[FRIEDRICH ENGELS] Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico.

Texto clássico do pensamento marxista, escrito em 1880. “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico”, de Friedrich Engels, célebre intelectual, árduo defensor da dialética e do socialismo científico:


Introdução:

Entre as melhores explicações do Marxismo escritas por Marx e Engels. Engels escreveu esta brochura baseado em partes do Anti-Dúhring com o intuito de prover os trabalhadores com uma exposição simples e concisa do pensamento Marxista.

Nas três secções da brochura, Engels explica os três componentes do pensamento Marxista: o Socialismo Francês, A Filosofia Germânica e a Economia Inglesa.

Na primeira parte do “panfleto” Engels explica que o Socialismo do passado tinha sido utópico – mantendo a crença em quando numa sociedade todos o compreendessem e nele acreditassem, apareceria uma sociedade Socialista. Sobre isso, Engels escreveu:


 ” Os Utópicos tentaram evoluir a partir do cérebro humano. A sociedade apresentaria apenas erros; eliminá-los era tarefa da razão. Era então necessário descobrir um novo e mais perfeito sistema de ordem social e impô-la à sociedade a partir de fora com propaganda, e, sempre que possível, pelo exemplo de experiências modelo.”

Engels explica em seguida o lento desenvolvimento histórico da dialética filosófica através de milhares de anos; conhecimento que culminou no que permitiu a Marx ver e explicar a concepção materialista da história, a qual Engels explica na terceira parte da brochura.

Sobre a publicação da edição inglesa da brochura Engels escreveu:

A pedido do meu amigo Paul Lafargue, agora representante de Lille na câmara de deputados francesa, organizei os três capítulos desta brochura que ele traduziu e publicou em 1880 sob o título “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico”. A partir deste texto em francês forma preparadas edições em polaco e espanhol. Em 1883, os nossos amigos alemães devolveram este texto à língua original. Desde então, com base no texto alemão, foram publicadas traduções para Italiano, Russo, Holandês e Romeno. Desta forma, contando com a presente edição em Inglês, este pequeno livro circula já em 10 línguas. Não tenho conhecimento de que qualquer outro trabalho socialista, nem mesmo o nosso Manifesto Comunista de 1848, ou o Capital de Marx tenham tido tantas traduções. Em alemão, já houve quatro edições com um total de cerca de 20 000 cópias. ”




1 – O Socialismo Utópico:


O socialismo moderno é, em primeiro lugar, por seu conteúdo, fruto do reflexo na inteligência, de um lado dos antagonismos de classe que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuídos, capitalistas e operários assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na produção. Por sua forma teórica, porém, o socialismo começa apresentando-se como uma continuação, mais desenvolvida e mais consequente, dos princípios proclamados pelos grandes pensadores franceses do século XVIII. Como toda nova teoria, o socialismo, embora tivesse suas raízes nos fatos materiais econômicos, teve de ligar-se, ao nascer, às Ideias existentes.

Os grandes homens que, na França, iluminaram os cérebros para a revolução que se havia de desencadear, adotaram uma atitude resolutamente revolucionária. Não reconheciam autoridade exterior de nenhuma espécie. A religião, a concepção da natureza, a sociedade, a ordem estatal: tudo eles submetiam à crítica mais impiedosa; tudo quanto existia devia justificar os títulos de sua existência ante o foro da razão, ou renunciar a continuar existindo. A tudo se aplicava como rasoura única a razão pensante. Era a época em que, segundo Hegel, “o mundo girava sobre a cabeça” (1), primeiro no sentido de que a cabeça humana e os princípios estabelecidos por sua especulação reclamavam o direito de ser acatados como base de todos os atos humanos e toda relação social, e logo também, no sentido mais amplo de que a realidade que não se ajustava a essas conclusões se via subvertida, de fato, desde os alicerces até à cumeeira. Todas as formas anteriores de sociedade e de Estado, todas as leis tradicionais, foram atiradas no monturo como irracionais; até então o mundo se deixara governar por puros preconceitos; todo o passado não merecia senão comiseração e desprezo, Só agora despontava a aurora, o reino da razão; daqui por diante a superstição, a injustiça, o privilégio e a opressão seriam substituídos pela verdade eterna, pela eterna justiça, pela igualdade baseada na natureza e pelos direitos Inalienáveis do homem.

Já sabemos, hoje, que esse império da razão não era mais que o império idealizado pela burguesia; que a justiça eterna tomou corpo na justiça burguesa; que a igualdade se reduziu à igualdade burguesa em face da lei; que como um dos direitos mais essenciais do homem foi proclamada a propriedade burguesa; e que o Estado da razão, o “contrato social” de Rousseau, pisou e somente podia pisar o terreno da realidade, convertido na república democrática burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII, como todos os seus Predecessores, não podiam romper as fronteiras que sua própria época lhes impunha.

Mas, ao lado do antagonismo entre a nobreza feudal e a burguesia, que se erigia em representante de todo o resto da sociedade, mantinha-se de pé o antagonismo geral entre exploradores e explorados, entre ricos gozadores e pobres que trabalhavam. E esse fato exatamente é que permitia aos representantes da burguesia arrogar-se a representação, não de uma classe determinada, mas de toda a humanidade sofredora. Mais ainda: desde o momento mesmo em que nasceu, a burguesia conduzia em suas entranhas sua própria antítese, pois os capitalistas não podem existir sem os operários assalariados, e na mesma proporção em que os mestres de ofícios das corporações medievais se convertiam em burgueses modernos, os oficiais e os jornaleiros não agremiados transformavam-se em proletários. E se, em termos gerais, a burguesia podia arrogar-se o direito de representar, em suas lutas com a nobreza, além dos seus Interesses, os das diferentes classes trabalhadoras da época, ao lado de todo grande movimento burguês que se desatava, eclodiam movimentos independentes daquela classe que era o precedente mais ou menos desenvolvido do proletariado moderno. Tal foi na época da Reforma e das guerras camponesas na Alemanha. a tendência dos anabatistas e de Thomas Münzer; na grande Revolução Inglesa, os “levellers”(2), e na Revolução Francesa, Babeuf. Essas sublevações revolucionárias de uma classe incipiente são acompanhadas, por sua vez, pelas correspondentes manifestações teóricas: nos séculos XVI e XVII (3) aparecem as descrições utópicas de um regime ideal da sociedade; no século XVIII, teorias já abertamente comunistas, como as de Morelly e Mably. A reivindicação da igualdade não se limitava aos direitos políticos, mas se estendia às condições sociais de vida de cada indivíduo; já não se tratava de abolir os privilégios de classe, mas de destruir as próprias diferenças de classe. Um comunismo ascético, ao modo espartano, que renunciava a todos os gozos da vida: tal foi a primeira forma de manifestação da nova teoria. Mais tarde vieram os três grandes utopistas: Saint-Simon, em que a tendência continua ainda a se afirmar, até certo ponto, junto à tendência proletária; Fourier e Owen, este último, num pais onde a produção capitalista estava mais desenvolvida e sob a impressão engendrada por ela, expondo em forma sistemática uma série de medidas orientadas rio sentido de abolir as diferenças de classe, em relação direta com o materialismo francês.

Traço comum aos três é que não atuavam como representantes dos interesses do proletariado, que, entretanto, surgira como um produto histórico. Da mesma maneira que os enciclopedistas, não se propõem emancipar primeiramente uma classe determinada, mas, de chofre, toda a humanidade. E assim como eles, pretendem instaurar o império da razão e da justiça eterna. Mas entre o seu império e o dos enciclopedistas medeia um abismo. Também o mundo burguês, instaurado segundo os princípios dos enciclopedistas, é injusto e irracional e merece, portanto, ser jogado entre os trastes inservíveis, tanto quanto o feudalismo e as formas sociais que o antecederam. Se até agora a verdadeira razão e a verdadeira justiça não governaram o mundo é simplesmente porque ninguém soube penetrar devidamente nelas. Faltava o homem genial, que agora se ergue ante a humanidade com a verdade, por fim descoberta. O fato de que esse homem tenha aparecido agora, e não antes, o fato de que a verdade tenha sido por fim descoberta agora, e não antes, não é, segundo eles, um acontecimento inevitável, imposto pela concatenação do desenvolvimento histórico, e sim porque o simples acaso assim o quis. Poderia ter aparecido quinhentos anos antes, poupando assim à humanidade quinhentos anos de erros, de lutas e de sofrimentos.

Vimos como os filósofos franceses do século XVIII, que abriram o caminho à revolução, apelavam para a razão como o juiz único de tudo o que existe. Pretendia-se instaurar um Estado racional, uma sociedade ajustada à razão, e tudo quanto contradissesse a razão eterna deveria ser rechaçado sem nenhuma piedade. Vimos também que, em realidade, essa razão não era mais que o senso comum do homem idealizado da classe média que, precisamente então, se convertia em burguês. Por isso, quando a Revolução Francesa empreendeu a construção dessa sociedade e desse Estado da razão, redundou que as novas instituições, por mais racionais que fossem em comparação com as antigas, distavam bastante da razão absoluta. O Estado da razão falira completamente. O contrato social de Rousseau tomara corpo na época do terror, e a burguesia, perdida a fé em sua própria habilidade política, refugiou-se, primeiro na corrupção do Diretório e, por último, sob a égide do despotismo napoleônico. A prometida paz eterna convertera-se numa interminável guerra de conquistas. Tampouco teve melhor sorte a sociedade da razão. O antagonismo entre pobres e ricos, longe de dissolver-se no bem-estar geral, aguçara-se com o desaparecimento dos privilégios das corporações e outros, que estendiam uma ponte sobre ele, e os estabelecimentos eclesiásticos de beneficência, que o atenuavam. A “liberação da propriedade” dos entraves feudais, que agora se convertia em realidade, vinha a ser para o pequeno burguês e o pequeno camponês a liberdade de vender a esses mesmos poderosos senhores sua pequena propriedade, esgotada pela esmagadora concorrência do grande capital e da grande propriedade latifundiária; com o que se transformava na “liberação” do pequeno burguês e do pequeno camponês de toda propriedade. O ascenso da indústria sobre bases capitalistas converteu a pobreza e a miséria das massas trabalhadoras em condição de vida da sociedade. O pagamento à vista transformava-se, cada vez mais, segundo a expressão de Carlyle, no único elo que unia a sociedade. A estatística criminal crescia de ano para ano. Os vícios feudais, que até então eram exibidos impudicamente, à luz do dia, não desapareceram, mas se recolheram, por um momento, um pouco ao fundo do cenário; em troca, floresciam exuberantemente os vícios burgueses, até então superficialmente ocultos. O comércio foi degenerando, cada vez mais, em trapaça. A “fraternidade” do lema revolucionário tomou corpo nas deslealdades e na inveja da luta de concorrência. A opressão violenta cedeu lugar à corrupção, e a espada, como principal alavanca do poder social, foi substituída pelo dinheiro. O direito de pernada (4) passou do senhor feudal ao fabricante burguês. A prostituição desenvolveu-se em proporções até então desconhecidas. O próprio casamento continuou sendo o que já era: a forma reconhecida pela lei, o manto com que se cobria a prostituição, completado ademais com uma abundância de adultérios. Numa palavra, comparadas com as brilhantes promessas dos pensadores, as Instituições sociais e políticas instauradas pelo “triunfo da razão” redundaram em tristes e decepcionantes caricaturas. Faltavam apenas os homens que pusessem em relevo o desengano, e esses homens surgiram nos primeiros anos do século XIX. Em 1802, vieram à luz as Cartas de Genebra de Saint-Simon; em 1808, Fourier publicou a sua primeira obra, embora as bases de sua teoria datassem já de 1799; a 1.0 de janeiro de 1800, Robert Owen assumiu a direção da empresa de New Lanark.

No entanto, naquela época, o modo capitalista de produção, e com ele o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, achava-se ainda muito pouco desenvolvido. A grande indústria, que acabava de nascer na Inglaterra, era ainda desconhecida na França. E só a grande indústria desenvolve, de uma parte, os conflitos que transformam numa necessidade Imperiosa a subversão do modo de produção e a eliminação de seu caráter capitalista – conflitos que eclodem não só entre as classes engendradas por essa grande indústria, mas também entre as forças produtivas e as formas de distribuição por ela criadas – e, de outra parte, desenvolve também nessas gigantescas forças produtivas os meios para solucionar esses conflitos. Às vésperas do século XIX, os conflitos que brotavam da nova ordem social mal começavam a desenvolver-se, e menos ainda, naturalmente, os meios que levam à sua solução. Se as massas despossuídas de Paris conseguiram dominar por um momento o poder durante o regime de terror, e assim levar ao triunfo a revolução burguesa, inclusive contra a burguesia, foi só para demonstrar até que ponto era impossível manter por muito tempo esse poder nas condições da época. O proletariado, que apenas começava a destacar-se no seio das massas que nada possuem, como tronco de uma nova classe, totalmente incapaz ainda para desenvolver uma ação política própria, não representava mais que um estrato social oprimido, castigado, incapaz de valer-se por si mesmo. A ajuda, no melhor dos casos, tinha que vir de fora, do alto.

Essa situação histórica informa também as doutrinas dos fundadores do socialismo. Suas teorias incipientes não fazem mais do que refletir o estado Incipiente da produção capitalista, a incipiente condição de classe. Pretendia-se tirar da cabeça a solução dos problemas sociais, latentes ainda nas condições econômicas pouco desenvolvidas da época. A sociedade não encerrava senão males, que a razão pensante era chamada a remediar.

Tratava-se, por isso, de descobrir um sistema novo e mais perfeito de ordem social, para implantá-lo na sociedade vindo de fora, por meio da propaganda e, sendo possível, com o exemplo, mediante experiências que servissem de modelo. Esses novos sistemas sociais nasciam condenados a mover-se no reino da utopia; quanto mais detalhados e minuciosos fossem, mais tinham que degenerar em puras fantasias.

Assentado isso, não há por que nos determos nem um momento mais nesse aspecto, já definitivamente incorporado ao passado. Deixemos que os trapeiros literários revolvam solenemente nessas fantasias, que parecem hoje provocar o riso, para ressaltar sobre o fundo desse “cúmulo de disparates” a superioridade de seu raciocínio sereno. Quanto a nós, admiramos os germes geniais de ideias e as ideias geniais que brotam por toda parte sob essa envoltura de fantasia que os filisteus são incapazes de ver.

Saint-Simon era filho da grande Revolução Francesa, que estalou quando ele não contava ainda trinta anos. A. Revolução foi o triunfo do terceiro estado, isto é, da grande massa ativa da nação, a cujo cargo corriam a produção e o comércio, sobre os estados até então ociosos e privilegiados da sociedade: a nobreza e o clero. Mas logo se viu que o triunfo do terceiro estado não era mais que o triunfo de uma parte multo pequena dele, a conquista do poder político pelo setor socialmente privilegiado dessa classe: a burguesia possuidora. Essa burguesia desenvolvia-se rapidamente já no processo da revolução, especulando com as terras confiscadas e logo vendidas da aristocracia e da Igreja, e lesando a nação por meio das verbas destinadas ao exército. Foi precisamente o governo desses negocistas que, sob o Diretório, levou à França e a Revolução à beira da ruína, dando com isso a Napoleão o pretexto para o golpe de Estado. Por isso, na ideia de Saint-Simon, o antagonismo entre o terceiro estado e os estados privilegiados da sociedade tomou a forma de um antagonismo entre “trabalhadores” e “ociosos”. Os “ociosos” eram não só os antigos privilegiados, mas todos aqueles que viviam de suas rendas, cem intervir na produção nem no comércio. No conceito de “trabalhadores” não entravam somente os operários assalariados, mas também os fabricantes, os comerciantes e os banqueiros. Que os ociosos haviam perdido a capacidade para dirigir espiritualmente e governar politicamente era um fato Indisfarçável, selado em definitivo pela Revolução. E, para Saint-Simon, as experiências da época do terror haviam demonstrado, por sua vez, que os descamisados não possuíam tampouco essa capacidade. Então, quem haveria de dirigir e governar? Segundo Saint-Simon, a ciência e a indústria, unidas por um novo laço religioso, um “novo cristianismo”, forçosamente místico e rigorosamente hierárquico, chamado a restaurar a unidade das ideias religiosas, destruída desde a Reforma. Mas a ciência eram os sábios acadêmicos; e a indústria eram, em primeiro lugar, os burgueses ativos, os fabricantes, os comerciantes, os banqueiros. E embora esses burgueses tivessem de transformar-se numa espécie de funcionários públicos, de homens da confiança de toda a sociedade, sempre conservariam frente aos operários uma posição autoritária e economicamente privilegiada. Os banqueiros seriam os chamados em primeiro lugar para regular toda a produção social por meio de uma regulamentação do crédito. Esse modo de conceber correspondia perfeitamente a uma época em que a grande indústria, e com ela o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, mal começava a despontar na França. Mas Saint-Simon insiste muito especialmente neste ponto: o que o preocupa, sempre e em primeiro lugar, é a sorte da “classe mais numerosa e mais pobre” ela sociedade (“la classe la plus nombreuse et la plus paurre”).

Em suas Cartas de Genebra, Saint-Simon formula a tese de que “todos os homens devem trabalhar”. Na mesma obra já se expressa a Ideia de que o reinado do terror era o governo das massas despossuídas. “Vede – grita-lhes – o que se passou na França quando vossos camaradas subiram ao poder: provocaram a fome”. Mas conceber a Revolução Francesa como urna luta de classes, e não só entre a nobreza e a burguesia, mas entre a nobreza, a burguesia e os despossuídos, era, em 1802, uma descoberta verdadeiramente genial.

Em 1816, Saint-Simon declara que a política é a ciência da produção e prediz já a total absorção da política pela economia. E se aqui não faz senão aparecer em germe a ideia de que a situação econômica é a base das instituições políticas, proclama já claramente a transformação do governo político sobre os homens numa administração das coisas e na direção dos processos da produção, que não é senão a ideia da “abolição do Estado”, que tanto alarde levanta ultimamente. E, elevando-se ao mesmo plano de superioridade sobre os seus contemporâneos, declara, em 1814, imediatamente, depois da entrada das tropas coligadas em Paris, e reitera em 1815, durante a Guerra dos Cem Dias, que a aliança da França com a Inglaterra e, em segundo lugar, a destes países com a Alemanha é a única garantia do desenvolvimento próspero e da paz na Europa. A fim de aconselhar aos franceses de 1815 uma aliança com os vencedores de Waterloo era necessário possuir tanto valentia quanto capacidade para ver longe na história.

O que em Saint-Simon é amplitude genial de visão, que lhe permite conter já, em germe, quase todas as Ideias não estritamente econômicas dos socialistas posteriores, em Fourier é a crítica engenhosa autenticamente francesa, mas nem por isso menos profunda, das condições sociais existentes. Fourier pega a burguesia pela palavra, por seus inflamados profetas de antes e seus Interesseiros aduladores de depois da revolução. Põe a nu, impiedosamente, a miséria material e moral do mundo burguês, e a compara com as fascinantes promessas dos velhos enciclopedistas, com a imagem que eles faziam da sociedade em que a razão reinaria sozinha, de urna civilização que faria felizes todos os homens e de uma ilimitada capacidade humana de perfeição. Desmascara as brilhantes frases dos ideólogos burgueses da época, demonstra como a essas frases grandiloquentes corresponde, por toda parte, a mais cruel das realidades e derrama sua sátira mordaz sobre esse ruidoso fracasso da fraseologia. Fourier não é apenas um crítico; seu espírito sempre jovial faz dele um satírico, um dos maiores satíricos de todos os tempos. A especulação criminosa desencadeada com o refluxo da onda revolucionária e o espírito mesquinho do comércio francês naqueles anos aparecem pintados em suas obras com traços magistrais e encantadores. Mas é ainda mais magistral nele a crítica das relações entre os sexos e da posição da mulher na sociedade burguesa. É ele o primeiro a proclamar que o grau de emancipação da mulher numa sociedade é o barômetro natural pelo qual se mede a emancipação geral. Contudo, onde mais sobressai Fourier é na maneira como concebe a história da sociedade. Fourier divide toda a história anterior em quatro fases ou etapas de desenvolvimento: o selvagismo, a barbárie, o patriarcado e a civilização, esta última fase coincidindo com o que chamamos hoje sociedade burguesa, isto é, com o regime social implantado desde o século XVI, e demonstra que a “ordem civilizada eleva a uma forma complexa, ambígua, equívoca e hipócrita todos aqueles vícios que a barbárie praticava em meio à maior simplicidade”. Para ele a civilização move-se num “círculo vicioso”, num ciclo de contradições, que reproduz constantemente sem poder superá-las, conseguindo sempre precisamente o contrário do que deseja ou alega querer conseguir. E assim nos encontramos, por exemplo, com o fato de que “na civilização, a pobreza brota da própria abundância”. Como se vê, Fourier maneja a dialética com a mesma mestria de seu contemporâneo Hegel. Diante dos que enchem a boca falando da ilimitada capacidade humana de perfeição, põe em relevo, com igual dialética, que toda fase histórica tem sua vertente ascensional, mas também sua ladeira descendente, e projeta essa concepção sobre o futuro de toda a humanidade. E assim como Kant Introduziu na ciência da natureza o desaparecimento futuro da Terra, Fourier introduz em seu estudo da história a ideia do futuro desaparecimento da humanidade.

Enquanto o vendaval da revolução varria o solo da França, desenvolvia-se na Inglaterra um processo revolucionário, mas tranquilo, porém nem por isso menos poderoso. O vapor e as máquinas-ferramenta converteram a manufatura na grande indústria moderna, revolucionando com isso todos os fundamentos da sociedade burguesa. O ritmo vagaroso do desenvolvimento do período da manufatura converteu-se num verdadeiro período de luta e embate da produção. Com uma velocidade cada vez mais acelerada, ia-se dando a divisão da sociedade em grandes capitalistas e proletários que nada possuem e, entre eles, em lugar da antiga classe média tranquila e estável, uma massa Instável de artesãos e pequenos comerciantes, a parte mais flutuante da população, levava unia existência sem nenhuma segurança. O novo modo de produção apenas começava a galgar a vertente ascensional; era ainda o modo de produção normal, regular, o único possível, naquelas circunstâncias. E no entanto deu origem a toda uma série de graves calamidades sociais: amontoamento, nos bairros mais sórdidos das grandes cidades, de uma população arrancada do seu solo; dissolução de todos os laços tradicionais dos costumes, da submissão patriarcal e da família; prolongação abusiva do trabalho, que sobretudo entre as mulheres e as crianças assumia proporções aterradoras; desmoralização em massa da classe trabalhadora, lançada de súbito a condições de vida totalmente novas – do campo para a cidade, da agricultura para a indústria, de uma situação estável para outra contentemente variável e insegura. Em tais circunstâncias, ergue-se como reformador um fabricante de 29 anos, um homem cuja pureza quase infantil tocava às raias do sublime e que era, ao lado disso, um condutor de homens como poucos. Roberto Owen assimilara os ensinamentos dos filósofos materialistas do século XVIII, segundo os quais o caráter do homem é, de um lado, produto de sua organização Inata e, de outro, fruto das circunstâncias que envolvem o homem durante. sua vida, sobretudo durante o período de seu desenvolvimento. A maioria dos homens de sua classe não via na revolução industrial senão caos e confusão, uma ocasião propícia para pescar no rio revolto e enriquecer depressa. Owen, porém, viu nela o terreno adequado para pôr em prática a sua tese favorita, introduzindo ordem no caos. Já em Manchester, dirigindo uma fábrica de mais de 500 operários, tentara, não sem êxito, aplicar praticamente a sua teoria. De 1800 a 1829 orientou no mesmo sentido, embora com maior liberdade de iniciativa e com um êxito que lhe valeu fama na Europa, a grande fábrica de fios de algodão de New Lanark, na Escócia, da qual era sócio e gerente. Uma população operária que foi crescendo paulatinamente até 2 500 almas, recrutada a princípio entre os elementos mais heterogêneos, a maioria dos quais muito desmoralizados, converteu-se em suas mãos numa colônia-modelo, na qual não se conheciam a embriaguez, a polícia, os juízes de paz, os processos, os asilos para pobres nem a beneficência pública Para Isso bastou, tão somente, colocar seus operários em condições mais humanas de vida, consagrando um cuidado especial à educação da prole. Owen foi o criador dos jardins-de-infância, que funcionaram pela primeira vez em New Lanark. As crianças eram enviadas às escolas desde os dois anos, e nelas se sentiam tão bem que só com dificuldade eram levadas para casa. Enquanto nas fábricas de seus concorrentes os operários trabalhavam treze e quatorze horas diárias, em New Lanark a jornada de trabalho era de dez horas e meia. Quando uma crise algodoeira obrigou o fechamento da fábrica por quatro meses, os operários de New Lanark, que ficaram sem trabalho, continuaram recebendo suas diárias Integrais. E, contudo, a empresa incrementara ao dobro o seu valor e rendeu a seus proprietários, até o último dia, enormes lucros.

Owen, entretanto, não estava satisfeito com o que conseguira. A existência que se propusera dar a seus operários distava muito ainda de ser, a seus olhos, uma existência digna de um ser humano. “Aqueles homens eram meus escravos”. As circunstâncias relativamente favoráveis em que os colocara estavam ainda muito longe de permitir-lhes desenvolver racionalmente e em todos os aspectos o caráter e a inteligência, e muito menos desenvolver livremente suas energias. “E, contudo, a parte produtora daquela população de 2500 almas dava à sociedade uma soma de riqueza real que, apenas meio século antes, teria exigido o trabalho de 600 000 homens juntos. Eu me perguntava: onde vai parar a diferença entre a riqueza consumida por essas 2 500 pessoas e a que precisaria ser consumida pelas 600 000?” A resposta era clara: essa diferença era invertida em abonar os proprietários da empresa com 5 por cento de juros sobre o capital de instalação, ao qual vinham somar-se mais de 300 000 libras esterlinas de lucros. E o caso de New Lanark era, só que em proporções maiores, o de todas as fábricas da Inglaterra. “Sem essa nova fonte de riqueza criada pelas máquinas, teria sido impossível levar adiante as guerras travadas para derrubar Napoleão e manter de pé os princípios da sociedade aristocrática. E, no entanto, esse novo poder era obra da classe operária.” (5) A ela deviam pertencer também, portanto, os seus frutos. As novas e gigantescas forças produtivas, que até ali só haviam servido para que alguns enriquecessem e as massas fossem escravizadas, lançavam, segundo Owen, as bases para uma reconstrução social e estavam fadadas a trabalhar somente para o bem-estar coletivo, como propriedade coletiva de todos os membros da sociedade.

Foi assim, por esse caminho puramente prático – resultado, por dizê-lo, dos cálculos de um homem de negócios que surgiu o comunismo oweniano, conservando sempre esse caráter prático. Assim, em 1823, Owen propõe um sistema de colônias comunistas para combater a miséria reinante na Irlanda e apresenta, em apoio de sua proposta, um orçamento completo de despesas de instalação, desembolsos anuais e rendas prováveis. E assim também em seus planos definitivos da sociedade do futuro, os detalhes técnicos são calculados com um domínio tal da matéria. Incluindo até projetos, desenhos de frente, de perfil e do alto que, uma vez aceito o método oweniano de reforma da sociedade, pouco se poderia objetar, mesmo um técnico experimentado, contra os pormenores de sua organização.

O avanço para o comunismo constitui um momento crucial na vida de Owen. Enquanto se limitara a atuar só como filantropo, não colhera senão riquezas, aplausos, honra e fama. Era o homem mais popular da Europa Não só os homens de sua classe e posição social, mas também os governantes e os príncipes o escutavam e o aprovavam. No momento, porém, em que formulou suas teorias comunistas, virou-se a página. Eram precisamente três grandes obstáculos os que, segundo ele, se erguiam em seu caminho da reforma social: a propriedade privada, a religião e a forma atual do casamento. E não ignorava ao que se expunha atacando-os: à execração de toda a sociedade oficial e à perda de sua posição social. Mas isso não o deteve em seus ataques implacáveis contra aquelas instituições, e ocorreu o que ele previa. Desterrado pela sociedade oficial, ignorado completamente pela imprensa, arruinado por suas fracassadas experiências comunistas na América, às quais sacrificou toda a sua fortuna, dirigiu-se à classe operária, no seio da qual atuou ainda durante trinta anos. Todos os movimentos sociais, todos os progressos reais registrados na Inglaterra em interesse da classe trabalhadora, estão ligados ao nome de Owen. Assim, em 1819, depois de cinco anos de grandes esforços, conseguiu que fosse votada a primeira lei limitando o trabalho da mulher e da criança nas fábricas. Foi ele quem presidiu o primeiro congresso em que as trade-unions de toda a Inglaterra fundiram-se numa grande organização sindical única. E foi também ele quem criou, como medidas de transição, para que a sociedade pudesse organizar-se de maneira integralmente comunista, de um lado, as cooperativas de consumo e de produção – que serviram, pelo menos, para demonstrar na prática que o comerciante e o fabricante não são Indispensáveis -, e de outro lado, os mercados operários, estabelecimentos de troca dos produtos do trabalho por meio de bônus de trabalho e cuja unidade é a hora de trabalho produzido; esses estabelecimentos tinham necessariamente que fracassar, mas se antecipam multo aos bancos proudhonianos de troca, diferenciando-se deles somente em que não pretendem ser a panaceia universal para todos os males sociais, mas pura e simplesmente um primeiro passo para uma transformação multo mais radical da sociedade.

As concepções dos utopistas dominaram durante muito tempo as ideias socialistas do século XIX, e em parte ainda hoje as dominam. Rendiam-lhes homenagens, até há muito pouco tempo, todos os socialistas franceses e Ingleses e a eles se deve também o incipiente comunismo alemão, incluindo Weitling. Para todos eles, o socialismo é a expressão da verdade absoluta, da razão e da justiça, e é bastante revelá-lo para, graças à sua virtude, conquistar o mundo. E, como a verdade absoluta não está sujeita a condições de espaço e de tempo nem ao desenvolvimento histórico da humanidade, só o acaso pode decidir quando e onde essa descoberta se revelará. Acrescente-se a isso que a verdade absoluta, a razão e a justiça variam com os fundadores de cada escola; e como o caráter específico da verdade absoluta, da razão e da justiça está condicionado, por sua vez, em cada um deles, pela Inteligência pessoal, condições de vida, estado de cultura e disciplina mental, resulta que nesse conflito de verdades absolutas a única solução é que elas vão acomodando-se umas às outras. E, assim, era inevitável que surgisse uma espécie de socialismo eclético e medíocre, como o que, com efeito, continua imperando ainda nas cabeças da maior parte dos operários socialistas da França e da Inglaterra: uma mistura extraordinariamente variegada e cheia de matizes, compostas de desabafes críticos, princípios econômicos e as imagens sociais do futuro menos discutíveis dos diversos fundadores de seitas, mistura tanto mais fácil de compor quanto mais os ingredientes individuais iam perdendo, na torrente da discussão, os seus contornos sutis e agudos, como as pedras limadas pela corrente de um rio. Para converter o socialismo em ciência era necessário, antes de tudo, situá-lo no terreno da realidade.










2 – Dialética:

Entretanto, junto à filosofia francesa do século XVIII, e por trás dela, surgira a moderna filosofia alemã, cujo ponto culminante foi Hegel. O principal mérito dessa filosofia é a restauração da dialética, como forma suprema do pensamento. Os antigos filósofos gregos eram todos dialéticos inatos, espontâneos, e a cabeça mais universal de todos eles – Aristóteles – chegara já a estudar as formas mais substanciais do pensamento dialético. Em troca, a nova filosofia, embora tendo um ou outro brilhante defensor da dialética (como por exemplo, Descartes e Spinoza) caía cada vez mais, sob a influência principalmente dos ingleses, na chamada maneira metafísica de pensar, que também dominou quase totalmente entre os franceses do século XVIII, ao menos em suas obras especificamente filosóficas. Fora do campo estritamente filosófico, eles criaram também obras-primas de dialética; como prova, basta citar “O Sobrinho” de Rameau, de Diderot, e o estudo de Rousseau sobre a origem da desigualdade entre os homens. Resumiremos aqui, sucintamente, os traços mais essenciais de ambos os métodos discursivos.

Quando nos detemos a pensar sobre a natureza, ou sobre a história humana, ou sobre nossa própria atividade espiritual, deparamo-nos, em primeiro plano, com a imagem de uma trama infinita de concatenações e Influências recíprocas, em que nada permanece o que era, nem como e onde era, mas tudo se move e se transforma, nasce e morre. Vemos, pois, antes de tudo, a imagem de conjunto, na qual os detalhes passam ainda mais ou menos para o segundo plano; fixamo-nos mais no movimento, nas transições, na concatenação, do que no que se move, se transforma e se concatena Essa concepção do mundo, primitiva, ingênua, mas essencialmente exata, é a dos filósofos gregos antigos, e aparece claramente expressa pela primeira vez em Heráclito: tudo é e não é, pois tudo flui, tudo se acha sujeito a um processo constante de transformação, de Incessante nascimento e caducidade. Mas essa concepção, por mais exatamente que reflita o caráter geral do quadro que nos é oferecido pelos fenômenos, não basta para explicar os elementos isolados que formam esse quadro total; sem conhecê-los a Imagem geral não adquirirá tampouco um sentido claro. Para penetrar nesses detalhes temos de despregá-los do seu tronco histórico ou natural, e investigá-los separadamente, cada qual por si, em seu caráter, causas e efeitos especiais, etc.

Tal é a missão primordial das ciências naturais e da história, ramos de investigação que os gregos clássicos situavam, por motivos muito justificados, num plano puramente secundário, pois primariamente deviam dedicar-se a acumular os materiais científicos necessários. Enquanto não se reúne uma certa quantidade de materiais naturais e históricos não se pode proceder ao exame crítico, à comparação e, consequentemente, a divisão em classes, ordens e espécies. Por isso, os rudimentos das ciências naturais exatas não foram desenvolvidos senão a partir dos gregos do período alexandrino (6) e, mais tarde, na Idade Média, pelos árabes; a ciência autêntica da natureza data semente da segunda metade do século XV e, desde então, não fez senão progredir a ritmo acelerado.

 A análise da natureza em suas diversas partes, a classificação dos diversos processos e objetos naturais em determinadas categorias, a pesquisa interna dos corpos orgânicos segundo sua diversa estrutura anatômica, foram outras tantas condições fundamentais a que obedeceram aos gigantescos progressos realizados, durante os últimos quatrocentos anos, no conhecimento científico da natureza. Esses métodos de Investigação, porém, nos transmitiu, ao lado disso, o hábito de enfocar as coisas e os processos da natureza isoladamente, subtraídos à concatenação do grande todo; portanto, não em sua dinâmica, mas estaticamente; não como substancialmente variáveis, mas como consistências fixas; não em sua vida, mas em sua morte. Por isso, esse método de observação, ao transplantar-se, com Bacon e Locke, das ciências naturais para a filosofia, determinou a estreiteza específica característica dos últimos séculos: o método metafísico de especulação.

Para o metafísico, as coisas e suas Imagens no pensamento, os conceitos, são objetos de Investigação Isolados, fixos, rígidos, focalizados um após o outro, de per si, como algo dado e perene. Pensa só em antíteses, sem meio-termo possível; para ele, das duas uma: sim, sim; não, não; o que for além disso, sobra. Para ele, uma coisa existe ou não existe; um objeto não pode ser ao mesmo tempo o que é e outro diferente. O positivo e o negativo se excluem em absoluto. A causa e o efeito revestem também, a seus olhos, a forma de uma rígida antítese. À primeira vista, esse método discursivo parece-nos extremamente razoável, porque é o do chamado senão comum. Mas o próprio senso comum – personagem multo respeitável dentro de casa, entre quatro paredes – vive peripécias verdadeiramente maravilhosas quando se aventura pelos caminhos amplos da investigação; e o método metafísico de pensar, pois muito justificado e até necessário que seja em muitas zonas do pensamento, mais ou menos extensas segundo a natureza do objeto de que se trate, tropeça sempre, cedo ou tarde, com uma barreira, ultrapassada a qual converte-se num método unilateral, limitado, abstrato, e se perde em Insolúveis contradições, pois, absorvido pelos objetos concretos, não consegue perceber sua concatenação; preocupado com sua existência, não atenta em sua origem nem em sua caducidade; obcecado pelas árvores, não consegue ver o bosque. Na realidade de cada dia, sabemos, por exemplo, e podemos dizer com toda certeza se um animal existe ou não; porém, pesquisando mais detidamente, verificamos que às vezes o problema se complica consideravelmente, como sabem muito bem os juristas, que tanto e tão inutilmente têm-se atormentado por descobrir um limite racional a partir do qual deva a morte do filho no ventre materno ser considerada um assassinato; nem é fácil tampouco determinar rigidamente o momento da morte, uma vez que a fisiologia demonstrou que a morte não é um fenômeno repentino, instantâneo, mas um processo muito longo. Do mesmo modo, todo ser orgânico é, a qualquer instante, ele mesmo e outro; a todo Instante, assimila matérias absorvidas do exterior e elimina outras do seu interior; a todo instante, morrem certas células e nascem outras em seu organismo; e no transcurso de um período mais ou menos demorado a matéria de que é formado renova-se totalmente, e novos átomos de matérias vêm ocupar o lugar dos antigos, por onde todo o seu ser orgânico é, ao mesmo tempo, o que é e outro diferente. Da mesma maneira, observando as coisas detidamente, verificamos que os dois polos de uma antítese, o positivo e o negativo, são tão inseparáveis quanto antitéticos um do outro e que, apesar de todo o seu antagonismo, se penetram reciprocamente; e vemos que a causa e o efeito são representações que somente regem, como tais, em sua aplicação ao caso concreto, mas que, examinando o caso concreto em sua concatenação com a imagem total do universo, se juntam e se diluem na ideia de uma trama universal de ações e reações, em que as causas e os efeitos mudam constantemente de lugar e em que o que agora ou aqui é efeito adquire em seguida ou ali o caráter de causa, e vice-versa.

Nenhum desses fenômenos e métodos discursivos se encaixa no quadro das especulações metafísicas. Ao contrário, para a dialética, que focaliza as coisas e suas Imagens conceituais substancialmente em suas conexões, em sua concatenação, em sua dinâmica, em seu processo de nascimento e caducidade, fenômenos como os expostos não são mais que outras tantas confirmações de seu modo genuíno de proceder. A natureza é a pedra de toque da dialética, e as modernas ciências naturais nos oferecem para essa prova um acervo de dados extraordinariamente copiosos e enriquecido cada dia que passa, demonstrando com isso que a natureza se move, em última instância, pelos caminhos dialéticos e não pelas veredas metafísicas, que não se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido, mas percorre uma verdadeira história. Aqui é necessário citar Darwin, em primeiro lugar, quem, com sua prova de que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais, e entre eles, como é lógico, o homem, é o produto de um processo de desenvolvimento de milhões de anos, assestou na concepção metafísica da natureza o mais rude golpe. Até hoje, porém, os naturalistas que souberam pensar dialeticamente podem ser contados com os dedos, e esse conflito entre os resultados descobertos e o método discursivo tradicional põe a nu a ilimitada confusão que reina presentemente na teoria das ciências naturais e que constitui o desespero de mestres e discípulos, de autores e leitores.

Somente seguindo o caminho da dialética, não perdendo jamais de vista as inumeráveis ações e reações gerais do devir e do perecer, das mudanças de avanço e retrocesso, chegamos a uma concepção exata do universo, do seu desenvolvimento e do desenvolvimento da humanidade, assim como da imagem projetada por esse desenvolvimento nas cabeças dos homens. E foi esse, com efeito, o sentido em que começou a trabalhar, desde o primeiro momento, a moderna filosofia alemã. Kant iniciou sua carreira de filósofo dissolvendo o sistema solar estável de Newton e sua duração eterna – depois de recebido o primeiro impulso – num processo histórico: no nascimento do Sol e de todos os planetas a partir de uma massa nebulosa em rotação. Daí, deduziu que essa origem implicava também, necessariamente, a morte futura do sistema solar. Meio século depois sua teoria foi confirmada matematicamente por Laplace e, ao fim de outro meio século, o espectroscópio veio demonstrar a existência no espaço daquelas massas ígneas de gás, em diferente grau de condensação.

A filosofia alemã moderna encontrou sua culminância no sistema de Hegel, em que pela primeira vez – e aí está seu grande mérito – se concebe todo o mundo da natureza, da história e do espírito como um processo, isto é, em constante movimento, mudança, transformação e desenvolvimento, tentando além disso ressaltar a intima conexão que preside esse processo de movimento e desenvolvimento. Contemplada desse ponto de vista, a história da humanidade já. não aparecia como um caos inóspito de violências absurdas, todas igualmente condenáveis diante do foro da razão filosófica hoje já madura, e boas para serem esquecidas quanto antes, mas como o processo de desenvolvimento da própria humanidade, que cabia agora ao pensamento acompanhar em suas etapas graduais e através de todos os desvios, e demonstrar a existência de leis internas que orientam tudo aquilo que à primeira vista poderia parecer obra do acaso cego.

Não importava que o sistema de Hegel não resolvesse o problema que se propunha. Seu mérito, que marca época. consistiu em tê-lo proposto. Não em vão, trata-se de um problema que nenhum homem sozinho pôde resolver. E embora fosse Hegel, como Saint-Simon, a cabeça mais universal. de seu tempo, seu horizonte achava-se circunscrito, em primeiro lugar, pela limitação inevitável de seus próprios conhecimentos e, em segundo lugar, pelos conhecimentos e concepções de sua época, limitados também em extensão e profundidade. Deve-se acrescentar a isso uma terceira circunstância. Hegel era idealista; isto é, para ele as Idéias de sua cabeça não eram imagens mais ou menos abstratas dos objetos ou fenômenos da realidade, mas essas coisas e seu desenvolvimento se lhe afiguravam, ao contrário, como projeções realizadas da “Idéia”, que já existia, não se sabe como, antes de existir o mundo. Assim, foi tudo posto de cabeça para baixo, e a concatenação real do universal apresentava-se completamente às avessas. E por mais exatas e mesmo geniais que fossem várias das conexões concretas concebidas por Hegel, era inevitável, pelos motivos que acabamos de apontar, que muitos dos seus detalhes tivessem um caráter amaneirado, artificial, construído; em uma palavra, falso. O sistema de Hegel foi um aborto gigantesco, mas o último de seu gênero. De fato, continuava sofrendo de uma contradição interna incurável; pois, enquanto de um lado partia como pressuposto inicial da concepção histórica, segundo a qual a história humana é um processo de desenvolvimento que não pode, por sua natureza, encontrar o arremate intelectual na descoberta disso que chamam verdade absoluta, de outro lado nos é apresentado exatamente como a soma e a síntese dessa verdade absoluta. Um sistema universal e definitivamente plasmado do conhecimento da natureza e da história é incompatível com as leis fundamentais do pensamento dialético – que não exclui, mas longe disso implica que o conhecimento sistemático do mundo exterior em sua totalidade possa progredir gigantescamente de geração em geração.

A consciência da total inversão em que incorria o Idealismo alemão levou necessariamente ao materialismo; mas não, veja-se bem, àquele materialismo puramente metafísico e exclusivamente mecânico do século XVIII. Em oposição à simples repulsa, ingenuamente revolucionária, de toda a história anterior, o materialismo moderno vê na história o processo de desenvolvimento da humanidade, cujas leis dinâmicas é missão sua descobrir. Contrariamente à ideia da natureza que imperava entre os franceses do século XVIII, assim como em Hegel, em que esta era concebida como um todo permanente e invariável, que se movia dentro de ciclos estreitos, com corpos celestes eternos, tal como Newton os representava, e com espécies invariáveis de seres orgânicos, como ensinara Linneu, o materialismo moderno resume e compendia os novos progressos das ciências naturais, segundo os quais a natureza tem também sua história no tempo, e os mundos, assim como as espécies orgânicas que em condições propícias os habitam, nascem e morrem, e os ciclos, no grau em que são admissíveis, revestem dimensões infinitamente mais grandiosas. Tanto em um como em outro caso, o materialismo moderno é substancialmente dialético e já não precisa de uma filosofia superior às demais ciências. Desde o momento em que cada ciência tem que prestar contas da posição que ocupa no quadro universal das coisas e do conhecimento dessas coisas, já não há margem para uma ciência especialmente consagrada ao estudo das concatenações universais. Da filosofia anterior, com existência própria, só permanece de pé a teoria do pensar e de suas leis: a lógica formal e a dialética. O demais se dissolve na ciência positiva da natureza e da história.

No entanto, enquanto que essa revolução na concepção da natureza só se pôde impor na medida em que a pesquisa fornecia à ciência os materiais positivos correspondentes, já há muito tempo se haviam revelado certos fatos históricos que imprimiram uma reviravolta decisiva no modo de focalizar a história. Em 1831, estala em Lyon a primeira insurreição operária, e de 1838 a 1842 atinge o auge o primeiro movimento operário nacional: o dos cartistas ingleses. A luta de classes entre o proletariado e a burguesia passou a ocupar o primeiro plano da história dos países europeus mais avançados, ao mesmo ritmo em que se desenvolvia neles, de uni lado, a grande indústria, e de outro lado, a dominação política recém-conquistada da burguesia. Os fatos refutavam cada vez mais rotundamente as doutrinas burguesas da identidade de interesses entre o capital e o trabalho e da harmonia universal e o bem-estar geral das nações, como fruto da livre concorrência. Não havia como passar por alto esses fatos, nem era tampouco possível ignorar o socialismo francês e inglês, expressão teórica sua, por mais imperfeita que fosse.

Mas a velha concepção idealista da história, que ainda não havia sido removida, não conhecia lutas de classes baseadas em interesses materiais, nem conhecia interesses materiais de qualquer espécie; para ela a produção, bem como todas as relações econômicas, só existiam acessoriamente, como um elemento secundário dentro da “história cultural”. Os novos fatos obrigaram à revisão de toda a história anterior, e então se viu que, com exceção do Estado primitivo, toda a história anterior era a história das lutas de classes, e que essas classes sociais em luta entre si eram em todas as épocas fruto das relações de produção e de troca, isto é, das relações econômicas de sua época; que a estrutura econômica da sociedade em cada época da história constitui, portanto, a base real cujas propriedades explicam, em última análise, toda a superestrutura Integrada pelas instituições jurídicas e políticas, assim como pela ideologia religiosa, filosófica, etc., de cada período histórico. Hegel libertara da metafísica a concepção da história, tornando-a dialética; mas sua interpretação da história era essencialmente idealista. Agora, o idealismo fora despejado do seu último reduto: a concepção da história -, substituída por uma concepção materialista da história, com o que se abria o caminho para explicar a consciência do homem por sua existência, e não esta por sua consciência, que era até então o tradicional.

Desse modo o socialismo já não aparecia como a descoberta casual de tal ou qual intelecto genial, mas como o produto necessário da luta entre as duas classes formadas historicamente: o proletariado e a burguesia. Sua missão já não era elaborar um sistema o mais perfeito possível da sociedade, mas investigar o processo histórico econômico de que, forçosamente, tinham que brotar essas classes e seu conflito, descobrindo os meios para a solução desse conflito na situação econômica assim criada. Mas o socialismo tradicional era incompatível com essa nova concepção materialista da história, tanto quanto a concepção da natureza do materialismo francês não podia ajustar-se à dialética e às novas ciências naturais. Com efeito, o socialismo anterior criticava o modo de produção capitalista existente e suas consequências, mas não conseguia explicá-lo nem podia, portanto, destrui-lo ideologicamente; nada mais lhe restava senão repudiá-lo, pura o simplesmente, como mau. Quanto mais violentamente clamava contra a exploração da classe operária, inseparável desse modo de produção, menos estava em condições de indicar claramente em que consistia e como nascia essa exploração. Mas do que se tratava era, por um lado, de expor esse modo capitalista de produção em suas conexões históricas e como necessário para uma determinada época da história, demonstrando com isso também a necessidade de sua queda e, por outro lado, pôr a nu o seu caráter interno, ainda oculto. Isso se tornou evidente com a descoberta da mais-valia. Descoberta que veio revelar que o regime capitalista de produção e a exploração do operário, que dele se deriva, tinham por forma fundamental a apropriação de trabalho não pago; que o capitalista, mesmo quando compra a força de trabalho de seu operário por todo o seu valor, por todo o valor que representa como mercadoria no mercado, dela retira sempre mais valor do que lhe custa e que essa mais-valia é, em última análise, a soma de valor de onde provém a massa cada vez maior do capital acumulado em mãos das classes possuidoras. O processo da produção capitalista e o da produção de capital estavam assim explicados.

Essas duas grandes descobertas – a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista através da mais-valia – nós as devemos a Karl Marx. Graças a elas o materialismo converte-se em uma ciência, que só nos resta desenvolver em todos os seus detalhes e concatenações.

3 – O Materialismo Histórico:

A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e com ela a troca dos produtos, é a base de toda a ordem social; de que em todas as sociedades que desfilam pela história, a distribuição dos produtos, e juntamente com ela a divisão social dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo que a sociedade produz e como produz o pelo modo de trocar os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas as transformações sociais e de todas as revoluções políticas não devem ser procuradas nas cabeças dos homens nem na ideia que eles façam da verdade eterna ou da eterna justiça, mas nas transformações operadas no modo de produção e de troca; devem ser procuradas não na filosofia, mas na economia da época de que se trata. Quando nasce nos homens a consciência de que as instituições sociais vigentes são irracionais e injustas, de que a razão se converteu em insensatez e a bênção em praga (7), isso não é mais que um indício de que nos métodos de produção e nas formas de distribuição produziram-se silenciosamente transformações com as quais já não concorda a ordem social, talhada segundo o padrão de condições econômicas anteriores. E assim já está dito que nas novas relações de produção têm forçosamente que conter-se – mais ou menos desenvolvidos – os meios necessários para pôr termo aos males descobertos. E esses meios não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça é que tem de descobri-los nos fatos materiais da produção, tal e qual a realidade os oferece.

Qual é, nesse aspecto, a posição do socialismo moderno?

A ordem social vigente – verdade reconhecida hoje por quase todo o mundo – é obra das classes dominantes dos tempos modernos, da burguesia. O modo de produção característico da burguesia, ao qual desde Marx se dá o nome de modo capitalista de produção, era incompatível com os privilégios locais e dos estados, como o era com os vínculos interpessoais da ordem feudal. A burguesia lançou por terra a ordem feudal e levantou sobre suas ruínas o regime da sociedade burguesa, o império da livre concorrência, da liberdade de domicílio, da igualdade de direitos dos possuidores de mercadorias, e tantas outras maravilhas burguesas. Agora já podia desenvolver-se livremente o modo capitalista de produção. E ao chegarem o vapor e a nova maquinaria ferramental, transformando a antiga manufatura na grande indústria, as forças produtivas criadas e postas em movimento sob o comando da burguesia desenvolveram-se com uma velocidade Inaudita e em proporções até então desconhecidas. Mas, do mesmo modo que em seu tempo a manufatura e o artesanato, que continuava desenvolvendo-se sob sua influência, se chocavam com os entraves feudais das corporações, a grande indústria, ao chegar a um uivei de desenvolvimento mais alto, já não cabe no estreito marco em que é contida pelo modo de produção capitalista. As novas forças produtivas transbordam já da forma burguesa em que são exploradas, e esse conflito entre as forças produtivas e o modo de produção não é precisamente nascido na cabeça do homem – algo assim como o conflito entre o pecado original do homem e a Justiça divina – mas tem suas raízes nos fatos, na realidade objetiva, fora de nós, independentemente da vontade ou da atividade dos próprios homens que o provocaram. O socialismo moderno não é mais que o reflexo desse conflito material na consciência, sua projeção Ideal nas cabeças, a começar pelas da classe que sofre diretamente suas consequências: a classe operária.

Em que consiste esse conflito? Antes de sobrevir a produção capitalista, isto é, na Idade Média, dominava, com caráter geral, a pequena Indústria, baseada na propriedade privada do trabalhador sobre seus meios de produção: no campo, a agricultura corria a cargo de pequenos lavradores, livres ou vassalos; nas cidades, a indústria achava-se em mãos dos artesãos. Os meios de trabalho – a terra, os instrumentos agrícolas, a oficina, as ferramentas – eram meios de trabalho individual, destinados unicamente ao uso individual e, portanto, forçosamente, mesquinhos, diminutos, limitados. – Mas isso mesmo levava a que pertencessem, em geral, ao próprio produtor. O papel histórico do modo capitalista de produção e seu portador – a burguesia – consistiu precisamente em concentrar e desenvolver esses dispersos e mesquinhos meios de produção, transformando-os nas poderosas alavancas produtoras dos tempos atuais. Esse processo, que a burguesia vem desenvolvendo desde o século XV e que passa historicamente pelas três etapas da cooperação simples, a manufatura e a grande indústria, é minuciosamente exposto por Marx na seção quarta de O Capital. Mas a burguesia, como fica também demonstrado nessa obra, não podia converter aqueles primitivos meios de produção em poderosas forças produtivas sem transformá-los de meios individuais de produção em meios sociais, -só manejáveis por uma coletividade de homens. A roca, O tear manual e o martelo do ferreiro foram substituídos pela máquina de fiar, pelo tear mecânico, pelo martelo movido a vapor; a oficina individual deu o lugar à fábrica, que impõe a cooperação de centenas e milhares de operários. E, com os meios de produção, transformou-se a própria produção, deixando de ser uma cadeia de atos Individuais para converter-se numa cadeia de atos sociais, e os produtos transformaram-se de produtos individuais em produtos sociais. O fio, as telas, os artigos de metal que agora safam da fábrica eram produto do trabalho coletivo de um grande número de operários, por cujas mãos tinha que passar sucessivamente para sua elaboração. Já ninguém podia dizer: isso foi feito por mim, esse produto é meu.

Mas onde a produção tem por forma principal um regime de- divisão social do trabalho criado paulatinamente, por impulso elementar, sem sujeição a plano algum, a produção imprime aos produtos a forma de mercadoria, cuja troca, compra e venda permitem aos diferentes produtores Individuais satisfazer suas diversas necessidades. E isso era o que acontecia na Idade Média. O camponês, por exemplo, vendia ao artesão os produtos da terra, comprando-lhe em troca os artigos elaborados em sua oficina. Nessa sociedade de produtores Isolados, de produtores de mercadorias, veio a introduzir-se mais tarde o novo modo de produção. Em meio àquela divisão elementar do trabalho, sem plano nem sistema, que imperava no seio de toda a sociedade, o novo modo de produção implantou a divisão planificada do trabalho dentro de cada fábrica; ao lado da produção individual surgiu a produção social Os produtos de ambas eram vendidos no mesmo mercado e, portanto, a preços aproximadamente iguais. Mas a organização planificada podia mais que a divisão elementar do trabalho; as fábricas em que o trabalho estava organizado socialmente elaboravam seus produtos mais baratos que os pequenos produtores Isolados. A produção Individual foi pouco a pouco sucumbindo em todos os campos e a produção social revolucionou todo o antigo modo de produção. Contudo, esse caráter revolucionário passava despercebido; tão despercebido que, pelo contrário, se implantava com a única e exclusiva finalidade de aumentar e fomentar a produção de mercadorias. Nasceu diretamente ligada a certos setores de produção e troca de mercadorias que já vinham funcionando: o capital comercial, a indústria artesanal e o trabalho assalariado. E já que surgia como uma nova forma de produção de mercadorias, mantiveram-se em pleno vigor sob ela as formas de apropriação da produção de mercadorias.

Na produção de mercadorias, tal como se havia desenvolvido na Idade Média, não podia surgir o problema de a quem pertencer os produtos do trabalho. O produtor individual criava-os, geralmente, com matérias-primas de sua propriedade, produzidas não poucas vezes por ele mesmo, com seus próprios meios de trabalho e elaborados com seu próprio trabalho manual ou de sua família. Não necessitava, portanto, apropriar-se deles, pois já eram seus pelo simples fato de produzi-los. A propriedade dos produtos baseava-se, pois, no trabalho pessoal. E mesmo naqueles casos em que se empregava a ajuda alheia, esta era, em regra, acessória, e recebia frequentemente, além do salário, outra compensação: o aprendiz e o oficial das corporações não trabalhavam menos pelo salário e pela comida do que para aprender a chegar a ser mestres algum dia. Sobrevêm a concentração dos meios de produção em grandes oficinas e manufaturas, sua transformação em meios de produção realmente sociais. Entretanto, esses meios de produção e seus produtos sociais foram considerados como se continuassem a ser o que eram antes: meios de produção e produtos individuais. E se até aqui o proprietário dos meios de trabalho se apropriara dos produtos, porque eram, geralmente, produtos seus e a ajuda constituía uma exceção, agora o proprietário dos meios de trabalho continuava apoderando-se do produto, embora já não fosse um produto seu, mas fruto exclusivo do trabalho alheio. Desse modo, os produtos, criados agora socialmente, não passavam a ser propriedade daqueles que haviam posto realmente em marcha os meios de produção e eram realmente seus criadores, mas do capitalista. Os meios de produção e a produção foram convertidos essencialmente em fatores sociais. E, no entanto, viam-se submetidos a uma forma da apropriação que pressupõe a produção privada Individual, isto é, aquela em que cada qual é dono de seu próprio produto e, como tal, comparece com ele ao mercado. O modo de produção se vê sujeito a essa forma de apropriação apesar de destruir o pressuposto sobre o qual repousa (8) nessa contradição, que imprime ao novo modo de produção o seu caráter capitalista, encerra-se em germe, todo o conflito dos tempos atuais. E quanto mais o novo modo de produção se impõe e impera em todos os campos fundamentais da produção e em todos os países economicamente importantes, afastando a produção individual, salvo vestígios insignificantes, maior é a evidência com que se revela a incompatibilidade entre a produção social e a apropriação capitalista.

Os primeiros capitalistas já se encontraram, como ficou dito, com a forma do trabalho assalariado. Mas como exceção, como ocupação secundária, como simples ajuda, como ponto de transição. O lavrador que saía de quando em vez para ganhar uma diária, tinha seus dois palmos de terra própria, graças às quais, em caso extremo, podia viver. Os regulamentos das corporações velavam para que os oficiais de hoje se convertessem amanhã em mestres. Mas, logo que os meios de produção adquiriram um caráter social e se concentraram em mãos dos capitalistas, as coisas mudaram. Os meios de produção e os produtos do pequeno produtor individual foram sendo cada vez mais depreciados, até que a esse pequeno produtor não ficou outro recurso senão ganhar um salário pago pelo capitalista. O trabalho assalariado, que era antes exceção e mera ajuda, passou a ser regra e forma fundamental de toda a produção, e o que era antes ocupação acessória se converte em ocupação exclusiva do operário. O operário assalariado temporário transformou-se em operário assalariado para toda a vida. Ademais, a multidão desses para sempre assalariados vê-se engrossada em proporções gigantescas pela derrocada simultânea da ordem feudal, pela dissolução das mesnadas (9) dos senhores feudais, a expulsão dos camponeses de suas terras, etc. Realizara-se o completo divórcio entre os meios de produção concentrados nas mãos dos capitalistas, de um lado, e, de outro lado, os produtores que nada possuíam além de sua própria força de trabalho. A contradição entre a produção social e a apropriação capitalista reveste a forma de antagonismo entre o proletariado e a burguesia.

Vimos que o modo de produção capitalista se introduziu numa sociedade de produtores de mercadorias, de produtores Individuais, cujo vinculo social era o intercâmbio de seus produtos. Mas toda sociedade baseada na produção de mercadorias apresenta a particularidade de que nela os produtores perdem o comando sobre suas próprias relações sociais. Cada qual produz para si, com os meios de produção de que consegue dispor, e para as necessidades de seu intercâmbio privado. Ninguém sabe qual a quantidade de artigos do mesmo tipo que os demais lançam no mercado, nem da quantidade que o mercado necessita; ninguém sabe se seu produto Individual corresponde a uma demanda efetiva, nem se poderá cobrir os gastos, nem sequer, em geral, se poderá vendê-lo. A anarquia impera na produção social. Mas a produção de mercadorias tem, como toda forma de produção, suas leis características, próprias e inseparáveis dela; e essas leis abrem caminho apesar da anarquia, na própria anarquia e através dela. Tomam corpo na única forma de enlace social que subsiste: na troca, e se impõem aos produtores Individuais sob a forma das leis Imperativas da concorrência. A princípio, esses produtores as Ignoram, e é preciso que uma larga experiência vá revelando-as, pouco a pouco. Impõem-se, pois, sem os produtores, e mesmo contra eles, como leis naturais cegas que presidem essa forma de produção. O produto impera sobre o produtor.

Na sociedade medieval, e sobretudo em seus primeiros séculos, a produção destinava-se principalmente ao consumo próprio, a satisfazer apenas às necessidades do produtor e sua família. E onde, como acontecia no campo, subsistiam relações pessoais de vassalagem, contribuía também para satisfazer às necessidades do senhor feudal. Não se produzia, pois, nenhuma troca, nem os produtos revestiam, portanto, o caráter de mercadorias. A família do lavrador produzia quase todos os objetos de que necessitava: utensílios, roupas e viveres. Só começou a produzir mercadorias quando começou a criar um excedente de produtos, depois de cobrir suas próprias necessidades e os tributos em espécie que devia pagar ao senhor feudal; esse excedente, lançado no intercâmbio social, no mercado, para sua venda, converteu-se em mercadoria. Os artesãos das cidades, por certo, tiveram que produzir para o mercado desde o primeiro momento. Mas também elaboravam eles próprios a maior parte dos produtos de que necessitavam para seu consumo; tinham suas hortas e seus pequenos campos, apascentavam seu gado nos campos comunais, que lhes forneciam também madeira e lenha; suas mulheres fiavam o linho e a lã, etc. A produção para a troca, a produção de mercadorias, achava-se em seu início. Por isso o intercâmbio era limitado, o mercado era reduzido, o modo de produção era estável. Em face do exterior imperava o exclusivismo local; no interior, a associação local: a Marca no campo, as corporações nas cidades.

Mas ao estender-se a produção de mercadorias e, sobretudo, ao aparecer o modo capitalista de produção, as leis da produção de mercadorias, que até aqui haviam apenas dado sinais de vida, passam a funcionar de maneira aberta e p0-dêrosa. As antigas associações começam a perder força, as antigas fronteiras vão caindo por terra, os produtores vão convertendo-se mais e mais em produtores de mercadorias independentes e isolados. A anarquia da produção social sai à luz e se aguça cada vez mais. Mas o instrumento principal com que o modo de produção capitalista fomenta essa anarquia na produção social é precisamente o Inverso da anarquia: a crescente organização da produção com caráter social, dentro de cada estabelecimento de produção. Por esse meio, põe fim à velha estabilidade pacifica. Onde se implanta num ramo industrial, não tolera a seu lado nenhum dos velhos métodos. Onde se apodera da indústria artesanal, ela a destrói e aniquila. O terreno de trabalho transforma-se num campo de batalha. As grandes descobertas geográficas e as empresas de colonização que as acompanham multiplicam os mercados e aceleram o processo de transformação de oficina do artesão em manufatura. E a luta não eclode somente entre os produtores locais isolados; as contendas locais não adquirem envergadura nacional, e surgem as guerras comerciais dos séculos XVII e XVIII (10). Até que, por fim, a grande indústria e a implantação do mercado mundial dão caráter universal à luta, ao mesmo tempo que lhe imprimem uma inaudita violência. Tanto entre os capitalistas individuais como entre industriais e países inteiros, a primazia das condições – natural ou artificialmente criadas – da produção decide a luta pela existência. O que sucumbe é esmagado sem piedade. É a luta darwinista da existência individual transplantada, com redobrada fúria, da natureza para a sociedade. As condições naturais de vida da besta convertem-se no ponto culminante do desenvolvimento humano. A contradição entre a produção social e a apropriação capitalista manifesta-se agora como antagonismo entre a organização da produção dentro de cada fábrica e a anarquia da produção no seio de toda a sociedade.

O modo capitalista de produção move-se nessas duas formas da contradição a ele inerente por suas próprias origens, descrevendo sem apelação aquele “círculo vicioso” já revelado por Fourier. Mas o que Fourier não podia ver ainda em sua época é que esse círculo se vai reduzindo gradualmente, que o movimento se desenvolve em espiral e tem de chegar necessariamente ao seu fira, como o movimento dos planetas. Chocando-se com o centro. É a força propulsora da anarquia social da produção que converte a Imensa maioria dos homens, cada vez mais marcadamente, em proletários, e essas massas proletárias serão, por sua vez, as que, afinal, porão fim à anarquia da produção É a força propulsora da anarquia social da produção que converte a capacidade infinita de aperfeiçoamento das máquinas num preceito imperativo, que obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente a sua maquinaria, sob pena de perecer. Mas melhorar a maquinaria equivale a tornar supérflua uma massa de trabalho humano. E assim como a implantação e o aumento quantitativo da maquinaria trouxeram consigo a substituição de milhões de operários manuais por um número reduzido de operários mecânicos, seu aperfeiçoamento determina a eliminação de um número cada vez maior de operários das máquinas e, em última instância, a criação de uma massa de operários disponíveis que ultrapassa a necessidade média de ocupação do capital, de um verdadeiro exército industrial de reserva, como eu já o chamara em 1845 (11), de um exército de trabalhadores disponíveis para as épocas em que a indústria trabalha a pleno vapor e que logo nas crises que sobrevêm necessariamente depois desses períodos, é lançado às ruas, constituindo a todo momento uma grilheta amarrada aos pés da classe trabalhadora em sua luta pela existência contra o capital e um regulador para manter os salários no nível baixo correspondente às necessidades do capitalista. Assim, para dizê-lo com Marx, a maquinaria converteu-se na mais poderosa arma do capital contra a classe operária, um meio de trabalho que arranca constantemente os meios de vida das mãos do operário, acontecendo que o produto do próprio operário passa a ser o instrumento de sua escravização. Desse modo, a economia nos meios de trabalho leva consigo, desde o primeiro momento, o mais impiedoso desperdício da força de trabalho e a espoliação das condições normais da função mesma do trabalho. E a maquinaria, o recurso mais poderoso que se pôde criar para reduzir a jornada de trabalho, converte-se no mais infalível recurso para converter a vida inteira do operário e de sua família numa grande jornada disponível para a valorização do capital; ocorre, assim, que o excesso de trabalho de uns é a condição determinante da carência de trabalho de outros, e que a grande indústria, lançando-se pelo mundo inteiro, em desabalada carreira, à conquista de novos consumidores, reduz em sua própria casa o consumo das massas a um mínimo de fome e mina com isso o seu próprio mercado interno. “A lei que mantém constantemente o excesso relativo de população ou exército industrial de reserva em equilíbrio com o volume e a intensidade da acumulação do capital amarra o operário ao capital com ataduras mais fortes do que as cunhas com que Vulcano cravou Prometeu no rochedo. Isso dá origem a que a acumulação do capital corresponda a uma acumulação igual de miséria. A acumulação de riqueza em um dos polos determina no polo oposto, no polo da classe que produz o seu próprio produto como capital, uma acumulação igual de miséria, de tormentos de trabalho, de escravidão, de ignorância, de embrutecimento e de degradação moral.” (Marx, O Capital, t. 1, cap. XXIII) E esperar do modo capitalista de produção uma distribuição diferente dos produtos seria o mesmo que esperar que os dois eletrodos de uma bateria, enquanto conectados com ela, não decomponham a água nem engendrem oxigênio no polo positivo e hidrogênio no polo negativo.

Vimos que a capacidade de aperfeiçoamento da maquinaria moderna, levada a seu limite máximo, converte-se, em virtude da anarquia da produção dentro da sociedade num preceito imperativo que obriga os capitalistas industriais, cada qual por si, a melhorar incessantemente a sua maquinaria, a tornar sempre mais poderosa a sua força de produção. Não menos imperativo é o preceito em que se converte para ele a mera possibilidade efetiva de dilatar sua órbita de produção. A enorme força de expansão da grande indústria, a cujo lado a expansão dos gases é uma brincadeira de crianças, revela-se hoje diante de nossos olhos como uma necessidade qualitativa e quantitativa de expansão, que zomba de todos os obstáculos que se lhe deparam. Esses obstáculos são os que lhe opõem o consumo, a saída, os mercados de que os produtos da grande indústria necessitam. Mas a capacidade extensiva e intensiva de expansão dos mercados obedece, por sua vez, a leis muito diferentes e que atuam de uma maneira muito menos enérgica. A expansão dos mercados não podo desenvolver-se ao mesmo ritmo que a da produção. A colisão torna-se inevitável, e como é impossível qualquer solução senão fazendo-se saltar o próprio modo capitalista de produção, essa colisão torna-se periódica. A produção capitalista engendra um novo “círculo vicioso”.

Com efeito, desde 1825, ano em que estalou a primeira crise geral, não se passam dez anos seguidos sem que todo o mundo industrial e comercial, a distribuição e a troca de todos os povos civilizados e de seu séquito de países mais ou menos bárbaros, saia dos eixos. O comércio é paralisado, os mercados são saturados de mercadorias, os produtos apodrecem nos armazéns abarrotados, sem encontrar saída; o dinheiro torna-se invisível; o crédito desaparece; as fábricas param; as massas operárias carecem de meios de subsistência precisamente por tê-los produzido em excesso, as bancarrotas e falências se sucedem. O paradeiro dura anos inteiros, as forças produtivas e os produtos são malbaratados e destruídos em massa até que, por fim, os estoques de mercadorias acumuladas, mais ou menos depreciadas, encontram saída, e a produção e a troca se vão reanimando pouco a pouco. Paulatinamente, a marcha se acelera, a andadura converte-se em trote, o trote industrial em galope e, finalmente, em carreira desenfreada, num steeple-chase (12) da indústria, do comércio, do crédito, da especulação, para terminar, por fim, depois dos saltos mais arriscados, na fossa de um crack. E assim, sucessivamente. Cinco vezes repete-se a mesma história desde 1825, e presentemente (1877) estamos vivendo-a pela sexta vez. E o caráter dessas crises é tão nítido e tão marcante que Fourier as abrangia todas ao descrever a primeira, dizendo que era uma crise plétorique, uma crise nascida da superabundância.

Nas crises estala em explosões violentas a contradição entre a produção social e a apropriação capitalista. A circulação de mercadoria fica, por um momento, paralisada. O meio de circulação, o dinheiro, converte-se num obstáculo para a circulação; todas as leis da produção e da circulação das mercadorias viram pelo avesso. O conflito econômico atinge seu ponto culminante: o modo de produção rebela-se contra o modo de distribuição.

O fato de que a organização social da produção dentro das fábricas se tenha desenvolvido até chegar a um ponto em que passou a ser inconciliável com a anarquia – coexistente com ela e acima dela – da produção na sociedade é um rato que se revela palpavelmente aos próprios capitalistas pela concentração violenta dos capitais, produzida durante as crises à custa da ruína de numerosos grandes e, sobretudo, pequenos capitalistas. Todo o mecanismo do modo de produção falha, esgotado pelas forças produtivas que ele mesmo engendrou. Já não consegue transformar em capital essa massa de meios de produção, que permanecem inativos, e por isso precisamente deve permanecer também inativo o exército industrial de reserva. Meios de produção, meios de vida, operários em disponibilidade: todos os elementos da produção e da riqueza geral existem em excesso. Mas a “superabundância converte-se em fonte de miséria e de penúria” (Fourier), já que é ela, exatamente, que impede a transformação dos meios de produção e de vida em capital, pois na sociedade capitalista os meios de produção não podem pôr-se em movimento senão transformando-se previamente em capital, em meio de exploração da força humana de trabalho. Esse imprescindível caráter de capital dos meios de produção ergue-se como um espectro entre eles e a classe operária. É isso o que impede que se engrenem a alavanca material e a alavanca pessoal da produção; é o que não permite aos meios de produção funcionar nem aos operários trabalhar e viver. De um lado, o modo capitalista de produção revela, pois, sua própria incapacidade para continuar dirigindo suas forças produtivas. De outro lado, essas forças produtivas compelem com uma intensidade cada vez maior no sentido de que resolva a contradição, de que sejam redimidas de sua condição de capital, de que seja efetivamente reconhecido o seu caráter de forças produtivas sociais.

É essa rebelião das forças de produção, cada vez mais imponentes, contra a sua qualidade de capital, essa necessidade cada vez mais imperiosa de que se reconheça o seu caráter social, que obriga a própria classe capitalista a considerá-las cada vez mais abertamente como forças produtivas sociais, na medida em que é possível dentro das relações capitalistas. Tanto os períodos de elevada pressão industrial, com sua desmedida expansão do crédito, como o próprio crack, com o desmoronamento de grandes empresas capitalistas, estimulam essa forma de socialização de grandes massas de meios de produção que encontramos nas diferentes categorias de sociedades anônimas. Alguns desses meios de produção e de comunicação já são por si tão gigantescos que excluem, como ocorre com as ferrovias, qualquer outra forma de exploração capitalista. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento já não basta tampouco essa forma; os grandes produtores nacionais de um ramo Industrial unem-se para formar um truste, um consórcio destinado a regular a produção; determinam a quantidade total que deve ser produzida, dividem-na entre eles e impõem, desse modo, um preço de venda de antemão fixado. Como, porém, esses trustes se desmoronam ao sobrevirem os primeiros ventos maus nos negócios, conduzem com isso a uma socialização ainda mais concentrada; todo o ramo industrial converte-se numa única grande sociedade anônima, e a concorrência interna dá lugar ao monopólio interno dessa sociedade única; assim aconteceu já em 1890 com a produção inglesa de álcalis, que na atualidade, depois da fusão de todas as quarenta e oito grandes fábricas do país, é explorada por uma só sociedade com direção única e um capital de 120 milhões de marcos.

Nos trustes, a livre concorrência transforma-se em monopólio e a produção sem plano da sociedade capitalista capitula ante a produção planificada e organizada da nascente sociedade socialista. É claro que, no momento, em proveito e benefício dos capitalistas. Mas aqui a exploração torna-se tão patente, que tem forçosamente de ser derrubada. Nenhum povo toleraria uma produção dirigida pelos trustes, uma exploração tão descarada da coletividade por uma pequena quadrilha de cortadores de cupões.

De um modo ou de outro, com ou sem trustes, o representante oficial da sociedade capitalista, o Estado, tem que acabar tomando a seu cargo o comando da produção (13) A necessidade a que corresponde essa transformação de certas empresas em propriedade do Estado começa a manifestar-se nas grandes empresas de transportes e comunicações, tais como o correio, o telégrafo e as ferrovias.

Além da incapacidade da burguesia para continuar dirigindo as forças produtivas modernas que as crises revelam, a transformação das grandes empresas de produção e transporte em sociedades anônimas, trustes e em propriedade do’ Estado demonstra que a burguesia já não é indispensável para o desempenho dessas funções. Hoje, as funções sociais do capitalista estão todas a cargo de empregados assalariados, e toda a atividade social do capitalista se reduz a cobrar suas rendas, cortar seus cupões e jogar na bolsa, onde os capitalistas de toda espécie arrebatam, uns aos outro, os seus capitais. E se antes o modo capitalista de produção deslocava os operários, agora desloca também os capitalistas, lançando-os, do mesmo modo que aos operários, entre a população excedente; embora, por enquanto ainda não no exército industrial de reserva.

Mas as forças produtivas não perdem sua condição de capital ao converter-se em propriedade das sociedades anônimas e dos trustes ou em propriedade do Estado. No que se refere aos trustes e sociedades anônimas, é palpavelmente claro. Por sua parte, o Estado moderno não é tampouco mais que uma organização criada pela sociedade burguesa para defender as condições exteriores gerais do modo capitalista de produção contra os atentados, tanto dos operários como dos capitalistas isolados. O Estado moderno, qualquer que seja a sua forma, é uma máquina essencialmente capitalista, é o Estado dos capitalistas, o capitalista coletivo Ideal. E quanto mais forças produtivas passe à sua propriedade tanto mais se converterá em capitalista coletivo e tanto maior quantidade de cidadãos explorará. Os operários continuam sendo operários assalariados, proletários. A relação capitalista, longe de ser abolida com essas medidas, se aguça. Mas, ao chegar ao cume, esboroa-se. A propriedade do Estado sobre as forças produtivas não é solução do conflito, mas abriga já em seu seio o meio formal, o instrumento para chegar à solução.

Essa solução só pode residir em ser reconhecido de um modo efetivo o caráter social das forças produtivas modernas e, portanto, em harmonizar o modo de produção, de apropriação e de troca com o caráter social dos meios de produção. Para isso, não há senão um caminho: que a sociedade, abertamente e sem rodeios, tome posse dessas forças produtivas, que já não admitem outra direção a não ser a sua. Assim procedendo, o caráter social dos meios de produção e dos produtos, que hoje se volta contra os próprios produtores, rompendo periodicamente as fronteiras do modo de produção e de troca, e só pode impor-se com uma força e eficácia tão destruidoras como o impulso cego das leis naturais, será posto em vigor com plena consciência pelos produtores e se converterá, de causa constante de perturbações e cataclismas periódicos, na alavanca mais poderosa da própria produção.

As forças ativas da sociedade atuam, enquanto não as conhecemos e contamos com elas, exatamente como as forças da natureza: de modo cego violento e destruidor. Mas, uma vez conhecidas, logo que se saiba compreender sua ação, suas tendências e seus efeitos, está em nossas mãos o sujeitá-las cada vez mais à nossa vontade e, por meio delas, alcançar os fins propostos. Tal é o que ocorre, muito especialmente, com as gigantescas forças modernas da produção. Enquanto resistirmos obstinadamente a compreender sua natureza e seu caráter – e a essa compreensão se opõem o modo capitalista de produção e seus defensores -, essas forças atuarão apesar de nós, e nos dominarão, como bem ressaltamos. Em troca, assim que penetramos em sua natureza, essas forças, postas em mãos dos produtores associados, se converterão de tiranos demoníacos em servas submissas. É a mesma diferença que há entre o poder maléfico da eletricidade nos raios da tempestade e o poder benéfico da força elétrica dominada no telégrafo e no arco voltaico; a diferença que há entre o fogo destruidor e o fogo posto a serviço do homem. O dia em que as forças produtivas da sociedade moderna se submeterem ao regime congruente com a sua natureza por fim conhecida, a anarquia social da produção deixará o seu posto à regulamentação coletiva e organizada da produção, de acordo com as necessidades da sociedade e do indivíduo. E o regime capitalista de apropriação, em que o produto escraviza primeiro quem o cria e, em seguida, a quem dele se apropria, será substituído pelo regime de apropriação do produto que o caráter dos modernos meios de produção está reclamando: de um lado, apropriação diretamente social, como meio para manter e ampliar a produção; de outro lado, apropriação diretamente individual, como meio de vida e de proveito.

O modo capitalista de produção, ao converter mais e mais em proletários a imensa maioria dos indivíduos de cada pais, cria a força que, se não quiser perecer, está obrigada a fazer essa revolução. E, ao forçar cada vez mais a conversão dos grandes meios socializados de produção em propriedade do Estado, já indica por si mesmo o caminho pelo qual deve produzir-se essa revolução. O proletariado toma em suas mãos o Poder do Estado e principia por converter os meios de produção em propriedade do Estado. Mas, nesse mesmo ato, destrói-se a si próprio como proletariado, destruindo toda diferença e todo antagonismo de classes, e com isso o Estado como tal. A sociedade, que se movera até então entre antagonismos de classe, precisou do Estado, ou seja, de uma organização da classe exploradora correspondente para manter as condições externas de produção e, portanto, particularmente, para manter pela força a classe explorada nas condições de opressão (a escravidão, a servidão ou a vassalagem e o trabalho assalariado), determinadas pelo modo de produção existente. O Estado era o representante oficial de toda a sociedade, sua síntese num corpo social visível; mas o era só como Estado que, em sua época, representava toda a sociedade: na antiguidade era o Estado dos cidadãos escravistas, na Idade Média o da nobreza feudal; em nossos tempos, da burguesia.
Quando o Estado se converter, finalmente, em representante efetivo de toda a sociedade, tornar-se-á por si mesmo supérfluo. Quando já não existir nenhuma classe social que precise ser submetida; quando desaparecerem, juntamente com a dominação de classe, juntamente com a luta pela existência individual, engendrada pela atual anarquia da produção, os choques e os excessos resultantes dessa luta, nada mais haverá para reprimir, nem haverá necessidade, portanto, dessa força especial de repressão que é o Estado.

O primeiro ato em que o Estado se manifesta efetivamente como representante de toda a sociedade – a posse dos meios de produção em nome da sociedade – é ao mesmo tempo o seu último ato independente como Estado. A intervenção da autoridade do Estado nas relações sociais tornar-se-á supérflua num campo após outro da vida social e cessará por si mesma. O governo sobre as pessoas é substituído pela administração das coisas e pela direção dos processos de produção. O Estado não será “abolido”, extingue-se. É partindo daí que se pode julgar o valor do falado “Estado popular livre” no que diz respeito à sua justificação provisória como palavra de ordem de agitação e no que se refere à sua falta de fundamento científico. É também partindo daí que deve ser considerada a exigência dos chamados anarquistas de que o Estado seja abolido da noite para o dia.

Desde que existe historicamente o modo capitalista de produção, houve indivíduos e seitas inteiras diante dos quais se projetou mais ou menos vagamente, como ideal futuro, a apropriação de todos os meios de produção pela sociedade. Mas, para que isso fosse realizável, para que se convertesse numa necessidade histórica, fazia-se preciso que se dessem antes as condições efetivas para a sua realização. A fim de que esse progresso, como todos os progressos sociais, seja viável, não basta ser compreendido pela razão que a existência de classes é incompatível com os ditames da justiça, da Igualdade, etc.; não basta a simples vontade de abolir essas classes – mas são necessárias determinadas condições econômicas novas. A divisão da sociedade em uma classe exploradora e outra explorada, em uma classe dominante e outra oprimida, era uma consequência necessária do anterior desenvolvimento incipiente da produção. Enquanto o trabalho global da sociedade der apenas o estritamente necessário para cobrir as necessidades mais elementares de todos, e talvez um pouco mais; enquanto, por isso, o trabalho absorver todo’ o tempo, ou quase todo o tempo, da imensa maioria dos membros da sociedade, esta se divide, necessariamente, em classes. Junto à grande maioria constrangida a não fazer outra coisa senão suportar a carga do trabalho, forma-se uma classe que se exime do trabalho diretamente produtivo e a cujo cargo’ correm os assuntos gerais da sociedade: a direção dos trabalhos, os negócios públicos, a justiça, as ciências, as artes, etc. É, pois, a lei da divisão do trabalho que serve de base à divisão da sociedade em classes. O que não impede que essa divisão da sociedade em classes se realize por meio da violência e a espoliação, a astúcia e o logro; nem quer dizer que a classe dominante, uma vez entronizada, se abstenha de consolidar o seu poderio à custa da classe trabalhadora, transformando seu papel social de direção numa maior exploração das massas.

Vemos, pois, que a divisão da sociedade em classes tem sua razão histórica de ser, mas só dentro de determinados limites de tempo, sob determinadas condições sociais. Era condicionada pela insuficiência da produção, e será varrida quando se desenvolverem plenamente as modernas forças produtivas. Com efeito, a abolição das classes sociais pressupõe um grau histórico de desenvolvimento tal que a existência, já não dessa ou daquela classe dominante concreta, mas de uma classe dominante qualquer que seja ela, e, portanto, das próprias diferenças de classe representa um anacronismo. Pressupõe, por conseguinte, um grau culminante no desen~o1vi-mento da produção em que a apropriação dos meios de produção e dos produtos e, portanto, do poder político, do monopólio da cultura e da direção espiritual por uma determinada classe da sociedade, não só se tornou de fato supérfluo, mas constitui econômica, política e intelectualmente uma barreira levantada ante o progresso. Pois bem, já se chegou a esse ponto. Hoje, a bancarrota política e intelectual da burguesia não é mais um segredo nem para ela mesma e sua bancarrota econômica é um fenômeno que se repete periodicamente de dez em dez anos. Em cada uma dessas crises a sociedade se asfixia, afogada pela massa de suas próprias forças produtivas e de seus produtos, aos quais não pode aproveitar e, impotente, vê-se diante da absurda contradição de que os seus produtores não tenham o que consumir, por falta precisamente de consumidores. A força expansiva dos meios de produção rompe as ataduras com que são submetidos pelo modo capitalista de produção, Só essa libertação dos meios de produção é que pode permitir o desenvolvimento ininterrupto e cada vez mais rápido das forças produtivas e, com isso, o crescimento praticamente ilimitado da produção. Mas não- é apenas isso. A apropriação social dos meios de produção não só elimina os obstáculos artificiais hoje antepostos à produção, mas põe termo também ao desperdício e à devastação das forças produtivas e dos produtos, uma das consequências inevitáveis da produção atual e que alcança seu ponto culminante durante as crises. Ademais, acabando-se com o parvo desperdício do luxo das classes dominantes e seus representantes políticos, será posta em circulação para a coletividade toda uma massa de meios de produção e de produtos. Pela primeira vez, surge agora, e surge de um modo efetivo, a possibilidade de assegurar a todos os membros da sociedade, através de um sistema de produção social, uma existência que, além de satisfazer plenamente e ceda dia mais abundantemente suas necessidades materiais, lhes assegura o livre e completo desenvolvimento e exercício de suas capacidades físicas e intelectuais (14).

Ao apossar-se a sociedade dos meios de produção cessa a produção de mercadorias e, com ela, o domínio do produto sobre os produtores. A anarquia reinante no seio da produção social cede o lugar a uma organização planejada e consciente. Cessa a luta pela existência individual e, assim, em certo sentido, o homem sal definitivamente do reino animal e se sobrepõe às condições animais de existência, para submeter-se a condições de vida verdadeiramente humanas. As condições que cerca o homem e até agora o dominam, colocam-se, a partir desse instante, sob seu domínio e seu comando e o homem, ao tomar-se dono e senhor de suas próprias relações sociais, converte-se pela primeira vez em senhor consciente e efetivo da natureza. As leis de sua própria atividade social, que até agora se erguiam frente ao homem como leis naturais, como poderes estranhos que o submetiam a seu império, são agora aplicadas por ele com pleno conhecimento de causa e, portanto, submetidas a seu poderio. A própria existência social do homem, que até aqui era enfrentada como algo imposto pela natureza e a história, é de agora em diante obra livre sua. Os poderes objetivos e estranhos que até aqui vinham imperando na história colocam-se sob o controle do próprio homem. Só a partir de então, ele começa a traçar a sua história com plena consciência do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em ação por ele começam a produzir predominantemente, e cada vez em maior medida, os efeitos desejados. É o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade.

***



Resumamos, brevemente, para terminar, nossa trajetória de desenvolvimento:

1. – Sociedade medieval: Pequena produção Individual. Meios de produção adaptados ao uso individual e, portanto, primitivos, torpes, mesquinhos, de eficácia mínima. Produção para o consumo imediato, seja do próprio produtor, seja de seu senhor feudal. Só nos casos em que fica um excedente de produtos, depois de ser coberto aquele consumo, é posto à venda e lançado no mercado esse excedente. Portanto, a produção de mercadorias acha-se ainda em seus albores, mas já encerra, em potencial, a anarquia da produção social

2. – Revolução capitalista: Transformação da indústria, iniciada por meio da cooperação simples e da manufatura. Concentração dos meios de produção, até então dispersos, em grandes oficinas, com o que se convertem de meios de produção do indivíduo em meios de produção sociais, metamorfose que não afeta, em geral, a forma de troca. Ficam de pé as velhas formas de apropriação.

 Aparece o capitalista: em sua qualidade de proprietário dos meios de produção, apropria-se também dos produtos e os converte em mercadorias. A produção transforma-se num ato social; a troca e, com ela, a apropriação continuam sendo atos individuais: o produto social é apropriado pelo capitalista individual. Contradição fundamental, da qual se derivam todas as contradições em que se move a sociedade atual e que a grande indústria evidencia claramente:

A. Divórcio do produtor com os meios de produção. Condenação do operário a ser assalariado por toda a vida. Antítese de burguesia e proletariado.

B. Relevo crescente e eficácia acentuada das leis que presidem a produção de mercadorias. Concorrência desenfreada. Contradição entre a organização social dentro de cada fábrica e a anarquia social na produção total.

C. De um lado, aperfeiçoamento da maquinaria, que a concorrência transforma num preceito imperativo para cada fabricante e que equivale a um afastamento cada dia maior de operários: exército industrial de reserva. De outro lado, extensão ilimitada da produção, que a concorrência impõe também como norma incoercível a todos os fabricantes. De ambos os lados, um desenvolvimento inaudito das forças produtivas, excesso da oferta sobre a procura, superprodução, abarrotamento dos mercados, crise cada dez anos, círculo vicioso: superabundância, aqui, de meios de produção e de produtos e, ali, de operários sem trabalho e sem meios de vida. Mas essas duas alavancas da produção e do bem-estar social não podem combinar-se, porque a forma capitalista da produção impede que as forças produtivas atuem e os produtos circulem, a não ser que se convertam previamente em capital, o que lhes é vedado precisamente por sua própria superabundância. A contradição se aguça até converter-se em contrassenso: o modo de produção revolta-se contra a forma de troca. A burguesia revela-se incapaz para continuar dirigindo suas próprias forças sociais produtivas.

D. Reconhecimento parcial do caráter social das forças produtivas, arrancado aos próprios capitalistas. Apropriação dos grandes organismos de produção e de transporte, primeiro por sociedades anônimas, em seguida pelos trustes, e mais tarde pelo Estado. A burguesia revela-se uma classe supérflua; todas as suas funções sociais são executadas agora por empregados assalariados.

3. – Revolução proletária, solução das contradições: o proletariado toma o poder político e, por meio dele, converte em propriedade pública os meios sociais de produção, que escapam das mãos da burguesia. Com esse ato redime os meios de produção da condição de capital, que tinham até então, e dá a seu caráter social plena liberdade para Impor-se, A partir de agora já é possível uma produção social segundo um plano previamente elaborado. O desenvolvimento da produção transforma num anacronismo a sobrevivência de classes sociais diversas. À medida que desaparece a anarquia da produção social, vai diluindo-se também a autoridade política do Estado. Os homens, donos por fim de sua própria existência social, tornam-se senhores da natureza, senhores de si mesmos, homens livres.

A realização desse ato, que redimirá o mundo, é a missão histórica do proletariado moderno. E o socialismo científico, expressão teórica do movimento proletário, destina-se a pesquisar as condições históricas e, com isso, a natureza mesma desse ato, infundindo assim à classe chamada a fazer essa revolução, à classe hoje oprimida, a consciência das condições e da natureza de sua própria ação.

FONTE: Marxist.org


NOTAS:

(1) É a seguinte a passagem de Hegel referente à Revolução Francesa: “A Idéia, o conceito de direito, fez-se valer de chofre, sem que lhe pudesse opor qualquer resistência a velha armação da Injustiça. Sobre a idéia do direito baseou-se agora, portanto, uma Constituição, e sobre esse fundamento deve basear-se tudo mais no futuro. Desde que o Sol ilumina o firmamento e os planetas giram em torno daquele ninguém havia percebido que o homem se ergue sobre a cabeça, isto é, sobre a idéia, construindo de acordo com ela a realidade. Anaxágoras foi o primeiro a dizer que o nus, a razão, governa o mundo: mas só agora o homem acabou de compreender que o pensamento deve governar a realidade espiritual. Era, pois, uma esplêndida aurora Todos os seres pensantes celebraram a nova época. Uma sublime emoção reinava naquela época a um entusiasmo do espirito) abalava o mundo, como se pela primeira vez se conseguisse a reconciliação do mundo com a divindade”. Hegel Philosophie der Geschichte. 1840, pág. 535) [Hegel, Filosofia da História, 1840 pág. 535]. Não terá chegado o momento de aplicar a essas doutrinas subversivas e atentatórias à sociedade, do finado professor Hegel, a lei contra os socialistas? (Nota de Engels) 

(2) Leveller (niveladores): nome que se dava aos elementos plebeus da cidade e do campo que durante a revolução de 1648 apresentavam na Inglaterra as reivindicações democráticas mais radicais. (N. da E.) 

(3) Engels refere-se aqui às obras dos representantes do comunismo utópico Tomas Morus (século XVI) e Campanella (Século XVII). (N. da R.) 

(4) “Direito de pernadas: direito que tinha o senhor feudal à primeira noite com as nubentes do seu feudo. (N. da Ed. Bras.) 

(5) De The Revolution In Mind and Practice [A Revolução no Espírito e na Prática, um memorial dirigido a todos os republicanos vermelhos. comunistas e socialistas da Europa”, e enviado ao governo provisório francês de 1848. mas também “à rainha Vitória e seus conselheiros responsáveis”. (Nota de Engels) 

(6) O período alexandrino de desenvolvimento da ciência abrange desde o século III antes de nossa era até o século VII de nossa era, recebendo o seu nome da cidade de Alexandria, no Egito, um dos mais importantes centros das relações econôm1ca internacionais daquela época. No período alexandrino adquiriram grande desenvolvimento várias ciências: as matemáticas (com Euclides e Arquimedes), a geografia, a astronomia, a anatomia, a fisiologia, etc. (N. da R.)

(7) Palavras de Mefistófeles em Fausto de Goethe. (N. da R. ) 

(8) Não precisamos explicar que, ainda quando a forma de apropriação permaneça invariável, o caráter da apropriação sofre uma revolução pelo processo que descrevemos, em não menor grau que a própria produção. A apropriação de um produto próprio e a apropriação de um produto alheio são, evidentemente, duas formas muito diferentes de apropriação. E advertimos de passagem que o trabalho assalariado, no qual se contém já o germe de todo o modo capitalista de produção, é muito antigo; coexistiu durante séculos inteiros, em casos isolados e dispersos, com a escravidão. Contudo, esse germe só pode desenvolver-se até formar o modo capitalista de produção quando surgiram as premissas históricas adequadas. (Nota de Engels) 

(9) Mesnada: tropas mercenárias que serviam aos senhores feudais nas guerras. (N. da Ed. Bras.) 

(10) Trata-se das guerras travadas entre Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra pela posse do comércio com a Índia e a América e a colonização desses continentes. Dessas guerras saiu vencedora a Inglaterra, que teve em suas mãos, até os fina do século XVIII, o domínio do comércio mundial. (N.da Ed. Bras.) 

(11) A Situação da Classe Operária na Inglaterra, pág. 109. (Nota de Engels) 

(12) Corrida de obstáculos. N da R.) 

(13) E digo que tem de tomar a seu cargo, pois a nacionalização só representará um progresso econômico, um passo adiante para a conquista pela sociedade de todas as forças produtivas, embora essa medida seja levada a cabo pelo Estado atual, quando os meios de produção ou de transporte superarem já efetivamente os marcos diretores de urna sociedade anônima, quando, portanto, a medida da nacionalização já for economicamente inevitável. Contudo, recentemente, desde que Bismarck empreendeu o caminho da nacionalização, surgiu uma espécie ~e falso socialismo, que degenera de quando em vez num tipo especial de socialismo, submisso e servil, que em todo ato de nacionalização, mesmo nos adotados por Bismarck, vã uma medida socialista. Se a nacionalização da indústria do fumo fosse socialismo, seria necessário inclui, Napoleão e Metternich entre os fundadores do socialismo. Quando o Estado belga, por motivos políticos e financeiros perfeitamente vulgares decidiu construir por sua conta as principais linhas térreas do pais, eu quando Bismarck, sem que nenhuma necessidade econômica o levasse a isso, nacionalizou as linhas mais importantes da rede ferroviária da Prússia, pura e simplesmente para assim poder manejá-las e aproveitá-las melhor em caso de guerra, para converter o pessoal das ferrovias em gado eleitoral submisso ao Governo e, sobretudo, para encontrar uma nova fonte de rendas isenta de fiscalização pelo Parlamento, todas essas medidas não tinham, nem direta nem Indiretamente, nem consciente nem inconscientemente, nada de socialistas. De outro modo, seria necessário também classificar entre as instituições socialistas a Real Companhia de Comércio Marítimo, a Real Manufatura de Porcelanas e até os alfaiates do exército, sem esquecer a nacionalização dos prostíbulos, proposta muito seriamente, ai por volta do ano 34, sob Frederico Guilherme III, por um homem muito esperto (Nota de Engels) 

(14) Algumas cifras darão ao leitor uma noção aproximada da enorme força expansiva que, mesmo sob a pressão capitalista, os modernos meios de produção desenvolvem. Segundo os cálculos de Giffen, a riqueza global da Grã Bretanha e Irlanda ascendia, em números redondos, a 1814 -. . – 2 200 milhões de libras esterlinas – 44 000 milhões de marcos 1865 – – – – 6 100 milhões de libras esterlinas – 122 000 milhões de marcos 1875 . . – – 8 500 milhões de libras esterlinas — 170 000 milhões de marcos Para dar uma idéia do que representa a dilapidação dos meios de produção e de produtos desperdiçados durante a crise, direi que no segundo congresso dos industriais alemães, realizado em Berlim, em 21 de fevereiro de 1878, calculou-se em 455 milhões de marcos as perdas globais representadas pelo último crack, somente para a indústria siderúrgica alemã. (Nota de Engels)







[NELSON WERNECK SODRÉ] Sobre os conceitos “totalitarismo” e “populismo”, 1990.

Trechos retirados do livro “Capitalismo e Revolução Burguesa no Brasil”, publicado em 1990 e escrito pelo célebre historiador, cientista político, militar, e intelectual marxista, Nelson Werneck Sodré.


SOBRE OS CONCEITOS DE AUTORITARISMO E POPULISMO:

Não tem sido puro acaso a difusão, entre nós, de conceitos como populismo e totalitarismo, que ganharam espaço em estudos acadêmicos e passaram à linguagem comum. Um dos aspectos mais curiosos da luta ideológicas, realmente, é aquele ligado à confusão conceitual. Ela faz passar como verdades indiscutíveis falsidades transparentes, que não resistem à menor análise.

A velha técnica da repetição lhes dá consistência. A falta de clima para a discussão científica ou política, ainda em seus níveis preliminares, permite duração a conceitos que carecem totalmente de sentido. Eles são por vezes cultivados pela superficialidade de comentaristas e pelo deliberado propósito ou por ambos, sendo difícil estabelecer a distinção entre uns e outros.

Em alguns casos, trata-se de simples divergência semântica em ciências que, entre nós, não ganharam ainda a maioridade. Esses casos, denunciam apenas mais uma das debilidades do conhecimento, mesmo no nível acadêmico, e constituem uma das características mais evidentes da desestruturação da universidade aqui.

Claro está que há sempre pessoas válidas no meio acadêmico e tais mazelas não alcançam à totalidade de congregações cujo recrutamento é discutível, mas a que pertencem, como exceções, figuras dignas do maior respeito é até de admiração. A ignorância e um de seus melhores disfarces, a superficialidade, é que se pavoneiem; o saber é humilde e simples.

Seria longo discutir aqui — e no sentido matemático, não no sentido teórico — a série de conceitos que configuram mais destacadamente a confusão conceitual que, estabelecida com arrogância acadêmica, participa da luta ideológica. Convém, pois, limitar o campo. De passagem, o primeiro conceito a discutir seria o de totalitarismo.

Nas épocas de intensa repressão, como aquela de que há pouco mal emergimos, uma posição ambígua foi muito convenientemente adotada por criaturas em que não eram acentuados nem o saber, nem a compreensão, nem a coragem. Essas criaturas esconderam-se habitualmente, atrás da confusão conceitual e a ambiguidade lhes permitiu sempre apresentar disfarces curiosos. Entre eles, e com destaque, em determinada fase, certa virulência crítica que se marcava pela negação de valores até si aceitos.  Outro disfarce foi aquele de apresentar uma posição mais à esquerda do que a esquerda conhecida e identificada, para dar duto combate a essa.

Uma posição de ultraesquerda foi o disfarce mais comum que a reação assumiu em certo tempo. Claro que, ainda aqui, há que ressalvar aqueles que assim procediam por honesto propósito, ainda que ingênuo, de fazer uma revolução verbal onde não havia condições para uma revolução real. Uma das ambiguidades conferidas por esse disfarce foi o de exorcizar o que apelidaram de “totalitarismo”. O conceito, cuja confusão era adrede explorada, escondia a verdade, mas não escondia a ambiguidade.

Aquele que afirmara combater o “totalitarismo” tornava idênticos, para os efeitos a que se propunha, o socialismo o fascismo. Em nível ainda inferior, mais infeliz embora menos pretencioso, colocava-se aquele que, no aceso da luta ideológica, particularmente face à repressão vesânica, dizia-se do certo, isto é, [ser] nem da esquerda, nem da direita.

Os confusos conceitos de esquerda e de direita correspondem a uma espécie de sofisticação dos conceitos de Leste e Oeste, ou Ocidente e Oriente, depois também marcados pelos de Norte e Sul. Como é sabido, estabelecer uma divisão do mundo entre ocidental e cristão e oriental e socialista — habitualmente se escreveria comunista — sem mencionar o hipotético meridiano que os limita importava, além de tudo, em omitir que o marxismo é uma criação ocidental e a sua execração surgiu porque o socialismo soviético estava, geograficamente, situado a Leste ou Oriente da OTAN.

A divisão Norte-Sul que apareceu depois supunha o mundo repartido pelo equador e não por um paralelo qualquer: ao norte, estariam os “ricos”, no sul os “pobres”, como se todos os países ao Norte do equador fossem iguais. Seria muito mais prático e objetivo definir — mas isso não convinha aos propósitos deste geografismo ideológico suspeitíssimo — que o mundo está simplesmente dividido entre explorados e exploradores. Claro, assim, que a divisão Norte-Sul consiste em sonegar a divisão verdadeira, entre países socialistas e países capitalistas, ou, submetidos aos países capitalistas.

O conceito de totalitarismo, muito usado nas análises políticas e sociológicas que o saber acadêmico costuma praticar, na cátedra, no livro, na imprensa, confunde, como sinônimos, socialismo e fascismo, já se disse, e permite ao usuário afirmar-se distante de um e do outro. Isso, que em linguagem comum e leigo pode passar por desconhecimento primário, desculpável mostra a sua propositada ambiguidade quando na linguagem acadêmica. Não há pessoa medianamente informada que desconheça serem opostos, visceralmente contrários, fascismo e socialismo. A divisão pertenceu sempre à luta ideológica e lhe forneceu suporte para toda a sorte de falsidades e torpezas.

Pois o ensaísmo político brasileiro, mesmo antes do estabelecimento da ditadura e da repressão e do terror cultural, usou e abusou do conceito de totalitarismo, escudando-se na propositada confusão que ele estabelecia ou ajudava a manter. A afirmação de que as ditaduras fascistas ou para-fascistas que o imperialismo estabeleceu ou ajudou a estabelecer, particularmente na América Latina, eram em tudo, formas de totalitarismo como as que o fascismo, o nazismo e o militarismo vinham estabelecendo no mundo, em sua área desenvolvida e fora dela, e que todas elas correspondiam ao “totalitarismo” estabelecido nas áreas socialistas, marcou época e acabou por se firmar como conceito estabelecido e incontestável.

Não há que perder mais tempo na discussão do conceito de totalitarismo. Ele nos desajudaria, pelo dispêndio de espaço ainda, na discussão do motivo principal desta análise, do conceito de populismo, mais importante para aprofundamento do problema político brasileiro contemporâneo. Porque esse conceito, realmente, ocupa hoje amplo espaço na bibliografia política, histórica e sociológica brasileira. Pertence, além do mais e principalmente, à discussão partidária, servindo de escudo para argumentações diversas, no nível polêmico.

Nos acirrados debates, iniciados praticamente há mais de meio século, em 1930, com o avanço da burguesia, ocupando crescente espaço na área do poder aqui, o conceito de populismo foi uma poderosa arma, usada como demolidor e desmoralizante tacape para deter o avanço no Brasil das forças populares. Convém frisar, a esta altura, que a categoria povo – desfigurada solertemente nas polêmicas e até infamada de maneira torpe – é aqui utilizada no sentido em que definimos em livro há alguns anos. Não tem sentido genérico, pois. Mas foi na significação genérica, que a desfigura e falseia, que a palavra povo foi colocada para se desdobrar naquilo que a sociologia e a chamada ciência política denominaram populismo.

Entra agora a necessidade de retirar a discussão do clima nebuloso em que ela se processa nos últimos decênios, quando o populismo aparece como injúria, para lhe reconstituir as origens históricas. Sem essa pesquisa histórica, a discussão perderia sentido. E a pesquisa, para justa colocação do processo, deve ir até as origens e ao avanço das relações capitalistas no Brasil e ao consequente avanço, em relação dialética com aquelas, de uma classe social, a burguesia, ascendendo na estrutura social brasileira. Embora alguns confucionistas admitam e até afirmam que o capitalismo, aqui, data da fase colonial para eles, foi implantado por Cabral.

A verdade é que as relações capitalistas brasileiras começaram a crescer a partir de 1850. A independência foi uma empresa da classe dominante de senhores, senhores de terras, senhores de escravos, senhores de servos. Já em 1844, Alves Branco faria a reforma tarifária, tributando gêneros importados que os acordos de 1810 e de 1824 haviam isentado de direitos de entrada.

É também a época, em 1850, da suspensão do tráfico negreiro, com a correspondente transferência de investimentos da área do tráfico para a agricultura cafeeira em expansão e para o primeiro impulso de industrialização que o Brasil conheceu. É a época, realmente, da construção ferroviária, da construção naval, do transporte urbano, dos serviços públicos, do telégrafo, do cabo submarino, de empreendimentos como o do estaleiro da Ponta d’Areia e empresas que deram destaque ao nome de Mauá, o primeiro grande capitalista nacional, o primeiro grande burguês.

Como a classe senhorial, que moldara o império à sua imagem e semelhança, era absoluta em sua dominação, a burguesia em início era dela dependente e, portanto, ainda débil, foi essa debilidade da burguesia que comprometeu Mauá: ele faliu pelo desamparo em que o Estado o deixou e suas empresas passaram às mãos de ingleses e norte-americanos, principalmente os primeiros. Eram empresas que, no conjunto, montavam a centenas de milhares de libras esterlinas, um valor considerável para a época.

Nos fins do século XIX, no entanto, assentando em causas que seria longo enumerar, as relações capitalistas já mostravam acentuado avanço e a burguesia daria, com as reformas dos anos oitenta – há um século, portanto- um passo à frente. Um passo de certa importância. Era um avanço conservador, no entanto, porque a criação do mercado de trabalho era recente.

Embora o desenvolvimento brasileiro, na época, se tenha operado segundo uma vertente conservadora – obedecendo a correlação de forças reinantes é fora de dúvida que as reformas do fim do século, abolição e república destacadamentemarcaram o modesto avanço de relações capitalistas inseridas no amplo quadro do desenvolvimento agrícola. A república oligárquica, na verdade, foi a sucessora do latifúndio escravista, o Brasil arcaico constituía a paisagem dominante. Mas aquele avanço, ainda que modesto, significou o avanço também modesto da burguesia, já disputando espaço.

É a época de formação do mercado de trabalho livre, formação que atendeu aos interesses da classe dominante, importando na liquidação do escravismo e no advento da imigração sistemática, subsidiada pelo Estado. Tanto num caso como no outro, no caso da abolição e no caso da imigração, essa intervenção do Estado no processo do desenvolvimento econômico era um fato novo e singular. Foi essa intervenção, obedecendo a uma estratégia solerte, que permitiu a liquidação do escravismo – definido nas leis do Ventre Livre e dos Sexagenários mais do que no ato final da abolição – e a criação do mercado de trabalho, com o trabalho livre, em que os assalariados ganham espaço.

Estava, pois, acabado o lento e tortuoso processo que foi no Brasil o aparecimento de certo montante de riqueza – pelo surto cafeeiro e crescente valor na exportação – que passou a ser capital, de um lado, e, de outro lado, o aparecimento e crescimento de numerosa massa de trabalhadores sem meios de subsistência, unicamente detentores de força de trabalho. Essas duas premissas, de que se gera o capitalismo, delinearam-se nitidamente nos fins do século XIX, com as origens na metade do século.

Mas o poder, o controle do Estado, na época, era detido pela classe senhorial. A burguesia gravitava em torno dessa classe antiga e lhe acompanhava os valores. Como sabemos de história vulgar, a ascensão burguesa nos modelos clássicos – Holanda, Inglaterra, França, repousou no apoio da plebe, isto é, das classes e camadas inferiores, que forneciam o trabalho, no campo e na cidade, naquele principalmente.

O modelo clássico de revolução burguesa, realmente, operada a revolução no Ocidente europeu, apresenta como premissa necessária a aliança da burguesia e da plebe, para vencer a nobreza e, depois, estruturar o Estado à feição de seus interesses. Nessa segunda fase, de aproveitamento do êxito, a luta de classes se definirá pela contradição entre a burguesia, agora classe dominante, e o proletariado e o campesinato. Mas na fase inicial a aliança entre elas é que cria as condições necessárias à revolução.

A essa aliança, gerada no processo histórico, os acadêmicos da época batizariam de populismo, com sentido positivo. O fato é que a luta ideológica do tempo não exigiu o aparecimento desse conceito. A aliança da burguesia com o povo era natural e bem entendida e aceita por todos, menos aqueles que perderam com ela. Mas os que perderam, então, se nada queriam com a burguesia, menos ainda com o povo, a que detestavam. Para crescer e para disputar o poder, no Brasil, a burguesia necessitou sempre, permanentemente, do apoio das classes e camadas inferiores.

Ao longo do tempo, aqui, no século XIX, em suas décadas iniciais, o poder foi dominado e moldado pela classe senhorial dos proprietários de terras. Foi o que se conheceu como república oligárquica: o pais era repartido em estados federados em que o poder era detido pelas oligarquias, isto é, por número reduzido de famílias que detinham a propriedade da terra. Com isso, controlavam o poder, revezando-se nele os seus elementos.

Todos os abalos, na época, desvendavam o esforço da burguesia, crescente economicamente, para ascender politicamente. Esforço que exigia dela buscar o apoio popular, isto é, das classes e camadas que forneciam o trabalho. Esforço que colocou, realmente, no centro dos acontecimentos, a questão do poder e que motivou sucessivos e intervalados abalos, sempre girando em torno do poder. Foi por isso que, na república oligárquica, as crises ocorriam quando da sucessão presidencial, em âmbito nacional, e das sucessões estaduais, em âmbito provincial. Essas crises rompiam, momentânea ou transitoriamente, o monolitismo aparente da classe dominante. Eram crises em que a burguesia, em papel secundário, buscava espaço.

Eram brechas pelas quais se infiltravam representantes mais aguerridos dela. A grande ruptura ocorreu com o movimento armado de 1930, abalo político que correspondeu ao abalo econômico da crise de 1929. As relações capitalistas vinham em avanço, com impulso singular quando da Primeira Guerra Mundial, em que investimentos industriais cresceram para suprir o mercado interno privado das importações.

A crise de 1929, […], deu novo impulso as relações capitalistas aqui e o quadro se completou com a derrocada da economia agrícola exportadora. Era uma fase, pois, de ascensão burguesa e de declínio da classe senhorial fundada na propriedade da terra. Agora, a burguesia tinha condições para disputar o poder e, realmente, com o movimento armado de 1930 e com o governo provisório, ela opera a sua hegemonia no processo, buscando remodelar o Estado à sua feição, à feição dos seus interesses. Para isso, contou com o apoio popular indispensável. Ao contrário de seus antecedentes históricos, de rebeliões regionais e provinciais, o movimento de 1930 revestiu-se de caráter nacional. Essa dimensão nacional define a hegemonia burguesa no processo. Mas essa hegemonia não teria sido possível sem o apoio e a tácita aliança das classes trabalhadoras.

Elas não participam da luta sendo com parcelas urbanas mais ativas, mas tornam clara a sua afinidade e simpatia com a burguesia agora hegemônica. Com o movimento armado de 1930, realmente, as relações capitalistas provam a sua dimensão, no conjunto da economia nacional, e a burguesia passa a classe dominante, na sua revolução inacabada, operada por lances sucessivos. Revolução que teria sido impossível sem apoio popular. Como é sabido, o Brasil conheceu curtos períodos de liberdade separados por longos períodos de arbítrio. Entre 1930 e 1935 ocorreu um desses excepcionais períodos de liberdade.

O pensamento retrógrado costuma batizar de agitação tudo o que acontece em tais períodos, porque neles tudo é posto em questão, debatido, controvertido, contestado. A fecundidade desses períodos provém justamente dessa fisionomia tormentosa, em que as contradições da sociedade afloram, tornam-se agudas e manifestam-se de muitas maneiras, algumas assumindo mesmo forma ameaçadora e inquietante.

No poder, a burguesia deseja, agora, tranquilidade e as circunstancias históricas que não são acidentais – vão lhe proporcionar uma solução para a busca da tranquilidade. Por força da lei do desenvolvimento desigual, a ascensão burguesa no Brasil coincidiu com a crise geral do capitalismo em escala mundial. A crise de 1929, culminando a seriação das crises cíclicas do capitalismo na fase imperialista, abala profundamente as estruturas nacionais.

O Brasil, no entanto, com as relações capitalistas em ascensão, tem condições ajudadas pela pausa na pressão imperialista aqui, para emergir muito cedo da crise e realizar significativas mudanças na estrutura do poder. A crise mundial, entretanto, culminando com a ascensão política das formas repressivas do poder configuradas no fascismo, no nazismo e no militarismo, influem poderosamente por toda parte. Essa face é a máscara política de que [a a crise econômica] é a face oculta.

A repercussão desse movimento alastrado e ascensional da violência de Estado chega ao Brasil e acarreta aqui singular inflexão no processo de ascensão burguesa para a conquista do poder. Em 1930, a burguesia, seguindo a ordem natural da composição política, não só se voltou para a classe trabalhadora, particularmente o proletariado, como se comprometeu na concessão de espaço de direitos àquela classe. O curto período de liberdade, até 1935, com o afloramento das contradições da sociedade brasileira, assiste justamente a luta de classes em tomo desse espaço e desses direitos.

A circunstância externa, na heterocronia do processo histórico global, entretanto, cria condições para a inflexão antes referida. Para a qual concorreram, naturalmente, condições internas, que se somaram as externas: a luta interna levou a burguesia a recompor-se com as forças tradicionais das quais se havia distanciado e a que havia combatido. Em escala menor e factual: é a derrota do reformismo, de que o tenentismo havia sido vanguardeiro, ante as forças políticas conservadoras, vencidas pelo movimento de 1930 e levantando agora a bandeira de um constitucionalismo de conveniência.

É com elas que a burguesia se comporá para enfrentar as classes trabalhadoras. Como estas estavam em fase de aguerrido avanço, quebrado com a “intentona” de novembro, há que enfrentá-las buscando um figurino externo. Daí a ditadura conhecida como Estado Novo. Como o nome queria fazer crer, a intenção era de dar ao Estado uma estrutura que permitisse à burguesia efetivar, sem participação do proletariado, as reformas que a consolidariam no poder.

Quem se desligar da visão comum com que o Estado Novo se apresenta-violenta e policial ditadura repressiva – e examinar mais a fundo o que ele representou, vai verificar como, atrás dessa face exterior, ele permitiu à burguesia operar, sem contar ou necessitar de apoio das classes trabalhadoras, as reformas indispensáveis para consolidar as suas conquistas. Com o traço, que define realmente aquela ditadura, de conciliar com o latifúndio e com o imperialismo, numa etapa em que a coexistência com eles era possível e necessária mesmo, dado que a burguesia era recente e débil

Grande parte daquilo que é específico da revolução burguesamenos o que afetou latifúndio e imperialismofoi realizado na época: a legislação se reveste de nítido sentido nacionalista, o aparelho de Estado passa por acentuada reforma, surge o trabalhismo. Com o domínio total do poder e agora passando as forças dos senhores de terra a subordinadas, a burguesia, para realizar as suas tarefas, necessita do apoio dos trabalhadores urbanos, particularmente proletários. Volta a sua atenção para eles e, de cima para baixo, de forma tutelar, estabelece a legislação trabalhista calcada na fascista “Carta del Lavoro”*. Mas é impossível negar essa aliança, por pior que tenha sido a ditadura do Estado Novo.

Conquanto uma de suas características, como a de todas as ditaduras, tenha se vinculado à propaganda, nem só esta, entretanto, foi responsável pelo movimento de massas que ocorreu então. Atos públicos, como os que se realizaram nas comemorações do 12 de maio e outros, relacionados quase sempre com decisões relativas ao trabalho, mostram que Getúlio Vargas, personagem central da época, desfrutou de prestigio popular incomum em ditadores. E tanto assim foi que, liquidado o Estado Novo, e justamente pelos que dele haviam mais usufruído, e apeado do poder, o voto popular o fez senador por dois estados e deputado por cinco para, adiante, levá-lo à presidência da república como candidato de oposição

Nas raízes desse prestigio popular, o maior, sem dúvida, que um dirigente político alcançou no Brasil, é fácil encontrar a sagacidade na busca da aliança da burguesia, de que foi típico representante, com as classes trabalhadoras. Era retomar o fio da história, que assinalou sempre essa aliança como traço da ascensão burguesa. A burguesia, para cumprir, ainda que parcialmente, as tarefas específicas de sua revolução, não podia dispensar essa aliança. Note-se: não se faz aqui o julgamento dela, não se entra no mérito. Esta é outra história.

O grande malogro da extraordinária trajetória política de Getúlio Vargas – personagem central da história brasileira em um quarto de século – foi não ter sido vitorioso na consolidação dessa aliança. Realmente, enquanto as forças de esquerda se opunham, na medida de suas possibilidades, a essa operação, cujo conteúdo distinguiam bem, as forças retrógradas a ela se opunham com singular virulência. Vargas foi deposto da chefia do governo justamente quando, o fim da guerra e derrota do nazi-fascismo, anunciava-se aqui a aquela aliança. Tal possibilidade e, portanto, de acabamento do que é especifico da revolução burguesa, alarmou profundamente as forças internas do atraso e as externas ligadas ao imperialismo.

Foi então que surgiu e começou a se vulgarizar, pela repetição polêmica, o conceito de populismo. Surgiu para estigmatizar a referida aliança, para vê-la como espúria manobra, a que, não faltaria nessa fúria verbal a componente subversiva. Embargar o andamento dessa manobra, torná-la inefetiva, evitar a sua consumação foi a tarefa a que se dedicaram afincadamente aqui as forças retrógradas, sempre resistentes ao avanço, ao progresso, ao novo, aferradas ao status quo. O conceito foi a injúria babujada na violenta propaganda política que importou em indemissível condenação do processo histórico. Na verdade, Vargas era, na eventualidade, um instrumento da história, como dirigente mais esclarecido que a burguesia brasileira conheceu.


Se o movimento de 1930 não resultou, com a hegemonia burguesa na composição do Estado e no comando das ações políticas, no cumprimento das tarefas próprias da revolução social de que seria uma das etapas mais destacadas, ele pelo menos efetivou reformas que importavam em significativo avanço. A maior dessas reformas foi provavelmente aquela que passou despercebida: a definição do mercado interno

Realmente, no grande arquipélago econômico brasileiro, com as ilhas distantes umas das outras e às vezes fechadas, o que a república oligárquica operou foi o aprofundamento das divisões regionais, uma das piores heranças das fases colonial e imperial, esta, como simples prolongamento daquela. Esse divisionismo, que a grandeza geográfica ampliava, traduzia, na realidade, o resquício feudal da nossa formação.

Os estados federados assemelhavam-se, como as antigas províncias e as antigas capitanias, a grandes zonas feudais, fragmentadas internamente na teia de feudos menores, marcados pelos latifúndios mantidos pelas famílias mais importantes e tradicionais. A chamada república velha, aquela em que as oligarquias regionais reinavam, levou os estados a estabelecerem tributações por vezes pesadas para a circulação de mercadorias. Essa captação de recursos tributários fracionou o mercado e gerou uma guerra tarifária interna. Em como se, na imensidade geográfica, países diversos subsistissem. 

Ora, o movimento de 1930, de início, mas particularmente depois da instauração do Estado Novo, quebrou essas barreiras que freavam a circulação de mercadorias, e criou o mercado interno. A política dos governadores, que o governo retrógrado de Campos Sales oficializou, correspondia à consagração desse fracionismo feudal. Essa estrutura política, montada adrede para preservar o atraso, refletia os resquícios de um feudalismo anacrônico. De tal sorte, assim como resultou da fragmentação das zonas produtoras, importava em singular fragmentação do poder.

Tal fragmentação ficaria demonstrada, escandalosamente, com o fato de funcionarem nos estados federados organizações militares que iam das polícias militares, assemelhando-se a exércitos estaduais, as forças irregulares que o latifúndio mantinha abertamente. Assim, as duas faces estavam definidas: a da velha república oligárquica feudalizada e a que surgiu com o movimento de 1930 e o avanço da burguesia, criando o mercado interno, alavanca do nosso desenvolvimento capitalista.

O Brasil foi palco, de 1930 a 1945, de uma luta extrema entre o velho e o novo. Velhas foram, sob todos os aspectos, as relações feudais que aqui sempre importaram em fragmentação e privilégio; novas eram as reformas que, avançando aceleradamente as vezes, estagnando outras vezes, procuravam vencer os obstáculos ao desenvolvimento nacional. Ora, o mercado interno, a unificação do poder político, o rompimento de barreiras impostas à circulação da produção, traduziam o novo.

Essa luta que refletia, no fundo e por vezes claramente, as grandes contradições históricas que figuravam no cenário, assinala a crescente participação das forças populares nas campanhas políticas e, no fim de contas, correspondia ao confronto entre as que buscavam a aliança entre burguesia e proletariado para fins específicos e as que se opunham violentamente a esse processo, o único que, na época, permitiria ao país a tarefa das reformas que importavam na liquidação dos entraves ao nosso desenvolvimento.

A volta de Getúlio Vargas ao poder em 1950, após o desastroso período de Dutra – exata encarnação do que o Estado Novo tivera de hediondo, que foi o maior esforço do atraso em manter o comando político aqui – mostrava quanto a sua política, no governo provisório, na ditadura, na presidência, no Senado, obedecia, nos seus meandros aparentes, a uma diretriz que, firmada em 1930, iria até o seu trágico fim.

Em circunstâncias extremamente desfavoráveis a essa política, ele insistiu no prosseguimento dos rumos a que se propusera e enfrentou obstáculos consideráveis. O quadro já era muito diferente daquele que existira na quarta e na quinta década do século. Emergindo de uma guerra em que a destruição fora gigantesca, mas que os deixava imunes a seus efeitos e extraordinariamente enriquecidos, os Estados Unidos assumiram o comando das ações internacionais, orientando o conjunto de decisões que constituíram a chamada “guerra fria”.

O seu aparecimento no cenário internacional, como superpotência detentora de riqueza imensa e de imenso poder militar, com o monopólio das armas atômicas, colocou todo o mundo sob terrível ameaça e, quanto à América Latina, sob condições de extrema dependência. Ora, esse recrudescimento do imperialismo, agora centralizado, se contrapunha justamente a questão básica para países como o Brasil: a questão nacional. O que caracterizou sempre o papel da burguesia foi a prioridade, entre as duas questões fundamentais, a democrática e a nacional, que deu a esta Getúlio Vargas, enquanto personagem histórico, grande dirigente do avanço da burguesia brasileira, expressou, em sua larga e tormentosa trajetória política, justamente essa prioridade.

Se a tarefa da burguesia, universal e historicamente, foi a de fazer avançar a questão nacional – o conceito de nação nasce com a revolução burguesa, em termos universais – no Brasil ela se apresentava com uma diferença profunda, que se tornaria específica: aqui, a opção pelo nacional se operava na fase de virulenta expansão imperialista. Para alcançar sucesso em uma política que fizesse da questão nacional tese destacada havia, pois, que enfrentar o imperialismo em sua expressão mais aguda.

Daí, consequentemente, a necessidade ainda mais forte da busca de apoio popular, com insistência máxima, com todo empenho. Sem esse apoio, não seria possível avançar em uma política de desenvolvimento nacional. Getúlio Vargas que denunciara em três discursos no Senado, antes de seu retiro para o Sul, o desastre da orientação econômica do governo Dutra, buscou afanosamente retomar e ampliar o apoio popular que granjeara e sem o qual nada poderia construir.

A fúria com que a reação se lançou à luta para impedir que Getúlio Vargas realizasse a sua política foi o traço denunciador da singular importância que lhe emprestava. Em sua campanha presidencial, o candidato assumiu compromissos ligados às tarefas peculiares à questão nacional e continuou a articular o apoio popular que o levaria novamente ao poder. O fato de, depois, no poder, não ter tido condições para dar andamento a tais compromissos não invalida a sua postura.

Ao prestar contas ao povo, em janeiro de 1954, das dificuldades que enfrentava e o relato que então fez das variadas e sistemáticas ações da exploração imperialista, mencionando cifras espantosas da retirada de lucros dos capitais aqui investidos apenas nas áreas decisivas da estrutura da produção, violentamente majorados com os recursos captados no mercado interno de capitais. Ao dizer a verdade, estava cavando a sua sepultura. E a virulência da reação conservadora e retrograda, em que o passado oligárquico e a herança feudal que o gerara estavam espelhados, mostra como a contradição se aprofundara. Foi quando o uso do conceito de populismo se divulgou, pela intensa repetição e assumiu o nível injurioso que acabou por lhe denunciar o sentido e o conteúdo.

Que significava o conceito, assim empregado? Um daqueles que, anos depois, apenas o repetiu, mostrando como, ao longo do tempo, ele se agravou na memória dos ingênuos, assim o definiu: “Um outro tema que merece discussão é a questão populista. […] em todo caso, se quisermos uma definição sucinta, o populismo implica em conexão direta entre um povo mitificado e uma liderança carismático-messiânica num discurso que dilui a realidade das classes sociais. Um mito de povo, encarado como entidade homogênea, é o ponto central da ideologia populista.”

Esta definição, embora com a parcela de verdade que encerra, foi colocada em outros termos, por outro político, na mesma época: “Tristemente, o pais já testemunhou na sua história recente o abismo a que foi conduzido pelo populismo inconsequente (…) Este comportamento nos dá credibilidade, que será exposta às claras, democraticamente, não só nas eleições municipais como na eleição maior – a presidencial. Para enfrentar a demagogia populista que ameaça voltar a vicejar. ”.

Não cabe aqui distinguir, para clareza das intenções desses dois exemplos, as circunstâncias motivadoras de tal análise e de tal qualificação. Importa, tão-somente para discutir o conceito, mostrar como a sua divulgação abrangeu até aqueles que se empenham pela presença efetiva do povo nas decisões políticas. O populismo varguista, na verdade, colocou alguns problemas nacionais no palco e mobilizou o povo para a solução deles.

Claro que não era a política do proletariado, mas a da burguesia. O drama brasileiro consiste na terrível resistência das forças do atraso, que representam o passado feudal, as reformas que pertencem historicamente a revolução burguesa. E que elas, por isso mesmo, denunciam como socialistas. E por isso é que, em suas campanhas, aquelas forças levantam sempre, desde 1930 e com virulência desde 1935, anticomunismo como bandeira única.

O anticomunismo foi no Brasil, de meio século a esta parte, a tônica singular das campanhas liberticidas e retrógradas. O conceito de populismo acabou por se incorporar ao vocabulário delas. Refletia e reflete o horror que desperta a aproximação e a composição entre a burguesia e os trabalhadores, particularmente os operários. Por contraste, a carta testamento de Vargas, na hora amarga da verdade, constituiria o mais sério libelo já levantado aqui contra o imperialismo. Nada denuncia, por outro lado, quanto a campanha contra a política de Vargas se valeu de um conceito falso. Vargas morreu só, o Brasil acordou apenas no dia de sua morte: só então vislumbrou a verdade.

Esse conceito voltou a integrar o arsenal da reação, aqui, quando da deposição de João Goulart. A campanha contra Jango, desencadeada e mantida com a mesma incontinência de linguagem que ferira Vargas, cresceu em intensidade quando foram colocadas no palco as chamadas “reformas de base”. Jango se distinguia politicamente pela sua aproximação com o movimento sindical. Essa aproximação correspondia, na época, à composição da burguesia com o proletariado e significava, do lado da burguesia, consolidá-la no poder e estabelecer condições para moldar o Estado à feição de seus interesses. Correspondia, no fim de contas, a ultimar a sua revolução, que se vinha processando a prestações, por lances às vezes distanciados, no tempo, uns dos outros.

Do lado dos trabalhadores e particularmente do proletariado, correspondia à conquista de direitos elementares e à consolidação de outros. No fim de contas, correspondia ao ingresso do proletariado no cenário político, o que só poderia ser alcançado, naquela fase, pela composição de alianças. O incipiente proletariado do Ocidente europeu – como o campesinato, a plebe em suma – apoiou decididamente a revolução burguesa, ciente de que ela beneficiava a burguesia. Sabia que beneficiaria também a plebe, porque continha o germe de outra revolução, a proletária.

Na história, as etapas contêm em germe as etapas futuras. No Brasil do século XX, havia, da parte do povo, pelas suas parcelas mais conscientes ou organizadas, o sentimento de que as reformas correspondiam ao acabamento da revolução burguesa mas continham as premissas da revolução socialista. O coro vesânico das forças reacionárias, na época, com o estribilho do populismo e o fantasma do anticomunismo, visava tornar inviáveis as chamadas “reformas de base”.

Recorde quem quiser o que elas eram e o que pretendiam e constatará que consistiam em fazer avançar alguns passos uma revolução burguesa inacabada, a nossa. A acusação de comunistas aos que as defendiam e de socializante ao conteúdo delas era uma farsa a que só a repetição constante conferia a veiculação e a aparência de coisa séria. Como, entre nós, os meios de comunicação, pelo controle que o imperialismo exerce sobre eles através da publicidade e do domínio da informação transformada em notícia, comportam-se sempre como instrumentos de pressão na luta ideológica, o coro alcançava ressonância no constante falseamento das coisas.

Gerava-se o clima de cruzada, que é artificialmente criado, de quando em quando, para infundir temor e impor como verdade o interesse mais espúrio. É um clima que resulta da conjugação de todos os meios de comunicação jornal, rádio e TV, principalmente, batendo diariamente na mesma tecla e compondo o coro. Assim ocorreu quando da campanha contra o monopólio estatal do petróleo, contra o jornal Última Hora, contra Vargas em agosto de 1954, culminando com o suicídio dele, contra João Goulart em março de 1964, culminando com o golpe, a sua deposição e o estabelecimento de uma ditadura justamente destinada a impedir as reformas de base, destruir as organizações sindicais operárias e liquidar os combatentes nacionalistas e democratas mais ativos.

O “populismo” compôs o refrão e o “anticomunismo” estabeleceu a música. Em 1954, em um mês, entre 5 e 24 de agosto, a cruzada ferozmente desencadeada liquidou o governo Vargas e o que ele representava, especificado na carta testamento. Em março de 1964, em um mês, entre 8 e 31, a cruzada, outra vez acirrada e com os mesmos elementos, liquidou o governo Goulart e o que ele representava, isto é, as reformas de base e a composição entre a burguesia e o proletariado para ampliar o processo nacional.

O pano de fundo desses episódios de destacada importância em nosso desenvolvimento histórico, particularmente no acabamento da revolução burguesa, foi, sem dúvida, a imobilidade e o silêncio do campo, cuja situação esteve sempre vinculada ao monopólio da terra. Em 1964, esse secular silêncio começava a ser rompido e a reação feudal estava profundamente assustada com essa perspectiva.

O alastramento das relações capitalistas no campo, seguindo o Brasil a via prussiana realmente, com todas as deformações provocadas pelo desenvolvimentismo aqui inaugurado com o período Kubitschek e sofisticado com o chamado “modelo brasileiro”, começa a colocar na arena política o trabalhador agrícola e completa o quadro em que a revolução burguesa necessita com urgência ultimar o seu processo já tão retardado. Para isso, necessita mais do que nunca de compor-se com o povo – sempre visado injuriosamente no conceito do populismo – para alcançar sucesso. A época de coexistência possível entre burguesia e latifúndio terminou ou está próxima do fim. Mas a época, agora, apresenta o imperialismo como o inimigo intransigente e poderoso.

O regime instaurado em 1964 e completado em 1968, resultante de uma composição de forças que isolou e derrotou politicamente as forças populares, para só depois impor-se pelo uso das armas e da violência policial repressiva, articulou o controle do poder pela absoluta submissão ao imperialismo. Esse regime levou as últimas consequências a orientação estabelecida no período Kubitschek, recebendo a maciça entrada de capitais estrangeiros e a saída maciça de seus lucros, como a cessão das riquezas minerais mais importantes e o crescimento acelerado do endividamento externo, para dar a essas deformações dimensões historicamente inéditas.

Na verdade, assustada com as ameaças esquerdistas, levantadas pela campanha publicitária de 1964, a burguesia aceitou compor-se com o golpe que liquidou o regime democrático aqui. No quarto de século em que sua associação ao imperialismo levou-a distanciar-se dos trabalhadores, aprendeu a ficar com a parcela menor dos lucros, dividindo-os fraternalmente com as multinacionais. Esse curso intensivo de aprendizagem política parece que lhe permitiu ver mais claro o seu caminho.

Os dias que correm, quando elaborou uma constituição nova, parecem indicar esse sentido. Às forças populares, agora, abrem-se perspectivas novas de avanço, com formas de organização mais sólidas e uma consciência política mais clara. Elas estão interessadas, como beneficiárias, nas reformas que permitirão o acabamento da revolução burguesa aqui. Tais reformas criam condições para que a passagem ao socialismo se processe com mais facilidade e a custos sociais menores. Não é preciso ter ilusões com a burguesia. Mas não é possível desprezar as tarefas da revolução burguesa porque são dessa classe.

A composição entre a burguesia e os trabalhadores cria condições para enfrentar o imperialismo e para liquidar de vez com o latifúndio. Na realidade, a ditadura imposta em 1964, em sua larga vigência, abriu uma nova etapa na vida brasileira, com a sua liquidação. As lições que esse período negro trouxe não podem e não devem ser esquecidas. Na luta ideológica necessária para o avanço, a confusão conceitual de que o populismo foi exemplo frisante desserve porque estabelece a ambiguidade onde a clareza é indispensável. As classes dominantes sempre se serviram da confusão conceitual para alcançar os sus propósitos. O uso do “economês” esconde a exploração económica.

A linguagem esotérica visa sempre reservar o saber a poucos, os iniciados, os servidores, os instrumentos. O longo uso de conceitos como populismo e quejandos é exemplo preciso a respeito de formas como, na luta ideológica, atrás do conceito está a quem ele serve. Que esse uso seja repetido pelos leigos é possível levar a conta da ingenuidade de repetidores despreparados. Mas que seja objeto, como foi até aqui, de larga bibliografia acadêmica é mais uma demonstração de quanto a universidade, no Brasil, afundou na ampla crise da cultura brasileira agravada em termos inéditos com o quarto de século da ditadura obscurantista de que herdamos, infelizmente, alguns remanescentes. Populismo é, pois, um conceito a arquivar. Já prestou aos que o criaram benefícios e vantagens suficientes para desmistificá-lo. É um instrumento da reação.

* Nota da página: Consideramos um mistificação arbitrária o argumento da suposta inspiração da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) de 1943 pela Carta Del Lavoro, promulgada por Mussolini em 1927. Na verdade, o que ambas as cartas compartilham em comum são diretrizes inspiradas em uma matriz corporativista. De qualquer forma, mantivemos o argumento de NWS em forma integral, para não ter prejuízos em sua exposição. Desfeita a mistificação, é possível discutir alguns dos aspectos prejudiciais da CLT para a organização da classe trabalhadora enquanto organismo político consciente e ativo.

[MONIZ BANDEIRA] Breves comentários sobre a obra teórica de Lênin, 1978.


Trechos retirados do livro “Lenin: Vida e obra.”, publicado em 1978, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira:


Os amigos do povo:

A história da socialdemocracia russa, até a morte de Lenin, compreende quatro fases:

– A primeira, pode-se dizer, foi de 1883, data da fundação do Grupo da Emancipação do Trabalho, até 1894, quando Vladimir Ilytch Ulianov apareceu pela primeira vez no cenário político, atacando os narodniki, principalmente K. Mikhailovsky (1842-1904) e Nikolay F. Danielson; com o folheto “Quem são os amigos do povo e como lutam contra os socialdemocratas? ”.

Plekhanov participara, em 1889, do congresso de fundação da Internacional Socialista (a II Internacional), realizado em Paris. Ali, no ano de 1889, proclamou: “A Revolução Russa não pode vencer senão como revolução proletária. Não há nem pode haver outra saída. ” Mas, até os primeiros anos da década de 1890, a socialdemocracia não hostilizava, abertamente, o movimento narodniki, com o qual chegou, inclusive, a tentar uma unificação, no estrangeiro. Não havia, ao fim da década de 1880, uma definição muito clara entre as duas tendências, apesar do folheto de Plekhanov, intitulado Nossas Diferenças. O fio de demarcação passava apenas pela controvérsia sobre os métodos de luta. Os populistas defendiam a ação direta, “la propagande par le fait”, isto é, o terror, enquanto os marxistas insistiam na necessidade de difundir as ideias da revolução e organizar as massas.

– A segunda fase, que se iniciou em 1894, correspondeu ao processo de diferenciação definitiva e de consolidação da socialdemocracia, como tendência e como partido, dentro do movimento revolucionário russo. A partir daí Lenin representou um papel cada vez mais decisivo na sua evolução: de 1903 a 1914, na luta contra os mencheviques, e de 1914 a 1923 (quando adoeceu), afirmando a sua fração como partido independente, promovendo a insurreição de outubro, constituindo a III Internacional ou Internacional Comunista e consolidando o Estado soviético.

“Quem são os amigos do povo e como lutam contra os socialdemocratas? ”, esse documento, escrito por um homem de 24 anos, constituía uma reafirmação dos princípios fundamentais do socialismo científico, da sociologia e da economia política de Marx, contra os subjetivistas, os chamados amigos do povo, os narodniki. “O materialismo” – dizia Lenin – “proporcionou um critério, completamente objetivo, ao destacar as relações de produção, como o arcabouço da sociedade, e ao permitir que se aplique a estas relações o critério científico geral da repetição, cuja aplicação à sociologia negavam os subjetivistas. ”

 Eles, embora reconhecendo que determinadas leis regem os fenômenos históricos, não puderam ver a evolução das formas sociais como um processo histórico natural, acentuava Lenin, precisamente porque não passavam além das ideias e fins sociais do homem, sem saber reduzir essas ideias e esses fins às relações sociais materiais.

A obra divide-se em duas partes:

– Na primeira, Lenin reafirmou os princípios do socialismo de Marx e Engels.

-Na segunda, defendeu as posições dos marxistas russos, que começaram pela crítica dos métodos subjetivos dos socialistas anteriores, não apenas constatando e condenando a exploração, mas procurando explicá-la. A história da Rússia, depois da reforma (com que Aleksandr II aboliu o direito de servidão, em 1861), consistia, segundo Lenin, na ruína das massas e no enriquecimento de uma minoria, ocorrendo a expropriação dos pequenos produtores paralelamente ao avanço do progresso técnico. E, à medida que se afirmava a economia mercantil, os marxistas não poderiam deixar de reconhecer que se tratava de “uma organização burguesa (capitalista) da economia social, organização que necessariamente engendra a expropriação e a opressão das massas”.

Em “Quem são os amigos do povo e como lutam contra os socialdemocratas? ”, o jovem Vladimir Ilytch Ulianov apresentava-se de corpo inteiro, com a sua estatura de pensador marxista plenamente amadurecido. Não importa que nome viesse depois a adotar: V. Ilin, V. Frei, K. Tulin, N. Lenin. Ele sempre continuaria dentro daquelas linhas, que traçou com a mão firme, na sua coerência de revolucionário. Não poderia haver outra saída – escreveu – senão “a luta das classes espoliadas contra as classes possuidoras, luta que constitui o conteúdo principal da realidade econômica da Rússia, começando pela aldeia mais longínqua e terminando com a fábrica moderna mais aperfeiçoada”.

  O capitalismo, segundo observou, convertera os principais ramos industriais em grandes indústrias mecanizadas e, ao socializar, desse modo, a produção, criou as condições materiais do novo regime e, simultaneamente, uma nova força social: o proletário urbano.

Embora a socialdemocracia simpatizasse com a industrialização, porque ela criava as condições para o socialismo e a classe que o realizaria, o proletariado, “nenhum marxista” – salientava Lenin – “utilizou, em qualquer lugar, o argumento de que na Rússia deve haver capitalismo, porque há no Ocidente, […] Nenhum marxista viu jamais na teoria de Marx uma espécie de esquema filosófico-histórico obrigatório para todos, algo mais que a explicação de uma determinada formação econômico-social”.

A realidade, para Lenin, era “a organização burguesa da sociedade russa, organização que divide a massa do povo em proletariado e burguesia, […] o caráter de classe do Estado russo, que não é mais que o órgão de dominação desta burguesia”, só restando, portanto, como “única solução […] a luta de classe do proletariado contra a burguesia”.

Aquele rapaz, que chegara a St. Petersburg, então capital do Império Russo, em 31 de agosto de 1893, e ingressara no círculo de Georgi Plekhanov, não mais descansaria. Teria de combater em várias frentes. Se, de um lado, precisava firmar a doutrina de Marx e Engels contra os narodniki, não transigiria, por outro, com os inimigos internos, aqueles que, de dentro da socialdemocracia, procuravam desvirilizá-la, transformando-a num produto de consumo aceitável pelas classes dominantes da Rússia. Eram os que apontavam como partidários do marxismo legal, liderados por Peter Struve.

Lenin, a esse tempo, conheceu Nadezhda (Nadya) Konstantinova Krupskaya, que trabalhava como secretária na administração da ferrovia, e ligou-se aos irmãos Krassim (Leônidas e Hermann), fundando a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária. Nadezhda transformou-se em sua companheira de todos os dias, em sua auxiliar, ajudando-o, a cada passo e a cada minuto, na obra que iniciava a empreender.

Ela pertencia a uma família nobre, mas arruinada. Era filha de Konstantin Krupski, funcionário do Império, que, pelo seu espírito liberal (defendeu a Polônia contra a política de russificação), teve uma vida bastante atribulada, depois de demitido, processado e, diversas vezes, levado às barras do tribunal. Nadezhda viveu praticamente na pobreza ao lado de sua mãe, quando Konstantin Krupski faleceu.

As perseguições, que o pai sofreu, e as dificuldades da sua infância marcaram a personalidade de Nadezhda Krupskaya. Aos 14 anos, começou a lecionar para aumentar a receita de casa e, por meio das aulas que ministrava, aproximou-se dos operários, identificou-se com seus problemas e sentiu a necessidade de participar também da luta. Principiou a sua militância revolucionária, em 1891, aderindo a um círculo de estudos marxistas.

A abnegação e o espírito de renúncia, que lhe ditavam a sua índole e a sua consciência, valeram-lhe grande confiança e prestígio junto àquela gente humilde trabalhadora. Graças, assim, aos contatos que mantinha com os operários, como professora, e à sua atuação num comitê contra o analfabetismo, pôde auxiliar o futuro Lenin a formar diversos grupos socialdemocratas, em Petersburg, a partir de 1894.

Ambos se casaram em julho de 1898. Estavam condenados à pena do desterro e juntaram-se na Sibéria.

As tarefas da socialdemocracia:

A luta contra os narodniki esteve, durante algum tempo, no centro de suas preocupações. Consolidou os princípios do marxismo em “Quem são os amigos do povo? ”, e apresentou a sua fundamentação econômica, dentro de uma realidade concreta, cheia de dados e de estatísticas, em O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Se, do ponto de vista teórico, as diferenças estavam suficientemente esclarecidas, do ponto de vista prático ainda reinava a confusão. Qual o seu programa político? Quais os seus métodos e a sua tática?

Lenin, em 1898, lançou um folheto (editado em Genebra) procurando definir, pela primeira vez, as tarefas dos socialdemocratas russos:

O trabalho socialista dos socialdemocratas russos consiste em fazer propaganda das doutrinas do socialismo científico, em difundir, entre os operários, um conceito justo sobre o atual regime econômico-social, sobre seus fundamentos e seus desenvolvimentos, sobre suas relações recíprocas, sobre a luta destas classes entre si, sobre o papel da classe operária nesta luta, sua atitude diante das que estão em evolução, sua atitude diante do passado e do futuro do capitalismo, sobre a tarefa histórica da socialdemocracia internacional e da classe operária russa.

Lenin pregava a agitação entre os trabalhadores, a participação em todas as suas manifestações espontâneas, em todos os conflitos com os capitalistas, provocados pela jornada de trabalho, pelo salário, pelas condições de trabalho:

A tarefa dos socialistas é fundir toda a sua atividade com os problemas práticos, cotidianos, da vida operária, ajudar os trabalhadores a orientar-se nesses problemas, dirigir a atenção do proletariado para os abusos mais importantes de que são objeto, auxiliá-lo a formular mais exata e praticamente suas reivindicações aos patrões, desenvolver nos operários a consciência de sua solidariedade, a consciência da comunidade de interesses e da comunidade de causa de todos os operários russos como classe operária única, que integra o Exército mundial do proletariado.

Considerou como atividade socialista a organização de círculos entre os operários, o estabelecimento de relações regulares e conspirativas entre eles e o grupo central dos socialdemocratas, a edição e difusão de literatura operária, a organização do envio de correspondência de todos os centros operários, a edição de volantes e panfletos de agitação e sua difusão e preparação de um contingente de agitadores experimentados.

Em As tarefas da socialdemocracia russa, Lenin esboçou aquelas ideias que poucos anos depois desenvolveria em “Que fazer? ”, e seriam o ponto de partida para a cisão da socialdemocracia russa em mencheviques e bolcheviques. A socialdemocracia não deveria “desperdiçar suas forças”. Deveria “concentrar-se na atividade entre o proletariado industrial, que é mais susceptível de assimilar as ideias socialistas, o mais desenvolvido intelectual e politicamente, o mais importante pelo número e pela concentração nos grandes centros políticos do país”.

Isto não significava que a socialdemocracia russa esquecesse as demais camadas do proletariado e da classe operária russa. Mas não era prático enviar agitadores aos operários a domicílio e aos trabalhadores rurais. A agitação entre as camadas mais avançadas do proletário “é o caminho mais seguro, o único caminho para conseguir também o despertar (na medida que se vá estendendo o movimento) de todo o proletariado russo”.

A socialdemocracia estava disposta a apoiar os revolucionários russos que chegassem a organizar, com base na luta de classes, um empreendimento socialista, sem ocultar, porém, que “nenhuma aliança prática com outras frações […] não pode nem deve conduzi-la a compromissos ou concessões, no que toca à teoria, ao programa, à bandeira”. Qualquer tentativa de atar o movimento operário russo a doutrinas menos definidas encontrar-se-ia sob o fogo de sua crítica. Esse sentido de clareza constituiria, por muito tempo, a quintessência da educação leninista do militante.

Os socialdemocratas” – esclareceu Lenin – “apoiam as classes sociais progressistas contra as reacionárias, a burguesia contra os representantes da casta privilegiada dos grandes latifundiários e contra a burocracia, a grande burguesia contra os apetites reacionários da pequena burguesia. ” Mas – isto sempre deixou bem claro – “este apoio não pressupõe nem exige compromisso algum com programas e princípios não socialdemocratas: é o apoio a um aliado contra um inimigo determinado”.

  Os socialdemocratas “prestam esse apoio para acelerar a queda do inimigo comum, mas não esperam nada para si dos aliados transitórios nem lhes fazem nenhuma classe de concessões”. Lenin sempre insistia na completa independência do proletariado, mesmo diante dos seus aliados:

Só o proletariado pode ser – e pela sua posição de classe não pode deixar de sê-lo – democrata consequente até o fim, decidido inimigo do absolutismo, incapaz de fazer concessão alguma ou de contrair qualquer compromisso. Só o proletariado pode ser lutador de vanguarda pela liberdade política e pelas instituições democráticas.

Completava-se a crítica ao populismo, crítica esta que Georgi Plekhanov (1856-1918) iniciará na década de 1880, através de várias publicações. O avanço do movimento operário, paralelamente à decomposição do campesinato e à ruína do Mir, contribuiu decisivamente para minar a base social do seu predomínio político. Uma onda de greves sacudiu Petersburg em 1895, no mesmo ano em que Vladimir Ulianov, V. Chelgunov, I. V. Babuchkin, Grigoriy Zinoviev e os irmãos Krassim fundavam a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, passo definitivo para a unificação dos grupos marxistas e a constituição do Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR) que, curiosamente, nasceu quando a maioria dos seus inspiradores estava ou no exílio ou na prisão.

O primeiro congresso realizou-se em 30 de março de 1898, após sucessivos adiamentos em consequência das batidas policiais. Só restavam, em Petersburg, quatro membros, dos quais três eram mulheres (uma delas Nadezhda Krupskaya), para eleger um delegado. Os representantes de Moscou, St. Petersburg, Kiev, do jornal Operário do Sul e do Bund Judaico reuniram-se em Minsk, durante três dias. Ao final, apenas se publicou um manifesto. E, poucos dias depois, a polícia prendeu oito dos nove delegados e dois dos três membros do Comitê eleito no congresso.

A pena de exílio, que Lenin cumpria na Sibéria, terminou em fevereiro de 1900. A de Krupskaya, porém, não acabara. Ele viajou para o exterior e ela, um ano depois, iria ao seu encontro. Ambos encontrar-se-iam novamente em Münich para começar nova jornada.

Materialismo e empiriocriticismo:

Lenin continuou na clandestinidade, a dirigir o trabalho da facção bolchevique. Em abril de 1907, participou do V Congresso do POSDR, que se reuniu em Londres, e, em agosto, viajou para Stuttgart (Alemanha), a fim de comparecer ao congresso da II Internacional. Regressou em seguida, mas a situação na Rússia tornava-se cada vez mais difícil e seu refúgio de Kuokalla (fronteira da Finlândia) não mais oferecia condições de segurança.

O primeiro-ministro Pyotr Arkadyevich Stolypin (1862-1911), em junho de 1907, intimou a segunda Dunna (instalada desde fevereiro) para que expulsasse, imediatamente, 55 deputados social-democratas e permitisse a prisão de 16. Não esperou a decisão. A Okrana realizou centenas de batidas, enchendo seus cárceres de militantes, operários e intelectuais. Tratava-se de um golpe da autocracia, que, com a dissolução da segunda Duma, promulgaria nova lei eleitoral ainda mais autoritária.

Lenin não teve alternativa senão sair da Finlândia, o que fez em dezembro de 1907. Quase morreu quando tentava atravessar a fronteira e o gelo partiu-se sob os seus pés. Salvou-se e, a 25 de dezembro, chegou a Genebra.

A segunda emigração, que duraria nove anos, ocorria em circunstâncias mais graves. O partido estava profundamente avariado, seus militantes perseguidos, suas organizações esmagadas pela polícia. Muitos, principalmente entre os intelectuais, capitulavam, renegavam. Havia traições. As massas manifestavam cansaço. Os que deixaram, por um momento, de conquistar o céu, na terra, agora procuravam a terra no céu. A revolução na fé substituía a fé na revolução. Uma onda de religiosidade e misticismo espraiou-se pela Rússia. A taxa de suicídios aumentou e grande parte da juventude redescobriu o sexo, o erotismo. A depressão atingia um dos seus pontos mais baixos em 1908.

Lenin tratou de organizar, no estrangeiro, a publicação de Proletarii, a fim de rearticular a facção bolchevique. Mas, simultaneamente, teve que enfrentar os reflexos do descenso revolucionário dentro de sua própria fortaleza. Do grupo mais radical, que advogava o boicote da Duma e chegou a acusá-lo de menchevismo por defender a participação na campanha eleitoral, surgiu uma tendência para ressuscitar o idealismo contra a dialética de Marx e Engels. Essa tendência, na verdade, vinha de algum tempo, mas somente em 1908 recrudesceu a sua ofensiva ideológica, com o aparecimento de diversas obras sobre a questão. Uma coletânea de artigos de Vladimir Basarov (1874-1939), Aleksandr A. Bogdanov (1873-1928), Anatoly Lunatcharski (1875-1933) e outros, intitulada Apontamentos sobre a Filosofia do Marxismo, era a mais importante de todas. Seus autores, liderados por Aleksandr A. Bogdanov, um dos dirigentes bolcheviques, inspiravam-se na doutrina do físico e filósofo austríaco Ernst Mach (1838-1916).

Os adeptos de Ernst Mach procuravam eliminar o dualismo entre a ideia e a matéria. A consciência – expunham – é que imprime as qualidades à matéria – tamanho, forma, cor etc. Uma e outra se integram e se transformam num único elemento. Era a negação do materialismo dialético, mais uma tentativa para rever a doutrina de Marx e Engels, a partir da teoria do conhecimento. Essa filosofia se chamava empiriocriticismo ou empireomonismo.

Lenin então se lançou ao estudo de Mach, Richard Avenarius (1843-1896), David Hume (1711-1776), George Berkeley (1685-1753) e outros filósofos e, como nem todo o material pôde encontrar em Genebra, viajou para Londres, onde, durante algum tempo, se plantou no salão de leitura do Museu Britânico. E escreveu o Materialismo e Empiriocriticismo, obra que, iniciada em fevereiro de 1908, ele concluiria em outubro, com a pretensão de lançá-la o quanto antes, quando se realizaria uma conferência ampliada da redação de Proletarii. Assim poderia, nessa ocasião, liquidar definitivamente a corrente de Bogdanov.

O Materialismo e Empiriocriticismo mostram a estrutura de Lenin como pensador, capaz de enriquecer e ampliar o legado de Marx e Engels, não só como político, mas, também, como filósofo. Ali ele restaura e consolida a gnosiologia do materialismo dialético. As coisas existem fora e independentemente do homem, produto da matéria altamente organizada. Não existe nem pode existir diferença alguma de princípio entre o fenômeno e a coisa em si. A diferença consiste entre o que se conhece e o que não se conhece. Não se deve, portanto, considerar o conhecimento do homem como algo acabado e imutável, mas analisar de como do desconhecimento surge o conhecimento, de como o conhecimento incompleto, impreciso, se torna mais completo e mais preciso.

Lenin partiu, seguindo o método materialista, dos objetos para a sensação e para o pensamento:

O materialismo, de pleno acordo com as ciências naturais, considera a matéria como o elemento primário e a consciência, o pensamento, a sensação, como o elemento secundário, porque a sensibilidade não se relaciona, em sua forma mais acabada, senão com as formas superiores da matéria (com a matéria orgânica), e não se pode admitir, “nos alicerces do próprio edifício da matéria”, a existência de uma propriedade análoga à sensibilidade.

A matéria – expunha – “suscita a sensação, atuando sobre os nossos órgãos dos sentidos”, isto é, “a sensação depende do cérebro, dos nervos, da retina […], da matéria organizada de maneira determinada. A matéria é o primordial. A sensibilidade, o pensamento, a consciência são os produtos mais elevados da matéria organizada de um modo determinado”, depois de alto grau de evolução. Assim a tentativa para eliminar o dualismo do espírito e do corpo, de acordo com a concepção monista, visava restabelecer a primazia da ideia sobre a matéria.

Da análise das sensações, Lenin avançou para a teoria do conhecimento. O materialista admite a verdade objetiva, independentemente do homem, que a conhece através dos órgãos dos sentidos. Essa verdade objetiva, absoluta, não é senão uma soma de verdades relativas. “Cada etapa do desenvolvimento das ciências acrescenta novas parcelas a essa soma de verdade absoluta, mas os limites da verdade de toda tese científica são relativos, ora amplos, ora restritos, na proporção do progresso das ciências. ” Mas, qual o critério dessa verdade? “A concepção prática, da vida, deve ser a concepção fundamental da teoria do conhecimento” – reafirmou Lenin. A prática proporciona um critério objetivo da verdade. Dessa forma, o problema de saber até que ponto os conhecimentos do homem refletem a realidade só se resolve com a experiência.

O Materialismo e Empiriocriticismo ainda focalizou a revolução por que passaram as ciências naturais, principalmente a física, com a descoberta, nos fins do século XIX, da radioatividade, no elétron, e da variabilidade de sua massa. “A essência da crise da física contemporânea” – indicou Lenin – “consiste na subversão das velhas leis e dos princípios fundamentais e na rejeição da verdade objetiva existente fora da consciência, isto é, pelo idealismo e pelo agnosticismo. ” Aquelas descobertas não refutavam, antes confirmavam a validade do método dialético, cuja utilização abriria a saída para a crise. “O elétron é tão inesgotável quanto o átomo, a natureza é infinita e existe infinitamente. E somente esse reconhecimento absoluto, categórico, da sua existência fora da consciência e das sensações humanas é que distingue o materialismo dialético do agnosticismo e do idealismo relativistas. ”

A preocupação de Lenin, no campo da filosofia, não se limitaria apenas ao estudo que fez para o Materialismo e empiriocriticismo, mas, a muitos outros, cujos projetos só apareceriam depois de sua morte (1929-1933), em Léninski Sbórnik. Esses projetos, editados separadamente, tomaram o título de Cadernos filosóficos. Suas notas e comentários, sobre os mais diversos aspectos da filosofia e as suas várias correntes, revelam a sua intenção de escrever uma obra mais ampla, que não chegou a dar forma. Lenin dedicava particular atenção ao processo do conhecimento dialético, pela via da preparação sensível, que se transforma em pensamento abstrato e, em seguida, se confronta com a prática. Voltou-se para a obra de Hegel, sobretudo para a lógica e a teoria do conhecimento.

A maioria dos apontamentos data de 1914-1915.


A questão nacional:

No período que se seguiu ao golpe de Stolypin (junho de 1907), até às vésperas da Primeira Guerra Mundial, uma série de dissensões e lutas internas marcou a história da social-democracia russa, dividiu e subdividiu as frações que a integravam, mencheviques, bolcheviques e diversos outros grupos. Entre os bolcheviques havia a corrente dos boicotadores, os otsovistas (do russo otsovat, retirar), que exigiam o abandono da Duma pelos deputados social-democratas e a renúncia a toda atuação legal. No outro extremo, entre os mencheviques, os liquidadores voltavam as costas à luta ilegal e à organização clandestina. Os conciliadores, entre os quais se incluíam Trotsky, Solomon A. Lozovsky (1878-1952), Alexey I. Rikov (1881-1938), Grigoriy Y. Sokolnikov (1888-1939) e Lew Kamenev, representavam ainda uma terceira tendência, que buscava preservar a unidade do POSDR.

Em janeiro de 1910, os conciliadores conseguiram convocar um pleno do Comitê Central, a fim de promover a unidade, cujo preço bolcheviques e mencheviques teriam que pagar com a expulsão de suas fileiras de todos os extremistas – boicotadores e liquidadores. Isto não constituía nenhum problema para Lenin, que, desde a conferência da redação de Proletarii, em junho de 1909, expulsara seus principais cabeças, os empiriocriticistas, como Bogdanov e Lunatcharski. Os mencheviques, porém, não puderam cumprir sua parte no acordo, porquanto o liquidacionismo influenciava a maioria. Houve novo rompimento.

As lutas prosseguiram. Lenin convocou, em janeiro de 1912, uma conferência de ativistas, que se realizou em Praga e proclamou a sua fração como o verdadeiro partido, expulsando os mencheviques. A conferência ainda adotou outras resoluções: decidiu que o partido entraria na campanha eleitoral para a quarta Duma; elegeu um Comitê Central, sob a direção de Lenin, que também passaria a representá-lo junto ao Bureau Socialista Internacional (II Internacional).

Trotsky, que, em Viena, dirigia um jornal com o título de Pravda, tomou a dianteira da luta contra Lenin e, ao reunir bolcheviques boicotadores e ultraesquerdistas, mencheviques, o bund judaico e outros, formou o chamado Bloco de Agosto. Todos consideravam a conferência de Praga como um golpe de Estado e não se dispunham a reconhecê-la. Mas, a essa altura, Lenin tinha o controle da organização clandestina do partido, os bolcheviques dominavam os organismos regionais, enquanto os mencheviques estavam dispersos e, sem uma diretriz que os unisse, só podiam oferecer uma pálida resistência, um protesto sem eco, embora contassem com as simpatias dos dirigentes da II Internacional.

Não só as lutas de fração, entretanto, estraçalhavam a social-democracia russa. A Okhrana conseguira infiltrar, no aparelho do partido, vários agentes, como David Zhitomirsky e Roman Malinovsky, este último, muito próximo de Lenin, chefiou o grupo bolchevique (seis deputados) eleito para a Duma, em 1912, e integrou o Comitê Central. Lenin, apesar de advertido diversas vezes, recusou-se a aceitar as suspeitas que se espalhavam no partido. Malinovsky, quando eclodiu a guerra, abandonou sua cadeira de deputado e viajou para a Alemanha. Só depois de vitoriosa a revolução, puderam comprovar que ele efetivamente trabalhara para a polícia. Fuzilaram-no quando regressou à Rússia.

As infiltrações provocaram no aparelho do partido muitas baixas e, juntamente com as questões de ordem ideológica, acirravam os ânimos, para aumentar a divisão – o que também interessava à Okhrana –, fomentando o clima de intrigas e desentendimentos. Lenin, a fim de escapar, por um lado, às contendas que agitavam os emigrados e, por outro, controlar mais de perto o trabalho clandestino do partido, transferiu-se, em 19 de junho de 1912, para Cracóvia (Áustria-Hungria). Estaria mais próximo da Rússia, onde começara a circular, desde 5 de maio, o órgão legal dos bolcheviques, com o título de Pravda (verdade), o mesmo do periódico editado por Trotsky em Viena.

Desde 1908, Lenin e Nadezhda estavam a morar em Paris e lá ele conheceu, em 1910, Inessa Armand, née Elisabeth-Inès Stéphane d’Herbenville (1874-1920), militante do POSDR, mulher muito bonita e culta, feminista, tocava, ao piano, Beethoven, que Lenin adorava, e irradiava sexualidade. Os dois apaixonaram-se e iniciaram fervoroso affaire d’amour. Lenin não escondeu o caso de Nadezhda Krupskaya, sua esposa, que se ofereceu para deixá-lo, se ele quisesse, para estar livre com seu novo amor. Lenin disse que não, que ela ficasse, e Nadezhda não apenas compreendeu e aceitou a situação como estreitou a amizade com Inessa, que se tornou maîtresse e braço direito de Lenin. Passaram a viver em ménage à trois. Inessa ainda era casada com o industrial russo Aleksandr Armand, nunca se divorciara, e fora amante do cunhado, Vladimir, que morreu em 1910, ano em que ela conheceu Lenin.

A partir de 1910, no entanto, os ventos mudavam na Rússia. O movimento de massas estava a recuperar, gradativamente, sua força. As greves, em 1912, já envolviam 725.000, e esta cifra aumentaria de ano a ano, até o início da guerra: 1. 272.000 (861.000, segundos os dados oficiais), em 1913, e 1.500.000, na primeira metade de 1914.

Lenin, em 1912, trasladou-se para a Cracóvia, com Nadezhda Krupskaya e Inessa Armand, e voltou suas atenções para o problema das nacionalidades, pouco antes de eclodir a guerra, a fim de responder às críticas de Rosa Luxemburg ao artigo 9 do programa do POSDR, que consagrava o direito das nações a autodeterminação. Rosa Luxemburg, líder da ala esquerda da social-democracia alemã, considerava aquela reivindicação como tipicamente pequeno-burguesa e este ponto de vista defenderia até mesmo depois de vitoriosa a insurreição de Outubro, quando os bolcheviques concederam aos povos, que integravam o Império da Rússia, o direito à autodeterminação. O desenvolvimento das grandes potências capitalistas e o imperialismo tornaram ilusório aquele direito, argumentava Rosa Luxemburg. E, sob o socialismo, que representa uma ordem econômica internacional, ele perderia ainda mais a sua razão de ser. De sorte que aquela reivindicação, no programa do POSDR, reforçaria, no seu entender, tão somente o nacionalismo burguês.

Embora as críticas de Rosa Luxemburg viessem desde 1908, apenas em 1914, seis anos depois, Lenin sentiu a necessidade de refutá-las, no ensaio Sobre o direito das nações à autodeterminação, escrito em fevereiro-maio daquele ano. As raízes da divergência residiam no fato de que Rosa Luxemburg não percebia a importância da autodeterminação das nacionalidades, que a Rússia subjugava, como fator altamente explosivo, naquele processo de revolução democrático-burguesa. “Na Europa Ocidental, continental, a época das revoluções democrático-burguesas abarca um intervalo de tempo bastante determinado, aproximadamente de 1789 a 1871” – explicava Lenin. “Na Europa oriental e na Ásia, a época das revoluções democrático-burguesas apenas começou em 1905.” O marxismo exige que se enquadre, dentro de um marco histórico determinado, a análise de qualquer problema social e, por conseguinte, é preciso focalizar o direito à autodeterminação, estabelecendo-se em “que época histórica atravessa a Rússia, quais são as particularidades concretas da questão nacional e dos movimentos nacionais do país determinado e na época determinada”.

As condições particulares da Rússia, segundo Lenin indicava, exprimiam-se na seguinte situação:

A Rússia é um Estado com um centro nacional único, grão-russo. Os grão-russos ocupam um gigantesco território compacto, ascendendo seu número a aproximadamente 70 milhões de homens. A peculiaridade deste Estado nacional reside, em primeiro lugar, em que os alógenos (que em conjunto constituem a maioria da população, com 57%) povoam precisamente a periferia; em segundo lugar, no fato de que a opressão destes alógenos é muito mais forte que nos países vizinhos (inclusive não apenas nos europeus); em terceiro lugar, em que há toda uma série de casos em que as nacionalidades oprimidas, que vivem na periferia, têm compatriotas do outro lado da fronteira e estes últimos gozam de maior independência nacional (basta recordar, ainda que só seja nas fronteiras ocidental e meridional do Estado, os finlandeses, suecos, polacos, ucranianos e romenos); em quarto lugar, em que o desenvolvimento do capitalismo e o nível geral de cultura são com frequência mais altos na periferia alógenas que no centro do Estado.

E mais: “precisamente nos Estados asiáticos vizinhos presenciamos o começo de um período de revoluções burguesas e de movimentos nacionais, que compreendem em parte as nacionalidades afins dentro das fronteiras da Rússia”.

Lenin entendia a autodeterminação das nações como “sua separação estatal das coletividades nacionais estranhas […], a formação de um Estado nacional independente”. Mas, “a burguesia, que naturalmente atua no princípio de todo movimento nacional como força hegemônica (dirigente) ” coloca sempre em primeiro plano as suas reivindicações, enquanto o proletariado “subordina-as aos interesses da luta de classes”. Para Lenin, “em todo nacionalismo burguês de uma nação oprimida há um conteúdo geral democrático contra a opressão e a este conteúdo emprestamos um apoio incondicional, separando rigorosamente a tendência para o exclusivismo nacional, lutando contra a tendência do burguês polaco para oprimir o judeu etc. etc.”.

Assim, da mesma forma que defendia o direito à autodeterminação, Lenin rechaçava a chamada autonomia nacional-cultural, como um disfarce do nacionalismo burguês. “Os socialistas lutam contra todas e cada uma das manifestações, abertas ou sutis, do nacionalismo burguês”, assinalava no projeto de plataforma para o IV congresso da social-democracia da Letônia.

Os social-democratas sempre defenderam e defendem o ponto de vista do internacionalismo. Ao proteger a igualdade de direito de todas as nacionalidades diante dos feudais e do Estado policial, propugnamos não pela cultura nacional, senão pela cultura internacional, que inclui só uma parte de cada cultura nacional, a saber: o conteúdo consequentemente democrático e socialista de toda a cultura nacional.

O reconhecimento do direito à autodeterminação, ou seja, do direito à separação e à independência, como o Estado, das diversas nações, não poderia, por conseguinte, levar ao “nacionalismo militante da burguesia, que embrutece, engana e divide os operários para conduzi-los a reboque dos burgueses”. Este nacionalismo militante constitui “o fato fundamental de nossa época” e contra ele “quem quiser servir ao proletariado deverá unir os operários de todas as nações” – acentuou em Notas críticas sobre a questão nacional, escrito que data de dezembro de 1913.

Alguns meses depois, a questão do nacionalismo e do internacionalismo passaria pela grande prova de fogo, dividindo, irremediavelmente, a social-democracia: a guerra mundial, deflagrada em agosto de 1914, arrastou a maioria dos seus líderes e militantes para a voragem do chauvinismo. A Lenin, contrário à guerra, caberia sustentar o internacionalismo socialista e defender o derrotismo revolucionário.

O imperialismo:

A livre concorrência, no mercado, sempre configurou uma guerra, conduzida por meio da redução dos preços, o que dependia da produtividade do trabalho, e este da escala da produção, e daí que vencia a empresa com mais capital e mais recursos tecnológicos e/ou outras vantagens. Ganha a empresa que possui o maior capital, a que pode explorar maior número de operários. Ela absorve ou esmaga suas rivais. A mais forte torna-se mais forte. É a lei da selva, aplicada à economia: a lei do mais forte. Assim, sobre o campo de batalha – onde perecem dezenas de capitalistas – erguem-se os trustes e cartéis, o monopólio parasita e reacionário. “Die größeren Kapitale schlagen daher die kleineren” (os grandes capitais derrotam os pequenos) – disse Marx. E a livre concorrência engendra a sua mortal negação.

Um mês após a eclosão da guerra, Karl Kautsky, discípulo direto de Karl Marx e Engels e o mais importante teórico da II Internacional, escreveu em Die Neue Zeit, de 11 de setembro de 1914, um artigo intitulado “Der Imperialismus”, no qual defendeu a teoria de que, conforme a lei do desenvolvimento capitalista, demonstrada por Marx, a guerra mundial poderia compelir as potências imperialistas a formar uma espécie de cartel, da mesma forma que a rude e brutal competição das firmas gigantes, dos bancos gigantes e multimilionários, que absorviam os menores, levaram os grupos financeiros a conceber a ideia de um cartel, um acordo explícito ou implícito a fim de evitar os conflitos entre elas e a devastação recíproca, deixando que as guerras, para o consumo de armamentos, produzidos pela indústria pesada, ocorressem na periferia do sistema capitalista. Não era impossível, do ponto de vista puramente econômico, que o capitalismo entrasse em nova fase, com a transferência dos métodos dos cartéis para a política internacional, conforme Kautsky anteviu, e constituíssem o ultraimperialismo, que também devia ser, implacavelmente, combatido.

Com efeito, a internacionalização da vida econômica, com a criação do mercado mundial e a divisão internacional do trabalho, promovida pelo capitalismo mercantil, entre os séculos XV e XVIII, e acentuada a partir dos fins do século XIX, a concorrência recrudesceu e o antagonismo entre empresas transformou-se no antagonismo entre Estados nacionais e entre blocos de Estados. Formavam-se impérios do capital financeiro.

A guerra de 1914 constituiu uma trágica manifestação desta concorrência: a concorrência pelas armas. Lenin denunciou, diversas vezes, seu caráter imperialista. Era preciso, porém, esclarecê-lo, explicá-lo. “É evidente que não poderemos emitir um julgamento histórico concreto sobre a guerra atual, se não nos basearmos numa completa elucidação da natureza do imperialismo, tanto do ponto de vista econômico, como do ponto de vista político”, observou no prefácio ao livro de Nikolay Bukharin O Imperialismo e a economia mundial, escrito em 1915.

O capitalismo atravessava uma nova etapa, que Marx e Engels apenas previram. John A. Hobson (1858-1940), economista inglês, publicou, em 1902, uma obra sobre O imperialismo, em que fazia, segundo expressão de Lenin, “excelente e detalhada descrição das particularidades econômicas e políticas” dessa etapa. Mais tarde, em 1910, Rudolf Hilferding (1877-1941), marxista austríaco, escreveu um livro sobre O capital financeiro, que Lenin também considerava, apesar de algumas restrições, “uma análise teórica extremamente valiosa”. E Rosa Luxemburg, em 1913, lançou A acumulação do capital, onde estudou as leis de evolução do capitalismo e demonstrou que o imperialismo era “a expressão do processão de acumulação do capital, em sua luta para conquistar as regiões não capitalistas que não se encontrem ainda dominadas”.

Mas o assunto não se esgota, nem mesmo com o ensaio de Bukharin, na verdade um dos mais preciosos (e atuais) estudos sobre a questão, também abordando com muita clareza a formação dos monopólios de Estado e do complexo industrial-militar. Lenin, ele próprio, passou a pesquisar dados e estatísticas sobre a economia mundial e suas notas compõem um volume, publicado depois de sua morte, com o título Cadernos sobre o Imperialismo.

Essas notas serviram de base para elaboração do seu famoso livro – O Imperialismo – etapa superior do capitalismo. Lenin terminou de escrevê-lo em junho de 1916. Pretendia publicá-lo, legalmente, na Rússia e por isto usou uma linguagem velada, com poucas observações políticas, para furar a censura. Só veio a público, porém, depois da queda do czar, em 1917.

O imperialismo, o domínio do capital financeiro, é”, definia Lenin, “o capitalismo no seu mais alto grau”, em que “os grupos de monopolistas […] – cartéis, sindicatos, trustes – repartem entre si, em primeiro lugar, o mercado interno, apoderando-se, de modo mais ou menos completo, da produção do país”, e, depois, “partilham o mundo, não como consequência de sua perversidade, senão porque o grau de concentração a que chegaram lhes obriga a seguir esse caminho para obter lucro”, e o fazem, “segundo o capital, segundo a força” (econômica ou militar) de que dispõem.

O capitalismo contemporâneo, cujo alto grau de concentração e centralização transformou a concorrência em monopólio, apresenta outra particularidade extremamente importante, “a chamada combinação, ou seja, a reunião, numa só empresa de distintos ramos da produção, que representam […] fases sucessivas da elaboração de uma matéria-prima […] ou desempenham, uns em relação aos outros, papel auxiliar”.

A fase da livre concorrência atingiu seu ponto culminante entre 1860 e 1880. Após a crise de 1873, os cartéis começaram a surgir, mas de modo esporádico, e só se “converteram em base de toda a vida econômica”, a partir do fim do século XIX e princípios do século XX, estabelecendo entre si acordos sobre preços, condições de venda, prazos de pagamentos, áreas do mercado etc. Apoderam-se das fontes de matéria-prima, monopolizam a mão de obra especializada, controlam os meios de transporte e de comunicação (estradas de ferro, de navegação, telégrafos etc.).

Os monopólios a essa altura não utilizam apenas as condições técnicas para vencer a competição. Recorrem a todos os processos – dumping (vendas abaixo do custo), privação de crédito, boicote etc. – para forçar a rendição ou o colapso dos concorrentes. Estrangulam todos os capitalistas que não se submetem a seu jugo. As especulações florescem. “O monopólio abre caminho em todas as partes, valendo-se de todos os meios, a começar pelo pagamento de modesta indenização e terminando pelo procedimento americano do emprego da dinamite contra o competidor.”

Lenin mostrou que “a supressão das crises pelos cartéis é uma fábula dos economistas burgueses”. “As crises de todo tipo, sobretudo as crises econômicas, mas não somente estas, aumentam por sua vez com a tendência para a concentração e o monopólio.” “O monopólio é a última palavra da fase mais recente do desenvolvimento do capitalismo”, a antessala da revolução social.

O papel que os bancos desempenharam, nesse processo de concentração, adquire, pouco a pouco, decisiva e fundamental importância. Simples intermediários para as operações de pagamento, “convertem o capital monetário inativo em ativo, isto é, que rende juros”, e passam a reunir enorme soma de dinheiro, que põem à disposição dos industriais. Trava-se a competição, e os diversos bancos, que antes existiam, cedem lugar a reduzido número de estabelecimentos, “monopolistas onipotentes, que dispõem de quase todo o capital monetário de todos os capitalistas e pequenos patrões, assim como da maior parte dos meios de produção e das fontes de matérias-primas de um ou de vários países”.

A concentração e o aumento do giro do capital modificam, substancialmente, a importância dos bancos “e os capitalistas dispersos vêm a formar um capitalista coletivo”. “Ao levar uma conta-corrente para vários capitalistas” – Lenin assinalou – “o banco aparentemente realiza uma operação puramente técnica, auxiliar”, mas, na verdade:

ela cresce em proporções gigantescas, resulta que um punhado de monopolistas subordina as operações comerciais e industriais de toda a sociedade capitalista, obtendo a possibilidade – por meio de suas relações bancárias, das contas-correntes e outras operações financeiras – primeiro, de inteirar-se com exatidão do estado de negócios de cada capitalista e, depois de controlá-los, de exercer influência sobre eles mediante a ampliação ou a restrição do crédito, facilitando-o ou dificultando-o e, finalmente, de determinar completamente seu destino, de determinar sua rentabilidade, de privá-los de capital ou de permitir-lhes acrescentá-lo rapidamente e em proporções imensas etc.

A Bolsa, que no capitalismo de livre concorrência funcionava como regulador da economia, perde a sua importância, cedendo aos bancos o controle sobre a circulação de valores. E, enquanto as indústrias precisam recorrer cada vez mais aos bancos, para conseguir capital, os bancos têm necessidade de investir nas indústrias a grande soma de dinheiro de que dispõem. Associam-se os interesses. Banqueiros compram ações das indústrias e entram na sua direção. O capital bancário funde-se ao capital industrial e gera o capital financeiro. A aliança econômica produz a união pessoal e surge a oligarquia. “O monopólio, uma vez constituído e começando a manejar milhares de milhões, penetra, inevitavelmente, em todos os aspectos da vida social, independentemente do regime político e de outras particularidades.” E, observava Lenin, “o imperialismo, o predomínio do capital financeiro, […] o capitalismo em seu mais alto grau, […] implica a situação dominante do rentista e da oligarquia financeira, a situação destacada de alguns Estados, dotados de potência financeira, entre todos os demais”.

A exportação de mercadorias caracterizava o velho capitalismo, onde predominava a livre concorrência. Mas a acumulação do capital, com a maior capacidade de exploração da mais-valia pelos monopólios, atinge tais proporções que a exportação do seu excesso se converte na característica principal da nova etapa. “A possibilidade de exportação do capital está determinada pelo fato de que uma série de países atrasados já se acha incorporada à circulação do capitalismo mundial”, com a criação dos meios de transporte e das bases do desenvolvimento da indústria, enquanto que alguns outros, avançados, amadurecem excessivamente e não possuem mais terreno para investimentos lucrativos.

A exportação de capital influi sobre o desenvolvimento do capitalismo nos países onde o investem”, – esclareceu Lenin, invocando um relatório do cônsul austro-húngaro em São Paulo (Brasil), que afirmava:

A construção das ferrovias brasileiras realiza-se, em sua maior parte, com capitais franceses, belgas, britânicos e alemães: ditos países, ao efetuar as operações financeiras relacionadas com a construção das vias férreas, asseguram os pedidos de construção ferroviária. Assim, a exportação de capitais abria caminho para a exportação de mercadoria e a oligarquia estendia a sua rede, no sentido textual da palavra, a todos os países do mundo.

Lenin, seguindo estas premissas, demonstrou a forma com que os monopólios procedem à partilha do mundo e a oligarquia financeira subordina “inclusive os Estados que gozam de uma independência política completa”. Os grupos travam feroz luta para arrebatar ao adversário toda a possibilidade de concorrência, arrancar-lhe, por exemplo, “as terras que contêm minério de ferro, jazidas de petróleo etc.”. “A posse das colônias é a única que garante de maneira completa o êxito do monopólio contra todas as contingências da luta com o adversário, sem excluir a possibilidade de que ele deseje defender-se por meio de uma lei sobre o monopólio de Estado.” Isto é, muitas vezes um truste, querendo impedir que uma fonte de matéria-prima, uma jazida de minério ou de petróleo, caia nas mãos do concorrente, leva o governo do país a nacionalizá-la, a estabelecer o monopólio do Estado e não realizar a exploração. Lenin citou como exemplo a luta que o Banco Alemão e a Shell (holandesa-britânica) travaram contra o grupo petrolífero de John D. Rockefeller (1839-1937), organizando a campanha em favor do monopólio estatal, quando viram que iam perder a licitação.

O imperialismo criou “uma série de formas de transição de dependência nacional”. O domínio não se limita às colônias, mas aos Estados “politicamente independentes, do ponto de vista formal, mas, na realidade, envoltos pela rede de dependência diplomática e financeira”. O capital financeiro, segundo Lenin definiu com base no conceito de Hilferding,

é o capital bancário de alguns grandes bancos e monopolistas fundido com o capital dos grupos monopolistas industriais e, por outro, a partilha do mundo é o trânsito da política colonial, que se expandia sem obstáculos nas regiões ainda não apropriadas por nenhuma potência capitalista, à política colonial de denominação monopolista dos territórios do globo, inteiramente repartidos.

O imperialismo apresentava, pois, as seguintes características: 1) concentração da produção e do capital que, elevada a tal ponto, cria o monopólio e este passa a desempenhar um papel decisivo na vida econômica; 2) fusão do capital bancário com o capital industrial, formando o capital financeiro, em torno do qual surge a oligarquia; 3) exportação de capital, através de investimentos, créditos etc.; 4) surgimento de trustes, sindicatos, cartéis, que repartem o mundo entre si; 5) o término da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes.

A oligarquia financeira corrompe uma camada da classe operária, aburguesando-a e criando uma aristocracia operária, a base social do oportunismo, do reformismo, do social-chauvinismo, que contaminaram a II Internacional. “O imperialismo, […] que implica lucros monopolistas elevados para um punhado de países riquíssimos, cria a possibilidade econômica de corrupção das camadas superiores do proletariado e com isto nutre, dá forma e reforça o oportunismo.”

O monopólio, porém, exacerbou extremamente as contradições do capitalismo, com “a reação em toda a linha e a intensificação do jogo nacional como consequência do jogo da oligarquia financeira e a supressão da livre concorrência” agravou e aumentou a desigualdade do seu desenvolvimento, nas diversas partes do mundo. O imperialismo é, pois, o “capitalismo parasitário ou em estado de decomposição”, embora esta tendência para a decomposição não descarte a sua possibilidade de crescimento, a sua fase superior, a sua última etapa, “o prelúdio da revolução social do proletariado”.

Lenin errou na sua avaliação, dado que se empenhava, sobretudo, em fazer a revolução na Rússia, como força propulsora da revolução mundial. E não ocorreu. Kautsky é que estava certo, ao aventar, como legatário de Marx, a possibilidade de que as grandes potências também estendessem e aprofundassem sua cooperação, formassem um cartel, em parte como resposta à ameaça da revolução ou dos movimentos de libertação nacional, nos países coloniais, a periferia do sistema, onde as guerras ocorreriam para o consumo de armamentos. E em artigo publicado em Neue Zeit, em 30 abril de 1915, sob o título “Zwei Schriften zum Umlernen”, explicou:

o crescente entrelaçamento entre as várias cliques do capital financeiro levam-me a considerar se não é possível que a atual política imperialista seja superada por uma nova política ultraimperialista, que estabeleça a exploração conjunta do mundo pelo capital financeiro internacional, no lugar da luta entre os capitais financeiros nacionais. Essa nova fase do capital financeiro é, em todo caso, concebível.

O imperialismo – etapa superior do capitalismo, de Lenin, é um livro de combate. Constitui, fundamentalmente, um desdobramento das obras de Hilferding Hobson, e, cientificamente, não apresenta muita originalidade. Lenin apenas previu a “transformação do capitalismo monopolista em capitalismo monopolista de Estado”, transformação esta que “a guerra imperialista acelerou e aguçou extraordinariamente”, como disse em O Estado e a revolução, e imaginou que a revolução socialista, ao atingir os países avançados, como a Alemanha, França e Inglaterra, cortaria essa tendência.

Tática e estratégia:

O esquerdismo – Doença infantil do comunismo encerra uma lição de tática e de estratégia revolucionária. Lenin mostrou que:

 A arte do político (e a compreensão acertada de seus deveres no comunista) consiste, precisamente, em saber apreciar com exatidão as condições e o momento em que a vanguarda do proletariado poderá tomar vitoriosamente o poder, em que poderá, durante a conquista do poder e depois dela, obter um apoio suficiente dos mais vastos setores da classe operária e das massas trabalhadoras não proletárias, em que saberá, depois de conservar o poder, afiançar, ampliar seu domínio, educando, instruindo, atraindo uma quantidade cada vez maior das massas trabalhadoras.

A conquista do poder político exigia que a luta alcançasse certo grau e este grau “não é idêntico em todos os países e em condições diferentes”. Antes “é impossível […] e nem sequer deve tentar-se”. A revolução na Rússia comprovara, praticamente, essa verdade. Antes do 7 de novembro era cedo demais. Lenin orientou os bolcheviques a conterem as massas para impedir que as manifestações de julho, prematuramente, se transformassem em uma insurreição. Mas, depois do 7 de novembro, seria tarde demais.

Até que atingisse aquele grau a luta requeria “toda classe de sacrifícios, vencer os maiores obstáculos para entregar-se a uma propaganda e uma agitação sistemática, perseverante, paciente, nas instituições, sociedades, sindicatos, por mais reacionários que sejam, onde se encontre a massa proletária e semiproletária”. O partido deveria estar sempre atento para todas as situações e não hesitar em criticar seu próprio comportamento e corrigir seus erros. Esta é “uma das provas mais importantes e mais fiéis da seriedade desse partido e do cumprimento efetivo de seus deveres para com a sua classe e para com as massas trabalhadoras”. Nada esconder:

Reconhecer abertamente os erros, pôr a descoberto suas causas, analisar a situação que os engendrou e examinar atentamente os meios de corrigi-los: Isto é o que caracteriza um partido sério, é nisto que consiste o cumprimento de seus deveres, isto é educar e instruir a classe primeiro e depois, as massas.

Os revolucionários deveriam avaliar bem as situações para não tomar os seus desejos pela realidade. “Este é o mais perigoso dos erros para os revolucionários.” Os comunistas de esquerda proclamavam o parlamentarismo como politicamente caduco. Poderia ser verdade para eles, mas não para a classe, para a massa. Os revolucionários, naturalmente, não devem “descer até ao nível das massas, até ao nível dos setores mais atrasados da classe”. Não há dúvidas, “é indiscutível”. Os comunistas devem estar à frente, como vanguarda, procurando elevar o nível das massas. Devem dizer-lhes “a amarga verdade, dizer-lhes que seus preconceitos democrático-burgueses e parlamentares são preconceitos”.

Nem todas as camadas da classe e das massas chegam ao mesmo tempo à mesma compreensão. Os comunistas, por isto, não devem confundir o que eles pensam com o que todo o proletariado e as demais camadas trabalhadoras imaginam. Devem “observar, serenamente, o estado real de consciência e de preparação da classe inteira (e não só de sua vanguarda comunista), da massa trabalhadora inteira (e não só dos seus indivíduos avançados)”.

Naturalmente, “em um estado de espírito revolucionário das massas, sem condições favoráveis para o desenvolvimento de tal estado de espírito, a tática revolucionária não se transformará em ação”. Mas apenas com o sentimento revolucionário “é impossível criar uma tática revolucionária”. Ela deve tomar em conta, “serenamente, e de modo estritamente objetivo todas as forças de classe do Estado de que se trata (dos Estados que o rodeiam e de todos os Estados em escala mundial), e assim como a experiência dos movimentos revolucionários”. A Rússia, devido às peculiaridades de 1917, “foi fácil começar a revolução socialista”, mas, “em compensação, será […] muito mais difícil continuá-la e levá-la a cabo […] do que nos países avançados”.

“Os comunistas para enfrentar os Aliados, numa guerra cem vezes mais difícil, prolongada e complexa que a mais encarniçada guerra entre Estados”, não poderiam renunciar às manobras, à utilização dos antagonismos entre os inimigos, aproveitando as oportunidades para atacar e efetuando acordos com os possíveis aliados, ainda que sejam provisórios, inconsistentes, vacilantes e condicionais – Lenin explicou e aduziu: os comunistas têm que aproveitar, igualmente, “as menores possibilidades de obter um aliado de massas, ainda que temporário, vacilante, instável, pouco seguro, condicional”. O problema “é saber aplicar essa tática para elevar e não para rebaixar o nível geral de consciência, de espírito revolucionário, de capacidade de luta e de vitória do proletariado”.

Eis, em súmula, o que Lenin ponderou. E mais escreveu:

Obter a vitória sobre um adversário mais poderoso só é possível pondo em tensão todas as forças e utilizando obrigatoriamente, com solicitude, minúcia, prudência e habilidade, a menor brecha entre os inimigos, toda contradição de interesses entre a burguesia dos distintos países, entre os diferentes grupos ou diferentes categorias burguesas no interior de cada país.

As massas abandonaram Kerensky porque passaram pelo seu governo. Aprenderam pela sua própria experiência. Os comunistas ingleses, onde também se manifestava a enfermidade do esquerdismo, deveriam participar do parlamento, deveriam do interior do parlamento “ajudar a massa, proletária a ver na prática os resultados do governo dos Henderson e dos Snowden”, líderes do trabalhismo, ajudando-os “a vencer contra a coalizão de Lloyd George e Winston Churchill”. O Partido Trabalhista, no poder, desgastar-se-ia e os comunistas emergiriam como a força capaz de capitalizar o descontentamento, desde que, favorecendo-lhes a vitória, conservassem a “liberdade mais completa de agitação, de propaganda, de ação política”. Não amarrar as mãos. Golpear juntos e marchar separados. Sem isto qualquer bloco implica uma traição. Os comunistas, em nenhum momento, devem perder a oportunidade para desmascarar os Henderson e os Snowden, mostrar as limitações do trabalhismo, antes, durante e depois das eleições.

[…] Para a revolução não basta que as massas exploradas e oprimidas tenham consciência da impossibilidade de viver como antes e reclamem mudanças; para a revolução é necessário que os exploradores não possam viver nem governar como antes.

Esta, a lei fundamental da revolução que a história, principalmente no século XX, confirmou. “Só quando as camadas altas não podem sustentá-lo ao modo antigo, só então pode triunfar a revolução.” Em outros termos, “a revolução é impossível sem uma crise nacional geral (que afete explorados e exploradores)”, indicou Lenin, a interpretar os ensinamentos de Marx.

A revolução, para vencer, deve conseguir que os operários, pelo menos a maioria daqueles conscientes e politicamente ativos, compreendam a sua necessidade, estejam dispostos a sacrificar a vida. Mas isto só não basta. Também “é preciso que as classes dominantes atravessem uma crise governamental que arraste para a política até as massas mais atrasadas”, que “reduza o governo à impotência” e possibilite sua derrubada. “O sintoma de toda revolução verdadeira é a decuplicação ou centuplicação dos números de homens aptos para a luta política no seio da massa trabalhadora.”

Os revolucionários deviam saber “aplicar os princípios gerais do comunismo à particularidade das relações entre as classes e os partidos, à particularidade no desenvolvimento objetivo para o comunismo, próprio de cada país e que se precisa saber estudar, descobrir e adivinhar”. “Ainda que a escola preparatória que conduz o movimento operário à vitória sobre a burguesia seja em todas as partes idêntica no fundo, seu desenvolvimento se realiza em cada país de modo original.” A unidade de tática internacional do movimento comunista não exige a supressão da variedade que há entre os diversos países, a supressão das particularidades nacionais, “mas a aplicação dos princípios fundamentais” do socialismo científico, tais como a ditadura do proletariado, adaptando-os, acertadamente, às peculiaridades e às condições específicas de cada Estado.

Lenin dizia que “só com a vanguarda é impossível triunfar” e lançá-la à batalha decisiva, quando as massas ainda não adotaram a seu respeito uma posição de apoio direto nem “ao menos de uma neutralidade benévola […] não seria apenas uma estupidez, mas, também um crime”. A batalha decisiva requer as seguintes condições: 1) que todas as forças da classe inimiga estejam mergulhadas na confusão, suficientemente chocadas entre si, suficientemente debilitadas por uma luta superior à sua capacidade de resistência; 2) que todos os elementos vacilantes, versáteis, inconsistentes, intermediários – isto é, a pequena burguesia, a democracia pequeno-burguesa – estejam despidos diante do povo e cobertos de ignomínia pela sua bancarrota prática; 3) que no proletariado comece a formar-se e a estender-se um estado de espírito de massas favorável e apoiar as ações revolucionárias mais resolutas, mais valentes e abnegadas contra a burguesia. “Eis aqui o momento em que a revolução amadurece, […] que a nossa vitória está segura, se calculamos bem todas as condições e escolhemos acertadamente a hora.”

Os revolucionários que não sabem combinar os métodos legais e ilegais de luta “são maus revolucionários”. Não é difícil ser revolucionário quando a revolução estala. É infinitamente mais difícil – “e muitíssimo mais meritório – saber ser revolucionário quando a situação não permite ainda a luta direta, franca, a verdadeira luta de massa”, saber ser revolucionário “numa situação não revolucionária, entre massas incapazes de compreender de modo imediato a necessidade de um método revolucionário de ação”.

[MONIZ BANDEIRA] Sobre o movimento socialista brasileiro no início da República.

Trecho retirado do livro “O ano vermelho: A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil”, publicado em 1967, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira:


A FUNDAÇÃO DO PARTIDO SOCIALISTA BRASILEIRO E DE OUTRAS ORGANIZAÇÕES, A RUPTURA ENTRE SOCIALISTAS E ANARQUISTAS, E A REVOLTA DA VACINA:

Ao fim da primeira década, desde a implantação da República, as rendas do Brasil continuavam a depender, quase que exclusivamente, das boas ou más safras e dos preços do café no mercado internacional, daí os constantes desequilíbrios financeiros, os déficits, sempre cobertos por funding loans da Casa Rothschild. Entre 1889 e 1891, a inflação explodiu e, durante a década, a expansão monetária conjugou-se com a desvalorização cambial, em meio à superprodução e à queda dos preços do café no mercado internacional.

Ao suceder a Prudente de Moraes na presidência, Manuel Ferraz de Campos Sales convidou Joaquim Murtinho para o Ministério da Fazenda. Ambos entendiam que a vocação do Brasil era a agricultura, as plantações de café, por isso havia a necessidade do livre-cambismo, sem qualquer entrave ao comércio exterior. E Joaquim Murtinho, adepto da ortodoxia monetária e do equilíbrio fiscal, era contrário à proteção tarifária para favorecer indústrias, por ele consideradas artificiais, pois a produção não representava resultado econômico, e os capitais nelas empregados não eram fatores, mas antes agentes parasitários da riqueza pública.

O surto industrial, que começara na década de 1880, continuou, tomou impulso com o “encilhamento” e de 1890 a 1895 mais 452 fábricas foram implantadas no Brasil. [1] Mas, depois, arrefeceu. Não mais contou com o apoio do governo. As indústrias da mesma forma que as explorações agrícolas – pensava Joaquim Murtinho – deviam obedecer ao princípio de seleção das espécies, à lei do mais forte, no reino animal de Charles Darwin (1809-1882), a competir dentro do mercado, no qual os capitalistas convertiam em moeda o excedente econômico e onde somente empreendimentos que possuíssem mais recursos tecnológicos, mais capital, e/ou outras vantagens podiam sobreviver.

A principal tarefa de Joaquim Murtinho foi, portanto, de ajustar as finanças públicas. E eis porque expandiu a carga tributária a níveis insuportáveis e tratou de queimar superabundância, o excesso de papel-moeda circulante e enxugar no mercado. Assim promoveu a deflação, com o que arruinou quase todas as novas iniciativas de industrialização e levou à falência inúmeros bancos nacionais, bem como incontáveis casas de comércio à liquidação e concordata.

Imenso foi o colapso econômico, o crack, no país, cuja produção exportável então se restringia, virtualmente, ao café de São Paulo e à borracha do Amazonas.2 Em 1899, dez anos após a implementação da República, o coronel Malvino Reis anotou que “o povo luta pela vida, afflicto pela fome; já não tem com que compre o necessário; mas vê o fructo de seu trabalho adquirido com o suor de sua fronte, incinerado para satisfazer insaciável credor estrangeiro!”[3] E, adiante, observou que “as indústrias estão ainda em estado quasi que primitivo e não pódem medrar oneradas de imposto”.[4] E as greves recrudesceram. Cerca ou mais de 37 greves ocorreram desde a instalação da República até 1899.

O governo do presidente Campos Sales conseguiu, finalmente, ordenar as finanças do país e a cafeocracia consolidou seu poder. Mas a desilusão com a República recresceu. O operariado ainda não havia conseguido a regulamentação do trabalho e assegurar seus direitos. O valor dos salários não cobria suas necessidades. Oscilava conforme a conjuntura do mercado e a vontade do empresário. O trabalho assalariado configurava outra forma de escravidão, quer nas fábricas quer nas fazendas de café.

Os cafeicultores, em São Paulo, tratavam os colonos estrangeiros como faziam com os escravos negros. […] Os escravos negros representavam capital investido, custavam caro, e depois de 1850 se tornou cada vez mais difícil sua substituição. Os imigrantes, gli schiavi bianchi, não foram, porém, adquiridos, no mercado, como os negros, sobre os quais o proprietário tinha todos os direitos, de vida e morte, e podia alugar, doar, vender ou mesmo eliminar, uma vez que eram tratados como “coisa”.

Os imigrantes, trabalhadores, foram para as fazendas vender a força de trabalho e mais e mais chegavam da Itália e outros países, a aumentar o exército de reserva, subsidiados pelo governo do Brasil. E o espírito avarento do capitalismo, emergente nos fazendeiros de café, adensou e lhes robusteceu a cultura escravocrata. A todos os procedimentos recorriam para reduzir o salário dos colonos, trabalhadores rurais, e apropriar-se do maior excedente econômico possível.

As greves nas fazendas tornaram-se frequentes a partir dos anos 1890. Também rebeliões e fugas de colonos eram constantes. E alguns fazendeiros e capangas foram mortos.[5] Abusos sexuais sempre aconteceram. Fazendeiros e seus homens de confiança, encarregados de vigiar e policiar os colonos, os feitores, violentavam, quase sempre, as jovens, filhas dos colonos, como se tivessem o direito de primícias,[6] o jus priamae noctis, na Idade Média. Raul Sales, sobrinho do então presidente Campos Sales, estuprou a bela italiana Isabella Longaretti e tentou também deflorar as outras duas irmãs.

Francesco Longaretti, o pai da jovem, foi protestar e o proprietário da fazenda, Diogo Sales, violentamente, o rechaçou e o agrediu, derrubando-o no solo. Angelo Longaretti tratou de defender o pai e matou o prepotente e truculento fazendeiro com tiro de uma garrucha.[7] O assassinato ocorreu na Fazenda Nova América, região de Araraquara, em 1900, e muito repercutiu. No ano seguinte, 1901, os colonos agarraram o fazendeiro Francisco Augusto Almeida Prado, quando ele percorria as plantações, sem guarda-costas, e o esfaquearam, a facão, e o esquartejaram com machados e enxadas.

A situação nas fábricas não era muito diferente. A jornada de trabalho, tanto de homens quanto de mulheres e crianças, era exaustiva, quase sempre de 14 horas, com apenas uma hora para o almoço, todos a sofrerem enorme controle e coerção, sempre vigiados e intimidados pelos contramestres, gerentes das indústrias ou fazendeiros, bem como da polícia, a pairar sobre os estrangeiros a ameaça de deportação.

Não havia limites para exploração da força de trabalho, quer na cidade quer no campo, a fim de propiciar ao industrial ou fazendeiro um excedente econômico maior possível. O patronato recebia todo o apoio das autoridades policiais. E eram imundos, fétidos, antros, onde os trabalhadores moravam, sem assistência hospitalar ou qualquer outra garantia, e tinham até descontados dos salários os dias que faltavam por motivo de doença.[8] A miséria continuava e as associações de classe estavam mais e mais sujeitas a feroz repressão.

Conforme Hélio Negro e Edgard Leuenroth, no livreto O que é maximalismo ou bolchevismo, “quando as epidemias assaltavam as senzalas, o fazendeiro corria em defesa de seus escravos, com o abrigo, o socorro médico, farmacêutico e alimentos, porque cada escravo morto representava um prejuízo sobre o seu patrimônio”.[9]

E acrescentaram, referindo-se aos imigrantes, os trabalhadores assalariados: “Hoje, a colônia poderá perecer toda, ao abandono; a doença poderá dizimar os trabalhadores – porque esse flagelo já não representa a ruína do antigo senhor de escravos”.[10]

Os imigrantes assalariados eram descartáveis, nada custavam, se morressem não davam prejuízo ao patrão, não representavam investimento, chegavam levas ao Brasil, gratuitamente, para vender sua força de trabalho, a qualquer preço.

Entretanto, as tentativas de organizar um partido que representasse politicamente os interesses da classe operária não cessaram. Em 1902, realizou-se em São Paulo, entre 28 de maio a 1º de junho, o Segundo Congresso Socialista Brasileiro, com a representação de 44 delegados de associações operárias dos estados de Pernambuco, Pará, Paraíba, Paraná, Bahia, Rio Grande do Sul e São Paulo.[11] Silvério Fontes, dirigente do Centro Socialista de Santos, participou, assim como operários de origem alemã, que haviam fundado a Allgemeiner Arbeiterverein e o Sozialistcher Leserzirkel, em São Paulo, e diversos grupos italianos. O médico Estevam Estrella, socialista, e Ludgero de Souza, da delegação da Bahia,[12] o alfaiate português radicado no Rio Grande do Sul, Antonio Guedes Coutinho (1868-1945),[13] e o expoente do sindicalismo revolucionário, Alceste de Ambris (1874-1934), que fugiu da Itália, para o Brasil, em 1898, elaboraram o programa mínimo e também o máximo do Partido Socialista Brasileiro.

Os italianos, cerca de 28, constituíam a grande maioria dos socialistas, que participaram do Congresso Socialista,[14] sob a liderança de Alcebíades Bertollott e Antônio Piccarolo, e delegaram ao Conselho Geral “a incumbência de organizar, sob o ponto de vista econômico e político, o Partido Socialista Brasileiro, em harmonia com o socialismo cientifico”,[15] i.e., o marxismo, que debelara as teorias de Lassalle e se tornara ideologicamente predominante na social-democracia alemã, durante os doze anos de sua proscrição, pela Sozialistengesetz, a Lei Anti-Socialista, entre 1878 e 1890.[16]

O programa do PSB, com 36 pontos dentro dos princípios estabelecidos pelos dois sociais-democratas alemães participantes do Congresso[17] foi aprovado com apoio de Alcebíades Bertollott e dos demais italianos, além de dois espanhóis e treze brasileiros, e publicado no jornal O Estado de S. Paulo,[18] na edição de 2 de junho de 1902.

Entre reivindicações, reclamava a imposição de imposto progressivo sobre a renda; imposto sobre a herança; abolição dos impostos indiretos; redução para oito horas da jornada de trabalho etc.[19] As reivindicações foram, aparentemente, pautadas no programa de Erfurt, que o Partido Social-Democrata da Alemanha aprovara em 1891, e deviam servir de modelo, embora adaptado, para os programas dos partidos da II Internacional. O jornal Neue Zeit publicou um artigo sobre a realização do Congresso Socialista, em São Paulo, e a criação do PSB, referindo-se como “grupo da social-democracia, um programa e uma organização sólida”.[20]

Em 1894, o médico e professor Juan Bautista Justo (1865-1928), que traduziu para o espanhol Das Kapital, de Karl Marx, havia formado, na Argentina, o Partido Socialista Operário Internacional, e logo o incorporou à II Internacional.[21] Era muito bem-organizado, ativo, e contava com sindicatos bem-estruturados e combativos. Entretanto, no Brasil, que recém abolira a escravatura e ainda possuía um baixo nível de industrialização, a criação de um partido nos moldes dos existentes na Itália e em outros países da Europa não germinou.

Igualmente, abortou o Partido Socialista Coletivista, fundado no Rio de Janeiro pelo jornalista Gustavo de Lacerda e Vicente de Souza, em 28 de agosto de 1902. À mesma época, formaram-se em diversas cidades do interior de São Paulo, Jaú, Campinas, Sorocaba, São Carlos, Araraquara e outras, o Circolo Socialista International; Circolo Socialista Karl Marx; Circolo Socialista 1° Maggio e muitos mais.22

Os anarquistas ou comunistas libertários e anarcossindicalistas (que rejeitavam a vinculação dos sindicatos a partidos políticos) haviam sido já excluídos, definitivamente, da II Internacional, desde o Congresso de Londres (1896), por proposta de Wilhelm Liebknecht, aprovada pelos delegados de todos os países, exceto França. Não admitiam a tática ambivalente dos marxistas, sociais-democratas, que defendiam a luta revolucionária contra o Estado, e ao mesmo tempo participavam do processo político e eleiçoeiro, a fim de obter reformas através do Parlamento, o que significava, assim entendiam, aceitar o Estado burguês.

E eles, comunistas libertários, anarquistas, eram contra o Estado burguês e contra qualquer tipo de Estado e, por conseguinte, contra todas as suas representações, i.e., partidos políticos, eleições, parlamento etc. Rechaçavam a moralidade como preconceito burguês e não admitiam limites para a ação revolucionária. Seu principal método para destruir a sociedade capitalista consistia na ação direta, i.e., realização de greves, boicotes, destruição de máquinas, sabotagens, incêndio de fábricas, manifestações de massa, ou assassinato e a bomba, a propagande par le fait, conforme a teoria do médico francês Paul Brousse (1844-1912), de modo a ensinar aos trabalhadores por meio de atos e da experiência as necessidades da revolução. Poucos consideravam tais feitos como terrorismo. E chamavam os sociais-democratas, marxistas, de estatistas porque reconheciam a necessidade histórica do Estado e, em consequência, a necessidade histórica da repressão, a ditadura do proletariado[…].

A grande maioria dos imigrantes, que trabalhavam nas fábricas do Brasil, concentrada, sobretudo, no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, procedia da Itália, Portugal e Espanha, países, mais atrasados, ainda sem organização e disciplina de trabalho, onde o anarquismo prosperava. Os sociais-democratas alemães e suíços constituíam minoria e, como eles informaram ao Congresso Socialista de Londres, em 1896, raros falavam suficientemente o português para difundir o socialismo científico, i.e, o marxismo,[23] ainda que sob as diversas tendências, como se configurava na Alemanha, então a segunda maior potência industrial do mundo. Lá, o Partido Social-Democrata, ao ser derrogada, em 1890, a lei que o proscrevera, obteve grande vitória.

Ganhou 35 cadeiras no Reichstag (Parlamento), nas eleições realizadas naquele mesmo ano, e o imperador Wilhelm II (1859-1941) estabeleceu uma legislação durante seu reinado (1888-1918), efetivando muitas das reivindicações trabalhistas.[24] Karl Kautsky até admitia que o proletariado pudesse alcançar a maioria absoluta no Parlamento (Reichstag), i.e., conquistar o poder, e assim exercer a ditadura, da mesma forma que a burguesia até então realizava, sem derrogar a democracia política.

O gráfico e jornalista Everardo Dias (1883-1966),[25] ativo participante do movimento operário, nas duas primeiras décadas do século XX, reconheceu que “as tendências ideológicas do proletariado, a base em que se apoiavam os Partidos Socialistas, se nos países desenvolvidos da Europa estavam mais ou menos definidas, aqui, no Brasil, ainda não tinham consistência”.[26] A legislação eleitoral não facilitava “a entrada de qualquer representante nitidamente proletário tanto no Congresso Nacional como nas Câmaras Municipais”.[27] Antônio Piccarolo (1863-1947), fundador do Partido Socialista da Itália, vinculado à II Internacional, escreveu que, se as condições da agricultura, no Brasil, estavam atrasadas, as da indústria estavam muito mais, com um “desenvolvimento muito tardio”, e com uma atuação restrita propriamente a duas cidades, Rio e São Paulo, e ainda assim em “forma incipiente”.[28]

Todo o sistema jurídico funcional operava em favor dos empresários. Outrossim, a mentalidade do povo, a refletir a situação econômica, social, política e cultural em que o Brasil se encontrava, era bastante diversa da que adubou os partidos socialistas e sociais-democratas na Alemanha e outros países mais avançados da Europa. Além disso, italianos, portugueses e espanhóis conformavam a maioria do proletariado, e a afinidade linguística favorecia a propagação das ideias de Élisée Reclus (1830-1905), Errico Malatesta, Pyotr Kropotkin e outros.

A baixíssima base salarial dos operários era insuficiente para a renovação da força de trabalho. Eles eram brutalmente explorados, subalimentados, comiam apenas feijão, arroz, farinha de mandioca e carne seca,[29] como antes os escravos, nas fazendas e engenhos, e tais condições de miséria formavam o húmus para que os comunistas libertários se expandissem e predominassem. Em 1903, uma greve geral abalou o Rio de Janeiro, então o maior centro industrial do Brasil, a assustar empresários e o governo, entre 12 e 15 de agosto e 5 de setembro de 1903.[30]

A paralisação iniciou na maior indústria têxtil do país, a Companhia de Fiação e Tecidos Alliança, localizada no bairro das Laranjeiras,[31] por vários fatores, inter alia, a morte acidental de um trabalhador e o assédio sexual a uma operária efetuado pelo contramestre, e abrangeu a tecelagem Cruzeiro, no Andaraí, alastrando-se também a outras fábricas de tecidos e a vários ramos, em distintos bairros, desde a fábrica de vidros Esberard, em São Cristóvão, e a Confiança Industrial, em Vila Isabel, a Corcovado, em Botafogo, e a Carioca, no Jardim Botânico.

Os estivadores do porto aderiram, com as demandas, inter alia, de redução da jornada de trabalho e aumento de salários em 40%.[32] Estimou-se que entre 22.000 a 25.000 trabalhadores participaram do paro e o chefe da Polícia do Distrito Federal, o advogado e professor Antônio Augusto Cardoso de Castro (1860-1911), deflagrou intensa e feroz repressão, espancamentos, dezenas de prisões e, ao fim, algumas categorias conseguiram obter várias reivindicações, outras menos, sem que houvesse uniformidade de acordos entre os empresários e trabalhadores.[33] De modo geral, porém, os trabalhadores sofreram uma derrota. Não alcançaram importantes demandas, que uniram todas as categorias, e.g. o aumento dos salários em 40% e a redução da jornada de trabalho para nove horas e meia.[34]

Euclides da Cunha, em artigo intitulado “O Velho Problema” e publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 1° de maio de 1904, após referir que foi com Karl Marx, “este inflexível adversário de Proudhon, que o socialismo científico começou a usar uma linguagem firme, compreensível e positiva”, acentuou que “a fonte única da produção e do seu corolário imediato, é o trabalho”, que “nem a terra, nem a máquina, nem o capital ainda coligados os produzem sem o braço operário”, razão pela qual a riqueza produzida devia “pertencer toda aos que trabalham”.[35]

[…]Cada homem produz sempre mais do que consome, persistindo os frutos do seu esforço além do tempo necessário à sua reprodução”, assim Euclides da Cunha buscou sintetizar a teoria do valor, que Marx havia formulado, e acusou: “A exploração capitalista é assombrosamente clara, colocando o trabalho num nível inferior ao da máquina”.[36]

E, no mesmo artigo, descreveu as moléstias que o operário passava a sofrer, “adstrito a salários escassos demais à sua subsistência”, denunciou a “pecaminosa injustiça que o egoísmo capitalista agrava” e apontou o duplo princípio que era unanimemente aceito e dominava toda a heterodoxia socialista, cujas numerosas cisões consistiam nos meios de atingir o objetivo: “Socialização dos meios de produção e circulação. Posse individual somente dos objetos de uso”.[37] E, ao arrematar o artigo, Euclides da Cunha, imputou:

Nada mais límpido. Realmente as catástrofes sociais só podem provocá-las as próprias classes dominantes, as tímidas classes conservadoras, opondo-se à marcha das reformas – como a barragem contraposta a uma corrente tranquila pode gerar a inundação. […] O caráter revolucionário do socialismo está apenas no seu programa radical. Revolução: transformação. Para a conseguir, basta-lhe erguer a consciência do proletário, e – conforme a norma traçada pelo Congresso Socialista de Paris, em 1900 – aviventar a arregimentação política e econômica dos trabalhadores. […] A revolução não é um meio, é um fim; embora, às vezes, lhe seja mister um meio, a revolta. Mas esta sem a forma dramática e ruidosa de outrora. As festas do Primeiro de Maio são, quanto a este último ponto, bem expressivas. Para abalar a terra inteira, basta que a grande legião em marcha pratique um ato simplíssimo: cruzar os braços…[…] O seu triunfo é inevitável.[38]

Em 1904, ano em que Euclides da Cunha publicou o artigo “O Velho Problema”, sobre o Primeiro de Maio, e indicou a greve geral, como instrumento para induzir a transformação da sociedade, o Rio de Janeiro tinha 700 mil habitantes, os bairros mais pobres, com ex-escravos e trabalhadores estrangeiros, aglomerados em cortiços, sofriam com a deficiência da rede de água e esgoto, o lixo nas ruas, falta de saneamento básico, o que facilitava a ocorrência de graves enfermidades, como tifo, tuberculose, sarampo, difteria, peste bubônica, varíola, febre amarela etc.

Havia descontentamento no espírito da população, as sementes da revolta germinavam, devido a diversas medidas tomadas pelo governo do presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919), outro representante da burguesia cafeeira de São Paulo, que deu continuidade à política econômica e financeira de Campos Sales e Joaquim Murtinho. Seu ministro da Fazenda, José Leopoldo de Bulhões Jardim (1856-1928), usou as tarifas aduaneiras apenas com finalidade fiscal, sem proteção para as indústrias, e manteve elevada a taxa cambial, o que dificultava a importação de bens de capital, i.e., máquinas e matérias, para modernização e expansão das fábricas; e também aumentava o desemprego e a carestia do custo de vida, ao encarecer a importação de bens de consumo. O modelo agroexportador destarte se preservou.

Entretanto, com recursos emprestados pelo grupo Rothschild, de Londres, o presidente Rodrigues Alves e o prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1936-1913), trataram de executar um plano de urbanização e modernização da cidade Rio de Janeiro, o Distrito Federal, reaparelhamento do porto, alargamento e pavimentação de ruelas, abertura de avenidas, no estilo de Paris, praças com jardins etc. Também o objetivo, inter alia, consistia em erradicar epidemias responsáveis por grande mortandade de pessoas, sobretudo, a varíola, a peste bubônica, transmitida, pelos ratos, que infestavam os esgotos e os cortiços no centro da cidade, as vilas operárias, e a febre amarela, levada para o Brasil, provavelmente, por uma espécie mosquito originário da África, em 1849. O saneamento era necessário, dado que até navios estrangeiros não mais atracavam no porto do Rio de Janeiro.

O espírito das camadas mais pobres, operários e pessoas de diferentes categorias, na cidade do Rio de Janeiro, era de insatisfação e resistência à obrigatoriedade da vacina. Na realidade, o sentimento era de oposição ao governo da República, o manto sob o qual se disfarçava a ditadura da oligarquia cafeeira de São Paulo e do Vale do Paraíba (Rio de Janeiro).

Em tais circunstâncias, no dia 5 de novembro de 1904, dirigentes sindicais, anarquistas, monarquistas, oficiais do Exército descontentes, liderados pelo general e senador Lauro Sodré (1858-1944), ex-governador do Pará, o coronel e senador Lauro Müller (1863-1926) e os deputados Alexandre José Barbosa Lima (1862-1931) e Alfredo Varela (1864-1943), diretor do Jornal do Commercio, reuniram-se no Centro das Classes Operárias, que congregava várias categorias de trabalhadores, principalmente estivadores e ferroviários, sob a direção do médico socialista Vicente de Souza,[39] e fundaram a Liga contra a Vacina Obrigatória. Aí, querendo ou não, desataram a ira do povo, que depois não tiveram meios de controlar.

A Prefeitura havia começado a empreender as obras de urbanização e saneamento, de forma atrabiliária. Com a desapropriação de prédios antigos, pardieiros e cortiços, e a usar violência, desalojou operários, a maioria estrangeiros, ex-escravos e outras pessoas pobres, por modo a demolir suas moradias, o que chegou ao total de 614. Havia, possivelmente, especulação mobiliária por trás do projeto de urbanização, desalojando a população mais pobre, sem lhes dar qualquer alternativa, senão a de construir barracos nos morros, nos mangues, na periferia da cidade e formar favelas.[40] E, ao vazar a notícia da Lei de Vacinação Obrigatória, elaborada pelo cientista Oswaldo Cruz (1872-1917), diretor-geral de Saúde Pública, e a forma como foi executada, à força, inclusive com a invasão de domicílios pelos sanitaristas encarregados da vacinação, chamados “mata-mosquitos”, a revolta explodiu.

Espaventadas, com medo de contaminação por meio da vacina, sem confiar na sua eficácia, dúvida que alguns órgãos da imprensa difundiam, milhares de pessoas dos bairros mais pobres, enfuriadas com a perspectiva de perder suas moradas, não aceitaram que suas casas fossem invadidas e que ainda tivessem de tomar uma vacina contra a vontade. Daí que convulsionaram as ruas do Rio de Janeiro, durante uma semana, o auge entre 10 e 16 de novembro de 1904. Ergueram barricadas, barreiras de fogo nas ruas, atacaram lojas, bondes, quebraram lampiões, incendiaram prédios e enfrentaram forças da polícia, os sabres da soldadesca, carga de cavalaria, contingentes do Corpo de Bombeiros, Exército e Marinha.

Os conflitos alastraram-se do Centro à Zona Norte e Zona Sul, do Catumbi, ao Rio Comprido, Engenho Novo, Tijuca, Gamboa, Saúde etc., bem como a Botafogo, Laranjeiras e adjacências. Os operários das fábricas de tecidos, na Gávea, saíram às ruas e impulsionaram também a revolta. No bairro da Saúde, os rebeldes ergueram trincheiras, com trilhos de bonde arrancados e sacos de areia, troncos de árvores e madeiras, uma virtual fortificação que denominaram Porto Arthur, referência ao lugar na Manchúria, onde começou a guerra entre a Rússia e o Japão, na madrugada de 8 para 9 de fevereiro de 1904. Estavam armados com revólveres e carabinas e possuíam bombas de dinamite.[41] Houve tiroteios, mortos, muitos feridos e presos, que foram levados para a central de Polícia, barbaramente espancados, e depois remetidos para os calabouços da ilha das Cobras, abaixo do nível do mar.[42] E o levante espargiu-se. Não se limitou à população civil.

Os senadores Lauro Müller e Lauro Sodré, os deputados Barbosa Lima e Alfredo Varela, e o general Sylvestre Travassos (1848-1904), sublevaram cerca de 300 cadetes da Escola Militar, na Praia Vermelha.[43] Quando passaram pela Praia Vermelha, em direção a Botafogo, receberam, no caminho, a adesão de um Esquadrão de Cavalaria e de uma Companhia de Infantaria do Exército. Os militares estavam armados e contavam com apoio dos sindicatos, sob a liderança do socialista Vicente de Souza, dirigente do Centro das Classes Operárias, e da massa insurrecta de trabalhadores urbanos, funcionários públicos, profissionais autônomos, pequenos comerciantes, e os capoeiras das antigas Guardas Negras[44] – liderados pelo estivador Horácio José da Silva, um negro de trinta anos, conhecido como o Prata Preta, o mais destemido líder das barricadas na Saúde (Praça da Harmonia) e do Morro do Livramento. Os combatentes que Prata Preta chefiava eram homens maltrapilhos, descalços, armados com garruchas e navalhas.[45]

Os cadetes da Escola Militar e toda a massa que os respaldava, na Rua da Passagem, defrontaram-se, porém, com as tropas da Brigada Policial, comandadas pelo general Antônio Carlos da Silva Piragibe (1845-1905). Houve combates. Muitos tombaram mortos, outros feridos. O senador Lauro Müller, ao que parece, recebeu um tiro; o senador Lauro Sodré, também. Ambos escaparam e depois foram presos. O general Sylvestre Travassos foi gravemente baleado e conduzido para o Hospital do Exército, onde expirou em 22 de novembro. Sem chefes, os cadetes, atacados no reduto da Escola Militar, capitularam. Houve outro combate, simultaneamente, na Rua Senhor dos Passos. Cerca 2.000 pessoas ainda resistiram, no Distrito Federal, e a rebelião militar ameaçou expandir-se a outros Estados, Bahia e Pernambuco, porém logo foi sufocada. O presidente Rodrigues Alves pediu reforço militar aos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Decretou o estado de sítio e esmagou a sedição. Porém, recuou, a revogar a Lei de Vacinação Obrigatória. E o resultado foi que, nas pelejas e entreveros dos rebeldes com as tropas do governo, morreram, oficialmente, 30 pessoas, mas o número talvez tenha sido muito maior. Cerca de 110 foram feridas, entre 945 ou mais de 1.000 foram presas, conforme as fontes, e, 461, deportadas para o Acre,[46] cuja anexação ao seu território o Brasil acabara de concluir (1903). Os militares envolvidos foram encarcerados e, os cadetes, excluídos e deportados para as fronteiras do país. Por fim, o Exército fechou a Escola Militar da Praia Vermelha.

A revolta da vacina não foi absolutamente contingente. Foi uma revolta social, a encapar uma conspiração política, em que se entrelaçavam altos escalões do Exército – florianistas radicais, a sonharem com outra república, a partir de uma ditadura positivista –, além de parlamentares e jornalistas, ademais de ativa participação de monarquistas, e, à frente da massa popular, operários anarquistas, socialistas e sindicalistas. O coup d’État, com o assalto ao Palácio do Catete e a deposição do presidente Rodrigues Alves, estava programado para o dia 15 novembro, data da proclamação. E abortou.[47] O coronel e senador Lauro Müller, o senador Lauro Sodré, os deputados Barbosa Lima e Alfredo Varela e Vicente de Souza, que incentivaram a revolta popular e o levante na Escola Militar, eram todos positivistas. O objetivo consistia em acabar com a preeminência da burguesia cafeeira de São Paulo; com o programa político e econômico defendido pelo presidente Rodrigues Alves e pelo ministro Leopoldo Bulhões, submissos às cláusulas do funding-loan, e negociado com credores internacionais; além de diversificar a agricultura e estimular a industrialização da sociedade, necessária ao progresso do Brasil, conforme a doutrina de August Comte.

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NOTAS:

1. Roberto C. Simonsen, 1973, p. 16. Milton Lopes, “Anarquismo e 1º de Maio no Brasil”, Núcleo de Pesquisa Marques da Costa – Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), disponível em <https://marquesdacosta.wordpress.com/artigos-do npmc/milton_lopes_anarquismo_e_1_de_maio>.

2. José Maria Santos, 1930, pp. 400-402.

3. Malvino Reis, 1899, p. 19.

4. Ibidem, p. 50.

5. Osvaldo Pasqual Castanha, 2013, pp. 50-52.

6. Antonio Piccarolo, 1932, p. 30.

7. Carlo Romani, 2002, pp. 150-154, 165-167. Angelo Trento, 1989, pp. 112-114. “Angelo Longaretti Matou o truculento irmão do presidente Campos Sales”, Náufragos da Utopia, disponível em <https://naufragodautopia.wordpress.com/2014/12/02/ancestral-ilustre-angelo-longaretti-matou-o-truculento-irmao-do-presidente-campos-salles/&gt;. Celso Lungaretti, “Antepassado Ilustre: Angelo Longaretti matou o truculento irmão do presidente Campos Sales”, O Rebate, disponível em <http://jornalorebate.com.br/site/canais/colaboradores-do-rebate/12622-antepassado-ilustre-angelo-longaretti-matou-o-truculento-irmao-do-presidente-campos-s&gt;. Christiano Eduardo Ferreira, “O senhor é morto: colonato e criminalidade em duas localidades paulistas (1900-1901)”, Anais Anpuh – XXV Simpósio Nacional de História, 2009, disponível em <http://anais.anpuh.org/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.1083.pdf&gt;.

8. Edgard Carone, 1970, pp. 191-197.

9. Hélio Negro e Edgard Leuenroth,, 1919, p. 41.

10. Ibidem. pp. 41-42.

11. Robert J Alexander, 2003, pp. 29-31.

12. Aldrin Armstrong Silva Castellucci, “Os socialistas e as comemorações do Primeiro de Maio em Salvador: ritualização e afirmação de uma identidade operária nas duas primeiras décadas republicanas”, Anais Anpuh – XXVI Simpósio Nacional de História, jul. 2011, disponível em <http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1308158209_ARQUIVO_AldrinCastellucci-ComunicacaoXXVISNH2011.pdf&gt;.

13. Benito Bisso Schmidt, “A diretora dos espíritos da classe: a Sociedade União Operária de Rio Grande (1893-1911)”, disponível em <https://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/ael/article/…/1891&gt;.

14. Angelo Trento, 1989, pp. 225-226.

15. Valdelice Borghi Ferreira, “As organizações operárias e a demanda por educação: 1889-19201”, disponível em <http://www2.faced.ufu.br/colubhe06/anais/arquivos/274ValdeliceBorghiFerreira.pdf&gt;.

16. Vernon L. Lidtke, 1986, p. 320.

17. Artigo do Neue Zeit, XX, Bd 2, p. 525 apud Le Mouvement social: bulletin trimestriel de l’Institut français d’histoire sociale, disponível em <http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k5740865w/texteBrut&gt;.

18. Artur José Renda Vitorino, 2000, p. 169.

19. Ibidem.

20. Artigo do Neue Zeit, XX, Bd 2, p. 525 apud Le Mouvement social: bulletin trimestriel de l’Institut français d’histoire sociale, disponível em <http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k5740865w/texteBrut&gt;.

21. G. D. H. Cole, 1960, vol. 4, pp. 277-280. Claudio H. M. Batalha, “José Ingenieros e os socialistas brasileiros na virada do século XIX”, Fundação Perseu Abramo, n. 9, ano 7, 2013, disponível em <https://fpabramo.org.br/csbh/wp-content/…/3/…/T09perseu9.pdf&gt;.

22. Angelo Trento, 1989, pp. 225-226.

23. “Rapport de la Commission Executive du Parti Ouvrier du Brésil à présenter au Congrès Socialiste International de Zürich – 1893”. G. Haupt, “Militants sociaux-démocrates allemands au Brésil (1893 – 1896)”, in Le Mouvement social: bulletin trimestriel de l’Institut français d’histoire sociale, disponível em <http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k5740865w/texteBrut&gt;. O manuscrito em alemão é conservado no Sozialarchiv, em Zürich.

24. Vernon L. Lidtke, 1986, pp. 122-123.

25. Everardo Dias nasceu em Pontevedra, Espanha, em 1883. Mudou-se para o Brasil, com o pai, quando tinha apenas dois anos de idade.

26. Everardo Dias, 1977, p. 45.

27. Ibidem, p. 50.

28. Antonio Piccarolo, 1932, pp. 40-42.

29. Ibidem, p. 45.

30. Marcela Goldmacher, A “Greve Geral” de 1903: o Rio de Janeiro nas décadas de 1890 a 1910”. Tese (Doutorado em História), Departamento de História, Universidade Federal Fluminense, 2009, disponível em <www.historia.uff.br/stricto/td/1152.pdf>.

31. Isabelle Cristina da Silva Pires, “Luta operária: trabalhadores (as) da Companhia de Fiação e Tecidos Alliança na ‘Greve Geral’ de 1903”, Espaço Plural, ano XVII, n. 34, 1º semestre de 2016, pp.437-466, disponível em <e-revista.unioeste.br/index.php/espacoplural/article/…/10149>.

32. Ibidem, pp. 444-445. Carlos Augusto Addor, “A greve de 1903: primórdios do movimento operário no Rio de Janeiro”, História, Ciências, Saúde, vol. 14, n. 2, abr.-jun., 2007, pp. 635-639, disponível em <http://www.redalyc.org/pdf/3861/386138013018.pdf&gt;.

33. Ibidem. Marcela Goldmacher, A “Greve Geral” de 1903: o Rio de Janeiro nas décadas de 1890 a 1910”. Tese (Doutorado em História), Departamento de História, Universidade Federal Fluminense, 2009, disponível em <www.historia.uff.br/stricto/td/1152.pdf>.

34. Ibidem, p. 2.

35. Euclides da Cunha, “Contrastes e confrontos”, in idem, 1905, pp. 215-220.

36. Ibidem, p. 219.

37. Ibidem, p. 219.

38. Ibidem, p. 220.

39. Clara Araújo, Maria Celi Scalon, “Gênero, família e trabalho no Brasil”, in Angela de Castro Gomes, 2007, pp 72-73.

40. Ao voltarem ao Rio de Janeiro, em 1897, muitos soldados foram desmobilizados pelo Exército, mas não sabiam para onde ir nem tinham, ergueram barracões com suas famílias, em um morro situado atrás do Ministério da Guerra, no Campo de Santana, e o passaram a chamar de “favela”, nome do morro onde instalaram a base das operações contra Canudos. Devido à migração dos sertanejos para o Rio de Janeiro, à baixa renda e ao déficit-habitacional esse tipo de aldeia construída pobremente nos morros, à margem, espalhou-se e a denominação de favela se difundiu.

41. Sertório de Castro, A República que a revolução destruiu, 1932, edição digital: eBooksBrasil, 2002, disponível em <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/sertorio.html&gt;.

42. “1904 – Revolta da vacina. A maior batalha do Rio”, Cadernos da Comunicação: série Memória, Secretaria Especial de Comunicação Social, 2006, p.120, disponível em <http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4204434/4101424/memoria16.pdf&gt;.

43. “Vencido e morto”, República – Órgão Republicano, anno V, 27/11/1904, p.1, disponível em <http://obrasraras.sibi.usp.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/3905/Republica_ano5_n380_1904.pdf?sequence=1&gt;.

44. Fabio Samu da Cunha, “Capoeiras e a Revolta da Vacina”, Revista Espaço Acadêmico, n. 166, mar. 2015, ano XIV, disponível em <www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/…/article/…/14491>.

45. Prata Preta foi preso depois de lutar com os policiais, posto em camisa de força e levado para a Polícia Central. Depois desapareceu. Não se sabe se foi deportado para o Acre ou assassinado pela polícia.

46. “1904 – Revolta da vacina. A maior batalha do Rio”, Cadernos da Comunicação: série Memória, Secretaria Especial de Comunicação Social, 2006, p.120, disponível em <http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4204434/4101424/memoria16.pdf&gt;; Marcus Fernandes Marcusso, A Escola Militar do Realengo e a formação do oficial do Exército Brasileiro (1904-1929), dissertação (Mestrado em Educação), Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Carlos, 2012, disponível em <https://repositorio.ufscar.br/bitstream/handle/ufscar/2620/4262.pdf?sequence=1&gt;.

47. Sertório de Castro, A República que a revolução destruiu, 1932, edição digital: eBooksBrasil, 2002, disponível em <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/sertorio.html&gt;.



 

[MONIZ BANDEIRA] O governo Goulart, a política externa independente e os reflexos do aguçamento das lutas sociais sobre as relações com os Estados Unidos, 2013.


Trecho retirado do livro “Brasil-Estados Unidos – A Rivalidade Emergente”, publicado em 2013, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais, e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira:


AS NECESSIDADES NACIONAIS E A POLÍTICA EXTERNA INDEPENDENTE:

Os serviços de inteligência dos Estados Unidos avaliaram que a crise constitucional, desencadeada pela renúncia de Quadros, restringiria, pelo menos durante algum tempo, a expansão da influência internacional do Brasil, cuja “aspiração ao status de grande potência sofrera um revés”.[1] Eles acreditavam que o Brasil persistiria em sua posição, contrária às sanções contra Cuba, e que, embora houvesse restabelecido (em menos de três meses) as relações diplomáticas com a União Soviética (o que Quadros prometera e em sete meses não chegara a cumprir), seus vínculos com os países do Bloco Socialista não iriam muito além daquela moldura. O governo de Goulart, segundo estimavam, continuaria a acentuar o caráter “independente” de sua política externa, porém a necessidade de obter financiamentos bem como considerações de ordem interna torná-la-iam “menos truculenta” vis-à-vis dos Estados Unidos do que fora na administração de Quadros.[2]

Não obstante a moderação, Goulart, em verdade, tinha menos condições do que Quadros para modificar os rumos da política externa, em virtude não apenas das necessidades objetivas do desenvolvimento nacional, a demandarem a abertura de novos mercados, mas também dos compromissos políticos e ideológicos com a classe trabalhadora, suporte eleitoral do PTB, os quais também o coibiam, por outro lado, de executar coerentemente qualquer programa de estabilização monetária, conforme o FMI e as entidades financeiras internacionais exigiam, como requisito para a concessão de linhas de crédito ao Brasil. Com ele, as pressões dos sindicatos passaram, pela primeira vez, a influir diretamente sobre o governo, condicionando suas decisões políticas e obstaculizando a aplicação de medidas econômicas, como a contenção dos salários, contrárias aos interesses dos trabalhadores. A tendência nacional-reformista de Goulart, pois, diferia essencialmente do populismo de Quadros e daí as crescentes dificuldades internas e externas com as quais ele se defrontou antes e depois de sua ascensão à presidência da República. A comunidade empresarial, sobretudo o setor estrangeiro, mobilizou-se, a fim de combatê-lo, e concorreu decisivamente para induzir Kennedy, por fim, a antagonizá-lo.[3] As relações do Brasil, onde as lutas de classes se intensificavam, com os Estados Unidos, traumatizados pela Revolução Cubana, não podiam senão degenerar-se em meio a sucessivos problemas, a emergirem, interna e externamente, e a conturbá-las, aguçando-lhes as contradições.

A política exterior constituiu, sem dúvida, importante fator de desconfiança e conflito entre os dois países, porque a linha de independência, que Quadros focalizara com as luzes da ribalta, não decorria de uma opção ideológica, e sim do amadurecimento da consciência, sob crescente pressão das necessidades do próprio Estado nacional, de que os interesses dos Estados Unidos, em sua condição de potência hegemônica, nem sempre coincidiam e no mais das vezes se contrapunham aos do Brasil, enquanto país também capitalista e em rápida expansão. San Tiago Dantas, um dos responsáveis, desde o segundo governo de Vargas, pelo delineamento da resistência às diretrizes dos Estados Unidos, consolidou os fundamentos doutrinários da chamada política externa independente quando assumiu o cargo de ministro das Relações Exteriores de Goulart, sob o regime parlamentarista, afirmando que ela se pautava apenas pela “consideração exclusiva do interesse do Brasil, visto como um país que aspira ao desenvolvimento e à emancipação econômica e à conciliação histórica entre o regime democrático representativo e uma reforma social capaz de suprimir a opressão da classe trabalhadora pela classe proprietária”.[4]

O restabelecimento de relações diplomáticas com a União Soviética, que ele efetivou, obedeceu às conveniências econômicas e políticas nacionais, uma vez que o Bloco Socialista, cujo índice de crescimento do comércio, da ordem de 6,47%, era, àquela época, o mais elevado do mundo, oferecia boas oportunidades de negócios, e o Brasil somente as poderia melhor aproveitar se saísse do seu autoimposto isolamento político. Ante a perspectiva de que sua população, a crescer, como estava, a uma taxa de 3,5%, saltaria de 70,5 milhões de habitantes, em 1960, para 99 milhões, em 1970, e 125 milhões, em 1980, o Brasil, onde a renda per capita era então de US$ 240, necessitava duplicar as exportações, elevá-las de US$ 1,4 bilhão para US$ 3,1 bilhões, em 1965, de modo a ampliar a própria capacidade de importação de bens de capital e insumos básicos, necessários à manutenção de um ritmo acelerado de expansão econômica, no mínimo de 7,5% a.a., evitando assim que a pauperização e o aumento da miséria, dentro de 20 anos, reproduzissem, em seu território, o “espetáculo das comunidades asiáticas em franca regressão”.[5] Conforme San Tiago Dantas salientou: “um país sobre o qual pesa esse desafio não tem o direito de colocar limites de qualquer natureza à sua necessidade de procurar novos mercados. Discriminar é fazer discriminação à custa do futuro do seu povo e das condições mínimas do seu desenvolvimento e da sua segurança econômica”.[6]

Os termos de comércio que a União Soviética oferecia eram realmente bastante favoráveis e atrativos para o Brasil, a enfrentar gravíssima crise cambial. Ela se dispunha a projetar, construir e financiar, em longo prazo, a represa hidrelétrica de Itaipu, recebendo parte do pagamento em café, algodão, arroz e outras commodities,[7] em troca das quais também se dispunha a fornecer petróleo, trigo, bem como equipamentos e máquinas.[8] Por isso, em abril de 1963, o Brasil concluiu um acordo de comércio e pagamento com a União Soviética, visando ao incremento do intercâmbio, que passaria de US$ 70 milhões, em 1962, para US$ 160 milhões, em 1963, US$ 200 milhões, em 1964, e US$ 225 milhões, em 1965, segundo as estimativas.[9] Assim, se tais metas se cumprissem por volta de 1965 estaria a receber da União Soviética cerca de um terço de suas importações de óleo cru e subprodutos do petróleo.[10] Aos Estados Unidos, evidentemente, não convinha que aqueles dois países intensificassem suas transações bilaterais, sobretudo à base de acordos de pagamentos, contrariando-lhes os esforços para promover a multilateralização do comércio, por meio da livre conversibilidade das moedas. E Robert Kennedy, secretário de Justiça e irmão do presidente, expressou pessoalmente a Goulart a inconformidade norte-americana com os negócios entre o Brasil e a União Soviética, ao visitar Brasília no final de 1962. Suas razões não eram naturalmente ideológicas, e sim de política comercial e de competição por mercados, posição em que Goulart se colocou, respondendo-lhe que o Brasil daria a preferência aos Estados Unidos desde que estes lhe oferecessem as mesmas condições de comércio, sem o dispêndio de divisas. E era o que eles não podiam fazer, empenhados que estavam em forçar o cumprimento das normas do FMI, contrárias a qualquer restrição do câmbio e a acordos monetários discriminatórios, a fim de liberalizar e multilateralizar cada vez mais o comércio internacional. Os interesses dos Estados Unidos colidiam, portanto, com as necessidades do Brasil.[11]

A expulsão de Cuba da OEA constituiu, entrementes, outro importante fator de conflito entre os dois países. Kennedy, após o fiasco da invasão de Playa Girón, tratou de promovê-la, obstinadamente, como forma de contemplar a opinião pública dos Estados Unidos e compensar o abalo que seu prestígio sofrera. O Brasil recalcitrou, repulsando as pressões para que rompesse relações com Cuba e aprovasse sua expulsão da OEA, isolando-a do convívio com os demais países do continente, porque o governo de Fidel Castro se declarara marxista-leninista. Apesar da grave crise financeira por que passava, com as linhas de crédito suspensas praticamente desde a posse de Goulart, o Brasil manteve-se firme no campo dos princípios, enquanto, naquelas circunstâncias, os Estados Unidos se dispunham a fazer as mais amplas concessões a fim de obter seu apoio às sanções contra Cuba.[12]

Durante a VIII Reunião de Consulta dos Chanceleres Americanos, em Punta del Este (22 – 31/1/1962), San Tiago Dantas condenou as fórmulas intervencionistas ou punitivas, propostas pelos Estados Unidos, argumentando que elas “não encontram fundamento jurídico e produzem, como resultado prático, apenas o agravamento das paixões e a exacerbação das incompatibilidades”.[13] A ação militar, por ser coletiva, não deixaria de caracterizar uma intervenção, contrária à Carta de Bogotá, assim como “iria provocar, na opinião pública latino-americana, uma justificada reação, que favoreceria a radicalização da política interna do hemisfério e debilitaria, ao mesmo tempo, os laços de confiança mútua essenciais à própria existência do sistema inter-americano”.[14]

As sanções econômicas, segundo San Tiago Dantas, pareciam-lhe um “remédio juridicamente condenável”, também nos termos da Carta de Bogotá, e “politicamente inidôneo”, uma vez que o comércio de Cuba com a América Latina não passava, em média, de 4,5% do volume global das exportações e 9% das importações. E o rompimento de relações diplomáticas só se compreenderia, multilateralmente, como um passo preliminar para outras medidas, pois, do contrário, apenas eliminaria a influência dos demais países sobre o regime de Fidel Castro e deslocaria o caso de Cuba para a área do litígio entre o Leste e o Oeste, o que não interessava ao Brasil.[15]

O governo de Goulart não defendia os rumos políticos e ideológicos do regime revolucionário de Cuba. Entretanto, considerava indevida a ingerência de qualquer outro Estado, sob o pretexto que fosse, nos seus assuntos internos. Os Estados americanos, conforme San Tiago Dantas demonstrou, firmaram o Tratado do Rio de Janeiro[16] para se defenderem conjuntamente dos riscos de um ataque armado ou de uma agressão equivalente, por meio de fato concreto, por parte de potências extracontinentais, e não para se transformarem em juízes dos regimes políticos que algum dos seus signatários viesse a adotar, por via eleitoral ou de revolução.[17] Assim, ele acentuou:

Nada seria mais perigoso para a independência dos povos deste hemisfério, nada estenderia uma sombra mais aterradora sobre o futuro de nossas soberanias do que uma decisão coletiva pela qual se constituísse um organismo regional em juiz, árbitro e perito da natureza democrática dos regimes que praticamos e que abrisse definitivamente a porta para a intervenção, sob o signo do consentimento coletivo.[18]

O governo brasileiro entendia que o caso de Cuba não se diferenciava do que ocorrera em outras áreas geográficas mais distantes, como Europa e Ásia, e não havia, portanto, razões para que as Américas não aceitassem também a coexistência com regimes socialistas, como forma de reduzir as tensões e preservar a paz mundial. O isolamento entre países com sistemas sociais antagônicos só se justificaria dentro de uma estratégia que colimasse, consciente ou inconscientemente, a eliminação de um dos blocos ideológicos, por meio de decisão militar, o que o equilíbrio das armas atômicas descartara. E, no caso de Cuba, significaria abandoná-la, definitivamente, à via atrativa da União Soviética, renunciando a qualquer possibilidade de influir, por via diplomática, sobre a evolução ulterior do regime revolucionário de Fidel Castro. O Brasil, por isso, propôs que se negociasse com aquele país um estatuto consensual de neutralidade, com o objetivo de evitar sua integração política e militar no Bloco Soviético, conseguindo seu desarmamento até níveis compatíveis com as necessidades defensivas regionais, ao mesmo tempo em que lhe daria segurança contra as ameaças de intervenção militar por outro Estado.[19]

A neutralização de Cuba, com o estabelecimento, por meio da mediação, de um estatuto de obrigações negativas, conciliaria os princípios de autodeterminação e não intervenção com as necessidades de segurança do sistema interamericano, bem como permitiria, segundo San Tiago Dantas, que aquele país se amoldasse aos princípios democráticos, devido às conveniências econômicas e diplomáticas que o seu próprio regime, em coexistência com as democracias representativas, viria a perceber. Os Estados Unidos, no entanto, rejeitaram a fórmula do Brasil, apoiada por México, Argentina, Chile, Equador e Bolívia, e conseguiram, por 14 votos, a exclusão de Cuba da OEA durante a VIII Reunião de Consulta. E, nove meses mais tarde, duas semanas após outra conferência de chanceleres americanos em Washington (2 – 3/10/1962), Kennedy determinou o bloqueio naval de Cuba, revelando que a União Soviética lá instalara, a pedido de Fidel Castro, bases de mísseis teleguiados. Escreveu então uma carta a Goulart, dizendo que: “Issues on which we in the Hemisphere may have marginal disagreements as well as political divisions among our peoples become insignificant in the face of this threat to the peace.”[20]

E solicitou-lhe o apoio à posição dos Estados Unidos, que convocariam urgente reunião do Órgão de Consulta do Sistema Interamericano, sob o Pacto do Rio de Janeiro, a fim de propor a adoção de todas as medidas, individual ou coletivamente, inclusive o emprego da força, de modo a impedir que Cuba continuasse a receber da União Soviética e da China material bélico e suprimentos capazes de ameaçar a paz e a segurança do continente. Convidou Goulart, outrossim, para entendimentos, por intermédio das autoridades militares dos dois países, visando à possibilidade de participação do Brasil, juntamente com os Estados Unidos e outras forças do hemisfério, em qualquer ação militar que o desenvolvimento da situação em Cuba pudesse requerer.[21]

Goulart respondeu-lhe com firmeza e moderação, ponderando que o Brasil sempre se manifestara contra a intervenção militar em Cuba, porque sempre reconhecera a todos os países, quaisquer que fossem seus regimes ou sistemas de governo, o direito de soberanamente se autodeterminarem.[22] Considerava, por conseguinte, legítimo o seu direito de se defender contra possíveis agressões, “partissem de onde partissem”[23] e que visassem pela força ou pela violência a impedir sua autodeterminação. O Brasil, acentuou, “sempre foi claro na sua posição, coerente com a sua tradição e fiel ao espírito cristão do seu povo”, motivo pelo qual “nunca reconheceu a guerra como instrumento capaz de resolver conflitos entre as nações”.[24] E, “por todas essas razões, não aceitaríamos também como legítimo o armamento ofensivo de Cuba”.[25]

O governo de Goulart, tendo o jurista Hermes Lima como primeiro-ministro, instruiu o seu embaixador junto à OEA, Ilmar Pena Marinho, no sentido de aprovar o bloqueio naval de Cuba e a inspeção dos navios que a ela se dirigiam, a fim de evitar que outros carregamentos de armas ofensivas lá chegassem, bem como recomendou a modificação da proposta dos Estados Unidos, no sentido de exigir, antes de qualquer ação militar, a comprovação por observadores da ONU de que o arsenal soviético realmente existia e continuava em seu território.[26] Ao mesmo tempo, a pedido do embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, o governo de Goulart enviou a Cuba o general Albino Silva, chefe da Casa Militar da presidência, com a missão de transmitir pessoalmente a Fidel Castro a posição do Brasil, que compreendia a necessidade de Cuba possuir armamento defensivo mas se opunha à instalação, em seu solo, de mísseis ofensivos soviéticos, por significarem um risco para a segurança do hemisfério e para a própria paz mundial.[27] A crise internacional, finalmente, evoluiu para um agreement entre a União Soviética e os Estados Unidos, cujo compromisso de não mais tentarem a invasão de Cuba possibilitou, como contrapartida, o desmantelamento das bases de foguetes balísticos lá construídas.

Apesar do comedimento de Goulart, não negando o apoio a Kennedy no que lhe fora possível, sem abdicar da defesa da autodeterminação de Cuba, as relações entre o Brasil e os Estados Unidos não melhoraram, antes se engravesceram cada vez mais daí por diante. Esse fato evidenciava, portanto, que as crescentes dificuldades entre os dois países não decorriam, na verdade, das divergências em política externa e sim, essencialmente, de incoercíveis pressões de política interna, a expressarem interesses econômicos e sociais contraditórios, que afetavam suas relações bilaterais e compeliam seus respectivos governos ao conflito, conquanto se esforçassem, em certos momentos, para alcançar algum termo de inteligência. Goulart, quando assumiu a presidência, tratou efetivamente de entender-se com Kennedy, não tomando qualquer atitude que pudesse parecer hostil aos Estados Unidos. Não sancionou a Lei nº 4.131, que regulamentava as remessas de lucros para o exterior, deixando ao Congresso, onde ela tramitara desde o final do governo de Kubitschek, a responsabilidade por sua promulgação. E também nada fez para regulamentá-la e, consequentemente, cumpri-la. Seu objetivo não era afrontar e sim negociar, mas, enquanto articulava uma visita aos Estados Unidos, que ocorreria em abril de 1962, Brizola, sem pedir, como a lei determinava, sua autorização, expropriou outra empresa norte-americana, subsidiária da IT & T Co., responsável pelos serviços telefônicos no Rio Grande do Sul.[28]

Kennedy, por sua vez, opôs-se à iniciativa de alguns deputados e senadores, que, como represália à atitude de Brizola, apresentaram emenda à legislação dos Estados Unidos, proibindo qualquer assistência financeira a países onde propriedades norte-americanas fossem nacionalizadas sem adequada indenização.[29] E advertiu os jornalistas para o erro de hostilizar o Brasil devido ao gesto de um governador de Estado. E, em entrevista à imprensa, disse-lhes: “Look at the map and realize the vitality of Brazil. I think that we ought to keep the sense of proportion.”[30]

A Kennedy interessava, claramente, manter o entendimento com o Brasil, cujo território, população e economia representavam pelo menos a metade da América do Sul e lhe davam enorme peso político nos destinos do hemisfério. Por isso entendia que o atacar, naquelas circunstâncias, era fazer o jogo dos inimigos, como considerava Brizola, fortalecendo-os e diminuindo a influência dos Estados Unidos. O que lhe importava era: “the whole Brazilian nation, which is vital and which is a key and with which we must have the closest relations”.[31]

Embora Kennedy apresentasse a nacionalização da IT & T como simples manifestação de antiamericanismo e não como um caso de contenda comercial, devido à ineficiência da companhia, sua prudência correspondia então a uma política que visava atrair Goulart para a órbita da Nova Fronteira e o influenciar, de modo que ele se mantivesse politicamente no centro, apartando-se da esquerda, o que, na percepção dos Estados Unidos, não significava apenas o comunismo, porém qualquer tendência contrária aos seus interesses econômicos e financeiros. E o recrudescimento do nacionalismo preocupava, sem dúvida, as autoridades de Washington. Às vésperas da viagem de Goulart aos Estados Unidos, o Departamento de Estado, em documento para Kennedy, observou que, embora sem os “extravagantes acenos” de Quadros para os países neutralistas e o Bloco Sino-Soviético, a política externa do Brasil continuava com geral aceitação por todos os partidos e pelo povo.[32] O amplo apelo de sua linha de independência, conforme o Departamento de Estado ressaltou em sua análise, relacionava-se com o crescimento do nacionalismo, que emanava da crença de que o destino do Brasil era tornar-se potência mundial e adquirir o seu lugar ao sol.[33]

Arthur Schlesinger Jr., outrossim, escreveu a Kennedy um memorandum aconselhando-o, a fim de seduzir Goulart, a considerar que a “psicologia do Brasil contemporâneo” se caracterizava por forte nacionalismo, “de nenhuma forma violento ou fora de controle”, mas constituindo ainda grande fator de condicionamento de sua política, tanto interna quanto externa.[34] Segundo ele, o Brasil via a si próprio como o maior país da América Latina, o mais dinâmico e o mais progressista, com o maior crescimento econômico, e queria ser reconhecido na condição de transformar-se em potência mundial.[35] E, depois de salientar que o governo do Brasil se considerava nacionalista e progressista, lembrou que, por muito tempo, a política dos Estados Unidos foi vista na América Latina como essencialmente interessada em defender-lhes os investimentos privados no estrangeiro e que, embora a Nova Fronteira e a Aliança para o Progresso “confundissem” essa imagem, o “estereótipo” continuava a subsistir sob a superfície, e a reação norte-americana à nacionalização da IT & T o reativara.[36] Schlesinger, por fim, recomendou que Kennedy dissesse que o Brasil, aspirando liderar, como Afonso Arinos proclamara na ONU, as nações subdesenvolvidas e amantes da paz, poderia conduzir com os Estados Unidos o movimento por um mundo pluralista, pois “just as the future of democracy in Asia depends considerably on the example of India, so the future of democracy in Latin America depends considerably on the example of Brazil”.[37]

A contenda na América Latina, como Kennedy deveria acentuar, não era entre o statu quo e a revolução, mas “entre a revolução democrática e a revolução comunista”, que os Estados Unidos combatiam “não porque o comunismo ameaça os investimentos privados e sim porque ameaça as reformas democráticas e a independência nacional”.[38] Assim, no entendimento de Schlesinger, a competição pelo futuro da América Latina seria “entre o caminho brasileiro e o caminho de Castro”.[39]

As palavras, no entanto, não podiam modificar a dinâmica dos acontecimentos. O idealismo liberal da Nova Fronteira, após um ano de administração, esgotara-se e já não resistia ao conservadorismo real do poder. A política de Kennedy, àquela altura, começara a ceder às pressões da comunidade empresarial e financeira com interesses no Brasil. E seus objetivos, praticamente, pouco se diferenciavam daqueles que Eisenhower encalçara. Ela colimava a manter condições de segurança e rentabilidade para os investimentos privados norte-americanos, diante dos quais todo o intuito de favorecer reformas econômicas e sociais empalidecia. Assim, em tais circunstâncias, Kennedy nada tinha de politicamente novo a oferecer ao Brasil, exceto mais recursos de Estado para Estado, desde que Goulart reprimisse tanto os comunistas quanto os demais elementos de esquerda, sobretudo nos sindicatos, aplicasse rigoroso plano de estabilização monetária e indenizasse não apenas a IT & T como também a American & Foreign Power (Amforp), subsidiária da Bond & Share, que Brizola nacionalizara em 1959. A revisão da lei de limitação das remessas de lucros constituía mais um ponto do contencioso. E aí se condensavam os principais fatores do impasse e dos conflitos, que levaram os Estados Unidos, entre 1962 e 1964, a intervirem cada vez mais na política interna do Brasil como agente de desestabilização e subversão da democracia.

Goulart sempre considerou impertinência o fato de autoridades norte-americanas, sobretudo Robert Kennedy, falarem, durante as conversações, sobre suposta infiltração de comunistas no seu governo, mas se mostrou algumas vezes bastante complacente, não repelindo in limine a abordagem do assunto. E não podia expurgar os comunistas e outros elementos de esquerda dos sindicatos e das entidades estudantis, como os Estados Unidos desejavam, senão por meios repressivos, antidemocráticos e anticonstitucionais, o que criaria também para Goulart uma incompatibilidade com os setores que o apoiavam politicamente. Essas mesmas razões, inter alia, executar não lhe permitiram também, até as últimas consequências, o plano de estabilização monetária, porque, além da oposição de certos setores do empresariado nacional, não podia admitir a compressão dos salários, mantendo-os abaixo dos índices de elevação do custo de vida, em virtude de seus compromissos políticos e programáticos com a classe trabalhadora, o esteio de sua carreira como líder de massa.

Quanto à indenização da IT & T e da Amforp, Goulart também se empenhou para resolver o problema, que conturbava as relações do Brasil com os Estados Unidos. No curso de 1962, instituiu a Comissão de Nacionalização das Empresas Concessionárias de Serviços Públicos (Conesp) e não só instalou a Eletrobras, cujo objetivo, segundo o velho projeto de Vargas, seria encarregar-se de todo o setor de produção e distribuição de energia elétrica, como criou o Conselho Nacional de Telecomunicações (Contel) e a Comissão Nacional de Energia Nuclear, com o monopólio estatal para a pesquisa, a lavra de jazidas e o comércio de minérios nucleares e outros materiais físseis. A expansão dos serviços de energia elétrica e telecomunicações constituía então um imperativo do desenvolvimento industrial e urbano do país, e Goulart percebia claramente que, como aquelas e outras empresas estrangeiras havia muito não investiam no setor, outras nacionalizações tornavam-se inevitáveis, ampliando ainda mais o problema com os Estados Unidos. A compra do seu acervo, a começar pelo da IT & T e da Amforp, afigurava-se, por conseguinte, como solução. Ele, entretanto, não teve condições internas para a efetivar, porque tanto os nacionalistas, com Brizola à frente, quanto o próprio Lacerda, que encampara, no Rio de Janeiro, outra companhia telefônica, ligada à Light & Power, passaram a atacar duramente a transação com aquelas empresas. O valor por elas exigido estava muito acima do seu valor real, dado que se apurou a existência de fraudes contábeis, em prejuízo do Estado; seus equipamentos eram completamente obsoletos, e os contratos estavam vencidos.[40] Assim, aparte da reconhecida legalidade dos atos de desapropriação e da controvérsia sobre se ainda tinham direito e o quantum a receber como compensação, a imagem daquelas empresas, sobretudo pela ineficiência, era péssima perante a opinião pública, o que constrangia Goulart de as favorecer, arrostando tamanha oposição. Mas, enquanto ele tratava de equacionar os entendimentos com a IT & T e a Amforp, outros dois fatos concorreram para estorvar ainda mais as relações com os Estados Unidos e aumentar sua animosidade contra o Brasil. O Conselho de Ministros, em meados de 1962, aprovou o cancelamento das concessões de jazidas de ferro à Hanna Mining Co., o que já estava em pauta desde a administração de Quadros, e o governador Cid Sampaio, da UDN, nacionalizou, em Pernambuco, a subsidiária da Amforp, cujo contrato igualmente expirara.

Embora após seu primeiro ano de mandato Kennedy começasse a esposar os interesses do empresariado e se tornasse mais consciente de que o presidente não é realmente livre para determinar por si próprio a política externa, como a historiadora norte-americana Ruth Leacock observou,[41] não considerou que Goulart também enfrentava toda sorte de limitações, inclusive constitucionais, devido à restrição de seus poderes pelo parlamentarismo, não dispondo de força para executar, ao seu arbítrio, medidas de tal magnitude em uma sociedade democrática. Dessa forma, enquanto o Congresso, com a oposição do próprio Kennedy, votava a emenda do senador Bourk Hickenlooper, a proibir a assistência financeira a países onde propriedades norte-americanas fossem nacionalizadas sem pronto pagamento da indenização, o governo dos Estados Unidos resolveu intervir nas eleições do Brasil, marcadas para outubro de 1962, a fim de eleger o máximo de deputados e senadores anticomunistas, ou melhor, de direita, e assim intensificar as pressões sobre Goulart.[42] De acordo com a informação do ex-agente da CIA Philip Agee, sua organização gastou no Brasil uma soma equivalente a US$ 12 milhões, talvez atingindo US$ 20 milhões,[43] dos quais o próprio embaixador Lincoln Gordon, posteriormente, admitiu cerca de US$ 5 milhões,[44] de qualquer modo uma importância muitíssimo superior à aplicada no Chile, da ordem de US$ 2,6 milhões, com o objetivo de assegurar a vitória do candidato democrata-cristão Eduardo Frei sobre o socialista Salvador Allende durante a campanha presidencial de 1964.[45] A covert action constituiu um instrumento da política externa dos Estados Unidos, mas evidentemente ela não se restringiu ao esforço de propaganda anticomunista e ao apoio aos candidatos de direita e extrema direita, uma vez que em 1962 ingressaram no país 4.968 norte-americanos com vistos especiais, número quase quatro vezes superior à média dos anos anteriores e posteriores, o que causou estranheza ao governo de Goulart e levou o deputado Renato Archer, subsecretário de Relações Exteriores, a solicitar explicações ao embaixador Lincoln Gordon.[46] O número caiu para 2.463 em 1963, devido talvez às restrições do Itamaraty e à repercussão que aquela invasão informal começava a alcançar, com denúncias a aparecerem na imprensa e na Câmara dos Deputados.[47] Os norte-americanos, na condição de pastores evangélicos, comerciantes, estudantes, pesquisadores, membros do Peace Corps etc., rumavam, na maioria, para o Nordeste, a região que mais preocupava o governo dos Estados Unidos como potencialmente revolucionária, e as autoridades militares e diplomáticas brasileiras, inclusive Renato Archer, suspeitaram, senão concluíram que eles, em grande parte, pertenciam à CIA e/ou às unidades especiais de contrainsurreição.[48]

A penetração do Brasil pelos norte-americanos, com o empreendimento das mais variadas modalidades de covert action e spoiling action, engravesceu, sem dúvida alguma, a crise interna, induzindo artificialmente o processo político à radicalização, muito além dos próprios impulsos intrínsecos das lutas sociais. Não havia, naquelas circunstâncias, sequer a possibilidade de que Cuba viesse a estimular qualquer insurreição contra o governo de Goulart, que defendia seu direito à autodeterminação, nem à União Soviética, empenhada em combater o stalinismo chinês, interessava criar outro problema na América Latina. O jornalista Tad Szulc, do New York Times, reconheceu como “evidente” que “não foi a influência direta de agentes, dinheiro ou armas de Cuba que levou Goulart e seus companheiros à beira de um Estado quase revolucionário no Brasil”, embora fosse “inconfundível a influência psicológica e intelectual” da revolução de Fidel Castro, “ainda que transmudada em termos puramente brasileiros”.[49] Com efeito, o que levou Goulart à beira de um “Estado quase revolucionário”, se é que assim se pode considerar o desbordamento da democracia sob o seu governo, foi principalmente o fato de que Kennedy, com as promessas de reformas da Nova Fronteira e da Aliança para o Progresso, reagiu, diante de algumas nacionalizações, que nada tinham de socialistas e sim visavam à expansão nacional do capitalismo bem como dos esforços do Brasil para manter maior independência em suas políticas interna e externa, do mesmo modo que Eisenhower em face das primeiras mudanças empreendidas por Castro. Assim, as lutas sociais, das quais, no Brasil, a comunidade empresarial norte-americana participava como significativo segmento de suas classes dominantes, condicionaram, em larga medida, o comportamento de Kennedy e a forte hostilidade dos Estados Unidos a Goulart, porquanto, àquela época, as corporações multinacionais, em busca de fatores mais baratos de produção, não podiam tolerar nos new industrializing countries nenhum governo de corte social-democrático que, sob influência dos sindicatos, favorecesse a valorização da força de trabalho.

O Council of the Americas, sob a liderança de David Rockfeller, empenhou-se, efetivamente, na desestabilização do governo de Goulart, com o conhecimento e a participação da CIA, conforme o depoimento do ex-embaixador no Chile, Edward Korry, perante o Senado dos Estados Unidos.[50] No segundo semestre de 1962, a somar-se à IT & T, a Hanna passou a pressionar o governo de Kennedy para não dar qualquer assistência financeira ao Brasil até que Goulart resolvesse o caso do cancelamento de suas concessões no quadrilátero ferrífero de Minas Gerais.[51] E o banqueiro William H. Drapper, que visitara o Brasil em missão oficial, manteve, durante as primeiras semanas de outubro daquele ano, diversos contatos com elementos da comunidade empresarial norte-americana e, a refletir suas opiniões, sugeriu a Dean Rusk que os Estados Unidos adotassem a linha dura, recusando qualquer ajuda ao balanço de pagamentos do Brasil até que Goulart ou aplicasse um plano de estabilização monetária satisfatório para o FMI ou caísse do governo, tragado pela voragem da crise de suas contas externas.[52] Sua perspectiva era a de que Goulart provavelmente não executaria o plano de estabilização monetária e, inflectindo mais para a esquerda, possibilitaria a “polarização das forças políticas domésticas” e, em uma segunda etapa, o golpe de Estado, com a instauração de forte regime militar de direita, “melhor orientado para os Estados Unidos”.[53] John Richard, executivo da RCA e presidente da Câmara Americana de Comércio, sugeriu-lhe que os Estados Unidos forçassem o colapso econômico do Brasil, com o corte de toda ajuda ao governo de Goulart, de modo a produzir sua queda e abrir o caminho para os militares.[54] Lincoln Gordon, por outro lado, temeu que Goulart se fortalecesse, na onda do antiamericanismo, e realizasse expropriações maciças de empresas dos Estados Unidos, razão pela qual propôs o adiamento de tão drásticas decisões por poucos meses mais, até a realização do plebiscito, em 6 de janeiro de 1963, quando o povo decidiria pela restauração do presidencialismo.[55]

Entretanto, embora o governo de Goulart aprovasse a inspeção dos navios com destino a Cuba durante a crise dos mísseis, demonstrando que a defesa de sua autodeterminação não significava favorecimento da expansão militar da União Soviética nem abdicação dos compromissos fundamentais com o Ocidente, Kennedy, em dezembro de 1962, já se mostrava desmesuradamente inquieto e nervoso com a situação no Brasil. No dia 11 daquele mês, reuniu o comitê executivo do Conselho de Segurança Nacional para examinar a “ameaça comunista” no Brasil e a crise do seu balanço de pagamentos. Ao que tudo indica, naquela oportunidade, decidiu-se que os Estados Unidos suspenderiam totalmente qualquer financiamento ao governo de Goulart, nada fazendo, como prorrogação de vencimentos, para aliviar as dificuldades de suas contas externas, e só destinando recursos aos Estados, depois denominados “ilhas de sanidade administrativa”,[56] cujos governadores eram militantes anticomunistas.[57] No dia seguinte, ao falar à imprensa, referiu-se duramente à situação do Brasil, declarando que uma inflação de 5% ao mês anulava a ajuda norte-americana e aumentava a instabilidade política. Segundo ele, uma inflação no ritmo de 50% ao ano não tinha precedentes, e os Estados Unidos nada podiam fazer para beneficiar o povo do Brasil, enquanto a situação monetária e fiscal no país fosse tão instável.[58] Sua atitude, a afirmar praticamente que outra nação estava em bancarrota, chocou o governo de Goulart, que a considerou irresponsável, pois seus efeitos econômicos e políticos seriam desastrosos para o Brasil, em particular para seus créditos externos. E, enquanto sua entrevista repercutia, no dia 13 Kennedy, recebeu em audiência o senador Juscelino Kubitschek, ex-presidente do Brasil, e Lleras Camargo, ex-presidente da Colômbia, abordando com eles o tema da América Latina e, em particular, do Brasil. Kubitschek, que notara uma crescente animosidade contra o Brasil nos Estados Unidos, defendeu Goulart, como um “homem de sólidos princípios, com bom entendimento político”, que necessitava sentir-se apoiado para contrarrestar as influências adversas, tais como a do seu cunhado, Leonel Brizola, “violentamente antiamericano”.[59] Kennedy ponderou que não importava quanto os Estados Unidos haviam aplicado no Brasil, a verdade era que o dinheiro não produzira nenhum resultado, uma vez que a inflação e a fuga de capitais continuavam. O outro fato a preocupar, segundo ele, era a forte influência marxista ou comunista no movimento operário e em outras áreas importantes da sociedade brasileira, o que contribuía para o total agravamento da situação. Kubitschek explicou que os elementos de esquerda, embora não tivessem um peso significativo, eram muito atuantes e barulhentos, de modo que contribuíam para impopularizar a Aliança para o Progresso. E instou Kennedy, várias vezes, a cooperar com o Brasil — e sem demora — na solução dos seus problemas de balanço de pagamentos. No curso da conversa, salientou que, na sua administração, o Brasil recebera mais de US$ 2,5 bilhões, o equivalente à média anual de US$ 500 milhões, o que contrastava com os parcos US$ 10 milhões investidos naquele ano. Kennedy ponderou que as políticas radicais de nacionalização do capital e expropriação de empresas estrangeiras afugentavam cada vez mais os investimentos. E Kubitschek aproveitou, mais adiante, uma oportunidade para salientar que, durante seu mandato, promovera a luta pelo desenvolvimento do Brasil, alcançando grande sucesso, mesmo sem quase receber qualquer ajuda do governo dos Estados Unidos. E havia certas áreas, como a situação do balanço de pagamentos, em que a cooperação dos Estados Unidos, ele enfatizou, seria muito útil. Os argumentos de Kubitschek em favor da colaboração com Goulart não sensibilizaram Kennedy. Por duas vezes, ele repetiu que considerava a situação do Brasil, devido à sua natureza e à sua posição-chave nos assuntos do hemisfério, mais grave que a de Cuba, que afinal era um país pequeno, e por isso tinha a máxima prioridade. Contudo, acentuou, o fato era que, não importando o que os Estados Unidos fizessem, a situação do Brasil devia deteriorar-se.[60]

Uma semana depois da reunião do Comitê Executivo do Conselho de Segurança Nacional e quatro dias após o encontro com Kubitschek, Kennedy enviou ao Brasil seu irmão Robert, procurador-geral dos Estados Unidos, com o objetivo inter alia de influir na reforma do ministério de Goulart, prevista como consequência do plebiscito a realizar-se em 6 de janeiro de 1963, ameaçando com a suspensão de toda a assistência financeira (decisão, aliás, já tomada) caso não entregasse os postos da administração a elementos que se dispusessem a colaborar com os Estados Unidos. Robert Kennedy referiu-se à propalada infiltração de comunistas, bem como à presença de esquerdistas e nacionalistas antiamericanos em altos escalões civis e militares do governo, nos sindicatos e nas entidades estudantis, e criticou a “omissão” de Goulart, por não se opor publicamente a atitudes antiamericanas de alguns dos seus funcionários, que atacavam inclusive o Peace Corps. Os Estados Unidos, ele declarou, queriam ajudar e cooperar, mas precisavam de gente no governo (do Brasil) que não lhes fosse hostil, bem como de um sólido programa para colocar a casa em ordem nos setores econômicos e financeiros.[61] A conversa abordou os vários pontos de atrito, inclusive a compra de helicópteros da Polônia pelo Brasil com pagamento em café, e tornou-se bastante tensa e dura quando Goulart passou a retrucar rispidamente, mas, ao fim, evoluiu para um tom mais cordial.[62]

Goulart naturalmente não cedeu, porquanto nem afastou do governo seus colaboradores apontados como comunistas ou esquerdistas nem reprimiu os sindicatos e as entidades estudantis. Entretanto, apesar da maioria esmagadora que obteve no plebiscito (9 votos em cada 10 foram favoráveis à restauração dos poderes presidenciais), tratou de contemporizar com os Estados Unidos e nomeou San Tiago Dantas para executar o Plano Trienal, que Celso Furtado, ministro do Planejamento, elaborara, buscando conciliar as medidas de combate à inflação, conforme as normas recomendadas pelo FMI, com as metas de desenvolvimento. E antes de viajar para os Estados Unidos, onde retomaria as negociações para a obtenção de recursos e o reescalonamento da dívida externa, San Tiago Dantas aplicou as medidas para a estabilização da moeda, tais como a criação do cruzeiro forte, o corte de subsídios às importações e taxas de câmbio, dando mais alguns passos no sentido da uniformização das taxas de câmbio. Concomitantemente, por meio do Banco do Brasil, concedeu um empréstimo de US$ 7,3 milhões à IT & T, como forma disfarçada de adiantamento da indenização, que a empresa desejava, e acelerou as negociações para a compra da Amforp.

A missão de San Tiago Dantas, contudo, não alcançou resultados efetivamente satisfatórios. Antes mesmo de sua viagem, a imprensa norte-americana, na mesma linha de pensamento de Kennedy, acusava o Brasil de dissipar os recursos que ao longo dos anos os Estados Unidos supostamente lhe destinaram. O Itamaraty, por meio de sua embaixada em Washington, teve de divulgar uma nota, mostrando que, de 1955 a 1961, em apenas cinco anos, o Brasil perdera, com a queda substancial dos preços pagos por seus produtos exportados, cerca de US$1,4 bilhão, montante superior aos desembolsos líquidos efetuados entre 1940 e 1962 pelos Estados Unidos, cuja propalada ajuda, da ordem, portanto, de apenas US$ 1 bilhão, fora condicionada à compra de bens de serviços norte-americanos.[63] E durante as conversações de San Tiago Dantas com as autoridades de Washington, os problemas concretos, que transcendiam o programa de estabilização, afloraram. O secretário de Estado assistente Herbert May e o próprio embaixador Lincoln Gordon, a levantarem o contencioso dos Estados Unidos com o Brasil, referiram-se, especificamente, às “ameaças” à indústria farmacêutica, à carne industrializada, às exportações de minério de ferro, café, algodão, produtos petroquímicos, à distribuição de petróleo, às refinarias privadas e, sobretudo, à lei de limitação das remessas de lucros para o exterior.[64]

San Tiago Dantas esclareceu cada ponto, diferenciando a posição de Goulart, enquanto governo, daquela que a Frente Parlamentar Nacionalista e o próprio PTB defendiam no Congresso. E antecipou que proporia nova legislação para as remessas de lucros, de modo a satisfazer as empresas estrangeiras. O ambiente, no entanto, era de receios e desconfiança. A perspectiva de comércio do Brasil com a União Soviética, os possíveis vínculos de Cuba com a esquerda brasileira e a apregoada infiltração de comunistas no governo de Goulart entraram igualmente na agenda das discussões, dando-lhes caráter mais político do que técnico. As dificuldades foram tantas que San Tiago Dantas, durante outras negociações em Washington, examinou com o embaixador do Brasil, Roberto Campos, a conveniência de interrompê-las, na mesma linha do que Kubitschek fizera com o FMI. Mas concluiu que, àquela altura, nenhuma atitude mais enérgica mudaria o ambiente, pelo contrário, o engravesceria. A percepção prevalecente nos Estados Unidos era então a de que o Brasil envesgava para a esquerda, não por meio da subversão e sim, conforme Gordon denominara, do processo de “superversão” com o qual o próprio governo de Goulart tratava de promover, de cima para baixo, a destruição da ordem econômica, social e política, a fim de implantar algum tipo de república sindicalista ou socialista.

Por essa e outras razões, entre as quais, certamente, as divergências da política externa em relação Cuba, os Estados Unidos decidiram que, do total dos financiamentos prometidos ao Brasil, ainda durante a administração de Quadros, da ordem de quase US$ 400 milhões, e não efetuados devido à sua renúncia, eles só liberariam US$ 84 milhões, dos quais US$ 30 milhões o Departamento do Tesouro reteria, como pagamento do crédito de emergência outorgado, em janeiro de 1963, ao governo de Goulart por um prazo de 90 dias para atender às dificuldades do balanço de pagamentos.[65] Mais recursos dependeriam, posteriormente, de parecer favorável do FMI, do sucesso das negociações com os credores da Europa e da apresentação de um plano mais explícito de desenvolvimento, promoção de exportações e estímulos aos investimentos estrangeiros.

Após seu regresso ao Brasil, San Tiago Dantas agravou as medidas de estabilização monetária, e Goulart encaminhou ao Congresso o anteprojeto de reforma bancária, criando o Conselho Monetário Nacional e o Banco Central. Brizola, no entanto, arremeteu violentamente contra o Plano Trienal, as negociações com o FMI e os entendimentos entre o Brasil e os Estados Unidos, denunciando como lesivo ao interesse nacional o acordo para a compra da Amforp. Outrossim, embora Almino Afonso, ministro do Trabalho, concertasse com San Tiago Dantas e Celso Furtado não permitir que a expansão do salário monetário se convertesse em fator de inflação, o governo não pôde impedir o recrudescimento das greves, em consequência da alta do custo de vida, provocada pelas próprias medidas monetaristas, entre as quais a desvalorização do cruzeiro. Os militares e os funcionários públicos não aceitaram o aumento de apenas 40% em seus soldos e vencimentos. O próprio Goulart, que evitara, comprometer-se publicamente com o Plano Trienal, sempre dissera a San Tiago Dantas e a Celso Furtado que autorizaria o aumento dos salários, se os preços disparassem. E com efeito, em maio, o governo concordou com um aumento de 70% para o funcionalismo, buscando financiar essa despesa por meio de um empréstimo compulsório, que elevaria os impostos. As restrições ao crédito, por outro lado, diminuíram as atividades da indústria, particularmente a produção de automóveis, e antagonizaram com o governo vários setores do empresariado,[66] bem como alguns grupos nacionais, por temerem a abertura do mercado à competição estrangeira se o programa de San Tiago Dantas, em sua sequência, apelasse para a cooperação do capital privado norte-americano.[67] Kennedy, entrementes, escreveu a Goulart, elogiando as “importantes medidas construtivas” por ele adotadas e manifestando a esperança de que “these developments will lead to other positive measures affecting the private sector and will mark the beginning of a new phase of expanding and beneficial participation of private foreign capital in contributing to the economic strength of Brazil and the well-being of its people”.[68]

Kennedy reconheceu as “inevitáveis dificuldades e a resistência” que o programa de estabilização enfrentava, e incentivou Goulart a prosseguir com a sua execução, prevendo que o sucesso de tais medidas criaria um clima favorável ao Brasil nas discussões com as entidades financeiras internacionais e os países da Europa, bem como abriria o caminho para uma cooperação em longo prazo dos Estados Unidos, sob os procedimentos da Carta de Punta del Este, em respaldo ao Plano Trienal.[69]

Contudo, naquelas circunstâncias, somente palavras de simpatia não bastavam para Goulart. Sem receber, imediatamente, concreto apoio financeiro, de modo a libertar-se das constantes pressões do balanço de pagamentos, ele não podia continuar com a execução de um programa anti-inflacionário, que ameaçava danificar, se não destruir por completo sua popularidade e liderança. Combatido pela direita, cujas articulações para o golpe de Estado, já em andamento, contavam com a participação do seu próprio ministro da Guerra, general Amaury Kruel, [70] e chegavam ao conhecimento da CIA,[71] Goulart, com aquela política de estabilização monetária, alienava o apoio da esquerda, dos sindicatos e, em geral, da massa trabalhadora, bem como das classes médias e dos setores do empresariado nacional. A própria Confederação Nacional da Indústria, a reagir contra a restrição do crédito, já então acusava o Plano Trienal de converter-se em mero programa de estabilização e provocar queda catastrófica nas vendas, aumento anormal de estoques, drástica redução das encomendas, início de desemprego e paralisia das atividades de investimento.[72]

A queda de San Tiago Dantas do Ministério da Fazenda, em face do agravamento da crise econômica, social e política, significou, virtualmente, o fim dos entendimentos com os Estados Unidos, embora Goulart, após a coroação do papa Paulo VI, ainda viesse, em 1o de julho de 1963, a conversar com Kennedy, que cobrou dele o compromisso sobre a compra da Amforp e atendeu seu pedido de prorrogação, por mais 90 dias, do prazo para o pagamento de US$ 25,5 milhões.[73] Mas, àquela altura, Goulart também já decidira pelo endurecimento da política vis-à-vis dos Estados Unidos. Kennedy bloqueara os fundos compensatórios negociados por San Tiago Dantas, e ele, Goulart, não mais suportava ter de negociar, a cada três meses, a fim de obter a prorrogação de vencimentos de pequenas somas, enquanto o governo dos Estados Unidos estava a distribuir recursos da Aliança para o Progresso entre governadores e prefeitos, exatamente os seus adversários políticos, que conspiravam para derrubá-lo. Assim, antes de viajar para Roma, determinou publicamente que o Itamaraty comunicasse ao Departamento de Estado sua decisão de não mais tolerar aquele procedimento, que atentava contra a soberania nacional e a unidade da Federação.[74] Goulart estava disposto a denunciar a Aliança para o Progresso, caso a Embaixada Americana continuasse a não respeitar a realidade do Estado nacional e o monopólio das relações exteriores pela União.[75]

A dívida externa do Brasil montava, àquela época, US$ 3 bilhões. Não crescera, praticamente, desde a renúncia de Quadros, uma vez que Goulart não recebera nenhum empréstimo de dinheiro novo desde sua ascensão à presidência. Segundo Carvalho Pinto, ex-governador de São Paulo e sucessor de San Tiago Dantas no Ministério da Fazenda, aquela soma era “bastante razoável”, mas, como os prazos de vencimento se congestionavam, as pressões dos Estados Unidos, devido ao impasse político, dificultavam o equacionamento do problema.[76] O Brasil devia então pagar a outros países o equivalente a US$ 150 milhões por ano, ou seja, quase 15% da receita cambial em moeda conversível, a título de juros. E metade da dívida estava por vencer entre 1963 e 1965, o que totalizava, somando-se a ela os encargos dos juros, a importância de US$ 1,8 bilhão, o equivalente a 43% da receita das exportações brasileiras, estimadas em US$ 4,2 bilhões naquele período.[77] E cerca de 19,6% dos juros e amortizações já venciam naquele ano. O déficit nas transações correntes (mercadorias e serviços) alcançaria, assim, a cifra de US$ 2 bilhões, o que compelia o governo a agir com energia e rapidez para conter a evasão de divisas. Embora ainda pretendesse executar o Plano Trienal e não quisesse radicalizar, como a nomeação de Carvalho Pinto, conservador e ligado ao empresariado de São Paulo, demonstrara, Goulart resolveu decretar a moratória unilateral, conquanto não chegasse a concretizá-la, e determinou a regulamentação de lei que limitava as remessas de lucros para o exterior.

Conforme a previsão da CIA, ao avaliar, entre o fim de junho e o começo de julho de 1963, a evolução da crise, o Brasil tomaria drásticas medidas a fim de enfrentar os problemas do balanço de pagamentos caso os Estados Unidos e o FMI lhe sustassem toda a assistência financeira.[78] Suspenderia o pagamento da dívida externa, se não a repudiasse, e cortaria ou até proibiria as remessas de lucros. E os investimentos estrangeiros cessariam. Porém, se houvesse alívio das remessas e das obrigações de pagamento da dívida, ele poderia manter ao menos o nível mínimo de importações com a continuidade das exportações, embora as taxas de crescimento diminuíssem, o desemprego aumentasse e a inflação recrudescesse.[79] A CIA observou que a colaboração do Bloco Socialista não supriria a lacuna causada pela interrupção do intercâmbio econômico do Brasil com os Estados Unidos e a Europa Ocidental. No entanto, a União Soviética poderia assegurar os objetivos do acordo comercial com aquele país, fazendo consideráveis esforços para atender suas necessidades caso o governo brasileiro promovesse ampla agitação contra os Estados Unidos. E, conquanto estivesse relutante em assumir encargos em largo prazo, sobretudo em vista de seus compromissos com Cuba e em outras regiões, poderia, sem se obrigar a garantir a viabilidade econômica do Brasil, prestar-lhe importante cooperação, como o atendimento de grande parte, se não de todas as suas necessidades de petróleo (equivalentes a 20% do total de importações). A CIA não acreditava, entretanto, que Goulart se alinhasse com o Bloco Soviético, com o qual apenas aumentaria suas relações de comércio, dentro dos limites economicamente possíveis, porque seria vantajoso alargar os mercados de exportação e reduzir as importações da área do dólar.[80] De qualquer forma, com ou sem a ajuda da União Soviética, as políticas do Brasil quase certamente tornar-se-iam mais e mais radicais, e suas relações com os Estados Unidos, na melhor das hipóteses, encrespar-se-iam, enquanto as tensões internas entre esquerdistas e conservadores, aguçando-se, levariam a situação a um ponto crítico. Àquele tempo, meados de 1963, a CIA inclinava-se a acreditar que o Brasil decairia para “o ultranacionalismo e uma solução autoritária” se os Estados Unidos lhe bloqueassem toda a assistência financeira.[81] Conforme constatava, a maioria dos brasileiros era nacionalista e por isso se lhe afigurava “muito difícil” conseguir grande apoio para abater o governo de Goulart, pois pareceria um esforço com o objetivo de satisfazer os Estados Unidos. Mais fácil seria, em sua opinião, o governo de Goulart obter respaldo para medidas, como o repúdio da dívida externa, a nacionalização de propriedades norte-americanas e a maior cooperação com o Bloco Soviético.[82] Daí o “grande perigo”, que a CIA percebia, de uma inflexão para o autoritarismo, pelo próprio Goulart, dado o “extremo clamor” dos ultranacionalistas e da esquerda contra os Estados Unidos, cujas relações com o Brasil sofreriam, assim, sério revés.[83] Por outro lado, a CIA ainda ponderou que, qualquer que fosse o desdobramento das relações com os Estados Unidos a respeito das questões financeiras, o Brasil provavelmente não abandonaria a “linha nacional e independente” de sua política exterior. Mesmo um “governo moderado ou direitista”, que cooperasse mais estreitamente com Washington, continuaria com aquele propósito de independência nos assuntos internacionais e de liderança na América Latina.[84] A CIA considerava, entretanto, que, embora as dificuldades internas compelissem os políticos brasileiros para “soluções de esquerda”, não era inevitável que a crise evoluísse naquela direção. A prever que o governo brasileiro, por meio de uma série de atos e negociações, não atenderia totalmente às exigências norte-americanas, mas também não se afastaria demasiado dos Estados Unidos, de modo a não perder qualquer possibilidade de assistência, julgava que “ainda chances” havia em favor de que Goulart terminasse seu mandato constitucional, em janeiro de 1966, e que seu sucessor fosse “alguém mais responsável” e “talvez mais constante” em aderir “ao gradualismo e à cooperação hemisférica”.[85]

Essas estimativas da CIA, datadas de 2 de junho de 1963, eram, em certos aspectos, realistas e prudentes, a indicarem o receio de que o Brasil, como consequência da pressão econômica dos Estados Unidos e das entidades financeiras internacionais, derivasse para a esquerda, não propriamente comunista, e sim sob a forma do autoritarismo ultranacionalista, algo no modelo de Vargas ou Perón.[86] Os matizes e as profundas diferenças, no caso, pouco importavam aos Estados Unidos, uma vez que o nacionalismo ou o comunismo se lhes equivaliam, na medida em que ambos contrariavam os interesses dos seus capitais privados no estrangeiro. E por isso mesmo a CIA intensificou suas operações, organizando, com o apoio de latifundiários e homens de negócios, grupos paramilitares e instalando, em fazendas e até mesmo em igrejas, depósitos de material bélico com o objetivo de deflagrar a luta civil, na hipótese de que aquela perspectiva realmente se concretizasse.[87] Nas Forças Armadas, como a proposta de derrubada de Goulart não encontrara maior receptividade, os oficiais comprometidos com a conspiração passaram a aliciar seus camaradas para a “defesa” da Constituição, caso o governo descambasse para a ilegalidade.[88] O apelo contra a ameaça comunista e o perigo de bolchevização do Brasil valeu para obscurecer o caráter antinacionalista do movimento e confundir a oficialidade.

Goulart já não tinha dúvidas a respeito das atividades da CIA, pois a Comissão Parlamentar de Inquérito comprovara que o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e a Ação Democrática Popular (Adep), responsáveis pelo financiamento da campanha dos candidatos de direita nas eleições de 1962, recebiam recursos do exterior, por meio do Royal Bank of Canada, do Bank of Boston e do First National City Bank. E decidiu, em fim de agosto, suspender por três meses o funcionamento daquelas associações, como primeiro passo para fechá-las, com o argumento de que elas atentavam contra a segurança das instituições e, inclusive, contra a segurança nacional.[89] No mesmo dia, aliás, concedeu uma audiência ao embaixador Lincoln Gordon e lhe disse que, por meio do Serviço Federal de Informações e Contrainformações (SFICI), sabia dos seus encontros com Lacerda e empresários, que conspiravam contra a sua administração. Gordon, cujo alinhamento com as posições do empresariado multinacional e fervorosa militância pró-Lacerda o próprio subsecretário de Estado assistente, Edwin Martin, criticara,[90] desmentiu, naturalmente, as informações.[91] E Goulart, embora conhecesse também certas atividades do coronel Vernon Walters, adido militar norte-americano e agente do Defense Intelligence Agency (DIA), fingiu aceitar sua negativa para não ter de o declarar persona non grata, o que exacerbaria ao extremo as tensões do Brasil com os Estados Unidos.[92] Mas o serviço secreto do Exército, conduzido por oficiais nacionalistas, começou a desvendar os depósitos de armas, inclusive em frente ao sítio de Goulart, em Jacarepaguá (Rio de Janeiro), a indicar igualmente a existência de um complô para assassiná-lo.[93]

A turbulência social, com o enrijecimento do impasse econômico e financeiro, recresceu, desde então, e a inquietação política, com a revolta dos sargentos em Brasília (setembro de 1963), atingiu o seio das Forças Armadas, onde a radicalização fora largamente induzida, a fim de configurar mais ainda o clima de guerra revolucionária e persuadir a oficialidade legalista a aceitar o golpe de Estado como solução. Os Estados Unidos, àquela época, já examinavam os vários tipos de planos de contingência, denominados Operação Brother Sam, a fim de intervir militarmente no Brasil, sustentando os insurgentes contra o governo de Goulart. Àquela época, entretanto, Goulart já começara a perder o controle sobre os acontecimentos. Não conseguiu sequer que a esquerda apoiasse a instauração do estado de sítio, solicitada ao Congresso, em meio a uma tentativa frustrada para prender Lacerda e intervir no estado da Guanabara. O assassínio de Kennedy, pouco tempo depois (em novembro de 1963, com a ascensão de Lyndon Johnson à presidência da República e a substituição de Edwin Martin por Thomas Mann como subsecretário de Estado assistente), possibilitou, finalmente, o abandono da política de não encorajamento de golpes de Estado, que, mesmo inconsequentemente, constituía ainda um compromisso de Aliança para o Progresso. No dia 1o de janeiro de 1964, Goulart recebeu a mensagem do embaixador Roberto Campos, transmitida pelo ministro-conselheiro da Embaixada em Washington, de que os Estados Unidos se dispunham a declarar, unilateralmente, a insolvência do Brasil e que a única maneira de evitá-lo seria o seu pronunciamento em favor da Aliança para o Progresso. Ele então se voltou para San Tiago Dantas, que, juntamente com Renato Archer, acompanhara o diplomata, e comentou: “Não adianta mais, professor. Não acredito que nenhuma frase minha detenha a conspirata que os Estados Unidos patrocinam.”[94] Apanhou então uma pasta com alguns informes do serviço secreto e contou-lhes que o coronel Vernon Walters mantinha encontros com os generais Cordeiro de Farias, Nelson de Melo, Juracy Magalhães, o brigadeiro Eduardo Gomes, e também viajara para Belo Horizonte, onde, na residência do cônsul, conversara com o governador Magalhães Pinto. Goulart, por fim, contou que um certo general Bell chegara ao Brasil, em uma Fortaleza Voadora, e não só o brigadeiro Eduardo Gomes, que tramava contra o governo, fora recebê-lo como ele estivera com o general Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, e o próprio ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro.[95]

Nenhuma frase, realmente, evitaria a desestabilização do regime. A crise econômica, social e política afoitou-se. Goulart ainda tentou mobilizar o apoio da massa trabalhadora para a sustentação do seu governo, mediante a convocação de vários comícios e a adoção de algumas medidas nacionalistas e populares, uma vez que as forças conservadoras obstaculizavam a aprovação das reformas de base, como a agrária, no Congresso. Mas um levante dos marinheiros, em fins de março de 1964, serviu como pretexto para a deflagração do golpe de Estado, por legitimar, sobretudo diante da vacilação de Goulart em reprimir o movimento, que tinha caráter de provocação, e castigar os amotinados, a propaganda de que a guerra revolucionária estava em pleno curso, com a indisciplina e a quebra da hierarquia militar. As unidades do Exército, sediadas em Minas Gerais, adiantaram-se ao grupo liderado pelo general Castelo Branco e iniciaram, assim, a sedição, com o apoio do governador Magalhães Pinto e dispostos a promover uma guerra civil de pelo menos três meses contra o governo Goulart. San Tiago Dantas, a tentar uma solução política para a crise, de modo a evitar o conflito armado, telefonou para Afonso Arinos, nomeado uma espécie de secretário das Relações Exteriores pelo governador Magalhães Pinto, e dele então ouviu que os Estados Unidos apoiavam a sublevação e não somente reconheceriam a beligerância de Minas Gerais como interviriam militarmente no Brasil em caso de guerra intestina.[96] Essa informação, transmitida por San Tiago Dantas a Goulart, pesou, evidentemente, na sua decisão de não resistir. Ele considerava inútil o derramamento de sangue e quis evitá-lo, bem como a internacionalização do conflito e a secessão do Brasil.[97] Com efeito, naquele momento, os Estados Unidos enviavam para o Brasil uma força-tarefa, composta pelo porta-aviões Forrestal, destroieres de apoio, inclusive um com mísseis teleguiados, navios carregados de armas e mantimentos, bem como quatro petroleiros, ao mesmo tempo em que sete aviões de transporte C 135, levando 110 t de armas, oito aviões de caça, oito aviões-tanques, um avião de comunicações e um posto aéreo de comando estabeleceriam uma ponte aérea, interconectando as bases norte-americanas e as regiões rebeladas.[98] A Operação Brother Sam, chefiada pelo general George S. Brown, contrataria também uma força-tarefa ultrassecreta do Exército, da Marinha, Aeronáutica e CIA, posta em ação na base do Panamá, sob o comando do general Breitweiser.[99] E Lincoln Gordon, posteriormente, manifestou a Lacerda estar “muito feliz” com a vitória da sublevação de Minas Gerais, “porque evitou uma coisa muito desagradável, que seria a necessidade de intervenção militar americana no Brasil”.[100]

A DERROTA DAS TENDÊNCIAS NACIONALISTAS NO BRASIL. O GOVERNO CASTELO BRANCO E O RETROCESSO NA POLÍTICA EXTERNA:

Kennedy não manteve nem uniforme nem consequentemente a política de desencorajar golpes de Estado. O mesmo pavor de que outro regime contrário aos interesses dos Estados Unidos se instalasse no hemisfério, assim como o levou a lançar, a partir da Operação Pan-Americana, a Aliança para o Progresso, também esterilizou completamente quaisquer propósitos renovadores e democráticos que ele porventura alimentasse. Kennedy reconheceu os governos oriundos de levantes militares na Argentina e no Peru (1962), bem como no Equador, na República Dominicana, em Honduras e na Guatemala (1963). E a instrumentalizar, de um lado, as pressões financeiras e, do outro, as ações clandestinas, a fim de vergar o Brasil, desejou e concorreu decisivamente para a desestabilização do governo de Goulart. Johnson, na verdade, não modificou, essencialmente, a orientação de Kennedy.[1] Apenas assumiu, talvez com mais desenvoltura, a responsabilidade pelo desfecho da crise no Brasil, a qual refletia, em larga medida, a crise nas relações daquele país com os Estados Unidos. Mesmo consciente de que o putsch poderia deflagrar a guerra civil, a maior preocupação do Departamento de Estado era a de preservar, na derrubada de Goulart, o formalismo constitucional e o estabelecimento de alguma aparência de legitimidade, de modo a justificar, perante o Congresso e a opinião pública dos Estados Unidos, a Operação Brother Sam e até mesmo a intervenção armada, se necessário fosse.[2] Goulart, por não resistir, evitou o “drama de proporções continentais”, conforme o Washington Post previra,[3] e suas funestas consequências para a unidade nacional e o desenvolvimento do país.

O golpe de Estado, porém, não se deteve nos limites formais da Constituição, já violentada pela forma ilegal como o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazilli, assumira o governo, recebendo saudações de Johnson, quando Goulart, que não renunciara, ainda estava no Rio Grande do Sul. O general Artur da Costa e Silva, o almirante Augusto Rademaker Grünewald e o brigadeiro Francisco Correia de Melo, que se impuseram, de facto, como ministros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, autodenominaram-se Comando Revolucionário e, no dia 9 de abril, editaram um Ato Institucional com o qual se investiram de poderes discricionários para erradicar todos os focos de contestação ao novo regime. E a repressão, a abater-se sobre sindicatos, ligas camponesas e entidades estudantis, alcançou o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, com a cassação dos mandatos e a suspensão dos direitos políticos de dezenas de senadores, deputados e vereadores dos mais diversos partidos, bem como de centenas de outros cidadãos, por defenderem posições nacionalistas. Por esse mesmo motivo, uma vez que os supostos comunistas eram igualmente muito poucos, 122 oficiais — número que se elevaria, com o correr dos meses, a cerca de 450 — foram expurgados das Forças Armadas.

Àquela altura, os diferentes chefes militares e líderes civis que conspiraram contra Goulart competiam pelo controle do poder. O que mais inspirava confiança à Embaixada Americana era, entretanto, o general Humberto Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, devido, sobretudo, aos seus vínculos pessoais e ideológicos com o coronel Vernon Walters. E ao que tudo indica esta foi, talvez, a principal razão por que Lacerda, em direto entendimento com Gordon, propôs e articulou seu nome para a presidência da República,[4] finalmente aceito, depois de muita resistência, pelo general Costa e Silva.[5] A queda de Goulart e, posteriormente, a ascensão de Castelo ao poder significaram assim ampla vitória dos Estados Unidos, não contra os comunistas, que o Departamento de Estado sabia não terem condições, “em futuro previsível”, de tomar o poder, e sim contra as tendências nacionalistas, excitadas pelas necessidades do processo de industrialização do Brasil e pelo recrudescimento das lutas sociais, em uma conjuntura nacional de extrema escassez de recursos e marcada internacionalmente pelo impacto da Revolução Cubana.

Em virtude de ter fronteiras comuns com quase todos os países da América do Sul (exceto Chile e Equador), o que lhe dava fundamental importância estratégica, o Brasil sempre preocupou, e por isso recebeu certos cuidados dos Estados Unidos, que percebiam não só sua aspiração ao status de potência mundial como suas possibilidades reais de atingi-lo. Dessa forma, os Estados Unidos mantiveram com o Brasil intenso relacionamento de “atração-medo”, conforme expressão de Alfred Stepan.[6] O medo, sobremodo pronunciado entre 1961 e 1964, era o de que o Brasil pudesse servir como santuário e campo de treinamento para as operações de guerrilhas “pró-comunistas” ao longo da América do Sul.[7] Porém, aparte essa hipótese pouco provável, o fato é que apenas o exemplo do Brasil, com um governo fortemente nacionalista, influenciaria, naquelas circunstâncias, as políticas de seus vizinhos, que se tornariam mais rebeldes vis-à-vis da hegemonia dos Estados Unidos. Essa mesma percepção de sua importância, segundo Stepan, foi o que, aliás, levou Johnson, depois do golpe de Estado de 1964, a conceder maciça ajuda militar ao Brasil, esperando que ele desempenhasse, em favor dos Estados Unidos, um papel anticomunista hegemônico na América do Sul.[8]

O general Castelo Branco tinha, sem dúvida, todas as condições pessoais e ideológicas para corresponder a tal perspectiva. Participara da Força Expedicionária Brasileira, durante a Segunda Guerra Mundial, e se unira a oficiais, como Jurandyr Bizarria Mamede e Oswaldo Cordeiro de Farias, que se alinharam politicamente com a UDN, passando a combater Vargas e o nacionalismo quando regressaram da Itália, em 1945. Essa elite militar formou, em 1949, a Escola Superior de Guerra, na qual os generais Juarez Távora e Golbery do Couto e Silva destacar-se-iam, e constituiu o principal suporte, no princípio dos anos 1950, da Cruzada Democrática e do movimento contra o segundo governo de Vargas. Sua doutrina, cristalizada nos cursos da Escola Superior de Guerra, absorvera a teoria do general Góes Monteiro sobre a agressão interna como a principal ameaça à segurança nacional, mas a adaptara às concepções norte-americanas da guerra fria, em uma variante geopolítica, ao aceitar a bipolaridade do poder mundial, como axioma, a partir do qual o silogismo apontava para a necessidade de vincular estreitamente o Brasil à liderança dos Estados Unidos, como forma de defender os valores do Ocidente, ou seja, o regime de livre empresa e, quando possível, o sistema democrático representativo. As doutrinas sobre contrainsurreição, desenvolvidas sobretudo durante a administração de Kennedy, e a concepção dos exércitos latino-americanos como simples forças de polícia, com preparo apenas para combater as ameaças internas ou regionais de revolução, harmonizavam-se, por conseguinte, com o pensamento precursor da Escola Superior de Guerra.

O movimento que derrubou Goulart e, em seguida, editou o Ato Institucional, na primeira de uma série de outras erupções do arbítrio, refletiu e realizou aquelas doutrinas de segurança nacional e contrainsurreição ao instalar no Brasil um regime em contrarrevolução permanente, em nome de uma razão de Estado, que terminou por gerar um Estado sem razão. Suas políticas fundamentaram-se na Weltanschaung maniqueísta do militarismo, segundo a qual a confrontação entre os dois polos do poder internacional — Estados Unidos e União Soviética — se deslocara para o interior de cada país, uma vez que o desenvolvimento das armas nucleares e de sua capacidade de destruição não só superara a guerra convencional como praticamente inviabilizara o conflito direto entre as duas superpotências. O general Juracy Magalhães, quando ocupava o Ministério da Justiça na administração de Castelo Branco, justificou a edição do Ato Institucional nº 2, acentuando que:

todos os povos devem estar preparados para a guerra instantânea, mas o desenvolvimento tecnológico, que criou este extraordinário poder de destruição, força também o convívio pacífico […]. Assim, a guerra atômica se tornou impossível, mas o que se registra hoje, em toda parte, no Vietnã, na República Dominicana, na Coreia, na África, é um tipo de guerra diferente, que o presidente Kennedy classificou de guerra subversiva.[9]

A sociedade, no Brasil, passou então a viver em um clima de guerra fria civil, na medida em que o regime autoritário não aceitava coexistir com a oposição, e até mesmo qualquer manifestação contrária aos Estados Unidos, por serem considerados o “guardião do mundo livre”, passara a equivaler a um atentado à própria segurança nacional do Brasil. As Forças Armadas, diante de tais circunstâncias, deviam desempenhar simples papel de polícia, incumbida de reprimir conflitos sociais como se fossem ações de guerra revolucionária. E, orientado por essa percepção, o governo de Castelo Branco defendeu a reformulação do conceito de soberania, que, não mais se restringindo aos limites e às fronteiras territoriais, abrangeria o caráter político e ideológico dos regimes, de modo a permitir a intervenção dos países americanos nos assuntos internos uns dos outros quando um governo aceito como democrático estivesse ameaçado por movimento supostamente comunista ou de natureza semelhante. Sua proposta, inspirada pelos Estados Unidos, era a da integração de contingentes militares de todos os países americanos em uma stand by force, pronta para intervir imediatamente onde quer que se caracterizasse um processo de subversão. Essa Força Interamericana de Paz, nome proposto para a stand by force, ficaria à disposição da OEA, que assumiria os encargos da segurança coletiva e à qual os Estados Unidos transfeririam o poder de polícia regional, eximindo-se da aplicação unilateral do corolário, em sua dimensão ideológica, da Doutrina Monroe. Sua criação implicaria, naturalmente, a limitação das funções das Forças Armadas nacionais às tarefas de defesa interna, promovendo-se apenas a modernização dos setores subordinados ao esquema continental da OEA. Castelo Branco, menos de três meses depois de sua elevação à presidência do Brasil, justificou, em discurso ao Itamaraty, ao afirmar que:

No presente contexto de uma confrontação de poder bipolar, com radical divórcio político-ideológico entre os dois respectivos centros, a preservação da independência pressupõe a aceitação de certo grau de interdependência, quer no campo militar, quer no econômico, quer no político.[10]

Castelo Branco entendia que “o nacionalismo se agravou internamente, criando contradições em nossa política externa”, e que se deturpou a ponto de se tornar “opção disfarçada em favor dos sistemas socialistas”.[11] Acusou então as “pressões internas em favor do estatismo e da nacionalização” de repercutirem na política externa e gerarem “áreas de atrito”, como nos casos das encampações de concessionárias de serviços públicos, da política semimonopolista de minérios, assim como dos desestímulos aos capitais estrangeiros.[12] O Brasil, dali por diante, trataria de “enveredar pela política de livre empresa e de acolhimento ordenado do capital estrangeiro”.[13]

O projeto de Castelo Branco, teórica e praticamente, induzia o Brasil a abdicar de sua aspiração ao status de potência, resignando aos seus próprios interesses nacionais, como país capitalista em expansão, em nome da unidade do hemisfério ocidental, uma vez que, de acordo com aquela percepção também totalitária, qualquer dissidência significava o favorecimento do comunismo e da União Soviética. O princípio da segurança coletiva, “tão da responsabilidade dos Estados Unidos”,[14] segundo Castelo Branco, assim se sobrepôs ao da segurança nacional. E por isso mesmo, a política externa do Brasil, logo nos meses posteriores ao putsch de 1964, “removeu, antes de tudo, a irreconhecível doutrina de nossas posições ambíguas e, ao mesmo tempo, de postulante”.[15] Castelo Branco nunca falou, certamente, em alinhamento automático com os Estados Unidos e, no Itamaraty, declarou:

Não devemos dar adesão prévia às atitudes de qualquer das grandes potências — nem mesmo às potências guardiãs do mundo ocidental, pois que, na política externa destas, é necessário fazer a distinção entre os interesses básicos da preservação do sistema ocidental e os interesses específicos de uma grande potência.[16]

Com essa diretriz, o governo de Castelo Branco recusou-se a mandar soldados para o Vietnã, por considerar que essa guerra não afetava diretamente o interesse nacional do Brasil, mas apenas o dos Estados Unidos, enquanto potência mundial.[17] Por outro lado, no caso da República Dominicana, o Brasil enviou um contingente de 1.100 soldados, sob o comando do general Hugo Penasco Alvim, como forma de criar condições para o estabelecimento da Força Interamericana da Paz. Os Estados Unidos, segundo Roberto Campos, prometeram que aquela seria a última intervenção unilateral, e Castelo Branco resolveu assumir os riscos e partilhar das responsabilidades pela ação conjunta na República Dominicana.[18] Ele acreditava que, para adquirir autoridade de opor vetos a iniciativas isoladas dos Estados Unidos, o Brasil devia demonstrar que estava disposto a colaborar nas tarefas de segurança coletiva, se necessário fosse, desde que previamente consultado.[19] Não lhe passava também despercebido que “a afinidade dos sistemas não garante a coincidência dos interesses” e que o Brasil, como país que lutava pelo seu desenvolvimento, tinha “prioridades e interesses que muitas vezes diferem daqueles dos países desenvolvidos”.[20] Por esse motivo, atento à opinião das Forças Armadas, Castelo Branco evitou comprometer o Brasil com qualquer decisão que o impedisse de desenvolver a energia nuclear. E só aceitou o Tratado de Tlatelolco (1967) com a clara ressalva de que a proscrição das armas nucleares na América Latina apenas atingia a fabricação de artefatos para fins bélicos.[21]

Tais sutilezas, mais de forma do que de conteúdo, não transpareceram nas políticas — nem interna nem externa — de Castelo Branco. Com a “opção básica” pelo Ocidente, ao qual se devotava “uma fidelidade cultural e política”, o que obviamente prevaleceu foi a linha de eliminação das áreas de atrito, a ponto de Juracy Magalhães, embaixador em Washington e depois ministro das Relações Exteriores de Castelo Branco, declarar que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.[22] Como o ex-chanceler Afonso Arinos observou, após lamentar o “atrelamento melancólico” do Brasil à política externa norte-americana:

o presidente Castelo Branco, por si e por influências dos círculos militares e civis que o assessoravam, levou as premissas até às suas conclusões mais radicais, privando o Brasil de qualquer ação própria internacional, destruindo o prestígio que conquistáramos, e tudo para quê? Para nada, a não ser desfigurar nossa fisionomia nacional.[23]

Não sem razão a politóloga norte-americana Jan K. Black afirmou que, com Castelo Branco, transformado em “porta-voz” das políticas dos Estados Unidos para a América Latina, “o Brasil declarou sua dependência”.[24] Efetivamente, Castelo Branco praticou, em suas políticas, tanto interna quanto externa, todos os atos que os Estados Unidos reclamaram. Menos de um mês após sua ascensão à presidência da República, rompeu relações diplomáticas com Cuba. Impôs ao Congresso, humilhado e acovardado pelas cassações de mandatos, a reformulação da lei de remessas de lucros. Pagou pelos acervos da Amforp e da ITT o preço que os norte-americanos pretendiam, apesar da violenta oposição de Lacerda. Estabeleceu nova política de minérios, devolvendo à Hanna concessões de jazidas de ferro, canceladas pelo governo de Goulart, e aceitando entregar-lhe o porto, que ela havia muito tempo pleiteava, no Espírito Santo. E, além de vários ajustes militares e um Acordo Aerofotogramétrico, firmou com os Estados Unidos o Acordo sobre Seguros de Investimentos Privados, pelo qual as companhias estrangeiras no Brasil adquiriam direitos especiais. A contenção dos salários em níveis inferiores aos índices de elevação do custo de vida, a restrição do crédito bancário, enquanto as empresas estrangeiras, por meio da Instrução 289, da Sumoc, ganhavam um regime de privilégios para tomar empréstimos no exterior, e o corte dos subsídios ao trigo, ao petróleo e ao papel de imprensa constituíram, por fim, algumas das medidas do programa de estabilização monetária recomendado pelo FMI e executado dentro da moldura do Plano de Ação Econômico Governamental (Paeg), que os ministros do Planejamento, Roberto Campos, e Fazenda, Otávio Gouvêa de Bulhões, elaboraram.

A presença dos Estados Unidos no Brasil durante a administração consular de Castelo Branco alcançou assim a sua magnitude. A Missão Militar norte-americana transformou-se na maior do mundo, apenas superada pela existente no Vietnã.[25] Funcionários da Usaid instalaram-se em vários ministérios brasileiros, civis e militares, inclusive nos órgãos de segurança. Pessoal do Departamento de Rendas Internas dos Estados Unidos transferiu-se para o Ministério da Fazenda, a fim de “ensinar” os brasileiros a recolher impostos.[26] Com cerca de 1.500 funcionários,[27] quase o mesmo número que a Grã-Bretanha mantinha na Índia antes da independência, a Embaixada Americana passou então a ter uma importância e uma influência nas decisões de política interna, muito maior que em todos os períodos precedentes. Gordon, que nunca se caracterizou pela discrição e compostura de um diplomata, considerou-se não mais um embaixador, mas um cidadão do país, dentro das fronteiras ideológicas, a fazer frequentes declarações sobre a política nacional, inclusive na Escola Superior de Guerra. Era tal a sua força sobre o governo de Castelo Branco que o povo ironicamente começou a dizer: “Chega de intermediário! Lincoln Gordon para presidente!” E o jornalista Carlos Heitor Cony publicou no Correio da Manhã uma crônica prevendo a decretação de um Ato Constitucional nº 2, cujo art. 1o determinaria: “A partir da publicação deste Ato, os Estados Unidos do Brasil passam a denominar-se Brasil dos Estados Unidos.”[28]

Entretanto, apesar da forte ascendência sobre o governo de Castelo Branco, o Departamento de Estado não tinha controle dos acontecimentos políticos no Brasil. Gordon disse que a edição do primeiro Ato Institucional, em 9 de abril de 1964, chocou-o e ele até pensou em renunciar, pelo menos como um gesto simbólico de protesto.[29] E de fato, dois meses depois, o Departamento de Estado mostrou-se bastante apreensivo com a forma de repressão e, conquanto compreendesse o desejo dos militares de eliminar bona fide os pretensos comunistas e subversivos das posições de influência e poder na administração e nas Forças Armadas, instruiu Gordon no sentido de que expressasse a Castelo Branco sua “crescente” preocupação com o alcance dos procedimentos adotados de acordo com o art. 10 do Ato Institucional, especialmente por não permitir aos acusados o direito de defesa.[30] Posteriormente, quando Castelo Branco cedeu aos militares da linha dura e editou o Ato Institucional nº 2, Gordon, em Washington, sugeriu ao Departamento de Estado que fizesse uma declaração pública lamentando aquele acontecimento.[31] Seu objetivo era, decerto, fortalecer Castelo Branco contra as pressões dos radicais da direita, mas o Departamento de Estado, a fim de evitar, pudorosamente, “acusações de intervenção no Brasil” e não aborrecer a direita militar, que poderia chamar de volta o contingente brasileiro na República Dominicana, preferiu que ele, em conversações particulares, expressasse a inquietação do governo dos Estados Unidos.[32] Com efeito, ao regressar ao Brasil, Gordon manteve demorada entrevista (duas horas) com Castelo Branco, de quem ouviu, ante o seu pessimismo, que o Ato Institucional nº 2 evitara “tanto uma ditadura tradicional tipo latino-americana quanto do tipo nasserista”.[33]

Àquela altura, outubro de 1965, alguns segmentos das Forças Armadas, sobretudo dos oficiais mais jovens, já manifestavam forte inconformismo com os rumos do governo de Castelo Branco e queriam radicalizar o que chamavam de revolução. O que deflagrou a crise, como fator imediato, foi a eleição para os governos da Guanabara e de Minas Gerais dos antigos políticos Francisco Negrão de Lima e Israel Pinheiro, candidatos da coligação PSD-PTB e intimamente ligados, os dois, ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, que também tivera seu mandato de senador cassado e os direitos políticos suspensos. Castelo Branco assegurou a posse a ambos e, a fim de contornar a crise militar, editou o Ato Institucional nº 2, extinguindo os partidos políticos tradicionais da República. Porém, ao que tudo indica, certa tendência de corte nacionalista e antioligárquico subjacente manifestava-se no radicalismo dos oficiais da linha dura, tais como os coronéis Francisco Boaventura, Albuquerque Lima e Andrada Serpa, e, caso empolgassem o poder, eles poderiam rapidamente evoluir do anticomunismo para o anticapitalismo e o antiamericanismo, levados por uma postura moralista típica das classes médias, ao tentarem concretizar, no nível econômico e social, o que entendiam como autêntica revolução. O então coronel Antônio Carlos de Andrada Serpa, na época adido militar em Paris, veio ao Brasil e disse a Castelo Branco que o caminho para a realização do “bem comum” era “o da organização do poder das bases para cima, e nunca através dessas cúpulas oligárquicas dos velhos serviçais e áulicos da ditadura getuliana”.[34] E Afonso Arinos, antes da decretação do Ato Institucional nº 2, deu um parecer sobre a necessidade de reformas das instituições políticas, a pedido do próprio Castelo Branco, ponderando que:

as condições do nosso desenvolvimento econômico e social levariam uma ditadura militar, para se manter, a tomar uma rápida coloração socialista. Paradoxalmente isto é o contrário mesmo do que pretendem os grupos de oficiais jovens, como os políticos ou juristas que a preconizam. Tal governo conduziria à guerra civil, ou seria levado à radicalização de esquerda, para se manter. Coisa, aliás, muito difícil, dada a provável oposição.[35]

Afonso Arinos, obviamente, não considerava o governo de Castelo Branco uma ditadura militar, e, de fato, ele procurou preservar os aspectos formais da mecânica democrática, como também os seus sucessores, não obstante o vezo autoritário do regime, aprofundado por sucessivos atos institucionais, que outorgavam poderes discricionários ao presidente da República e facultavam as mais ferozes práticas de repressão política e de violação dos direitos humanos. De qualquer forma, naquelas circunstâncias, o movimento que derrubou Goulart não podia sustentar o poder senão pela violência. O governo de Castelo Branco, na verdade, não tinha a menor condição de enfrentar eleições realmente livres e democráticas, dado o altíssimo grau de sua impopularidade, em consequência tanto da repressão política, a atingir os líderes de maior prestígio no Brasil, quanto das medidas de estabilização monetária. Os trabalhadores nunca apoiaram o putsch contra Goulart, e o próprio Gordon observara que “a única nota triste era a participação obviamente limitada das classes baixas” na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, promovida no dia 2 de abril de 1964.[36] As classes médias, amplos setores das quais aplaudiram o golpe de Estado, derivaram, logo depois, para a oposição. E o próprio empresariado, sobretudo dos setores que produziam para o mercado interno, não escondia o seu descontentamento com as medidas econômicas da administração de Castelo Branco. Em 1965, a Confederação Nacional da Indústria responsabilizou o Paeg pela crise industrial de São Paulo, onde a taxa de desemprego aumentara de 1%, em janeiro daquele ano, para 9%, em março, e 13,5%, em junho.[37] A recessão da economia brasileira, cujo processo cristalizara depois da queda de Goulart, alcançara então seu ponto mais baixo, acentuando extraordinariamente a desnacionalização das indústrias. Pequenas e médias empresas, até mesmo grandes grupos brasileiros ou de capital europeu, faliram, asfixiadas pela contração do consumo interno e pelas restrições do crédito. O passivo médio insolvente elevou-se, naquele ano, em mais de oito vezes. A tendência continuou em 1966 e, em outubro, São Paulo conheceu seu mais alto índice de falências e concordatas, enquanto as emissões de papel-moeda somavam, naquele mês, Cr$ 382 bilhões.[38] Os empresários, àquela altura, já se tornavam cada vez mais críticos à administração de Castelo Branco.[39]

Por outro lado, como a política deflacionária de Roberto Campos e Gouvêa de Bulhões acarretara o subemprego dos fatores de produção disponíveis, as empresas postergaram novos investimentos que não lhes pareciam inadiáveis nem imediatamente lucrativos. E, em face da recessão, o fluxo de capitais privados estrangeiros para o Brasil, que Castelo Branco esperava, não ocorreu em grande escala, apesar da revogação da lei de remessa de lucros e da assinatura do Acordo sobre Seguros de Investimentos. A fim de não aumentarem investimentos fixos, as empresas estrangeiras preferiram financiar as atividades de suas subsidiárias no Brasil por meio de swaps, operações de empréstimos em curto prazo, garantidas pelo Banco do Brasil e que permitiam o repatriamento de todo o capital ao término do contrato, normalmente de um a três anos. Uma economia em recessão, evidentemente, não podia atrair capitais estrangeiros, e por isso, ao que tudo indica, os investimentos diretos líquidos que entraram foram de apenas US$ 70 milhões, em 1965, US$ 74 milhões, em 1966, e US$ 76 milhões, em 1967, somas bastante inferiores às registradas entre 1956 e 1961, da ordem de mais de US$ 100 milhões, em média, por ano.[40] Assim o governo de Castelo Branco não só não teve condições econômicas e políticas de promover a privatização das empresas estatais, conforme pretendia, como, pelo contrário, teve de fazer maciços investimentos públicos, de modo a reativar a produção, cuja queda ameaçava arrastar o próprio regime militar. A participação do Estado na formação bruta de capital fixo, que alcançara, no governo de Kubitschek, em 1958, o patamar de 40,8%, no qual se manteve, com pequenas variações, até 1962, saltou então para 58%, em 1964, 80%, em 1965, e 90%, em 1966.[41] O investimento público baixou para 62%, em 1967, mas as percentagens previstas eram de pelo menos 69% para os anos seguintes.[42]

O fracasso da Aliança para o Progresso já se afigurava claramente àquela época. Em 1966, o economista Rômulo Almeida, membro do Comitê dos Nove à 4a Reunião do Conselho Internacional Econômico e Social (Cies) da OEA, renunciou ao seu mandato, afirmando que “os objetivos básicos da Aliança para o Progresso não foram cumpridos nestes cinco anos da Carta de Punta del Este”.[43] Seu discurso constituiu um libelo contra a Kennedy Round. Ele declarou que o esforço de planificação dos países latino-americanos fora desestimulado pelo “bilateralismo a varejo” da Agência Interamericana de Desenvolvimento (AID), que chegava ao ponto de “venda humilhante de favores, um perfeito clientelismo internacional de tipo neocolonialista”.[44] Segundo Rômulo Almeida, a América Latina, depois da Aliança para o Progresso, perdera posição relativa no mercado dos Estados Unidos, cujos obstáculos às importações de vários produtos ainda persistiam, e o déficit da capacidade de compra dos países da região, sobretudo em face das necessidades de desenvolvimento, agravara-se naquele período, aumentando a dependência da chamada “ajuda externa”, que também não cumprira seu papel. Ele também observou que: “a integração da América Latina — a mais importante reforma de base e o mais importante esforço próprio da América Latina — está sendo mais dificultada pelas práticas da Aliança para o Progresso do que ajudada por alguns auxílios à América Central”.[45]

Rômulo Almeida demonstrou ainda que as comparações de desembolso e de compromissos financeiros, depois da Carta de Punta del Este, eram destituídas de significado em comparação com o decênio anterior. Os desembolsos brutos dos Estados Unidos, com a colaboração financeira, representavam apenas 0,1% (um décimo por cento) do seu PIB, enquanto com o Plano Marshall chegaram a 2%, 20 vezes mais, e não compensavam as perdas da América Latina nos termos de intercâmbios, além de não serem suficientes para cobrir os serviços financeiros, que oneravam os balanços de pagamentos de todos os países da região.[46] E, após ressaltar que o desembolso da “ajuda” norte-americana à América Latina não ultrapassava um vigésimo dos seus gastos anuais na Guerra do Vietnã, lembrou que, enquanto os Estados Unidos, com todo o panache da Aliança para o Progresso e o poder econômico incomparavelmente maior, aplicavam na região cerca de 0,5% dos seus savings anuais, a Grã-Bretanha, antes da Primeira Guerra Mundial, investia talvez 20 vezes mais, em termos relativos, e, apesar de todos os inconvenientes dos financiamentos da época, abria mercados para as exportações.[47] De acordo com a exposição de Rômulo Almeida, os Estados Unidos não cumpriram os compromissos da Carta de Punta del Este e, no que se referia à AID, os melhores termos dos empréstimos foram anulados pelos sobrecustos, resultantes das cláusulas de vinculação à compra de bens, serviços técnicos e fretes, com “notórios sobrepreços”.[48]

O fluxo de financiamentos dos Estados Unidos para o Brasil fora, efetivamente, menor do que o programado desde o lançamento da Aliança para o Progresso. E durante os três anos da administração de Castelo Branco, entre 1964 e 1966, enquanto recebeu apenas US$ 1,3 bilhão como empréstimos e investimentos diretos, o Brasil remeteu para o exterior, a título de amortizações, juros, lucros, dividendos e outros serviços, cerca de US$ 1,5 bilhão.[49] A expansão das empresas estrangeiras ocorreu, portanto, não devido à entrada maciça de novos investimentos, e sim com a aplicação de capitais acumulados internamente no Brasil. E muitos empresários começaram a protestar contra a desnacionalização da economia brasileira, com o apoio dos coronéis da linha dura.[50] A Câmara dos Deputados constituiu uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o problema e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo encaminhou-lhe um estudo, como subsídio, mostrando que “o investimento privado nacional tornou-se marginal no período de 1965/1966”.[51] A CPI concluiu, por fim, que “a entrada de capital estrangeiro, no período recente, apesar de ter ficado muito aquém do que seria necessário para apoiar nosso desenvolvimento, já foi suficiente para onerar muitíssimo nosso balanço de pagamentos”.[52] O serviço da dívida externa então absorvia mais de 30% de receita das exportações.

A Aliança para o Progresso, sem dúvida alguma, não alcançara os objetivos, nem econômicos nem sociais e políticos, a que Kennedy oficialmente se propusera quando a lançou em 1961. Nem favorecera maior desenvolvimento econômico nem contribuíra para a realização de reformas sociais e a consolidação de regimes democráticos. Muito menos concorrera para tornar os povos da América Latina mais simpáticos aos Estados Unidos. Pelo contrário, desde a assinatura da Carta de Punta del Este (1961), as políticas dos Estados Unidos não apenas engravesceram a situação econômica como fomentaram, direta ou indiretamente, as condições internas de instabilidade política na América Latina, ao apoiarem golpes de Estado e a implantação de regimes autoritários, que suprimiram os direitos democráticos e congelaram as reformas sociais. O Brasil somente não se viu mergulhado numa crise ainda mais profunda e, superando a recessão, não estagnou, porque as resistências nacionalistas, sobretudo de fortes setores do empresariado e das Forças Armadas, cujas frustrações os coronéis da linha dura à direita passaram a interpretar, impediram a administração de Castelo Branco de implementar até as últimas consequências o programa monetarista, com a privatização das empresas estatais, o que significava, naquelas circunstâncias, a transferência do seu controle para os cartéis internacionais e a completa abertura do mercado nacional à competição dos artigos estrangeiros. Àquele tempo, segundo semestre de 1966, o regime autoritário já alienara praticamente quase todo o suporte político interno, e o prestígio dos Estados Unidos, por se associarem à sua implantação e ao seu desempenho, alcançara o mais baixo nível de degradação perante a opinião popular no Brasil. O próprio Lacerda, que alimentara a esperança de tornar-se candidato à presidência da República, rompera publicamente com Castelo Branco e buscara entendimentos com os ex-presidentes Kubitschek e Goulart para formarem o que se tornou conhecido como Frente Ampla, de oposição ao regime autoritário. Sua retórica assumira então um tom francamente antiamericano, a ponto de confundir-se em vários aspectos com a da própria esquerda. Era, porém, a única maneira de salvar sua popularidade e sobreviver ao desgaste do governo que ele ajudara a instalar. Por outro lado, o Ato Institucional nº 2, embora momentaneamente contivesse a revolta da direita radical, não superara o descontentamento nas Forças Armadas, bastante agastadas com as diretrizes econômicas de Roberto Campos e Gouvêa de Bulhões. Em face de tais circunstâncias, como o Ato Institucional nº 2 bloqueara a possibilidade de alternância no poder e a sucessão de Castelo Branco por um civil, menos ainda, da oposição, o nome do general Artur da Costa e Silva, ministro da Guerra, consolidou-se como a única candidatura viável e capaz de conciliar a continuidade do regime autoritário e de suas políticas em favor do capital estrangeiro com as aspirações nacionais de desenvolvimento. A fim de manter a coesão do empresariado e conservar o apoio da direita nacionalista, que se expressava, confusamente, por intermédio dos coronéis da linha dura, Costa e Silva necessitava, portanto, apelar para o combate à recessão e a retomada da expansão industrial do Brasil, o que implicava certo distanciamento, sobretudo em política externa, das pautas dos Estados Unidos. Castelo Branco, embora se opusesse a sua candidatura, não teve força para evitá-la. Perdeu. E Costa e Silva se impôs como presidente do Brasil.

NOTAS DA PRIMEIRA PARTE:

1      Special National Intelligence Estimate nº 93-2-61 — Short-Term Prospects for Brazil under Goulart, cit.

2      Ib.

3      Ruth Leacock, “JFK, Business and Brazil”, Hispanic American Historical Review, 59(4), Nov. 1979, p. 636-673.

4      San Tiago Dantas, Política externa independente (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1962), p. 5.

5      Id., p. 77.

6      Id., p. 77.

7      Central Intelligence Agency, Subject: National Intelligence Estimate n. 93-2-63: Situation and Prospects in Brazil, 2/7/1963, secret, JFKL.

8      Ib.

9      Ib.

10    Ib.

11    Entrevista de João Goulart ao Autor, Punta del Este, 26/6/1976.

12    Hanson’s Latin American Letter, nº 881, Washington, 3/2/1962.

13    Exposição do ministro San Tiago Dantas aos chefes de missão dos Estados Americanos no Itamaraty, em 12/1/1962, in Ministério das Relações Exteriores, O Brasil em Punta del Este (VIII Reunião de Consulta de Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas) (Seção de Publicações, 1962), p. 32.

14    Ib., p. 32.

15    Ib., p. 33.

16    Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar).

17    Discurso de San Tiago Dantas na Câmara dos Deputados, Brasília, 7/2/1962, in Ministério das Relações Exteriores, op. cit., p. 73.

18    Ib., p. 73.

19    Exposição de San Tiago Dantas aos chefes de missão, ib.

20    Carta de John F. Kennedy a Goulart, Washington, Oct. 22, 1962, secret, DJG.

21    Ib.

22    Minuta manuscrita por Goulart, DJG.

23    Ib.

24    Ib.

25    Ib.

26    Hermes Lima, Travessia (Memórias) (Rio de Janeiro: José Olympio, 1974), p. 268-270.

27    Id., p. 268.

28    Sobre o assunto ver Moniz Bandeira, Brizola e o trabalhismo, cit., p. 63-67.

29    R. Leacock, doc. cit., p. 647-650.

30    Public Papers of the Presidents of the United States — John F. Kennedy, 1962 (Jan. 1 to Dec. 31, 1962) (U. S. Government Printing Office), p. 203.

31    Ib., p. 203.

32    Visit of President Goulart to Washington D.C., April, 1962, Background Paper — Foreign Policy of Brazil, confidential, PGV B-3/2, Mar. 27, 1962, JFKL.

33    Ib.

34    Memorandum for the President — Subject: Brasil. Briefing Book, A. Schlesinger Jr., Washington, Mar. 31, 1962, confidential, JFKL.

35    Ib.

36    Ib.

37    Ib.

38    Ib.

39    Ib.

40    O estado do Rio Grande do Sul decidira descontar as plantas doadas, a indenização do pessoal e os lucros ilegalmente remetidos para o exterior, reduzindo o valor de cerca de Cr$ 70 milhões (na moeda da época) para efeito de depósito prévio na Justiça.

41    R. Leacock, doc. cit., p. 649.

42    Ib., p. 640. Sobre o assunto, ver R. A. Dreyfuss, op. cit., p. 205-209. Moniz Bandeira, O governo João Goulart, cit., p. 64-76. J. K. Black, United States Penetration of Brazil, p. 82-86 e 98-100.

43     Philip Agee, Dentro da “Companhia” — Diário da CIA (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975), p. 285.

44    Entrevista do embaixador Gordon a Roberto Garcia, Veja, São Paulo, 9/3/1977, p. 6.

45    U.S. Congress, Senate, Hearings Before the Select Committee to Study Governmental Operations with Respect to Intelligence Activities (Covert Action), cit., p. 9 e 156.

46    Entrevista de Renato Archer ao Autor, 1971.

47    Os números exatos foram extraídos dos Anuários Estatísticos do Brasil 1961, 1963 e 1964, IBGE, p. 52, 38 e 48. A imprensa, na época, falou de um número entre 5.000 e 6.000 pedidos de vistos oficiais, sendo a informação originária do Itamaraty e do Exército.

48    Esse fato depois foi também confirmado, em entrevista ao Autor, por João Goulart, Amaury Silva, na época ministro do Trabalho, pelo jornalista Samuel Wainer e por Afonso Arinos, que, em 1962, chefiou a Missão do Brasil na ONU. Mais detalhes em Moniz Bandeira, O governo João Goulart, cit., p. 136-139 e 181, e Presença dos Estados Unidos no Brasil, cit., p. 446-449.

49    Tad Szulc, “Exportação da revolução cubana”, in Cuba e os Estados Unidos, John Plank (ed.) (Rio de Janeiro: Ed. O Cruzeiro, 1968), p. 91.

50    Depoimento de Edward Korry, ex-embaixador dos Estados Unidos no Chile durante o governo de Salvador Allende, perante o Senado norte-americano, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14/2/1977.

51    R. Leacock, doc. cit., p. 654. O estudo de Ruth Leacock é um dos mais elucidativos sobre as relações entre o governo de Kennedy e o de Goulart.

52    Id., ib., p. 655.

53    Ib., p. 656.

54    Ib., p. 656.

55    Ib., p. 657.

56    Entrevista de Lincoln Gordon a Roberto Garcia, Veja, São Paulo, 9/3/1977.

57    Um dos mais beneficiados foi Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara.

58    Public Papers… John F. Kennedy, cit., p. 871. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13/2/1962. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 14/2/1962.

59    Memorandum of Conversation, Dec. 13, 1962, NLK-76-96 § 2, JFKL.

60    Ib.

61    Gordon ao Departamento de Estado, Rio de Janeiro, 19/12/1962, secreto, JFKL. Entrevista de Goulart ao Autor, Punta del Este, 24/6/1976.

62    Ib.

63    A nota foi distribuída pelo embaixador Roberto Campos, em Washington, e, simultaneamente, pelo Itamaraty. Jornal do Brasil, 24/1/1963.

64    Memorandum of Conversation, Feb. 7, p. l, encl. 5, Airgram A 918, 8/2/1963, Ralph V. Korp, Financial Attache, AID (US) Braz. JFKL. Essas conversações, das quais há cinco memoranda, realizaram-se entre 3 e 8 de fevereiro de 1963.

65    Central Intelligence Agency, NIE 93-3-63: Situation and Prospects in Brazil, secret, JFKL.

66    Ib.

67    Department of State, “Dificulties Confronting Brazil’s Finance Minister San Tiago Dantas”, confidential, NKL-75-48, JFKL.

68    Carta de Kennedy a Goulart, Washington, 20/5/1963, secret, DJG.

69    Ib.

70    Telegram, Information Report, Central Intelligence Agency, 15/3/1963, JFKL.

71    Telegram, Information Report, Central Intelligence Agency, 30/4/1963, JFKL. Nesse telegrama, o agente da CIA anunciava que o general Olympio Mourão Filho, então comandante da Segunda Região Militar, preparava-se para deflagrar uma revolta contra Goulart em 15 de maio daquele ano, ao mesmo tempo em que comentava a existência de vários grupos que também conspiravam. Há vários telegramas na JFKL sobre o mesmo assunto, datados da mesma época.

72    P. Malan, op. cit., p. 103.

73    Carta de Kennedy a Goulart, Washington, 10/7/1963 (tradução não oficial), e carta de Goulart a Kennedy, Brasília, 27/7/1963, DJG.

74    Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 30/6-1º/7/1963. Entrevista de Waldir Pires, que fora consultor-geral da República, ao Autor, em 1972.

75    Ib.

76    Entrevista de Carvalho Pinto ao Autor, São Paulo, 26/10/1976.

77    Exposição feita pelo ministro Carvalho Pinto ao presidente João Goulart em reunião ministerial de 4 de julho de 1963 (Ministério da Fazenda, 1963), p. 14-15, ACP.

78    Entrevista de Carvalho Pinto ao Autor, cit.

79    Central Intelligence Agency, NIE 93-2-63: Situation and Prospects in Brazil, 2/7/1963, JFKL.

80    Ib.

81    Ib.

82    Ib.

83    Ib.

84    Ib.

85    Ib.

86    Ib.

87    O Estado de S. Paulo, São Paulo, 24/9/1963, p. 6, e 29/9/1963, p. 5.

88    José Stacchini, Março 64: mobilização da audácia (São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1965), p. 66.

89    Entrevista de Goulart ao Autor, cit. integral do Decreto em O Estado de S. Paulo, São Paulo, 1º/9/1963.

90    R. Leacock, doc. cit., p. 666-667.

91    Telegrama nº 345, de Gordon ao Departamento de Estado, 17/8/1963, 2 p.m. (Section One of Two), Ken NSF Co Brazil 8/21/63 — 8/311, JFKL.

92    Entrevista de Goulart ao Autor, Punta del Este, 3/6/1976.

93    Parecer do general Dantas Ribeiro, ministro da Guerra, encaminhando o relatório do general Paulo F. Torres, presidente do Inquérito Policial-Militar, à Justiça Militar, DJG.

94    Entrevistas de Renato Archer ao Autor, Rio de Janeiro, 7/3/1977 e 19/7/1977.

95    Ib.

96    Entrevista de Amaury Silva ao Autor, Curitiba, 2/6/1977 e 3/6/1977. Entrevista de Samuel Wainer ao Autor, São Paulo, 17/6/1977.

97    Entrevista de Goulart ao Autor, cit.

98    Ordens dos chefes de Estado-Maior Conjunto (JCS) ao comandante em chefe da Esquadra do Atlântico (CINCLANFLT) 26.24-312046Z; ao chefe do Estado-Maior da Aeronáutica (CSAF) e ao chefe do Estado-Maior do Exército (CSA), Contingency Plan 2-61, 31/3/1964, a) contra-almirante L. A. Bryan, LBJL.

99    Ordem dos chefes do Estado-Maior Conjunto ao Comando da Zona do Panamá (CINCSO) e ao Comando das Forças Armadas de Ataque (CINCSTRIKE), 311907Z-Março, contra-almirante J. L. Chew, vice-diretor de Operações, LBJL. Os documentos sobre a Operação Brother Sam foram reproduzidos por Marcos Sá Correia, 1964 visto e comentado pela Casa Branca (Porto Alegre: L&PM), p. 30-41. Outros detalhes in Phyllis R. Parker, 1964 — O papel dos Estados Unidos no golpe de Estado de 31 de março (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977), p. 103-106.

100  “As confissões de Lacerda”, Jornal da Tarde, São Paulo, 6/6/1977, p. 20.

NOTAS DA SEGUNDA PARTE:

1      Gordon Connell-Smith, Los Estados Unidos y la América Latina (México: Fondo de Cultura Económica, 1977), p. 270.

2      Entrevista de Lincoln Gordon ao Autor, Washington, set. 1977. Ver também P. R. Parker, op. cit., p. 105, 111-115.

3      Telegrama in Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 2/4/1964, p. 8.

4      Ronald M. Schneider, The Political System of Brazil — Emergence of a “Modernizing” Regime — 1964-1970 (Nova York/Londres: Columbia University Press, 1971), p. 124.

5      Luís Viana Filho, O governo Castelo Branco, 2ª ed. (Rio de Janeiro: José Olympio, 1975), p. 46-59.

6      Alfred Stepan, The Military in Politics — Changing Patterns in Brazil (Princeton, Nova Jersey: Princeton University Press, 1971), p. 129.

7      Id., p. 129.

8      Id., p. 129.

9      Entrevista de Juracy Magalhães, quando ministro da Justiça de Castelo Branco, justificando o Ato Institucional nº 2, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 5/11/1965, última página.

10    Discurso de Castelo Branco no Palácio Itamaraty, por ocasião da entrega de diplomas aos candidatos aprovados para a carreira de diplomata, em 31/7/1964, in Ministério das Relações Exteriores, A política exterior da revolução brasileira (Discursos) (Seção de Publicações, 1968), p. 12-13.

11    Id., p. 16.

12    Id., p. 17.

13    Id., p. 17.

14    Id., p. 20.

15    Id., p. 19-20.

16    Id., p. 13-14.

17    Entrevista de Roberto Campos ao Autor, Brasília, 12/1/1988. L. Viana Filho, op. cit., p. 441-444.

18    Entrevista de Roberto Campos ao Autor, cit. Id., ib., p. 434-436.

19    Entrevista de Roberto Campos ao Autor, cit.

20    Apud L. Viana Filho, op. cit., p. 447.

21    Id., p. 447-450. General Carlos Meira Matos, Brasil — Geopolítica e destino (Rio de Janeiro: José Olympio, 1975), p. 94.

22    Juracy Magalhães, Minha experiência diplomática (Rio de Janeiro: José Olympio, 1971), p. 275. Id., Minhas memórias provisórias (depoimento prestado ao CPDOC), Alzira Alves de Abreu (coord.) (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982), p. 176-177.

23    A. A. de Melo Franco, op. cit., p. 188. Sobre a política externa interdependente, ver Hans-Jürgen Brummel, Brasilien zwischen Abhängigkeit, Autonomie und lmperialismus (Die Grundlinien der brasilianischen Aussenpolitik (1964-1978) unter besonderer Berück-sichtigung der Beziehungen zu Lateinamerika (Frankfurt/Main: Haag und Herchen, 1980), p. 92-102.

24    J. K. Black, United States Penetration of Brazil, cit., p. 49-53.

25    U.S. Senate — United States Policies and Programs in Brazil — Hearings before the Subcommittee on Western Hemisphere Affairs of the Committee on Foreign Relations (Washington: U.S. Government Printing Office, 1971), p. 146-156.

26    Id., p. 277-278.

27    Id., p. 275-276.

28    Apud Nelson Werneck Sodré, A história da imprensa no Brasil (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966), p. 501. O nome oficial do Brasil, adotado desde a Proclamação da República, era Estados Unidos do Brasil. Posteriormente, Castelo Branco mudou-o para República Federativa do Brasil.

29    Entrevista de Lincoln Gordon a Elio Gaspari, Veja, São Paulo, 17/11/1971, p. 6.

30    Telegrama nº 1.716, Departamento de Estado à Embaixada Americana, 9/6/1964, 5,22 p.m., NSF Co. Brazil, 1 v. 4, LBJL.

31    Memorandum, E. G. Bowdler a Bundy, confidential, The White House, 27/10/1965, LBJL.

32    Id.

33    Apud L. Viana Filho, op. cit., p. 357.

34    Id., p. 360.

35    Id., p. 343-344.

36    Cf. P. R. Parker, op. cit., p. 109.

37    Georges-André Fiechter, O regime modernizador do Brasil, 1964-1972 (Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas), p. 102.

38    Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8/11/1966.

39    G. A. Fiechter, op. cit., p. 134.

40    Estatísticas históricas do Brasil — Séries Estatísticas Retrospectivas, v. 3, Séries Econômicas, Demográficas e Sociais — 1550-1985 (Rio de Janeiro: IBGE, 1987), p. 537-538.

41    Ramón Tamames, O Brasil e a integração econômica da América Latina (Buenos Aires: Instituto para la Integración de América Latina/ Banco Interamericano de Desarrollo, 1969), p. 367-368.

42    Id., p. 368.

43    Exposição de Rômulo Almeida, membro do Comitê dos Nove, à 4ª Reunião do Conselho Interamericano Econômico e Social, no nível ministerial, a propósito da Resolução contida no Doc. CIES/971 — CIES/1067, Buenos Aires, 1º-4-1966, DRA.

44    Id.

45    Id.

46    Id.

47    Id.

48    Id.

49    Estatísticas históricas do Brasil, cit., vol. 3, p. 537-538.

50    G. A. Fiechter, op. cit., p. 137.

51    Cf. Rubem Medina, Desnacionalização — Crime contra o Brasil? (Rio de Janeiro: Saga, 1970), p. 58.

52    Id., p. 45.

[ENTREVISTA] Comprovadas acusações feitas por Moniz Bandeira em 2016: Sobre a Lava-Jato e sua relação com os EUA.

Diálogos de Moro recém divulgados pelo STF comprovam as acusações de Moniz Bandeira em entrevista concedida ao jornalista Eduardo Miranda, originalmente publicada no Jornal do Brasil em 2016 :


“Moro e Janot atuam com os Estados Unidos contra o Brasil”

Respeitado pela vasta obra em que disseca o poderio dos Estados Unidos a partir do financiamento de guerras e da desestabilização de países, o cientista político brasileiro Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira afirma, em entrevista ao Jornal do Brasil, que representantes da Lava Jato, como o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o juiz de primeira instância Sérgio Moro, avançam nos prejuízos provocados ao país e à economia nacional. Segundo o professor, os “vínculos notórios” de Moro e Janot com instituições norte-americanas explicam a situação atual das empresas brasileiras.

“Os prejuízos que causaram e estão a causar à economia brasileira, paralisando a Petrobras, as empresas construtoras nacionais e toda a cadeia produtiva, ultrapassam, em uma escala imensurável, todos os prejuízos da corrupção que eles alegam combater. O que estão a fazer é desestruturar, paralisar e descapitalizar as empresas brasileiras, estatais e privadas, como a Odebrecht, que competem no mercado internacional, América do Sul e África”, argumenta Moniz Bandeira, que está lançando o livro A Desordem Mundial: O Espectro da Total Dominação.

Na entrevista a seguir, o cientista político, que é autor de mais de 20 obras sobre temas como geopolítica internacional, Estados Unidos, Brasil e América Latina, faz críticas severas ao presidente Michel Temer, que, segundo ele, “não governa”, mas segue apenas as coordenadas do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, “representante do sistema financeiro internacional”.

“Seu propósito é jogar o peso da crise sobre os assalariados, para atender à soi-disant, ‘confiança do mercado’, isto é, favorecer os rendimentos do capital financeiro, especulativo, investido no Brasil, e de uma ínfima camada da população – cerca de 46 bilionários e 10.300 multimilionários”, critica Moniz Bandeira.

Confira a entrevista com o cientista político: 

Jornal do Brasil – Um livro como Quem pagou a conta?, da historiadora britânica Frances Stonor Saunders, aponta a cultura como estratégia de dominação e força dos Estados Unidos em relação aos seus artistas e intelectuais e em relação a outros países durante a Guerra Fria. Essa dominação ainda se dá da mesma forma? Ela passou por novas configurações?

Moniz Bandeira – Sim, o inglês é a língua franca e os Estados Unidos ainda possuem o maior soft power. É através do controle dos meios de comunicação, das artes e da cultura que influenciam e dominam, virtualmente, quase todos os povos, sobretudo no Ocidente. E os recursos financeiros correm por diversas fontes. 

Jornal do Brasil – Como o senhor vê o modo como os EUA elegem seu presidente da República? É um método seguro? A Rússia chegou a anunciar que enviaria fiscais para acompanhar o processo de votação até a apuração do resultado.

Moniz Bandeira – Os grandes bancos e corporações, concentradas em Wall Street, são, geralmente, os grandes eleitores nos Estados. George W. Bush não foi de fato eleito, mas instalado no governo por um golpe do poder judiciário. Agora, porém, a tentativa de colocar na presidência dos Estados Unidos a candidata de Wall Street e do complexo industrial-militar, a democrata Hillary Clinton, falhou. Elegeu-se Donald Trump, um bilionário outsider, como franco repúdio ao establishment político, à continuidade da política de guerra, de agressão. Trump recebeu o apoio dos trabalhadores brancos, empobrecidos pela globalização, dos desempregados e outros segmentos da população descontentes com o status quo. E o fato foi que mais de 70 milhões de cidadãos americanos (59 milhões em favor de Trump e 13 milhões em favor Bernie Sanders, no Partido Democrata) votaram contra o establishment, contra uma elite política corrupta, e demandaram mudança.

Jornal do Brasil – De que modo os EUA participaram da destituição da presidente Dilma Rousseff? Essas intervenções se dão em que nível, quando comparadas às do período da ditadura militar no Brasil?

Moniz Bandeira – Conforme o historiador John Coatsworth contabilizou, entre 1898 e 1994, os Estados Unidos patrocinaram, na América Latina, 41 casos de “successful” de golpes de Estado para mudança de regime, o que equivale à derrubada de um governo a cada 28 meses, em um século.  Após a Revolução Cubana, os Estados Unidos, em apenas uma década, a partir de 1960, ajudaram a derrubar nove governos, cerca de um a cada três meses, mediante golpes militares, como no Brasil. Depois de 1994, outros métodos, que não militares, foram usados para destituir os governos de Honduras (2009) e Paraguai (2012). No Brasil, o impeachment da presidente Dilma Rousseff constituiu, obviamente, um golpe de Estado. Houve interesses estrangeiros, elite financeira internacional, aliados a setores do empresariado, com o objetivo de regime change (mudança de regime), através da mídia corporativa, com o apoio de vastas camadas das classes médias, abaladas com as denúncias de corrupção. 

Jornal do Brasil – E qual teria sido o papel norte-americano na destituição?

Moniz Bandeira – Há evidências, diretas e indiretas, de que os Estados Unidos influíram e encorajaram a lawfare, a guerra jurídica para promover a mudança do regime no Brasil. O juiz de primeira instância Sérgio Moro, condutor do processo contra a Petrobras e contra as grandes construtoras nacionais, preparou-se, em 2007, em cursos promovidos pelo Departamento de Estado. Em 2008, ele participou de um programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard, em conjunto com sua colega Gisele Lemke. E, em outubro de 2009, participou da conferência regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida no Rio de Janeiro pela Embaixada dos Estados Unidos. A Agência Nacional de Segurança (NSA), que monitorou as comunicações da Petrobras, descobriu a ocorrência de irregularidades e corrupção de alguns militantes do PT e, possivelmente, forneceu os dados sobre o doleiro Alberto Yousseff ao juiz Sérgio Moro, já treinado em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação, inclusive com demonstrações reais (como preparar testemunhas para delatar terceiros). 

Jornal do Brasil – O sr, cita também o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no desmantelamento de empresas brasileiras…

Moniz Bandeira – Rodrigo Janot foi a Washington, em fevereiro de 2015, apanhar informações contra a Petrobras, acompanhado por investigadores da força-tarefa responsável pela Operação Lava Jato, e lá se reuniu com o Departamento de Justiça, o diretor-geral do FBI, James Comey, e funcionários da Securities and Exchange Commission (SEC).  A quem serve o juiz Sérgio Moro, eleito pela revista Time um dos dez homens mais influentes do mundo? A que interesses servem com a Operação Lava-Jato? A quem serve o procurador-geral da República, Rodrigo Janot? Ambos atuaram e atuam com órgãos dos Estados Unidos, abertamente, contra as empresas brasileiras, atacando a indústria bélica nacional, inclusive a Eletronuclear, levando à prisão seu presidente, o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva. Os prejuízos que causaram e estão a causar à economia brasileira, paralisando a Petrobras, as empresas construtoras nacionais e toda a cadeia produtiva, ultrapassam, em uma escala imensurável, todos os prejuízos da corrupção que eles alegam combater. O que estão a fazer é desestruturar, paralisar e descapitalizar as empresas brasileiras, estatais e privadas, como a Odebrecht, que competem no mercado internacional, América do Sul e África.

Jornal do Brasil – Levando-se em consideração a destruição de empresas de infraestrutura no país, projetos para acabar com a exclusividade da Petrobras na exploração da commodity, o senhor acredita na tese de que o cérebro da Lava Jato está fora do país? Se sim, como se daria isso?

Moniz Bandeira – Não há cérebro. Há interesses estrangeiros e nacionais que convergem. Como apontei, os vínculos do juiz Sérgio Moro e do procurador-geral Rodrigo Janot com os Estados Unidos são notórios. E, desde 2002, existe um acordo informal de cooperação entre procuradores e polícias federais não só do Brasil, mas também de outros países, com o FBI, para investigar o crime organizado. E daí que, provavelmente, a informação através da espionagem eletrônica do NSA, sobre a corrupção por grupos organizados dentro da Petrobras, favorecendo políticos, chegou à Polícia Federal e ao juiz Sérgio Moro. A delação premiada é similar a um método fascista. Isso faz lembrar a Gestapo ou os processos de Moscou, ao tempo de Stálin, com acusações fabricadas pela GPU (serviço secreto). E é incrível que, no Brasil, um juiz determine, a polícia faça prisões arbitrárias, ilegais, sem que os indivíduos tenham culpa judicialmente comprovada, um procurador ameace processá-los se não delatarem supostos crimes de outrem, e assim, impondo o terror e medo, obtêm uma delação em troca de uma possível penalidade menor ou outro prêmio. Não entendo como se permitiu e se permite que a Polícia Federal, que reconhecidamente recebe recursos da CIA e da DEA, atue de tal maneira, ao arbítrio de um juiz de 1ª Instância ou de um procurador, que nenhuma autoridade pode ter fora de sua jurisdição, conluiados com a mídia corporativa, em busca de escândalos para atender aos seus interesses comerciais. A quem servem? Combater a corrupção é certo, mas o que estão a fazer é destruir a economia e a imagem do Brasil no exterior. E em meio à desestruturação da Petrobras, das empresas de construção e a cadeia produtiva de equipamentos, com o da “lawfare”, da guerra jurídica, com a cumplicidade da mídia e de um Congresso quase todo corrompido. O bando do PMDB-PSDB apossou-se do governo, com o programa previamente preparado para atender aos interesses do sistema financeiro, corporações internacionais e outros políticos estrangeiros.

Jornal do Brasil – O economista Bresser-Pereira, ex-ministro de FHC, afirma, na apresentação de A Desordem Mundial, que os EUA, segundo a tese do senhor, passaram por um processo de democracia para a oligarquia. Que paralelo se pode fazer com o Brasil nesse sentido, tomando como base as últimas três décadas? O sr. acredita que passamos brevemente por um momento de democracia e agora voltamos à ditadura do capital financeiro/oligarquia?

Moniz Bandeira – Michel Temer, que se assenhoreou da presidência da república, não governa. É um boneco de engonço. Quem dita o que ele deve fazer é o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, como representante do sistema financeiro internacional. E seu propósito é jogar o peso da crise sobre os assalariados, para atender à soi-disant, “confiança do mercado”, isto é, favorecer os rendimentos do capital financeiro, especulativo, investido no Brasil, e de uma ínfima camada da população – cerca de 46 bilionários e 10.300 multimilionários.

Jornal do Brasil – O senhor afirma que onde quer que os EUA entrem com o objetivo de estabelecer a democracia, eles entram na verdade por interesses políticos e econômicos. É esse o caso da aproximação dos norte-americanos com Cuba? Fidel Castro é um dos que compartilhavam dessa visão de interesse.

Moniz Bandeira – Sim, havia forte pressão de empresários americanos para o restabelecimento de relações com Cuba, por causa de seus interesses comerciais. Estavam a perder grandes oportunidades de negócios e investimentos devido ao embargo econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba desde fins de 1960, portanto mais de 50 anos, sem produzir a queda do regime instituído pela revolução comandada por Fidel Castro. Era um embargo de certa forma inócuo, uma vez que outros países, como o Brasil, estavam a investir e fazer negócios com Cuba. A construção do complexo-industrial de Mariel, pela Odebrecht, com equipamento produzidos pela indústria brasileira e o apoio do governo do presidente Lula, contribuíram, possivelmente, para a decisão do presidente Barack Obama de normalizar as relações Cuba. Essa Zona Especial de Desarrollo de Mariel (ZEDM), 45 quilômetros a oeste de Havana, tende a atrair investimentos estrangeiros, com fins de exportação, bem como opção para o transbordo de contêineres, a partir da ampliação do Canal do Panamá, ao permitir a atracagem dos grandes e modernos navios de transporte interoceânicos. Tenho um livro sobre as relações dos Estados Unidos com Cuba (De Martí a Fidel – A Revolução Cubana e a América Latina).

Jornal do Brasil – O processo de apoio financeiro de instituições políticas às religiões cristãs de direita, tal como o senhor descreve ao tratar do governo Bush, se assemelha de alguma forma ao contexto do Brasil, levando-se em conta o crescimento da bancada evangélica no Congresso Nacional e a conquista de cargos do Poder Executivo por representantes da Igreja?

Moniz Bandeira – Sim, o processo é secreto. Ocorre através de ONGs, muitas das quais são financiadas pela USAID, National Endowment for Democracy, conforme demonstro em A Segunda Guerra FriaA desordem mundial, bem como através de outras agências semi-oficiais e privadas. Essas igrejas também coletam muito dinheiro dos crentes, acumulam fortunas. E as bancadas de deputados recebem dinheiro de empresas não nacionais, mas de grandes empresas estrangeiras, muitas das quais apresentam no Brasil balanços com prejuízos, conquanto realizem seus lucros nas Bahamas e em outros paraísos fiscais. Tais empresas multinacionais não foram investigadas pelo juiz Sérgio Moro, o procurador-geral Rodrigo Janot e a força-tarefa da Operação Lava-Jato et caterva. A quem eles servem? Racine, o dramaturgo francês, escreveu que “não há segredo que o tempo não revele”. Não sabemos exatamente agora, porém podemos imaginar.

[MONIZ BANDEIRA] Sobre o início do movimento socialista no Brasil.

Trecho retirado da obra “O ano vermelho: A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil”, publicada em 1967, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira.


SITUAÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA NO FINAL DO PERÍODO COLONIAL E NO IMPÉRIO • ADEPTOS DE FOURIER E SAINT SIMON NO BRASIL • SOCIALISMO FRANCÊS E CRIAÇÃO DE FALANSTÉRIOS NO PARANÁ • LEVANTES NAS FAZENDAS E A LUTA PELA ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA • LEI ÁUREA E SUAS CONSEQUÊNCIAS ECONÔMICAS • SURTO INDUSTRIAL NO BRASIL • IMIGRAÇÃO DE EUROPEUS E FORMAÇÃO DA CLASSE OPERÁRIA • MARGINALIZAÇÃO DOS EX-ESCRAVOS:

A indústria no Brasil, durante o século XVII e o começo do século XVIII, constituía, virtualmente, parte superior da atividade agrícola, com a produção de açúcares, melaço, cachaça etc., derivados do cultivo da gramínea Saccharum nas regiões de massapê, sobremodo na Bahia e em Pernambuco. A economia do país, segundo Roberto Simonsen, superava a da Grã-Bretanha, e mais ainda a das treze colônias que formariam os Estados Unidos da América(1).

Começava, então, a surgir uma classe de ourives, fiadores de ouro, linhas de prata, seda, tecidos e algodões e também uma indústria siderúrgica e de construção naval, com estaleiros que fabricavam navios para Portugal. Em fins do século XVIII e princípios do século XIX, o Brasil podia extrair vários minérios, como cobre e platina, explorava salitre e produzia instrumentos de ferro e ourivesaria, tecidos de algodão, móveis, sapatos, cerâmica, assim como galeões de 700 e 800 t, caravelas, fragatas e outros barcos, em estaleiros da Bahia e do Rio de Janeiro. Mas não possuía carvão, o que obstaculizou, entre outros fatores, o desenvolvimento das pequenas forjas siderúrgicas.

Ademais, induzida, certamente, pelos interesses comerciais da Grã-Bretanha, a rainha de Portugal, Dona Maria I (1734-1816), alegou “o grande número de fábricas e manufaturas, que de alguns anos a esta parte se tem difundido em diferentes capitanias do Brasil, com grave prejuízo da cultura, e da lavoura” e ordenou, mediante alvará de 5 de janeiro de 1785, que fossem fechadas todas as oficinas, pequenas, médias ou grandes, de ouro, prata, sedas, algodão, linho e lã, os têxteis em geral, à exceção de tecidos grosseiros de algodão, como sacos para produtos agrícolas e/ou roupas para os escravos(2)

Após Dona Maria I mentalmente desequilibrar-se e ser declarada incapaz, seu filho, o príncipe Dom João (depois rei Dom João VI, 1767-1826), assumiu a regência em 1792 e, quando as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram Portugal, alternativa não teve senão transferir a corte para o Brasil, sob a proteção da Grã-Bretanha, a fim de não ser capturado, como foi Carlos IV, Rei de Espanha, e seu filho Fernando VII.

O príncipe regente chegara à Bahia em 22 de janeiro de 1808 e, seis dias depois, em 28 de janeiro, abriu os portos do Brasil, abolindo, ipso facto, o regime colonial, com uma tarifa de 24% ad valorem sobre as importações, com o fito de estimular e proteger a produção interna. Outrossim, pouco de um mês depois de desembarcar com a corte no Rio de Janeiro, derrogou, em 1° de abril de 1808, o alvará de 5 de janeiro de 1785, de sua mãe, Dona Maria I, e autorizou o estabelecimento “de todo o gênero de manufaturas, sem excetuar alguma, fazendo os seus trabalhos em pequeno, ou em grande, como entenderem que mais lhes convém”(3)

A Grã-Bretanha, embora não quisesse, teve de aceitar a abertura dos portos. Porém, uma vez que Dom João também não lhe concedera o monopólio de um porto exclusivo, o de Santa Catarina ou outro, como propusera na convenção secreta de 1807, sobre o traslado da corte para o Brasil, a Grã-Bretanha forçou a celebração de três tratados, entre os quais o de Comércio e Navegação, de 1810, que a privilegiou com uma tarifa de 15% ad valorem, tributo menor do que os 16% que Portugal usufruía, enquanto todas as outras nações pagariam direitos da ordem de 24%.

Esse Tratado de 1810, virtualmente, anulou a abertura dos portos ao desferir duro golpe não apenas sobre o comércio do Brasil como também sobre o esforço do príncipe regente Dom João para industrializar o país. A reação foi enorme, mas a Grã-Bretanha não concordou em revisar o Tratado e, derrotado Napoleão Bonaparte em 1814, Dom João, em 16 de dezembro de 1815, elevou o Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarves, a fim de lá permanecer com a Corte e contrapor-se à Grã-Bretanha.

Essa sugestão partiu de Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838), representante da França no Congresso de Viena, através do Conde de Palmela, Dom Pedro de Sousa Holstein, representante de Portugal. Posteriormente, em 1822, o príncipe Dom Pedro, como regente, defrontou-se com a pressão das cortes de Lisboa, que pretendiam restaurar o regime colonial após a revolução liberal de 1820 iniciada na cidade do Porto, e constatou que não lhe restava alternativa senão cortar os laços com Portugal. Herdou, porém, os tratados de 1810 e teve de renová-los, em 17 de agosto de 1827, como condição, exigida pela Grã-Bretanha para o reconhecimento da independência do Império do Brasil.

Quando o Tratado de Amizade, Navegação e Comércio de 1827, válido por 15 anos, expirou em 1842, o gabinete ministerial de Dom Pedro II recusou-se a renová-lo, não obstante toda a pressão da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e de outras potências com as quais o Brasil firmara acordos semelhantes. E, em 12 de agosto de 1844, o ministro da Fazenda, Manuel de Alves Branco (1797-1855), empreendeu radical mudança na política econômica do Brasil, que, até então, continuava a cobrar a tarifa de 15%, estabelecida pelo Tratado de 1810 e renovada pelo Tratado de 1827, para importação de calçados, têxteis, velas e outros produtos.

O processo de industrialização era ainda muito incipiente. Com o fito de aumentar a receita alfandegária e superar o déficit orçamentário, disponibilizando mais recursos ao governo, o ministro Manuel Alves Branco elevou as tarifas de cerca de 3.000 produtos importados, grande parte em 20% ou 30%, ou ainda mais altas, entre 40% e 60%, para mercadorias que o Brasil tinha condições de produzir.

A tarifa estabelecida pelo ministro da Fazenda, a revestir-se de caráter protecionista, possibilitou iniciativas de caráter industrial e reanimou a economia do país. O Brasil, a partir de então, passou a rejeitar a assinatura de novos tratados de comércio que entorpeciam os verdadeiros interesses nacionais, conforme declarou, em 1847, o 2° Barão de Cairu, Bento da Silva Lisboa, ministro dos Negócios Estrangeiros.

Cuidou de se desembaraçar os compromissos e os tratados que correspondiam às necessidades de desenvolvimento, quando já decrescia a influência dos barões do açúcar e ainda não se firmara o predomínio dos plantadores de café. Diante de tais atitudes do Brasil, rechaçar o novo tratado de comércio e instituir a Tarifa Alves Branco, a Grã-Bretanha duramente reagiu.

O Parlamento do Reino Unido, em 1845, aprovou o Slave Trade Suppression Act ou Bill Aberdeen, apresentado pelo ministro de Assuntos Estrangeiros, George Hamilton-Gordon, 4° Earl Aberdeen, autorizando a Armada Inglesa a inspecionar e apreender, no Atlântico, navios de quaisquer nacionalidades que estivessem a transportar escravos africanos, além de permiti-la julgar os comandantes. Era uma afronta à soberania nacional dos países.

De qualquer forma, assim sob pressão, o Brasil terminou por suspender o tráfico de escravos, ainda que oficialmente, com a aprovação da Lei Eusébio de Queirós, em 4 de setembro de 1850. Entretanto, nenhum tratado comercial voltou a assinar com a Grã-Bretanha ou qualquer outra potência, até o fim da Monarquia, em 15 de novembro de 1889.

O fim do Tratado de Amizade, Navegação e Comércio com a Grã-Bretanha, a Tarifa Alves Branco, ao implicar a proteção do mercado interno, e a suspensão oficial do tráfico de escravos possibilitaram que capitais, até então empregados no comércio da África, o mercado negreiro, passassem a ser aplicados em oficinas e fábricas para a produção de manufaturas, entre as quais artefatos de couro, sabão, papel e bens de consumo, antes importados.

A esse tempo, o Barão de Mauá, ao depois Visconde de Mauá, Irineu Evangelista de Souza (1813-1889), impulsou a industrialização do Brasil com grandes empreendimentos, entre os quais a Fundição e Estaleiros da Ponta d’Areia, em Niterói, que produziu, entre 1846 e 1877, cerca de 72 navios para transporte de cargas, cabotagem e, inclusive, navios de guerra, canhões, pontes, trilhos e outros artefatos de ferro. Outrossim, ademais de várias empresas, fundou o Banco Mauá, ligado à MacGregor & Cia, e espraiou suas sucursais aos países da Bacia do Prata – Argentina e Uruguai.

A partir de 1857, em meio a uma crise econômica internacional, a tarifa alfandegária, instituída pelo ministro Domingos Alves Branco, foi sucessivamente reduzida, primeiro por João Mauricio Wanderley (1815-1889), então secretário de Estado dos Negócios da Fazenda e Presidente do Tribunal do Tesouro Nacional, e, logo depois, por seu sucessor, no cargo, Bernardo de Sousa Franco (1805-1875). Tais decretos, ao permitir a entrada no mercado nacional de artigos de consumo, alimentos e manufaturas, sem maiores ônus tarifários, entorpeceram o processo de industrialização do país.

O colapso financeiro, que irrompeu na Europa e alcançou os Estados Unidos, em 1873, provocou longa recessão mundial, até 1878, pelo menos, e a Grã-Bretanha aproveitou-se das franquias alfandegárias e outras, que o Brasil teve de fazer, a fim de obter recursos, antes e durante a guerra contra o Paraguai (1864-1870), para atacar seu mercado interno. O primeiro a tombar, sob pressões e manobras da Casa Rothschild, foi o Banco Mauá. Sem contar com o apoio do governo, faliu, em 1878, juntamente com os estaleiros de Ponta da Areia e todas as demais empresas.

O surto industrial, que ocorrera, não gerou imediatamente significativo contingente operário. O trabalho ainda era exercido, sobretudo, por escravos de ganho e libertos. Entretanto, desde o início dos anos 1840, ideias utópicas, nem sempre claras, de socialismo, começaram a entrar no Brasil, procedentes da Europa, no estilo do que o economista francês Jerôme Blanqui (1798-1854) denominou de socialismo utópico, em 1839,(4) definição também adotada, posteriormente, por Friedrich Engels (1820-1895).

Segundo o jornalista Nereu Rangel Pestana, nesse mesmo ano, 1839, foi publicado, no Rio de Janeiro, o jornal O Socialista, com um apelo “para que se lançassem as bases de uma organização que estabelecesse a ‘cidadania universal’”, inspirado, quiçá, por imigrantes alemães.

Pouco depois, o médico homeopata Benoît-Jules Mure (1809-1858) e o engenheiro Louis Leger Vauthier (1815-1901), ambos franceses, tentaram empreender no Brasil algumas iniciativas de reforma da sociedade. Benoît-Jules Mure chegou ao Brasil em novembro de 1840, com 31 anos, e o imperador Dom Pedro II (1825-1891), recém-aclamado e coroado aos 14 anos (14 de julho de 1841) e a quem foi apresentado como representante oficial da Société Union Industrielle, fundada em Lyon, estava interessado na colonização e autorizou o governo conceder-lhe terras e financiamento para a realização de seu projeto de construir uma sociedade para as “classes sofredoras” da França (5).

Quem intermediou o encontro, aparentemente, foi o primeiro-ministro do Império (Ministério da Maioridade), Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845), que promovera o movimento para antecipar a maioridade de Dom Pedro II e que, em 7 de outubro de 1840, assinara com o francês Camille Trinocq, professor de história e geografia no Rio de Janeiro, um contrato de sociedade em comandita para a criação de uma colônia societária, nos moldes de um phalanstère – a Vila Andrada – na região do Rio das Pedras, província de São Paulo(6).

O governo imperial havia designado o sul do Brasil – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – para o povoamento com imigrantes oriundos da Europa, com o objetivo de colonizar e defender o território. E, em 1841, entraram os primeiros 117 colonos franceses para integrar a colônia societária, o falanstério que Benoît-Jules Mure projetava fundar entre os rios Saí-Guaçu e Saí-Mirim, na Península do Saí, próxima de São Francisco do Sul (Santa Catarina), cujos membros trabalhariam no que tivessem vocação e o que produzissem seria distribuído a cada família de acordo com suas necessidades(7)

Outras três levas de franceses aportaram no Rio de Janeiro e foram para Santa Catarina. Mas o falanstério, que chegara a ter mais ou menos 500 imigrantes franceses, cindiu-se, devido às divergências que tiveram Benoît Mure com Michel Marie Derrion (1803-1850)(8), desde que chegaram ao Brasil, e foi outro falanstério estabelecido em Palmital, distante algumas léguas de Saí(9) As experiências, porém, fracassaram. Benoît-Jules Mure, em Santa Catarina, permaneceu de janeiro de 1842 a setembro de 1843, quando regressou ao Rio de Janeiro. E Michel Marie Derrion defrontou-se com as intempéries da região e a falta de recursos, o que o levou a abandonar o falanstério e seus habitantes dispersaram-se.

Pouco tempo depois, 1847, outro médico, Jean Maurice Faivre (1795-1858), nascido em Jura, fronteira da França com a Suíça, e adepto das doutrinas socialistas de Fourier, Saint Simon e Robert Owen (1771-1858), inaugurou, entre os rios Ivaí e Ivaizinho, na região central da província do Paraná, uma espécie de falanstério com imigrantes europeus – 25 famílias, num total de 63 pessoas – e brasileiros, denominado Colônia Agrícola Tereza Cristina, nome da imperatriz, em virtude do apoio que recebeu do imperador Dom Pedro II, um homem aberto a esses experimentos, de modo a colonizar o país e substituir, gradativamente, a força de trabalho escrava pelo trabalho livre(10).

As terras, ao empreendimento, foram repartidas, os gastos do trabalho, bem como os lucros, seriam divididos, e a produção da colônia distribuída coletivamente. O naturalista francês Gustave Rumbelsperger (1814-1892), grande amigo de Dom Pedro II e do comandante (depois almirante) Luiz Felipe Saldanha da Gama (1846-1895), participou da fundação da Colônia Agrícola Tereza Cristina e passou a dirigi-la quando, em 1858, Jean Maurice Faivre faleceu, em consequência de estranha febre. A Colônia Agrícola Tereza Cristina ainda resistiu mais dez anos, porém, desvaneceu-se isolada, como todas as outras tentativas de construir uma utopia em terras brasileiras.

Outro adepto das ideias de Charles Fourier, Louis Leger Vauthier, contratado para a execução de obras públicas pelo governo de Pernambuco, trabalhou na cidade de Recife e lá se empenhou em difundir a doutrina do falanstério. Colaborou com Antônio Pedro Figueiredo (1814 ou 1822-1859), conhecido como Cousin Fusco, e ajudou-o a fundar a revista O Progresso, na qual propagou as ideias socialistas, importadas da Europa(11) Outrossim, em 1 de agosto de 1845, Manuel Gaspar de Siqueira Rêgo começou a editar, na cidade de Niterói, o jornal O Socialista da Província do Rio de Janeiro e, no editorial, explicou que

O vocábulo – Socialista – sob cuja denominação sai hoje à luz a nossa folha, define exuberantemente o objeto principal com que ela é publicada: a conservação e melhoramento do pouco de bom que existe entre nós; a extirpação de abusos e vícios provenientes da ignorância, falsa educação e imitação sem critério: a introdução de novidades no progresso universal: enfim, todo o aperfeiçoamento de que for suscetível a sociedade, provincial, nacional e universal, quer na parte moral, quer na material, em que naturalmente está dividida a vivenda humana no mundo terreno. Assim, pois O Socialista tratará de agronomia prática, economia social, didática jacotista,(12) política preventiva e medicina doméstica, e sobretudo do socialismo, ciência novamente explorada, da qual basta dizer que seu fim é ensinar aos homens a se amarem uns aos outros. […](13)

No número 26, publicado em 5 de outubro de 1845, O Socialista da Província do Rio de Janeiro publicou que “hoje o socialismo tende a associar os povos” e defendeu a organização de uma “liga americana que possa opor-se às exigências à mão exorbitante das potências europeias, que possa estabelecer uma justa reciprocidade”(14).

Adeptos de Fourier, tais como Benoît-Jules Mure, o ex-cônsul da Bélgica no Rio de Janeiro, Edmond Tiberghien, o médico homeopata João Vicente Martins e diversos intelectuais colaboraram em O Socialista da Província do Rio de Janeiro, que circulava três vezes por semana. Em agosto de 1847, sua publicação parou, certamente por falta de recursos financeiros.

Alguns anos depois, em 1855, o general José Ignácio de Abreu e Lima (1794-1869)(15), que participara da guerra de libertação da Grã-Colômbia (Colômbia e Venezuela) ao lado de Simon Bolívar, publicou um livro, intitulado O Socialismo, no qual iniciava dizendo que “o socialismo não he uma sciencia, nem uma doutrina, nem uma religião, nem uma seita, nem um systema, nem um principio, nem uma idéa: he mais do que tudo isto, porque he um designio da Providencia”(16).

Homem culto, Abreu e Lima conhecia as ideias dos pensadores bem como os sistemas socialistas, como o Phalanstère pretendido por Charles Fourier, a sociedade cooperativa de Robert Owen (1771-1858), de Claude Henri de Rouvroye de Saint-Simon (1760-1825), além da filosofia de Auguste Comte (1798-1857), mas nenhum especificamente adotou, muito menos o radicalismo de François Noël Babeuf, chamado de Gracchus Babeuf (1760-1797).

Gracchus Babeuf, durante a Revolução Francesa (1789-1799), organizou a Conjuration des Égaux, a primeira manifestação realmente política do comunismo na Europa(17). Denunciou a propriedade “individuelle” como “cause de l’esclavage” e defendeu “l’égalité parfaite” social, “l’égalité de biens et des travaux”(18). “Détruire cette inégalité et donc tâche d’un legislateus vertueux”, disse Babeuf, ao concluir que também “l’esclavage des nations est tout entière dans l’inégalité, et que, tant qu’elle existera, l’exercice de leurs droits sera à peu près illusoire[…]”(19).

A Conjuration des Égaux foi delatada em 1796, e Babeuf guilhotinado em 8 prairial, ano V (27 de maio de 1797), juntamente de Augustin Darthé(20). A esse movimento foi que Abreu e Lima referiu-se e rejeitou a sua própria identificação com o comunismo, “porque não somente ataca as gerarchias sociais, mas também a família e a propriedade, sem cujas bases seria impossível qualquer sociedade humana”(21). Para Abreu e Lima “a palavra socialista encerra em si uma missão divina, e a ninguém he lícito aviltal-a, prostituindo-a entre a escoria da espécie humana”(22).

Àquele tempo, meados do século XIX, o ideal socialista emigrou da França para o Brasil e influenciou intelectuais, mas a construção de falanstérios, empreendida por Benoît-Jules Mure, Michel-Marie Derrion, Jean Maurice Faivre e outros, não prosperou. Tendências anarquistas e outras socialistas começaram a difundir-se em conjunto de migrantes crescentes, chegando os estrangeiros a representar 3,8%, em uma população de 10 milhões de habitantes, dos quais 15,24% eram escravos, segundo o Censo de 1872(23).

E certa repercussão tiveram as notícias sobre insurreição dos trabalhadores e a instauração da commune implantada em Paris por anarquistas, socialistas e revolucionários de todas as nuances(24) após a derrota da França de Napoleão III (Charles-Louis Napoleon Bonaparte – 1808-1873), em Sedan, pelas tropas do Kanzler da Prússia, Otto von Bismarck (1815-1898), na guerra de 1870-1871.

Essa commune resistiu dois meses, de 18 de março a 28 de maio de 1871, mas foi esmagada pelas tropas de Adolphe Thiers (1797-1877), presidente de França, instalado em Versailles, que desencadeou feroz e sangrenta repressão, com execuções massivas e sumárias de milhares de revolucionários sem julgamento. Calcula-se o número de mortos entre 17.000 e 20.000 communards(25).

Os massacres em massa começaram em 5 de abril, durante a guerra civil, com o fuzilamento dos prisioneiros, em Versailles(26) e continuaram em Paris, até meados ou fins de junho de 1871, lotando os cemitérios de Père-La-Chaise, Montmartre, Montparnasse e outros, ademais da cremação de cadáveres putrefatos, tendo a repressão prosseguido, pelo menos até 1874, com os conselhos de guerra a condenar os communards à pena de morte ou à deportação(27).

O episódio da Comuna de Paris repercutiu na imprensa brasileira. Quando os soldados prussianos, enviados pelo Kanzler Otto von Bismarck para ajudar o esmagamento da Commune, entraram em Paris e ocuparam os Champs-Élysées, entre 1° e 3 de março de 1871, o Diário do Rio de Janeiro comentou que “pensávamos até aqui que o governo alemão, inspirado em sentimentos de moderação e de sensatez, se abstivesse de infligir ao povo francês a grave humilhação de ver desfilar pelos boulevards de Paris o Exército prussiano em marcha ostentosa de triunfo[…]”(28).

No Parlamento brasileiro, o deputado Theodoro Machado Freire Pereira da Silva (1832-1910) advertiu os colegas para o comunismo, que chamou de “cancro do mundo moderno”(29). Assim, referências às ideias de Karl Marx (1818-1883) começaram a aparecer na imprensa, como no jornal O Seis de Março, publicado em Recife, em 25 de março de 1872, sob a direção de Afonso d’Albuquerque Melo(30).

Àquele tempo, ao iniciar a década de 1870, a classe operária ainda não se formara no Brasil, um país que contava com 15,24% de escravos em uma população da ordem de 10 milhões de pessoas, das quais 3,8% eram imigrantes europeus, segundo um censo realizado em 1872(31). A abolição da escravatura era, portanto, o que a configurava como grave questão social. Porém, a estrutura econômica e social do Brasil estava, então, a mudar.

O café, cultivado em São Paulo, suplantava o açúcar e se consolidava como o principal produto de exportação do Brasil, absorvido, sobretudo, pelo mercado dos Estados Unidos, onde o povo o consumia em quantidade cada vez maior, como sucedâneo do chá, desde que foi estabelecido o aumento do imposto de circulação pelo Tea Act de 1773 e se iniciou a guerra revolucionária contra a Inglaterra (1775-1783). E para lá, América do Norte, emigraram, entre 1846 e 1875, cerca de 9 milhões de europeus, que passaram a beber mais e mais café na medida em que avançaram na conquista do oeste.

O café era, no entanto, um produto de elasticidade negativa (menos que 1%) e seus preços oscilavam, i.e., frequentemente se deterioravam e caiam, no mercado internacional. Daí que o fazendeiro, para enfrentar as crises, passou a investir também no comércio e na indústria. Muitos capitais fluíram das plantações de café para o estabelecimento ou associação com as fábricas de tecelagem, metalurgia, bens de consumo e outros manufaturados, que substituíssem as importações e permitissem o Brasil superar as dificuldades financeiras para saldar suas contas externas.

Contudo, segundo o professor Leôncio Martins Rodrigues, a implantação das primeiras fábricas, no Brasil, decorreu, “geralmente de iniciativa de imigrantes, grande parte dos recursos, tanto para sua instalação quanto para a posterior ampliação, veio de empréstimos externos”, mesmo quando a propriedade pertencia às famílias de imigrantes lá radicadas(32).

E, assim, começou a desenvolver-se um parque industrial nas cidades, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, bem como, consequentemente, uma classe operária, formada significativamente por imigrantes europeus. Também artesãos; agricultores, como Francisco Matarazzo, que chegou ao Brasil em 1881; e muitos outros levaram recursos e passaram a investir em oficinas e fábricas de bens de consumo, sobretudo tecidos e alimentos.

O fluxo de europeus – italianos, portugueses, espanhóis, alemães e outros – para o Brasil, com passagens subvencionadas pelo governo, recresceu na segunda metade do século XIX, devido à crescente escassez de força de trabalho, consequência dos escravos em cada vez menor número e mais caros, nas fazendas de café, no Vale da Paraíba e em São Paulo, e nos engenhos de açúcar do nordeste, resultante das dificuldades do tráfico, após o Bill Aberdeen e sua proibição oficial pelo governo brasileiro, em 1850.

Ao fim da década de 1880, os imigrantes respondiam por dois terços da produção de café e constituíam grande ou quiçá a maior parte dos trabalhadores de fábrica, no Rio de Janeiro e, principalmente, em São Paulo, onde os estrangeiros passaram a representar 90% da classe operária(33). Cerca de 735.076 europeus entraram no Brasil, ao longo dos anos 1890(34).

E, com a crescente oferta de força de trabalho, devido, outrossim, à entrada dos escravos libertos no mercado, a reduzir ao mínimo o custo de contratação, os salários, a questão social conformou-se e recrudesceu. A exploração da força de trabalho, inclusive de crianças e mulheres, tanto nas fazendas como nas fábricas, era brutal.

O déficit orçamentário para viver, de uma família operária com quatro membros, no Rio de Janeiro(35), era, no mínimo, de 7$000 (sete mil réis), em 1890, e estava a recrescer mais e mais, aumentando o excedente econômico das indústrias. E as fábricas geralmente funcionavam em galpões fechados, sob a vigilância de guardas armados, que revistavam os trabalhadores quando entravam e saíam do estabelecimento. A repressão era contínua e sistemática.

Os ideais socialistas ainda eram vagos e difusos, com predominância das tendências anarquistas e anarcossindicalistas – oriundas de Errico Malatesta (1853-1932), Mihail Aleksandrovitch Bakunin (1814-1876) e o príncipe Pyotr Alekseevič Kropotkin (1842-1921) –, que entraram no Brasil com imigrantes italianos, portugueses e espanhóis.

Diversos clubes socialistas surgiram de 1878 em diante, não mais inspirados pelo socialismo dos discípulos de Fourier, mas a espelhar, sem muita nitidez, as ideias divulgadas pelo Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Alemanha (Sozialdemokratische Arbeiterpartei Deutschlands, SDAP), fundado, em 1869, por Ferdinand August Bebel (1840-1913), Wilhelm Liebknecht (1826-1900) e Ferdinand Lassalle (1825-1864).

O aparecimento de jornais de militância social, embora de curta duração, consequentemente, aumentou, no Rio de Janeiro, São Paulo e nas mais diversas cidades do Brasil. Em 1875, circulou Gazeta dos Operários; em 1876, A Revolução Social; em 1877, A Barricada e O Proletário; em 1878, O Socialista; em 1881, A Barricada; em 1881-1882, O Carbonário e A Revolução; em 1882-1883, O Nihilista, que se declarava “órgão dos operários do Exército e da Armada”(36). Circulavam livremente, assim como os jornais republicanos, A República, órgão do Partido Republicano, e mais de vinte surgiram, a divulgar a mesma ideologia, entre 1870 e 1872(37).

As rebeliões de escravos nos engenhos de açúcar e nas fazendas de café estavam, então, a recrescer e se intensificaram, na década de 1880, com o encorajamento, muitas vezes, de estudantes, advogados, parcela da intelectualidade e das classes médias. Um jornalista, em 1882, escreveu que a abolição da escravatura devia ser feita imediatamente por decreto e acrescentou que restava saber “se esse Decreto será um acto do poder publico, sábio e fecundo; ou se será um Decreto do destino – revolucionário e violento”(38).

O temor de uma sublevação em massa dos escravos cada vez mais aumentava(39). Os escravos insurgiam-se, conquistavam a liberdade com as próprias mãos e os próprios pés. Somente no município de Campos (Estado do Rio de Janeiro), entre 11 de março e 5 de abril de 1888, cerca de 8.727 escravos rebelaram-se e fugiram(40). Muitas fazendas ficaram quase desertas.

Maltas de escravos africanos e fugitivos espalhavam-se pelas cidades, sem que a polícia nada pudesse fazer, ou agrupavam-se na Mata Atlântica, nos arredores da cidade do Rio de Janeiro. Outros, no interior da província, em Campos dos Goytacazes e adjacências, e no Nordeste, incendiavam canaviais e, em São Paulo, destruíam plantações de café e formavam quilombos no Vale da Ribeira, Cubatão e Jabaquara, em Santos.

Os confrontos com os senhores dos cafezais tornaram-se frequentes e cada vez mais graves nas regiões de Belém do Descalvado, Pirassununga, Rio Claro e Campinas(41). As punições e os maus-tratos, que os escravos sofriam, eram terríveis, insuportáveis, a tal ponto que, algumas vezes, revoltados, assassinaram fazendeiros e senhores de engenho.

No Engenho de Itatigui, os estrangularam, em 1878, Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, filho de marechal de campo Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, Barão de Cajahyba (1801-1870), senhor do Engenho de Cajahyba, em São Francisco do Conde, Recôncavo da Bahia(42). Os quilombos expandiam-se no Nordeste e na região centro-sul do país. A polícia não tinha meios de conter o crescente do alvoroto.

E os oficiais do Exército, através do Clube Militar, manifestaram-se recusando-se a perseguir os escravos fugitivos sob a alegação de que não eram “capitães do mato”. A abolição da escravatura tornara-se inevitável.

Com a Lei Áurea de 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel, como regente, reconheceu uma situação irreversível. Os negros ganharam a liberdade sem que os senhores recebessem indenização, o que levou grande parte dos fazendeiros, sobretudo em São Paulo, a adensar o movimento republicano. Os escravos eram para eles um patrimônio, uma propriedade e, como propriedade, era sagrada. Níccoló Machiavelli, em Il Principe, afirmou que “o homem esquece mais rapidamente a morte do pai que a perda do patrimônio”(43).

E a Princesa Isabel, como regente, alienou-lhes o patrimônio. Assim pensavam e ressentiam. A escravatura, porém, fora uma necessidade da economia agrícola, um modo de produção, que historicamente se esgotara, estava superado, anacrônico, sob o impacto do capitalismo em nova fase de evolução e expansão mundial. A força de trabalho devia tornar-se mercadoria. Milhares de escravos, que se haviam rebelado e fugido, já se espalhavam pelas cidades.

Afigurava uma sedição. Mas, com a abolição da escravatura, lançando à liberdade mais de 750.000 homens, i.e., quase um milhão de homens, no valor de 2 (dois) contos de réis cada um, desarticulou o modo de produção e a crise econômica e social ainda mais se agravou. À maior parte dos senhores de terra, sobretudo do Rio de Janeiro e do Nordeste, faltava o meio circulante para alugar a força de trabalho, de que necessitavam nas fazendas de café e nos engenhos de açúcar.

O trabalho com pagamento de grande número de ex-escravos, libertados para um novo tipo de escravidão, como assalariados, demandava maior oferta de meio circulante. E não havia. O desconforto e a insatisfação, destarte, aumentaram, a generalizar-se entre os membros da nobreza e da burguesia agrária, em todas as regiões do país.

No Recôncavo da Bahia, a Baronesa de Alenquer, proprietária de vários engenhos de açúcar em Santo Amaro, São Francisco do Conde e Cachoeira, observou, um ano após a abolição da escravatura, que “quanto ao nosso governo, e a miséria que estamos passando, é uma calamidade! Deus nos acuda! Só vejo todos se queixarem, há uma falta de dinheiro nunca vista”(44). E na mesma carta aduziu: “Desde que me entendo até hoje, nunca ouvi dizer que no Brasil se morresse de fome e, há um ano para cá, só é o que se ouve dizer. Que desgraça!”(45).

O Visconde de Ouro Preto (1836-1912), Afonso Celso de Assis Figueiredo, do Partido Liberal, ao assumir a presidência Conselho de Ministros do Império, em 7 de junho de 1889, e acumular, em seguida, a função de ministro da Fazenda, tentou superar a crise com a mudança da política econômica, até então baseada nos princípios ortodoxos. Logo, tomou uma série de medidas a fim de atender à necessidade de circulação monetária do capitalismo emergente, impulsionado pela cafeicultura de São Paulo, já em grande parte com trabalho assalariado, quanto pelo crescimento do parque industrial do Rio de Janeiro.

Verteu no mercado o triplo do capital em moeda metálica, elevou o câmbio ao par e facultou às empresas, com capital de 5.000 e 10.000 contos de réis, a emissão garantida. O Visconde de Ouro Preto baixou os juros, ao mesmo tempo em que aumentou as tarifas de importação, na base de 50% e 60%, para a proteção das indústrias(46), e não aceitou o tratado de livre comércio, proposto pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, James Gillespie Blaine.

A mudança da política econômica rapidamente produziu efeitos. A mesma Baronesa de Alenquer, em outra carta, datada de 14 de agosto de 1889, comentou que “o novo ministro [Visconde de Ouro Preto] tem já feito em benefício da lavoura […] e o banco [está] dando dinheiro a 6% ao ano e com o prazo de até 15 anos, conforme as quantias”(47).

Em 1888 ou 1891, o joalheiro italiano Arturo Campagnoli (1874-1944) desembarcou em São Paulo, e com os recursos que levou adquiriu alguns alqueires de terra em Guararema, região situada entre o Alto Tietê e o Vale do Paraíba. Lá, fundou uma comuna ácrata com a participação de outros companheiros italianos, bem como espanhóis, franceses, russos e até brasileiros(48).

Dom Pedro II, naquele ano, 1888, estava em Milão (Itália), e era um imperador que nunca vestiu uma farda. Intelectual e democrata, “inimigo pessoal do luxo”, e, como ressaltou o embaixador Manuel de Oliveira Lima (1861-1928), era “ainda menos disposto a encorajar os apetites de fortuna, que sentia serem latentes em torno de si”; preferia a companhia de escritores, como Victor Hugo e outros, “à dos arrivistas da riqueza e à das mediocridades sem requintes intelectuais”(49). Durante seu reinado, as liberdades nunca foram suprimidas – “não se podia sentir-lhe a falta”(50).

E, receptivo a ideias avançadas de organização social, atendeu, então, a uma carta do médico-veterinário italiano Giovanni Rossi (1856-1943). Ao chegar ao Brasil, concedeu-lhe 300 alqueires de terra para que concretizasse o projeto de uma comunità anarchica sperimentale, uma espécie de socialismo agrário, libertário, pacífico e sem propriedade privada, em que tudo pertenceria a todos: homens, mulheres e filhos, uma comunidade poliândrica, em que até o amor seria livre(51).

Esse experimento seria na comarca de Palmeira, já habitada pelos russos-alemães do Volga, província do Paraná(52), vizinha de Santa Catarina, onde outrora os médicos franceses Benoît-Jules Mure e Jean Maurice Faivre tentaram construir colônias inspiradas por Charles Fourier. Mas as terras doadas pelo imperador Dom Pedro II, em 1888, somente começaram a ser ocupadas por Giovanni Rossi e os imigrantes italianos, em 1890, pouco depois do coup d’État que instaurou a República.

A Colônia Cecília, como se denominou a comunità anarchica, chegou a ter 250 habitantes, porém não durou mais do que quatro anos. Desintegrou-se, gradativamente, devido a vários fatores, inclusive porque Giovanni Rossi havia recusado, como anarquista, a receber o título de propriedade e a legalizá-la(53).

Daí que, após a proclamação da República, Américo Pereira Leite Lobo (1841-1903), nomeado presidente da província do Paraná, não reconheceu a doação, ameaçou prender Giovanni Rossi e aos demais habitantes da Colônia Cecília, ademais de exigir o pagamento das terras e de impostos. A Colônia Cecília, criticada como ilusão utópica até pelo anarquista italiano Errico Malatesta e pelo socialista Filippo Turati (1857-1932),(54) sucumbiu em 1894.

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NOTAS

1. Roberto C. Simonsen, 1939, pp. 9-10; J.M. Pereira da Silva J. M., Garnier, 1864, p. 246.

2. Heitor Ferreira Lima, 176, pp. 40-47, 64-66; <http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=978&sid=107&gt;; <http://revistapesquisa.fapesp.br/2011/11/30/por-mares-sempre-navegados/>

3. <http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=979&sid=107&gt;.

4. G. D. H. Cole, 1957, p. 12

5. Lilian Fávero Remuszka, 1910, pp. 54-56.

6. Laurent Vidal, 2014, pp. 48-49, 82.

7. Isadora Tavares Maleval, dez./2011, pp. 150-177.

8. Michel Marie Derrion era, em Lyon, fabricante de estofos de seda e adepto das ideias de Saint-Simon, depois aderiu às de Charles Fourier e se juntou a Benoît Mure na fundação da colônia societária de Saí.

9. Ivone Gallo, jan.-jul./1990.

10. Jean Maurice Faivre assistiu à coroação de D. Pedro II, em 1849, ao casamento e acompanhou o nascimento de Dom Afonso Pedro (1845-1847), o primogênito do imperador, que morreu de epilepsia aos dois anos, e, na condição de médico, se tornou íntimo da família imperial. <http://www.webartigos.com/artigos/o-cooperativismo-em-suas-raizes-a-formacao-da-colonia-agricola-tereza-cristina-no-parana-do-seculo-xix/69459/>.

11. Era chamado de Cousin Fusco por ser mulato e haver traduzido Cours d’Histoire de la philosophie moderne, obra de Victor Cousin (1792-1867), educador francês, defensor do ecletismo filosófico.

12. Refere-se a Jean-Joseph Jacotot (1770-1840), professor de latim e grego e educador francês, que formulou o método pedagógico de emancipação intelectual (émanciper les intelligences), com base no postulado de que todas as inteligências são iguais (l’égalité des intelligences) e que toda criança poderia instruir-se por si só, sem o ensino de um mestre. Em 1823 publicou Enseignement universel. Esse método também fora adotado no falanstério de Saí por Benoît Mure. Laurent Vidal, 2014, p. 72.

13. O Socialista da Província do Rio de Janeiro, 1o de agosto de 1845 apud Ivone Gallo, 8 a 12 de setembro de 2008, CD-Rom.

14. O Socialista da Província do Rio de Janeiro, 5 de outubro de 1845. Ibidem.

15. O general José Ignácio de Abreu e Lima era filho do padre José Inácio Ribeiro de Abreu Lima, que largara a batina para se casar e, conhecido como Padre Roma, participou da sublevação de Pernambuco, em 1817, razão pela qual foi preso e, acusado de crime de lesa-majestade, condenado à morte por fuzilamento.

16. General José Ignácio de Abreu e Lima. 1979, p. 29. A transcrição mantém a ortografia original.

17. Análise da doutrina de Babeuf, dos manifestos e dos projetos de decretos vide: Ian H. Birchall., 2016, pp. 191-208; Rosa Luxemburg, 1973, Bd. 3, pp.178–186.

18. Philipe Buonarroti, 2015, pp. 80-83.

19. Ibidem, p. 81.

20. O babouvisme, tendência socialista revolucionária, inspirada por Gracchus Babeuf, reemergiu, em 1828, com a publicação, por Philippe Buonarroti (1761-1837), do Conspiration pour l’Égalité, dite de Babeuf, cujos métodos e ideais igualitários radicais muito influenciaram Louis-Auguste Blanqui (1805-1881), um dos líderes da revolução de 1848, na França, membro da Charbonnerie, sociedade secreta francesa à qual se vinculavam os Carbonari, da Itália. O Manifeste des Égaux foi escrito por Gracchus Barbeuf e Syvain Maréchal (1759-1803), o principal teórico da conjura contra o Directoire, o governo que se formou após a Revolução Francesa de 1789 e funcionou entre 26 outubro de 1795 (4 brumairean IV) a 9 novembro de 1799 (18 brumairean VIII), quando Napoleão Bonaparte (1769-1821) assumiu o poder com um golpe de Estado.

21. General José Ignácio de Abreu e Lima, 1979, p. 63.

22. Ibidem, p. 63. Mantida a ortografia original.

23. <http://www.brasil.gov.br/governo/2013/01/censo-de-1872-e-disponibilizado-ao-publico&gt;.

24. P. Luquet, s/d, pp. 30-32.

25. Prosper-Olivier, Lissagaray, 1995, pp. 282-289.

26. La Commune de Paris (Actes et Documents – Episodes de la semaine sanglante),1921, pp. 38-39.

27. Francisco Foot Hardman, 2002, pp. 327-329.

28. <http://outubrorevista.com.br/wp-content/uploads/2015/02/Revista-Outubro-Edic%CC%A7a%CC%83o-6-Artigo-09.pdf>; <https://www.scribd.com/document/251483757/A-Comuna-de-Paris-no-Brasil>.

29. Leandro Konder, 2010, pp. 118-119.

30. Vamireh Chacon, 1981, p. 168.

31. <http://www.brasil.gov.br/governo/2013/01/censo-de-1872-e-disponibilizado-ao-publico&gt;.

32. <http://static.scielo.org/scielobooks/5y76v/pdf/rodrigues-9788599662991.pdf>.

33. Sheldon Leslie Maran, 1979, pp. 15-16.

34. <http://www.revistas.usp.br/prolam/article/view/102283>.

35. <http://www.uff.br/geographia/ojs/index.php/geographia/article/viewArticle/54&gt;.

36. <https://pcb.org.br/fdr/index.php?option=com_content&view=article&id=209:a-imprensa-operaria-no-brasil-palestra-de-astrojildo-pereira&catid=1:historia-do-pcb&gt;.

37. Nelson Werneck Sodré, 1966, pp. 243-246.

38. <http://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/221753/000560432.pdf?sequence=3>.

39. Maria Helena Pereira Toledo Machado, 2010, pp. 80-81.

40. Celso Peçanha, 1969, p. 32.

41. Maria Helena Pereira Toledo Machado, 2010, p. 85.

42. Oswaldo Augusto Teixeira, 2011, pp. 239-240; Luiz Viana Filho, 1976, pp. 112-113.

43. “…gli uomini dimenticano piú presto la morte del padre che la perdita del patrimonio.” Niccoló Machiavelli, 1986, p. 130.

44. Carta de Francisca de Assis de Vianna Moniz Bandeira, Baronesa de Alenquer, ao seu filho Manuel Ignácio, Subaé, 2/5/1889. Arquivo do Autor.

45. Ibidem.

46. Pedro Calmon, 1961, p. 1816.

47. Carta de Francisca de Assis de Vianna Moniz Bandeira, Baronesa de Alenquer, ao seu filho Manuel Ignácio, Subaé, 14/8/1889. Arquivo do Autor.

48. Consta que a colônia teria existido até 1930. <http://bfscollezionidigitali.org/index.php/Detail/Object/Show/object_id/702&gt;.

49. Manuel de Oliveira Lima, 1944, p. 257.

50. Ibidem, p. 258.

51. Afonso Schmidt, 2015, pp. 14-15, 35-37; <http://www.sarapegbe.net/articolo.php?quale=112&tabella=articoli>.

52. Giovani Rossi havia fundado na Itália em Stagno Lombardo (Cremona) uma colônia libertária – Associazione Agricola Cooperativa di Cittadella – que fracassou após três anos de experiência, entre 1887 e 1890, antes de ir para o Brasil.

53. Afonso Schmidt, 2015, pp. 150-151.

54. <http://www.revistamorus.com.br/index.php/morus/article/viewFile/251/226>.

[MONIZ BANDEIRA] Nazi-fascismo: O fenômeno da “mutazione dello stato”, 2016.

Trecho retirado do livro “A desordem mundial”, publicado em 2016, e escrito pelo célebre historiador, cientista político, especialista em relações internacionais, e militante marxista, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira:


CAPÍTULO 1

  • NAZIFASCISMO • O FENÔMENO DA MUTAZIONE DELLO STATO • WALL STREET PLOT CONTRA O GOVERNO DE FRANKLIN D. ROOSEVELT EM 1933 • OS BIG BUSINESSMEN AMERICANOS, A FAMÍLIA DE PRESCOTT BUSH E A REMESSA DE RECURSOS PARA HITLER • A DENÚNCIA DO GENERAL SMEDLEY D. BUTLER • O COMPLÔ FASCISTA ABORTADO • OS DOCUMENTOS DO McCORMACK-DICKSTEIN COMMITTEE:

O nazifascismo não constituiu um fenômeno particular da Itália e da Alemanha, quando ameaçou e se estendeu, sob diferentes modalidades, a outros países da Europa, como Portugal e Espanha, entre os anos 1920 e a deflagração da Segunda Guerra Mundial (1939–1945).1 O que ocorreu nesses países foi uma espécie do que Niccolò Machiavelli (1469–1527) referiu como mutazione dello stato (mutatio rerum, commutatio rei publicae), quando a res publica, um Estado, sob o nome da liberdade, transmuda-se em Estado tirânico, com violência ou não.2 O fenômeno político denominado nazifascismo no século XX podia e pode ocorrer, nos Estados modernos, onde e quando a oligarquia e o capital financeiro não mais conseguem manter o equilíbrio da sociedade pelos meios normais de repressão, revestidos das formas clássicas da legalidade democrática, e assumir características e cores diferentes, conforme as condições específicas de tempo e de lugar. Porém sua essência permanece como um tipo peculiar de regime, que se ergue por cima da sociedade, alicerçado em sistema de atos de força, com a atrofia das liberdades civis e a institucionalização da contrarrevolução, tanto no plano doméstico quanto no plano internacional, mediante perpétua guerra, visando a implantar e/ou a manter uma ordem mundial subordinada aos seus princípios e interesses nacionais e favorável à sua segurança assim como à prosperidade nacional.

Durante a Grande Depressão, que se seguiu ao colapso da bolsa de Wall Street, em outubro de 1929, a Black Friday, alguns grupos financeiros e industriais — cerca de 24 das mais ricas e poderosas famílias dos Estados Unidos, entre as quais Morgan, Robert Sterling Clark, DuPont, Rockefeller, Mellon, J. Howard Pew e Joseph Newton Pew, da companhia Sun Oil, Remington, Anaconda, Bethlehem, Goodyear, Bird’s Eye, Maxwell House, Heinz Schol e Prescott Bush — conspiraram. Planejaram financiar e armar veteranos do Exército, sob o manto da American Legion, com a missão de marcharem sobre a Casa Branca, prender o presidente Franklin D. Roosevelt (1933–1945) e acabar com as políticas do New Deal.3 O objetivo consistia na implantação de uma ditadura fascista, inspirada no modelo da Itália e no que Hitler começava a construir na Alemanha.4

O Wall Street Plot, porém, abortou. O major-general (r) Smedley Darlington Butler (1881–1940), que os big businessmen tentaram cooptar, denunciou a conspiração, ao repórter Paul French, do Philadelphia Record e do New York Evening Post. E, em 20 de março de 1934, a House of Representatives adotou a Resolution 198, 73d Cong., proposta pelos deputados do Partido Democrata, John W. McCormack (Massachusetts) e Samuel Dickstein (Nova York), criando o Special Committee on Un-American Activities, Investigation of Nazi Propaganda Activities and Investigation of Certain Other Propaganda Activities United States Congress (HUAC).

Ao testemunhar perante o McCormack-Dickstein Committee, o major-general Smedley D. Butler, duas vezes condecorado com Medals of Honor por distintos atos de excepcional heroísmo, contou que o golpe fascista teria o suporte de um exército privado de 500 mil ex-soldados e outras pessoas, e fora delineado pelos empresários Gerard C. MacGuire (1897–1935), advogado da companhia de corretagem Grayson M-P. Murphy & Co., e William Doyle, antigo comandante da American Legion, uma das mais poderosas organizações fascistas dos Estados Unidos.5 Ofereceram-lhe, de início, US$ 100.000 para comandar o levante contra o presidente Roosevelt.6 Ele recusou. O tenente-coronel James E. Van Zandt, comandante da organização assistencial Veteran of Foreign Wars (VFW), confirmou que se recusou a participar do complô, assim como o capitão Samuel Glazier, do CCC Camp em Elkridge, Maryland. Este último contou ao McCormack-Dickstein Committee, sob juramento, que Jackson Martindell, conselheiro financeiro de Wall Street e ligado aos bancos de investimentos, convidou-o para treinar 500.000 soldados civis.7

Os documentos do inquérito realizado pelo McCormack-Dickstein Committee foram desclassificados,8 mas com vários trechos extensivamente apagados e o testemunho do general (r) Smedley D. Butler, em virtude de implicar no complô vários diretores de corporações financeiras e executivos de importantes grupos industriais, tais como, inter alia, Guaranty Trust, Grayson Murphy, JPMorgan, Irénée du Pont, da DuPont Company, e Lammot du Pont, proprietário da Remington Arms Co., fabricante de armamentos, que estava a investir pesadamente na Itália fascista e havia criado a Black Legion, espécie de Klux Klux Klan, e a American Liberty League, organizada em 1934, em oposição ao governo do presidente Franklin D. Roosevelt (1933–1945) e à política do New Deal.9

Houve um cover up a fim de resguardar a imagem dos Estados Unidos como democracia, o mito da “excepcionalidade”, o país onde nunca houve golpe de Estado.10 Ninguém foi processado. O McCormack-Dickstein Committee excluiu do relatório muitos dos nomes mais embaraçosos, apontados por Gerald MacGuire e confirmados pelo general Smedley D. Butler, entre os quais, posteriormente revelados, Alfred E. Smith (1873–1944), candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos em 1928; o general Hugh S. Johnson (1882–1942), chefe do National Recovery Administration; e o general Douglas MacArthur (1880–1964), chefe do Estado-Maior do Exército e provável comandante do assalto à Casa Branca,11 bem como vários outros militares, que estavam inteirados do complô.12 O presidente Roosevelt também não ordenou a prisão de nenhum businessman, como os citados Irénée du Pont, Lammot du Pont II, ou William Knudsen, presidente da General Motors, com receio de provocar novo crash em Wall Street e o engravecimento da depressão em que os Estados Unidos se atascavam desde 1929.13

A imprensa corporativa dos Estados Unidos igualmente não deu maior importância ao episódio. O jornalista George Seldes assinalou que, “of all the hypocrisies of American journalism the greatest is the claim of a free press”.14 Era um sistema de faturar lucros, que atacava os trabalhadores em nome da Free Enterprise. O historiador americano Henry B. Adams já havia observado, em meio à depressão causada pelo crash financeiro de 1893, nos Estados Unidos, que

The press is the hired agent of a monied system, and set up for no other purpose than to tell lies where its interests are involved. One can trust nobody and nothing. As far as my observation goes, society is today more rotten than at any time within my personal knowledge. The whole thing is one vast structure of debt and fraud.15

Os documentos do McCormack-Dickstein Committee, depositados no National Archive dos Estados Unidos, permaneceram secretos e somente foram totalmente desclassificados em 2001, quando dois velhos judeus-alemães, Kurt Julius Goldstein (1914–2007), então com 87 anos, e Peter Gingold (1916–2006), sobreviventes do Holocausto, iniciaram, nos Estados Unidos, um processo contra a família Bush, demandando US$ 40 bilhões pelo trabalho escravo que tiveram de realizar para as empresas do grupo Thyssen no campo de concentração de Auschwitz.16 A juíza Rosemary Mayers Collyer rejeitou o processo, com a especiosa alegação de que não podia dar-lhe continuidade, sob o princípio da “state sovereignty”, i.e., porque George W. Bush, neto de Prescott Bush, o sócio de Fritz Thyssen, era presidente dos Estados Unidos e, como tal, tinha imunidade. Depois, ela ganhou seu prêmio. O presidente George W. Bush nomeou-a juíza da Corte do Distrito de Columbia e da United States Foreign Intelligence Surveillance Court.

Não constituía novidade que a família Bush estivera envolvida com a lavagem e a remessa de dinheiro para os nazistas na Alemanha. Em 31 de julho de 1941, o New York Herald-Tribune17 havia noticiado que a Union Banking Corporation (UBC), da qual Prescott Bush era diretor, nos Estados Unidos, enviara, em 1933, US$ 3 milhões para o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP), chefiado por Adolf Hitler.18 Sidney Warburg, em Hitler’s Secret Backers, e Antony C. Sutton, em Wall Street and the Rise of Hitler, calcularam que a UBC, até 1933, remeteu para “nazi bigwigs”, na Alemanha, o total de US$ 32.000.000.19 E o diário britânico The Guardian, com a desclassificação dos documentos pelo National Archive, confirmou o envolvimento financeiro de Prescott Bush com os arquitetos do nazismo, na condição de diretor e acionista da UBC, que vinha a ser representante dos interesses de Fritz Thyssen em Nova York.20

De fato, Prescott Bush (1895–1972), pai do presidente Herbert Walker Bush (1989–1993) e avô do presidente George W. Bush, fora diretor da Union Banking Corp. (UBC), filial do Bank voor Handel en Scheepvaardt N.V., vinculada ao conglomerado United Steel Works (Vereinigte Stahlwerke [United Steel Works Corporation ou German Steel Trust]), e tanto o banco quanto a indústria de aço integravam o conglomerado de Fritz Thyssen (1873–1951) e de seu irmão, Heinrich Thyssen-Bornemisza (1875–1947), de acordo com o informe do Office of Alien Property Custodian, datado de 5 de outubro de 1942.21 Ademais, Prescott Bush participava da Consolidated Silesian Steel Company (CSSC), que explorava as reservas minerais da Silésia, na fronteira da Alemanha com a Polônia, e se valeu do trabalho escravo, em campos de concentração, inclusive Auschwitz. Entretanto, os documentos abertos ao público não deixam claro se Prescott Bush e a UBC ainda estavam ligados à CSSC em 1942, quando os acervos de Thyssen, nos Estados Unidos, foram capturados, após a declaração de guerra entre os dois países, em 11 de dezembro de 1941.22

Segundo Webster Griffin Tarpley e Anton Chaitkin, autores da biografia do ex-presidente George H. W. Bush, seu pai, Prescott Bush, como diretor das empresas da família, desempenhou papel central no financiamento e armamento de Hitler.23 Ele recebeu US$ 1,5 milhão por sua participação na UBC.24 Esse capital permitiu que seu filho, George H. W. Bush, montasse as firmas Bush-Overbey Oil Development Co. e a Zapata Petroleum, depois denominada Harbinger Group Inc., congregando várias companhias para exploração de petróleo no Golfo do México e offshore na ilha de Cuba. De acordo com um memorandum interno da CIA, datado de 29 de novembro de 1975, George H. W. Bush fundou a Zapata Petroleum com a colaboração de Thomas J. Devine, que abandonou seu cargo na alta direção da CIA para dedicar-se aos negócios privados, pois como oil wild-catting possuía vasto conhecimento da localização das grandes reservas de petróleo, em várias regiões.25

A simpatia pelo nazifascismo não esmoreceu, após o fracasso do complô contra a administração do presidente Franklin D. Roosevelt. Em Wall Street, sobretudo desde o início da década de 1930, o comunismo era temido, mas o fascismo, admirado como avant-garde.26 Por longo tempo, diversos banqueiros, tanto católicos como evangélicos, e até mesmo judeus, negociaram com o regime nazista e lhe concederam financiamento de cerca de US$ 7 bilhões, naquela década.27 Os banqueiros judeus justificaram, dizendo que o antissemitismo lhes parecia certo, sob o regime nazista, porque era contra os pobres, refugiados e trabalhadores.28 E, em 1936, dos 919 membros da diretoria do Stock Exchange 148 eram judeus (de acordo com o inventário de 1936 publicado pela revista Fortune).29 Com razão, o professor Gaetano Salvermini (1873–1957), da Universidade de Harvard, declarou ao repórter Joseph Philip crer que “quase 100% do American Big Business” simpatizavam com a filosofia por trás do totalitarismo de Hitler e Mussolini por seus métodos de coerção do trabalho.30

Os banqueiros Winthrop Aldrich, presidente do Chase National Bank, Nova York, e Henry Mann, do National City Bank, estiveram na Alemanha, onde se entrevistaram com Hitler, em agosto e setembro de 1933, e manifestaram ao embaixador dos Estados Unidos em Berlim (1933–1938), William E. Dodd (1869–1940), disposição de “work with him”,31 a despeito de suas ideias e seu antissemitismo. Segundo o historiador Arthur M. Schlesinger Jr., ex-assessor do presidente John F. Kennedy (1961–1963), o fascismo nos Estados Unidos não foi meramente uma enfermidade da classe média baixa.32 Ainda permaneceu enevoado e confuso, o sonho acalentado pelos big businessmen de Wall Street.33 Em 1934, William Randolph Hearst (1863–1951),34 um tycon da mídia, proprietário do San Francisco Examiner, The New York Journal e muitos outros diários (cerca de 28), revistas e cadeia de rádios, visitou Berlim, entrevistou-se com Hitler e, ao voltar aos Estados Unidos, escreveu que ele, o Führer, era “certainly an extraordinary man” e empenhou-se em fazer propaganda do regime nazista, como “great policy, the great achievement”, por haver salvado a Alemanha do comunismo.35

O embaixador dos Estados Unidos em Berlim, William E. Dodd, escreveu em seu diário, com data de 28 de novembro de 1935, que o empresário Thomas J. Watson (1874–1956), presidente e CEO da International Business Machines (IBM), cujo salário era de US$ 1.000 por dia, visitou-o e disse-lhe que “if the big business insists on defeating the democracy in the United States there will be a revolution which may lose business men all they have”.36 Entretanto, também a IBM, conhecida na Alemanha como Deutsche Hollerith Maschinen Gesellschaft, ou Dehomag, cooperava com o regime de Hitler. Ademais de outros equipamentos, forneceu-lhe, através de suas subsidiárias, máquinas que possibilitaram a matança de milhões de judeus, em Treblinka e em vários outros campos de concentração.37 Thomas J. Watson, o empresário que visitara o embaixador William E. Dodd, recebeu a Großkreuz des Deutschen Adlerordens [Grande Cruz da Ordem da Águia Alemã], porém a devolveu em 1940.38

Em 30 de dezembro de 1935, o major Truman Smith (1913–2007), attaché militar dos Estados Unidos em Berlim (1935–1939), informou ao embaixador William E. Dodd que a Alemanha era “one military camp”.39 Em fins de 1937, a Luftwaffe, a força aérea, possuía de 175 a 225 esquadrões de aparelhos de guerra, e Hitler, além de manter simultaneamente imenso exército, construía enorme frota de submarinos, prosseguia com o programa de desenvolvimento de foguetes e instalava numerosas indústrias têxteis e de gasolina sintética, de modo a lançar toda a sorte de projéteis.40 Em 1935, Douglas Miller, attaché commercial em exercício, previra também que “in two years Germany will be manufacturing oil and gas enough out of soft coal for a long war, the Standard Oil Company of New York furnishing millions of dollars to help”.41 Com efeito, desde 1933, a Standard Oil, da família Rockefeller, em colaboração com a I. G. Farben, esteve a gerar petróleo e produzir gasolina e borracha sintética para a Alemanha nazista, a partir de carvão betuminoso, hulha, mediante o processo de hidrogenação, o que possibilitou a Adolf Hitler deflagrar a Segunda Guerra Mundial, com a invasão da Polônia, em 1939.42 O quartel-geral da Standard Oil, na Suíça, funcionava independentemente por se tratar de um país neutro, e em 1942 a empresa pediu autorização para continuar a vender petróleo à Alemanha, desta vez, aquele que produzia nos campos que explorava na Romênia.43 E, no mesmo ano, sua subsidiária, a West India Oil Company, formada para refinar petróleo em Cuba e no Caribe, embarcou óleo para a Alemanha através da Cia. Argentina Comercial de Pesquería, de Buenos Aires.

Em 29 de agosto de 1936, o embaixador William E. Dodd, ao comentar que Hitler era “absolute master” de 60 milhões de pessoas na Alemanha e Benito Mussolini, “master” de 42 milhões na Itália, a levarem outros países no caminho da ditadura, anotou que nos Estados Unidos os “capitalists are pressing in the same Fascist direction, supported by capitalists in England”.44

Em carta ao presidente Roosevelt, o embaixador Dodd relatou:

At the present moment more than a hundred American corporations have subsidiaries here or cooperative understandings. The DuPonts have three allies in Germany that are aiding in the armament business. Their chief ally is the I. G. Farben Company, a part of the Government which gives 200,000 marks a year to one propaganda organization operating on American opinion. Standard Oil Company (New Jersey sub-company) sent US$ 2,000,000 here in December 1933 and has made US$ 500,000 a year helping Germans make Ersatz gas for war purposes; but Standard Oil cannot take any of its earnings out of the country except in goods. They do little of this, report their earnings at home, but do not explain the facts. The International Harvester Company president told me their business here, in Germany, rose 33% a year (arms manufacture, I believe), but they could take nothing out. Even our airplanes people have secret arrangement with Krupps. General Motor Company and Ford do enormous businesses [sic] here through their subsidiaries and take no profits out. I mention these facts because they complicate things and add to war dangers.45

Posteriormente, declarou à imprensa:

A clique of U.S. industrialists is hell-bent to bring a fascist state to supplant our democratic government and is working closely with the fascist regime in Germany and Italy. I have had plenty of opportunity in my post in Berlin to witness how close some of our American ruling families are to the Nazi regime. Certain American industrialists had a great deal to do with bringing fascist regimes into being in both Germany and Italy. They extended aid to help Fascism occupy the seat of power, and they are helping to keep it there.46

Grandes corporações dos Estados Unidos não somente se opuseram ao governo do presidente Roosevelt como ainda colaboraram, decisivamente, para a ascensão e consolidação da tirania de Adolf Hitler, da mesma forma que para o advento da tirania de Benito Mussolini. Diversas casas bancárias de Wall Street, entre as quais o Bank of America (Forbes), Dillon, Read & Co. Harris Bank, Morgan Bank, Guaranty Trust, e Chase Manhattan Bank, investiram na Alemanha e lucraram com o regime nazista, assim como as corporações Standard Oil (New Jersey), Du Pont, Dow Chemical, General Motors (GM), General Electric (A.E.G.), Vacuum Oil Company e Ford Motors Company. Henry Ford (1863–1947), autor do livro The International Jew: The World’s Problem (1920), começara, desde os anos 1920, a financiar o partido nazista, o NSDAP (National-Sozialist Deutschland Arbeit Partei), bem como enviar dinheiro pessoal — cerca de 10.000 ou 20.000 marcos (Reichmarks) — para Adolf Hitler, e o fez como presente de aniversário, todos os anos, no dia 20 de abril, até 1944, através de bancos da Suíça ou da Suécia.47 Os dois identificavam-se no ódio aos judeus. E, ao completar 75 anos, em 30 de julho de 1938, Henry Ford foi condecorado, em Cleveland, com a Großkreuz des Deutschen Adlerordens pelo embaixador da Alemanha nos Estados Unidos, Karl Kapp, assim como o haviam sido Benito Mussolini e Francisco Franco, ditador da Espanha.

Os investimentos das corporações dos Estados Unidos na Alemanha, durante o regime nazista, avultavam cerca de US$ 475 milhões, por ocasião do bombardeio de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941.48 O presidente Roosevelt, seis dias depois, reativou o Trading With the Enemies Act (TWEA), de 6 de outubro de 1917, e Washington, em 1942, determinou o fechamento e a captura dos acervos do Union Banking Corp., filial do Bank voor Handel en Scheepvaardt N.V., vinculada ao conglomerado United Steel Works (Vereinigte Stahlwerke [United Steel Works Corporation]). Porém, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), muitas corporações dos Estados Unidos, entre as quais a Mack Truck, Phillips Petroleum, Standard Oil of California e Firestone Tires, prosseguiram clandestinamente os negócios com o regime nazista, através de subsidiárias na Suíça e na Suécia. Outras, ainda, tais como a Ford, com 52% das ações da Ford-Werke, em Colônia, e a General Motors, proprietária da Adam Opel A.G, fabricante de caminhões, minas terrestres, detonadores de torpedos e foguetes balísticos, mantiveram suas filiais com instalações em Rüsselsheim (Hesse) e Brandenburg.49 Em 1944, a General Motors, na Suécia, ainda importava produtos da Alemanha.50 Hitler não havia confiscado nenhuma das subsidiárias das corporações americanas — Ford e GM — porém colocou, sistematicamente, todas sob a jurisdição do Reich, custodiadas como propriedades do inimigo.

Entrementes, o National City Bank e o Chase National Bank continuaram a manter conexões com o Bank für Internationalen Zahlungsausgleich (BIZ) ou Banco de Pagamentos Internacionais, que prosseguiu com suas operações em Basel, sob a lei de neutralidade, da Suíça, e intermediou negócios com os países do Eixo. Esse banco, presidido, entre 1940 e 1946, por Thomas H. McKittrick (1889–1970), cidadão americano, era, porém, controlado por próceres do regime nazista, entre os quais Walter Funk, ministro da Economia (1938–1945) e Emil Johann Rudolf Puhl, diretor e vice-presidente do Reichsbank da Alemanha. O BIZ aceitou, em 1944, a transferência do ouro que os nazistas saquearam dos judeus, de diversos países, exterminados nas câmaras de gás de Auschwitz, Majdanek, Treblinka, Belzec, Chelmno e Sobibor, por meio do tóxico Zyklon B, composto de ácido cianídrico, cloro e nitrogênio, fornecido pelo poderoso conglomerado da indústria química I. G. Farben.51 O ouro era fundido e marcado com data anterior à Segunda Guerra Mundial, a fim de disfarçar sua origem e ser usado pelos chefes nazistas, ante a perspectiva de derrota na guerra.

NOTAS

1.Luiz Alberto Moniz Bandeira, 1969, p. 7.

2.“[…] Mutazione che si fanno dalla vita libera a lla tirannica, e per contrario, alguna se ne faccia com sangue, alguna sanza […].” Niccoló Machiavelli, 2013, pp. 491–492; Hannah Arendt, 1965, pp. 35–36.

3.O New Deal, que o presidente Roosevelt promoveu a fim de recuperar os Estados Unidos da Grande Depressão, causada pelo crash de 1929, foi consubstanciado por uma política de reformas econômicas e sociais, com o fito de diminuir o desemprego e a pobreza e acabar com eles. Algumas de suas principais medidas foram o Social Security Act, o U.S. Housing Authority, o Farm Security Administration e o Fair Labor Standards Act, que fixou o máximo de horas de trabalho e o salário mínimo para a maior parte das categorias dos trabalhadores.

4.“McCormack-Dickstein Committee”. U.S. House of Representatives, Special Committee on Un-American Activities, Investigation of Nazi Propaganda Activities and Investigation of Certain Other Propaganda Activities United States Congress. Disponível em: <http://www.archives.gov/legislative/guide/house/chapter-22-select-propaganda.html>; Barbara Lamonica, “The Attempted Coup against FDR”. PROBE, março/abril de 1999 issue (vol. 6, n° 3). Disponível em: <http://www.ctka.net/pr399-fdr.html>; Arthur M. Schlesinger Jr., 2003, pp. 83–86.

5.George Seldes, Facts and Fascism. Nova York: In Fact Inc., 5th Edition, 1943, pp. 105–114; Denton, Sally. The Plots against the President — FDR, a Nation in Crisis, and the Rise of the American Right. Nova York: Bloomsbury Press, 2012, pp. 192–197.

6.Barbara Lamonica, “The Attempted Coup against FDR”. Probe, março-abril de 1999 issue (vol. 6, no. 3). Disponível em: <http://www.ctka.net/pr399-fdr.html>; Sally Denton, 2012, p. 54.

7.Katie L. Delacenserie, & (professor) James W. Oberly, & Eau Claire Wisconsin, “Wall Street’s Search for a Man on a White Horse: The Plot to Overthrow Franklin Delano Roosevelt”. For Presentation to History 489. University of Wisconsin-Eau Claire. Spring 2008, p. 29; “The Business Plot (Takeover of the White House) 1933”. 10 de janeiro de 2009. Disponível em: <http://www.abovetopsecret.com/forum/thread426623/pg1>.

8.“Investigation of un-American propaganda activities in the United States. Hearings before a Special Committee on Un-American Activities, House of Representatives, Seventy-fifth Congress, third session-Seventy-eighth Congress, second session, on H. Res. 282, to investigate (l) the extent, character, and objects of un-American propaganda activities in the United States; (2) the diffusion within the United States of subversive and un-American propaganda that is instigated from foreign countries or of a domestic origin and attacks the principle of the form of government as guaranteed by our Constitution; and (3) all other questions in relation thereto that would aid Congress in any necessary remedial legislation”. United States Congress House. Special Committee on Un-American Activities (1938–1944). Volume: Appendix pt.7. Washington, U.S. Govt. Printing Office. National Archive. Disponível em: <https://archive.org/stream/investigationofu07unit/investigationofu07unit_djvu.txt>.

9.Jules Archer, 2007, pp. 20–34.

10.Se nos Estados Unidos não ocorreram propriamente golpes militares, em virtude de suas tradições culturais e políticas, bem como do alto desenvolvimento do capitalismo, quatro presidentes foram assassinados, em consequência de conspirações para mudança de governo: Abraham Lincoln (1865), James Garfield (1881), William McKinley (1901) e John F. Kennedy (1963). Outros cinco sofreram atentados, mas escaparam com vida. Andrew Jackson (1835), Franklin D. Roosevelt, como presidente eleito (1933), Harry S. Truman (1950), Gerald Ford (1975) e Ronald Reagan (1981).

11.Sally Denton, 2012, pp. 1, 31–32, 191.

12.Clayton Cramer, “An American Coup d’État?” History Today, vol. 45, issue: 11, 1995. Disponível em: <http://www.historytoday.com/clayton-cramer/american-coup-detat>; “An attempted American coup d’État: 1934”. What Really Happened — The History the Government hopes you don’t learn. Disponível em: <http://whatreallyhappened.com/WRHARTICLES/coup.htmlDouglasa>.

13.Charles Higham, 1983, pp. 162–165.

14.George Seldes, 1943, pp. 244–245.

15. Letters of Henry Adams (1892–1918) — Edited by Worthington Chauncey Ford — Boston/Nova York: Houghton Mifflin Company, 1938, vol. II, p. 99. Disponível em: <http://archive.org/stream/lettersofhenryad008807mbp/lettersofhenryad008807mbp_djvu.txt>.

16.Ben Aris (Berli) & Duncan Campbell, (Washington), “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”. The Guardian, Saturday, 25 de setembro de 2004.

17.Fac-símile disponível em: <http://www.fleshingoutskullandbones.com/P.Bush-Union_Banking/NYTH.html#>.

18.Michael Kranish, “Prescott Bush & Nazis”, Boston Globe, 4 de julho de 2001. The Mail Archive, Disponível em: <https://www.mail-archive.com/ctrl%40listserv.aol.com/msg71122.htm>; Idem. “Powerful alliance aids ‘Bushes’ rise”. (Part One), Boston Globe, 22 de abril de 2001; Idem. “Triumph, troubles shape generations”. (Part Two), Boston Globe, 23 de abril de 2001; Bushology Interactive: 2000–2004 — The Bush dynasty. Disponível em: <http://www.moldea.com/bushology3.html>.

19.Sidney Warburg, 1995, pp. 14–16 e 44–47; Antony C. Sutton, 2011, pp. 25–30, 132.

20.Ben Aris, (Berlim) & Duncan Campbell (Washington), “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”. The Guardian, 25 de setembro de 2004; “Documents: Bush’s Grandfather Directed Bank Tied to Man Who Funded Hitler”, 17 de outubro de 2003. Associated Press. Disponível em: <http://www.foxnews.com/story/2003/10/17/documents-bush-grandfather-directed-bank-tied-to-man-who-funded-hitler/>.

21.“Documents: Bush’s Grandfather Directed Bank Tied to Man Who Funded Hitler”. 17 de outubro de 2003. Citado.

22.Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2004/sep/25/usa.secondworldwar/print>.

23.Webster Griffin Tarpley & Anton Chaitkin, 1982, pp. 28–34; Ben Aris, (Berlim) & Duncan Campbell (Washington), “How Bush’s grandfather helped Hitler’s rise to power”. The Guardian, 25 de setembro de 2004.

24.“Looking behind the Bushes — Great moments in a great American family”. The Progressive Review. An Online Journal of Alternative News & Information. Disponível em: <http://prorev.com/bush2.htm>.

25.Russ Baker & Jonathan Z. Larsen, “CIA Helped Bush Senior in Oil Venture”. Real News Project, 8 de janeiro de 2007. Disponível em: <http://www.ctka.net/zapata.html>.

26.Sally Denton, 2012, p. 54.

27.George Seldes, 1943, pp. 154–155.

28. Ibidem, p. 154.

29. Ibidem, p. 155.

30. Ibidem, p. 46.

31. William E Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, pp. 35 e 45.

32. Arthur M. Schlesinger Jr., 1960, p. 82.

33. Antony C. Sutton, 2002, pp. 167–172.

34. William Randolph Hearst foi interpretado por Orson Welles no filme Citizen Kane, produzido em 1941. Essa película, dirigida pelo próprio Welles, é considerada uma das obras-primas do cinema.

35. Ibidem, pp. 84–86.

36. William E. Dodd, Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, p. 288.

37. Edwin Black, “How IBM Helped Automate the Nazi Death Machine in Poland” Week of March 27-April 2, 2002 [Postado em 26 de março de 2002]. Disponível em: <http://emperors-clothes.com/analysis/ibm.htm>; Edwin Black é autor do livro IBM and the Holocaust: The Strategic Alliance between Nazi Germany and America’s Most Powerful Corporation.

38. Gesche Sager, “Henry Ford und die Nazis — Der Diktator von Detroit”. Spiegel Online, 29 de julho de 2008. Disponível em: <http://www.spiegel.de/einestages/henry-ford-und-die-nazis-a-947358.html>.

39. William E. Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, pp. 299–300.

40. Truman Smith, 1984, pp. 117, 143.

41. William E. Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), pp. 299–300.

42. Antony C. Sutton, 2002, pp. 67–76; Joseph Borkin, 1978, pp.76–94.

43. Charles Higham, 1983, pp. 54–55; George Seldes, 1943, pp. 252–253.

44. William E. Dodd Jr. & Martha Dodd (Editores), 1943, pp. 352–353.

45. “William E. Dodd to Franklin D. Roosevelt”. Franklin D. Roosevelt Presidential Library and Museum — Great Britain/German Diplomatic Files — Box 32 — Folder Titles List Dodd–>FDR 10/19/36. Germany: William E. Dodd: 1936–38 (i300) Index. Disponível em: <http://docs.fdrlibrary.marist.edu/psf/box32/a300l02.html>.

46. Dodd interview: Federated Press, January 7, 1938. Apud George Seldes, 1943, pp. 122–123; Sheldon Drobny, “Bob Novak Thinks Prescott Bush Was A Liberal”. Huffington Post, 27 de julho de 2007. Disponível em: <http://www.huffingtonpost.com/sheldon-drobny/bob-novak-thinks-prescott_b_58119.html>.

47. George Seldes, 1943, pp. 135–138; Gesche Sager, “Henry Ford und die Nazis — Der Diktator von Detroit”. Spiegel Online, 29 de julho de 2008. Disponível em: <http://www.spiegel.de/einestages/henry-ford-und-die-nazis-a-947358.html>.

48. Jacques R. Pauwels, “Profits über Alles! American Corporations and Hitler”. Global Research, 15 de maio de 2014 — Global Research, 8 de junho de 2004. Centre for Research on Globalization. Disponível em: <http://www.globalresearch.ca/profits-ber-alles-american-corporations-and-hitler/4607>.

49. Edwin Black, “The Nazi Party: General Motors & the Third Reich”. Jewish Virtual Library. American-Israeli Cooperative Enterprise. Disponível em: <http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/Holocaust/gm.html>; Jacques R. Pauwels, “Profits über Alles! American Corporations and Hitler”. Global Research, 15 de maio de 2014; Global Research, 8 de junho de 2004. Centre for Research on Globalization. Disponível em: <http://www.globalresearch.ca/profits-ber-alles-american-corporations-and-hitler/4607>.

50. Charles Higham, 1983, p. 176.

51. Joseph Borkin, 1978, pp. 121–123 e 205; Paul Joseph Watson, “Former Nazi Bank to Rule the Global Economy”. Prison Planet.com, 30 de abril de 2010/In Featured Stories, Old Infowars Posts Style. Disponível em: <http://www.infowars.com/former-nazi-bank-to-rule-the-global-economy/>.




[ARTIGO] Pequeno guia: Sobre como organizar movimentos de massa.

Artigo de Nelson, publicado originalmente no Medium, e cedido para a redação da Coisa Pública Brasileira. Esta versão sofreu atualizações e distingue-se da original, postada no dia 30 de março de 2020.


Introdução:

É preciso ter em mente que para organizar movimentos de massa, apesar de resguardadas as particularidades relativas ao contexto geográfico e histórico de cada lugar, certas características gerais se repetem:

1º: Pautas

Primeiro, é fundamental que tratemos de boas pautas. Isso pode parecer uma obviedade, é verdade. Mas afinal, o que seria uma boa pauta? Pautas não são boas ou ruins apenas por serem moralmente corretas ou não, mas sim por seu potencial de universalização dentro de determinada classe social.

Ou seja, por terem poder, ou não, de impactar positivamente na vida do maior número possível de pessoas. Por exemplo, se almejamos formar um movimento de massa dentro de um município, por óbvio que uma boa pauta é aquela capaz de impactar positivamente na vida da maior parte dos moradores que fazem parte da classe trabalhadora de tal cidade.

Tomemos como exemplo as grandes revoluções dos últimos séculos, a Francesa, a Russa, a Cubana, e a Chinesa. Mais do que dar fim a monarquias, batalhar contra o imperialismo e colonialismo, o que mobilizou respectivos povos, inicialmente, foram as boas pautas.

Exemplo:

Pão, terra, melhores condições de vida, direitos, e sobretudo a noção de fazer parte da construção de um futuro que valia a pena ser vivido.

Conclusão:

Cabe lembrar que, uma vez atraídos pelas boas pautas, o povo, começa a fazer parte e construir ativamente o projeto político gerado pela unidade de tais pautas. De forma que, mesmo que inicialmente sejam as boas pautas que atraem o povo ao movimento, no fim das contas, é a verdade do projeto que as faz permanecer.

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Foto de Sebastião Salgado. Luta pela Reforma Agrária, um exemplo de boa pauta em um país ruralizado dominado por senhores de terra.

2º: Projeto

Já sabemos que boas pautas são necessárias. Isso é bom. Mas não é tudo. Para além de boas pautas é importante que se tenha um esquema geral, que agregue tais pautas em um plano. Ou seja, um projeto. Isso não significa dizer que tal projeto deva estar pronto antes de tal movimento.

Na realidade isso quase nunca ocorre desta forma na prática. Para ser bem sincero, quando analisamos todos os movimentos de massa bem sucedidos dos últimos séculos, a maior verdade é que embora houvesse um plano e um esquema, tal projeto sempre acabou por evoluir e ficar mais elaborado, pronto, ao longo do processo.

Isso não significa dizer, que não devamos ter um projeto em mente quando pensamos em organizar um movimento. Mas sem mais delongas, o que seria tal “projeto”? Creio que um projeto, seja, na verdade, a unidade de todas as pautas, direcionadas a finalidades últimas que mirem em metas concretas.

Exemplo:

A Revolução Cubana tinha por finalidade derrubar o Tirano Fulgêncio Batista do poder, e para além disso, instituir um Estado-Nacional Cubano, que fosse capaz de prover boa qualidade de vida para tal povo, ao mesmo tempo em que superasse os efeitos do subdesenvolvimento da ilha caribenha.

Conclusão:

Portanto, o projeto esquemático inicial, básico, de tal movimento era a união de todas as boas pautas que remavam nesse sentido. Como falado acima, se torna evidente quando analisado o processo histórico cubano, que tal projeto evoluiu e se transformou ao longo do processo. Devemos, então, encarar o projeto como o esquema geral, o “universal” e cada pauta individual como parte, o “particular” deste. Ambos se relacionam, de forma a melhor se ajustarem ao longo de um processo revolucionário e de um movimento de massa.

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Foto de Domicio Pinheiro. Trabalhadores mobilizados na defesa das reformas de base. Um bom exemplo de “Projeto”.

3º: Propaganda

Ter boas pautas e um projeto, é bom e recomendável. Mas ambos não valem de nada se ninguém sequer toma consciência de que estes existem. A difusão destes, portanto, é a coluna central de qualquer movimento de massa, nesse sentido é importante dominar todas as formas possíveis da propaganda:

Jornais:

Jornais são, por excelência, meios de se transmitir informações. Para além da ingenuidade que prega a neutralidade, todo jornal segue uma linha editorial ideológica bem definida, relativa a, dentre outras coisas, interesses de classe.

Quando falamos em propaganda, é importante que tal movimento disponha não de um, mas de uma miríade de jornais, de forma a passar informações, sob determinado ponto de vista ao passo em que propagam a ideologia e visão de mundo do movimento, sobre determinados acontecimentos ou ocorridos.

É importante frisar, rádios voltaram a ser mais importantes do que nunca. Entre rádio e internet, como Facebook, Twitter e outras mídias, a opção por uma cadeia de rádios comunitárias é mais interessante. Tenhamos em mente que Facebook, Twitter e outras plataformas são geridas por interesses de classe, pois estes são, no fundo, empresas, e efetivamente agem, para interditar debates que atrapalhem suas finalidades.

Exemplo:

Os movimentos comunistas, em todas as épocas, sabem muito bem disso. Em todas as revoluções proletárias pelo mundo e períodos históricos, a prevalência de jornais anti-hegemônicos, bem como sua eficácia como método de propaganda foi devidamente comprovada com o “Pravda”, o “Granma” e outras mídias.

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Trabalhador cubano lendo o Granma. Bom exemplo de “Jornal contra-hegemônico”.

Livros:

Não menos importantes que os jornais, a literatura pode se mostrar um excelente veículo de propaganda. Seja na forma de livros teóricos, para expor sobre a ideologia, estratégia, metas e métodos de tal movimento, sejam os livros ficcionais que exprimem certa visão de mundo e nos levam a benditas reflexões, sejam os livros de poemas que nos fazem pensar e grudam em nossa memória, e até mesmo livros históricos e biográficos que demonstram certa personalidade heroica e determinados períodos históricos para causarem reflexões e comparações.

Não podemos desprezar a literatura como vetor de propaganda, isso pode se mostrar um erro atroz. É importante que um movimento de massa tenha entre seus intelectuais orgânicos, não um, mas uma penca de autores de livros dispostos a produzir conteúdo que entretenham, ensinem, e passem a visão de mundo de tal movimento.

Exemplo:

É importante recordar que, no advento da Revolução Francesa, a primeira revolução Burguesa da Europa, a prensa moderna havia acabado de ser inventada, de forma que os revolucionários da época difundiam seu pensamento não apenas em uma miríade de jornais, mas sobretudo livros.

Isso se torna notável quando observamos tanto o número de teóricos daquele período consagrados até hoje, bem como o número de obras ficcionais e de poesias que até os nossos dias são consideradas obras primas, e continuam a exprimir as mesmas reflexões e os mesmos pontos de vista, hoje, deslocados de seu contexto inicial.

O mesmo pode se dizer de todas as revoluções proletárias ocorridas no globo em séculos passados, a infinidade de livros teóricos, ficcionais e de poesia que exprimiam a visão marxista de mundo e da resolução de certos problemas de determinadas eras é incontável, bem como os gênios que os escreveram. Basta recordar, Lênin, Mao Zedong, o próprio Marx e outros autores, são lidos em todo o mundo, e com justiça, muito apreciados até os dias de hoje.

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Capa de “O Imperialismo, fase superior do capitalismo.” de Vladimir Lênin. Publicado pela editora anti-hegemônica Nova-Cultura. Um bom exemplo de literatura a serviço de movimentos de massa.

Artes:

Quem pensa que quadros, pinturas, arquitetura, música, teatro, cinema, e outras formas de arte não expressam determinada visão de mundo, classe, ou ideologia, certamente ainda engatinha em sua compreensão sobre o que é arte.

Um gênio alemão uma vez disse que a arte é materialização do espírito humano. Errado ele não estava. Se Hegel nos disse mais ou menos isso, é correto pensar que a arte é a materialização do espírito, ou seja consciência, de uma classe e de suas experiências e contradições materiais concretas durante a experiência do “ser” imerso na realidade.

Se como nos disse, mais ou menos, outro gênio alemão, Karl Marx, a ideia e o espírito são uma das mais nobres e elevadas formas da matéria, que dizer da arte? Esta cumpre todo o ciclo, experiência material concreta do “ser”, espírito, e novamente matéria? Uma síntese de toda a experiência do real vivida sob o ponto de vista de determinada classe.

Por óbvio que um movimento de massa deve contar com toda expressão artística que conseguir. Sobretudo em um país como o Brasil, em que ao longo de sua história a maior parte da população não esteve em escolas ou teve a oportunidade de cursar o ciclo de ensino formal, tendo as artes do povo e a cultura popular como fonte majoritária de ensino.

O Samba, a MPB, o Carnaval, o Teatro e o cinema, e as reflexões que estes trazem, devem importar muito àqueles que pretendem organizar um movimento de massa. Quem os negligenciar, fracassará.

Exemplo:

Um grande exemplo é o Samba de 2019, apresentado no carnaval carioca, da Mangueira, “História de ninar de gente grande”, feito sob uma perspectiva claramente Benjaminiana, tal hino preza por demonstrar a historiografia sob um ponto de vista da classe trabalhadora brasileira, e com isso, trazer reflexões sobre o momento histórico que vivemos.

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Desfile da Estação Primeira de Mangueira em 2019. Um bom exemplo das artes prestando um serviço a mobilização de movimentos de massa.

Estética:

Não entraremos aqui numa discussão profunda sobre o sexo dos anjos, isto é, sobre o que é a concepção filosófica da Estética. Ao invés disso, assumiremos que estética, no sentido deste “pequeno-guia”, se trata de uma espécie de assinatura visual, auditiva e de linguagem, referentes a materialidade e características centrais de tais movimentos, que facilmente remeta os receptores de tais mensagens ao movimento que as emite. Nesse sentido, a estética é uma parte importante da construção de um movimento de massa, dentro da área da propaganda.

Exemplo:

A foice e o martelo, eternizados pelo movimento comunista internacional desde a Revolução Bolchevique de 1917, ocorrida na Rússia, representa a aliança operário-camponesa, partes centrais de tal movimento de massa. Tal símbolo estético, de fácil compreensão, até os dias de hoje, é capas de agregar e mobilizar seus defensores, bem como amedrontar todos os seus detratores pelo globo.

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Conclusão:

A propaganda, em todas as suas facetas, é de extrema importância para a construção de qualquer movimento de massa ou movimento revolucionário. O segredo para o sucesso é que os intelectuais orgânicos da classe trabalhadora estejam presentes e dominem todos os ramos acima descritos. Não adianta ter Jornais e não dominar a Literatura, não adianta dominar Literatura, e negligenciar outras áreas da arte, não adianta dominar Jornais, dispondo de um bom número de Jornais anti-hegemônicos, fomentando o debate público, e não ter uma forte assinatura estética. Quanto maior for o número de bons Jornais, Livros, produção artística e inovações estéticas que captem os anseios da classe trabalhadora do nosso tempo, mais efetiva será a propaganda de tal movimento.

4º. Tática e Estratégia

Não é a intenção deste pequeno-guia elipsar a natureza real de movimentos políticos de massa. Estes se tratam em todas as sua facetas de Guerra Popular. Isso precisa ser bem compreendido. E nesse sentido, como em toda a guerra, tática e estratégia se tornam fundamentais quando estamos organizando um movimento de massa.

A relação entre tática e estratégia é algo muito debatido em manuais militares, desde o teórico chinês Sun Tzu, até o germânico Clausewitz, bem como em livros de xadrez e outros jogos milenares que simulam a arte da guerra.

Tal relação se dá no sentido de que a “tática” representa o “particular” imediato, enquanto a “estratégia” representa o “universal” de longo prazo. Ambos estão em uma relação que sempre se ajusta, e antes de ser algo fixo e imóvel, está em constante mudança, mesmo que a finalidade da linha geral a ser seguida permaneça a mesma.

Uma infinidade de táticas relativas as condições materiais e históricas respondem a um direcionamento final, a unidade de tais táticas, para se chegar a uma situação que leve ao objetivo final. Esta é a estratégia.

Enfim, a vitória, da mesma forma que tal direcionamento final, a “linha estratégica”, só se torna completa quando repleta de táticas particulares que permitam que tal linha estratégica, o universal, seja executada corretamente.

Exemplo:

Os movimentos de trabalhadores, em geral, utilizam a linha estratégica de implodir a produção interna de seu Estado-Nacional, de forma a mostrar quem tem o poder efetivo de fazer a máquina produtiva funcionar, para tal diversas táticas podem ser utilizadas, a depender de várias circunstâncias.

Em um país agrário, ocupam-se terras improdutivas, e expropriam-se latifúndios, bem como impedem vias de circulação interna e externa de mercadorias. Já em países industrias, operários param a produção das mercadorias mais importantes para o sustento de tal Estado-Nacional, bem como também impedem a circulação interna e externa de mercadorias.

Isso evidentemente não se dá por acaso, existe uma linha estratégica central operando, e ela obviamente se relaciona as táticas que serão utilizadas para que esta possa efetivamente ser posta em prática.

Passemos então a observar movimentos históricos de guerrilha popular. A linha estratégica, em geral, versa sobre a derrubada do Governo pela força das armas. Para tal, guerrilheiros engajam em táticas como tomar regiões de tal Estado-Nacional, cuja as forças de repressão do Estado sejam mais débeis, bem como áreas pauperizadas onde tal guerrilha conseguirá encontrar um bom contingente de adeptos, bem como espalhar sua palavra e fazer valer sua teoria e propaganda. Além disso, ações como roubo de armas de quartéis pouco protegidos, bem como expropriação de bancos, veículos terrestres, aéreos e marítimos, e outros bens de valor para tal empreitada, são utilizados como tática, para a efetivação da estratégia.

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Guerra Popular de caráter maoísta no Peru.

Conclusão:

Quem entra numa guerra, como é a luta de classes, sem uma estratégia bem definida, mesmo que, é verdade, esta varie, se torne mais rica e progrida conforme mudam as circunstâncias, já inicia fadado ao fracasso. É importante ponderar qual é a melhor “linha estratégica” a ser seguida, bem como quais táticas melhor se relacionam com esta, a fim de obter a vitória e a redenção para a classe trabalhadora.

O que torna uma boa “linha estratégica”, bem como quais serão as táticas imediatas mais úteis, pode variar a depender das influências teóricas do grupo que as planeja. O general chinês Sun Tzu por exemplo, recomendava que o menor esforço possível seja dispendido. Já outros teóricos como o germânico Clausewitz e o italiano Maquiavel defendem outras linhas de pensamento.

Isso não significa que necessariamente apenas um ou outro esteja correto. Na realidade, os mesmos fins podem ser obtidos de diversas formas, a realidade é um enorme jogo de potências, possibilidades, a serem relacionadas e encaixadas.

Para uma Guerra Popular, por óbvio, o que importa é que tal “ linha estratégica” e as “táticas” relacionadas a esta funcionem e que a classe trabalhadora tome o poder político, o Estado e o poder econômico. No mínimo que faça valer suas demandas ao demonstrar força e poder de organização.

[NELSON WERNECK SODRÉ] Fichamento de “Síntese de História da Cultura Brasileira”, Nelson Werneck Sodré, 1983. Parte II. “2ª fase”.

Fichamento de Chao-xing, originalmente publicado no Medium.


  • 7. “Cultura de Transição” — “A pequena burguesia”:

Entre as peculiaridades do desenvolvimento histórico brasileiro, está o surgimento precoce de uma “camada intermediária entre a classe dos senhores (de escravos e/ou de servos) e a classe dos escravos e/ou dos servos, isto é, o aparecimento da pequeno burguesia antes do aparecimento da burguesia” (p. 23). Tal processo foi uma tendência em países e regiões cujo o desenvolvimento das relações capitalistas deu-se de forma tardia, e os elementos pré-capitalistas persistiram por mais tempo.

O surgimento da pequena burguesia possui importância tanto do ponto de vista político, quanto do ponto de vista cultural: Político, porque corresponde ao processo de “transplantação, aqui, de reivindicações e postulações que constituem o núcleo da burguesia em ascensão” (p. 24) e cultural, pela “transplantação de valores estéticos oriundos do desenvolvimento da burguesia no Ocidente europeu” (p.24).

[…]Nessa dupla função veiculadora, a pequena burguesia colonial — que cresce em influência depois da autonomia, de cujas lutas participa intensamente — apresenta ampla receptividade, interesse singular pelas coisas do espírito. Nela se recrutam, em número crescente, os elementos que desempenham funções de natureza intelectual; nelas se recrutam ainda os que consomem os produtos do trabalho intelectual , aquilo que se conhece como o público para as artes. (p. 24).

Os representantes da pequena burguesia eram figuras de eventos que antecederam e sucederam à Independência, “no turbulento período entre a decadência mineradora e o golpe político da Maioridade do segundo imperador” (p. 24). Caracterizavam-se pela atividade intelectual, de caráter político e estético, que forneceu-lhes condições para a ascensão social.

A sociedade onde a pequena burguesia passa a existir sofrera uma complexificação e distingue-se da sociedade dos “primeiros séculos de vida colonial” (p. 24). Tal sociedade foi fundada na “enorme “distância social” entre classe dominante e classe dominada” (p. 24) e “na propriedade da terra e em sua exploração agrícola” (p. 24).

Com o desenvolvimento da mineração do ouro, esse esquema foi modificado, impondo novas condições. Há, portanto, um deslocamento dos esforços da atividade econômica, da terra, “da propriedade do solo” (p. 25), para o ouro, a “permissão para minerar” (p. 25), para o garimpo.

Esta atividade permitiu que “indivíduos isolados se realizem economicamente” (p. 25) — “o que não acontecia no sistema de produção açucareiro (p. 25)” — gerando um grande aumento demográfico, principalmente nas regiões próximas as áreas de mineração (“altiplanos das Gerais” (p. 25)). A partir desse aumento, há a ascensão do poder aquisitivo e o surgimento, em ampla escala e circulação, do mercado interno brasileiro.

Se o latifúndio açucareiro procurava a autossuficiência e dela se aproximava, produzindo quase tudo que seus habitantes necessitavam, a propriedade mineradora contrastava absolutamente com isso, pois pela sua alta rentabilidade, excluía, entre os que a ela se entregavam ou mesmo lhe estavam indiretamente associados, outra atividade complementar como, por exemplo, a de produzir alimentos ou objetos de uso. Assim, a população mineira tinha de ser abastecida por outra região, gerando-se o comércio interno, em função do desenvolvimento do mercado interno. (p. 25)

A criação ampla do mercado interno significou a transformação em mercadoria de todos os bens que uma vez “consumidos no local onde existia ou era produzido, passa agora a entrar na troca e deve ser consumido em grande escala e em região afastada” (p. 25).

Em decorrência, ocorre a ampliação da divisão do trabalho, o surgimento de novas atividades e o desenvolvimento e ramificação da infraestrutura do Estado, “milícias, órgãos de justiça, repartições fiscalizadoras e arrecadadoras, forças policiais e militares, hierarquia religiosa” (p. 26). O crescimento do poder público gera contradições com os elementos privados e demonstra-se o oposto do que historicamente aconteceu no modelo açucareiro anterior.

Nesta sociedade, “realmente, a classe dominante, muito poderosa — absorvendo, inclusive, parcela considerável do poder público, assim transferido à esfera privada — era reduzida numericamente, enquanto a classe dominada, numerosíssima, em termos relativos, ficava separada daquela por distância social muito grande, existindo, entre elas, apenas rala e insignificante camada intermediária” (p. 26).

No modelo açucareiro, a estrutura de classes sociais constituiu-se de forma distinta, predominava a figura do senhor de engenho, e ainda não existia uma camada intermediária, entre senhores de terra, servos e escravos. Apesar do poder político, a classe dominante da sociedade mineradora era numerosamente mediana, enquanto a classe dominada, maioria.

Nesses momentos finais do período colonial, a mão de obra livre, constituída na camada intermediária, era maior que a população escravizada. Há um duplo movimento de ampliação da camada intermediária e de multiplicação da divisão do trabalho, com atividades ligadas à cultura, sinalizando “exigências de cultura que antes não existiam” (p. 26).

Dado o seu crescimento em números, a camada intermediária propiciava o espaço em que seriam fornecidos os elementos culturais, criando através desse movimento um público interno para tais atividades. No apogeu do modelo minerador, “decênio inicial da segunda metade do século XVIII” (p. 27), a sociedade desse período já possui esses traços constituídos.

O desenvolvimento da mineração foi crucial para o surgimento da camada intermediária e para o aparecimento da pequeno-burguesia antes da burguesia. A pequeno-burguesia, portanto, é um “veículo de transplantação” (p. 27), atraída pela ideologia burguesa e pelos valores de uma burguesia exterior.

  • 8. “Cultura de Transição” — “O ensino pós-jesuítico”:

A partir da transformação da estrutura da colônia, surgem novas necessidades para o ensino. O antigo modelo se encontrava inadequado diante das novas condições. “Toda ela [modelo educacional] pertencia ao esforço dos jesuítas, tornados especialistas, na transmissão dos conhecimentos” (p. 27).

Em consequência da expulsão dos jesuítas dos reinos e domínios de Portugal, e dos conflitos entre missionários e colonos no território brasileiro, toda a infraestrutura da Ordem foi confiscada pela Coroa Portuguesa.

O formato de ensino era dogmático e abstrato, ensinado pelos padres com vistas a “uniformidade intelectual” (p. 28). Não havia ensino das ciências (“planos de estudos excessivamente literários e retóricos” (p. 28)) e nem ensino de línguas modernas, “conservando na elite uma tal ignorância sobre essas línguas que de maravilha se encontraria, na colônia, um brasileiro que soubesse francês” (p. 28).

A reforma pombalina, de início, não criou novas estruturas, “limitando-se a prescrições gerais” (p. 28). Teve por consequência, na colônia, a fragmentação como característica básica, e a formação deficiente dos mestres, em contraste com o ensino geral e unitário do ensino jesuítico.

A educação passou do colégio de padres às aulas das escolas régias, com mestres de formação deficiente, ou nos próprios latifúndios, com os padres-mestres que, de capelães, passaram a professores. (p. 28)

Na segunda metade do século XVIII, no entanto, a reforma pombalina possibilitou a entrada do Estado nesta seara. E, a partir desse momento, a organização do ensino, que antes era monopolizada pelos jesuítas, teria participação mista, com esferas privadas (ordens religiosas concorrendo entre si) e esfera pública. Esse traço inovador será ampliado com a reforma joanina, no início do século XIX. Contudo, movimentos como estes foram vistos desde antes da expulsão dos jesuítas, com a formação de Seminários.

As condições de difusão cultural são distintas das condições dos primeiros períodos urbanos, principalmente após ampliação do mercado interno, na segunda metade do século XVIII. As cidades, portanto, tornam-se focos de produção e difusão da cultura dos elementos da classe dominante e daqueles que a servem e por ela são protegidos.

A classe dominante começa a formar seus quadros, meio século antes da autonomia. E só a classe que tem posses e, em consequência, lazeres, pode dar-se à cultura, […], fazendo-as ou admirando-as e usando-as. (p. 29)

Em um meio onde, historicamente, a cultura era restrito a “um número reduzido de pessoas” (p. 29), há a geração de uma elite culta, universalista, europeizante, “unilateralmente voltada para as letras” (p. 29), cujo conhecimentos foram adquiridos através do ensino jesuíta, dos seminários, das aulas régias e do ensino superior em Coimbra, de influência jesuítica, e outras universidades europeias, principalmente após o século XIX. Eram poucos os brasileiros que, na segunda metade do século XVIII, demonstravam domínio sobre conhecimentos científicos especializados.

As centenas de outros que alcançaram o diploma universitário — filhos-família mantidos na Europa para os estudos— formaram a cultura humanística nos moldes do tempo, absolutamente distanciada dos problemas da terra em que haviam nascido e onde exerciam ou exerceriam suas atividades (p. 30).

Contudo, as artes plásticas, principalmente em Minas Gerais da segunda metade do século XVIII, conseguem desenvolver uma produção genuinamente autêntica, através do barroco brasileiro, à parte dos “velhos modelos metropolitanos” (p. 30), “de influência jesuítica quase todos” (p. 30).

Durante o declínio da mineração, surgem grandes artistas de origem popular através da torêutica, da escultura e da arquitetura religiosa, como Mestre Valentim, desenhista e ilustrador, Aleijadinho, artista plástico de grande importância para a arquitetura do período colonial no Brasil, o grupo de poetas que veio a chamar-se “Escola Mineira”, com a produção da obra política “Cartas Chilenas” e da obra literária “Marília de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga, além dos “mestres do barroco musical mineiro”(p. 31), José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, Marcos Coelho Neto, Francisco Gomes da Rocha e Ignácio Pareira Neves. NWS destaca particularmente as duas obras da Escola Mineira como demonstração de um “avanço da expressão literária” (p. 31), onde um caráter original, “nacional”, popular, começava a esboçar forma e conteúdo.

A terra continuava a aparecer como objeto, cantada nas suas belezas, mas há, na sátira à autoridade local desmandada, uma primeira nota de rebeldia que transcende a pessoa visada, como há, nos cantos à jovem noiva, uma primeira nota lírica que rompe com as tradições do arcadismo. Mas é preciso não esquecer que a distância que separa — ainda em nível qualitativo—os poetas recrutados na camada intermediária e os extraordinários artistas que surgem da mesma, mas com origens na gente escrava, os humildes artesãos que trabalham para os padres, é enorme. Nas obras destes é que está, pela primeira vez, o traço original, brasileiro. Deles parte o fio da autêntica e específica cultura, aquilo que, ao longo do tempo, virá a ser nacional e que só ainda não pode ser — no caso deles — porque nem existe a nação (p. 31)

A estrutura social do Brasil, portanto, se difere dos primeiros períodos coloniais, mas continuava a ser regida por senhores de terra — estes donos de escravos e servos. No entanto, a expansão da mineração, do comércio interno e da camada intermediária, livre, “uma pequena burguesia precoce” (p. 32), fez desenvolver a produção, difusão e consumo de elementos culturais nos espaços urbanos. Ao mesmo tempo, o período da vinda da corte portuguesa para o Brasil é um momento de transformação nas “relações capitalistas no ocidente da Europa” (p. 31) e de convulsão causada pelas campanhas napoleônicas, que ameaçavam as monarquias da Península Ibérica e seu modo de produção feudal.

Nela [camada intermediária] recrutam-se os letrados, os funcionários, os religiosos, todos aqueles que necessitam dos conhecimentos, em qualquer escala — quase sempre em escala rudimentar — e que tem receptividade, em parte, para as manifestações artísticas, a que a vida urbana em desenvolvimento proporciona as condições iniciais de existência. (p. 32)

  • 9. “Cultura de Transição” — “A classe culta”:

A cultura, nesta ‘nova’ sociedade, “como forma do conhecimento ou como prenda — não importa” (p. 32), começa a possuir espaço e adesão entre a camada intermediária “e, em parte, na classe dos senhores — pelo menos menos como motivo de ostentação” (p. 32). Aqueles que alcançam posição de destaque neste meio cultural distinguem-se socialmente, e acabam “tendo em comum com os lazeres da classe dominante” (p. 32).

A expansão das ferramentas para a instrução nas cidades gerou uma demanda de pessoas que queriam ser instruídas e outra leva de pessoas que ministravam, como por exemplo com a generalização do uso de instrumentos musicais nas “casas senhoriais de fazendas, estâncias e engenhos, como nos sobrados ou solares urbanos” (p. 33) e, principalmente, as artes plásticas nas igrejas, muitas vezes obras de pequenos pintores, santeiros, mestres toreutas e ourives desconhecidos, cuja a arte era associada não com o lazer da burguesia, mas com o ofício do escravo ou do servo, com o trabalho braçal, próprio de homens que não são livres, o que, no entanto, não arrancou a capacidade de inovação do barroco brasileiro, quebrando “a uniformidade do barroco de importação” (p. 33).

A cidade portuária do Rio de Janeiro, que à época possuía 25.000 habitantes, com a transferência da capital da colônia de Salvador para lá, “por força das necessidades administrativas geradas pela mineração” (p.33), transformou-se de “porto humilde” (p. 33) em um “burgo de 50.000 que a corte bragantina atulhará com o numero séquito de fidalgos e o funcionalismo que vem prover um aparelho de Estado que cresce depressa” (p. 33). A corte portuguesa chega ao Brasil com “os monumentos do barroco já marcando a paisagem” (p. 33), fruto da obra de pequenos artistas.

Grande parte dos toreutas, santeiros, ourives, ficou desconhecido, numa época em que a autoria carecia de importância, em que, vindos de camadas inferiores, esses mestiços de talento eram vistos como simples artesãos. É uma arte que, fugindo às casas dos senhores e aos palácios das autoridades, acolhe-se aos templos e aos claustros. (p. 33)

NWS destaca dois aspectos do incentivo à cultura durante o governo joanino que caracterizam a continuidade do projeto de transplantação no início do século XIX, através dos esforços de acumulação de conhecimentos: “atividades ligadas ao conhecimento do país, particularmente pelo levantamento das variedades de plantas e animais” (p. 33), “o incentivo dado às expedições científicas” (p. 33) e atividades ligadas a difusão de “modelos europeus e ao recrutamento de discípulos” (p. 34), como a “fundação de escolas de arte e de museus e a contratação de mestres estrangeiros” (p. 34).

O agrupamento de conhecimentos sob o rótulo de “História Natural” se dava de forma generalista, sem muito aprofundamento em questões abstratas, o que facilitava a ação de homens que, apesar da “falta de vocação ou de instrução geral ” (p. 34), possuíam paixão pelas ciências.

Assim é que a época assinala a atividade de naturalistas como Manuel de Arruda Câmara, frei Leandro do Sacramento, frei Custódio Alves Serrão; marca a passagem dos primeiros cientistas estrangeiros que buscam material, […], predecessores do que, às véspera da autonomia, constituíram as sucessivas expedições que cortaram o território brasileiro no século XIX (p. 34).

Na contratação de mestres estrangeiros no período joanino, destaca-se a “iniciativa de trazer a missão artística francesa” (p. 34) com a vinda de pintores, gravadores, mestres de ofícios, e outros, que constituíam a base docente da Academia de Belas Artes, em 1826.

As consequências dessa iniciativa, que operaram na cultura “por força do aparelho oficial de transmissão sistemática” (p. 34) romperam com a tradição da arte colonial. Os poucos discípulos, que estudavam na Europa, eram adeptos de modelos importados, que exibiam a correlação entre transplantação e alienação.

A fundação da imprensa, em 1808, possibilitou a abertura de jornais, de livros impressos, de “biblioteca[s] destinada[s] ao público” (p. 35) e criação dos primeiros cursos superiores, “destinados à formação de quadros militares” (p. 35). Para atender necessidades pragmáticas, a reforma joanina transcende o modelo de ensino escolástico e literário anterior.

O imediatismo e o praticismo, entretanto, pretendiam apenas substituir aquele sentido, como outra forma de alienação, para atender as necessidades do aparelho colonial de dominação, sem despertar a centelha da curiosidade e a inquietação que o conhecimento proporciona e que, normalmente, se constitui em fermento de rebeldia. Essa rebeldia encontrava o seu momento e suas formas de manifestação, apesar de tudo, na eloquência sagrada e profana da imprensa. (p. 35)

A estrutura social do Brasil do início do século XIX, portanto, sofre uma mudança política, onde a “classe culta” “teria papel destacado, dando expressão política aos desejos da classe senhorial” (p. 35) A classe intermediária, “em que são recrutados os intelectuais” (p. 35), correspondia as aspirações e padrões da classe dominante.

O horror ao trabalho físico, caracterizado como trabalhos dos escravos e servos, e à ode ao ócio, a atividade intelectual, como atividade enobrecedora e traço de classe eram pressupostos para aquele que oriundo da camada intermediária respeitasse os padrões da classe dominante.

Pelo seu caráter tardio, a atividade intelectual no Brasil é introduzida através de uma camada intermediária, “como via de acesso social” (p. 36), onde a cultura é “cultivada para ser ostentada, exteriorizada” (p. 36), e não para trazer algum benefício pessoal ou coletivo através do processo de conhecimento. Essa cultura, portanto, permitia o acesso da classe intermediária as “funções não maculadas pelo trabalho físico” (p. 36), e estes ofícios e títulos possuíam o caráter enobrecedor.

A cultura que tinha por finalidade não o saber, mas o diploma — que funcionava como título de enobrecimento — seria, consequentemente, “literária e abstrata”, transmitida “por métodos que se baseavam, não sobre a ação e o concreto, mas sobre a leitura, o comentário e a especulação”, destinando-se, assim, “a formar pregadores, letrados e eruditos” que, com o título, aspiravam às profissões liberais e aos empregos públicos. Nada teria de surpreendente, pois, que o elemento desse tipo de cultura fosse o intérprete natural dos interesses da classe dominante, no tormentoso processo da autonomia (p. 36).

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Bibliografia:

DE AZEVEDO, FERNANDOA cultura brasileira. Introdução ao estudo da cultura no Brasil. Rio, 1943.

SODRÉ, NELSON WERNECKSíntese de História da Cultura Brasileira. São Paulo. 1983.