Primeira parte extraída da obra “O governo militar secreto” (1987) de Nelson Werneck Sodré. A política imperialista dos Estados Unidos para a América Latina evidencia sua visão para o continente americano e seu papel como monopolizador militar, político e econômico, subordinando os demais países a seguirem sua agenda. Para essa subordinação, além dos artifícios militares, é importante a articulação institucional para manter as aparências de “legalidade” e consolidar a forçada adesão dos demais países da região, constrangendo-os, inclusive, a cortar relações com aqueles que os Estados Unidos julgarem incompatíveis com seus objetivos de controle econômico e político mundial. O Brasil, maior país da América do Sul, teve — e ainda possui — um espaço de importância para o “tabuleiro” americano, na qual nossa submissão aos Estados Unidos representou um maior domínio estado-unidense na parte sul do continente, ao possibilitar a estes a utilização de nosso país como auxílio as intervenções políticas e militares na América do Sul. Para isso, é claro, o golpe de 1964 receberia suporte como um assentador dos interesses da geopolítica americana.
Em 2 de dezembro de 1823, o presidente James Monroe fez saber às potências europeias que os Estados Unidos não admitiriam mais interferências nos assuntos latino-americanos. Como se sabe, tais interferências não cessaram por isso, e mesmo nas vizinhanças dos Estados Unidos, a França operaria uma intervenção militar, a aventura mexicana, cedo malograda.
O fato é que a declaração do presidente Monroe ficou estabelecida como doutrina, invocada sempre que os Estados Unidos tiveram necessidade de agir para reservar-se o direito à exploração do continente, excluindo dessa exploração os concorrentes de além-mar.
A Doutrina de Monroe, no fim de contas, significava apenas que os Estados Unidos se arvoravam em monopolizadores dos mercados latino-americanos e das riquezas dos países desta parte do mundo.
Durante longo tempo, foi apenas doutrina; enquanto se desenvolvia o capitalismo norte-americano, passou a tornar-se fato, de vigência efetiva; a partir da etapa imperialista, constituiu teoria e prática incontestadas.
Como os norte-americanos conceberam a Doutrina de Monroe pode ser avaliado por algumas das operações realizadas sob a invocação da declaração de 1823, entre as quais merecem destaque especial aquela de que foi vítima o México, que perdeu mais da metade de seu território, em benefício de seu bom vizinho, território que constituiria os Estados do Texas, Califórnia, Arizona e Novo México, com mais de um milhão de quilômetros quadrados de superfície; aquela de que foi vítima a Colômbia, amputada de parcela importante de seu território, que constituiria o Panamá, nação gerada da necessidade norte-americana de construir e explorar o canal que ligaria os oceanos Atlântico e Pacifico; sem falar nas várias invasões e ocupação de Cuba, do Haiti, de São Domingos, da Nicarágua, da Guatemala (1).
Seria longo lembrar os detalhes de cada uma das façanhas norte-americanas da fase pré-imperialista, de que a mais destacada seria a amputação brutal do território mexicano, tão celebrada, aliás, em vários filmes de Hollywood, desde a etapa cinematográfica no qual o tipo do vilão era sempre figurado por um mexicano.
A “operação” típica da fase imperialista, praticamente iniciada com a intervenção em Cuba, de que resultou apropriação de Porto Rico, Guam e Filipinas, em 1898, foi aquela realizada na Colômbia, com a amputação da zona do istmo, destinada à construção do canal do Panamá.
Como se sabe, a República do Panamá era, no século XIX, um departamento da Colômbia. Para concretizar os planos de ali construir um canal ligando o Atlântico ao Pacífico, os Estados Unidos dirigiram-se à Colômbia e, após laboriosas negociações, concluíram o tratado de 22 de janeiro de 1903, firmado por Tomás Herran, pela Colômbia, e o secretário de Estado John Hay.
Esse tratado é repelido pela opinião pública colombiana; o Senado, por unanimidade, declara-o nulo. Os Estados Unidos decidem, então, desmembrar a área do istmo, retirando-a à soberania colombiana: aproveitando alguns mercenários e grupos dispostos a lucrar com a construção do canal, fomentam a rebelião do general Huertas.
O couraçado norte-americano Nashville impede que as tropas colombianas ataquem as de Huertas: a 3 de novembro, a rebelião está vitoriosa; a 6, o governo panamenho é reconhecido pelos Estados Unidos como soberano; a 18, é assinado com esse “governo” o Tratado do Canal, firmado, “em nome dos panamenhos”, pelo francês Philipe Bunau- Varilla, principal acionista da companhla concessionária da construção, e pelo secretário de Estado John Hay; por esse tratado, o Panamá concedeu “a título perpétuo”, segundo o artigo inicial, o “uso, ocupação e controle” de uma faixa de dez milhas de largura. O tratado é um insuperado modelo de colonialismo brutal (2).
Em 1936, quando Roosevelt governava os Estados Unidos, este país fez algumas concessões ao Panamá, em detalhes: elevou para 430.000 dólares a anuidade paga pelo governo americano, cancelou compromisso de entrega de mais terras adjacentes, limitou o direito de intervenção das tropas norte-americanas no Panamá.
Com a morte de Roosevelt, voltaram os processos antigos: em 1954 (ano em que Vargas foi assassinado e ocorreu o golpe de Estado que motivou a denúncia da sua carta-testamento, terrível documento antiimperialista), a campanha de sucessão presidencial foi acirrada, surgindo como candidato Ramón Cantera que, em sua pregação, levantou a ideia de revisão do Tratado do Canal. Foi assassinado a 2 de janeiro de 1955.
Em 1962, os Estados Unidos, governados por Kennedy, fizeram nova concessão ao Panamá: a bandeira deste país poderia ser hasteada ao lado da bandeira norte-americana, na Zona do Canal. O governador desta, porém, mandou, convenientemente, retirar todos os mastros dos edifícios, para que isso não se consumasse.
Estudantes panamenhos invadiram, certo dia, aquela Zona, dirigindo-se ao Colégio Balboa, destinado aos filhos de norte-americanos, para hastear ali a bandeira panamenha; a polícia norte-americana atacou-os; retraindo, destruíram tudo quanto era americano que encontravam em seu caminho.
O general O’Meara — guardem este nome, pois conhecê-lo-lo prestando curioso e edificante depoimento a respeito do Brasil — assumiu o comando das forças norte-americanas e decretou a lei marcial na Zona do Canal.
Na manhã seguinte, cerca de 40.000 panamenhos estavam reunidos, em frente à Assembleia Nacional, em protesto contra os americanos: os soldados de O’ Meara lançaram-se contra a massa, causando dezessete mortos e mais de duzentos feridos.
O governo panamenho protestou e rompeu relações com os Estados Unidos, ao mesmo tempo, em que apresentava queixa ao Conselho de Segurança da ONU e pedia a convocação da OEA.
Pelo Tratado Interamericano de Assistência Mútua, qualquer ataque armado contra um dos países americanos, levado a efeito por outro, é considerado ataque armado a todos; todos, em consequência, são obrigados a cortar relações com o agressor e a auxiliar o agredido.
Tal disposição fora introduzida para que a OEA funcionasse a serviço dos Estados Unidos e contra Cuba. Claro que não funcionou contra os Estados Unidos. Inaugurado em 1914, o canal constituiu, além de instrumento estratégico importante, para os Estados Unidos, fonte extraordinária de lucros (3). Para o Panamá, constituiu fonte de humilhações.
De qualquer forma, o essencial, no caso, está em que o Panamá não tem condições para exercer a soberania da faixa de seu território em que foi construído o canal; está em que qualquer movimento no sentido de conseguir essa soberania é apontado como atentatório à segurança do hemisfério e motiva não apenas represálias imediatas, mas a ocupação os tensiva e militar.
A insegurança, para os países latino-americanos, começa, entretanto, quando recebem investimentos norte-americanos, particularmente do tipo do canal: ou quando recebem instalações militares, como aconteceu com a base de Guantanamo, em Cuba, e as próprias instalações militares da Zona do Canal, no Panamá.
Os Estados Unidos não apenas exploram economicamente tais países; tornam tais países, dependências coloniais suas, para fins militares inclusive. No caso do Panamá, o quadro foi assim descrito por jornalista brasileiro, recentemente:
“A Zona do Canal é uma faixa de 82 quilômetros de extensão por 16 quilômetros de largura (oito quilômetros de cada lado do canal), com uma superfície total de 1.432 quilômetros quadrados. Além dos funcionários civis, os norte-americanos mantêm ali bases militares das três armas, com um total de aproximadamente 40.000 homens. Dos quartéis da Zona do Canal já saíram cerca de dez mil soldados para o Vietnã. Além disso, existe ali a Escola das Américas, que treina militares latino-americanos na tática da luta anti guerrilhas. Os oficiais brasileiros, que há alguns anos eram alunos, agora são enviados ao Panamá como instrutores. De todos os países centro-americanos e do Caribe, o Panamá é o único onde o Brasil mantém adidos militares em sua Embaixada, havendo atualmente um adido naval e um de aeronáutica. Na Zona do Canal têm sua vida social os diplomatas estrangeiros de serviço no Panamá e é lá também que estudam seus filhos”. (4)
A dominação exercida sobre o Panamá não repousa apenas no que diz respeito ao Canal, entretanto; o economista norte-americano Victor Perlo assinala muito bem isso ao pôr o dedo em outra ferida:
“Ora, os lucros do canal não se podem comparar com os que obtêm as corporações norte-americanas, graças à situação colonial do Panamá e da Zona. As inversões das corporações norte-americanas no Panamá ultrapassaram os 58.000.000 de dólares, em 1950, chegando a 556.000.000, em 1962, e os lucros declarados subiram a 114.000.000, em 1962, equivalendo a mais de cem dólares por cada habitante do Panamá. O lider das inversões norte-americanas é a United Fruit. Esta companhia extraiu do Panamá 600 milhões de libras de bananas, em 1961, com um valor de exportação de 20.400.000 de dólares, ou seja, 3 a 4 centavos por libra. Isto representa todos os gastos da United Fruit do Panamá, inclusive salários, impostos e outras coisas. A arrecadação da venda a retalho das bananas somou cerca de 90 milhões de dólares. A zona de livre comércio de Colón, desligada do território panamenho, está segregada economicamente e sob o domínio prático das companhias norte-americanas, cujos depósitos cobrem a zona. Aproveitando esta área franca, podem dominar, com maior eficácia, o comércio do Panamá e de outros países da América Central. Em 1961, aos Estados Unidos pertenceram cerca de duas terças partes das importações panamenhas e 98 por cento das exportações do Panamá. As leis panamenhas permitem aos capitalistas norte-americanos constituirem companhias ficticias e usarem as contas correntes numerativas para lludir o fisco. A matricula panamenha é utilizada pelas grandes companhias petrolíferas e de navegação, para burlar as tarifas de salários, os direitos sindicais e os impostos vigentes nos Estados Unidos, e contratar marinheiros panamenhos por remuneração colonial.”
Ora, assim sendo, não espanta de modo algum, que um jornal brasileiro tenha estampado, certo dia, a manchete: “Chefe militar dos EUA diz que defesa está nas Caraíbas“, informando a seguir:
“O major-brigadeiro Jack N. Donohew, chefe do Estado Maior do Comando Sul dos Estados Unidos, pronunciou, ontem, na Escola de Comando e Estado Maior de Aeronáutica (ECEMAR), conferência sobre A importância estratégica do setor das Caraíbas na defesa do continente americano.”
O conferencista fez afirmações muito interessantes, realmente, segundo o jornal:
“O conferencista afirmou que nenhum dos países do mundo livre é auto-suficiente em matérias-primas ou bens manufaturados, e lembrou que isto significa que o acesso livre e o uso do Mar das Caraíbas e do Canal do Panamá são vitais para os Estados Unidos e para o Brasil, e, portanto, igualmente vitais para a defesa militar do Continente.”
Era, pois, a chantagem da segurança, generalizada esta, ao continente inteiro, englobando especificamente o Brasil. O problema do canal mereceria outra referência:
“Disse que o impacto da perda do Canal do Panamá, mesmo por um periodo reduzido, seria estonteante, bastando lembrar que, no ano passado, mais de 12 mil navios transitaram pelo canal, o que equivale a quase 72 milhões de toneladas.”
As teses defendidas pelo conferencista merecem ser lembradas; uma delas, das mais caras e mais repetidas, foi a de que “a sorte de todas as nações ligadas à Organização do Estados Americanos está relacionada com a efetiva segurança e bem-estar dos países do Continente Americano“.
Outra, já concretizada em medidas, estaria no “programa de assistência mútua Brasil- Estados Unidos“, com “a duração de cinco anos, abrangendo o Exército, a Marinha e a Aeronáutica“.
Desde o momento em que a revolução cubana evoluiu, deixando de ser apenas mais um movimento destinado a substituir governantes, sem afetar em nada as estruturas vigentes, os Estados Unidos planejaram e executaram meticulosamente a agressão econômica e, depois, militar, ao mesmo tempo em que começaram a exigir dos países latino-americanos submissão rigorosa aos ditames de sua política, subordinação rigorosa aos seus interesses.
Essa orientação, aparentemente vesânica, foi em crescendo de pressões e violências, começando no plano econômico, quando os Estados Unidos pretenderam conseguir a submissão de Cuba pela liquidação de sua economia, para passar, adiante, ao plano militar, em medidas que oscilaram desde o bloqueio naval ao ataque da Baía dos Porcos.
Assim, em janeiro de 1959, já o deputado Wayne Hays levantava a idéia de mandar tropas a Cuba, além de impor sanções econômicas; em julho, o Senado facultava ao presidente Eisenhower decretar a suspensão da ajuda estrangeira a qualquer país que confiscasse propriedades norte-americanas, visando especialmente o caso de Cuba; em outubro, a representação norte-americana em Havana advertia o governo cubano sobre “a adequação da Reforma Agrária no tocante à forma e à quantia da indenização aos cidadãos americanos que possuíam propriedades em Cuba“; começavam em outubro, por outro lado, os ataques incendiários por aviões norte-americanos, procedentes dos Estados Unidos, contra as plantações de cana e as usinas de açúcar em Cuba, com o propósito de afetar a safra e desorganizar a economia do país; em novembro, desencadeava-se, nos Estados Unidos, campanha vigorosa e organizada contra as viagens de turismo a Cuba; em dezembro, surgiam propostas para redução da quota de açúcar cubano a ser importado pelos Estados Unidos.
A ofensiva persistia e aprofundava-se, em 1960, começando com as declarações, em janeiro, dos homens de negócios norte-americanos, de que “Cuba terá que ser riscada, mais cedo ou mais tarde, da lista de embarcadores e inversionistas norte-americanos, assim como o foi o México em 1910“; o representante dos Estados Unidos em Havana renovava ameaças contra a Reforma Agrária cubana, ameaças repetidas, nos Estados Unidos, pelo vice-presidente Richard Nixon; no Senado, por outro lado, surgia a idéia de não pagamento do subsídio ao açúcar proveniente de Cuba; a essa altura, a intervenção militar era pregada claramente e começava a ser aguardada; em março, surgia a primeira redução na quota de açúcar cubano; em maio, a Associação Internacional de Estivadores anunciava o boicote, nos Estados Unidos, à carga e descarga de navios cubanos nos portos norte-americanos, e o Departamento de Estado suspendia a Assistência Técnica a Cuba, enquanto as empresas petrolíferas norte-americanas, em Cuba, recusavam-se a refinar o petróleo soviético adquirido pelo governo cubano; em julho, o presidente Eisenhower reduzia a quota do açúcar cubano em 856.000 toneladas, o governo norte-americano congelava as propriedades de cubanos nos Estados Unidos, num montante de 46 milhões de dólares, e aviões cubanos eram sequestrados em Miami, enquanto todas as contas bancárias do governo cubano eram congeladas em bancos norte-americanos; em outubro, eram proibidas as exportações norte-americanas para Cuba.
Em janeiro de 1961, o governo norte-americano proibia as viagens de seus cidadãos a Cuba; em março, comunicava ter em cogitações a aplicação da Lei de Comércio com o Inimigo ao caso de Cuba, para vedar tanto as exportações como as importações; ainda em março, o presidente, agora John Fitzgerald Kennedy, suspendia totalmente a entrada de açúcar cubano no mercado norte-americano, enquanto prosseguiam os seqüestros, nos Estados Unidos, de aviões cubanos.
Dean Rusk divulgava a orientação norte-americana em relação a Cuba, afirmando que “o primeiro passo importante é isolar Cuba neste hemisfério“; em fevereiro, o governo norte-americano decretava o embargo total no comércio entre os Estados Unidos e Cuba, enquanto o Diretor do Conselho de Planificação Politica do Departamento de Estado, Walt W. Rostow, viajava à Europa para providenciar para que os países membros da OTAN secundassem o embargo comercial decretado contra Cuba; em março, o Departamento do Tesouro comunicava estar proibida a entrada nos Estados Unidos de qualquer produto elaborado, total ou parcialmente, com produtos de origem cubana, “mesmo que tenha sido fabricado em outro país“; em setembro, o Departamento de Estado pressionava os paises membros da OTAN para que seus navios não conduzissem mercadorias a Cuba, enquanto o presidente do Instituto Americano de Marinha Mercante apelava a todos os países para que efetivassem um “embargo voluntário” no comércio com Cuba, apelo e pressão encontravam receptividade na Alemanha Ocidental e na Inglaterra; em Houston, os estivadores recusavam movimentar a carga do navio iugoslavo Drzic porque transportara cereais da URSS para Cuba.
Em setembro, as pressões sobre os países latino-americanos chegavam a ponto insuportável: os representantes desses países em Washington eram chamados ao Departamento de Estado, deles sendo solicitado que avisassem seus governos de que os Estados Unidos esperavam medidas mais rigorosas de vigilância econômica contra Cuba; o pedido mais insistente abrangia quatro pontos:
Rompimento de relações diplomáticas do Brasil, Uruguai, Chile, Bolivia e México com Cuba; novas restrições ao comércio com Cuba, da parte do Chile, México e Brasil; apelo aos países não-socialistas e não-americanos para que cessassem os fornecimentos a Cuba; e vigilância crescente em relação às viagens de Cuba e para Cuba.
Em outubro, o governo norte-americano pedia a Inglaterra, Alemanha Ocidental, Itália, Grécia, Noruega, Dinamarca e Suécia que impusessem restrições a seus navios que operavam com Cuba; os países latino-americanos eram compelidos a assinar, em Washington, recomendação no sentido de intensificar a pressão econômica sobre Cuba; dezenove desses representantes iam mais longe, apelando a todas as nações não comunistas para que suspendessem seu comércio com Cuba; a nova Lei de Ajuda Estrangeira facultava ao presidente dos Estados Unidos suspender a ajuda econômica a qualquer país que fornecesse ajuda econômica a Cuba ou permitisse que navios de sua bandeira levassem tal ajuda.
Seria infindável enumerar, pela ordem, as medidas tomadas pelos Estados Unidos, ou por pressão dos Estados Unidos, para liquidar Cuba pelo isolamento comercial; o presidente Kennedy poderia proclamar, a determinada altura, que as trocas de Cuba com o mundo ocidental haviam sido reduzidas de 90%.
Quando tudo isso se mostrou insuficiente, os Estados Unidos não hesitaram em apelar para a agressão militar; a CIA encarregou- se de planejar e superintender o treinamento das forças que intentariam a invasão de Cuba, levadas ao desastre da Baía dos Porcos.
Depois, inteiramente dementados, intentaram o bloqueio naval, arvorando-se o direito de deter e revistar os navios que se destinassem a Cuba, medida que se inseriu no problema dos mísseis.
A solução do gravíssimo incidente internacional, que poderia ter levado o mundo à destruição atômica, trouxe a retirada dos mísseis contra o compromisso dos Estados Unidos, pela palavra do presidente Kennedy, de que não seria mais intentada a agressão militar a Cuba. Esse compromisso custou a Kennedy a vida. (5)
Notas:
1. Uma relação sumária e incompleta das agressões norte-americanas aos paises latino-americanos pode arrolar fatos como os seguintes:
- 1806, México: invasão pelas forças do general James Wilkinson;
- 1822, Cuba: desembarque de forças para “perseguir piratas“;
1823, Cuba: desembarque, em Puerto Escondido, para o mesmo fim;
1824, Cuba: desembarque em Matanzas, para o mesmo fim;
1825, Cuba: desembarque em vários pontos, para o mesmo fim;
- 1831, Argentina: desembarque de forças nas Malvinas e destruição de Puerto Soledad;
1835, México: anexação final do Texas;
1835, Peru: desembarque de forças no Callao e permanência delas em Lima por 1 ano;
- 1842, México: invasão por forças, ocupação de Monterrey e San Diego;
1846-1848, México: guerra e anexação aos Estados Unidos de mais da metade do território mexicano;
- 1852, Argentina: desembarque de forças em Buenos Aires, para “proteger os interesses estrangeiros“;
1853, México: anexação de novos territórios mexicanos, imposição do Tratado de Mesilla.
1853, Nicarágua: bombardeio e incêndio e ocupação de San Juan del Norte.
1853-1860, Nicarágua: Invasão pelo pirata americano William Walker, reconhecido presidente do país pelos Estados Unidos;
1855, Uruguai: desembarque de forças em Montevidéu, para “proteger os estrangeiros“;
1856, Colômbia: desembarque de forças no Panamá, para “proteger a ferrovia“;
1857, Nicarágua: Invasão pelo comodoro Paulding e prisão de William Walker;
1858, Uruguai: desembarque de forças em Montevidéu e ocupação da Alfândega;
1859, México: invasão militar, para “perseguir o bandido Cortina“;
- 1865, Colombia: desembarque de forças no Panamá, para “proteger a ferrovia“;
1868, México: Invasão e ocupação de Matamoros pelas forças do general Zedgwick;
1868, Colombia: desembarque de forças em Aspinwall;
- 1873-1882, México: invasão militar, combates de Remolina e Las Cuencas;
1876, México: desembarque de forças em Matamoros, para “proteger os estrangeiros“;
1885, Colombia: desembarque de forças no Panamá, ocupação de Colón;
1888, Haiti: demonstração naval para obter satisfações pelo apresamento de navio;
- 1890, Argentina: desembarque de forças, para “proteger o consulado americano“;
1891, Chile: desembarque de forças em Valparaiso, para “proteger o embaixador dos Estados Unidos“;
1894, Nicarágua: desembarque de forças, para “proteger os interesses norte-americanos“;
1895, Colombia: desembarque de forças no Panamá, ocupação de Boca del Toro;
1896, Nicarágua: desembarque de forças, ocupação de Corinto;
1898, Nicarágua: desembarque de forças, para “proteger os norte-americanos“;
1898, Cuba: Intervenção armada, governo militar do general Leonard Wood (até 1902); aquisição de Porto Rico;
- 1900, Nicarágua e Costa Rica: imposição dos tratados Hal-Correa e Hay-Calvo, visando a construção de um canal transoceanico;
1902, Cuba: imposição da Emenda Platt, que permite a intervenção americana;
1902, Colombia: desembarque de forças, para “proteger a ferrovia“;
1903, Honduras: desembarque de forças, para “proteger o consulado“;
1903, Panamá: intervenção militar para a autonomia do Panamá e colocação da zona do canal sob soberanis americana;
1904, Dominicana: desembarque de forças, para “proteger o vice-consul alemão“:
1904, Panamá: invasão pelas tropas do almirante Goodrich;
1906, Cuba: intervenção militar comandada pelo general Charles E. Magoom (até 1909);
1907, Honduras: desembarque de forças, para “por fim à guerra entre Honduras e a Nicarágua“:
1907, Dominicana: intervenção fiscal e controle da Coletoria de impostos;
1909, Nicarágua: rompimento de relações e intervenção armada;
- 1910, Nicarágua: desembarque de forças em Corinto;
1910, Honduras: desembarque de forças, ocupação de Puerto Cortez até 1911:
1912, Honduras: desembarque de forças, para “impedir a ocupação pelo governo de ferrovin pertencente a uma empresa norte americana”:
1912, Cuba: desembarque de forças o ocupação, para “proteger vidas e interesses norte-americanas
1912, Nicaragua: desembarque de forças e ocupação do país até 1926,
1913, Mexico de embarque de forças em Claris Estero, para “proteger os norte-americanos.
1913, México: intervenção do mi nistro norte-americano Heary Lene Wilson na golpe de La Ciudadela e assassinio do presidente Madero;
1914, Haiti: desembarque de forças em Porto Principe;
1914, Dominicana:-bombardelo e desembarque de forças em Puerto Plata;
1914, Nicarágua: Imposição do Tratado Bryan-Chamorro: os Estados Unidos recebem, a título perpétuo, a rota interoceânica para construir novo ca- nal;
1914, México: desembarque de forças, ocupação de Vera Cruz;
1915, Halti: ataque armado, invasão e ocupação por 19 anos;
1916, Dominicana: desembar- que e ocupação do pais até 1922 (6 anos);
1916, Mexico: “expedição punitiva mi- litar do general J. Pershing, durando um ano: 1917, Cuba: desembarque de for- ças e ocupação até 1919;
1918, Panamá: desembarque e ocupação até 1920;
1918, México: très invasões por forças norte-americanas;
1919, México: seis in- vasões por forças norte-americanas;
1919, Honduras: desembarque de forças em Puerto Cortez;
1919, Panamá: invasão e permanência de forças norte- americanas, para “supervisionar eleições”;
- 1920, Guatemala: desembarque de forças, ocupação da capital, para “proteger norte-americanos”;
1922, Cuba: de- sembarque de forças, para “proteger norte-americanos”; 1923, México: pressão noite-americana dos governos Coolidge e Hoover contra governos “comunis- tas”;
1924, Honduras: desembarque de forças, para “proteger norte-ame- ricanos”;
1925, Panamá: ocupação militar da capital, para “prestar serviço de policia por ocasião de uma greve”:
1925, Honduras: desembarque de forças pa- ra “proteger norte-americanos”;
1926, Nicarágua: invasão e ocupação militar do pals, até 1933, assassinio de Sandino; inicio da ditadura Somoza;
- 1930, Do- minicana: imposição da ditadura Trujilo;
1931, Guatemala: intervenção militar para imposição da ditadura disfarçada do presidente Jorge Ubico, candidato da United Fruit Co.;
- 1954, Guatemala: intervenção militar, montada pela CIA, le- vando à queda do governo Arbenz e imposição da ditadura do coronel Castillo Armas;
- 1961, Cuba: organização e apoio militar, financeiro e politico ao ataque dos mercenários a Cuba, desastre da Baia dos Porcos;
1962, Panamá: forças norte-americanas da Zona do Canal atacam o povo panamenho, matando dezes- sete pessoas;
1965, Dominicana: invasão e ocupação, do pais, com a ajuda pos- terior de tropas latino-americanas.