[DARCY RIBEIRO] Sobre a multilinearidade do processo histórico geral do desenvolvimento humano. Em: “O PROCESSO CIVILIZATÓRIO — Estudos de antropologia da civilização. Etapas da evolução sócio-cultural”.

Prefácios retirados da 9ª Edição. Editora Vozes. Petrópolis, 1978.


PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO:

Iniciamos com este livro a publicação de uma série de estudos sobre o processo de formação dos povos americanos, sobre as causas do seu desenvolvimento desigual e sobre as perspectivas de autossuperação que se abrem aos mais atrasados.

O objetivo deste primeiro estudo é proceder a uma revisão crítica das teorias da evolução sócio-cultural e propor um novo esquema do desenvolvimento humano. Bem sabemos quanto é temerária uma tentativa de reformulação das teorias de alto alcance histórico como a que aqui apresentamos, que focaliza a evolução sócio-cultural nos últimos dez milênios.

No entanto, esta tarefa se impôs como requisito prévio indispensável àquele estudo da formação dos povos americanos. Na verdade, só poderíamos eludi-la se deixássemos inexplícito o esquema conceitual com que trabalhamos ou se apelássemos para esquemas evolutivos clássicos, visivelmente inadequados para explicar as situações com que nos deparamos.

Com efeito, queiramo-lo ou não, agimos todos com base numa teoria global explicativa do processo histórico, quando usamos conceitos referentes a fases evolutivas — tais como escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo — ou conceitos concernentes a processos universais de mudança sócio-cultural como revolução agrícola, revolução mercantil ou revolução industrial.

Isto é o que faz a maioria dos cientistas sociais de perfil acadêmico, mesmo em contextos em que negam a possibilidade de estabelecer sequências evolutivas. Os cientistas de orientação marxista, aceitando embora uma teoria geral do processo histórico, pouco têm contribuído para desenvolvê-la, em virtude da tendência a converter a maioria dos seus estudos em meras exemplificações, com novos materiais, das teses marxistas clássicas.

Acresce ainda que, nas últimas décadas, acumulou-se copioso material etnográfico, arqueológico e histórico descritivo das sociedades humanas de diversos tipos, bem como uma série de estudos especiais sobre os processos de mudança cultural e sobre certas vias multilineares de evolução sócio-cultural que tornaram viável, e inadiável, a formulação de uma teoria geral da evolução.

Por sua própria natureza, os nossos estudos sobre as causas da desigualdade de desenvolvimento dos povos americanos tanto exigiam a formulação de um esquema das etapas evolutivas quanto possibilitaram sua elaboração.

Exigiam-na porque tomavam imperativa a construção de uma tipologia para classificar diversos contingentes que se conjugaram para formar as sociedades nacionais americanas de hoje.

Como classificar, uns em relação aos outros, os povos indígenas que variavam desde altas civilizações até hordas pré-agrícolas e que reagiram à conquista segundo o grau de desenvolvimento que haviam alcançado?

Como situar, em relação àqueles povos e aos europeus, os africanos desgarrados de grupos em distintos graus de desenvolvimento para serem transladados à América como mão de-obra escrava?

Como classificar os europeus que regeram a conquista? Os ibéricos que chegaram primeiro e os nórdicos que vieram depois — sucedendo-os no domínio de extensas áreas — configuravam o mesmo tipo de formação sócio-cultural?

Finalmente, como classificar e relacionar as sociedades nacionais americanas por seu grau de incorporação aos modos de vida da civilização agrário-mercantil e, já agora, da civilização industrial?

Estas questões e muitas outras igualmente cruciais exigiam a elaboração de uma teoria geral do processo evolutivo que definisse de forma mais precisa os conceitos faseológicos (geralmente usados de maneira arbitrária) e que explicitasse mais acuradamente os modos pelos quais interagem as sociedades diversamente desenvolvidas.

Conforme assinalamos, aqueles estudos não só exigiram a elaboração desta teoria, mas também possibilitaram sua formulação. Isto porque nos deram uma perspectiva não cêntrica de análise das causas da desigualdade de desenvolvimento e também porque forneceram uma extraordinária base fatual.

Aquela perspectiva nos permitiu criticar o eurocentrismo das teorias correntes sobre a evolução cultural; esta base fatual — representada pela copiosa bibliografia americanista de fontes primárias e por nossa própria experiência no estudo antropológico de sociedades tribais e nacionais — proporcionando-nos um conhecimento acurado de sociedades que exemplificam quase todas as etapas da evolução e quase todas as situações de conjunção de povos, nos permitiu reexaminar a teoria evolucionista com maior amplitude de visão.

Desse modo é que, no esforço por estabelecer critérios de classificação dos povos americanos, tivemos de alargar nossa perspectiva de análise no tempo e no espaço, acabando por elaborar uma primeira esquematização dos passos da evolução tecnológica, social e ideológica das sociedades humanas, de cujo desdobramento posterior resultou este trabalho. Ela é aqui apresentada como formulação preliminar de um estudo que continuaremos desenvolvendo, mas cujo aprofundamento exige, nesta altura, o exame crítico de outros especialistas.

Cumpro o dever de registrar que· o presente estudo só pôde ser realizado graças ao amparo da Universidade da República Oriental do Uruguai, através de um contrato do autor como professor de tempo integral. E tenho a satisfação de assinalar que este trabalho, na forma em que se apresenta, muito deve à colaboração de minha colega Betty J. Meggers e, sobretudo, de minha mulher, Berta Ribeiro.


PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO VENEZUELANA:

Publiquei este livro com muito medo. Temia que a ousadia de enfrentar temas tão amplos e complexos me levasse a um desastre. Meu medo devia ter aumentado quando um conhecido intelectual marxista, ledor de importante editora, deu um parecer arrasador sobre O Processo Civilizatório.

Dizia ele que o autor, etnólogo de índios, brasileiro, que não era nem se quer marxista, pretendia nada menos que reescrever a teoria da história, o que equivalia, pensava ele, a inventar o moto continuo.

O diabo é que eu pretendia mesmo! Só não fiquei aplastado debaixo daquele parecer competentíssimo porque fui salvo por um ataque de raiva possessa contra todos os que pensam que intelectual do mundo subdesenvolvido tem de ser subdesenvolvido também. Mas logo surgiram vozes de alento para levantar meu ânimo.

Principalmente as de alguns amigos e colegas tomados de entusiasmo pelo livro. Entre eles, o mais competente arqueólogo que conheço: Betty Meggers. Além de me estimular, Betty se propôs ajudar na revisão dos dados sobre a evolução técnica e na fixação das cronologias. Depois, se dispôs a traduzir O Processo Civilizatório ao inglês, o que fez admiravelmente.

Afinal, conseguiu também que ele fosse editado pela Smithsonian Institution, que, sendo o mais vetusto dos órgãos de pesquisa antropológica deste mundo, lhe garantiria a melhor atenção profissional. A tudo isto a Smithsonian aliava a qualidade, ainda mais simpática para mim, de ter sido a editora de obras de Lewis W. Morgan, cujo texto fundamental — Ancient Society — eu retomava via F. Engels — em O Processo Civilizatório.

Agora, com dez anos, O Processo é um filho bem-sucedido: 15 edições e cerca de 160 mil exemplares vendidos fazem dele o meu principal livro. Só menos querido do que o meu filho caçula —, o romance MAÍRA — que, por outras razões, é meu xodó.

Grande e generosa foi, também, a fortuna crítica de O Processo, recebido com carinho em vários países. Foi, inclusive, objeto de um debate coletivo promovido por Current Anthropology, para os livros que seus editores consideram importantes. [1]

Este debate (CA treatment) consiste em remeter a obra selecionada para debate a uns vinte antropólogos para que a critiquem; em recolher, depois, e remeter ao autor os diversos comentários para que ele redija a réplica; e, por fim, na publicação conjunta de todo o material.

Os comentários assinalam tanto os aspectos com que os críticos concordam, como aqueles de que discordam. Entre os primeiros, recordo agora o gosto que me deu ler as apreciações frequentes, assinalando que O Processo Civilizatório proporcionava, pela primeira vez, um quadro conjunto dos últimos cinco séculos da história, que possibilitava tratar as sociedades avançadas e as atrasadas não como etapas sucessivas da evolução humana, mas como polos interativos de um mesmo sistema socioeconômico tendente a perpetuar suas posições relativas.

O hoje dos povos avançados não é, pois, o nosso amanhã: nós e eles encarnamos posições opostas, mas coetâneas. Esta integração teórica, que nos permitiu fundir, a partir de 1500, nosso esquema evolutivo com nossa reconstituição do processo histórico, tornou-se possível graças ao apelo aos conceitos complementares de aceleração evolutiva e de atualização histórica.

Nos últimos anos, tive a alegria de vê-los reproduzidos nestes termos e em variantes semânticas deles em diversos estudos. Com sua ajuda, muitos autores puderam superar tanto as visões unilineares que mediocrizam as teorias evolutivas como as proposições desenvolvimentistas das teorias da modernização, que fazem supor uma progressão espontânea do subdesenvolvimento ao desenvolvimento, através da industrialização substitutiva.

Foi também assinalado que esta concepção de duas linhas divergentes de trânsito de uma a outra etapa da evolução tinha tanto a virtude histórica de facilitar a compreensão das vicissitudes dos povos subdesenvolvidos no passado, como a qualidade preditiva de possibilitar a antevisão dos riscos que eles enfrentam, agora, de serem outra vez atualizados no curso do processo civilizatório posto em marcha pela Revolução Científica.

A primeira atualização que experimentamos ocorreu com os índios e os negros que, atingidos pela expansão européia, não evoluíram da tribalidade à civilização, mas foram tão somente arrastados à condição de força de trabalho das colônias escravistas mercantis que as nações ibéricas fundaram no Novo Mundo no curso da Revolução Mercantil.

A segunda ocorreu com o trânsito que sofremos da condição Colonial à Neocolonial, no corpo da Revolúção Industrial, e que nos confirmou na situação de povos de segunda classe, enquanto os EUA, por exemplo, se integravam autonomamente: por aceleração evolutiva, na nova civilização.

A terceira é a que nossas classes dominantes gerenciais, na qualidade de associados das corporações multinacionais, estão promovendo em nossos dias com a maior eficiência. A luz dos conceitos de Atualização versus Aceleração, fica evidenciado que seus esforços de modernização só visam nos atrelar à civilização pós-indutrial outra vez na condição de povos dependentes que continuarão contribuindo tanto para a prosperidade alheia, que nao poderão cuidar de sua própria prosperidade.

As principais reservas apresentadas contra as proposições do nosso esquema conceitual vêm de duas vertentes: as dos que o contestam por ser “marxista”, e as dos que, ao contrario, o desmascaram como infiel ao “verdadeiro marxismo”.

As primeiras, tolas demais para merecer atenção, caem ora em objeções irritadas contra a idéia de progresso, ora em advertências escandalizadas contra a admissão de que as revoluções sociais violentas possam ser socialmente positivas.

As últimas merecem maior atenção, embora sejam, às vezes, igualmente tolas. Este é o caso de todos os que, supondo que existem respostas finais de Marx para todas questões, consideram uma ousadia repensar os esquemas ditos marxistas, porque só admitem recitá-los.

Estes ruminantes de Marx deviam, no presente caso, concordar que, havendo dois esquemas legitimamente atribuíveis ao marxismo sobre a evolução sócio-cultural humana, caberia pelo menos o esforço de engendrar um terceiro que os conciliasse.

Efetivamente, isto é o que sucede, uma vez que o esquema de Engels em A Origem, etc. (1884) — que Marx conheceu e aprovou — é não só diferente, mas oposto ao esquema do próprio Marx nos Grundrisse (escritos em 1857/59, mas só editados em 1939 e difundidos depois de 1950) o qual, por sua vez, Engels conhecia muito bem.

A divulgação tardia do texto de Marx veio criar uma grande celeuma, porque ele se revelou muito superior ào de Engels ou, pelo menos, mais conciliável com os conhecimentos antropológicos acumulados no último século. Onde ficamos neste debate entre os dois ilustres defuntos, se não nos consentimos repensá-los?

Este tipo de contestação é especialmente irritante quando parte dos pretensos marxólogos que convertem o marxismo numa técnica erudita de exegese de textos. Eles querem que se leia as obras de Marx partindo da suposição de que nelas como na Bíblia, para Lutero — residisse toda a sabedoria.

Uma sabedoria, aliás, só recuperável se lidos e relidos com a devida atenção e com a indispensável obediência ao guia parisino que esteja em moda. Penso que a verdade, no que tenha de apreensível, não está em texto algum, mas na vida e na história. Penso que ela só pode ser lida através da observação direta ou da reconstituição histórica criteriosa de contextos sociais concretos e da comparação sistemática dos mesmos.

Os clássicos e, com eles, todos os que teorizaram fecundamente, com base em pesquisas científicas e históricas — nos provêm no máximo de orientações, diretrizes, a partir das quais temos é de abrir os olhos para olhar e ver e rever a experiência vivida dos povos, como a única fonte de saber referente à sua vida e ao seu destino.

Nosso papel é, pois, o de nos fazermos herdeiros do discurso da ciência, apenas para refazê-lo com base na exploração exaustiva do valor explicativo tanto dos contextos sociais concretos que observamos, como das circunstâncias de lugar e posição, desde as quais vemos a eles e aos seus contornos.

Para fazê-lo com a ousadia de Marx, porém, é indispensável observar, comparar e interpretar de olhos postos no trânsito entre o que foi e o que pode ser, e com a predisposição de conhecer para intervir e influir, no sentido de que venham a se concretizar na história, amanhã, as possibilidades mais generosas dela.

Com esta postura é que escrevemos O Processo Civilizatório. Ele é o melhor discurso que podíamos formular sobre o caráter necessário — e, portanto, compreensível — de nosso passado de nações que fracassaram na história. É também a mais clara advertência que podíamos escrever sobre as ameaças que pesam sobre nós, de recairmos na condição de povos explorados e subalternizados; ameaça tanto maior porque este é o projeto de nossas classes dominantes.

É, por fim, a expressão mais eloqüente que consigamos formular sobre as possibilidades reais que se abrem à nossa frente de ruptura revolucionária dos fatores causais do atraso autoperpetuante, para a realização das potencialidades dos nossos povos, dentro da civilização emergente.

Uma reserva surpreendente ao nosso esquema conceitual é a de quem o inquina de “evolucionista“. E daí, quê? Desejariam que fosse funcionalista? Mais do que surpreendente, porém, esta reserva passa a ser absurda quando parte de pretensos marxistas. Que são os esquemas de sucessão das formações econômico-sociais de Marx e Engels, senão teorias evolutivas?

Aqui se somam, provocando curto-circuitos, diversas confusões. Primeiro, a de jogar na mesma lata-de-lixo das doutrinas ultrapassadas, junto com o evolucionismo meio unilinear de Tylor ou do progressivismo de Spencer, nada menos do que a concepção vital para as ciências sociais de que o processo histórico, não sendo arbitrário nem errático, é, por isto mesmo, explicável e, em certa medida, até previsível.

Segundo, o de opor-se nominalmente ao academicismo sócio-antropológico norte-americano, apenas para beber suas piores águas de lavagem. Inclusive, o reacionarismo antievolucionista de quantos detestam e repelem qualquer idéia de evolução como uma predisposição perigosa à revolução.

Leslie White (1945), demonstrando como e por que razões políticas e não científicas se constituiu e difundiu esta estultice teórica, fez dela a vergonha das ciências sociais norte-americanas com que, hoje em dia, ninguém mais se identifica.

Só resta assinalar aqui que assim como as ciências da vida não podem passar sem um esquema da evolução biológica — o que não converte ninguém em darwinista — assim também as ciências da sociedade e da cultura não podem prescindir do único esquema teórico capaz de tornar a história inteligível — e este será inevitavelmente evolutivo, ainda que não necessariamente evolucionista, de estilo tylonista ou spenceriano.

Tudo isso significa que, quando não se conta com uma teoria explícita da evolução, se corre o grave risco de cair num evolucionismo irresponsável por si mesmo, porque inexplícito.

Quando se fala, por exemplo, de Revolução Industrial no plano tecnológico, ou de Revolução Socialista no político, se está usando categorias que só têm sentido dentro de uma concepção evolutiva da história. Isto é, aliás, o que se faz habitualmente sem maiores conseqüências. Fazê-lo, porém, pretendendo ser expressamente antievolucionista é pecado de indigência teórica.

Quero comentar ainda duas ordens de objeção nominalmente marxistas que se opõem às teses de O Processo Civilizatório.

A primeira diz respeito à noção de feudalismo, que conceituamos não como uma etapa da evolução sócio-cultural situada entre o Escravismo e o Capitalismo, mas como uma inteligência geral de regressão histórica. Assim concebida, seria um tipo geral de vicissitude em que até agora tendiam a cair e até a recair reiteradamente todas as altas civilizações.

Os europeus e os norte-americanos (como um transplante ultramarino de sociedades européias) têm dificuldades de assumir esta visão porque, identificando o feudalismo com a Idade Média que está no seu próprio passado, são levados a concebê-lo como uma ponte histórica entre o Escravismo greco-romano — seus supostos ancestrais, mais dignificatórios do que reais — e os alvores do Capitalismo Mercantil, no Renascimento.

A luz desta percepção eurocêntrica, o milênio de atraso medieval — em que desaparece toda a produção mercantil, em que a imensa estrutura do Império Romano se coalha em milhares de feudos — é alçada fantasiosamente da condição de seqüência histórica específica à de categoria teórica geral da evolução humana.

Tenta-se até fundamentar a tese, buscando no Feudalismo assim concebido signos do progresso que através dele se teriam dado no trânsito da Escravidão ao Trabalho Assalariado através da Servidão. A verdade é que não há tais avanços. O que se toma por sinal deles já são prenúncios das novas formações pós-feudais.

O grave, porém, desta concepção, é que dado o seu caráter genérico, ela conduz à tendência nefasta de catalogar como “feudalismo” tudo que não seja Escravismo puro nem Capitalismo pleno.

Nossa concepção de Feudalismo, ao contrário, além de proporcionar explicações satisfatórias para as regressões cíclicas que experimentaram as civilizações egípcia, mesopotâmica, indiana e chinesa, etc., permite superar a estreiteza da concepção anterior.

Esta, além de não explicar nada — nem mesmo a história medieval européia — impossibilita entender a natureza real das revoluções socialistas não obreiras nem pós-capitalistas que são, aliás, as únicas que se conhece.

Esta qualidade é que fazia aquela concepção tão cara a Stalin quanto sua obsessão pelo caráter democrático-burguêsporque pós-feudal — de toda revolução nas áreas neocoloniais. Dentro desta percepção, Fidel haveria feito a revolução por ignorância.

Outra reserva pseudomarxista ao esquema conceitual de o Processo Civilizatório vem da escolha do desenvolvimento da tecnologia como o critério básico de construção do nosso esquema de evolução sócio-cultural.

Alega-se, aqui, que esta postura importa em invalidar o critério marxista que faz das lutas-de-classe o motor da história e do desenvolvimento dos modos-de-produção o critério fundamental da evolução social.

Não há nesses argumentos senão palavreado vazio. Primeiro, porque não negamos a luta-de-classes, apenas assinalamos que apesar de serem tão importantes, elas não se prestam ao papel de categorias diagnósticas da evolução humana.

Tanto é assim, que muitas das suas formas básicas se reiteram em formações sociais inteiramente diferentes e com defasagem evidentes – como o Escravismo romano e o Escravismo brasileiro – o que, se ratifica por um lado sua relevância, comprova, por outro lado, sua desvalia como critério distintivo de etapas da evolução.

Em segundo lugar, porque os componentes estratégicos do modo-de-produção para o estudo da evolução social são precisamente os meios-de-produção, vale dizer, a tecnologia o não as relações-de-produção, que seriam os antagonismos de classe acima referidos.

Contestar em nome de Marx a utilização do critério tecnológico no estudo da evolução social humana é tanto mais absurdo porque é o próprio Marx quem reclama no primeiro tomo de O Capital (1961:303) a necessidade imperiosa de se escrever a história crítica da tecnologia. Isto porque, a seu juízo, ela seria, no plano social, o equivalente da obra de Darwin no plano da evolução das espécies.

Com efeito, depois de salientar a importância da história da tecnologia natural de Darwin, Marx pergunta: Será que a história da criação dos órgãos produtivos do homem social (quer dizer, dos meios-de-produção, isto é, das técnicas produtivas, esclareço eu) que são a base natural de toda organização específica da sociedade, não merece a mesma atenção?

Conforme se verifica, foi Marx quem me pediu que escrevesse O Processo Civilizatório. Obviamente, ele esperava uma obra mais lúcida e alentada do que minhas forças permitiam. Ainda assim, fico com o direito de crer que, apesar de tudo, o herdeiro de Marx sou eu.


[1] Este debate foi publicado no Vol. 114 de 1970 de Current Anthropology e republicado em livro sob o titulo de Configurações Histórico-Culturais dos Povos Americanos, no México (1972), em Montevidéu (1972), no Rio de Janeiro (1975) e em Buenos Aires (1976).

ESCRITOS SOBRE A TEORIA POLÍTICA PARA O TRABALHISMO BRASILEIRO DO SÉCULO XXI — Uma coletânea de artigos sobre o desenvolvimento do trabalhismo brasileiro e do movimento socialista no Brasil.


Publicamos, 17 de abril de 2022, um dia de Páscoa, nosso primeiro livro. Este que é fruto de um extenso trabalho coletivo que vem de longe. Desde 2017 nos esforçamos, seja através do trabalho do Núcleo de base Caminho Brasileiro para o Socialismo e da equipe da A coisa pública brasileira, junto de seus colaboradores e apreciadores, seja através da dura, mas necessária, bela e recompensadora tarefa de, ao mergulhar na história do Brasil, almejar compreender os elos que ligam os movimentos socialistas, comunistas e trabalhistas à sua história comum de construção do Brasil moderno e popular. Esperamos entregar um material à altura de nossos leitores e do momento vivido por nosso país.

Agradecemos, mais uma vez, aos camaradas que são a expressão do ressurgimento do trabalhismo como caminho brasileiro para o socialismo e que, espalhados pelos quatro cantos do país, são sentinelas sempre alertas, comprometidos com a libertação nacional e com a defesa do nosso povo.

[TRADUÇÃO] Entrevista de Ang Bayan com Marco Valbuena, chefe do Serviço de Informação do PCF, sobre a posição do Partido no conflito armado na Ucrânia.

Publicado originalmente pela revista Ang Bayan, do Partido Comunista das Filipinas, em 28 de fevereiro de 2022. Para ler um pouco mais sobre o PCF recomendamos [1], da União Reconstrução Comunista.

Nota do tradutor:

Possuímos o intento de traduzir para o português por acreditarmos que as considerações desenvolvidas são importantes para a reflexão e amadurecimento deste debate no cenário brasileiro, bem como para uma avaliação correta da nossa linha de atuação, diante de um cenário internacional de turbulências que impactam no curso da luta de classes no Brasil.

É preciso compreender seriamente a partir de que posição no sistema internacional os países se enfrentam, onde a Ucrânia foi apenas o cenário “escolhido” para o desenrolar dessa contenda entre a Rússia e EUA-OTAN, e não vacilar na correta pontuação de como, historicamente, esta se aprofundou a partir do colapso da União Soviética e da política de subjugação da Europa aos interesses de hegemonia americanos.

Ao mesmo tempo, não podemos dar passos atrás e ignorarmos a realidade da luta da população de Donbass por sua autonomia e pelo direito a paz e estabilidade por contradições internas e em sua relação com a Rússia. Constatamos como um equívoco histórico aqueles que não consideram esses fatores tão importantes para a luta dos trabalhadores do Leste da Ucrânia e confiamos no julgamento da história.

É temerário furtar-se a defesa dessas populações, fechando os olhos para os crimes cometidos pelos Estado ucraniano. É crucial, portanto, que as repúblicas recebam o apoio de trabalhadores de vários países na sua batalha sagrada pela paz, para que se fortaleçam e possam, também, travar seu caminho de autonomia em relação aos interesses geoestratégicos e econômicos da Federação Russa. Acreditamos que esse é o papel de apoio e de solidariedade proletária que precisamos destacar.


Alguns ativistas, amigos e leitores levantaram a preocupação crítica de que o PCF não condenou clara ou redondamente a “invasão da Ucrânia” da Rússia nas duas declarações divulgadas antes da “operação militar especial” de 24 de fevereiro e no artigo de fundo publicado naquele dia. Há a opinião de que a Rússia, como país imperialista, é tão culpada quanto os EUA e seus aliados da OTAN pela escalada do conflito armado na Ucrânia. Ou que os ataques da Rússia contra a Ucrânia servem apenas aos interesses dos oligarcas da Rússia, portanto, devem ser combatidos pela classe trabalhadora na Rússia e na Ucrânia e pelos povos de todo o mundo.

  • Em primeiro lugar, o PCF considera a Rússia imperialista?

Sim, a Rússia é uma potência imperialista, embora muito menor que os EUA, Japão, China, Alemanha, França e outros países imperialistas. Como país imperialista, a Rússia impõe seu domínio militar, político e econômico a países menores, particularmente em torno de suas fronteiras na Ásia Central e na Europa Oriental, a maioria dos quais pertencia à União Soviética (URSS) até ser dissolvida em 1991.

Desde que a liderança da União Soviética foi assumida pelos revisionistas modernos em 1953, que posteriormente realizaram a restauração capitalista, o capital e os recursos tornaram-se cada vez mais concentrados nas mãos dos capitalistas monopolistas estatais na Rússia, o maior estado da União Soviética, à custa dos estados-membros menores e das áreas do campo russo, muitos dos quais foram reduzidos a fontes de mão de obra barata ou de matérias-primas (grãos e minerais). Eles se tornaram dependentes de investimentos russos e commodities importadas da Rússia.

A Rússia perpetua seu poder hegemônico através do poder militar e pelo fato de manter um dos maiores arsenais nucleares do mundo, herdado da União Soviética. Como força militar, a Rússia está em segundo ou terceiro lugar no mundo, atrás dos EUA, e em torno do equivalente à força geral da China. Tem quase a mesma quantidade de armas nucleares que os EUA e está à frente em muitos campos de pesquisa tecnológica militar, incluindo o desenvolvimento de armas hipersônicas.

Gastos militares excessivos combinados com corrupção burocrática em larga escala e pilhagem por oligarcas e grupos criminosos, no entanto, esgotaram os recursos econômicos da Rússia. Apesar de ser o maior país do mundo em termos de extensão territorial e de possuir vastos recursos econômicos, a Rússia não é tão grande quanto os EUA ou a China em termos econômicos (está classificada apenas em 11.º no mundo em termos de PIB estimado pelo FMI em 2021, apenas 7% do tamanho da economia dos EUA e 9,7% da China) e depende em grande parte da exportação de petróleo e gás natural. Os trabalhadores e o povo da Rússia sofrem com a estagnação econômica, a miséria generalizada, o agravamento das formas de exploração e opressão, o desemprego crônico, baixos salários e a deterioração das condições socioeconômicas.

  • O PCF considera o conflito armado na Ucrânia como resultado do conflito armado interimperialista?

O atual conflito armado na Ucrânia está no contexto de crescentes contradições interimperialistas e conflitos armados. É uma manifestação do impulso dos EUA e suas potências imperialistas aliadas para redividir o mundo e tirar da Rússia suas esferas de influência, investimento e comércio; e o contra-impulso da Rússia para preservar a ordem atual e recuperar suas esferas perdidas.

A esfera de influência da Rússia tem sido sistemática e violentamente corroída pela aliança da OTAN liderada pelos EUA desde a dissolução da União Soviética em 1991, começando com a guerra iniciada pelos EUA-OTAN e consequente destruição da Iugoslávia, e a expansão da OTAN nos antigos países do Pacto de Varsóvia na Europa Central (República Checa, Eslováquia, Romênia, Lituânia, Polônia) e na Europa Oriental, até às fronteiras da Rússia.

Isso é uma violação flagrante do Acordo de Minsk de 1991 que dissolveu a URSS e envolveu garantias dos EUA, OTAN e OSCE de que os membros do Pacto de Varsóvia não seriam convertidos em membros da OTAN. Mesmo aqueles que celebraram o Acordo de Minsk de 1991 como uma conquista histórica para acabar com a Guerra Fria e a ameaça de uma guerra nuclear estão chocados com como ele foi sistematicamente violado pelos EUA e pela OTAN.

Desde 1991, os EUA e a OTAN estabeleceram instalações militares e bases de mísseis e antimísseis na Polônia, República Tcheca e Romênia, além do Alasca, na fronteira com a Rússia. Em 2019, os EUA destruíram o acordo de mísseis balísticos de alcance intermediário (IRBM) com a Rússia, abrindo ainda mais o caminho para a expansão do sistema de mísseis dos EUA e da OTAN.

The history of Nato in Europe, in one gif.
  • Quais são as circunstâncias específicas que deram origem ao atual conflito armado na Ucrânia?

Embora seja importante entender o conflito armado na Ucrânia como no contexto de crescente conflito interimperialista, devemos prosseguir para compreender suas características particulares, os principais aspectos do conflito e o principal aspecto do conflito armado.

Devemos entender que a Ucrânia é a última fronteira no impulso imperialista dos EUA para cercar a Rússia com seus mísseis balísticos de alcance intermediário. Os EUA gastaram pelo menos US$ 4 bilhões em assistência militar à Ucrânia desde 1991, com mais de US$ 2,5 bilhões desde o golpe de 2014. O país também recebeu mais de US$ 1 bilhão em ajuda militar do Fundo Fiduciário da OTAN.

Além disso, o Reino Unido forjou acordos com Kiev, nos quais o Reino Unido gastaria 1,5 bilhão de libras para atualizar as capacidades navais da Ucrânia e armar seus navios de guerra com mísseis britânicos e construir bases militares navais no Mar Negro e no Mar de Azov, na fronteira com a Ucrânia, Crimeia e Rússia.

Tendo erodido a esfera de influência da Rússia na Europa Central e Oriental desde 1991, o imperialismo dos EUA e seus aliados da OTAN continuaram a impulsionar seu esforço para estabelecer seu domínio militar na Ucrânia e completar sua rede de bases de mísseis ao redor da Rússia.

Em 2014, os EUA instigaram um golpe na Ucrânia e instalaram um regime neonazista. O fez financiando e armando grupos de extrema-direita sob o chamado Batalhão Azov, formado em 2014 por grupos como o Patriot of Ukraine e a Social National Assembly. Esses grupos têm suas raízes na Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) de Stepan Bandera e no Exército Insurgente Ucraniano, ambos aliados da Alemanha nazista.

Protestos generalizados de pessoas no sul e leste da Ucrânia, bem como na Crimeia, contra o golpe patrocinado pelos EUA foram violentamente reprimidos pelo regime neonazista ucraniano combinado com as forças do Batalhão Azov.

Eles procederam ao montarem ataques contra a população predominantemente russa na Crimeia e na região de Donbass, marcada por graves violações dos direitos humanos, crimes de guerra, saques em massa, detenção ilegal e tortura. A Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas estima que cerca de 14.000 pessoas foram mortas em massacres e bombardeios de artilharia.

Os ataques russofóbicos contra a região de Donbass instigaram o povo a montar uma resistência armada e buscar o apoio da Rússia. Em abril de 2014, a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk foram declaradas estabelecidas, reforçadas por um referendo em 11 de maio de 2014.

Em 2014 e 2015, nas negociações entre a Ucrânia, Rússia, Alemanha e França em Minsk, a região de Donbass foi reconhecida como uma área autônoma sob a Ucrânia, todas as tropas estrangeiras foram retiradas e uma “linha de contato” foi estabelecida onde nenhum dos lados entraria ou cruzaria.

  • Qual é o status dos acordos de cessar-fogo de 2014 e 2015 na região de Donbass?

Os ataques contra a população da região de Donbass não cessaram após os acordos de Minsk de 2014 e 2015 com repetidas violações por parte da Ucrânia, que fortificou suas forças ao longo da chamada linha de contato. Somente este ano, as organizações de monitoramento registraram 8.000 violações do acordo, em grande parte do lado ucraniano.

Armas dos EUA, conselheiros militares e empreiteiros privados foram implantados em torno da área de Donbass para armar, treinar e instigar as forças militares ucranianas na montagem de ataques contra o povo de Donetsk e Lugansk.

O objetivo imediato dos EUA é provocar a Rússia para justificar sua intervenção militar intensificada e financiamento militar na Ucrânia, pressionar pela inclusão da Ucrânia na OTAN e obrigar a Alemanha e outros aliados na Europa a cancelar acordos comerciais com a Rússia, especificamente contra a operações do gasoduto Nord Stream 2.

A Rússia e o povo predominantemente russo de Donbass têm feito repetidos apelos por negociações para revisitar os acordos de Minsk de 2014 e 2015, a fim de garantir sua implementação, tornando suas disposições mais explícitas. A demonstração de força da Rússia desde dezembro em sua área de fronteira ocidental foi um chamado direto para negociações para revisitar os acordos de Minsk e forjar novos acordos para garantir a segurança das regiões de Donbass e pressionar por proibições claras contra a inclusão da Ucrânia na OTAN.

Provocada pelos EUA, a Ucrânia ignorou os pedidos de negociações. Em vez disso, intensificou os ataques contra Donetsk e Lugansk em 21 de fevereiro, disparando 1.500 tiros de artilharia em 24 horas, atingindo infraestrutura civil, incluindo usinas de energia, sistemas de água e prédios escolares.

Esses atos descarados levaram a RPD e a RPL a declarar a secessão da Ucrânia como o único recurso para acabar com sua opressão. Isso também aumentou os pedidos para que a Rússia reconhecesse a RPD e a RPL como estados-nação independentes tanto de dentro da região de Donbass, quanto da Bielorrússia e Rússia. A Rússia reconheceu formalmente a RPD e o RPL em 22 de fevereiro e imediatamente enviou tropas de “manutenção da paz” para fortalecer as defesas da região de Donbass contra ataques ucranianos e, posteriormente, montou uma “operação militar especial”.

O objetivo declarado das “operações militares especiais” montadas pela Rússia na Ucrânia diz respeito principalmente à luta do povo da região de Donbass, que assumiu agora a forma de sua defesa de seu direito à autodeterminação nacional.

  • O PCF condenou os EUA por provocar a guerra na Ucrânia? Os imperialistas dos EUA e da Rússia não são, de fato, igualmente culpados pelo atual conflito armado na Ucrânia?

De fato, o PCF já emitiu declarações denunciando as provocações de guerra e belicismo dos EUA na Ucrânia, especificamente seus ataques frenéticos contra a região de Donbass para provocar a Rússia. Também denunciou a expansão da OTAN para as fronteiras da Rússia, bem como intrusões dos EUA-OTAN e criação de problemas internos na Chechênia e na Geórgia, as chamadas revoluções coloridas. Os atos agressivos dos EUA e da OTAN contra a Rússia são duradouros e contínuos.

O PCF considera o atual conflito armado como principalmente resultado direto dos ataques intensificados das forças armadas ucranianas, instigados pelos EUA e planejados com assessores militares dos EUA, contra a população da região de Donbass.

As ações militares da Rússia na Ucrânia não são sem provocação. O PCF considera a ação da Rússia, taticamente, como uma contra-reação às incessantes provocações e ataques militares apoiados pelos EUA contra o Donbass. A escalada do conflito armado poderia ter sido evitada se a Ucrânia tivesse atendido aos apelos para que interrompesse os ataques contra o Donbass e se envolvesse em novas negociações. O PCF, no entanto, está ciente que o apoio da Rússia à região de Donbass é motivado por seus interesses imperialistas estratégicos de garantir e expandir seus interesses hegemônicos.

Se culparmos e condenarmos os EUA e a Rússia com igual peso pela escalada do conflito armado na região, estaríamos minando a justiça da luta pela autodeterminação nacional do povo de Donetsk e Lugansk, a valente resistência do povo de Donbass e seu esforço para tirar vantagem do conflito interimperialista ganhando o apoio da Rússia. Também tornará o povo de Donbass culpado por pedir à Rússia que ajude a repelir a agressão ucraniana.

Na verdade, é razoável criticar a Rússia e Putin por terem demorado tanto em estender apoio suficiente aos povos de Donetsk e Lugansk. Por oito anos, permitiu que os fascistas russofóbicos massacrassem 14.000 russos nascidos na Ucrânia, com a destruição de suas fábricas, casas, escolas, hospitais e serviços públicos e a migração forçada de milhões de russos, reduzindo assim a participação da população russa na Ucrânia de 22% em 2014 para 17% em 2022.

O povo de Donetsk e Lugansk deve defender firmemente seu direito à autodeterminação nacional e adotar uma política externa consistente com seus interesses nacionais.

Ao mesmo tempo, em que conquistam o apoio da Rússia, as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk também devem se posicionar firmemente contra o hegemonismo russo e exigir igualdade de tratamento como estados-nação independentes. No entanto, apenas os imperialistas dos EUA-OTAN e trotskistas exigiriam agora que o povo de Donetsk e Lugansk lute contra a “invasão” da Rússia, que os está ajudando a combater os fantoches fascistas de Kiev dos EUA e da OTAN.

  • Isso significa que o PCF considera a “operação militar especial” da Rússia contra a Ucrânia justificada devido aos seus objetivos declarados de acabar com os ataques contra o povo da região de Donbass?

Do ponto de vista da guerra revolucionária nacional do povo de Donetsk e Lugansk, o apoio militar russo é justificado e necessário. Antes do apoio direto da Rússia, eles estavam praticamente sendo massacrados pelas forças militares da Ucrânia apoiadas pelos EUA, que demonstraram total desrespeito a todos os acordos internacionais anteriores.

O PCF, no entanto, também está ciente que a Rússia é uma potência imperialista impulsionada por seus objetivos hegemônicos e por defender e expandir suas esferas de influência e controle. Enquanto a Rússia declara sua “operação militar especial” como congruente com o objetivo do povo Donbass de pôr fim aos ataques da Ucrânia, é motivada principalmente por seu objetivo imperialista de defender sua esfera de influência e pelo objetivo estratégico de reinstalar um estado-cliente na Ucrânia.

Se a Rússia mantiver suas declarações de atingir apenas alvos militares e não ocupar território, suas ações podem ser consideradas defensivas e retaliatórias que são geralmente aceitáveis ​​sob as regras internacionais de guerra. Será da conta da própria Rússia se não tiver aprendido nenhuma lição tanto da agressão e ocupação social-imperialista soviética no Afeganistão na década de 1980 quanto das guerras de agressão e ocupação dos EUA desde o final da Segunda Guerra Mundial, frustradas pela resistência, mas que causaram a morte de 25 a 30 milhões, bem como custos autodestrutivos para os EUA que aceleraram seu declínio estratégico.

Há informações de que as forças militares russas estão avançando para além da região de Donbass e ocupando o território ucraniano supostamente motivado pelo massacre de russos na região de Kharkov pelas forças do Batalhão Azov.

O PCF se junta aos apelos ao povo ucraniano para exigir o fim dos ataques fascistas russofóbicos e exigir que seu governo respeite e proteja os ucranianos de nacionalidade russa nas várias cidades da Ucrânia dentro e fora da região de Donbass.

Ao mesmo tempo, o PCF apoia sua luta para defender a soberania de seu país e na exigência de que a Rússia suspenda suas ofensivas militares, retire suas forças o mais rápido possível e abra caminho para o diálogo e a resolução pacífica do conflito.

  • Os ataques da Rússia contra a Ucrânia estão agora em seu quinto dia. Há notícias de vítimas civis e apartamentos residenciais danificados por foguetes. Pessoas em Kiev e outras áreas estão evacuando em massa. Por outro lado, a Rússia insiste que os civis não estão sendo alvejados e afirma ter eliminado 975 instalações militares ucranianas e derrubado jatos, helicópteros e drones. À luz desses desenvolvimentos, qual é o apelo do PCF?

Em tempos de intenso conflito armado, o nevoeiro da guerra aumenta e os fatos reais no terreno tornam-se difíceis de determinar em tempo real. Espera-se que ambos os lados aumentem sua ofensiva de propaganda para apoiar seus objetivos militares.

Até mesmo a fotografia amplamente divulgada de um apartamento em Kiev danificado por disparos de mísseis não foi verificada e contestada: a Ucrânia afirma que foi atingido por um míssil russo, enquanto há informações de que foi danificado por um míssil ucraniano ou foguete antimíssil que falhou.

Diante dos ataques blitzkrieg da Rússia, Kiev lamentou publicamente que foi “deixado sozinho” para lutar e declarou abertura ao diálogo para discutir a “neutralidade” da Ucrânia e outras questões. Isso foi seguido pela ordem da Rússia de suspender as operações militares em 25 de fevereiro.

No entanto, os imperialistas dos EUA e seus aliados intensificaram sua intervenção com a decisão dos EUA de estender uma ajuda militar de US$ 600 milhões à Ucrânia. Os EUA também conseguiram pressionar a Alemanha a enviar tanques e outras armas contrárias à sua própria política de não enviar armas para áreas de conflito. Isso aparentemente encorajou o governo Zelensky a retornar à sua posição bélica anterior e abandonar as negociações planejadas. A resposta da Rússia foi retomar seus ataques.

O PCF congratula-se com as novas notícias de que as linhas de diálogo permanecem abertas e que a Ucrânia propôs se reunir com autoridades russas na cidade bielorrussa de Gomel, e que a Rússia declarou que enviará sua delegação. As conversas devem começar hoje. A Rússia, no entanto, disse que não suspenderá novamente seus ataques militares durante o próximo diálogo.

O PCF insta a Rússia a suspender suas ofensivas militares contra a Ucrânia, a fim de aumentar as chances de sucesso das negociações e as autoridades de Kiev a interromper sua ofensiva contra o povo da região de Donbass, bem como os ataques aos russos por suas unidades territoriais russófobas e grupos de vigilantes neonazistas como o Batalhão Azov contra apartamentos e comunidades russas.

Mais importante ainda, o PCF insta os EUA e seus aliados na OTAN a pôr fim à intervenção e provocar a Ucrânia para escalar a guerra, e deixar o diálogo entre os dois países prosseguir e buscar resolver o conflito através de negociações pacíficas para discutir a questões levantadas por ambas as partes.

O PCF pede aos trabalhadores e ao povo da Ucrânia que exija o fim da guerra genocida contra o povo na região de Donbass, resista à agressão russa, oponha-se à intervenção dos EUA e da OTAN e lute pela neutralidade de seu país diante dos crescentes conflitos entre os hegemônicos poderes.

O PCF pede aos trabalhadores e ao povo da Rússia que reforcem o apoio à luta pela autodeterminação nacional do povo da região de Donbass e exija que o governo Putin suspenda imediatamente suas ofensivas militares contra a Ucrânia, estenda [os trabalhadores da Rússia] a solidariedade com o povo democrático da Ucrânia e avancem em suas próprias lutas contra os oligarcas russos e as classes dominantes.


[ENTREVISTA EXCLUSIVA] Jornalista Dmitri Kovalevich, comunista ucraniano, sobre a situação das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk.

Por Cíntia Xavier e Daniel Albuquerque.

A coisa pública brasileira, no intuito de esclarecer sobre o que ocorre na Ucrânia neste presente momento e elucidar mais sobre as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, obteve uma entrevista exclusiva como o ucraniano Dmitri Kovalevich, para que brasileiros possam ter informações relevantes que nos vem sendo negadas, devido ao intenso bloqueio midiático.

Dmitri é um jornalista ucraniano e participava da organização comunista banida ‘Borotba’. Após o golpe pró OTAN, Estados Unidos e União Europeia sofrido pela Ucrânia, a organização foi tornada ilegal em 2014 por protestos ativos contra o golpe e contra a institucionalização do neonazismo na sociedade ucraniana.

Sua organização apoiou ativamente os rebeldes do Donbass no conflito civil que, desde o golpe e a operação militar contra a população das regiões do Leste da Ucrânia por parte das Forças Armadas Ucranianas e sua estrutura paramilitar neonazista, causa uma dolorosa e sangrenta ferida na sociedade ucraniana.


A coisa pública brasileira: Como você definiria o movimento de independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk em termos ideológicos? (muitas pessoas no Brasil tem dificuldade em compreender isso.)

Dmitri Kovalevich: Bem, é apenas um desejo de viver separado de um estado que não gosta. Os motivos podem ser étnicos, religiosos, econômicos (como no caso da independência dos EUA da Grã-Bretanha) ou ideológicos. No caso do nosso conflito civil na Ucrânia podemos ver sim, a questão ideológica. A esmagadora maioria da região altamente industrializada de Donbass preserva principalmente sua mentalidade de classe e pró-soviética.

Historicamente sendo trabalhadores de várias origens étnicas, eles resistem à política de estado mono étnico na Ucrânia e suas tentativas de revisionar os resultados da Segunda Guerra Mundial, visto que as autoridades de Kiev promovem oficialmente o culto de fascistas da Segunda Guerra Mundial e conduzem a política de descomunização (proibição de partidos comunistas, símbolos, materiais, postagens na internet, etc.).

O movimento pela independência do Donbass foi desencadeado pelo golpe pró-EUA em 2014. Muitos ucranianos pró-soviéticos ou comunistas/de esquerda se mudaram de Kiev para Donetsk resistindo contra seus antigos vizinhos. Em 2015, foram assinados os acordos de Minsk. Implicaram a reintegração das repúblicas do Donbass de volta à Ucrânia, se isso permitisse que a região possua sua autonomia cultural. Kiev assinou, mas não cumpriu por 7 anos, pois isso seria ruim para impor o nacionalismo étnico.

ACPB: Qual o papel do socialismo/marxismo/comunismo na vida política das repúblicas de Donbass? (alguns dizem se tratar apenas de uma questão de estética)

D. K.: Como eu disse, muitos comunistas ucranianos, marxistas se mudaram para as repúblicas de Donbass do resto da Ucrânia fugindo do terror fascista. Muitos deles se juntaram aos rebeldes do Donbass (então — o exército das repúblicas). Muitos morreram em ações na guerra que dura 8 anos.

Devo enfatizar: nossa guerra começou não em fevereiro de 2022, mas na primavera de 2014 — quando voluntários neonazistas (paramilitares) foram enviados para cidades rebeldes do leste que não reconheciam o governo pós-golpe. E todos os liberais ocidentais que apenas começaram a gritar “Pare a guerra na Ucrânia” agora ignoraram completamente a guerra no Donbass.

Em ambas as repúblicas trabalham partidos comunistas. Você pode visitar o site do partido comunista de Donetsk (www.wpered.su)*. Os comunistas de Donbass são apoiados e auxiliados principalmente pelo Partido Comunista da Federação Russa. E o projeto de lei sobre o reconhecimento das repúblicas em fevereiro de 2022 foi apresentado exatamente pelos comunistas russos e depois adotado pelo parlamento russo.

Na foto acima, você pode ver um tanque sob bandeira vermelha — de comunistas de Donetsk que também participam da operação russa.

ACPB: Ambas as repúblicas possuem o mesmo perfil ideológico? (por exemplo, uma apresenta um brasão de armas com conotação mais nacionalista e outra possui uma simbologia mais soviética).

D. K.: Sim, quase não há diferença entre eles. Surgiram duas repúblicas apenas porque haviam duas regiões rebeldes com seus centros e fronteiras administrativas entre elas.

ACPB: Por último, mas não menos importante: há muitos esquerdistas, comunistas e socialistas no Brasil que se confundem com a propaganda ocidental e não sabem nada sobre o assunto. O que você diria para explicar que precisamos apoiar as forças do Donbass e a independência das repúblicas do Donbass?

D. K.: Muitos esquerdistas estão sob controle total da mídia ocidental. Podemos não saber pessoalmente o que está acontecendo na Indonésia ou na Bulgária — por isso tendemos a confiar na mídia de grandes empresas. E os grandes capitalistas investem bilhões em mídia não é em vão — seus investimentos são pagos quando você confia neles e promove sua política.

Eles têm um número grande de ferramentas para manipulação. Posso ver agora o influxo em massa de falsificações sobre nosso conflito. Você é bombardeado por milhares deles e todos visam pressionar seus profundos sentimentos humanos. Isso é fácil para manipular a moral das pessoas.

Muito provavelmente você não ouviu nada sobre o bombardeio sistemático de Donetsk, que não parou por 8 anos. E muito provavelmente você não ouviu falar sobre o ‘beco dos anjos’ de Donetsk — memorial às crianças mortas pelo bombardeio do exército da Ucrânia. Você ouve sobre a guerra e os sofrimentos apenas quando os rebeldes de Donetsk contra-atacam e um aliado da OTAN pode ser derrotado.

O terror da extrema-direita na Ucrânia deve ser interrompido e nossos camaradas devem ter a possibilidade de voltar para casa e trabalhar aqui legalmente. O fascismo e o racismo são uma característica do nosso regime (bem, o presidente Zelensky é apenas um fantoche, um ator contratado atuando como Presidente). Nossa ideologia nacional desde 2014 é baseada em culpar o comunismo e a ideologia de esquerda.

Mas o fascismo também ajuda a promover reformas neoliberais aqui — aumentando os preços de tudo, enquanto qualquer categoria de protesto contra isso está sendo rotulado como “pró-russo” e impiedosamente agredida por paramilitares fascistas. Este é um modelo para qualquer outro país. O fascismo é apenas uma ferramenta do capitalismo destinada a obter mais lucros. Se perder uma guerra em qualquer lugar — isso o abala (o capitalismo) — e é um alívio para os trabalhadores em todos os lugares.

* O site do Partido Comunista de Donetsk utiliza o domínio .su (Soviet Union).

[GETÚLIO VARGAS] Discurso da II Convenção do Partido Trabalhista Brasileiro, 1947.

Segundo discurso da série “A IMPORTÂNCIA DA DEFESA CRÍTICA AO LEGADO DE GETÚLIO VARGAS“, iniciada em 2019.

A coisa pública brasileira, em continuidade com o projeto de trazer discursos feitos por Getúlio à época de seu mandato como Senador, em 1946-1947, com fins de promover um debate justo acerca da complexidade dessa figura que tanto influenciou a história do Brasil, traz hoje o material proferido na II Convenção Nacional do PTB, em 1947. Getúlio Vargas, à época, realizou uma retrospectiva do mundo industrial do pós-guerra, em especial da Europa e dos Estados Unidos, e acentuou que são pontos do programa do PTB o aumento em quantidade e qualidade das atividades produtivas, e a defesa da legislação social.


RIO DE JANEIRO, 10 DE MARÇO DE 1947.

Trabalhadores do Brasil, estamos no limiar de uma nova era e precisamos concentrar todas as energias da inteligência e da ação para nos anteciparmos aos fenômenos que transformarão o ritmo da vida dos homens, dos povos e das nações. Depois de uma guerra que exigiu supremos sacrifícios, a humanidade ainda hesita entre o passado e o futuro, detendo-se na contemplação das ruínas e incerta em face dos novos valores. A paz ainda não desceu sobre os homens.

No Oriente, o prestígio do homem branco está sendo renovado pelas armas. A Europa ainda é um acampamento. A África é campo de disputas. Somente na América a liberdade tem seu clima*. Todos os povos buscam fórmulas para sua restauração. E no Brasil, como em toda parte, a intranquilidade é o pão cotidiano. A guerra foi um parêntese, armado como solução ou tentativa de solução provisória ao problema social, que estava desafiando todos os estadistas. A humanidade retoma seu caminho. E encontra todos os fenômenos agravados.

Antes da guerra, 100 organizações industriais dos Estados Unidos fabricavam 30% da produção desse país. Isto correspondia a 15% do total da produção mundial. Hoje, 100 empresas controlam 70% da produção industrial norte-americana, representando mais de 40% do total da produção do mundo inteiro. Durante a guerra desapareceram 500 mil empresas independentes. O fenômeno é tão grave que Wendell Berge, procurador assistente da República dos Estados Unidos e chefe do Departamento Antitruste, declarou: “A concentração do poder econômico em poucos grupos privilegiados é, hoje em dia, maior do que em qualquer época da história”.

A par desse fenômeno, se processam outros de importância capital. Em 1939, o salário dos mineiros de carvão dos Estados Unidos era de 24 dólares semanais, correspondentes a quase Cr$ 2.000,00 mensais de nossa moeda. Hoje, o salário dos mineiros de carvão nos Estados Unidos é de 66 dólares semanais, equivalente a mais de Cr$ 5.000,00 por mês. Mas o salário dos mineiros ingleses não alcança hoje 5 libras semanais, ou seja, Cr$ 1.600,00 mensais. Apesar disso, o preço do carvão norte-americano é igual ao do carvão inglês. Ninguém mais quer trabalhar nas minas de carvão da Inglaterra e estamos assistindo a uma crise de pavorosas consequências. Por quê? Porque enquanto uns empregam o trabalho mecânico a pleno rendimento, os outros, com instrumentos rudimentares, exaurem suas forças em escassa produção.

Todos apresentam críticas, todos se consideram capazes de salvar a humanidade. Mas ainda não se fez o diagnóstico do mal. Ou melhor, ainda não se tentou fazer um diagnóstico com serenidade, buscando-se as causas reais dos fenômenos. Quando a máquina a vapor e as grandes instalações industriais do fim do século passado começaram a criar os desajustamentos naturais a um novo ciclo econômico, surgiu Karl Marx com a concepção da mais-valia. Mas a ciência não evoluiu apenas no setor industrial. No campo agropecuário realizou verdadeiros milagres.

A Europa se libertou das importações de açúcar, multiplicou a fertilidade de suas terras com os adubos químicos e conseguiu manter seu ritmo de crescimento graças à utilização de todos os recursos da ciência. A mais-valia marxista deixou de ter importância econômica*, pois a margem com que o capital onerava a produção passou a ser insignificante em face da multiplicação da produtividade do homem, que os recursos da ciência, desenvolvida pelo capital, determinavam. A eletricidade e o motor a explosão colocaram ao alcance das massas inúmeros benefícios de que há meio século nem os mais ricos poderiam usufruir.

Os serviços sanitários, a luz, os serviços de transporte – mesmo com a crise atual – representam mais uma fase de evolução das massas. A imprensa, com seus novos maquinismos, rasgou horizontes de amplitude sem par na esfera da educação e cultura. E o rádio, finalmente, se apresenta hoje como o milagre da nossa geração. Mas todos esses fenômenos de evolução trouxeram um ritmo desordenado e confuso. Não se produziu apenas o necessário. A atividade humana se estendeu para o supérfluo, sem considerar que a resistência dos produtos vitais tem um limite.

Ao ônus econômico da produção ilimitada e desordenada do supérfluo se acresceram os ônus de atividades não relacionadas com a produção. A Europa, desejando manter em cada nação, por motivos políticos, o maior número de habitantes, foi concentrando atividades de toda espécie e estabeleceu um sistema econômico na importação de gêneros alimentícios. Pelos últimos cálculos, antes da guerra a Europa necessitava de 200 milhões de toneladas de gêneros alimentícios e importava essa massa gigantesca, além de manter uma política artificial de subvenção para determinadas culturas.

No fundo, a Europa não apresentava uma solução científica para seu problema. Sua solução era política e se baseava na troca de valores de horas de trabalho por um maior número de horas de trabalho de outros povos. Entre esses povos que contribuíam com maior número de horas de trabalho para manter o sistema econômico europeu estava o Brasil.

Eis a origem do Partido Trabalhista Brasileiro. Não é possível mais tomar em consideração o trabalho humano apenas na sua base quantitativa. É indispensável considerar outros dois fatores: o da multiplicação da sua quantidade e o da melhoria da sua qualidade. Multiplicação e melhoria só se alcançam por meios científicos. A multiplicação dos valores e a melhoria da qualidade das horas de trabalho representam a elevação econômica do trabalhador, a melhoria de seus salários e um nível de vida digno.

E este é o programa do Partido Trabalhista Brasileiro. Sem receio de erro, podemos diagnosticar a crise mundial como consequência da desproporção entre as horas de trabalho aplicadas na produção de utilidades e as horas de trabalho consumidas em inutilidades, somadas às horas de consumidores totalmente improdutivos. Onde as horas de trabalho aplicadas na produção de utilidades se multiplicam pela ciência, temos uma redução desse desequilíbrio, como ocorre no Canadá e nos Estados Unidos.

Mesmo assim, até nos Estados Unidos o peso das atividades semi ou totalmente improdutivas já se faz sentir, superando a evolução da ciência. Esse desequilíbrio determina a crise, que a inteligência deve dominar. A Revolução Francesa explodiu como consequência da pressão do consumo improdutivo sobre os trabalhadores produtivos. Nos últimos anos que precederam a guerra, a situação já se vinha agravando com o desenvolvimento de atividades dirigidas a um setor de produção de elementos prescindíveis, ao invés de se concentrarem na produção de utilidades indispensáveis.

Inúmeras outras atividades absorveram milhões de horas de trabalho ou de consumo improdutivo. A guerra acentuou ainda mais esse fenômeno e o após-guerra se caracteriza pela intensificação dessas atividades para a produção dispensável. A troca do resultado de horas de trabalho aplicadas em produção de utilidades indispensáveis por certo número de horas de trabalho aplicadas em bens de consumo dispensáveis ou supérfluos é um desperdício do trabalho e, portanto, uma redução do seu valor.

E o Partido Trabalhista Brasileiro surge como força para impedir esse mal. Eis, em linhas gerais, a nossa doutrina. Eis um aspecto do programa do Partido Trabalhista Brasileiro. Consideramos [que] os valores do capital não [são] preponderantes sobre os valores do trabalho. Eles, sempre que examinados como elementos constitutivos de bens de produção, se apresentam dinâmicos, ao nível de uma energia de operação, e são tanto mais úteis quanto mais multiplicam os valores iniciais das horas de trabalho do homem.

São estáticos os valores de capital que não multiplicam os valores de trabalho. E são negativos os que não servem nem à produção, nem à vida do homem. Esses valores negativos não podem ser considerados pelo Partido Trabalhista Brasileiro como legítimos. Mesmo porque são contrários, com sua negatividade, ao bem-estar coletivo.

A doutrina do Partido Trabalhista Brasileiro é resultante da atividade espiritual. O homem produz com inteligência e espírito. Esse partido é nacionalista, mas seu nacionalismo é defensivo e não agressivo. Deverá manter, rigidamente, sua estrutura nacional, porque as organizações políticas devem ser nacionais para poderem ser nacionalistas. Precisamos respeitar a sabedoria das nossas tradições e evoluir de acordo com as nossas possibilidades reais.

O Partido Trabalhista Brasileiro é essencialmente democrático. E, por ser democrático, compreende a necessidade da existência dos outros partidos, praticando a norma básica da democracia, que é o respeito à vontade e à opinião alheia. Nesta difícil conjuntura, sentimos todos que a democracia não sobreviverá à crise sem uma planificação econômica e social. Depois de meio século de choques sangrentos entre operários e patrões, a experiência Roosevelt criou, com o New Deal, o ambiente para uma nova filosofia política e social. O espírito liberal fulminou o New Deal. As consequências são as que aponta hoje Wendell Berge.

Na Europa, os ingleses revivem a era dos espartanos com um sacrifício patriótico que faz da privação glória e orgulho. E o Partido Trabalhista britânico enfrenta com energia a crise, realizando um programa social. Na França, Monnet traça um plano para a reestruturação da economia gaulesa. As dificuldades de seu êxito são excepcionais. A França, para o sucesso do Plano Monnet, precisa de, pelo menos, mais um milhão de toneladas de carvão mensais do que tem hoje. E não existe no mundo esse carvão.

A Bélgica adota outra política econômica: a da restauração psicológica através de um período de bem-estar que lhe é assegurado pela sobra de divisas. Nos Estados Unidos, Chester Bowles enfrenta “o amanhã sem medo”, baseando-se no full employment prosperity. No Japão, Edwin Pawley projeta a reorganização econômica do Oriente. Finalmente, a Organização das Nações Unidas recomendou, por unanimidade da assembleia, que seu Conselho Econômico e Social preparasse os planos de uma Comissão Econômica para a Europa.

O Brasil precisa de máquinas modernas para a renovação de seu parque industrial e para revitalizar seu sistema de transportes. Não devemos esgotar nossas disponibilidades no exterior com a importação de mercadorias supérfluas. Providenciemos também para que Volta Redonda desempenhe sua missão de fabricar máquinas para produzir máquinas. A planificação de nossa economia é ponto vital do programa do Partido Trabalhista Brasileiro.

Estão definidas as diretrizes básicas do partido. O trabalhismo no Brasil, todos o sentem, mesmo os seus adversários, é o grande movimento que empolga os espíritos e as consciências. Não visa o Partido Trabalhista Brasileiro conquistar posições políticas para satisfação de seus membros. Cada função é um encargo à nossa soma de responsabilidades. Sua disciplina assegurará o triunfo de seu programa e de seus ideais.

Entre os quatro grandes partidos do Brasil, o Partido Trabalhista Brasileiro foi o único que não só não apresentou redução de votos, como ainda demonstrou sua pujança com aumento do número de eleitores. É uma questão de fato. Apesar de ter contra si as dissidências, sub-repticiamente, os partidos improvisados para atrair operários à sombra do poder; apesar da preocupação generalizada de impedir seu crescimento, sem recursos, sem propaganda, elevou seu prestígio e se consolidou.

Insisto num ponto de grande importância para o futuro. O Partido Trabalhista Brasileiro não é o reflexo nem a projeção da minha personalidade. É o sentimento consolidado pela legislação que afirmou a consciência política do socialismo no Brasil. Não é a vontade de um homem e sim a opinião das massas e a cristalização das leis sociais que devem ser cumpridas.

O Partido Trabalhista Brasileiro é a estrutura política do direito trabalhista. Hoje, a reorganização do partido é um imperativo de seu desenvolvimento. O Partido Trabalhista Brasileiro abre suas portas à nova geração e dirige um apelo a técnicos, estudiosos, especialmente à juventude pura e vibrante, no sentido socialista, para que formem seus departamentos de todas as atividades, porque nenhum outro partido pode oferecer carreira tão livre e tão digna na estrada do serviço à causa pública. Ele é o partido dos trabalhadores e não dos políticos. Para aqueles devem ser franqueadas todas as portas e seus postos de comando ocupados pelos verdadeiros líderes das classes.

Ruiu a mística do poder. Os partidos conservadores esgotam-se, porque não satisfazem às necessidades das massas. As chamadas elites fracassam, porque só têm finalidades políticas e não compreendem o sentido econômico da evolução social. E o povo, angustiado e sofredor, manifesta seu descontentamento pela abstenção nas urnas.

[…] Estas observações são sugeridas pelo estudo da nossa existência e dos acontecimentos internacionais, feito por quem nada mais aspira na política do Brasil. Desejo apenas, antes de me afastar inteiramente da via pública, deixar no Partido Trabalhista Brasileiro um componente novo, uma força de equilíbrio que atenda às aspirações dos trabalhadores e eleve a nossa cultura como a expressão doutrinária do socialismo brasileiro.

Resumindo: constitui programa do Partido Trabalhista Brasileiro a defesa da legislação social elaborada em benefício do trabalhador brasileiro. É um patrimônio seu, que deve ser defendido e fiscalizado, para que o não destruam, soneguem ou deturpem, para que seja fielmente interpretado e cumprido.

Essa legislação foi acrescida de novas conquistas, como a conseguida pela representação trabalhista na Constituinte, as férias semanais remuneradas e a participação nos lucros das empresas. Essas novas conquistas, embora integradas na Constituição, não foram ainda cumpridas. Cabe também ao Partido Trabalhista Brasileiro, como definição de seu programa, bater-se pelo aumento, em quantidade e qualidade, das atividades produtivas do brasileiro, reduzindo as improdutivas.

A superação das primeiras sobre as segundas resolveria a crise que nos aflige, restabelecendo o equilíbrio orgânico do país. Esses são pontos do programa partidário nas atividades nacionais, dentro do território de nossa pátria. Fora de nossas fronteiras, isto é, no campo internacional, a bandeira que defendemos deve ser a da nossa tradição histórica, a bandeira do pan-americanismo – a política de amizade e colaboração com todos os países da América, para a defesa da ordem e da paz no continente.

As boas relações com os países extracontinentais devem estar subordinadas ao primado da paz e da tranquilidade dos povos americanos, sem qualquer sacrifício ao princípio da soberania e integridade de cada um deles. O ambiente que nos envolve, os fenômenos que influem sobre nós são tanto de ordem nacional como internacional. E num e noutro campo precisamos situar nossa posição. O programa do Partido Trabalhista Brasileiro, lançado no momento de sua organização e ampliado pela evolução dos acontecimentos, abre largos horizontes aos vossos estudos, à vossa capacidade de trabalho e à vossa dedicação pelo Brasil.

*Nota da página: De acordo com as leituras de Getúlio, através do desenvolvimento da indústria especializada, a multiplicação da produtividade de um trabalhador torna-se muito superior à época que o conceito de mais-valia foi cunhado. É nesse sentido que interpretamos sua frase acerca da perca de importância do conceito de mais-valia, em relação a multiplicação da produtividade a partir do desenvolvimento das forças produtivas. Através de um projeto de industrialização que construa máquinas que constroem máquinas e que sejam responsáveis por grande parte do processo produtivo, há cada vez menos necessidade da utilização da mão de obra humana. Getúlio, portanto, com essa leitura, defendia uma política de qualificação e aumento do valor do trabalho atrelado ao projeto de industrialização brasileira para o suprimento das necessidades internas. A página, contudo, têm sua própria interpretação sobre a importância do conceito de mais-valia para o trabalho capitalista no século XX e XXI, com as respectivas indústrias e divisão social do trabalho de seu tempo, que em alguns pontos diverge da análise de Getúlio, o que não traz prejuízo pro conteúdo geral do discurso de Vargas.

Fonte: Coleção Perfis Parlamentares 72 – Getúlio Vargas. 2ª Ed. Maria Celina D’Araujo. Câmara dos Deputados. 2015-2019.

[MIYAMOTO MUSASHI] Fichamento “Sobre a atitude do espírito e o olhar na arte militar.

A coisa pública brasileira inaugura uma série a parte de textos, discussões e reflexões sobre ciência militar. Selecionaremos para reprodução trechos e obras de autores clássicos, modernos e contemporâneos que abordam a área, bem como produção autorais brasileiras via colaboração cujo assuntos sejam considerados relevantes para os estudos e reflexão brasileira. Caso tenha interesse em colaborar com algum material autoral, entre em contato conosco através das nossas redes sociais. Abrimos essa série, portanto, com o fichamento e comentários de “Sobre a atitude espiritual na arte militar” e “Sobre o olhar na arte militar” de Miyamoto Musashi, por Nelson, disponível originalmente no Medium.


Os textos “Sobre a atitude espiritual na arte militar ” e “Sobre o olhar na arte militar”, ambos do notório samurai Miyamoto Musashi, fazem parte de seu livro, conhecido em português como o “Livro dos Cinco Anéis”. Este antigo tratado militar consiste em uma obra de enorme valor, dividida em cinco capítulos, considerado o registro mais acurado daquilo que era considerado por Musashi como seu mais valioso legado, seu meticuloso e racional modo de pensar a arte militar, e em particular, duelos individuais.

Tal doutrina, cabe destacar, arduamente constituída através de uma vida de treinamentos, combates de vida ou morte desde a juventude, e meditações filosóficas profundas sobre a realidade e suas possíveis aplicações na arte da guerra, não deve de forma alguma ser subestimada ou ignorada em nosso tempo presente. Esta importante obra, embora tenha um foco evidente no kenjutsu, ou seja, na esgrima japonesa, mais especificamente, do estilo Niten ichi-ryū, fundado pelo próprio Musashi, não deixa de apresentar reflexões relevantes sobre a arte da guerra de forma mais geral. Pelo contrário, como o autor deixa claro logo em seu primeiro capítulo, a exemplo do pensador chinês Sun Tzu, que todo soldado deve ter razão de general, e todo general deve ter razão de soldado.

Mesmo quando analisa e se esforça para refletir sobre duelos individuais, sua especialidade, na qual, por sinal, sagrou-se vitorioso por mais de sessenta vezes, além de terminar sua “carreira” invicto, Musashi também nos ensina conceitos aplicáveis para confrontos de proporções inimaginavelmente maiores entre exércitos e nações. Exatamente nesse sentido, os textos sobre os quais aqui nos debruçaremos, “Sobre a atitude espiritual na arte militar ” e “Sobre o olhar na arte militar”, tem um enorme valor, e seu conteúdo deve ser absorvido e assimilado de forma crítica.

Em resumo, neste presente texto, tentaremos desenvolver uma reflexão sobre a arte da guerra e sua estreita relação com o estado de espírito, portanto, o estado psicológico, de quem a pratica, bem como analisar a importância e os tipos de olhar utilizados para analisar aquilo que o lendário samurai chamava de “arte militar”.

“Arashi Rikan II as Miyamoto Musashi”, 1832. Gigadō Ashiyuki.

Sobre a atitude do espírito na arte militar:

Musashi alude ao fato de que, segundo os fundamentos da arte militar, o estado de espírito de um guerreiro ou general não deve ser diferente do de sua vida comum. O autor pondera que, tanto na arte militar quanto no dia a dia, o espírito não deve sair de balanço. Sobre isso, nos diz o intelectual:

Mantenha o espírito aberto, reto, sem tensão excessiva nem relaxamentoem perfeito equilíbrio. Aja com tranquilidade, tendo o cuidado de evitar a paralisação, mesmo por um instante. O espírito deve se manter dinâmico e livre.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Refletindo, podemos entender que Musashi, ao dizer que tanto na vida cotidiana quanto na prática de artes militares devemos manter o mesmo estado de espírito está afirmando que a atitude espiritual deve ser a mesma para tudo na vida. Ainda assim, como veremos abaixo, isso não implica, de forma alguma, em rigidez ou fixidez. Ao descrever tal estado, o lendário samurai, reforça que tanto o excesso de preocupação e tensão, ou seja rigidez excessiva, quanto a abundância de relaxamento e despreocupação devem ser evitados.

O samurai inicia uma reflexão que resvalará posteriormente, sobre a paralisia, uma constante em sua obra e em sua teoria dos duelos, como veremos em outros textos sobre este tema. Um espírito excessivamente rígido, se detém sobre problemas pequenos todo o tempo, e portanto, tem dificuldades em progredir e se adaptar em questões mais gerais. Já um espírito abundantemente despreocupado, tem dificuldades em ambos, mas sobretudo em resolver os pequenos problemas, pois não se detém sobre eles de forma alguma. 

Ambos tem propensão a paralisia, em diferentes sentidos e esferas, este, que é um estado fatal para qualquer combatente ou comandante. Não é, contudo, de uma mera questão de “caminho do meio”, como poderiam imaginar alguns incautos, a que se refere o autor. Prossegue, ao recomendar que se proceda com tranquilidade, fazendo uma alusão direta sobre evitar o estado de paralisia.

Sua frase subsequente, enquanto complemento, alerta para que o espírito se mantenha livre, mas mais fundamental que isso, que se mantenha dinâmico. Com isso, o autor nos demonstra que, acima de tudo, o estado de espírito ideal e correto, é aquele que transita, que é dinâmico, que se adapta as circunstâncias necessárias.

Nesse sentido, se faz urgente uma reflexão. Como já dizia o filósofo Karl Marx, complementado com algumas noções referentes ao filósofo Heráclito de Éfeso, se a matéria precede a consciência, o espírito, não se desprezando a importância deste último, e a realidade material em si, e a vida em sociedade, como se sabe, são constante movimento e transformação, todo o tempo, disso podemos entender que as afirmações de Musashi fazem todo sentido. 

O estado de espírito para sobreviver em um mundo natural e social cuja realidade material está sempre em transformação, repleta de contradições, em constante movimento, só poderia ser igualmente dinâmico e estar, na mesma medida, equilibrado sobre o caos aparente que esconde a perfeita ordem e harmonia que é esta mesma realidade. Musashi, adiante, reflete sobre como funciona o estado de espírito, e sua relação com a arte da guerra e com duelos individuais, no que basicamente recomenda uma “receita de bolo” em termos de atitude espiritual.

“Miyamoto Musashi Masana”, 1867. Tsukioka Yoshitoshi.

Prossegue, então, afirmando que em momentos em que o corpo se encontra em repouso, o espírito não deve de forma alguma estar completamente relaxado. Contudo, completa este raciocínio aludindo ao fato de que em situações em que o corpo se encontra agitado, o espírito e a consciência devem se manter alerta, atentos, não se deixando guiar ou proceder apenas pelo desejo, paixões ou pelas necessidades do corpo. O autor, abaixo, ao prosseguir com sua explicação, complementa este bloco de pensamentos com as seguintes reflexões e recomendações:

“1º. O corpo não segue o espírito, e o espírito não acompanha o corpo.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Apesar de parecer uma frase trivial, tal afirmação se trata do ponto de partida para uma reflexão sobre o ser. Musashi entra de cabeça na questão da existência imediata enquanto corpo, e da existência sensível e racional enquanto consciência, ambas formas de existir em multiplicidade no mesmo ser. Ainda assim, na contradição que é existir enquanto humano em nossa realidade, não raro é verificável que nem a existência imediata na realidade e no meio enquanto parte integrante e existente neste e restrito as limitações relativas a este, representado pelo corpo, segue necessariamente os desígnios do espírito, tampouco a consciência e o espírito necessariamente acompanham tal corpo em suas paixões e desejos. Embora seja importante ressalvar que ambos existam ao mesmo tempo, em uma unidade contraditória e caótica que é força motriz interna do próprio ato de existir, e não fracionados ou apartados como interpretaria boa parte do pensamento hegemônico ocidental.

2º. Preste atenção no espírito, mas não no corpo.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

A partir da primeira reflexão, Musashi deriva esta segunda, partindo da premissa da dificuldade de sequer tomar consciência da existência imediata na realidade e no meio enquanto parte integrante e existente neste e restrito as limitações relativas a este, representado pelo corpo, sobretudo dentro de um contexto de artes marciais, ou seja, militares, em que o indivíduo entra em um estágio de concentração extrema para cumprir objetivos e tarefas específicas e complexas e deve gerenciar e direcionar seu foco. Com isso, o autor aconselha que se mantenha o foco e a atenção no espírito, mas não no “corpo”. Este segundo, deve apenas “ser”, leve, relaxado e rápido.

3º. Não deixe nada fora do alcance do espírito, mas mantenha-o sereno, sem excesso de ânimo.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Musashi nos trás a noção de que nada deve estar de fora das possibilidades de contemplação do espírito e da consciência, mas não nos deixa de explicitar claramente a trava, de que nada de bom retira o espírito se nenhuma relação tem com a realidade as reflexões e sensações a partir deste. Portanto, mantenha-o sereno e sem excesso de ânimo, embora contemplativo e ciente de todas as possibilidades.

“4º. Mesmo que na aparência o espírito se apresente fraco, no fundo ele deve ser forte. Mantenha o seu espírito sempre inescrutável para os outros.”

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

“Hijikata Toshizô, vice comandate do Shinsen-gumi”, autor e data desconhecidos.

O autor alude para a necessidade de que pessoas de corpo “pequeno”, devam conhecer e aprender sobre tudo o que é grande no espírito e na consciência, e que pessoa de corpo “grande” devem se debruçar em conhecer as coisas pequenas e delicadas do espírito.

“Tanto aquele de corpo grande como o de corpo pequeno devem ter o espírito reto, mantê-lo imparcial em relação a si próprio.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Com tal recomendação, Musashi reforça para um ponto que é central e se estende por toda a sua obra: a questão da busca pela verdade, da autocritica, e da correção de equívocos do pensamento, do espírito, do corpo, e da execução da técnica. Para que isso seja possível, é fundamental seguir o conselho destacado sabiamente pelo autor, e manter seu espírito imparcial em relação a si próprio, bem como ser reto e coerente. Em seguida, complementa o samurai, arrematando a conclusão do raciocínio:

“É necessário conservar o espírito imaculado e aberto, e a sabedoria dentro de amplos horizontes. E é essencial polir tanto a sabedoria como o espírito. Aguçar a sabedoria. Conhecer a justiça e as injustiças do mundo. Penetrar em todos os campos das artes, percorrer seus caminhos. Evitar sempre ser enganado por outrem. Só então se atingirá a sapiência da arte militar. Na sabedoria da arte militar, aprende-se a discernir coisas distintas entre si.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”

Com tais palavras, o autor reforça a necessidade de se cultivar a sabedoria, ponto comum com a obra de Sun Tzu, de quem o samurai era leitor. Para além disso, o filósofo nos auxilia a compreender melhor sua definição para o conceito de “sabedoria”, ao definir características, atitudes e práticas que se relacionam com esta.

Musashi explicitamente recomenda que o general e o guerreiro conheçam a justiça, o mundo real e as suas injustiças, algo que é essencial para qualquer pensador prático que trabalha num campo tão influenciado pelas ciências humanas como é a arte da guerra. Conseguir compreender, manipular e utilizar todos estes princípios e variáveis em um curto espaço de tempo, com maestria, são necessários anos de treinamento do corpo e da mente. Ao encerrar suas reflexões sobre o espírito na arte militar, conclui o lendário samurai:

“Mesmo nos momentos tumultuados de um combate, é preciso buscar os preceitos da arte militar, mantendo o espírito inabalável.”

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre a atitude espiritual na arte militar.”


Batalha naval e terrestre de Hakodate: República de Ezo vs Império Meiji. Xilogravura de Utagawa Yoshitora (assinado como Nagashima Mosai).

Sobre o olhar na arte militar:

Esta passagem é iniciada, como um raio que parte o tronco de uma enorme árvore anciã, com Musashi diferenciando o que considera os dois tipos de olhar: o de ver, como espectador, e o de perceber, como analista. Sobre ambas as formas do olhar, diferencia o autor:

O olhar da percepção é poderosoenquanto o de apenas ver é fraco. Ser capaz de enxergar como se estivesse perto o que está longe e como se estivesse longe o que está perto, eis o essencial na arte militar.”

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre o olhar na arte militar.”

Fortaleza Goryokaku, quartel general do exército rebelde pró fundação da República Samurai de Ezo. Observemos as fraquezas e virtudes de tal estrutura defensiva.

Com suas ponderações expostas, Musashi reforça o entendimento de que é necessário ter percepção das pequenas coisas, quando estamos a uma grande distância, visto que a visão é difícil em tais circunstâncias. E em sentido inverso, mas não menos importante, quando estamos de perto, e nossa percepção pode ser poluída por infinitas particularidades, devemos focar o olhar objetivo e direto, para não perder tempo, momentum e ritmo.

Sobre isso, nos reforça Musashi ao encerrar tal trecho de sua obra:

O olhar deve ser o mesmo tanto num combate individual como numa batalha de exércitos. Ver os dois lados, sem mexer o globo ocular, é fator de grande importância. Mas todo esse aprendizado demanda disciplina e paciência, não pode ser aprendido de repente, em momentos de urgência. Depois de ter compreendido tudo o que foi exposto aqui, é necessário refletir sobre a questão do olhar — que deve se manter o mesmo, tanto nas circunstâncias da vida cotidiana como em quaisquer outras.

MIYAMOTO, Musashi. “Livro dos Cinco Anéis”, “Sobre o olhar na arte militar.”

[ANTONIO GRAMSCI] “Todo homem é filósofo”.

Texto originalmente publicado na Revista Espaço Acadêmico, de título “Todo Homem é Filósofo”, por António Gramsci, célebre intelectual italiano, árduo do socialismo científico.


Todo Homem é Filósofo:

É preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são ‘filósofos’, definindo os limites e as características desta ‘filosofia espontânea’, peculiar a ‘todo o mundo’, isto é, da filosofia que está contida:

  1. Na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo;
  2. No senso comum e no bom senso;
  3. Na religião popular e, consequentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por ‘folclore’.

Após demonstrar que todos são filósofos, ainda que a seu modo, inconscientemente já que, até mesmo na mais simples manifestação de uma atividade intelectual qualquer, na ‘linguagem’, está contida uma determinada concepção do mundo, passa-se ao segundo momento, ao momento da crítica e da consciência, ou seja, ao seguinte problema: é preferível ‘pensar’ sem disto ter consciência crítica, de uma maneira desagregada e ocasional, isto é, ‘participar’ de uma concepção do mundo ‘imposta’ mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos desde sua entrada no mundo consciente (e que pode ser a própria aldeia ou a província, pode se originar na paróquia e na ‘atividade intelectual’ do vigário ou do velho patriarca, cuja ‘sabedoria’ dita leis, na mulher que herdou a sabedoria das bruxas ou no pequeno intelectual avinagrado pela própria estupidez e pela impotência para a ação), ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica e, portanto, em ligação com este trabalho do próprio cérebro, escolher a própria esfera de atividade, participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade?

Pela própria concepção do mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que compartilham um mesmo modo de pensar e de agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos sempre homens-massa ou homens-coletivos. O problema é o seguinte: qual é o tipo histórico de conformismo, de homem-massa do qual fazemos parte?

Quando a concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada, pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de homens-massa, nossa própria personalidade é compósita, de uma maneira bizarra: nela se encontram elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista, preconceitos de todas as fases históricas passadas estreitamente localistas e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado.

Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais evoluído. Significa também, portanto, criticar toda a filosofia até hoje existente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular.

O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um ‘conhece-te a ti mesmo’ como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa análise.”

Fonte: Revista Espaço Acadêmico.

[NELSON WERNECK SODRÉ] Imperialismo e neoliberalismo.

Artigo publicado em 1996 na Revista Princípios, de título “Imperialismo e Neoliberalismo.” Escrito pelo célebre historiador, cientista político, militar e teórico marxista, Nelson Werneck Sodré:


As grandes mudanças de que foi palco o mundo, particularmente as que afetaram o destino da extinta União Soviética, estiveram e continuam a ter profundos e amplos efeitos na luta ideológica. O monopólio da informação e a intensidade com que efetiva a sua tarefa de mistificar a realidade histórica desempenham função essencial na imposição de conceitos cuja circulação generalizada, às vezes devida à mera repetição, busca apresentar a fase atual como definitiva, isto é, dotada de estabilidade que lhe assegura longa duração, pretendendo mesmo a eternidade.

É o “fim da História”, no seu mais rigoroso sentido. Assim, devem desaparecer das análises e discussões fenômenos e conceitos que até bem pouco eram constantemente abordados, e cuja discussão era o cerne da luta ideológica. Essa propaganda em massa, alicerçada fundamente no monopólio da informação, fazia crer que a crise da União Soviética era a crise do marxismo e do socialismo. Desapareciam, assim, as razões para colocar em debate problemas que, segundo a propaganda, estavam resolvidos, e sobre os quais deve pairar o esquecimento, pois que são o passado. E o pensamento deve ceder lugar, gostosamente, à “modernidade”. No que nos afeta de perto, ao Brasil e ao povo brasileiro, [dizem que] não há motivo mais para analisar o que antes situávamos como revolução de libertação nacional.

Não há mais razão para falar em libertação nacional — dizem — porque não há mais, a rigor, a categoria nação. Num mundo definido, agora, pela “globalização”, tudo o que estava ligado ao nacional — e só era nacional o que era popular — devia ser remetido ao esquecimento, não tinha mais razão de ser. A propaganda visava particularmente a área da economia. Os economistas, em cuja grei foram recrutados os profetas da “nova ordem”, aceitaram, pacificamente uns, ardilosamente outros, que não cabia mais a proteção ou a reserva do mercado interno.

Na “globalização” perdia sentido discutir barreiras alfandegárias: o mercado era um só. Essa objetividade quanto à meta visada com mais urgência, e que afetava profundamente o conceito de nação, era apenas a forma agressiva de colocar como imperativo e irrecusável o triunfo absoluto do capitalismo, agora em dimensão universal.

A luta ideológica, consequentemente, não tinha mais razão de existir. O terreno vinha sendo preparado, desde algum tempo, com a confusão nas relações entre capital e trabalho, com esforço em demonstrar que havia uma composição orgânica nova no capital. A campanha procurava evidenciar que o espaço do trabalho, na sociedade, estava minguando tanto que não havia mesmo que discutir os problemas antes suscitados por ele.

A nova sociedade seria composta de uma só classe: a burguesia. As análises nesse terreno começaram antes da derrocada da União Soviética e como que a anunciavam. Era a preparação para a fase de aproveitamento do êxito, que se seguiu àquela derrocada e acabou se definindo no neoliberalismo. Extinta a categoria nação — como decretou o neoliberalismo -, não há como tratar de libertação nacional, e menos ainda de revolução: a “nova ordem” é fixa, estável, definitiva, não há o que mudar nem como mudar.

A perplexidade de muitos, anestesiados pelo monopólio da informação, tinha certa razão de ser, para os inocentes em política, pelo ineditismo do fenômeno. Normalmente, o raciocínio é analógico, isto é, parte da comparação com o modelo anterior.

Ora, não há modelo anterior de mudança como aquela assinalada pela derrocada da União Soviética. Foi relativamente fácil apregoar que a crise da União Soviética era a crise do socialismo e do marxismo, era vitória absoluta e final do capitalismo, agora dono único do mundo. O sonho hitleriano de um mundo só, sob um só dominador, estava consumado. Daí a suposição de uma moeda só, o dólar, e uma língua só, o inglês, acalentada por alguns espertos e aceita pelos ingênuos.

Embora pequeno, o prazo já foi suficiente para tomar clara a visão real: o mundo posterior à crise da União Soviética está cheio de contradições, minado por antagonismos cujo processo é tormentoso, necessariamente. No nosso caso, é preciso recolocar o problema da revolução de libertação nacional. Essa mudança profunda está no palco: o neoliberalismo não a extinguiu. Antes, deu-lhe novo contorno e nova realidade.

Nações como o Brasil, particularmente devido ao seu passado colonial, cujas sequelas não foram ainda superadas, necessitam, urgentemente, vencer o atraso histórico, para alcançar dimensões novas, no século XXI, no mais breve espaço de tempo, no decorrer de uma geração. Daí a necessidade de mobilizar todos os recursos e aproveitar todas as condições. Daí a necessidade de ter um Estado gerido por forças progressistas, centro motor de uma concentração interna de meios para canalizá-los no sentido de fazer avançar o processo.

O Estado pode ser, nessas condições, instrumento eficaz na luta pela emancipação do jugo dos monopólios externos, ditos multinacionais. É dessa verdade que resulta a luta interna contra o Estado. Todos desejamos mudar o caráter do Estado, no Brasil. Não no sentido pregado pelo neoliberalismo, mas justamente no sentido oposto. A reforma do Estado deve visar à continuação e ao fortalecimento da luta pela emancipação nacional.

O caráter da composição do Estado é que o define. Esse caráter depende da correlação de forças entre as classes, interna e externamente. A reforma do Estado, de que realmente muito necessitamos, ocorre em meio às contradições de classe. Daí o fato de que há classes, no Brasil, e ainda bastante poderosas, que apoiam o neoliberalismo importado e somam com o seu esforço para reduzir ao mínimo o papel do Estado.

É a composição de forças, no Estado, que define a etapa do desenvolvimento da luta pela emancipação nacional. O setor estatal, em um Estado desprivatizado, isto é, despojado do seu atual caráter de servidor dos interesses privados, pode ser a base material para o desenvolvimento. Foi a secular e bem conhecida privatização do Estado, no Brasil, que levou à degradação, refletida, inclusive, na ineficiência dos serviços públicos e na corrupção de seu uso. Assim, a desmoralização do Estado facilitou profundamente a ofensiva do neoliberalismo para destruí-lo.

A questão democrática:

Na atual etapa do desenvolvimento histórico, e diante da avassaladora ofensiva do imperialismo, rotulado agora de neoliberalismo, as questões políticas fundamentais continuam a ser a nacional e a democrática. Elas, como sempre, estão unidas e não podem ser entendidas separadamente. No nível dos acontecimentos e diante da referida ofensiva, parece ficar em destaque, como dominante, a questão nacional.

Claro está que os seres humanos, particularmente aqueles que conheceram duas guerras mundiais em meio século, acalentam sempre a utopia de um mundo só, sem fronteiras nacionais, ou em que essas fronteiras sejam como limites geográficos entre províncias. Mas é claro, também, que a própria existência do imperialismo mostra como a nossa época está distante da realização desse sonho, agora só existente como utopia.

A “globalização” é, nos moldes como a apresenta o neoliberalismo, a negação daquele sonho. Ela busca mistificar a dominação imperialista, sob o império do mercado, transformado agora em mito milagroso, capaz de operar prodígios. Prega o fim das nações, procurando esconder que a desigualdade entre elas permanece e se aprofunda, com a supremacia, agora absoluta, daquela nação em que o capitalismo atingiu a etapa imperialista.

A “globalização” consiste em tomar sagrada, sem contestações, essa dominação. As nações periféricas, para empregar um eufemismo, devem aceitar a dominação: o mercado regulará as diferenças no desenvolvimento. Os Estados devem ser debilitados, como preparação para a sua extinção, nas nações periféricas, mas não naquelas que comandam o imperialismo. Esse processo demolidor está a exigir o reexame da questão democrática.

Nos quadros da democracia burguesa, é preciso lembrar, para uma análise preliminar, o fenômeno histórico da dualidade: a democracia é, de um lado, a forma assumida pela dominação burguesa na fase da concorrência; mas, de outro lado, é na decorrência da expansão do capitalismo, na sua fase ascensional, que a luta de classes e a correlação de forças obrigam a que o exercício dessa dominação se processe no marco das normas democráticas.

A etapa imperialista acarreta o esforço da democracia burguesa para reduzir a vigência das normas e franquias alicerçadas em grandes lutas passadas. O imperialismo, apogeu do desenvolvimento capitalista, toma cada vez mais instável a referida vigência. Ele sempre visou àquilo que o autoritarismo concretizou, sempre que possível: a progressiva eliminação dos direitos democráticos.

O neoliberalismo, etapa e forma atual do imperialismo, tende, por isso mesmo, e com o poderoso instrumento do monopólio da informação, a levar essa eliminação à etapa final: é o “fim da história”.

Democracia só existe quando vigora para amplas maiorias:

Exercendo a dominação, a burguesia, na etapa atual do desenvolvimento do capitalismo, busca a limitação, e até a extinção dos direitos democráticos. Mas ao mesmo tempo, apresenta esses direitos, que lhe foram arrancados, como sua criação e benemerência, buscando manter a ilusão de que tais direitos, na forma como existem, asseguram espaço suficiente para o exercício da cidadania a todos.

A luta pela emancipação nacional está, pois, indissoluvelmente ligada à luta por manutenção e ampliação desses direitos. Daí a necessidade da participação popular nessa luta, em níveis cada vez mais altos. Trata-se de levantar a bandeira da democracia contra essa degradação. A tradição democrática pertence ao povo, e não aos monopólios. O exercício da democracia deve visar à etapa da democracia de massa. A democracia não existe quando o seu espaço e a sua vigência são estreitos, são limitados, próprios de minorias. Ela só existe quando vigora para amplas maiorias. Aí ela está viva.

Convém, desde logo, definir o conceito de democracia, tão falseado e conspurcado na sua vulgarização e desmoralização. A democracia, no fim das contas, é determinada pelas relações de propriedade e de poder. São os avanços nessas relações que definem o avanço democrático. Os recuos nela denunciam alterações negativas. Essas diferenças positivas e negativas, no grau de democratização e nos limites da formação burguesa, definem etapas de desenvolvimento da democracia.

No quadro atual do processo político brasileiro, é fácil constatar os sucessivos recuos em nosso regime dito democrático. Desde a Constituição de 1988, e particularmente em tudo que se relaciona com a chamada “reforma constitucional”, esses recuos estão em escandalosa evidencia. Mas os executantes de ditas reformas persistem apregoando que a democracia existe, entre nós, e que são democratas, e que a discussão das reformas se desenvolve na plena vigência da democracia.

As propostas em discussão no Congresso, como aquelas já consagradas pela maioria de seus membros, importam sempre em cassação de direitos democráticos. O arrolamento desses antigos direitos, hoje letra morta, assinala os recuos profundos na democracia brasileira que o neoliberalismo vem comandando com singular pertinácia e firmeza de propósitos.

O estreitamento da democracia, entre nós, tem sido balizado no triste deslocamento para a direita de muitos esquerdistas, ou tidos como tais, ou que se apresentaram como tais, inclusive economistas esmagados pela fúria publicitária do neoliberalismo, fundada não em discussões, mas no monopólio da informação, particularmente pelo controle dos meios de massa, entoando o coro em que o conceito de democracia perdeu sentido e a luta ideológica desapareceu do cenário. A perplexidade diante do quadro tanto internacional quanto nacional como que cegou aqueles cuja identificação com a democracia era expressiva.

A característica desse quadro é a confusão, particularmente a confusão conceitual. A confusão essencial é aquela que faz passar por democráticas posições e medidas que tendem sempre a reduzir os direitos da cidadania. A sonegação da realidade, encoberta e escondida pela nebulosa da propositada confusão, desloca as discussões políticas, nos estreitos limites em que ela se exerce, para questões semânticas e secundárias.

A necessidade preliminar e essencial, portanto, consiste em centrar as discussões políticas no quadro dos problemas fundamentais do nosso povo. Não é a temática da “globalização” e da força reguladora do mercado que deve ocupar as atenções, mas a triste realidade dos graves problemas com que nos defrontamos. Velhas palavras de ordem, robustecidas pela repetição, dominam o cenário. Só se escreve e se fala na necessidade de reduzir o papel do Estado na economia e de tornar ilimitada a liberdade do mercado, permitindo que este determine os rumos.

Enquanto se discute o sexo dos anjos, prosseguem, inexoráveis e tempestuosos, a “privatização” das empresas estatais, os violentos cortes nos gastos correntes, deixando um roteiro de ruínas: o sucateamento da rede hospitalar, a destruição da estrutura do ensino público, o fim da pesquisa científica e do estudo das inovações tecnológicas. A salvação do país está reduzida à demissão em massa de funcionários públicos, à redução dos salários, à reforma da previdência para ampliar espaço às empresas privadas.

Menos gente trabalhando, funcionários sem estabilidade, escolas sem professores — este é o quadro pantanoso de uma estagnação prolongada e ameaçadora. Enquanto se acelera o andamento dessa reforma demolidora, o salário é aviltado, a miséria amplia consideravelmente as suas proporções, as doenças dizimam a população, o desemprego cresce a cada dia, mas o neoliberalismo prossegue na sua marcha sem pausa rumo à “modernidade” — é o “fim da história”.

A política é o manejo dos dados da realidade:

Democracia é um regime cuja essência ultrapassa em muito a realização de eleições. As eleições, isto é, o provimento do poder pela escolha popular, são um elemento da democracia. Isoladamente, e nas condições do Brasil, elas aparecem como o engodo de apresentar a parte como o todo. A estrutura da sociedade brasileira retira ao processo eleitoral a característica democrática. Esse processo, no seu formalismo, é uma espécie de concessão às aparências.

A subordinação do processo eleitoral à triste realidade de uma estrutura social que o desfigura denuncia a presença, no Brasil, de uma sociedade autoritária, elitista e excludente. A luta política, nas proporções agudas, mas difíceis com que ela se apresenta hoje, entre nós, exige a aceitação da situação concreta, incorporando à teoria a dose de pragmatismo inerente à realidade. A política, é bom não esquecer, é o manejo dos dados que a realidade apresenta.

As classes sociais:

A situação confusa com que nos defrontamos está a exigir, preliminarmente, o reexame da sociedade brasileira e da sua divisão em classes. Os estudos anteriores, por assim dizer clássicos, colocavam em relevo a presença dominante, na nossa sociedade, de uma classe secularmente detentora do poder, com os seus alicerces no escravismo e na propriedade territorial. Esse foi o quadro que motivou a colocação, nos estudos, de uma espécie de feudalismo, retratado na longa e indisputada predominância de uma classe com esses traços característicos. O avanço das relações capitalistas, aqui, vencendo grandes resistências, teve de coexistir com a pesada herança histórica mencionada.

O aviltamento do trabalho por força do escravismo secular foi um traço dessa resistência. Mas o traço fundamental residiu na propriedade da terra e na classe que a detinha. Daí o longo silêncio do campo, mesmo na história contemporânea do país, só iniciando o seu rompimento em fase muito recente. De qualquer maneira, para evitar uma análise histórica mais demorada, é possível traçar as linhas mestras da sociedade brasileira hoje, como representando, esquematicamente, a seguinte divisão de classes: burguesia, campesinato, proletariado e camadas médias.

A composição de cada uma dessas classes tem sofrido grandes mudanças nos últimos tempos, diferindo elas bastante dos traços que as definiam antes. A burguesia incorporou, com o alastramento das relações capitalistas ao campo, os tradicionais proprietários de terras, ao mesmo tempo que alterou os seus quadros, de sorte a apresentar, hoje, uma galeria numericamente mais reduzida e de formação recente.

O campesinato, com as referidas relações em expansão, mudou sua fisionomia pelo irrompimento do trabalho assalariado. O aparecimento dos chamados “sem-terra”, e sua mobilização reivindicativa assinalam esse assalariamento relativamente recente. O proletariado, por sua vez, apresenta alterações provenientes do crescimento da vida urbana e da concentração empresarial: hoje, sua fração mais importante é aquela que serve às grandes empresas.

As mudanças mais acentuadas foram, sem dúvida, as que afetaram as camadas médias. A existência de camadas médias foi sempre expressiva, mesmo nas sociedades em que as relações capitalistas mais avançaram. No Brasil, entretanto, elas não só foram precoces em seu aparecimento, que data da mineração aurífera, como cresceram extraordinariamente, em particular no século XX, e apresentam hoje uma heterogeneidade singular.

Nessas camadas médias, para facilidade de análise, cumpre distinguir duas, que têm características diferentes: a pequena burguesia e os grupos não-proletários. Alguns estudiosos conhecem como pequena burguesia a totalidade das camadas médias. Preferimos separá-las e melhor definir cada uma.

A pequena burguesia compreende aqueles que possuem pequeno capital e exploram o trabalho alheio em pequena escala, ao mesmo tempo que criam valor com o seu próprio trabalho. O grupo dos não-proletários, que a crise atual está fazendo crescer desmedidamente, abrange os que não possuem meios de produção. Na maior parte, os seus elementos se empregam como assalariados do Estado (funcionários públicos, médicos, professores etc.) e de empresas capitalistas (empregados, administradores, pessoal de serviços, aprendizes, vendedores etc.).

Destacam-se ainda nesse grupo engenheiros, técnicos, especialistas diversos e os artistas, no seu espaço profissional. Pertencem também às camadas médias estudantes, militares e membros do clero. Estes são grupos numericamente reduzidos, mas com muita influência política, e por isso desfrutam de algum destaque.

Os salários dos diversos e heterogêneos grupos não-proletários das camadas médias são, em regra, melhores do que os dos proletários. Não é essa a única diferença em relação aos outros grupos; outra diferença reside em que a maior parte de seus elementos não emprega o trabalho físico. O crescente assalariamento das camadas médias contribui para acentuar diferenças de classe. Essas diferenças podem ser observadas, por exemplo, no comportamento dos sindicatos: aqueles constituídos por elementos das camadas médias diferem dos que são constituídos por elementos proletários.

As camadas médias têm tido um crescimento numérico acelerado, nos últimos anos, particularmente desde a vigência das reformas ditadas pelo neoliberalismo. Com o acelerado processo de urbanização do nosso povo, esse crescimento aparece mais: a cidade é o seu espaço. A modernização do sistema produtivo não tem crescido na proporção capaz de absorver numerosos grupos das camadas médias. Cabe, aqui, uma observação: nas áreas do capitalismo desenvolvido, os estudiosos denominam “desemprego estrutural” aquele derivado do descompasso entre o alargamento da utilização de avanços tecnológicos e o aumento da demanda de trabalho.

Não é o caso do Brasil, onde a propaganda do neoliberalismo apregoa que o desemprego é dessa natureza. Não é: o nosso avanço tecnológico não atingiu esse patamar; o desemprego, aqui, deriva direta, absoluta e puramente da vigência das normas estabelecidas pelo neoliberalismo, tal como acontece com os milhares (ou milhões) de elementos agrupados, hoje, nas áreas urbanas, naquilo que se conhece como ‘‘economia informal”.

Só o triste espetáculo apresentado por esse fenômeno inteiramente novo no Brasil bastaria para denunciar uma estrutura econômica enferma. O neoliberalismo, entre nós, agrava velhas mazelas, generaliza outras e cria as suas próprias, degradando camadas cada vez mais amplas. Sob o título espantoso de “modernidade”, o povo brasileiro está conhecendo hoje, em proporções gigantescas, a miséria, a fome e o desemprego em massa. A cada dia aumenta a área dos excluídos, em nosso país: excluídos dos hospitais, excluídos das escolas, excluídos dos empregos. Salvo a minoria dos afortunados gerados pela desvairada concentração da renda, nosso povo compõe hoje um quadro inédito de pauperização.

Esse é o panorama em que se desenvolve agora a luta política em nosso país. Ela exige a unidade clássica entre a classe operária e os trabalhadores do campo, mas também com a parcela imensa e crescente dos trabalhadores não- proletários. Os caminhos para essa unidade são difíceis, encontram obstáculos de natureza variada, acrescidos pelas resistências geradas e mantidas pela reação. Se as camadas médias têm peso crescente, nos últimos anos, sua instabilidade representa enorme obstáculo à unidade política.

Pelas suas origens e pela sua composição heterogênea, elas são mutáveis e vacilantes. A tomada de consciência, nos seus elementos, é um processo difícil, com avanços e recuos, desfalecimentos e radicalizações. Elas reagem de forma inusitada às viragens políticas, às mudanças bruscas do quadro. Exemplo interessante ocorreu em agosto de 1954: até o suicídio de Vargas, as camadas médias, intensamente trabalhadas pela mídia, portavam-se como aliadas do golpe em andamento; tão logo eclodiu a notícia do suicídio, elas partiram para as ruas, nas grandes cidades, e ameaçaram seriamente o êxito da campanha golpista, que foi detida às vésperas de uma vitória completa.

Como as camadas médias não são homogêneas nos interesses econômicos, a tomada de consciência, nelas, é um processo quase sempre demorado e sempre pontilhado de avanços e recuos. Extremamente sensíveis à ação da mídia, seus elementos, mesmo os mais próximos do proletariado, guardam grande preocupação com a segurança e, em algumas áreas, com a posição individual, o chamado status. Exemplo desses traços foi a forma como apoiaram o golpe de 1964, que nelas alicerçou a sua força e a possibilidade de ruptura do regime vigente. O avanço político das camadas médias é, por todos os motivos, cheio de irregularidades. Algumas de suas frações abandonam a luta cedo e demonstram fraca resistência aos reveses.

A análise política do comportamento das camadas médias deve partir, necessariamente, da fundamental subordinação do democrático ao socialista. Essa subordinação não deve, entretanto, prejudicar as alianças com as camadas médias. Elas são indispensáveis à erradicação, em nossa sociedade, de tudo que nela gera e mantém a tradição autoritária e os traços elitistas e excludentes. E sempre perigoso desconhecer as inconsequências das camadas médias e a oscilação de suas tendências, mas é preciso não esquecer que o processo real transforma as estruturas sociais e até os protagonistas.

A consciência política não é um fenômeno espontâneo; surge, às vezes, da própria luta. A opção revolucionária não é uma linha reta nem acompanha uma curva sempre ascensional. Muito ao contrário, é pontilhada de pausas, de hiatos, de vazios. O vazio do atraso, das dúvidas, das incertezas, é próprio ao seu preenchimento pelas componentes revisionistas. Daí o seu maior perigo. Na luta ideológica, por isso mesmo, eles se alimentam da falta natural de continuidade no processo, dos problemas oriundos da complexidade da luta política e da heterogeneidade das forças que dela participam.

No que concerne às camadas médias, suas reações obedecem a três formas de manifestação: a dos elementos que sustentam a luta revolucionária, a dos elementos que se esforçam pela melhoria de situações particulares, por vezes individuais, outras vezes meramente reivindicativas, e a dos elementos que optam deliberadamente pelo apoio à reação. Os limites entre essas formas de manifestação são mutáveis, oscilantes, sempre imprecisos. A compreensão das características do processo político, em cada fase, estabelece as condições em que esses limites se definem. O fato é que as camadas médias, unindo-se ao proletariado e ao campesinato, constituem componente importante do processo político.

Esse processo se desenvolve sob a pressão de duas forças poderosas: aquela advinda das condições reais e aquela advinda da forma como a mídia apresenta as condições reais. Tais forças resultam da realidade social e econômica. Há fases em que o antagonismo entre elas é flagrante: de um lado, a mídia procura fazer crer que o neoliberalismo, agora, é uma fatalidade da qual não podemos escapar, e a cujos imperativos devemos obedecer cegamente; de outro lado, campeiam a miséria, a fome, o desemprego.

De um lado, prega-se a submissão a motivos políticos ornamentados de termos abstratos, “modernidade”, “globalização’’ etc. De outro lado, a realidade de falências e concordatas que se multiplicam, os genocídios no campo que se repetem, multidões de excluídos buscando trabalho e se desesperando na miséria.

O neoliberalismo busca embalar as consciências com palavras sonoras e vazias. O povo, a cada dia mais pobre, procura compreender a razão de sua miséria. Assim avança, às vezes tragicamente, o processo político brasileiro em nossos dias.

[GEORGI PLEKHANOV] Dialética e Lógica.

Texto clássico do pensamento marxista, escrito em 1907 chamado “Dialética e lógica”, por Georgi Plekhanov, célebre intelectual, árduo defensor da dialética e do socialismo científico:


Dialética e Lógica:

A filosofia de Marx e Engels não é apenas uma filosofia materialista, ela é materialista e dialética. No entanto, levantam duas objeções contra essa doutrina. Dizem-nos, em primeiro lugar, que a dialética em si não é livre de críticas e, em segundo, que o materialismo seria incompatível com a dialética. Vamos examinar essas objeções.

O leitor provavelmente se lembra de como Bernstein explicou o que ele chamou de “erros” de Marx e Engels. Eles eram causados, disse ele, por conta da influência nefasta da dialética. A lógica formal sustenta-se na sentença: “Sim é sim, e não é não”; ao passo que a sentença diametralmente oposta seria “Sim é não, e não é sim”. Reprovando essa última sentença, Bernstein afirma que ela nos levaria a tentação de cometer os mais perigosos erros.

Provavelmente a maioria dos leitores que passaram pela chamada “educação” estará de acordo com Bernstein, visto que, em face disso, a sentença “Sim é não, e não é sim” está claramente em contradição com as leis fundamentais e imutáveis do pensamento. É essa questão que examinaremos agora.

As leis fundamentais da lógica formal são três:

A lei da identidade;

A lei da não contradição;

A lei do terceiro excluído.

A lei da identidade (identitatis principium) declara que: A é A (omnisubjectusest praedicatum sui), ou A=A.

A lei da não contradição, A não é um não-A, é nada mais do que a forma negativa da primeira lei. (1)

De acordo com a lei do terceiro excluído (principium exclusi tertii), duas proposições contraditórias, mutuamente exclusivas, não podem ser ambas verdadeiras. Na verdade, ou A é B, ou A não é B. Se uma dessas proposições é verdadeira, a outra é necessariamente falsa; e vice-versa. Não há, e nem poderia haver, qualquer outra solução.

Ueberweg saliente que a lei da não contradição e a lei do terceiro excluído podem ser unificadas na seguinte regra lógica: para cada questão dada, entendida em um sentido dado, para saber se dada característica corresponde a um determinado objeto, é necessário responder ou sim ou não, não podemos responder sim e não.

É realmente difícil levantar qualquer objeção contra isso. Mas se a afirmação é verdadeira, implica que a fórmula “Sim é não, e não é sim” deve estar errada. Nada nos resta a não ser rir, como Bernstein, e levantar nossas mãos para os céus, quando percebermos que pensadores tão sérios como Heráclito, Hegel e Marx acharam essa sentença mais satisfatória do que “Sim é sim, e não é não”, uma sentença solidamente baseada a partir das três leis fundamentais do pensamento citadas anteriormente.

Essa conclusão, fatal para a dialética, parece irrefutável. Mas, antes de aceitá-la, vamos examinar o assunto mais de perto.

O movimento da matéria é comum a todos os fenômenos da natureza. Mas no que consiste esse movimento? É uma contradição evidente. Se alguém lhe perguntar se um corpo em movimento está em um local em um dado momento, você não será capaz, mesmo que com a melhor vontade do mundo, responder a essa pergunta de acordo com a regra lógica de Ueberweg, isto é, de acordo com a sentença “Sim é sim, e não é não”. Um corpo em movimento está em um local, ao mesmo tempo em que não está lá. (2) Nós só podemos considerá-lo de acordo com a sentença “Sim é não, e não é sim”. Esse corpo em movimento apresenta-se, portanto, como um argumento irrefutável a favor da “lógica da contradição”; e quem está relutante em aceitar essa lógica será forçado a declarar, junto com Zeno (3), que o movimento é apenas uma ilusão dos sentidos.

Mas de todos aqueles que não negam o movimento nós devemos questionar: “O que nós estamos pensando sobre essa lei fundamental do pensamento que contradiz o fato fundamental do ser? Não devemos tratá-la com algum cuidado?

Parece que estamos entre a cruz e a espada. (4). Ou devemos aceitar as leis fundamentais da lógica formal e negar o movimento, ou, então, devemos admitir o movimento e negar essas leis. O dilema é certamente desagradável. Vejamos se não há uma maneira de escapar dele.

O movimento da matéria é inerente a todos os fenômenos da natureza. Mas o movimento é uma contradição. Devemos considerar essa questão dialeticamente, quer dizer, como diria Bernstein, de acordo com a sentença “Sim é não, e não é sim”. Dessa maneira, somos obrigados a admitir que ela consiste na base de todos os fenômenos que temos no domínio da “lógica da contradição”. Mas as moléculas da matéria em movimento combinam-se umas com as outras, formam certos combinações, coisas e objetos. Essas combinações caracterizam-se por maior ou menos solidez; elas resistem por mais ou menos tempo, mas por fim desaparecem, e são substituídas por outras. A única coisa que permanece eterna é a o próprio movimento da matéria, a matéria em si, a substância indestrutível. Mas depois que esse movimento estabeleceu uma dada combinação de matéria e enquanto ele mesmo não a desfez, a questão da sua existência deve ser tratada em seu sentido positivo. É por isso que, se alguém nos aponta o planeta Vênus e nos pergunta “Aquele planeta existe?”, nós vamos responder, sem hesitação, “Sim”. Mas se alguém nos pergunta se bruxas existem, nós vamos responder, também sem hesitar, “Não”. O que isso significa? Isso significa que se tratando de objetos distintos, devemos em nossos juízos, proceder de acordo com a regra de Ueberweg mencionada acima; e devemos, em geral, ficar em conformidade com as leis fundamentais do pensamento. Neste domínio prevalece a fórmula aceita por Bernstein: “Sim é sim, e não é não”.

Mesmo assim, porém, a abrangência dessa respeitável fórmula não é irrestrita. Quando somos questionados sobre a realidade de um objeto que de fato existe, respondemos positivamente. Mas quando um objeto se apresenta em um estado de vir a ser, em vias de se tornar, nós temos boas razões para hesitar em nossa resposta. Quando vemos um homem que perdeu a maioria de seus cabelos, dizemos que é careca. Mas como determinar em que momento exato da perda do cabelo faz um homem careca?

Para cada pergunta específica sobre se um objeto possui essa característica ou aquela, nós devemos responder que “sim” ou “não”. Mas apenas sobre aquilo que não se pode ter qualquer dúvida. Mas quando respondemos quando um objeto está passando por uma mudança, quando está na iminência de perder uma dada característica ou de adquirir uma outra? A resposta pode ser, naturalmente, de acordo com a regra. Mas a resposta não será definitiva a menos que esteja de acordo com a fórmula “sim é não, e não é sim”, pois seria impossível responder definitivamente de acordo com a fórmula “sim ou não”, tal como nos recomenda Ueberweg.

A objeção pode, naturalmente, se fundar no argumento de que a característica que o objeto está perdendo ainda não deixou de existir, e que a característica que o objeto está adquirindo já existe, de tal maneira que uma resposta regida pela fórmula “ou sim, ou não” é possível, na verdade obrigatória, mesmo quando o objeto em questão está em processo de transformação. Mas tal afirmação é errônea. Um jovem que deixar crescer os pelos sob o queixo, certamente terá uma barba, mas ainda não o podemos falar dele como um homem de barba. Pêlos sob o queixo não são por si só uma barba, embora virão a ser. Para uma mudança atingir um grau qualitativo, deve atingir um limite quantitativo. Aquele que se esquece disso é incapaz de expressar uma opinião definitiva sobre as qualidades dos objetos.

“Tudo está em fluxo, tudo muda”, disse no passado, o filósofo de Éfeso. (5) As combinações de que falamos demonstram como os objetos estão em um estado permanente, mais ou menos rápido, de mudança. Na medida em que essas combinações permanecem as mesmas, podemos julgá-las de acordo com a fórmula “sim é sim e não é não”. Mas na medida em que elas mudam e que deixam de existir, como anteriormente, temos que recorrer à lógica da contradição, mesmo correndo orisco de ofender Bernstein e toda a tribo de metafísicos, e dizer que “sim é não, eles existem e eles não existem“.

Assim como a inércia é um caso especial do movimento, em conformidade com as regras da lógica formal (em conformidade com as “leis fundamentais do pensamento”), é um caso especial do pensamento dialético. Heráclito certa vez afirmou que “não podemos descer duas vezes o mesmo rio“.(6) Crátilo, um dos discípulos de Platão, discordando de Heráclito insistiu que não poderíamos fazê-lo sequer uma vez, na medida em que o rio iria mudando ao longo do percurso, enquanto fôssemos descendo; se transformando em outro rio. No caso em questão, o objeto é mais governado, por assim dizer, pelo fator de transformação. Mas esse é um abuso da dialética, não seu uso justo. Hegel observa: “O algo é a primeira negação da negação“.

Dentre nossos críticos, os que não ignoram completamente a literatura filosófica, gostam de se referir a Trendelenburg, que teria pretensamente refutado todos os argumentos, em favor da dialética. Mas estes senhores, como bem se vê, leram mal Trendelenburg, se é que o leram. Eles esqueceram completamente — se é que alguma vez conheceram, do que não estou absolutamente certo — a seguinte bagatela: Trendelenburg reconhecia que a lei da contradição é aplicável, não ao movimento, mas unicamente aos objetos por ele criados. E isto é justo. Mas o movimento nada mais faz que criar os objetos. Como nós já havíamos dito, ele os modifica constantemente. E precisamente por esta razão que a lógica do movimento (“lógica da contradição”) jamais perde seus direitos sobre os objetos criados pelo movimento. Eis porque, mesmo rendendo a devida homenagem às leis da lógica formal, não devemos esquecer que estas leis são válidas apenas dentro de certos limites, na medida em que elas não nos impeçam de reservar também, à dialética, seu lugar. E assim que, na realidade, a lei se apresenta segundo Trendelenburg, se bem que ele próprio não tenha tirado todas as conclusões que decorrem do princípio por ele formulado, princípio de uma importância excepcional para a teoria do conhecimento.

Deixe-me acrescentar, de passagem, que a Logische Untersuchungen [Estudos de Lógica – N.T.] de Trendelenburg contêm um certo número de observações que, embora não dizem respeito ao meu ponto de vista, testemunham a nosso favor. Isso pode parecer estranho mas pode ser explicado pelo simples fato de Trendelenburg combater a dialética idealista. Ele vê como defeito da dialética a sua concepção de um movimento inerente à ideia pura, movimento que é a autocriação do ser. Certamente, tal afirmação envolve um profundo erro. Mas quem não sabe que essa falácia é atribuída exclusivamente à lógica idealista? Quem não conhece o fato de que Marx começou a trabalhar para pôr a dialética “de pé”, que ela estava invertida, justamente por conta de sua utilização idealista? Aqui está outro exemplo. Trendelenburg diz que, na realidade, no sistema de Hegel, o movimento é o fundamento dessa lógica (e, ao que parece, não necessita de quaisquer fundamentações). Essa afirmação é correta, mas é mais uma afirmação em favor da dialética materialista. Agora, um terceiro exemplo e o mais interessante de todos eles. Trendelenburg nos diz que é errado imaginarmos, de acordo com Hegel, que a natureza é nada mais do que lógica aplicada. Pelo contrário, a lógica de Hegel não é de modo algum uma criação da ideia pura, mas sim, o resultado de uma abstração antecipada da natureza: na dialética hegeliana, quase tudo é derivado de uma experiência, e se a experiência a privasse de tudo que lhe emprestou, a dialética estaria arruinada. Perfeitamente! Mas isso é o que foi dito exatamente pelos discípulos de Hegel, que se rebelaram contra o idealismo de seu mestre e passaram para a concepção materialista.

Eu ainda poderia citar numerosos exemplos semelhantes, mas isto me distanciaria demais de meu objeto. Eu apenas quis mostrar a nossos críticos que, em sua luta contra nós, melhor fariam se não invocassem Trendelenburg.

Continuemos. Eu disse que o movimento é uma contradição em ação, e que, consequentemente, as leis fundamentais da lógica formal não poderiam ser aplicadas a ele. Devo explicar essa proposição para que ela não seja mal interpretada. Quando tratamos da passagem de um tipo de movimento para outro (suponhamos, a passagem de energia mecânica para a térmica), também estamos de acordo com a regra fundamental de Ueberweg. Devemos dizer: “esse movimento é tanto térmico quanto mecânico, ou então e assim por diante. Isso é óbvio. Mas se assim for, o é justamente porque, dentro de certos limites, as leis da lógica formal são aplicadas ao movimento. Daí concluímos que, mais uma vez, a dialética não suprime a lógica formal, mas apenas suprime seu caráter absoluto que os metafísicos lhe têm atribuído.

Se o leitor foi atento ao que foi dito acima, não terá dificuldades em compreender como é inútil a alegação de que a dialética é incompatível com o materialismo. Pelo contrário, nossa dialética é, justamente, baseada na concepção materialista da natureza. Se essa concepção fosse refutada, seria também nossa dialética. Por outro lado, sem dialética, a teoria materialista do pensamento é incompleta, unilateral, nada mais e isso é impossível.

No sistema de Hegel a dialética se apoia na metafísica. Para nós, a dialética se fundamenta na própria natureza.

No sistema de Hegel, o demiurgo(7) da realidade (para usar a frase de Marx) é a ideia absoluta. Para nós, a ideia absoluta é apenas uma abstração do movimento pelo qual todas as combinações e todos os estados da matéria são produzidos.

Segundo Hegel, o pensamento avança conforme vai descobrindo soluções e superando as contradições contidas nos conceitos. De acordo com nossa doutrina materialista, as contradições contidas nos conceitos são apenas o reflexo, a tradução para a linguagem do pensamento, das contradições existentes nos fenômenos, devido à sua própria natureza contraditória, a que chamamos de movimento.

De acordo com Hegel, a evolução das coisas é determinada pela evolução das idéias; segundo nós, a evolução das idéias é explicada pela evolução das coisas; a evolução do pensamento pela evolução da vida.

O materialismo põe a dialética de pé e assim retira-lhe o véu de mistificação posto por Hegel. Além disso, ao fazê-lo, exibe o caráter revolucionário da dialética.

Em sua forma mistificada, a dialética se tornou moda na Alemanha porque parecia elucidar o estado de coisas existente. Na sua forma racional, é um escândalo e uma abominação para a burguesia e seus porta-vozes doutrinários, porque, ao fornecer uma compreensão positiva do atual estado de coisas, ao mesmo tempo, fornece uma compreensão da negação desse estado de coisas e permite-nos reconhecer que esse estado de coisas inevitavelmente ruirá; é uma abominação para eles por que se refere a cada forma social desenvolvida historicamente como no movimento de fluidos, como transitório, porque não deixa nada intimidar, mas é na sua própria natureza crítica e revolucionária” (Do prefácio à segunda edição alemã do primeiro volume d’0 Capital, 1873, nova tradução 1928).

É natural que a burguesia, essencialmente reacionária, tenha tomado horror pela dialética materialista. Mas, sinceramente, que as pessoas simpatizem pelo movimento e desaprovem a doutrina materialista é ridículo e deprimente — é o ápice do absurdo.

Mais um ponto deve ser considerado. Nós já sabemos que Ueberweg estava certo — e em que medida ele estava — ao exigir lógica daqueles dão respostas definitivas a questões definitivas sobre esta ou aquela propriedade de um dado objeto. Agora, porém, suponhamos que temos de fazer isso com um objeto complexo, e que possui propriedades diametralmente conflitantes. Pode o julgamento exigido por Ueberweg ser aplicado a esse objeto? Não, e o próprio Ueberwg, tão adversário quanto Trendelengur à dialética hegeliana, considera que neste caso devemos julgar de acordo com outra regra, conhecida na lógica sob o nome de “coindcidentia oppositorum principium” (princípio da coincidência dos opostos). A questão é que a maioria dos objetos tratados pelas ciências naturais e sociais se enquadra nesse tipo de objeto. Um simples glóbulo de protoplasma, a vida em uma sociedade no mais primordial estágio de evolução — um e outro apresentam propriedades diametralmente conflitantes. É evidente, então, que temos de reservar um grande espaço para o método dialético nas ciências naturais e sociais. E desde que se começou agir assim, essas ciências têm avançado a passos largos.

Será que o leitor gostaria de saber como a dialética tem garantido uma posição reconhecida na biologia? Deixe-o lembrar as discussões sobre a natureza das espécies que foram despertadas pela teoria da evolução. Darwin e seus seguidores declararam que as várias espécies de uma mesma família de animais ou plantas são apenas os descendentes diferenciados de uma forma primitiva em comum. Além disso, de acordo com a teoria da evolução, todos os gêneros de uma ordem provêm, da mesma maneira, de uma forma primitiva; é possível afirmar o mesmo sobre todas as ordens pertencentes a uma única classe. Por outro lado, de acordo com os adversários de Darwin, todas as espécies de animais e plantas são completamente independentes uma das outras e apenas dos indivíduos pertencentes a uma única espécie pode-se dizer que compartilham de um ancestral em comum. Esta última concepção já havia sido formulada por Lineu, que afirmou: “Há tantas espécies quanto o Ser Supremo criou nos primórdios”. Essa é uma concepção claramente metafísica, pois os metafísicos consideram as coisas e os conceitos como “distintos, imutáveis, objetos rígidos, dados de uma vez por todas, para ser examinado um após o outro, cada qual independente do outro” (Engels). O dialético, ao contrário, nos diz Engels, trata das coisas e dos conceitos em seu contexto, em suas relações, no seu movimento, em seu surgimento e desaparecimento. Essa concepção tem trilhado seu caminho na biologia após o desenvolvimento da teoria de Darwin e aí permanecerá, quaisquer que sejam as retificações feitas na teoria da evolução pelo desenvolvimento da ciência.

Para sublinhar a importância da dialética para a sociologia, basta recordar como o socialismo se desenvolveu a partir do utopismo para a ciência.

Os socialistas utópicos se limitavam a concepção abstrata de “natureza humana” e avaliavam os fenômenos sociais de acordo com a fórmula “sim é sim e não é não”. A propriedade estava ou não em conformidade com a natureza humana; a família monogâmica estava ou não em conformidade com a natureza humana, e assim por diante. Tendo a natureza humana como imutável, era justo que os socialistas utópicos esperassem que, dentre todas as formas de organização social, haveria uma mais apropriada para tal natureza humana. Daí a vontade de descobrir qual seria esse sistema possível, o mais compatível à natureza humana. Cada fundador de uma escola acreditava ter encontrado tal sistema, cada um defendendo sua utopia particular. Marx introduziu a dialética ao socialismo, transformando-o em ciência e infligindo um golpe mortal ao utopismo. Marx não invoca nenhuma natureza humana, não conhece nenhuma instituição social que corresponda ou não a ela. Em Misere de la Philosophie, encontramos isso claramente em uma crítica endereçada a Proudhon:

Monsieur Proudhon não reconhece que a história não é outra coisa senão a modificação contínua da natureza humana” (Misere de la Philosophie, Paris, 1896, p. 204)

No Capital, Marx diz que o homem, agindo sobre a natureza exterior e modificando-a, muda sua própria natureza. Este é um ponto de vista dialético a partir do qual uma nova perspectiva sobre os problemas sociais é lançada. Tomemos, por exemplo, a questão da propriedade privada. Os utopistas já haviam escrito e discutido muito entre si e com os economistas se ela deveria ou não existir, ou seja, se ela era compatível com a natureza humana. Marx colocou essa questão no terreno concreto. De acordo com sua doutrina, as formas e as relações de propriedade são determinadas pela evolução das forças de produção. Para uma fase uma fase de evolução específica corresponde uma forma específica de propriedade, para uma outra fase, uma outra forma — não há e nem pode haver uma solução absoluta, pois tudo está em fluxo, tudo muda. “A sabedoria se torna loucura, prazer e dor.”

Hegel diz: “A contradição faz avançar“. Na luta de classes, a ciência encontra uma confirmação notável dessa concepção dialética. Se não a considerarmos, se não levarmos em conta a luta de classes, é impossível compreender a evolução da vida social e intelectual de uma sociedade de classes.

Mas porque essa “lógica da contradição”, que, como vimos, é o reflexo mental do eterno processo de movimento, deveria ser chamada de dialética? Não cabe aqui tamanha consideração, mas para responder a essa questão usarei uma citação de Kuno Fischer:

A vida humana se assemelha a um diálogo no sentido de que, com a idade e a experiência, nossas opiniões sobre as coisas e as pessoas vão se transformando, como a opinião dos interlocutores ao decorrer de uma amigável e frutífera conversa. É nessa mudança involuntária e necessária dos nossos pontos de vista da vida e do mundo que consiste a experiência. É por isso que Hegel, ao comparar a evolução da consciência com a de uma conversa filosófica, deu-lhe o nome de dialética, ou movimento dialético. Essa expressão foi utilizada por Platão, Aristóteles, Kant, cada um em um sentido importante e peculiar, mas em nenhum sistema adquiriu tamanha abrangência e significação como em Hegel.

Tradução:

 A partir da edição inglesa, traduzida do russo por Eden e Cedar Paul, editada por D. Riazanov, publicada em 1928. Tradução para o português: Romerito Pontes. Julho de 2011.

Notas de rodapé:

(1) Essa lei diz que uma data sentença não pode se contradizer, ou seja, não pode afirmar simultaneamente algo e seu oposto. Em outras palavras, não podemos afirmar, simultaneamente, que algo está quente e está frio, molhado e seco. Simbolicamente ficaria da seguinte maneira: se A é A, portanto A não pode ser não-A; ou seja, A=A e A*~A 

(2) Um outro exemplo poderia ser o seguinte: um motorista e seu acompanhante estão parados se considerarmos um em relação ao outro. Entretanto, ambos estão em movimento em relação ao ambiente externo (N.T.). 

(3) Zeno foi um pensador grego que elaborou um método dialético, antecipando Sócrates. Ficou conhecido pelo fato de que se apropriava das premissas de seus oponentes e utilizando-as para provar contradições gritantes. Um dos “Paradoxos de Zeno” mais conhecidos é o da corrida entre Aquiles, o herói grego, e a tartaruga, onde justamente Zeno prova ser o movimento uma ilusão dos sentidos (N.T.). 

(4) “…between the horns of a dilemma” (N.T.). 

(5) Éfeso foi uma cidade grego-romana, uma das doze que compuseram a Liga Jônica. Está localizada, atualmente, à extremo oeste da Turquia, na província de Esmirna. A expressão “filósofo de Éfeso” refere-se a Heráclito, considerado o pai da dialética (N.T.). 

(6) A justificativa de Heráclito seria de que na segunda vez, o rio não seria o mesmo, assim como nós não seríamos os mesmos (N.T.). 

(7) O termo “demiurgo” possui inúmeras significações, mas todas elas possuem em comum a ideia daquele que trabalha, que molda, que constrói a materialidade. Na Grécia antiga, o termo se referia aos artesãos, ferreiros, carpinteiros, ceramistas etc. Em um sentido mais mítico e religioso, o termo pode se referir ao criador do mundo material, ao Grande Arquiteto do Universo, embora cada concepção (cristã, maçônica, hermética etc.) atribua esse título a uma “entidade” diferente. Para nós, o termo vem do latim (demiurgus) e tem sua origem no grego, onde significa “o que produz para o povo” (N.T.). 

[FRIEDRICH ENGELS] Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico.

Texto clássico do pensamento marxista, escrito em 1880. “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico”, de Friedrich Engels, célebre intelectual, árduo defensor da dialética e do socialismo científico:


Introdução:

Entre as melhores explicações do Marxismo escritas por Marx e Engels. Engels escreveu esta brochura baseado em partes do Anti-Dúhring com o intuito de prover os trabalhadores com uma exposição simples e concisa do pensamento Marxista.

Nas três secções da brochura, Engels explica os três componentes do pensamento Marxista: o Socialismo Francês, A Filosofia Germânica e a Economia Inglesa.

Na primeira parte do “panfleto” Engels explica que o Socialismo do passado tinha sido utópico – mantendo a crença em quando numa sociedade todos o compreendessem e nele acreditassem, apareceria uma sociedade Socialista. Sobre isso, Engels escreveu:


 ” Os Utópicos tentaram evoluir a partir do cérebro humano. A sociedade apresentaria apenas erros; eliminá-los era tarefa da razão. Era então necessário descobrir um novo e mais perfeito sistema de ordem social e impô-la à sociedade a partir de fora com propaganda, e, sempre que possível, pelo exemplo de experiências modelo.”

Engels explica em seguida o lento desenvolvimento histórico da dialética filosófica através de milhares de anos; conhecimento que culminou no que permitiu a Marx ver e explicar a concepção materialista da história, a qual Engels explica na terceira parte da brochura.

Sobre a publicação da edição inglesa da brochura Engels escreveu:

A pedido do meu amigo Paul Lafargue, agora representante de Lille na câmara de deputados francesa, organizei os três capítulos desta brochura que ele traduziu e publicou em 1880 sob o título “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico”. A partir deste texto em francês forma preparadas edições em polaco e espanhol. Em 1883, os nossos amigos alemães devolveram este texto à língua original. Desde então, com base no texto alemão, foram publicadas traduções para Italiano, Russo, Holandês e Romeno. Desta forma, contando com a presente edição em Inglês, este pequeno livro circula já em 10 línguas. Não tenho conhecimento de que qualquer outro trabalho socialista, nem mesmo o nosso Manifesto Comunista de 1848, ou o Capital de Marx tenham tido tantas traduções. Em alemão, já houve quatro edições com um total de cerca de 20 000 cópias. ”




1 – O Socialismo Utópico:


O socialismo moderno é, em primeiro lugar, por seu conteúdo, fruto do reflexo na inteligência, de um lado dos antagonismos de classe que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuídos, capitalistas e operários assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na produção. Por sua forma teórica, porém, o socialismo começa apresentando-se como uma continuação, mais desenvolvida e mais consequente, dos princípios proclamados pelos grandes pensadores franceses do século XVIII. Como toda nova teoria, o socialismo, embora tivesse suas raízes nos fatos materiais econômicos, teve de ligar-se, ao nascer, às Ideias existentes.

Os grandes homens que, na França, iluminaram os cérebros para a revolução que se havia de desencadear, adotaram uma atitude resolutamente revolucionária. Não reconheciam autoridade exterior de nenhuma espécie. A religião, a concepção da natureza, a sociedade, a ordem estatal: tudo eles submetiam à crítica mais impiedosa; tudo quanto existia devia justificar os títulos de sua existência ante o foro da razão, ou renunciar a continuar existindo. A tudo se aplicava como rasoura única a razão pensante. Era a época em que, segundo Hegel, “o mundo girava sobre a cabeça” (1), primeiro no sentido de que a cabeça humana e os princípios estabelecidos por sua especulação reclamavam o direito de ser acatados como base de todos os atos humanos e toda relação social, e logo também, no sentido mais amplo de que a realidade que não se ajustava a essas conclusões se via subvertida, de fato, desde os alicerces até à cumeeira. Todas as formas anteriores de sociedade e de Estado, todas as leis tradicionais, foram atiradas no monturo como irracionais; até então o mundo se deixara governar por puros preconceitos; todo o passado não merecia senão comiseração e desprezo, Só agora despontava a aurora, o reino da razão; daqui por diante a superstição, a injustiça, o privilégio e a opressão seriam substituídos pela verdade eterna, pela eterna justiça, pela igualdade baseada na natureza e pelos direitos Inalienáveis do homem.

Já sabemos, hoje, que esse império da razão não era mais que o império idealizado pela burguesia; que a justiça eterna tomou corpo na justiça burguesa; que a igualdade se reduziu à igualdade burguesa em face da lei; que como um dos direitos mais essenciais do homem foi proclamada a propriedade burguesa; e que o Estado da razão, o “contrato social” de Rousseau, pisou e somente podia pisar o terreno da realidade, convertido na república democrática burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII, como todos os seus Predecessores, não podiam romper as fronteiras que sua própria época lhes impunha.

Mas, ao lado do antagonismo entre a nobreza feudal e a burguesia, que se erigia em representante de todo o resto da sociedade, mantinha-se de pé o antagonismo geral entre exploradores e explorados, entre ricos gozadores e pobres que trabalhavam. E esse fato exatamente é que permitia aos representantes da burguesia arrogar-se a representação, não de uma classe determinada, mas de toda a humanidade sofredora. Mais ainda: desde o momento mesmo em que nasceu, a burguesia conduzia em suas entranhas sua própria antítese, pois os capitalistas não podem existir sem os operários assalariados, e na mesma proporção em que os mestres de ofícios das corporações medievais se convertiam em burgueses modernos, os oficiais e os jornaleiros não agremiados transformavam-se em proletários. E se, em termos gerais, a burguesia podia arrogar-se o direito de representar, em suas lutas com a nobreza, além dos seus Interesses, os das diferentes classes trabalhadoras da época, ao lado de todo grande movimento burguês que se desatava, eclodiam movimentos independentes daquela classe que era o precedente mais ou menos desenvolvido do proletariado moderno. Tal foi na época da Reforma e das guerras camponesas na Alemanha. a tendência dos anabatistas e de Thomas Münzer; na grande Revolução Inglesa, os “levellers”(2), e na Revolução Francesa, Babeuf. Essas sublevações revolucionárias de uma classe incipiente são acompanhadas, por sua vez, pelas correspondentes manifestações teóricas: nos séculos XVI e XVII (3) aparecem as descrições utópicas de um regime ideal da sociedade; no século XVIII, teorias já abertamente comunistas, como as de Morelly e Mably. A reivindicação da igualdade não se limitava aos direitos políticos, mas se estendia às condições sociais de vida de cada indivíduo; já não se tratava de abolir os privilégios de classe, mas de destruir as próprias diferenças de classe. Um comunismo ascético, ao modo espartano, que renunciava a todos os gozos da vida: tal foi a primeira forma de manifestação da nova teoria. Mais tarde vieram os três grandes utopistas: Saint-Simon, em que a tendência continua ainda a se afirmar, até certo ponto, junto à tendência proletária; Fourier e Owen, este último, num pais onde a produção capitalista estava mais desenvolvida e sob a impressão engendrada por ela, expondo em forma sistemática uma série de medidas orientadas rio sentido de abolir as diferenças de classe, em relação direta com o materialismo francês.

Traço comum aos três é que não atuavam como representantes dos interesses do proletariado, que, entretanto, surgira como um produto histórico. Da mesma maneira que os enciclopedistas, não se propõem emancipar primeiramente uma classe determinada, mas, de chofre, toda a humanidade. E assim como eles, pretendem instaurar o império da razão e da justiça eterna. Mas entre o seu império e o dos enciclopedistas medeia um abismo. Também o mundo burguês, instaurado segundo os princípios dos enciclopedistas, é injusto e irracional e merece, portanto, ser jogado entre os trastes inservíveis, tanto quanto o feudalismo e as formas sociais que o antecederam. Se até agora a verdadeira razão e a verdadeira justiça não governaram o mundo é simplesmente porque ninguém soube penetrar devidamente nelas. Faltava o homem genial, que agora se ergue ante a humanidade com a verdade, por fim descoberta. O fato de que esse homem tenha aparecido agora, e não antes, o fato de que a verdade tenha sido por fim descoberta agora, e não antes, não é, segundo eles, um acontecimento inevitável, imposto pela concatenação do desenvolvimento histórico, e sim porque o simples acaso assim o quis. Poderia ter aparecido quinhentos anos antes, poupando assim à humanidade quinhentos anos de erros, de lutas e de sofrimentos.

Vimos como os filósofos franceses do século XVIII, que abriram o caminho à revolução, apelavam para a razão como o juiz único de tudo o que existe. Pretendia-se instaurar um Estado racional, uma sociedade ajustada à razão, e tudo quanto contradissesse a razão eterna deveria ser rechaçado sem nenhuma piedade. Vimos também que, em realidade, essa razão não era mais que o senso comum do homem idealizado da classe média que, precisamente então, se convertia em burguês. Por isso, quando a Revolução Francesa empreendeu a construção dessa sociedade e desse Estado da razão, redundou que as novas instituições, por mais racionais que fossem em comparação com as antigas, distavam bastante da razão absoluta. O Estado da razão falira completamente. O contrato social de Rousseau tomara corpo na época do terror, e a burguesia, perdida a fé em sua própria habilidade política, refugiou-se, primeiro na corrupção do Diretório e, por último, sob a égide do despotismo napoleônico. A prometida paz eterna convertera-se numa interminável guerra de conquistas. Tampouco teve melhor sorte a sociedade da razão. O antagonismo entre pobres e ricos, longe de dissolver-se no bem-estar geral, aguçara-se com o desaparecimento dos privilégios das corporações e outros, que estendiam uma ponte sobre ele, e os estabelecimentos eclesiásticos de beneficência, que o atenuavam. A “liberação da propriedade” dos entraves feudais, que agora se convertia em realidade, vinha a ser para o pequeno burguês e o pequeno camponês a liberdade de vender a esses mesmos poderosos senhores sua pequena propriedade, esgotada pela esmagadora concorrência do grande capital e da grande propriedade latifundiária; com o que se transformava na “liberação” do pequeno burguês e do pequeno camponês de toda propriedade. O ascenso da indústria sobre bases capitalistas converteu a pobreza e a miséria das massas trabalhadoras em condição de vida da sociedade. O pagamento à vista transformava-se, cada vez mais, segundo a expressão de Carlyle, no único elo que unia a sociedade. A estatística criminal crescia de ano para ano. Os vícios feudais, que até então eram exibidos impudicamente, à luz do dia, não desapareceram, mas se recolheram, por um momento, um pouco ao fundo do cenário; em troca, floresciam exuberantemente os vícios burgueses, até então superficialmente ocultos. O comércio foi degenerando, cada vez mais, em trapaça. A “fraternidade” do lema revolucionário tomou corpo nas deslealdades e na inveja da luta de concorrência. A opressão violenta cedeu lugar à corrupção, e a espada, como principal alavanca do poder social, foi substituída pelo dinheiro. O direito de pernada (4) passou do senhor feudal ao fabricante burguês. A prostituição desenvolveu-se em proporções até então desconhecidas. O próprio casamento continuou sendo o que já era: a forma reconhecida pela lei, o manto com que se cobria a prostituição, completado ademais com uma abundância de adultérios. Numa palavra, comparadas com as brilhantes promessas dos pensadores, as Instituições sociais e políticas instauradas pelo “triunfo da razão” redundaram em tristes e decepcionantes caricaturas. Faltavam apenas os homens que pusessem em relevo o desengano, e esses homens surgiram nos primeiros anos do século XIX. Em 1802, vieram à luz as Cartas de Genebra de Saint-Simon; em 1808, Fourier publicou a sua primeira obra, embora as bases de sua teoria datassem já de 1799; a 1.0 de janeiro de 1800, Robert Owen assumiu a direção da empresa de New Lanark.

No entanto, naquela época, o modo capitalista de produção, e com ele o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, achava-se ainda muito pouco desenvolvido. A grande indústria, que acabava de nascer na Inglaterra, era ainda desconhecida na França. E só a grande indústria desenvolve, de uma parte, os conflitos que transformam numa necessidade Imperiosa a subversão do modo de produção e a eliminação de seu caráter capitalista – conflitos que eclodem não só entre as classes engendradas por essa grande indústria, mas também entre as forças produtivas e as formas de distribuição por ela criadas – e, de outra parte, desenvolve também nessas gigantescas forças produtivas os meios para solucionar esses conflitos. Às vésperas do século XIX, os conflitos que brotavam da nova ordem social mal começavam a desenvolver-se, e menos ainda, naturalmente, os meios que levam à sua solução. Se as massas despossuídas de Paris conseguiram dominar por um momento o poder durante o regime de terror, e assim levar ao triunfo a revolução burguesa, inclusive contra a burguesia, foi só para demonstrar até que ponto era impossível manter por muito tempo esse poder nas condições da época. O proletariado, que apenas começava a destacar-se no seio das massas que nada possuem, como tronco de uma nova classe, totalmente incapaz ainda para desenvolver uma ação política própria, não representava mais que um estrato social oprimido, castigado, incapaz de valer-se por si mesmo. A ajuda, no melhor dos casos, tinha que vir de fora, do alto.

Essa situação histórica informa também as doutrinas dos fundadores do socialismo. Suas teorias incipientes não fazem mais do que refletir o estado Incipiente da produção capitalista, a incipiente condição de classe. Pretendia-se tirar da cabeça a solução dos problemas sociais, latentes ainda nas condições econômicas pouco desenvolvidas da época. A sociedade não encerrava senão males, que a razão pensante era chamada a remediar.

Tratava-se, por isso, de descobrir um sistema novo e mais perfeito de ordem social, para implantá-lo na sociedade vindo de fora, por meio da propaganda e, sendo possível, com o exemplo, mediante experiências que servissem de modelo. Esses novos sistemas sociais nasciam condenados a mover-se no reino da utopia; quanto mais detalhados e minuciosos fossem, mais tinham que degenerar em puras fantasias.

Assentado isso, não há por que nos determos nem um momento mais nesse aspecto, já definitivamente incorporado ao passado. Deixemos que os trapeiros literários revolvam solenemente nessas fantasias, que parecem hoje provocar o riso, para ressaltar sobre o fundo desse “cúmulo de disparates” a superioridade de seu raciocínio sereno. Quanto a nós, admiramos os germes geniais de ideias e as ideias geniais que brotam por toda parte sob essa envoltura de fantasia que os filisteus são incapazes de ver.

Saint-Simon era filho da grande Revolução Francesa, que estalou quando ele não contava ainda trinta anos. A. Revolução foi o triunfo do terceiro estado, isto é, da grande massa ativa da nação, a cujo cargo corriam a produção e o comércio, sobre os estados até então ociosos e privilegiados da sociedade: a nobreza e o clero. Mas logo se viu que o triunfo do terceiro estado não era mais que o triunfo de uma parte multo pequena dele, a conquista do poder político pelo setor socialmente privilegiado dessa classe: a burguesia possuidora. Essa burguesia desenvolvia-se rapidamente já no processo da revolução, especulando com as terras confiscadas e logo vendidas da aristocracia e da Igreja, e lesando a nação por meio das verbas destinadas ao exército. Foi precisamente o governo desses negocistas que, sob o Diretório, levou à França e a Revolução à beira da ruína, dando com isso a Napoleão o pretexto para o golpe de Estado. Por isso, na ideia de Saint-Simon, o antagonismo entre o terceiro estado e os estados privilegiados da sociedade tomou a forma de um antagonismo entre “trabalhadores” e “ociosos”. Os “ociosos” eram não só os antigos privilegiados, mas todos aqueles que viviam de suas rendas, cem intervir na produção nem no comércio. No conceito de “trabalhadores” não entravam somente os operários assalariados, mas também os fabricantes, os comerciantes e os banqueiros. Que os ociosos haviam perdido a capacidade para dirigir espiritualmente e governar politicamente era um fato Indisfarçável, selado em definitivo pela Revolução. E, para Saint-Simon, as experiências da época do terror haviam demonstrado, por sua vez, que os descamisados não possuíam tampouco essa capacidade. Então, quem haveria de dirigir e governar? Segundo Saint-Simon, a ciência e a indústria, unidas por um novo laço religioso, um “novo cristianismo”, forçosamente místico e rigorosamente hierárquico, chamado a restaurar a unidade das ideias religiosas, destruída desde a Reforma. Mas a ciência eram os sábios acadêmicos; e a indústria eram, em primeiro lugar, os burgueses ativos, os fabricantes, os comerciantes, os banqueiros. E embora esses burgueses tivessem de transformar-se numa espécie de funcionários públicos, de homens da confiança de toda a sociedade, sempre conservariam frente aos operários uma posição autoritária e economicamente privilegiada. Os banqueiros seriam os chamados em primeiro lugar para regular toda a produção social por meio de uma regulamentação do crédito. Esse modo de conceber correspondia perfeitamente a uma época em que a grande indústria, e com ela o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, mal começava a despontar na França. Mas Saint-Simon insiste muito especialmente neste ponto: o que o preocupa, sempre e em primeiro lugar, é a sorte da “classe mais numerosa e mais pobre” ela sociedade (“la classe la plus nombreuse et la plus paurre”).

Em suas Cartas de Genebra, Saint-Simon formula a tese de que “todos os homens devem trabalhar”. Na mesma obra já se expressa a Ideia de que o reinado do terror era o governo das massas despossuídas. “Vede – grita-lhes – o que se passou na França quando vossos camaradas subiram ao poder: provocaram a fome”. Mas conceber a Revolução Francesa como urna luta de classes, e não só entre a nobreza e a burguesia, mas entre a nobreza, a burguesia e os despossuídos, era, em 1802, uma descoberta verdadeiramente genial.

Em 1816, Saint-Simon declara que a política é a ciência da produção e prediz já a total absorção da política pela economia. E se aqui não faz senão aparecer em germe a ideia de que a situação econômica é a base das instituições políticas, proclama já claramente a transformação do governo político sobre os homens numa administração das coisas e na direção dos processos da produção, que não é senão a ideia da “abolição do Estado”, que tanto alarde levanta ultimamente. E, elevando-se ao mesmo plano de superioridade sobre os seus contemporâneos, declara, em 1814, imediatamente, depois da entrada das tropas coligadas em Paris, e reitera em 1815, durante a Guerra dos Cem Dias, que a aliança da França com a Inglaterra e, em segundo lugar, a destes países com a Alemanha é a única garantia do desenvolvimento próspero e da paz na Europa. A fim de aconselhar aos franceses de 1815 uma aliança com os vencedores de Waterloo era necessário possuir tanto valentia quanto capacidade para ver longe na história.

O que em Saint-Simon é amplitude genial de visão, que lhe permite conter já, em germe, quase todas as Ideias não estritamente econômicas dos socialistas posteriores, em Fourier é a crítica engenhosa autenticamente francesa, mas nem por isso menos profunda, das condições sociais existentes. Fourier pega a burguesia pela palavra, por seus inflamados profetas de antes e seus Interesseiros aduladores de depois da revolução. Põe a nu, impiedosamente, a miséria material e moral do mundo burguês, e a compara com as fascinantes promessas dos velhos enciclopedistas, com a imagem que eles faziam da sociedade em que a razão reinaria sozinha, de urna civilização que faria felizes todos os homens e de uma ilimitada capacidade humana de perfeição. Desmascara as brilhantes frases dos ideólogos burgueses da época, demonstra como a essas frases grandiloquentes corresponde, por toda parte, a mais cruel das realidades e derrama sua sátira mordaz sobre esse ruidoso fracasso da fraseologia. Fourier não é apenas um crítico; seu espírito sempre jovial faz dele um satírico, um dos maiores satíricos de todos os tempos. A especulação criminosa desencadeada com o refluxo da onda revolucionária e o espírito mesquinho do comércio francês naqueles anos aparecem pintados em suas obras com traços magistrais e encantadores. Mas é ainda mais magistral nele a crítica das relações entre os sexos e da posição da mulher na sociedade burguesa. É ele o primeiro a proclamar que o grau de emancipação da mulher numa sociedade é o barômetro natural pelo qual se mede a emancipação geral. Contudo, onde mais sobressai Fourier é na maneira como concebe a história da sociedade. Fourier divide toda a história anterior em quatro fases ou etapas de desenvolvimento: o selvagismo, a barbárie, o patriarcado e a civilização, esta última fase coincidindo com o que chamamos hoje sociedade burguesa, isto é, com o regime social implantado desde o século XVI, e demonstra que a “ordem civilizada eleva a uma forma complexa, ambígua, equívoca e hipócrita todos aqueles vícios que a barbárie praticava em meio à maior simplicidade”. Para ele a civilização move-se num “círculo vicioso”, num ciclo de contradições, que reproduz constantemente sem poder superá-las, conseguindo sempre precisamente o contrário do que deseja ou alega querer conseguir. E assim nos encontramos, por exemplo, com o fato de que “na civilização, a pobreza brota da própria abundância”. Como se vê, Fourier maneja a dialética com a mesma mestria de seu contemporâneo Hegel. Diante dos que enchem a boca falando da ilimitada capacidade humana de perfeição, põe em relevo, com igual dialética, que toda fase histórica tem sua vertente ascensional, mas também sua ladeira descendente, e projeta essa concepção sobre o futuro de toda a humanidade. E assim como Kant Introduziu na ciência da natureza o desaparecimento futuro da Terra, Fourier introduz em seu estudo da história a ideia do futuro desaparecimento da humanidade.

Enquanto o vendaval da revolução varria o solo da França, desenvolvia-se na Inglaterra um processo revolucionário, mas tranquilo, porém nem por isso menos poderoso. O vapor e as máquinas-ferramenta converteram a manufatura na grande indústria moderna, revolucionando com isso todos os fundamentos da sociedade burguesa. O ritmo vagaroso do desenvolvimento do período da manufatura converteu-se num verdadeiro período de luta e embate da produção. Com uma velocidade cada vez mais acelerada, ia-se dando a divisão da sociedade em grandes capitalistas e proletários que nada possuem e, entre eles, em lugar da antiga classe média tranquila e estável, uma massa Instável de artesãos e pequenos comerciantes, a parte mais flutuante da população, levava unia existência sem nenhuma segurança. O novo modo de produção apenas começava a galgar a vertente ascensional; era ainda o modo de produção normal, regular, o único possível, naquelas circunstâncias. E no entanto deu origem a toda uma série de graves calamidades sociais: amontoamento, nos bairros mais sórdidos das grandes cidades, de uma população arrancada do seu solo; dissolução de todos os laços tradicionais dos costumes, da submissão patriarcal e da família; prolongação abusiva do trabalho, que sobretudo entre as mulheres e as crianças assumia proporções aterradoras; desmoralização em massa da classe trabalhadora, lançada de súbito a condições de vida totalmente novas – do campo para a cidade, da agricultura para a indústria, de uma situação estável para outra contentemente variável e insegura. Em tais circunstâncias, ergue-se como reformador um fabricante de 29 anos, um homem cuja pureza quase infantil tocava às raias do sublime e que era, ao lado disso, um condutor de homens como poucos. Roberto Owen assimilara os ensinamentos dos filósofos materialistas do século XVIII, segundo os quais o caráter do homem é, de um lado, produto de sua organização Inata e, de outro, fruto das circunstâncias que envolvem o homem durante. sua vida, sobretudo durante o período de seu desenvolvimento. A maioria dos homens de sua classe não via na revolução industrial senão caos e confusão, uma ocasião propícia para pescar no rio revolto e enriquecer depressa. Owen, porém, viu nela o terreno adequado para pôr em prática a sua tese favorita, introduzindo ordem no caos. Já em Manchester, dirigindo uma fábrica de mais de 500 operários, tentara, não sem êxito, aplicar praticamente a sua teoria. De 1800 a 1829 orientou no mesmo sentido, embora com maior liberdade de iniciativa e com um êxito que lhe valeu fama na Europa, a grande fábrica de fios de algodão de New Lanark, na Escócia, da qual era sócio e gerente. Uma população operária que foi crescendo paulatinamente até 2 500 almas, recrutada a princípio entre os elementos mais heterogêneos, a maioria dos quais muito desmoralizados, converteu-se em suas mãos numa colônia-modelo, na qual não se conheciam a embriaguez, a polícia, os juízes de paz, os processos, os asilos para pobres nem a beneficência pública Para Isso bastou, tão somente, colocar seus operários em condições mais humanas de vida, consagrando um cuidado especial à educação da prole. Owen foi o criador dos jardins-de-infância, que funcionaram pela primeira vez em New Lanark. As crianças eram enviadas às escolas desde os dois anos, e nelas se sentiam tão bem que só com dificuldade eram levadas para casa. Enquanto nas fábricas de seus concorrentes os operários trabalhavam treze e quatorze horas diárias, em New Lanark a jornada de trabalho era de dez horas e meia. Quando uma crise algodoeira obrigou o fechamento da fábrica por quatro meses, os operários de New Lanark, que ficaram sem trabalho, continuaram recebendo suas diárias Integrais. E, contudo, a empresa incrementara ao dobro o seu valor e rendeu a seus proprietários, até o último dia, enormes lucros.

Owen, entretanto, não estava satisfeito com o que conseguira. A existência que se propusera dar a seus operários distava muito ainda de ser, a seus olhos, uma existência digna de um ser humano. “Aqueles homens eram meus escravos”. As circunstâncias relativamente favoráveis em que os colocara estavam ainda muito longe de permitir-lhes desenvolver racionalmente e em todos os aspectos o caráter e a inteligência, e muito menos desenvolver livremente suas energias. “E, contudo, a parte produtora daquela população de 2500 almas dava à sociedade uma soma de riqueza real que, apenas meio século antes, teria exigido o trabalho de 600 000 homens juntos. Eu me perguntava: onde vai parar a diferença entre a riqueza consumida por essas 2 500 pessoas e a que precisaria ser consumida pelas 600 000?” A resposta era clara: essa diferença era invertida em abonar os proprietários da empresa com 5 por cento de juros sobre o capital de instalação, ao qual vinham somar-se mais de 300 000 libras esterlinas de lucros. E o caso de New Lanark era, só que em proporções maiores, o de todas as fábricas da Inglaterra. “Sem essa nova fonte de riqueza criada pelas máquinas, teria sido impossível levar adiante as guerras travadas para derrubar Napoleão e manter de pé os princípios da sociedade aristocrática. E, no entanto, esse novo poder era obra da classe operária.” (5) A ela deviam pertencer também, portanto, os seus frutos. As novas e gigantescas forças produtivas, que até ali só haviam servido para que alguns enriquecessem e as massas fossem escravizadas, lançavam, segundo Owen, as bases para uma reconstrução social e estavam fadadas a trabalhar somente para o bem-estar coletivo, como propriedade coletiva de todos os membros da sociedade.

Foi assim, por esse caminho puramente prático – resultado, por dizê-lo, dos cálculos de um homem de negócios que surgiu o comunismo oweniano, conservando sempre esse caráter prático. Assim, em 1823, Owen propõe um sistema de colônias comunistas para combater a miséria reinante na Irlanda e apresenta, em apoio de sua proposta, um orçamento completo de despesas de instalação, desembolsos anuais e rendas prováveis. E assim também em seus planos definitivos da sociedade do futuro, os detalhes técnicos são calculados com um domínio tal da matéria. Incluindo até projetos, desenhos de frente, de perfil e do alto que, uma vez aceito o método oweniano de reforma da sociedade, pouco se poderia objetar, mesmo um técnico experimentado, contra os pormenores de sua organização.

O avanço para o comunismo constitui um momento crucial na vida de Owen. Enquanto se limitara a atuar só como filantropo, não colhera senão riquezas, aplausos, honra e fama. Era o homem mais popular da Europa Não só os homens de sua classe e posição social, mas também os governantes e os príncipes o escutavam e o aprovavam. No momento, porém, em que formulou suas teorias comunistas, virou-se a página. Eram precisamente três grandes obstáculos os que, segundo ele, se erguiam em seu caminho da reforma social: a propriedade privada, a religião e a forma atual do casamento. E não ignorava ao que se expunha atacando-os: à execração de toda a sociedade oficial e à perda de sua posição social. Mas isso não o deteve em seus ataques implacáveis contra aquelas instituições, e ocorreu o que ele previa. Desterrado pela sociedade oficial, ignorado completamente pela imprensa, arruinado por suas fracassadas experiências comunistas na América, às quais sacrificou toda a sua fortuna, dirigiu-se à classe operária, no seio da qual atuou ainda durante trinta anos. Todos os movimentos sociais, todos os progressos reais registrados na Inglaterra em interesse da classe trabalhadora, estão ligados ao nome de Owen. Assim, em 1819, depois de cinco anos de grandes esforços, conseguiu que fosse votada a primeira lei limitando o trabalho da mulher e da criança nas fábricas. Foi ele quem presidiu o primeiro congresso em que as trade-unions de toda a Inglaterra fundiram-se numa grande organização sindical única. E foi também ele quem criou, como medidas de transição, para que a sociedade pudesse organizar-se de maneira integralmente comunista, de um lado, as cooperativas de consumo e de produção – que serviram, pelo menos, para demonstrar na prática que o comerciante e o fabricante não são Indispensáveis -, e de outro lado, os mercados operários, estabelecimentos de troca dos produtos do trabalho por meio de bônus de trabalho e cuja unidade é a hora de trabalho produzido; esses estabelecimentos tinham necessariamente que fracassar, mas se antecipam multo aos bancos proudhonianos de troca, diferenciando-se deles somente em que não pretendem ser a panaceia universal para todos os males sociais, mas pura e simplesmente um primeiro passo para uma transformação multo mais radical da sociedade.

As concepções dos utopistas dominaram durante muito tempo as ideias socialistas do século XIX, e em parte ainda hoje as dominam. Rendiam-lhes homenagens, até há muito pouco tempo, todos os socialistas franceses e Ingleses e a eles se deve também o incipiente comunismo alemão, incluindo Weitling. Para todos eles, o socialismo é a expressão da verdade absoluta, da razão e da justiça, e é bastante revelá-lo para, graças à sua virtude, conquistar o mundo. E, como a verdade absoluta não está sujeita a condições de espaço e de tempo nem ao desenvolvimento histórico da humanidade, só o acaso pode decidir quando e onde essa descoberta se revelará. Acrescente-se a isso que a verdade absoluta, a razão e a justiça variam com os fundadores de cada escola; e como o caráter específico da verdade absoluta, da razão e da justiça está condicionado, por sua vez, em cada um deles, pela Inteligência pessoal, condições de vida, estado de cultura e disciplina mental, resulta que nesse conflito de verdades absolutas a única solução é que elas vão acomodando-se umas às outras. E, assim, era inevitável que surgisse uma espécie de socialismo eclético e medíocre, como o que, com efeito, continua imperando ainda nas cabeças da maior parte dos operários socialistas da França e da Inglaterra: uma mistura extraordinariamente variegada e cheia de matizes, compostas de desabafes críticos, princípios econômicos e as imagens sociais do futuro menos discutíveis dos diversos fundadores de seitas, mistura tanto mais fácil de compor quanto mais os ingredientes individuais iam perdendo, na torrente da discussão, os seus contornos sutis e agudos, como as pedras limadas pela corrente de um rio. Para converter o socialismo em ciência era necessário, antes de tudo, situá-lo no terreno da realidade.










2 – Dialética:

Entretanto, junto à filosofia francesa do século XVIII, e por trás dela, surgira a moderna filosofia alemã, cujo ponto culminante foi Hegel. O principal mérito dessa filosofia é a restauração da dialética, como forma suprema do pensamento. Os antigos filósofos gregos eram todos dialéticos inatos, espontâneos, e a cabeça mais universal de todos eles – Aristóteles – chegara já a estudar as formas mais substanciais do pensamento dialético. Em troca, a nova filosofia, embora tendo um ou outro brilhante defensor da dialética (como por exemplo, Descartes e Spinoza) caía cada vez mais, sob a influência principalmente dos ingleses, na chamada maneira metafísica de pensar, que também dominou quase totalmente entre os franceses do século XVIII, ao menos em suas obras especificamente filosóficas. Fora do campo estritamente filosófico, eles criaram também obras-primas de dialética; como prova, basta citar “O Sobrinho” de Rameau, de Diderot, e o estudo de Rousseau sobre a origem da desigualdade entre os homens. Resumiremos aqui, sucintamente, os traços mais essenciais de ambos os métodos discursivos.

Quando nos detemos a pensar sobre a natureza, ou sobre a história humana, ou sobre nossa própria atividade espiritual, deparamo-nos, em primeiro plano, com a imagem de uma trama infinita de concatenações e Influências recíprocas, em que nada permanece o que era, nem como e onde era, mas tudo se move e se transforma, nasce e morre. Vemos, pois, antes de tudo, a imagem de conjunto, na qual os detalhes passam ainda mais ou menos para o segundo plano; fixamo-nos mais no movimento, nas transições, na concatenação, do que no que se move, se transforma e se concatena Essa concepção do mundo, primitiva, ingênua, mas essencialmente exata, é a dos filósofos gregos antigos, e aparece claramente expressa pela primeira vez em Heráclito: tudo é e não é, pois tudo flui, tudo se acha sujeito a um processo constante de transformação, de Incessante nascimento e caducidade. Mas essa concepção, por mais exatamente que reflita o caráter geral do quadro que nos é oferecido pelos fenômenos, não basta para explicar os elementos isolados que formam esse quadro total; sem conhecê-los a Imagem geral não adquirirá tampouco um sentido claro. Para penetrar nesses detalhes temos de despregá-los do seu tronco histórico ou natural, e investigá-los separadamente, cada qual por si, em seu caráter, causas e efeitos especiais, etc.

Tal é a missão primordial das ciências naturais e da história, ramos de investigação que os gregos clássicos situavam, por motivos muito justificados, num plano puramente secundário, pois primariamente deviam dedicar-se a acumular os materiais científicos necessários. Enquanto não se reúne uma certa quantidade de materiais naturais e históricos não se pode proceder ao exame crítico, à comparação e, consequentemente, a divisão em classes, ordens e espécies. Por isso, os rudimentos das ciências naturais exatas não foram desenvolvidos senão a partir dos gregos do período alexandrino (6) e, mais tarde, na Idade Média, pelos árabes; a ciência autêntica da natureza data semente da segunda metade do século XV e, desde então, não fez senão progredir a ritmo acelerado.

 A análise da natureza em suas diversas partes, a classificação dos diversos processos e objetos naturais em determinadas categorias, a pesquisa interna dos corpos orgânicos segundo sua diversa estrutura anatômica, foram outras tantas condições fundamentais a que obedeceram aos gigantescos progressos realizados, durante os últimos quatrocentos anos, no conhecimento científico da natureza. Esses métodos de Investigação, porém, nos transmitiu, ao lado disso, o hábito de enfocar as coisas e os processos da natureza isoladamente, subtraídos à concatenação do grande todo; portanto, não em sua dinâmica, mas estaticamente; não como substancialmente variáveis, mas como consistências fixas; não em sua vida, mas em sua morte. Por isso, esse método de observação, ao transplantar-se, com Bacon e Locke, das ciências naturais para a filosofia, determinou a estreiteza específica característica dos últimos séculos: o método metafísico de especulação.

Para o metafísico, as coisas e suas Imagens no pensamento, os conceitos, são objetos de Investigação Isolados, fixos, rígidos, focalizados um após o outro, de per si, como algo dado e perene. Pensa só em antíteses, sem meio-termo possível; para ele, das duas uma: sim, sim; não, não; o que for além disso, sobra. Para ele, uma coisa existe ou não existe; um objeto não pode ser ao mesmo tempo o que é e outro diferente. O positivo e o negativo se excluem em absoluto. A causa e o efeito revestem também, a seus olhos, a forma de uma rígida antítese. À primeira vista, esse método discursivo parece-nos extremamente razoável, porque é o do chamado senão comum. Mas o próprio senso comum – personagem multo respeitável dentro de casa, entre quatro paredes – vive peripécias verdadeiramente maravilhosas quando se aventura pelos caminhos amplos da investigação; e o método metafísico de pensar, pois muito justificado e até necessário que seja em muitas zonas do pensamento, mais ou menos extensas segundo a natureza do objeto de que se trate, tropeça sempre, cedo ou tarde, com uma barreira, ultrapassada a qual converte-se num método unilateral, limitado, abstrato, e se perde em Insolúveis contradições, pois, absorvido pelos objetos concretos, não consegue perceber sua concatenação; preocupado com sua existência, não atenta em sua origem nem em sua caducidade; obcecado pelas árvores, não consegue ver o bosque. Na realidade de cada dia, sabemos, por exemplo, e podemos dizer com toda certeza se um animal existe ou não; porém, pesquisando mais detidamente, verificamos que às vezes o problema se complica consideravelmente, como sabem muito bem os juristas, que tanto e tão inutilmente têm-se atormentado por descobrir um limite racional a partir do qual deva a morte do filho no ventre materno ser considerada um assassinato; nem é fácil tampouco determinar rigidamente o momento da morte, uma vez que a fisiologia demonstrou que a morte não é um fenômeno repentino, instantâneo, mas um processo muito longo. Do mesmo modo, todo ser orgânico é, a qualquer instante, ele mesmo e outro; a todo Instante, assimila matérias absorvidas do exterior e elimina outras do seu interior; a todo instante, morrem certas células e nascem outras em seu organismo; e no transcurso de um período mais ou menos demorado a matéria de que é formado renova-se totalmente, e novos átomos de matérias vêm ocupar o lugar dos antigos, por onde todo o seu ser orgânico é, ao mesmo tempo, o que é e outro diferente. Da mesma maneira, observando as coisas detidamente, verificamos que os dois polos de uma antítese, o positivo e o negativo, são tão inseparáveis quanto antitéticos um do outro e que, apesar de todo o seu antagonismo, se penetram reciprocamente; e vemos que a causa e o efeito são representações que somente regem, como tais, em sua aplicação ao caso concreto, mas que, examinando o caso concreto em sua concatenação com a imagem total do universo, se juntam e se diluem na ideia de uma trama universal de ações e reações, em que as causas e os efeitos mudam constantemente de lugar e em que o que agora ou aqui é efeito adquire em seguida ou ali o caráter de causa, e vice-versa.

Nenhum desses fenômenos e métodos discursivos se encaixa no quadro das especulações metafísicas. Ao contrário, para a dialética, que focaliza as coisas e suas Imagens conceituais substancialmente em suas conexões, em sua concatenação, em sua dinâmica, em seu processo de nascimento e caducidade, fenômenos como os expostos não são mais que outras tantas confirmações de seu modo genuíno de proceder. A natureza é a pedra de toque da dialética, e as modernas ciências naturais nos oferecem para essa prova um acervo de dados extraordinariamente copiosos e enriquecido cada dia que passa, demonstrando com isso que a natureza se move, em última instância, pelos caminhos dialéticos e não pelas veredas metafísicas, que não se move na eterna monotonia de um ciclo constantemente repetido, mas percorre uma verdadeira história. Aqui é necessário citar Darwin, em primeiro lugar, quem, com sua prova de que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais, e entre eles, como é lógico, o homem, é o produto de um processo de desenvolvimento de milhões de anos, assestou na concepção metafísica da natureza o mais rude golpe. Até hoje, porém, os naturalistas que souberam pensar dialeticamente podem ser contados com os dedos, e esse conflito entre os resultados descobertos e o método discursivo tradicional põe a nu a ilimitada confusão que reina presentemente na teoria das ciências naturais e que constitui o desespero de mestres e discípulos, de autores e leitores.

Somente seguindo o caminho da dialética, não perdendo jamais de vista as inumeráveis ações e reações gerais do devir e do perecer, das mudanças de avanço e retrocesso, chegamos a uma concepção exata do universo, do seu desenvolvimento e do desenvolvimento da humanidade, assim como da imagem projetada por esse desenvolvimento nas cabeças dos homens. E foi esse, com efeito, o sentido em que começou a trabalhar, desde o primeiro momento, a moderna filosofia alemã. Kant iniciou sua carreira de filósofo dissolvendo o sistema solar estável de Newton e sua duração eterna – depois de recebido o primeiro impulso – num processo histórico: no nascimento do Sol e de todos os planetas a partir de uma massa nebulosa em rotação. Daí, deduziu que essa origem implicava também, necessariamente, a morte futura do sistema solar. Meio século depois sua teoria foi confirmada matematicamente por Laplace e, ao fim de outro meio século, o espectroscópio veio demonstrar a existência no espaço daquelas massas ígneas de gás, em diferente grau de condensação.

A filosofia alemã moderna encontrou sua culminância no sistema de Hegel, em que pela primeira vez – e aí está seu grande mérito – se concebe todo o mundo da natureza, da história e do espírito como um processo, isto é, em constante movimento, mudança, transformação e desenvolvimento, tentando além disso ressaltar a intima conexão que preside esse processo de movimento e desenvolvimento. Contemplada desse ponto de vista, a história da humanidade já. não aparecia como um caos inóspito de violências absurdas, todas igualmente condenáveis diante do foro da razão filosófica hoje já madura, e boas para serem esquecidas quanto antes, mas como o processo de desenvolvimento da própria humanidade, que cabia agora ao pensamento acompanhar em suas etapas graduais e através de todos os desvios, e demonstrar a existência de leis internas que orientam tudo aquilo que à primeira vista poderia parecer obra do acaso cego.

Não importava que o sistema de Hegel não resolvesse o problema que se propunha. Seu mérito, que marca época. consistiu em tê-lo proposto. Não em vão, trata-se de um problema que nenhum homem sozinho pôde resolver. E embora fosse Hegel, como Saint-Simon, a cabeça mais universal. de seu tempo, seu horizonte achava-se circunscrito, em primeiro lugar, pela limitação inevitável de seus próprios conhecimentos e, em segundo lugar, pelos conhecimentos e concepções de sua época, limitados também em extensão e profundidade. Deve-se acrescentar a isso uma terceira circunstância. Hegel era idealista; isto é, para ele as Idéias de sua cabeça não eram imagens mais ou menos abstratas dos objetos ou fenômenos da realidade, mas essas coisas e seu desenvolvimento se lhe afiguravam, ao contrário, como projeções realizadas da “Idéia”, que já existia, não se sabe como, antes de existir o mundo. Assim, foi tudo posto de cabeça para baixo, e a concatenação real do universal apresentava-se completamente às avessas. E por mais exatas e mesmo geniais que fossem várias das conexões concretas concebidas por Hegel, era inevitável, pelos motivos que acabamos de apontar, que muitos dos seus detalhes tivessem um caráter amaneirado, artificial, construído; em uma palavra, falso. O sistema de Hegel foi um aborto gigantesco, mas o último de seu gênero. De fato, continuava sofrendo de uma contradição interna incurável; pois, enquanto de um lado partia como pressuposto inicial da concepção histórica, segundo a qual a história humana é um processo de desenvolvimento que não pode, por sua natureza, encontrar o arremate intelectual na descoberta disso que chamam verdade absoluta, de outro lado nos é apresentado exatamente como a soma e a síntese dessa verdade absoluta. Um sistema universal e definitivamente plasmado do conhecimento da natureza e da história é incompatível com as leis fundamentais do pensamento dialético – que não exclui, mas longe disso implica que o conhecimento sistemático do mundo exterior em sua totalidade possa progredir gigantescamente de geração em geração.

A consciência da total inversão em que incorria o Idealismo alemão levou necessariamente ao materialismo; mas não, veja-se bem, àquele materialismo puramente metafísico e exclusivamente mecânico do século XVIII. Em oposição à simples repulsa, ingenuamente revolucionária, de toda a história anterior, o materialismo moderno vê na história o processo de desenvolvimento da humanidade, cujas leis dinâmicas é missão sua descobrir. Contrariamente à ideia da natureza que imperava entre os franceses do século XVIII, assim como em Hegel, em que esta era concebida como um todo permanente e invariável, que se movia dentro de ciclos estreitos, com corpos celestes eternos, tal como Newton os representava, e com espécies invariáveis de seres orgânicos, como ensinara Linneu, o materialismo moderno resume e compendia os novos progressos das ciências naturais, segundo os quais a natureza tem também sua história no tempo, e os mundos, assim como as espécies orgânicas que em condições propícias os habitam, nascem e morrem, e os ciclos, no grau em que são admissíveis, revestem dimensões infinitamente mais grandiosas. Tanto em um como em outro caso, o materialismo moderno é substancialmente dialético e já não precisa de uma filosofia superior às demais ciências. Desde o momento em que cada ciência tem que prestar contas da posição que ocupa no quadro universal das coisas e do conhecimento dessas coisas, já não há margem para uma ciência especialmente consagrada ao estudo das concatenações universais. Da filosofia anterior, com existência própria, só permanece de pé a teoria do pensar e de suas leis: a lógica formal e a dialética. O demais se dissolve na ciência positiva da natureza e da história.

No entanto, enquanto que essa revolução na concepção da natureza só se pôde impor na medida em que a pesquisa fornecia à ciência os materiais positivos correspondentes, já há muito tempo se haviam revelado certos fatos históricos que imprimiram uma reviravolta decisiva no modo de focalizar a história. Em 1831, estala em Lyon a primeira insurreição operária, e de 1838 a 1842 atinge o auge o primeiro movimento operário nacional: o dos cartistas ingleses. A luta de classes entre o proletariado e a burguesia passou a ocupar o primeiro plano da história dos países europeus mais avançados, ao mesmo ritmo em que se desenvolvia neles, de uni lado, a grande indústria, e de outro lado, a dominação política recém-conquistada da burguesia. Os fatos refutavam cada vez mais rotundamente as doutrinas burguesas da identidade de interesses entre o capital e o trabalho e da harmonia universal e o bem-estar geral das nações, como fruto da livre concorrência. Não havia como passar por alto esses fatos, nem era tampouco possível ignorar o socialismo francês e inglês, expressão teórica sua, por mais imperfeita que fosse.

Mas a velha concepção idealista da história, que ainda não havia sido removida, não conhecia lutas de classes baseadas em interesses materiais, nem conhecia interesses materiais de qualquer espécie; para ela a produção, bem como todas as relações econômicas, só existiam acessoriamente, como um elemento secundário dentro da “história cultural”. Os novos fatos obrigaram à revisão de toda a história anterior, e então se viu que, com exceção do Estado primitivo, toda a história anterior era a história das lutas de classes, e que essas classes sociais em luta entre si eram em todas as épocas fruto das relações de produção e de troca, isto é, das relações econômicas de sua época; que a estrutura econômica da sociedade em cada época da história constitui, portanto, a base real cujas propriedades explicam, em última análise, toda a superestrutura Integrada pelas instituições jurídicas e políticas, assim como pela ideologia religiosa, filosófica, etc., de cada período histórico. Hegel libertara da metafísica a concepção da história, tornando-a dialética; mas sua interpretação da história era essencialmente idealista. Agora, o idealismo fora despejado do seu último reduto: a concepção da história -, substituída por uma concepção materialista da história, com o que se abria o caminho para explicar a consciência do homem por sua existência, e não esta por sua consciência, que era até então o tradicional.

Desse modo o socialismo já não aparecia como a descoberta casual de tal ou qual intelecto genial, mas como o produto necessário da luta entre as duas classes formadas historicamente: o proletariado e a burguesia. Sua missão já não era elaborar um sistema o mais perfeito possível da sociedade, mas investigar o processo histórico econômico de que, forçosamente, tinham que brotar essas classes e seu conflito, descobrindo os meios para a solução desse conflito na situação econômica assim criada. Mas o socialismo tradicional era incompatível com essa nova concepção materialista da história, tanto quanto a concepção da natureza do materialismo francês não podia ajustar-se à dialética e às novas ciências naturais. Com efeito, o socialismo anterior criticava o modo de produção capitalista existente e suas consequências, mas não conseguia explicá-lo nem podia, portanto, destrui-lo ideologicamente; nada mais lhe restava senão repudiá-lo, pura o simplesmente, como mau. Quanto mais violentamente clamava contra a exploração da classe operária, inseparável desse modo de produção, menos estava em condições de indicar claramente em que consistia e como nascia essa exploração. Mas do que se tratava era, por um lado, de expor esse modo capitalista de produção em suas conexões históricas e como necessário para uma determinada época da história, demonstrando com isso também a necessidade de sua queda e, por outro lado, pôr a nu o seu caráter interno, ainda oculto. Isso se tornou evidente com a descoberta da mais-valia. Descoberta que veio revelar que o regime capitalista de produção e a exploração do operário, que dele se deriva, tinham por forma fundamental a apropriação de trabalho não pago; que o capitalista, mesmo quando compra a força de trabalho de seu operário por todo o seu valor, por todo o valor que representa como mercadoria no mercado, dela retira sempre mais valor do que lhe custa e que essa mais-valia é, em última análise, a soma de valor de onde provém a massa cada vez maior do capital acumulado em mãos das classes possuidoras. O processo da produção capitalista e o da produção de capital estavam assim explicados.

Essas duas grandes descobertas – a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista através da mais-valia – nós as devemos a Karl Marx. Graças a elas o materialismo converte-se em uma ciência, que só nos resta desenvolver em todos os seus detalhes e concatenações.

3 – O Materialismo Histórico:

A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e com ela a troca dos produtos, é a base de toda a ordem social; de que em todas as sociedades que desfilam pela história, a distribuição dos produtos, e juntamente com ela a divisão social dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo que a sociedade produz e como produz o pelo modo de trocar os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas as transformações sociais e de todas as revoluções políticas não devem ser procuradas nas cabeças dos homens nem na ideia que eles façam da verdade eterna ou da eterna justiça, mas nas transformações operadas no modo de produção e de troca; devem ser procuradas não na filosofia, mas na economia da época de que se trata. Quando nasce nos homens a consciência de que as instituições sociais vigentes são irracionais e injustas, de que a razão se converteu em insensatez e a bênção em praga (7), isso não é mais que um indício de que nos métodos de produção e nas formas de distribuição produziram-se silenciosamente transformações com as quais já não concorda a ordem social, talhada segundo o padrão de condições econômicas anteriores. E assim já está dito que nas novas relações de produção têm forçosamente que conter-se – mais ou menos desenvolvidos – os meios necessários para pôr termo aos males descobertos. E esses meios não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça é que tem de descobri-los nos fatos materiais da produção, tal e qual a realidade os oferece.

Qual é, nesse aspecto, a posição do socialismo moderno?

A ordem social vigente – verdade reconhecida hoje por quase todo o mundo – é obra das classes dominantes dos tempos modernos, da burguesia. O modo de produção característico da burguesia, ao qual desde Marx se dá o nome de modo capitalista de produção, era incompatível com os privilégios locais e dos estados, como o era com os vínculos interpessoais da ordem feudal. A burguesia lançou por terra a ordem feudal e levantou sobre suas ruínas o regime da sociedade burguesa, o império da livre concorrência, da liberdade de domicílio, da igualdade de direitos dos possuidores de mercadorias, e tantas outras maravilhas burguesas. Agora já podia desenvolver-se livremente o modo capitalista de produção. E ao chegarem o vapor e a nova maquinaria ferramental, transformando a antiga manufatura na grande indústria, as forças produtivas criadas e postas em movimento sob o comando da burguesia desenvolveram-se com uma velocidade Inaudita e em proporções até então desconhecidas. Mas, do mesmo modo que em seu tempo a manufatura e o artesanato, que continuava desenvolvendo-se sob sua influência, se chocavam com os entraves feudais das corporações, a grande indústria, ao chegar a um uivei de desenvolvimento mais alto, já não cabe no estreito marco em que é contida pelo modo de produção capitalista. As novas forças produtivas transbordam já da forma burguesa em que são exploradas, e esse conflito entre as forças produtivas e o modo de produção não é precisamente nascido na cabeça do homem – algo assim como o conflito entre o pecado original do homem e a Justiça divina – mas tem suas raízes nos fatos, na realidade objetiva, fora de nós, independentemente da vontade ou da atividade dos próprios homens que o provocaram. O socialismo moderno não é mais que o reflexo desse conflito material na consciência, sua projeção Ideal nas cabeças, a começar pelas da classe que sofre diretamente suas consequências: a classe operária.

Em que consiste esse conflito? Antes de sobrevir a produção capitalista, isto é, na Idade Média, dominava, com caráter geral, a pequena Indústria, baseada na propriedade privada do trabalhador sobre seus meios de produção: no campo, a agricultura corria a cargo de pequenos lavradores, livres ou vassalos; nas cidades, a indústria achava-se em mãos dos artesãos. Os meios de trabalho – a terra, os instrumentos agrícolas, a oficina, as ferramentas – eram meios de trabalho individual, destinados unicamente ao uso individual e, portanto, forçosamente, mesquinhos, diminutos, limitados. – Mas isso mesmo levava a que pertencessem, em geral, ao próprio produtor. O papel histórico do modo capitalista de produção e seu portador – a burguesia – consistiu precisamente em concentrar e desenvolver esses dispersos e mesquinhos meios de produção, transformando-os nas poderosas alavancas produtoras dos tempos atuais. Esse processo, que a burguesia vem desenvolvendo desde o século XV e que passa historicamente pelas três etapas da cooperação simples, a manufatura e a grande indústria, é minuciosamente exposto por Marx na seção quarta de O Capital. Mas a burguesia, como fica também demonstrado nessa obra, não podia converter aqueles primitivos meios de produção em poderosas forças produtivas sem transformá-los de meios individuais de produção em meios sociais, -só manejáveis por uma coletividade de homens. A roca, O tear manual e o martelo do ferreiro foram substituídos pela máquina de fiar, pelo tear mecânico, pelo martelo movido a vapor; a oficina individual deu o lugar à fábrica, que impõe a cooperação de centenas e milhares de operários. E, com os meios de produção, transformou-se a própria produção, deixando de ser uma cadeia de atos Individuais para converter-se numa cadeia de atos sociais, e os produtos transformaram-se de produtos individuais em produtos sociais. O fio, as telas, os artigos de metal que agora safam da fábrica eram produto do trabalho coletivo de um grande número de operários, por cujas mãos tinha que passar sucessivamente para sua elaboração. Já ninguém podia dizer: isso foi feito por mim, esse produto é meu.

Mas onde a produção tem por forma principal um regime de- divisão social do trabalho criado paulatinamente, por impulso elementar, sem sujeição a plano algum, a produção imprime aos produtos a forma de mercadoria, cuja troca, compra e venda permitem aos diferentes produtores Individuais satisfazer suas diversas necessidades. E isso era o que acontecia na Idade Média. O camponês, por exemplo, vendia ao artesão os produtos da terra, comprando-lhe em troca os artigos elaborados em sua oficina. Nessa sociedade de produtores Isolados, de produtores de mercadorias, veio a introduzir-se mais tarde o novo modo de produção. Em meio àquela divisão elementar do trabalho, sem plano nem sistema, que imperava no seio de toda a sociedade, o novo modo de produção implantou a divisão planificada do trabalho dentro de cada fábrica; ao lado da produção individual surgiu a produção social Os produtos de ambas eram vendidos no mesmo mercado e, portanto, a preços aproximadamente iguais. Mas a organização planificada podia mais que a divisão elementar do trabalho; as fábricas em que o trabalho estava organizado socialmente elaboravam seus produtos mais baratos que os pequenos produtores Isolados. A produção Individual foi pouco a pouco sucumbindo em todos os campos e a produção social revolucionou todo o antigo modo de produção. Contudo, esse caráter revolucionário passava despercebido; tão despercebido que, pelo contrário, se implantava com a única e exclusiva finalidade de aumentar e fomentar a produção de mercadorias. Nasceu diretamente ligada a certos setores de produção e troca de mercadorias que já vinham funcionando: o capital comercial, a indústria artesanal e o trabalho assalariado. E já que surgia como uma nova forma de produção de mercadorias, mantiveram-se em pleno vigor sob ela as formas de apropriação da produção de mercadorias.

Na produção de mercadorias, tal como se havia desenvolvido na Idade Média, não podia surgir o problema de a quem pertencer os produtos do trabalho. O produtor individual criava-os, geralmente, com matérias-primas de sua propriedade, produzidas não poucas vezes por ele mesmo, com seus próprios meios de trabalho e elaborados com seu próprio trabalho manual ou de sua família. Não necessitava, portanto, apropriar-se deles, pois já eram seus pelo simples fato de produzi-los. A propriedade dos produtos baseava-se, pois, no trabalho pessoal. E mesmo naqueles casos em que se empregava a ajuda alheia, esta era, em regra, acessória, e recebia frequentemente, além do salário, outra compensação: o aprendiz e o oficial das corporações não trabalhavam menos pelo salário e pela comida do que para aprender a chegar a ser mestres algum dia. Sobrevêm a concentração dos meios de produção em grandes oficinas e manufaturas, sua transformação em meios de produção realmente sociais. Entretanto, esses meios de produção e seus produtos sociais foram considerados como se continuassem a ser o que eram antes: meios de produção e produtos individuais. E se até aqui o proprietário dos meios de trabalho se apropriara dos produtos, porque eram, geralmente, produtos seus e a ajuda constituía uma exceção, agora o proprietário dos meios de trabalho continuava apoderando-se do produto, embora já não fosse um produto seu, mas fruto exclusivo do trabalho alheio. Desse modo, os produtos, criados agora socialmente, não passavam a ser propriedade daqueles que haviam posto realmente em marcha os meios de produção e eram realmente seus criadores, mas do capitalista. Os meios de produção e a produção foram convertidos essencialmente em fatores sociais. E, no entanto, viam-se submetidos a uma forma da apropriação que pressupõe a produção privada Individual, isto é, aquela em que cada qual é dono de seu próprio produto e, como tal, comparece com ele ao mercado. O modo de produção se vê sujeito a essa forma de apropriação apesar de destruir o pressuposto sobre o qual repousa (8) nessa contradição, que imprime ao novo modo de produção o seu caráter capitalista, encerra-se em germe, todo o conflito dos tempos atuais. E quanto mais o novo modo de produção se impõe e impera em todos os campos fundamentais da produção e em todos os países economicamente importantes, afastando a produção individual, salvo vestígios insignificantes, maior é a evidência com que se revela a incompatibilidade entre a produção social e a apropriação capitalista.

Os primeiros capitalistas já se encontraram, como ficou dito, com a forma do trabalho assalariado. Mas como exceção, como ocupação secundária, como simples ajuda, como ponto de transição. O lavrador que saía de quando em vez para ganhar uma diária, tinha seus dois palmos de terra própria, graças às quais, em caso extremo, podia viver. Os regulamentos das corporações velavam para que os oficiais de hoje se convertessem amanhã em mestres. Mas, logo que os meios de produção adquiriram um caráter social e se concentraram em mãos dos capitalistas, as coisas mudaram. Os meios de produção e os produtos do pequeno produtor individual foram sendo cada vez mais depreciados, até que a esse pequeno produtor não ficou outro recurso senão ganhar um salário pago pelo capitalista. O trabalho assalariado, que era antes exceção e mera ajuda, passou a ser regra e forma fundamental de toda a produção, e o que era antes ocupação acessória se converte em ocupação exclusiva do operário. O operário assalariado temporário transformou-se em operário assalariado para toda a vida. Ademais, a multidão desses para sempre assalariados vê-se engrossada em proporções gigantescas pela derrocada simultânea da ordem feudal, pela dissolução das mesnadas (9) dos senhores feudais, a expulsão dos camponeses de suas terras, etc. Realizara-se o completo divórcio entre os meios de produção concentrados nas mãos dos capitalistas, de um lado, e, de outro lado, os produtores que nada possuíam além de sua própria força de trabalho. A contradição entre a produção social e a apropriação capitalista reveste a forma de antagonismo entre o proletariado e a burguesia.

Vimos que o modo de produção capitalista se introduziu numa sociedade de produtores de mercadorias, de produtores Individuais, cujo vinculo social era o intercâmbio de seus produtos. Mas toda sociedade baseada na produção de mercadorias apresenta a particularidade de que nela os produtores perdem o comando sobre suas próprias relações sociais. Cada qual produz para si, com os meios de produção de que consegue dispor, e para as necessidades de seu intercâmbio privado. Ninguém sabe qual a quantidade de artigos do mesmo tipo que os demais lançam no mercado, nem da quantidade que o mercado necessita; ninguém sabe se seu produto Individual corresponde a uma demanda efetiva, nem se poderá cobrir os gastos, nem sequer, em geral, se poderá vendê-lo. A anarquia impera na produção social. Mas a produção de mercadorias tem, como toda forma de produção, suas leis características, próprias e inseparáveis dela; e essas leis abrem caminho apesar da anarquia, na própria anarquia e através dela. Tomam corpo na única forma de enlace social que subsiste: na troca, e se impõem aos produtores Individuais sob a forma das leis Imperativas da concorrência. A princípio, esses produtores as Ignoram, e é preciso que uma larga experiência vá revelando-as, pouco a pouco. Impõem-se, pois, sem os produtores, e mesmo contra eles, como leis naturais cegas que presidem essa forma de produção. O produto impera sobre o produtor.

Na sociedade medieval, e sobretudo em seus primeiros séculos, a produção destinava-se principalmente ao consumo próprio, a satisfazer apenas às necessidades do produtor e sua família. E onde, como acontecia no campo, subsistiam relações pessoais de vassalagem, contribuía também para satisfazer às necessidades do senhor feudal. Não se produzia, pois, nenhuma troca, nem os produtos revestiam, portanto, o caráter de mercadorias. A família do lavrador produzia quase todos os objetos de que necessitava: utensílios, roupas e viveres. Só começou a produzir mercadorias quando começou a criar um excedente de produtos, depois de cobrir suas próprias necessidades e os tributos em espécie que devia pagar ao senhor feudal; esse excedente, lançado no intercâmbio social, no mercado, para sua venda, converteu-se em mercadoria. Os artesãos das cidades, por certo, tiveram que produzir para o mercado desde o primeiro momento. Mas também elaboravam eles próprios a maior parte dos produtos de que necessitavam para seu consumo; tinham suas hortas e seus pequenos campos, apascentavam seu gado nos campos comunais, que lhes forneciam também madeira e lenha; suas mulheres fiavam o linho e a lã, etc. A produção para a troca, a produção de mercadorias, achava-se em seu início. Por isso o intercâmbio era limitado, o mercado era reduzido, o modo de produção era estável. Em face do exterior imperava o exclusivismo local; no interior, a associação local: a Marca no campo, as corporações nas cidades.

Mas ao estender-se a produção de mercadorias e, sobretudo, ao aparecer o modo capitalista de produção, as leis da produção de mercadorias, que até aqui haviam apenas dado sinais de vida, passam a funcionar de maneira aberta e p0-dêrosa. As antigas associações começam a perder força, as antigas fronteiras vão caindo por terra, os produtores vão convertendo-se mais e mais em produtores de mercadorias independentes e isolados. A anarquia da produção social sai à luz e se aguça cada vez mais. Mas o instrumento principal com que o modo de produção capitalista fomenta essa anarquia na produção social é precisamente o Inverso da anarquia: a crescente organização da produção com caráter social, dentro de cada estabelecimento de produção. Por esse meio, põe fim à velha estabilidade pacifica. Onde se implanta num ramo industrial, não tolera a seu lado nenhum dos velhos métodos. Onde se apodera da indústria artesanal, ela a destrói e aniquila. O terreno de trabalho transforma-se num campo de batalha. As grandes descobertas geográficas e as empresas de colonização que as acompanham multiplicam os mercados e aceleram o processo de transformação de oficina do artesão em manufatura. E a luta não eclode somente entre os produtores locais isolados; as contendas locais não adquirem envergadura nacional, e surgem as guerras comerciais dos séculos XVII e XVIII (10). Até que, por fim, a grande indústria e a implantação do mercado mundial dão caráter universal à luta, ao mesmo tempo que lhe imprimem uma inaudita violência. Tanto entre os capitalistas individuais como entre industriais e países inteiros, a primazia das condições – natural ou artificialmente criadas – da produção decide a luta pela existência. O que sucumbe é esmagado sem piedade. É a luta darwinista da existência individual transplantada, com redobrada fúria, da natureza para a sociedade. As condições naturais de vida da besta convertem-se no ponto culminante do desenvolvimento humano. A contradição entre a produção social e a apropriação capitalista manifesta-se agora como antagonismo entre a organização da produção dentro de cada fábrica e a anarquia da produção no seio de toda a sociedade.

O modo capitalista de produção move-se nessas duas formas da contradição a ele inerente por suas próprias origens, descrevendo sem apelação aquele “círculo vicioso” já revelado por Fourier. Mas o que Fourier não podia ver ainda em sua época é que esse círculo se vai reduzindo gradualmente, que o movimento se desenvolve em espiral e tem de chegar necessariamente ao seu fira, como o movimento dos planetas. Chocando-se com o centro. É a força propulsora da anarquia social da produção que converte a Imensa maioria dos homens, cada vez mais marcadamente, em proletários, e essas massas proletárias serão, por sua vez, as que, afinal, porão fim à anarquia da produção É a força propulsora da anarquia social da produção que converte a capacidade infinita de aperfeiçoamento das máquinas num preceito imperativo, que obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente a sua maquinaria, sob pena de perecer. Mas melhorar a maquinaria equivale a tornar supérflua uma massa de trabalho humano. E assim como a implantação e o aumento quantitativo da maquinaria trouxeram consigo a substituição de milhões de operários manuais por um número reduzido de operários mecânicos, seu aperfeiçoamento determina a eliminação de um número cada vez maior de operários das máquinas e, em última instância, a criação de uma massa de operários disponíveis que ultrapassa a necessidade média de ocupação do capital, de um verdadeiro exército industrial de reserva, como eu já o chamara em 1845 (11), de um exército de trabalhadores disponíveis para as épocas em que a indústria trabalha a pleno vapor e que logo nas crises que sobrevêm necessariamente depois desses períodos, é lançado às ruas, constituindo a todo momento uma grilheta amarrada aos pés da classe trabalhadora em sua luta pela existência contra o capital e um regulador para manter os salários no nível baixo correspondente às necessidades do capitalista. Assim, para dizê-lo com Marx, a maquinaria converteu-se na mais poderosa arma do capital contra a classe operária, um meio de trabalho que arranca constantemente os meios de vida das mãos do operário, acontecendo que o produto do próprio operário passa a ser o instrumento de sua escravização. Desse modo, a economia nos meios de trabalho leva consigo, desde o primeiro momento, o mais impiedoso desperdício da força de trabalho e a espoliação das condições normais da função mesma do trabalho. E a maquinaria, o recurso mais poderoso que se pôde criar para reduzir a jornada de trabalho, converte-se no mais infalível recurso para converter a vida inteira do operário e de sua família numa grande jornada disponível para a valorização do capital; ocorre, assim, que o excesso de trabalho de uns é a condição determinante da carência de trabalho de outros, e que a grande indústria, lançando-se pelo mundo inteiro, em desabalada carreira, à conquista de novos consumidores, reduz em sua própria casa o consumo das massas a um mínimo de fome e mina com isso o seu próprio mercado interno. “A lei que mantém constantemente o excesso relativo de população ou exército industrial de reserva em equilíbrio com o volume e a intensidade da acumulação do capital amarra o operário ao capital com ataduras mais fortes do que as cunhas com que Vulcano cravou Prometeu no rochedo. Isso dá origem a que a acumulação do capital corresponda a uma acumulação igual de miséria. A acumulação de riqueza em um dos polos determina no polo oposto, no polo da classe que produz o seu próprio produto como capital, uma acumulação igual de miséria, de tormentos de trabalho, de escravidão, de ignorância, de embrutecimento e de degradação moral.” (Marx, O Capital, t. 1, cap. XXIII) E esperar do modo capitalista de produção uma distribuição diferente dos produtos seria o mesmo que esperar que os dois eletrodos de uma bateria, enquanto conectados com ela, não decomponham a água nem engendrem oxigênio no polo positivo e hidrogênio no polo negativo.

Vimos que a capacidade de aperfeiçoamento da maquinaria moderna, levada a seu limite máximo, converte-se, em virtude da anarquia da produção dentro da sociedade num preceito imperativo que obriga os capitalistas industriais, cada qual por si, a melhorar incessantemente a sua maquinaria, a tornar sempre mais poderosa a sua força de produção. Não menos imperativo é o preceito em que se converte para ele a mera possibilidade efetiva de dilatar sua órbita de produção. A enorme força de expansão da grande indústria, a cujo lado a expansão dos gases é uma brincadeira de crianças, revela-se hoje diante de nossos olhos como uma necessidade qualitativa e quantitativa de expansão, que zomba de todos os obstáculos que se lhe deparam. Esses obstáculos são os que lhe opõem o consumo, a saída, os mercados de que os produtos da grande indústria necessitam. Mas a capacidade extensiva e intensiva de expansão dos mercados obedece, por sua vez, a leis muito diferentes e que atuam de uma maneira muito menos enérgica. A expansão dos mercados não podo desenvolver-se ao mesmo ritmo que a da produção. A colisão torna-se inevitável, e como é impossível qualquer solução senão fazendo-se saltar o próprio modo capitalista de produção, essa colisão torna-se periódica. A produção capitalista engendra um novo “círculo vicioso”.

Com efeito, desde 1825, ano em que estalou a primeira crise geral, não se passam dez anos seguidos sem que todo o mundo industrial e comercial, a distribuição e a troca de todos os povos civilizados e de seu séquito de países mais ou menos bárbaros, saia dos eixos. O comércio é paralisado, os mercados são saturados de mercadorias, os produtos apodrecem nos armazéns abarrotados, sem encontrar saída; o dinheiro torna-se invisível; o crédito desaparece; as fábricas param; as massas operárias carecem de meios de subsistência precisamente por tê-los produzido em excesso, as bancarrotas e falências se sucedem. O paradeiro dura anos inteiros, as forças produtivas e os produtos são malbaratados e destruídos em massa até que, por fim, os estoques de mercadorias acumuladas, mais ou menos depreciadas, encontram saída, e a produção e a troca se vão reanimando pouco a pouco. Paulatinamente, a marcha se acelera, a andadura converte-se em trote, o trote industrial em galope e, finalmente, em carreira desenfreada, num steeple-chase (12) da indústria, do comércio, do crédito, da especulação, para terminar, por fim, depois dos saltos mais arriscados, na fossa de um crack. E assim, sucessivamente. Cinco vezes repete-se a mesma história desde 1825, e presentemente (1877) estamos vivendo-a pela sexta vez. E o caráter dessas crises é tão nítido e tão marcante que Fourier as abrangia todas ao descrever a primeira, dizendo que era uma crise plétorique, uma crise nascida da superabundância.

Nas crises estala em explosões violentas a contradição entre a produção social e a apropriação capitalista. A circulação de mercadoria fica, por um momento, paralisada. O meio de circulação, o dinheiro, converte-se num obstáculo para a circulação; todas as leis da produção e da circulação das mercadorias viram pelo avesso. O conflito econômico atinge seu ponto culminante: o modo de produção rebela-se contra o modo de distribuição.

O fato de que a organização social da produção dentro das fábricas se tenha desenvolvido até chegar a um ponto em que passou a ser inconciliável com a anarquia – coexistente com ela e acima dela – da produção na sociedade é um rato que se revela palpavelmente aos próprios capitalistas pela concentração violenta dos capitais, produzida durante as crises à custa da ruína de numerosos grandes e, sobretudo, pequenos capitalistas. Todo o mecanismo do modo de produção falha, esgotado pelas forças produtivas que ele mesmo engendrou. Já não consegue transformar em capital essa massa de meios de produção, que permanecem inativos, e por isso precisamente deve permanecer também inativo o exército industrial de reserva. Meios de produção, meios de vida, operários em disponibilidade: todos os elementos da produção e da riqueza geral existem em excesso. Mas a “superabundância converte-se em fonte de miséria e de penúria” (Fourier), já que é ela, exatamente, que impede a transformação dos meios de produção e de vida em capital, pois na sociedade capitalista os meios de produção não podem pôr-se em movimento senão transformando-se previamente em capital, em meio de exploração da força humana de trabalho. Esse imprescindível caráter de capital dos meios de produção ergue-se como um espectro entre eles e a classe operária. É isso o que impede que se engrenem a alavanca material e a alavanca pessoal da produção; é o que não permite aos meios de produção funcionar nem aos operários trabalhar e viver. De um lado, o modo capitalista de produção revela, pois, sua própria incapacidade para continuar dirigindo suas forças produtivas. De outro lado, essas forças produtivas compelem com uma intensidade cada vez maior no sentido de que resolva a contradição, de que sejam redimidas de sua condição de capital, de que seja efetivamente reconhecido o seu caráter de forças produtivas sociais.

É essa rebelião das forças de produção, cada vez mais imponentes, contra a sua qualidade de capital, essa necessidade cada vez mais imperiosa de que se reconheça o seu caráter social, que obriga a própria classe capitalista a considerá-las cada vez mais abertamente como forças produtivas sociais, na medida em que é possível dentro das relações capitalistas. Tanto os períodos de elevada pressão industrial, com sua desmedida expansão do crédito, como o próprio crack, com o desmoronamento de grandes empresas capitalistas, estimulam essa forma de socialização de grandes massas de meios de produção que encontramos nas diferentes categorias de sociedades anônimas. Alguns desses meios de produção e de comunicação já são por si tão gigantescos que excluem, como ocorre com as ferrovias, qualquer outra forma de exploração capitalista. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento já não basta tampouco essa forma; os grandes produtores nacionais de um ramo Industrial unem-se para formar um truste, um consórcio destinado a regular a produção; determinam a quantidade total que deve ser produzida, dividem-na entre eles e impõem, desse modo, um preço de venda de antemão fixado. Como, porém, esses trustes se desmoronam ao sobrevirem os primeiros ventos maus nos negócios, conduzem com isso a uma socialização ainda mais concentrada; todo o ramo industrial converte-se numa única grande sociedade anônima, e a concorrência interna dá lugar ao monopólio interno dessa sociedade única; assim aconteceu já em 1890 com a produção inglesa de álcalis, que na atualidade, depois da fusão de todas as quarenta e oito grandes fábricas do país, é explorada por uma só sociedade com direção única e um capital de 120 milhões de marcos.

Nos trustes, a livre concorrência transforma-se em monopólio e a produção sem plano da sociedade capitalista capitula ante a produção planificada e organizada da nascente sociedade socialista. É claro que, no momento, em proveito e benefício dos capitalistas. Mas aqui a exploração torna-se tão patente, que tem forçosamente de ser derrubada. Nenhum povo toleraria uma produção dirigida pelos trustes, uma exploração tão descarada da coletividade por uma pequena quadrilha de cortadores de cupões.

De um modo ou de outro, com ou sem trustes, o representante oficial da sociedade capitalista, o Estado, tem que acabar tomando a seu cargo o comando da produção (13) A necessidade a que corresponde essa transformação de certas empresas em propriedade do Estado começa a manifestar-se nas grandes empresas de transportes e comunicações, tais como o correio, o telégrafo e as ferrovias.

Além da incapacidade da burguesia para continuar dirigindo as forças produtivas modernas que as crises revelam, a transformação das grandes empresas de produção e transporte em sociedades anônimas, trustes e em propriedade do’ Estado demonstra que a burguesia já não é indispensável para o desempenho dessas funções. Hoje, as funções sociais do capitalista estão todas a cargo de empregados assalariados, e toda a atividade social do capitalista se reduz a cobrar suas rendas, cortar seus cupões e jogar na bolsa, onde os capitalistas de toda espécie arrebatam, uns aos outro, os seus capitais. E se antes o modo capitalista de produção deslocava os operários, agora desloca também os capitalistas, lançando-os, do mesmo modo que aos operários, entre a população excedente; embora, por enquanto ainda não no exército industrial de reserva.

Mas as forças produtivas não perdem sua condição de capital ao converter-se em propriedade das sociedades anônimas e dos trustes ou em propriedade do Estado. No que se refere aos trustes e sociedades anônimas, é palpavelmente claro. Por sua parte, o Estado moderno não é tampouco mais que uma organização criada pela sociedade burguesa para defender as condições exteriores gerais do modo capitalista de produção contra os atentados, tanto dos operários como dos capitalistas isolados. O Estado moderno, qualquer que seja a sua forma, é uma máquina essencialmente capitalista, é o Estado dos capitalistas, o capitalista coletivo Ideal. E quanto mais forças produtivas passe à sua propriedade tanto mais se converterá em capitalista coletivo e tanto maior quantidade de cidadãos explorará. Os operários continuam sendo operários assalariados, proletários. A relação capitalista, longe de ser abolida com essas medidas, se aguça. Mas, ao chegar ao cume, esboroa-se. A propriedade do Estado sobre as forças produtivas não é solução do conflito, mas abriga já em seu seio o meio formal, o instrumento para chegar à solução.

Essa solução só pode residir em ser reconhecido de um modo efetivo o caráter social das forças produtivas modernas e, portanto, em harmonizar o modo de produção, de apropriação e de troca com o caráter social dos meios de produção. Para isso, não há senão um caminho: que a sociedade, abertamente e sem rodeios, tome posse dessas forças produtivas, que já não admitem outra direção a não ser a sua. Assim procedendo, o caráter social dos meios de produção e dos produtos, que hoje se volta contra os próprios produtores, rompendo periodicamente as fronteiras do modo de produção e de troca, e só pode impor-se com uma força e eficácia tão destruidoras como o impulso cego das leis naturais, será posto em vigor com plena consciência pelos produtores e se converterá, de causa constante de perturbações e cataclismas periódicos, na alavanca mais poderosa da própria produção.

As forças ativas da sociedade atuam, enquanto não as conhecemos e contamos com elas, exatamente como as forças da natureza: de modo cego violento e destruidor. Mas, uma vez conhecidas, logo que se saiba compreender sua ação, suas tendências e seus efeitos, está em nossas mãos o sujeitá-las cada vez mais à nossa vontade e, por meio delas, alcançar os fins propostos. Tal é o que ocorre, muito especialmente, com as gigantescas forças modernas da produção. Enquanto resistirmos obstinadamente a compreender sua natureza e seu caráter – e a essa compreensão se opõem o modo capitalista de produção e seus defensores -, essas forças atuarão apesar de nós, e nos dominarão, como bem ressaltamos. Em troca, assim que penetramos em sua natureza, essas forças, postas em mãos dos produtores associados, se converterão de tiranos demoníacos em servas submissas. É a mesma diferença que há entre o poder maléfico da eletricidade nos raios da tempestade e o poder benéfico da força elétrica dominada no telégrafo e no arco voltaico; a diferença que há entre o fogo destruidor e o fogo posto a serviço do homem. O dia em que as forças produtivas da sociedade moderna se submeterem ao regime congruente com a sua natureza por fim conhecida, a anarquia social da produção deixará o seu posto à regulamentação coletiva e organizada da produção, de acordo com as necessidades da sociedade e do indivíduo. E o regime capitalista de apropriação, em que o produto escraviza primeiro quem o cria e, em seguida, a quem dele se apropria, será substituído pelo regime de apropriação do produto que o caráter dos modernos meios de produção está reclamando: de um lado, apropriação diretamente social, como meio para manter e ampliar a produção; de outro lado, apropriação diretamente individual, como meio de vida e de proveito.

O modo capitalista de produção, ao converter mais e mais em proletários a imensa maioria dos indivíduos de cada pais, cria a força que, se não quiser perecer, está obrigada a fazer essa revolução. E, ao forçar cada vez mais a conversão dos grandes meios socializados de produção em propriedade do Estado, já indica por si mesmo o caminho pelo qual deve produzir-se essa revolução. O proletariado toma em suas mãos o Poder do Estado e principia por converter os meios de produção em propriedade do Estado. Mas, nesse mesmo ato, destrói-se a si próprio como proletariado, destruindo toda diferença e todo antagonismo de classes, e com isso o Estado como tal. A sociedade, que se movera até então entre antagonismos de classe, precisou do Estado, ou seja, de uma organização da classe exploradora correspondente para manter as condições externas de produção e, portanto, particularmente, para manter pela força a classe explorada nas condições de opressão (a escravidão, a servidão ou a vassalagem e o trabalho assalariado), determinadas pelo modo de produção existente. O Estado era o representante oficial de toda a sociedade, sua síntese num corpo social visível; mas o era só como Estado que, em sua época, representava toda a sociedade: na antiguidade era o Estado dos cidadãos escravistas, na Idade Média o da nobreza feudal; em nossos tempos, da burguesia.
Quando o Estado se converter, finalmente, em representante efetivo de toda a sociedade, tornar-se-á por si mesmo supérfluo. Quando já não existir nenhuma classe social que precise ser submetida; quando desaparecerem, juntamente com a dominação de classe, juntamente com a luta pela existência individual, engendrada pela atual anarquia da produção, os choques e os excessos resultantes dessa luta, nada mais haverá para reprimir, nem haverá necessidade, portanto, dessa força especial de repressão que é o Estado.

O primeiro ato em que o Estado se manifesta efetivamente como representante de toda a sociedade – a posse dos meios de produção em nome da sociedade – é ao mesmo tempo o seu último ato independente como Estado. A intervenção da autoridade do Estado nas relações sociais tornar-se-á supérflua num campo após outro da vida social e cessará por si mesma. O governo sobre as pessoas é substituído pela administração das coisas e pela direção dos processos de produção. O Estado não será “abolido”, extingue-se. É partindo daí que se pode julgar o valor do falado “Estado popular livre” no que diz respeito à sua justificação provisória como palavra de ordem de agitação e no que se refere à sua falta de fundamento científico. É também partindo daí que deve ser considerada a exigência dos chamados anarquistas de que o Estado seja abolido da noite para o dia.

Desde que existe historicamente o modo capitalista de produção, houve indivíduos e seitas inteiras diante dos quais se projetou mais ou menos vagamente, como ideal futuro, a apropriação de todos os meios de produção pela sociedade. Mas, para que isso fosse realizável, para que se convertesse numa necessidade histórica, fazia-se preciso que se dessem antes as condições efetivas para a sua realização. A fim de que esse progresso, como todos os progressos sociais, seja viável, não basta ser compreendido pela razão que a existência de classes é incompatível com os ditames da justiça, da Igualdade, etc.; não basta a simples vontade de abolir essas classes – mas são necessárias determinadas condições econômicas novas. A divisão da sociedade em uma classe exploradora e outra explorada, em uma classe dominante e outra oprimida, era uma consequência necessária do anterior desenvolvimento incipiente da produção. Enquanto o trabalho global da sociedade der apenas o estritamente necessário para cobrir as necessidades mais elementares de todos, e talvez um pouco mais; enquanto, por isso, o trabalho absorver todo’ o tempo, ou quase todo o tempo, da imensa maioria dos membros da sociedade, esta se divide, necessariamente, em classes. Junto à grande maioria constrangida a não fazer outra coisa senão suportar a carga do trabalho, forma-se uma classe que se exime do trabalho diretamente produtivo e a cujo cargo’ correm os assuntos gerais da sociedade: a direção dos trabalhos, os negócios públicos, a justiça, as ciências, as artes, etc. É, pois, a lei da divisão do trabalho que serve de base à divisão da sociedade em classes. O que não impede que essa divisão da sociedade em classes se realize por meio da violência e a espoliação, a astúcia e o logro; nem quer dizer que a classe dominante, uma vez entronizada, se abstenha de consolidar o seu poderio à custa da classe trabalhadora, transformando seu papel social de direção numa maior exploração das massas.

Vemos, pois, que a divisão da sociedade em classes tem sua razão histórica de ser, mas só dentro de determinados limites de tempo, sob determinadas condições sociais. Era condicionada pela insuficiência da produção, e será varrida quando se desenvolverem plenamente as modernas forças produtivas. Com efeito, a abolição das classes sociais pressupõe um grau histórico de desenvolvimento tal que a existência, já não dessa ou daquela classe dominante concreta, mas de uma classe dominante qualquer que seja ela, e, portanto, das próprias diferenças de classe representa um anacronismo. Pressupõe, por conseguinte, um grau culminante no desen~o1vi-mento da produção em que a apropriação dos meios de produção e dos produtos e, portanto, do poder político, do monopólio da cultura e da direção espiritual por uma determinada classe da sociedade, não só se tornou de fato supérfluo, mas constitui econômica, política e intelectualmente uma barreira levantada ante o progresso. Pois bem, já se chegou a esse ponto. Hoje, a bancarrota política e intelectual da burguesia não é mais um segredo nem para ela mesma e sua bancarrota econômica é um fenômeno que se repete periodicamente de dez em dez anos. Em cada uma dessas crises a sociedade se asfixia, afogada pela massa de suas próprias forças produtivas e de seus produtos, aos quais não pode aproveitar e, impotente, vê-se diante da absurda contradição de que os seus produtores não tenham o que consumir, por falta precisamente de consumidores. A força expansiva dos meios de produção rompe as ataduras com que são submetidos pelo modo capitalista de produção, Só essa libertação dos meios de produção é que pode permitir o desenvolvimento ininterrupto e cada vez mais rápido das forças produtivas e, com isso, o crescimento praticamente ilimitado da produção. Mas não- é apenas isso. A apropriação social dos meios de produção não só elimina os obstáculos artificiais hoje antepostos à produção, mas põe termo também ao desperdício e à devastação das forças produtivas e dos produtos, uma das consequências inevitáveis da produção atual e que alcança seu ponto culminante durante as crises. Ademais, acabando-se com o parvo desperdício do luxo das classes dominantes e seus representantes políticos, será posta em circulação para a coletividade toda uma massa de meios de produção e de produtos. Pela primeira vez, surge agora, e surge de um modo efetivo, a possibilidade de assegurar a todos os membros da sociedade, através de um sistema de produção social, uma existência que, além de satisfazer plenamente e ceda dia mais abundantemente suas necessidades materiais, lhes assegura o livre e completo desenvolvimento e exercício de suas capacidades físicas e intelectuais (14).

Ao apossar-se a sociedade dos meios de produção cessa a produção de mercadorias e, com ela, o domínio do produto sobre os produtores. A anarquia reinante no seio da produção social cede o lugar a uma organização planejada e consciente. Cessa a luta pela existência individual e, assim, em certo sentido, o homem sal definitivamente do reino animal e se sobrepõe às condições animais de existência, para submeter-se a condições de vida verdadeiramente humanas. As condições que cerca o homem e até agora o dominam, colocam-se, a partir desse instante, sob seu domínio e seu comando e o homem, ao tomar-se dono e senhor de suas próprias relações sociais, converte-se pela primeira vez em senhor consciente e efetivo da natureza. As leis de sua própria atividade social, que até agora se erguiam frente ao homem como leis naturais, como poderes estranhos que o submetiam a seu império, são agora aplicadas por ele com pleno conhecimento de causa e, portanto, submetidas a seu poderio. A própria existência social do homem, que até aqui era enfrentada como algo imposto pela natureza e a história, é de agora em diante obra livre sua. Os poderes objetivos e estranhos que até aqui vinham imperando na história colocam-se sob o controle do próprio homem. Só a partir de então, ele começa a traçar a sua história com plena consciência do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em ação por ele começam a produzir predominantemente, e cada vez em maior medida, os efeitos desejados. É o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade.

***



Resumamos, brevemente, para terminar, nossa trajetória de desenvolvimento:

1. – Sociedade medieval: Pequena produção Individual. Meios de produção adaptados ao uso individual e, portanto, primitivos, torpes, mesquinhos, de eficácia mínima. Produção para o consumo imediato, seja do próprio produtor, seja de seu senhor feudal. Só nos casos em que fica um excedente de produtos, depois de ser coberto aquele consumo, é posto à venda e lançado no mercado esse excedente. Portanto, a produção de mercadorias acha-se ainda em seus albores, mas já encerra, em potencial, a anarquia da produção social

2. – Revolução capitalista: Transformação da indústria, iniciada por meio da cooperação simples e da manufatura. Concentração dos meios de produção, até então dispersos, em grandes oficinas, com o que se convertem de meios de produção do indivíduo em meios de produção sociais, metamorfose que não afeta, em geral, a forma de troca. Ficam de pé as velhas formas de apropriação.

 Aparece o capitalista: em sua qualidade de proprietário dos meios de produção, apropria-se também dos produtos e os converte em mercadorias. A produção transforma-se num ato social; a troca e, com ela, a apropriação continuam sendo atos individuais: o produto social é apropriado pelo capitalista individual. Contradição fundamental, da qual se derivam todas as contradições em que se move a sociedade atual e que a grande indústria evidencia claramente:

A. Divórcio do produtor com os meios de produção. Condenação do operário a ser assalariado por toda a vida. Antítese de burguesia e proletariado.

B. Relevo crescente e eficácia acentuada das leis que presidem a produção de mercadorias. Concorrência desenfreada. Contradição entre a organização social dentro de cada fábrica e a anarquia social na produção total.

C. De um lado, aperfeiçoamento da maquinaria, que a concorrência transforma num preceito imperativo para cada fabricante e que equivale a um afastamento cada dia maior de operários: exército industrial de reserva. De outro lado, extensão ilimitada da produção, que a concorrência impõe também como norma incoercível a todos os fabricantes. De ambos os lados, um desenvolvimento inaudito das forças produtivas, excesso da oferta sobre a procura, superprodução, abarrotamento dos mercados, crise cada dez anos, círculo vicioso: superabundância, aqui, de meios de produção e de produtos e, ali, de operários sem trabalho e sem meios de vida. Mas essas duas alavancas da produção e do bem-estar social não podem combinar-se, porque a forma capitalista da produção impede que as forças produtivas atuem e os produtos circulem, a não ser que se convertam previamente em capital, o que lhes é vedado precisamente por sua própria superabundância. A contradição se aguça até converter-se em contrassenso: o modo de produção revolta-se contra a forma de troca. A burguesia revela-se incapaz para continuar dirigindo suas próprias forças sociais produtivas.

D. Reconhecimento parcial do caráter social das forças produtivas, arrancado aos próprios capitalistas. Apropriação dos grandes organismos de produção e de transporte, primeiro por sociedades anônimas, em seguida pelos trustes, e mais tarde pelo Estado. A burguesia revela-se uma classe supérflua; todas as suas funções sociais são executadas agora por empregados assalariados.

3. – Revolução proletária, solução das contradições: o proletariado toma o poder político e, por meio dele, converte em propriedade pública os meios sociais de produção, que escapam das mãos da burguesia. Com esse ato redime os meios de produção da condição de capital, que tinham até então, e dá a seu caráter social plena liberdade para Impor-se, A partir de agora já é possível uma produção social segundo um plano previamente elaborado. O desenvolvimento da produção transforma num anacronismo a sobrevivência de classes sociais diversas. À medida que desaparece a anarquia da produção social, vai diluindo-se também a autoridade política do Estado. Os homens, donos por fim de sua própria existência social, tornam-se senhores da natureza, senhores de si mesmos, homens livres.

A realização desse ato, que redimirá o mundo, é a missão histórica do proletariado moderno. E o socialismo científico, expressão teórica do movimento proletário, destina-se a pesquisar as condições históricas e, com isso, a natureza mesma desse ato, infundindo assim à classe chamada a fazer essa revolução, à classe hoje oprimida, a consciência das condições e da natureza de sua própria ação.

FONTE: Marxist.org


NOTAS:

(1) É a seguinte a passagem de Hegel referente à Revolução Francesa: “A Idéia, o conceito de direito, fez-se valer de chofre, sem que lhe pudesse opor qualquer resistência a velha armação da Injustiça. Sobre a idéia do direito baseou-se agora, portanto, uma Constituição, e sobre esse fundamento deve basear-se tudo mais no futuro. Desde que o Sol ilumina o firmamento e os planetas giram em torno daquele ninguém havia percebido que o homem se ergue sobre a cabeça, isto é, sobre a idéia, construindo de acordo com ela a realidade. Anaxágoras foi o primeiro a dizer que o nus, a razão, governa o mundo: mas só agora o homem acabou de compreender que o pensamento deve governar a realidade espiritual. Era, pois, uma esplêndida aurora Todos os seres pensantes celebraram a nova época. Uma sublime emoção reinava naquela época a um entusiasmo do espirito) abalava o mundo, como se pela primeira vez se conseguisse a reconciliação do mundo com a divindade”. Hegel Philosophie der Geschichte. 1840, pág. 535) [Hegel, Filosofia da História, 1840 pág. 535]. Não terá chegado o momento de aplicar a essas doutrinas subversivas e atentatórias à sociedade, do finado professor Hegel, a lei contra os socialistas? (Nota de Engels) 

(2) Leveller (niveladores): nome que se dava aos elementos plebeus da cidade e do campo que durante a revolução de 1648 apresentavam na Inglaterra as reivindicações democráticas mais radicais. (N. da E.) 

(3) Engels refere-se aqui às obras dos representantes do comunismo utópico Tomas Morus (século XVI) e Campanella (Século XVII). (N. da R.) 

(4) “Direito de pernadas: direito que tinha o senhor feudal à primeira noite com as nubentes do seu feudo. (N. da Ed. Bras.) 

(5) De The Revolution In Mind and Practice [A Revolução no Espírito e na Prática, um memorial dirigido a todos os republicanos vermelhos. comunistas e socialistas da Europa”, e enviado ao governo provisório francês de 1848. mas também “à rainha Vitória e seus conselheiros responsáveis”. (Nota de Engels) 

(6) O período alexandrino de desenvolvimento da ciência abrange desde o século III antes de nossa era até o século VII de nossa era, recebendo o seu nome da cidade de Alexandria, no Egito, um dos mais importantes centros das relações econôm1ca internacionais daquela época. No período alexandrino adquiriram grande desenvolvimento várias ciências: as matemáticas (com Euclides e Arquimedes), a geografia, a astronomia, a anatomia, a fisiologia, etc. (N. da R.)

(7) Palavras de Mefistófeles em Fausto de Goethe. (N. da R. ) 

(8) Não precisamos explicar que, ainda quando a forma de apropriação permaneça invariável, o caráter da apropriação sofre uma revolução pelo processo que descrevemos, em não menor grau que a própria produção. A apropriação de um produto próprio e a apropriação de um produto alheio são, evidentemente, duas formas muito diferentes de apropriação. E advertimos de passagem que o trabalho assalariado, no qual se contém já o germe de todo o modo capitalista de produção, é muito antigo; coexistiu durante séculos inteiros, em casos isolados e dispersos, com a escravidão. Contudo, esse germe só pode desenvolver-se até formar o modo capitalista de produção quando surgiram as premissas históricas adequadas. (Nota de Engels) 

(9) Mesnada: tropas mercenárias que serviam aos senhores feudais nas guerras. (N. da Ed. Bras.) 

(10) Trata-se das guerras travadas entre Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra pela posse do comércio com a Índia e a América e a colonização desses continentes. Dessas guerras saiu vencedora a Inglaterra, que teve em suas mãos, até os fina do século XVIII, o domínio do comércio mundial. (N.da Ed. Bras.) 

(11) A Situação da Classe Operária na Inglaterra, pág. 109. (Nota de Engels) 

(12) Corrida de obstáculos. N da R.) 

(13) E digo que tem de tomar a seu cargo, pois a nacionalização só representará um progresso econômico, um passo adiante para a conquista pela sociedade de todas as forças produtivas, embora essa medida seja levada a cabo pelo Estado atual, quando os meios de produção ou de transporte superarem já efetivamente os marcos diretores de urna sociedade anônima, quando, portanto, a medida da nacionalização já for economicamente inevitável. Contudo, recentemente, desde que Bismarck empreendeu o caminho da nacionalização, surgiu uma espécie ~e falso socialismo, que degenera de quando em vez num tipo especial de socialismo, submisso e servil, que em todo ato de nacionalização, mesmo nos adotados por Bismarck, vã uma medida socialista. Se a nacionalização da indústria do fumo fosse socialismo, seria necessário inclui, Napoleão e Metternich entre os fundadores do socialismo. Quando o Estado belga, por motivos políticos e financeiros perfeitamente vulgares decidiu construir por sua conta as principais linhas térreas do pais, eu quando Bismarck, sem que nenhuma necessidade econômica o levasse a isso, nacionalizou as linhas mais importantes da rede ferroviária da Prússia, pura e simplesmente para assim poder manejá-las e aproveitá-las melhor em caso de guerra, para converter o pessoal das ferrovias em gado eleitoral submisso ao Governo e, sobretudo, para encontrar uma nova fonte de rendas isenta de fiscalização pelo Parlamento, todas essas medidas não tinham, nem direta nem Indiretamente, nem consciente nem inconscientemente, nada de socialistas. De outro modo, seria necessário também classificar entre as instituições socialistas a Real Companhia de Comércio Marítimo, a Real Manufatura de Porcelanas e até os alfaiates do exército, sem esquecer a nacionalização dos prostíbulos, proposta muito seriamente, ai por volta do ano 34, sob Frederico Guilherme III, por um homem muito esperto (Nota de Engels) 

(14) Algumas cifras darão ao leitor uma noção aproximada da enorme força expansiva que, mesmo sob a pressão capitalista, os modernos meios de produção desenvolvem. Segundo os cálculos de Giffen, a riqueza global da Grã Bretanha e Irlanda ascendia, em números redondos, a 1814 -. . – 2 200 milhões de libras esterlinas – 44 000 milhões de marcos 1865 – – – – 6 100 milhões de libras esterlinas – 122 000 milhões de marcos 1875 . . – – 8 500 milhões de libras esterlinas — 170 000 milhões de marcos Para dar uma idéia do que representa a dilapidação dos meios de produção e de produtos desperdiçados durante a crise, direi que no segundo congresso dos industriais alemães, realizado em Berlim, em 21 de fevereiro de 1878, calculou-se em 455 milhões de marcos as perdas globais representadas pelo último crack, somente para a indústria siderúrgica alemã. (Nota de Engels)