-modernidade, mas como um fruto indissociável desta. Se insere na esteira da conjunção do pensamento aristocrático do final do século XIX e começo do século XX, se vende enquanto idealismo radical, mas é sabidamente parte do irracionalismo filosófico, repaginado e distribuído em roupagem popular, colocando uma identidade vazia submetida a uma visão de mundo proveniente dos autores que a baseiam (muitas vezes implícita) como centro de sua prática e pensamento político.

Além disso, seu discurso e identidade se fundamenta na crítica ao  “mundo moderno”, ao Iluminismo, e boa parte do universalismo que também existia antes mesmo de tal período. O futuro ideal e idílico dos criadores da falsa necessidade de uma “Quarta Teoria Política” é um futuro particularizado, por muralhas acríticas de cultura, ethos e identidade, simbolizado no mundo das tradições como espelho, como uma forma de reação estúpida, romântica e pós-moderna aos fenômenos negativos da própria pós-modernidade e da nova formatação e organização do neoliberalismo e do sistema capitalista, marcada por uma globalização assimétrica que camufla fortes vínculos imperialistas.

Se baseando nesse sentimento de rejeição e em meias verdades sobre o mundo contemporâneo, vendem tal saída extrema, absurda e desnecessária de retorno, que também termina em particularização em ilhas, como uma verdadeira tentação de Mefistófeles. Existe uma importante e intransponível interdição entre tais visões de mundo. Embora ambas rejeitem a fábula conhecida como “Fim da História”, proposta por Francis Fukuyama, elas a rejeitam por motivos radicalmente diferentes:

A visão de mundo dos criadores da “Quarta Teoria Política” a “rejeita” aceitando seu conteúdo e aderindo a este, a saber, aos próprios princípios e forma de pensar política da pós-modernidade, como forma de se aproveitar da decadência do coração filosófico do ideário iluminista para trazer a tona “tudo aquilo que fora banido pela modernidade”. Por isso também envergonhado, em sua proposta de criação de uma Quarta Teoria Política, Dugin afirma fazendo coro discreto com Fukuyama uma suposta vitória do liberalismo como representante do espírito da modernidade.

Isso não se dá por acaso, é uma necessidade a ser afirmada por Dugin. Caso contrário seu argumento para converter socialistas e fascistas em defensores de sua “nova-teoria” não existiria, pois, se o liberalismo não venceu e não representa a “modernidade”, por que diabos alguém seria convertido a uma reação extremada que traia seus próprios princípios? O Trabalhismo Brasileiro desdenha da tese de “Fim da História” e rejeita com veemência qualquer adesão a essa estúpida premissa que consigo carrega um triplo cavalo de Troia:

1º. A adesão a unipolaridade dos Estados Unidos e aceitação acrítica do credo-neoliberal, em sua versão que prima pela comercialização de identidades e produtos relacionados a estas, (seja de esquerda ou de direita conservadora), que destrói o globo e as sociedades de forma assustadora e cada vez mais visível.

2º. A adesão à multipolaridade quando atrelada a um reacionarismo de identidade particularista, culturalista, esotérica e boçal.

3º. Adesão a uma síntese moderada entre os dois primeiros, ainda assim reconhecendo pressupostos fundantes da pós-modernidade e da tese de “fim da história”.

Não temos que escolher entre narcísicos (ou seja, irracionalistas afixados a própria consciência), dionisíacos (os que se guiam apenas na pulsão, paixão e emoção, para o bem ou para o mal), nem apolíneos (neoliberais e racionalistas assépticos que desconhecem a totalidade do que é ser humano), visto que nenhuma dessas alternativas serve ao projeto histórico da classe trabalhadora brasileira, que tem seu próprio tempo.

Por outro lado, o Trabalhismo Brasileiro entende sua responsabilidade histórica com nosso país e nosso povo por isso, age com paciência e escolhe Kairós, ou seja, o tempo correto para agir, o melhor instante possível, onde habita a possibilidade de se conseguir afastar o caos e até mesmo reverter processos em andamento, para trazer um tempo bem melhor para se viver. Se a era presente ruma para um caminho incorreto, temos fé inabalável de que existe possibilidade de reverter tal rumo e avançar a história de forma correta para o nosso povo. 


“Tese XVI: O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história.

O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.”  Walter Benjamin, Teses sobre a história. 


Por isso, o Trabalhismo Brasileiro se banha em sua própria memória e na história da América Latina e procura no ponto de vista da classe trabalhadora os fios de nossa própria história para, ciente da corrupção dos valores Iluministas do próprio liberalismo durante a pós-modernidade, se afirmar como radicalmente inclusivo, democrático, universalista, igualitarista, querendo construir através do passado pensado pelos nossos mortos (que a historiografia da classe dominante não conta) um futuro realmente redentor!


“Tese II: Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana”, diz Lotze, “está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro”. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído.

Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa.

Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.”  Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Além disso, se baseia na constatação de que em nosso continente o ideário socialista subsiste com mais força do que em qualquer outro lugar do mundo, como prova cabal de que o “fim da história” de Fukuyama sempre se tratou de uma bravata que não nos impediria de construir finalmente o programa radicalmente universalista da modernidade, de uma forma que o liberalismo nunca foi capaz! Avançando com a modernidade e seus valores para superá-la em suas deformações fulcrais, (o domínio econômico, político e social por parte do mercado, corporações e grandes potências) como demonstra a atual organização do sistema capitalista imperialista.


Particularmente em relação ao Brasil, estabelecer finalmente o início do fim da aliança espúria de nossa classe dominante submissa com a classe dominante relativa aos países centrais e emergentes em ascensão, que destrói nosso povo e nação na matéria e no espírito e retira dos trabalhadores qualquer poder político real, dando em troca um teatro de fantoches burlescos. Se essa era desmorona sobre si mesma e cai de podre, é porque já está morta e a verdadeira teoria política que reconstruirá a nova era, ao menos para o Brasil, já existe e seus pressupostos foram pensados pelos maiores gênios brasileiros do século XX. Não existe espaço para oportunistas (aqueles que não estão realmente conectados com tal espírito) pegarem carona na cauda deste cometa.

Reconhecer a necessidade de uma “Quarta Teoria Política” ou seus pressupostos sobre o “fim da história” e a pós-modernidade representa, instantaneamente, uma traição ao programa histórico do Trabalhismo Brasileiro pactuado com a classe trabalhadora e com os espíritos de nossos mortos, oprimidos e injustiçados do passado!

O Trabalhismo Brasileiro não responde a nenhuma dessas questões afirmando identidades vazias de revolta ou que são contra outras identidades, muito menos prega a criação de qualquer “nova teoria política”, pois já se considera a única teoria correta para o futuro brasileiro, que o conecta com nosso passado relacionado a outro futuro possível que nos foi negado. Ao contrário dos pensadores que baseiam e propagam a necessidade de uma suposta “Quarta Teoria Política”, somos radicais defensores da modernidade como ponto onde se tornou, por intermédio da tecnologia e da ciência, possível uma sociedade de abundância, realmente livre, justa, igualitária, radicalmente democrática e profundamente humanista.

Acreditamos e está no coração da ideologia trabalhista, que temos um povo criativo e valoroso. Já temos nossa terra prometida e só nos falta fazer, pela luta, cumprir a promessa de construir uma República, soberana, independente, e verdadeiramente democrática para nossa classe trabalhadora, feita por ela e para ela, para um futuro marcado por igualdade, justiça, democracia e respeito a todos e qualquer cidadão brasileiro, sem discriminações de qualquer tipo. O Trabalhismo Brasileiro é rebelde, esperançoso, tem orgulho de ser autônomo e tem as respostas para o dilema brasileiro em nosso presente momento histórico.

É verdade que o Trabalhismo Brasileiro, em sua visão de política externa independente construída desde o século XX, é latinista, terceiro-mundista, com aspectos pan-americanistas e está atrelado ao anti-colonialismo e ao anti-imperialismo na defesa da soberania nacional e autodeterminação dos povos. Portanto, francamente em oposição a um mundo unipolar, representado por uma adesão acrítica a globalização, a sociedade do espetáculo, ao aumento exponencial da centralidade (econômica, política e social) do setor financeiro, enquanto fruto de uma visão escatológica e determinista do fenômeno como sendo irreversível e inevitável. No entanto, este de forma alguma o faz pelos mesmos motivos dos que defendem uma reação a esse fenômeno, também identitária e tacanha baseada em escatologias religiosas de outro tipo, perversas no sentido de fragmentação com a realidade.

O Trabalhismo Brasileiro se baseia no melhor das ciências humanas produzidas em nosso país, discutindo de forma científica o fenômeno da globalização, suas assimetrias, desigualdades, tendências, a divisão internacional do trabalho, pois tem uma responsabilidade séria para com a nação e nosso povo, e não tem tempo a perder brincando com a “sociedade do espetáculo” na internet, como fazem os amantes de Narciso e Dionísio noite e dia. Existe uma intransponível diferença entre nós.

Nesse sentido, tais diferenças gritantes e não conciliáveis, não são apenas incompatíveis, mas aberrantemente incompatíveis. O Trabalhismo Brasileiro, se baseando na recusa a premissa de que identidade deva ser o nexo de práxis política, sobretudo na sociedade do espetáculo e dos espasmos midiáticos, prega o cidadão político como totalidade, sujeito complexo e humano, em constante relação com o meio e especialmente com a sociedade, portanto, em constante transformação de espírito e consciência.

Ao contrário do que fazem os ilusionistas da “Quarta Teoria Política”, identidade canibal de identidades, o Trabalhismo Brasileiro, enquanto negador da identidade no centro da política na sociedade do espetáculo, não nega, e nunca irá negar, identidades por si ou a necessidade histórica urgente de unir a luta de classes com o fim das opressões sofridas por todas as minorias. Esta é uma pauta histórica do PDT e do Trabalhismo Brasileiro a partir das lutas de minorias no Brasil ao longo da história. Diferente do que fazem os reacionários, o Trabalhismo Brasileiro não mobiliza preconceito de nossa população conservadora contra identidades relacionadas a defesa de minorias, pois entende que não nos interessa a divisão de nossa classe trabalhadora, nem a discriminação de irmãos e irmãs do povo.

Sobretudo de patrícios trabalhadores que expressem porventura as formas neoliberais e pró-mercado de “defesa” dos interesses das minorias, pois entendemos que o sistema capitalista, a partir de uma sólida infraestrutura burocrática e de um aparato superestrutural de difusão e reprodução, se apropria das lutas sociais para amenizar e modular como as pulsões sociais se dão e isto não é culpa de nossos irmãos e irmãs que sofrem e sempre sofreram. Sabemos que a causa última pelo que batalham não é apenas o correto, mas o justo.

Enquanto os farsantes misticistas oferecem ódio, segregação e manipulação de preconceito tolo, nós, os verdadeiros defensores do Trabalhismo Brasileiro e seu espírito, oferecemos amor e integração ativa para toda a classe trabalhadora, sem distinções. Somos todos irmãos, paz entre nós, guerra aos senhores!

O Trabalhismo Brasileiro nega as formas neoliberais de fazer política e democracia, justamente porque quer tirar nosso povo dos grilhões da democracia formal do dinheiro e da representatividade superficial apenas para os amigos do sistema e do mercado e trazer uma democracia radical e direta universalmente profunda, com gigantes reformas na distribuição do poder na sociedade.

No âmbito das minorias, dar poder político e econômico não apenas a alguns representantes atomizados, mas um extenso número de direitos sociais que concedam poder político e econômico para estes enquanto indivíduos que são parte de uma comunidade integrada a sociedade como um todo; enquanto membros da classe trabalhadora que comandará os destinos do país e parte de uma nação igualitária, justa, livre e próspera, na prática e não apenas na ideia formal; enquanto agentes criadores da própria identidade na cultura nacional e em relação a sua projeção internacional e por fim, como cidadãos completos, cidadãos políticos na totalidade e não como segmentos de uma identidade que é mercadoria.

Isso, como se pode verificar, não está em contradição alguma, nem tampouco colide frontalmente com os anseios de movimentos em defesa de diferentes minorias que temos no país. Pelo contrário, está adequado a uma agenda histórica relacionada a um vasto ciclo de lutas e que relaciona a luta de classes, pautas relativas a minorias e a luta anti-imperialista.

A recusa de se colocar a identidade no centro da luta política tem o intuito de auxiliar na mobilização popular contra as forças anti-populares, sem castrar a afirmação de diferenças, porém reduzindo a particularização da classe trabalhadora em nichos cada vez mais sectários e que não se comunicam, as “bolhas”, características da sociedade do espetáculo, onde um ser humano precisa expressar a complexidade do ser e sua relação com o meio e sociedade ao longo de sua vida, a saber, toda sua experiência em apenas alguns segundos, a partir de um catálogo de “identidades simbólicas, signos e palavras-chave”, muitas vezes originadas sob uma perspectiva até mesmo preconceituosa, vendidas e moduladas de cima para baixo, do centro para a periferia, pela própria lógica do sistema capitalista do século XXI. Em tal reino, impera a lógica de “reconhecimento” e “pertencimento”.

Exatamente por isso, defensores da necessidade de uma “Quarta Teoria Política”, que tentam sem sucesso revisar a história, visão de mundo e a teoria do Trabalhismo Brasileiro, se queixam do PDT por não abandonar, como nunca abandonará pois, é representante legítimo de uma tradição sinceramente humanista a justiça e a radicalidade universal de sua agenda democrática, política, social e economicamente integradora, com as minorias da classe trabalhadora.

Demonstram com esta postura, os pregadores da palavra vazia, justamente o caráter alienígena de sua presença na cultura política e tradição do Trabalhismo Brasileiro. Só quem não pertence e não carrega consigo o verdadeiro espírito do legado de Getúlio, Jango e Brizola e de toda cultura política no entorno destes poderia demonstrar desconhecimento, ou a ausência de uma prática inconsciente, relativa ao fato do humanismo enquanto ponto comum fundamental de todas as doutrinas que se acoplaram no que veio a ser o Trabalhismo Brasileiro. Cabe destacar que, se o Positivismo praticado no Rio Grande do Sul age como uma espécie de cola na teoria política trabalhista, isso ocorre por uma opção histórica distinta que este grupo tomou em relação a outros positivistas de nosso país.

O amor vem por princípio, a ordem por base

O progresso é que deve vir por fim

Desprezaste esta lei de Auguste Comte

E foste ser feliz longe de mim.”
         Positivismo – Orestes Barbosa / Noel Rosa

A música acima brinca de forma muito pedagógica com a ideologia positivista, elencando os princípios expressos em seu lema: Amor, Ordem e Progresso. O amor, nesse sentido talvez seja um dos pontos mais interessantes da crítica positivista ao liberalismo. Este não se trata do conceito de amor romântico como tratamos habitualmente, mas sim do amor irrestrito pela humanidade, em oposição ao princípio de fraternidade liberal, visto por Augusto Comte como fraternidade apenas entre os partícipes da classe dominante ou da oligarquia esclarecida de seu período histórico.


Por motivos diversos, após a Segunda Guerra Mundial, enquanto a vertente positivista ligada aos militares foi aderindo a uma concepção norte-americana, tendo na “ordem” como seu princípio guia, até se tornar liberal-positivista, o positivismo do Rio Grande do Sul, na figura de Getúlio Vargas e seu discípulo mais famoso, João Goulart, tendo no “amor” pela humanidade como seu princípio guia, se envolveu com os movimentos de trabalhadores até se tornar o Trabalhismo Brasileiro e aderir a uma posição socialista com orgulho.


É justamente esse amor irrestrito para com todos os nossos irmãos brasileiros e seres humanos que agiu como trava em nossos piores momento mais de uma vez, que nos fez ser muito melhores do que poderíamos ter sido, que nos fez, mesmo quando não estávamos totalmente corretos, rumar para o caminho correto e corrigir os nossos enganos lutando sempre por nosso povo no papel de vingador da classe.


Tal amor pela humanidade, universalizante, é central na ideologia trabalhista e é precisamente o ponto comum entre todos que já contribuíram de mente e corpo para o espírito dessa tradição se tornar o gigante que hoje é. Uma vez tendo a revelação, cientes desse fato, nenhum de nós irá abdicar disso nunca. Nesse sentido, pensemos num dos símbolos mais fundamentais de toda a mitologia trabalhista, parte presente também na própria história do Brasil e na identidade nacional, Getúlio Vargas.

“No caso da morte de figuras políticas, os funerais costumam se tornar um momento de consagração de suas vidas. Trata-se da ocasião em que, morto o corpo, a alma torna-se imortal, como imortais tornam-se alguns de seus “feitos”, selecionados e ressignificados pela memória, poderosa força que permite “que se saia da vida para entrar na história.” Ângela de Castro Gomes, Brizola e o Trabalhismo, p. 12-13.

Considerando os ensinamentos da gigantesca historiadora brasileira Ângela de Castro Gomes e conscientes que após seu supremo-sacrifício, a simbologia de Getúlio ,criada a partir de seus feitos e de sua relação com a classe trabalhadora, se sacramentou com a Carta Testamento e representam agora, partes que, em sua totalidade (descartados os  erros e as partes criticáveis por cada grupo ideológico a partir de seus princípios), formavam um legado para ser defendido e ressignificado. Nesse sentido, Vargas, enquanto marco central na história de nosso país, é o espelho de cada grupo que o reivindica:

Os defensores do Trabalhismo Brasileiro interpretam o símbolo de Vargas não apenas enquanto um signo de seu legado propriamente dito, mas sintetizado com a agenda da classe trabalhadora construída desde antes do século XX.  Pois, após o sumo-sacrifício de Getúlio em defesa de tal agenda acoplada a modernização do estado-nacional brasileiro, os trabalhadores passaram a ter força e fé na imagem do burguês mais esclarecido que já tivemos que, ao cometer suicídio traiu sua classe e entrou para a história de forma decisiva como herói dos trabalhadores brasileiros, representando para estes, um deles e, em simultâneo, eles próprios, e apenas por isso este se tornou eterno e sagrado a partir da redenção, pelo sacrifício em benefício dos vivos que sofrem e dos mortos que sofreram.  

Poderia ter feito um acordo, mas cometeu suicídio em nome dos pobres. Poderia ter se retirado em silêncio para São Borja, mas cometeu suicídio em nome dos humildes. Conseguiria ter escapado de seu destino, mas o seguiu em benefício dos espoliados, redimindo assim não apenas a si próprio, mas a história de nosso país e povo, que teve assim um pai fundador da nação e da própria nacionalidade, com sacramentada imagem heroica, generosa, altruísta. Não um tirano como seus inimigos tentavam representá-lo e forçá-lo a ser, mas um gigante em nossa memória, que nos inspira a fazer mais por nós e pela humanidade.


De contradições e eventos como este, inesperados à luz das teorias estrangeiras, é que floresce a delícia e a particularidade de ser brasileiro. Isso é algo que qualquer pessoa que defenda o espírito do Trabalhismo Brasileiro “de corpo e alma” sabe muito bem. Mesmo que não saibam expressar ou articular tais Logos, sua prática e sua interpretação evidente da identificação de Vargas com a esquerda reside especialmente neste fato.


Observemos o caso de Brizola, o homem que mais amou o Brasil e o povo brasileiro. O velho Leonel, que nesse ano muito especial completaria 100 anos, quando criança teve uma vida muito humilde e difícil. Por ser beneficiado com a Revolução de 30, conseguiu aprender a ler e a escrever, se tornou engenheiro, se envolveu com política de juventude e com o Trabalhismo Brasileiro, defendendo sempre os mais humildes e o interesse nacional.


Brizola foi profundamente influenciado não apenas pelas transformações materiais promovidas pela Revolução de 30, mas também por seu ideário e por sua mítica. Tendo a oportunidade de conviver de perto com Vargas, o velho Leonel sempre carregou o estandarte de Getúlio, para defender a agenda e as pautas da classe trabalhadora, necessárias ao desenvolvimento nacional perante o imperialismo e o subdesenvolvimento. Ninguém pode negar que Brizola tinha uma interpretação profundamente positiva de Getúlio Vargas e seu legado, nem negar que Brizola tenha conseguido a partir disto uma profunda conexão com a história de nosso povo e seja marcado como um dos maiores nomes da esquerda na história do Brasil, tendo sido, por exemplo, grande aliado de Luís Carlos Prestes no fim da vida deste.


Nesse sentido, é importante reforçar a noção que a historiadora Ângela de Castro Gomes traz em sua obra de nome “A invenção do Trabalhismo”, de que a classe trabalhadora não é estática ou estúpida, ela participou da criação do Trabalhismo Brasileiro, se beneficiou dele na medida de seus interesses, e “subverteu” a ideologia em seu benefício como instrumento de luta, cobrando o cumprimento do que lhes era prometido por tal doutrina e seus representantes, muitas vezes colocando estes últimos em posições mais radicais do que as que ostentavam pessoalmente. O mito sociológico da classe trabalhadora tola e espectadora, é, pois, um mito da classe dominante que cumpre um propósito específico.


Já os defensores da necessidade de uma “Quarta Teoria Política”, quando no teste do espelho de Getúlio, projetam seu próprio anticomunismo, reacionarismo e tendências autoritárias contra o que consideram diferente ou “degenerado”, características que são fruto não do legado de Getúlio, mas das mesmas pessoas que o traíram em 45 e o levaram ao suicídio em 54.


Se arvorando em mitos da historiografia da classe dominante, especificamente relacionada às forças anti-Vargas, representantes dessa visão de mundo da “Quarta Teoria Política” reforçam uma interpretação idealista da história, centrando imagens e pessoas ao invés de classes sociais, na relação entre infraestrutura e superestrutura ao longo de determinado tempo em um determinado espaço geográfico, como faz, em resumo, a interpretação materialista da história.


Daí que, numa traição a autonomia do próprio espírito do Trabalhismo Brasileiro ao longo de sua trajetória em conjunto das lutas de nossa classe trabalhadora, estes defendem a tese da existência de um “Vargas fascista”, fazendo peso, num verdadeiro espírito de porco indesculpável, contra todo o esforço movido pelos representantes históricos da tradição trabalhista, que evidentemente por motivos anteriormente explicitados buscam compreender a totalidade de seu desenvolvimento (o seu movimento teórico em direção ao socialismo), não apenas a interpretação de fragmentos cristalizados e descolados do seu contexto histórico, compreendendo-o, como ele próprio se entendeu, evidente em sua atuação política após 1945, nacionalista e socialista, um digno represensentante da esquerda de seu tempo.


Os defensores da “Quarta Teoria Política” não o fazem porque isso seja verdade, mas, porque lhes convém fazer crer na falácia. Utilizando a ideologia e historiografia da reação ao fenômeno nacional-popular do século XX quando lhes é útil, tentam sustentar a tese de que se todo o extenso legado Varguista e da Revolução de 30 é fruto de um “Vargas Fascista”, isso não seria nada demais,  seria algo até “positivo”. Surfando na pós-modernidade e na pós-verdade, tentam cumprir sua missão de fazer  “o que fora banido pela modernidade transitar livremente”, como pregou Dugin no livro que baseia a prática dos seguidores da proposição de uma “Quarta Teoria Política” por aqui.


Para tal, “pegam carona” no símbolo mais sagrado para a ideologia, cultura política e tradição do Trabalhismo Brasileiro e um dos mais importantes símbolos da história nacional, enquanto tentam sujá-lo na mesma lama a qual chafurdam. Tratando-se de prática política, é uma desonestidade com a autonomia do espírito da cultura política e tradição do Trabalhismo Brasileiro, cujo representante é o PDT, e mais do que isso, trata-se de uma tentativa, infrutífera diga-se, de corrupção de um símbolo central para a história brasileira.


A direção que o Trabalhismo tomou em sua história foi uma decisão coletiva de todos que compuseram o movimento e da própria classe trabalhadora em luta, não de revisionistas. Trair essas pessoas e seus ideais é a maior corrupção que pode existir. Além disso, ela demonstra perfeitamente as diferenças entre os Trabalhistas e aqueles que tentam revisar sua história, sua ideologia, e parte de seu legado, da mesma forma que o fazem em outros nichos da esquerda nacionalista e da direita.


Nesse sentido, a partir das teses de Walter Benjamin sobre a história, particularmente quanto a sua sexta tese, podemos tecer uma das comprovações de como a teoria em potência “Quarta Teoria Política” não apenas é incompatível, mas como também é arqui-inimiga do Trabalhismo Brasileiro no presente momento histórico:

Tese VI: Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem.

Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer“. Walter Benjamin, Teses sobre a história.

Considerando que o reconhecimento de Getúlio enquanto simbologia para ambos os grupos (trabalhistas e postulantes da necessidade de uma “Quarta Teoria Política”) representa perfeitamente bem a situação descrita acima. Pensemos que ambos os grupos escolhem Vargas e Brizola enquanto símbolos, mesmo que lhe imputem valores opostos, não porque compartilham de valores ou princípios, mas, porque exatamente na simbologia de Vargas reside a chave para a compreensão mitológica e simbólica da possibilidade de uma reforma radical ou processo revolucionário contra a atual ordem de coisas em nosso país, a partir da memória que é operada com diferentes focos, estes relativos às diferentes origens de classe e concepções ideológicas de quem as opera. 

Ocorre que, existem dentro desta mesma linha jogada divergentes futuros possíveis, respectivos a qual grupo conseguir tomar a hegemonia cultural, simbólica, referencial e, mais importante, hegemonia real sobre o espírito da velha esquerda brasileira do século XX e, principalmente, seu legado. Seja como verdade ou como farsa, como redenção ou tortura e corrupção da memória bela em algo vil, por que isso ocorre?

“Tese IV: Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário, e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo”. Hegel, 1807

A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais.
Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos.

Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história. O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas”  Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Nos anos 90, como já debatemos aqui anteriormente, o sistema internacional e o sistema capitalista passam por uma reforma, que marca seu movimento após o fim da Guerra Fria, para tomar de assalto todos os sistemas políticos do globo em duas frentes:

  • uma com retórica e estética conservadora e neo-liberal na economia.
  • outra com retórica e estética “progressista”, mas, também neo-liberal na economia.

Ambas as opções são lastimáveis no caso brasileiro. Com isso, o neoliberalismo foi se tornando o “normal” no período que contempla o fim da Guerra Fria até o presente momento, e todas as disputas se deram sob seu domínio, em seu território conceitual e econômico, existindo certa alternância apenas em termos estéticos e de discurso.

Tal período centrou o nexo das disputas políticas sobre critérios de aparência, identidade, pertencimento e retórica nas disputas e debates políticos formais ou parlamentares. Já que ambos os lados quase sempre defenderam variações do neoliberalismo econômico alterando-se apenas o enfoque, sobra para o embate político meras aparências do discurso, não propostas de reformas políticas, econômicas e reformas estruturais concretas para mudar nossa sorte em benefício da classe trabalhadora, das minorias e da nação, mas apenas algumas vitórias simbólicas, que devemos admitir a importância no caso particular do Brasil.


Contudo, em um contexto de pós-crise econômica mundial de 2008, isso gerou uma evidente frustração na classe trabalhadora contra a esquerda partidária que aderiu a tal pensamento e prática. Resumidamente, e com diferenças e particularidades locais, tal fenômeno vem ocorrendo em todo o ocidente geográfico sendo representado pelo descrédito histórico dos trabalhadores para com a esquerda partidária de seus respectivos países.


Após a Guerra Fria, a esquerda socialista organizada de tais países e, no caso do Brasil, o processo de ditadura-militar e redemocratização, não está em condições de conseguir canalizar as pulsões da classe trabalhadora e frações da pequeno-burguesia, que começaram a se avolumar cada vez mais de forma desorganizada e imatura enquanto movimento político, em contestação romântica contra a hegemonia e o “establishment”. Sem uma explicação, isto é, uma teoria própria, ou um projeto, mas uma verdadeira pulsão sem rumo por transformação social.


Na verdade, tanto a “velha esquerda” quanto a esquerda partidária atrelada ao neoliberalismo econômico erraram muito em suas análises e em sua prática. Precisamente tal processo foi uma necessidade para o renascimento da extrema-direita na Europa e nos EUA e acabou por ocorrer de forma similar no Brasil, com o fenômeno do Olavismo e do Bolsonarismo, tendo em conta que a “velha esquerda” se desorganizou neste período e a nova-direita se aproveitou da não existência de movimentos socialistas de grande porte organizados contestando a atual ordem social, para capitalizar o discurso anti-hegemônico e ascender ao governo com apoio das mesmas massas que iria prejudicar profundamente.

Nesse sentido, o Trabalhismo Brasileiro não estava morto, mas, tirando um cochilo, sem nunca parar de tecer suas análises e cálculos para disputar um projeto rebelde quando a janela de tempo das transformações fosse aberta. Acordou de 2016 em diante, se propõe a traçar soluções para todos os problemas da vida nacional e, de um ponto de vista estratégico de longo prazo, se encontra acumulando forças, formando ideologicamente militantes em massa, organizando suas bases, em uma ferrenha disputa ideológica não pela hegemonia eleitoral, mas por uma hegemonia intelectual (como visão de mundo ideológica e programática) contra a fração liberal da esquerda-brasileira, e despende parte importante de seus esforços nisso.  Os outros grupos políticos da esquerda partidária organizada estão com o mercado, com a classe dominante e com o sistema, em grande medida.


O Trabalhismo Brasileiro, com respeito a todos os movimentos, é o único movimento político com partido grande organizado e viés anti-sistema, base militante, proposta econômica radical e tem a obrigação de estrategicamente fechar alianças orgânicas com as forças de esquerda independentes que contestam o neoliberalismo. Este tem como trunfo, sua memória, tradição e história que se mescla com a própria história da classe trabalhadora brasileira e nossa identidade nacional, para participar como um dos atores principais em uma reforma profunda e radical contra o atual estado de coisas.


Por isso, alertamos que, para nós trabalhistas, o embate ideológico com aqueles que seguem a proposição de “Quarta Teoria Política” é de natureza muito mais profunda e inevitável. Considerando o que nos diz Walter Benjamin e deslocando seus conhecimentos para nosso contexto:

“Apêndice 1: O historicismo se contenta em estabelecer um nexo causal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem estar dele separados por milênios. O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração, em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada. Com isso, ele funda um conceito do presente como um “agora” no qual se infiltraram estilhaços do messiânico.

Apêndice 2: Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo passado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Se nenhum dos grupos organizados, potencialmente catalisadores de tal evento, inimigos ou potenciais aliados históricos, reivindicam o mesmo legado, isso não ocorre em relação a “Quarta Teoria Política”, que entendeu que a chave simbólica para imprimir uma mudança profunda contra o neoliberalismo no Brasil está atrelada especificamente ao mito de Getúlio Vargas e da própria Revolução Brasileira, e também compreendeu que quem conseguir executar a reforma infraestrutural correta na economia, pode imprimir os rumos ideológicos em costumes e valores.


Uma coisa há de se dizer, foram mais espertos do que boa parte de nossa esquerda atual que, embora tenha sincero ódio do neoliberalismo até certo ponto, também têm sincero desconhecimento quanto a história nacional, em particular, do ponto de vista da “velha esquerda” que formou nossos mitos e influenciou em boa parte na consciência de nosso povo.


Nesse sentido, por ambos os grupos pretenderem imprimir mudanças radicais na vida nacional baseando-se no mesmo mito (mas partindo de perspectivas distintas), podemos observar um fenômeno de espelhamento muito particular e raro, que relembra a imagem do deus romano Jano, com uma face voltada para o passado e a outra para o futuro, que representa a transformação. Tal imagem representa o olhar para um passado, tendo no foco que se olha seu maior segredo, refletindo de forma decisiva na construção do futuro. Ambos os grupos aqui descritos podem olhar o mesmo passado, encontrar coisas absolutamente distintas e, a partir disso, projetar um futuro mutuamente exclusivo a partir do mesmo símbolo ou mito fundante do ideário nacional.


Nesse caso em particular, poderíamos também observar que, enquanto uma das faces faz força para “avançar os anos”, mas retornar a um passado mitológico milenar, fazendo com isso apenas “peso na história”, a outra faz força para avançar de forma consequente e finalmente decretar o fim desta era morta, levando desta o que de melhor teve, seguindo de forma natural com o fluxo das eras, dando pouco trabalho para Chronos. Sobre isso, pensemos:

Tese XVII: O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista se distancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio.

Ao contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada.

Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.” Walter Benjamin, Teses sobre a história.


Retornando ao argumento, os ideólogos realmente vinculados com o trabalhismo sabem que tem consigo um tesouro histórico e um momento histórico propício para a transformação social. Eles encontram e se apropriam de uma reminiscência tal como ela relampeja no momento de perigo, fixando uma imagem do passado como ela se apresenta no momento do perigo ao sujeito histórico, alertando a classe trabalhadora da existência de uma “imobilização messiânica” dos acontecimentos, que pode se desenrolar tanto na redenção, caso seja salva a tradição, seus mitos e seu espírito, quanto na corrupção e trevas, caso a tradição, nesse caso tanto a história do trabalhismo quanto a história do Brasil, seja tomada pela conformidade e pelo interesse espúrio da classe dominante e projetos nefastos de poder e retrocesso material e espiritual.


Nesse caso em especial, tendo a própria história (também estória, fábula, mitologia, simbologia e teologia) como locus de disputa, o trabalhismo busca construir a possibilidade de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido, a redenção enquanto revolução social profunda. Mas o messias não vem apenas como libertador e redentor, vem também como vencedor do anticristo, pois o perigo deste ameaça tanto a existência da tradição libertadora como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento.

Nesse caso a redenção não mais seria revolução, seria corrompida em contra-revolução, escravizando nosso povo e esquecendo a alma de nossos mortos. Essa é a real natureza da batalha ideológica entre o Trabalhismo Brasileiro, que busca a revolução redentora por intermédio de nosso espírito histórico coletivo e símbolos, e da “Quarta Teoria Política” que busca a contra-revolução aprisionante, por intermédio da corrupção de nossos maiores símbolos. É a natureza de uma verdadeira Guerra Sagrada pela memória e pela possibilidade de redenção e revolução, mas mais do que isso, para não ser corrompida nossa tradição e para não ser concebível aventar a possibilidade desta ser utilizada por pessoas que não as merecem articular, não por ignorância ou desconhecimento, e sim por má-fé.


Exatamente por isso, conclamamos a todos os Trabalhistas que leram este presente texto até aqui para lutar uma batalha ideológica necessária, pois é relativa ao destino de nossa tradição e até mesmo, da própria possibilidade de futuro para esta. Uma vez corrompida a tradição, usada de forma equivocada, manipulada por farsantes, esta passará de um símbolo sagrado, de um instrumento de libertação, para símbolo de ódio, de desprezo do povo, pois terá sido utilizado como um instrumento de tirania. Quando isso ocorre, na maior parte das vezes, não existe retorno. Sem a sua tradição, memória, história, legado, o Trabalhismo perde sua razão de ser, e até mesmo pode deixar de existir.

Perspectivas para o futuro: O movimento trabalhista brasileiro e a disputa pela memória no centenário da Revolução de 30.

“O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. ” Walter Benjamin, Teses sobre a história. 


O filósofo russo, muitas vezes considerado o fundador do marxismo na Rússia, Plekhanov, tem como um dos pontos mais importante em sua obra o debate que contrapõe dialética e a metafísica, analisando respectivamente a primeira como lógica da transição e a segunda como lógica do que é estático. Como se, de forma mais simplificada ainda, a dialética fosse um filme, e a metafísica uma foto.

Para além de que evidentemente existe uma simplificação “pedagógica” desses conceitos, visto que filosoficamente é aceitável ponderar que Plekhanov escolheu um prisma bastante específico para analisar tais métodos de estruturação lógica do pensamento, também existe uma finalidade política. Isso se mostrar especialmente relevante para a esquerda brasileira entender nesse momento.


Pensamentos que primam pela lógica do que é estático, ou seja, a lógica da continuidade, quando aplicados à política, sempre são benéficos à classe dominante, pois em seu falso racionalismo, escondem justamente a capacidade de ação dos trabalhadores enquanto classe de se organizarem e mudarem as coisas. Seguindo essa mesma linha de raciocínio, não teríamos Petrobras, Eletrobras nem nenhum direito trabalhista no Brasil, pois todas essas “conquistas” foram fruto da atuação ativa da classe trabalhadora.  Vânia Bambirra, em sua análise do pensamento de Mao Zedong, resume perfeitamente tal raciocínio, e comentou sobre a lógica e visão de mundo metafísica:

“A concepção metafísica abrange um longo período histórico quer no ocidente como no oriente. É adotada e defendida de um modo geral pelas forças reacionárias que desejam se manter no mundo.”  Conceito marxista de mudança social em Mao Tsé-tung, escrito por Vania Bambirra.


O que nos responde a lógica da transformação, a dialética, quanto a isso? Nos responde que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Ou seja, a força popular e a transformação social devem ser construídas material e teoricamente, e isso só pode ser feito a partir de mobilização e organização da classe trabalhadora  e de uma crítica radical do que temos no presente momento, bem como finalmente uma teoria revolucionária para transitar de um presente inglório rumo a um futuro redentor. A lógica da transformação nos ensina que dos escombros do velho, nasce o novo, enquanto o velho ainda não morreu. 

Nesse sentido, tal debate sobre a lógica da transformação e a lógica do que é estático, dentre muitas questões, também abrange centralmente o próprio debate sobre filosofia da história. Especialmente na reflexão sobre uma filosofia da história para transformar a realidade social e a própria história. Um grande mestre da Filosofia, na Universidade Federal Fluminense, um dia, disse algo que nunca podemos nos esquecer:

“Ninguém lembra de uma revolução, se ela não encontra lastro na memória popular, se ninguém se lembra, então essa revolução morreu.”

Pensemos nisso, também, sob os ensinamentos da filosofia da história de Walter Benjamin e sua descrição de como opera a dialética da lembrança e do esquecimento operada pela classe dominante. Não devemos morrer de pavor ao pensar no que nosso povo fará em 2030.  Devemos trabalhar para contrapor a ideologia paulista, que aspira levar o Brasil de volta para a República Oligárquica, e sermos hegemônicos em interpretar a importância de 1930 em seu centenário. Isso não é trivial, e nem tampouco, deveria ser importante apenas para os Trabalhistas. Sobre isso, nos alertava Walter Benjamin:

“Tese XVI: O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas para no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única.”  Walter Benjamin, Teses sobre a história. 


Numa era em que Apolíneos, racionalistas que temem a paixão, em que Narcísicos, liberais de esquerda que só se apaixonam por sua própria imagem, e que Dionisíacos, que são a pura paixão reacionária e caótica do “ser” querendo organicidade, disputam a hegemonia do caos político no globo, demos escolher Kairós, o momento perfeito para se reverter um processo inglório e alcançar a eternidade construindo um novo futuro a partir de um passado que também é presente.

A análise de nossa situação nos leva direto ao problema. A questão de nosso tempo não é que nossa esquerda é “reformista”, mas sim que ela está aquém disso, e não tem capacidade de propor ou sequer vislumbrar um mundo novo, enquanto parece estar presa na fábula de “Fim da história de Fukuyama”. Embora existam críticas e propostas para tal no imaginário da esquerda, institucionalmente ela segue esse dogma a ferro e fogo. Mas e o modelo socialista para o Brasil do século XXI, e o socialismo com características brasileiras?

Como será possível chegar nisso, se a formulação institucional da esquerda brasileira quando chega ao poder na Nova República é obviamente neoliberal e implicitamente reconhece uma vitória do Ocidente e com isso um suposto direito dos países centrais em governar o globo? A esquerda brasileira precisa antes de tudo reencontrar sua essência em uma práxis que é ambígua entre reforma e revolução, a síntese de ambos. Encontramos na história política brasileira isso no brilhante exemplo de Leonel de Moura Brizola, Roberto Silveira, Darcy Ribeiro, Vânia Bambirra, Guerreiro Ramos e tantos outros da história de nossa cultura política.

Devemos assumir publicamente o compromisso de fortalecer e dar base teórica e prática para um movimento Socialista brasileiro que realmente compreenda a importância do centenário, que merece ser comemorado em 2030, com criticidade, e aprendendo também com os equívocos do processo que fundou o Brasil moderno e escancarou uma janela de oportunidade para a construção da Revolução Brasileira, processo este em disputa há mais de 90 anos contra a “contra-revolução preventiva”. 

O que nosso povo morreu, sangrou, para construir no século XX não pode ser esquecido. Como Darcy Ribeiro dizia, o Brasil tem um sentido, mas quando não conhecemos nossa história, não é possível compreender tal sentido. Manter o fio da história, é revelar o sentido implícito do Brasil e do povo brasileiro, seu lugar de ser no mundo e na história do desenvolvimento da civilização humana.

[ARTIGO] TARCÍSIO DE FREITAS E A PRIVATIZAÇÃO DO TRANSPORTE PÚBLICO: Resistir ao Entreguismo Neoliberal

Pedro Henrique Biedermann Gonçalves,
Subsecretário de Comunicações da APR-SP
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Nesta semana, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tomou uma medida significativa ao privatizar a construção do Trem Intercidades Eixo Norte (TIC), conectando São Paulo a Campinas, e a Linha 7-Rubi da CPTM. A concessão foi concedida à Via Mobilidade, já conhecida por suas operações na região. Surpreendentemente, o grupo vencedor ofereceu um desconto ínfimo de apenas 0,01% sobre o valor máximo estabelecido no edital, aproximadamente R$ 8 bilhões.

O Estado de São Paulo planeja investir cerca de R$ 9 bilhões no projeto, com uma parte desse montante sendo financiada pelo BNDES, através do programa Novo PAC. Essa decisão implica que o setor privado desembolsará menos recursos do que o governo estadual para operar o novo Trem Intercidades pelos próximos 30 anos.

Além disso, o Consórcio da Via Mobilidade assegurou a concessão da operação da Linha 7 por três décadas. Adicionalmente, a interrupção do serviço 710, que conecta as linhas 7 e 10, acarretará em sérios problemas logísticos para os usuários. A atual privatização da linha 7 e as privatizações das linhas 8 e 9 da CPTM, bem como as propostas de entrega de linhas de metrô pelo governo de Tarcísio de Freitas, representam um insulto não apenas ao trabalhador paulista, mas a toda a população que depende do transporte público.

Este desmonte do nosso patrimônio público em prol dos interesses gananciosos do setor privado é não apenas inaceitável, mas também profundamente prejudicial ao desenvolvimento equilibrado e justo de nossa sociedade. Tarcísio de Freitas trai não somente o povo paulista, mas todo o compromisso com o bem-estar coletivo, ao renunciar ao controle estatal sobre o transporte público, deixando-o à mercê da voracidade do setor privado.

Em vez de defender os interesses da população, ele prefere ceder aos caprichos dos grandes conglomerados, ignorando completamente as necessidades e dificuldades enfrentadas diariamente pelos cidadãos. Trens lotados, tarifas exorbitantes, a falta de manutenção adequada e um serviço de qualidade questionável são apenas algumas das consequências desse abandono do interesse público em prol do lucro privado.

Não podemos permitir que esse entreguismo desenfreado prossiga! Devemos unir nossas vozes e nossas forças para combater incansavelmente pela Soberania Nacional e pela preservação do patrimônio público. As linhas de transporte não podem ser entregues de bandeja para os parasitas que espoliam nossa nação e nossa população.

Este governador, alinhado a um projeto de destruição nacional, não pode ser tolerado, e nós, como Trabalhistas e Socialistas engajados, devemos resistir com todas as nossas forças contra essa pilhagem! É hora de nos erguermos em defesa do que é nosso por direito! Não podemos permitir que Tarcísio de Freitas, Bolsonaro e seus comparsas continuem dilapidando nosso patrimônio em favor de uma classe dominante que demonstra aversão pelo Brasil e pelo povo!

Inspiramo-nos na coragem e na determinação de Brizola e lutaremos incansavelmente pela manutenção do transporte público sob controle estatal! Basta de entreguismo! Basta de lesa-pátria! O povo paulista e todos os brasileiros merecem muito mais! Devemos nos unir em uma luta constante para combater o entreguismo e o governo neoliberal de Tarcísio!